* Luís Rocha
Há uns tempos que tenho Ireneu
Teixeira debaixo do radar, embora não veja televisão, o que me permite
conservar alguma esperança na humanidade, mas o algoritmo do YouTube, essa
criatura malévola que sabe exactamente onde encontrar o lixo que não procuramos,
lá me vai oferecendo de vez em quando umas intervenções do homem no NOW,
deixando-me sempre com aquela sensação de que acabei de assistir a uma
experiência científica destinada a provar que o cérebro humano consegue
encolher em tempo real.
Ireneu é apresentado como
comentador de política internacional, o que é uma classificação
extraordinariamente ambiciosa para alguém cuja relação com os factos parece ser
a