sexta-feira, 20 de março de 2009

Carteira de identidade . Mahmoud Darwish

Carteira de identidade


Mahmoud Darwish


Registra-me!
Sou árabe
número de minha identidade é cinqüenta mil
tenho oito filhos
e o nono... virá logo depois do verão!
Vais te irritar por acaso?
Registra-me!
Sou árabe
trabalho com meus companheiros de luta
em uma pedreira
tenho oito filhos
arranco pedras
o pão, as roupas, os cadernos
e não venho mendigar em tua porta
e não me dobro
diante das lajes de teu umbral
vais te irritar por acaso?


Registra-me!
Sou árabe
meu nome é muito comum
e sou paciente
em um país que ferve de cólera
minhas raízes...
fixadas antes do nascimento dos tempos
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e oliveiras
antes do crescimento vegetal
meu pai... da família do arado
e não dos senhores do Nujub
e meu avô era camponês
sem árvore genealógica
minha casa
uma cabana de guarda
de canas e ramagens
satisfeito com minha condição
meu nome é muito comum


Registra-me
sou árabe
sou árabe
cabelos... negros
olhos... castanhos
sinais particulares
um keffiah e uma faixa na cabeça
as palmas ásperas como rochas
arranharam as mãos que estreitam
e amo acima de tudo
o azeite de oliva e o tomilho
meu endereço
sou de um povoado perdido... esquecido
de ruas sem nome
e todos os seus homens... no campo e na pedreira
amam o comunismo
vais te irritar por acaso?


Registra-me
sou árabe
tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados
e da terra que cultivava
com meus filhos
e não os deixastes
nem a nossos descendentes
mais que estes seixos
que nosso governo tomará também
como se diz
vamos!
Escreve
bem no alto da primeira página
que não odeio os homens
que eu não agrido ninguém
mas... se me esfomeiam
como a carne de quem me despoja
e cuidado...cuida-te
de minha fome
e minha cólera.

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in Vermelho (PCCdoB)


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quinta-feira, 19 de março de 2009

O AMOR EM VISITA - Herberto Helder

* Herberto Helder



Começa o tempo onde a mulher começa,

é sua carne que do minuto obscuro e morto

se devolve à luz.

Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras

com uma imagem.

Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito

de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade

uma ideia de pedra e de brancura.

És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,

que te alimentas de desejos puros.

E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,

a sombra canta baixo.



Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,

onde a beleza que transportas como um peso árduo

se quebra em glória junto ao meu flanco

martirizado e vivo.

- Para consagração da noite erguerei um violino,

beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada

darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria dos instintos, dom de inocência,

taça para beber junto à perturbada intimidade

em que me acolhes.



Começa o tempo na insuportável ternura

com que te adivinho, o tempo onde

a vária dor envolve o barro e a estrela, onde

o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida

ingénua e cara, o que pressente o coração

engasta seu contorno de lume ao longe.

Bom será o tempo, bom será o espírito,

boa será nossa carne presa e morosa.

- Começa o tempo onde se une a vida

à nossa gratidão.
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HERBERTO HELDER
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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O POETA NO CAFÉ DE PROVÍNCIA - Saul Dias

O POETA NO CAFÉ DE PROVÍNCIA

O poeta dormita ao fundo do café,

um pobre café de província.

Envelhecido,

os cabelos grisalhos

pendem-lhe sobre os olhos

que se fecham

a essa hora adiantada da noite.





No entanto,

os seus olhos

descortinam, lá longe,

uma paisagem

tão diferente daquilo que o rodeia!...





É abril!

Pequeninos ramos,

viçosos,

espreitam pelos muros.





Corre um ventinho ligeiro,

alvoroçando as ervas dos caminhos.

E os pássaros,

os eternos cantores

dos jardins, das florestas,

ensaiam

complicados motivos...





Corre um ventinho ligeiro,

bem diferente do vento dessa noite,

a hora em que o criado

corre os taipais do café,

olhando de soslaio o freguês retardatário, sonolento...





II

Um fogacho, um lampejo

vale a pena provocá-los?

vale a pena estender os lábios para um beijo

inútil, que não gera?

Vale a pena estar à espera

não se sabe de quê,

sentindo frio, frio? ...





A mesa do café

o poeta escreve versos,

versos desmesuradamente compridos,

desmesuradamente sentidos,

estilísticamente certos ou incertos,

com rima ou sem rima (tanto faz ...)





— Eh, rapaz!

Um cálice de absinto

para imitar Verlaine e os poetas malditos.





(Mas cautelosamente...

Aqui não se toleram mitos!

Há ladrões! Fechem as casas!)





E a monotonia a armar o andaime...





— Vá, asas,

élitros

de insetos, pássaros ou anjos,

esvoaçai,

palpitai,

acordai-me!

SAUL DIAS
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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Os erros - Sophia de Mello Breyner

OS ERROS

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN
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Enviado por Moranguinho Prereira (hi5)
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terça-feira, 17 de março de 2009

OBSESSÃO - Francisco Bugalho

OBSESSÃO

Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.

Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...

Sobre um lago, onde em sossego
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.

FRANCISCO BUGALHO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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ALEGRIA - Fernanda de Castro

ALEGRIA

De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,
de pequenas traições
que achei no meu caminho...,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

duma nova amargura...
De cada crueldade
que pôs de luto a minha mocidade...
De cada injusta pena
que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte...
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!
Volúpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,
feliz ou infeliz
mas bem presa à raíz.

Volúpia de sentir na minha mão,
a côdea do meu pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte
é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir
o tédio,

Esse estranho cilício,
e de entregar-me à vida como a
um vício.

Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me em cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!

FERNANDA DE CASTRO
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Enviado por Moranguino Pereira (hi5)
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UM PÁSSARO A MORRER - Fernanda de Castro

UM PÁSSARO A MORRER

Não é vida nem morte, é uma passagem,
nem antes nem depois: somente agora,
um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneira de mim, onde a coragem
de quebrar as algemas, ir-me embora,
se tudo o que em mim ria agora chora,
se já não me seduz outra viagem?

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha mão,

sem um búzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

FERNANDA DE CASTRO
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nviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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segunda-feira, 16 de março de 2009

SE TUDO QUANTO EXISTE... - Fernanda de Castro

SE TUDO QUANTO EXISTE...

Se tudo quanto existe
é lenta evolução,
longa transformação
sem Deus e sem mistério;
se tudo no Universo tem sentido
sem o sopro divino;
se o segredo da vida, a criação,
se explica pela ciência,
e a corrente vital
é também consequência;
se a humana consciência
é simples equação...
— que significa a vocação do eterno,
que quer dizer a aspiração do Céu
e o terror do inferno?

E se acaso é o instinto a lei da vida,
se a verdade
é só necessidade
inexorável, lenta, laboriosa,

que sábia explicação
tem esta frágil, esta inútil rosa?

FERNANDA DE CASTRO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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domingo, 15 de março de 2009

IMPERFEIÇÃO - Alfredo Brochado

IMPERFEIÇÃO

Sou eu poeta? Às vezes, penso e digo,
Não sou poeta, não.
Não sou poeta porque não consigo
Vencer o que em mim há de imperfeição.

Sou eu poeta? E muitas vezes penso
E sinto que o não sou.
Ser poeta é ter um voo mais extenso,
É ter um outro voo.

Sou eu poeta? Às vezes isso mesmo
Me custa acreditar.
Que ser poeta é amar a vida inteira, a esmo,
E infelizmente eu não a posso amar.

Sou eu poeta? Um vento de sol-posto
Passa junto a mim, numa vertigem.
E como o vento eu sofro de um desgosto
De que não sei nem saberei a origem.

Mas ser poeta é qualquer coisa mais.
É ter sublimes adivinhações.
É ser, tal como são os imortais,
Da estirpe de Camões.

ALFREDO BROCHADO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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Sobre Alfredo Brochado (biografia) numa pesquisa com o Google encontrei apenas duas breves referências:

http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Alfredo_Brochado&op=7&author=21237

http://pt.wikipedia.org/wiki/Am%C3%A9rico_Cortez_Pinto

Victor Nogueira


INTERROGAÇÃO - Alfredo Brochado

INTERROGAÇÃO

Onde é que está essa mulher fadada,
Que o meu sonho criou num desvario,
Acaso existe, acaso foi criada,
Ou vive apenas porque eu a crio?

Onde é que vive essa mulher sonhada,
Da minha mesa o vinho e o loiro trigo,
Acaso morta jaz desfeita em nada?
Acaso, assim, há-de vir ter comigo?

Onde é que existe essa mulher que um dia
Eu me pus a chamar e não me ouviu,
Onde é que passa oculta a sua vida,
Acaso nunca essa mulher me viu?

Acaso, às vezes penso, essa mulher
Traz em sua alma algum poder oculto,
Para que nunca, ou uma vez sequer,
Caísse em mim a sombra do seu vulto?

Acaso nunca essa mulher que eu sonho,
Há-de vir abraçar-se ao meu desejo,
Pondo em mim esse amor que nela eu ponho,
Acaso nunca me dará um beijo?

Acaso nunca essa mulher que eu amo,
Como se pode amar com mais loucura,
Há-de vir até mim quando eu a chamo,
Para me dar um pouco de ternura?

Acaso nunca essa mulher dilecta
Enxugará meus olhos ao sol-pôr,
E trará ao meu sonho de poeta
Um bocadinho do seu grande amor?

Acaso nunca essa mulher que é alma,
Há-de trazer ao meu viver incerto
Um quase nada de ternura e calma,
Para que eu veja Deus já de mais perto?

Acaso nunca essa mulher essência,
Perfeita como as santas dos vitrais,
Há-de vir embalar minha existência?
Acaso nunca ela há-de vir, Jamais?

ALFREDO BROCHADO
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enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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sábado, 14 de março de 2009

NÃO FORA O MAR! - Fernanda de Castro

NÃO FORA O MAR!

Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

FERNANDA DE CASTRO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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Paz - Natália Correia

PAZ

Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.

Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.

Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.

NATÁLIA CORREIA
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sexta-feira, 13 de março de 2009

ONDE O HOMEM NÃO CHEGA - Fernanda de Castro

ONDE O HOMEM NÃO CHEGA

Onde o Homem não chega tudo é puro,
dessa pureza da primeira infância.
Tudo é medida, ritmo, concordância,
tudo é claro e auroral: a noite, o escuro.

E nem o vendaval é dissonância
mas promessa de sol e de futuro.
Quem levantou esse primeiro Muro
que do perto fez longe, ergueu distância?

Foi o Homem, com suas mãos de barro,
com suas mãos perjuras, fel e sarro
de inútil sofrimento e vil prazer.

Não é tarde, porém: sacode a lama,
ergue o facho, levanta a Deus a chama
e recomeça: acabas de nascer.

FERNANDA DE CASTRO
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JÁ NÃO VIVI, SÓ PENSO - Fernanda de Castro

JÁ NÃO VIVI, SÓ PENSO

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

FERNANDA DE CASTRO
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Enviada por Moranguinho Pereira (hi5)
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quinta-feira, 12 de março de 2009

OS JUSTOS - Jorge Luís Borges

OS JUSTOS

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

JORGE LUIS BORGES
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quarta-feira, 11 de março de 2009

RAINY DAY WOMAN - Bob Dylan

RAINY DAY WOMAN #12 & 35

“Well, they'll stone ya when you're trying to be so good.
They'll stone ya just a-like they said they would.
They'll stone ya when you're tryin' to go home
Then they'll stone ya when you're there all alone,
But I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

Well, they'll stone ya when you're walkin' ‘long the street.
They'll stone ya when you're tryin' to keep your seat.
They'll stone ya when you're walkin' on the floor.
They'll stone ya when you're walkin' to the door,
But I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

They'll stone ya when you're at the breakfast table.
They'll stone ya when you're young and able.
They'll stone ya when you're tryin' to make a buck.
They'll stone ya and then they'll say "good luck,"
Tell ya what, I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

Well, they'll stone you and say that it's the end
Then they'll stone you and then they'll come back again.
They'll stone you when you're riding in your car.
They'll stone you when you're playing your guitar.
Yes, but I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.

Well, they'll stone you when you walk all alone.
They'll stone you when you are walking home.
They'll stone you and then say you are brave.
They'll stone you when you are set down in your grave,
But I would not feel so all alone.
Everybody must get stoned.”

Bob Dylan

Tradução de Angelina Barbosa e Pedro Serrano:

MULHERES DE TEMPOS DIFÍCEIS N.º 12 & 35

“Bem, vão apedrejar-te quando estiveres a tentar portar-te bem.
Vão apedrejar-te exactamente como disseram que o fariam.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tentar ir para casa.
Depois vão apedrejar-te quando estiveres lá completamente só
Mas eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te quando estiveres a andar pela rua.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tentar guardar o teu lugar.
Vão apedrejar-te quando estiveres a andar dentro de casa
Vão apedrejar-te quando estiveres a dirigir-te para a porta,
Mas eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te quando estiveres à mesa do pequeno-almoço.
Vão apedrejar-te quando fores jovem e capaz.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tentar ganhar uns cobres.
Vão apedrejar-te e depois dirão "boa sorte".
Vou-te dizer, eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te e dizer que é o fim
Então vão apedrejar-te e depois voltarão outra vez.
Vão apedrejar-te quando estiveres a passear no teu carro.
Vão apedrejar-te quando estiveres a tocar a tua guitarra
Sim, mas eu não me sentiria assim tão só
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.

Bem, vão apedrejar-te quando andares completamente só
Vão apedrejar-te quando estiveres a ir para casa.
Vão apedrejar-te e depois dirão que és corajoso.
Vão apedrejar-te quando estiveres pousado na tua sepultura
Mas eu não me sentiria assim tão só.
Toda a gente há-de apanhar uma pedrada.”
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Enviado por Guilhermina Abreu (hi5)
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segunda-feira, 9 de março de 2009

SEGREDO - Fernando Ferreira do Amaral

SEGREDO

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.

FERNANDO PINTO DO AMARAL
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From Moranguinho Pereira (hi5)
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domingo, 8 de março de 2009

CANTIGA - Béatrix de Viennois,

CANTIGA

Grã coita tenho sofrido
Por homem que desdenhei.
Que sempre seja sabido
Quanto o amo e amarei.
É-me agora fementido
Por amor que eu receava.
E doida eu ‘stava em vestido
Ou se nua me deitava.

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’ eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!
Ca lh’ estou mais que rendida
Flora o foi de Brancaflor,
E todo seu meu amor,
Minh’alma, os olhos, e a vida.

Ai meu amigo velido!
S’ em meu poder vos tomar
E convosco me deitar
E d’amor eu vos beijar,
Não há nenhum mor prazer
Que vos ter com’ a marido,
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’ eu quiser.

Béatrix de Viennois, Condessa de Die
(Provença, falecida em 1160)
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Enviado por Guilhermina Abreu (hi5)
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A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO - José Luís Peixoto

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

JOSÉ LUIS PEIXOTO
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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RETRATO DE UM AMOR - Fernando Pinto do Amaral

RETRATO DE UM AMOR

Iluminas
a sombra dos meus dias
neste mundo que abrimos devagar
entre o corpo e a alma, sempre mais
secretos no abismo que os devora.

Maior do que este amor nada haverá
até ao fim dos tempos: os teus olhos
respondem ao destino, à sua eterna
graça que paira sobre as nossas vidas
agora a transbordarem numa única
razão feita de luz. a tua boca
inunda a minha língua com o sabor
de todos os sentidos que mergulham
a noite numa água sem retorno.

Para ti absorvo o hálito de um verão
em cada beijo cego, surdo e mudo
respirando de súbito em uníssono:
enigma revelado num só frémito,
insónia submersa que , em silêncio,
regressa pouco a pouco aos nossos braços
afogados na espuma do seu mar.

Perto do teu sorriso há uma fonte
embriagada e pura- meu amor,
dá-me esse coração, essa primeira
raiz de todo o fogo, esse relâmpago
onde cresce para nós a flor de um grito;
segreda-me às escuras mais um sonho
antes de adormeceres sobre o meu ombro.

FERNANDO PINTO DO AMARAL
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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sábado, 7 de março de 2009

CANÇÃO DE TODOS - - Raul de Léon

CANÇÃO DE TODOS

Duas almas deves ter...
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel da ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias...

Alma anônima e usual,
Longe do Bem e do Mal,
Que não é má nem é boa,
Mas, simplesmente, ilusória,

Ágil, sutil, diluída,
Moeda falsa da Vida,
Que vale só porque soa,
Que compra os homens e a glória
E a vaidade que reboa
Alma que se enche e transborda,
Que não tem porquê nem quando,
Que não pensa e não recorda,
Não ama, não crê, não sente,
Mas vai vivendo e passando
No turbilhão da torrente,
Través intrincadas teias,
Sem prazeres e sem mágoas.
Fugitiva como as águas,
Ingrata como as areias.

Alma que passa entre apodos
Ou entre abraços, sorrindo,
Que vem e vai, vai e vem,
Que tu emprestas a todos,
Mas não pertence a ninguém.
Salamandra furta-cor,
Que muda ao menor rumor
Das folhas pelas devesas;
Alma que nunca se exprime,
Que é uma caixa de surpresas
Nas mãos dos homens prudentes;
Alma que é talvez um crime,
Mas que é uma grande defesa.

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranqüila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Para melhor conhecê-las
E jamais comprometê-las,
Entre perdões e doçuras,
Num pudor silencioso,
Com o mesmo olhar generoso,
Com que contempla as estrelas
E assiste o sonho das flores...

Alma que é apenas tua,
Que não te trai nem te engana,
Que nunca se desvirtua,
Que é voz do mundo em surdina.
Que é a semente divina

Da tua têmpera humana,
Alma que só se descobre
Para uma lágrima nobre,
Para um heroísmo afetivo,
Nas íntimas confidências
De verdade e de beleza:

Milagre da natureza
Transcorrendo em reticências
Num sonho límpido e honesto,
De idealidade suprema,
Ora, aflorando num gesto,
Ora, subindo num poema.

Fonte do Sonho, jazida
Que se esconde aos garimpeiros,
Guardando, em fundos esteiros,
O ouro da tua Vida.

Alma de santo e pastor,
De herói, de mártir e de homem;
A redenção interior
Das forças que te consomem,
A legenda e o pedestal
Que se aprofunda e se agita
Da aspiração infinita
No teu ser universal.

Alma profunda e sombria,
Que ao fechar-se cada dia,
Sob o silêncio fecundo
Das horas graves e calmas,
Te ensina a filosofia
Que descobriu pelo mundo,
Que aprendeu nas outras almas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.


Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

RAUL DE LEÔNI
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QUE OUTRO NOME - David Mestre

QUE OUTRO NOME

«Que rio se pode
abrir na língua acesa
para o capim crepitando
baixo. Que palavra
por ele nasce

e corre corre a lua
e outra lua sem que regresse
ao corpo. Que outro nome
te demos
vestida e no escuro desposada.

Liberdade.

Que tempo de
ocultar o nome sabíamos
perder e nem

de moscardo zumbias: Ngola

nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada.

Liberdade.

Quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra? Nzambi
neles tivesse
mordiscado leve.

Liberdade.»

David Mestre (poeta angolano)
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Sorriso (hi5) -
7/Mar/2009 3:21
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quinta-feira, 5 de março de 2009

QUEM SABE UM DIA - Mário Quintana

QUEM SABE UM DIA

Quem
sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois

Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

MÁRIO QUINTANA
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VA, CHANSON, À TIRE-D'AILE... - Paul Verlaine -

VA, CHANSON, À TIRE-D'AILE...

“Va, chanson, à tire-d'aile
Au-devant d'Elle, et dis-lui
Bie que dans mon coeur fidèle
Un rayon joyeux a lui,

Dissipant, lumière sainte,
Ces ténèbres de l'amour:
Méfiance, doute, crainte,
Et que voici le grand jour!

Longtemps craintive et muette,
Entendez-vous? la gâité,
Comme une vive alouette,
Dans le ciel clair a chanté.

Va donc, chanson ingénue,
Et que, sans nul regret vain,
Elle soit la bienvenue
Celle qui revient enfin.”

Paul Verlaine
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VOGLIO UN AMORE DOLOROSO... - Gabriele D'Annunzio

Adoro a escrita de D'Annunzio, na arte as idéias políticas não me interessam pra nada.)

VOGLIO UN AMORE DOLOROSO...

"Voglio un amore doloroso, lento,
che lento sia come una lenta morte,
e senza fine (voglio che più forte
sie della morte) e senza mutamento.

Voglio che senza tregua in un tormento
occulto sien le nostre anime assorte;
e un mare sia presso a le nostre porte,
solo, che pianga in un silenzio intento.

Voglio che sia la torre alta granito,
ed alta sia così che nel sereno
sembri attingere il grande astro polare.

Voglio un letto di porpora, e trovare
in quell'ombra giacendo su quel seno,
come in fondo a un sepolcro, l'Infinito."

Gabriele D'Annunzio
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ERRO DE PORTUGUÊS - Oswald de Andrade

ERRO DE PORTUGUÊS

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

OSWALD DE ANDRADE

quarta-feira, 4 de março de 2009

MARMITA - Lêdo Ivo

MARMITA

Em sua marmita
não leva o operário
qualquer metafísica.
Leva peixe frito,
arroz e feijão.
Dentro dela tudo
tem lugar marcado.
Tudo é limitado
e nada é infinito.
A caneca dágua
tem espaço apenas
para a sua sede.
E a marmita é igual
à boca do estômago,
feita sob medida
para a sua fome.
E quando termina
sua refeição,
ele ainda cata
todas as migalhas,
todo esse farelo
de um pão que suasse
durante o trabalho.
Tudo quanto ganha
o operário aplica
como um capital
em sua marmita.
E o que ele não ganha
embora trabalhe
é outro capital
que também investe:
palavra que diz
em seu sindicato,
frase que se escreve
no muro da fábrica,
visão do futuro
que nasce em seus olhos
que só com fumaça
se enchem de lágrimas.
Em sua marmita
não leva o operário
o caviar de
qualquer metafísica.
E sendo ele o mais
exato dos homens
tudo nele é físico
e material,
tem seu nome e forma,
seu peso e volume,
pode-se pegar.
Seu amor tem saia
pêlos e mucosas
e, fecundo, faz
novos operários.
As coisas se medem
pelo seu tamanho:
sono, mesa, trave.
No trem ou no bonde
nenhum operário
pode se espalhar
sem fazer esforço.
É como no mundo:
— tem que empurrar.
Vasilhame cheio
de matéria justa,
sua vida é exata
como uma marmita.
Nela cabe apenas
toda a sua vida.
E não cabe a morte
que esta não existe,
não sendo manual,
não sendo uma peça
de recauchutar.
(Artigo infinito,
sem ferro e sem aço,
qualquer um a embrulha
sem usar barbante
ou papel almaço.)
Fabril e imanente
o operário vive
do que sabe e faz
e, sendo vivente,
respira o que vê.
O tempo que o suja
de óleo e fuligem
é o mesmo que o lava,
tempo feito de água
aberta na tarde
e não de relógio.
E a própria marmita
também é lavada.
E quando ele a leva
de volta pra casa
ela, metal, cheira
menos a comida
do que a operário.


LÊDO IVO
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POEMA INVOLUNTÁRIO - Natália Correia

* Natália Correia


Decididamente a palavra
quer entrar no poema e dispõe
com caligráfica raiva
do que o poeta no poema põe.


Entretanto o poema subsiste
informal em teus olhos talvez
mas perdido se em precisa palavra
significas o que vês.


Virtualmente teus cabelos sabem
se espalhando avencas no travesseiro
que se eu digo prodigiosos cabelos
as insólitas flores que se abrem
não têm sua cor nem seu cheiro.


Finalmente vejo-te e sei que o mar
o pinheiro a nuvem valem a pena
e é assim que sem poetizar
se faz a si mesmo o poema.


NATÁLIA CORREIA
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CANTO GRANDE - Manuel Bandeira

* Manuel Bandeira


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.


Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.


Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.


De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.


Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.


Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.


Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.




MANUEL BANDEIRA
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terça-feira, 3 de março de 2009

QUASE UM POEMA DE AMOR - Miguel Torga

QUASE UM POEMA DE AMOR
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Há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor
.
MIGUEL TORGA
,

TRÊS IDADES - Manuel Bandeira

A vez primeira que te vi,
Era eu menino e tu menina.
Sorrias tanto... Havia em ti
Graça de instinto, airosa e fina.
Eras pequena, eras frnazina...

A ver-te, a rir numa gavota,
Meu coração entristeceu
Por que? Relembro, nota a nota,
Essa ária como eterneceu
O meu olhar cheio do teu.

Quando te vi segunda vez,
Já eras moça, e com que encanto
A adolescência em ti se fez!
Flor e botão... Sorrias tanto...
E o teu sorriso foi meu pranto...

Já eras moça... Eu, um menino...
Como contar-te o que passei?
Seguiste alegre o teu destino...
Em pobres versos te chorei
Teu caro nome abençoei.

Vejo-te agora. Oito anos faz,
Oito anos faz que não te via...
Quanta mudança o tempo traz
Em sua atroz monotonia!
Que é do teu riso de alegria?

Foi bem cruel o teu desgosto.
Essa tristeza é que diz...
Ele marcou sobre o teu rosto
A imperecível cicatriz:
És triste até quando sorris...

Porém teu vulto conservou
A mesma graça ingênua e fina...
A desventura te afeiçoou
À tua imagem de menina.
E estás delgada, estás franzina...

MANUEL BANDEIRA
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segunda-feira, 2 de março de 2009

Eça de Queirós - Uma Campanha Alegre

Lisboa - escultura de Teixeira Lopes
"Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez crua da verdade"


Clique na imagem para ler

por : Prolific_Writer

Publicado em: fevereiro 14, 2009



Eça de Queirós concebe a crónica como um género jornalístico em que o narrador goza de uma certa liberdade em termos narrativos, sendo que ela nos retracta essencialmente acontecimentos sociais (festas, bailes, teatros, modas), romances, histórias, crimes, segredos, ou seja, factos que são inerentes à feição geral de um povo ou de uma comunidade. A subjectividade do cronista está presente na visão que nos é transmitida já que, ora nos revela o afeiçoamento do narrador a determinadas situações ou personagens, ou então deixa transparecer subtilmente o distanciamento, ou mesmo a oposição, a certos factos ou acontecimentos. Comparativamente a outras formas jornalísticas, a crónica tem a virtude de ser mais severa e contundente nas suas críticas dado que, por exemplo, enquanto o artigo de fundo encerra nas suas linhas uma crítica mais implícita do que explícita, a crónica provoca intencionalmente os seus alvos, ridicularizando e escarnecendo através de caricaturas..
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A atenção e a importância que são atribuídas à crónica pelos leitores difere, como qualquer secção de um jornal, de acordo com o estado de espírito próprio de uma nação, que envolve a sua situação económica, política, social e cultural, ou em função de acontecimentos que marcam uma determinada época, seja a nível nacional ou internacional. A crónica procura normalmente notícias que possam, pelo escândalo, pelo horror ou pela maravilha que encerram, constituir um facto interessante para o público. O critério de selecção dessas notícias têm a ver, por um lado com a escolha do próprio cronista, por outro lado com o interesse que são susceptíveis de despertar no leitor, seja pela sua novidade, singularidade ou natureza específica. Para além disso, há que referir também que, sendo a crónica norteada pela moralidade que é inerente à personalidade do narrador, os seus temas são geralmente factos passíveis de trazerem benefícios visíveis a uma comunidade ou população, ou então manifestações de grandeza moral e de dignidade.
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Em termos formais, o tom geral da crónica desenvolve-se através de um vocabulário (normalmente) corrente e acessível e a sua linguagem deve ser simples e escorreita. As anedotas enquadram-se dentro deste nível global de linguagem e de vocabulário que procuram transmitir à crónica uma componente irónica e graciosa, mormente pela utilização de caricaturas cujo objectivo é ridicularizar traços físicos ou psicológicos de uma personagem, personagem essa que normalmente não é fixa já que pode entrar e sair da narração conforme os actos que pratica ou as acções de que é protagonista. Esta capacidade de ridicularizar subtilmente, com humor e ironia, faz da crónica um género jornalístico de combate político já que as caricaturas que são jocosamente engendradas, para além de escarnecerem certas particularidades das personagens (verdadeiras ou não), fá-lo com uma graciosidade incomodativa para o sujeito que é caricaturado. Relembre-se, a propósito, que as caricaturas não podem ser tomadas a sério na sua totalidade o que faz delas, simultaneamente, instrumento de escárnio e de ataque, sempre com um fundo de inocência ressalvado por não serem completamente levadas a sério.
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Apesar de ter nalguns casos um carácter predominantemente informativo, a crónica não é um género fechado, rígido. Ela pode assumir-se como artigo de fundo, correspondência ou até como artigo político já que ela é uma secção livre onde podem surgir anedotas, histórias, intrigas, contos, sempre com uma componente humorística que procura divertir o leitor. As suas fontes são os dados da vida quotidiana, quer a nível nacional ou internacional, e provêm de conversas, acontecimentos, ou factos investigados pelo cronista em jornais, artigos ou noticiários. O tom geral da crónica poderá ser mais alegre ou mais sério de acordo com o acontecimento que é relatado e com a especificidade da época em que está inserido, sem nunca perder completamente o seu lado humorístico que tem por finalidade distrair o leitor.
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Concluindo e sintetizando a concepção de crónica em Eça de Queirós, diremos que a originalidade da crónica consiste um pouco nisto: buscar nos acontecimentos da vida quotidiana (e não só) factos que contenham uma certa carga emocional e afectiva, e moldar esses acontecimentos (um rapto, um suicídio) de acordo com a estrutura formal da crónica enquanto género, constituem verdadeiramente a sua originalidade. Quando se fala aqui em acontecimentos há que dizer que essa referência é feita em termos genéricos já que um acontecimento, digno de figurar numa crónica, tanto poderá ser um rapto ou um suicídio, como a problematização de temáticas políticas
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in
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http://pt.shvoong.com/humanities/theory-criticism/1867740-uma-campanha-alegre/

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Bibliografia

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domingo, 1 de março de 2009

NÃO TENHO PRESSA - Alberto Caeiro

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

ALBERTO CAEIRO
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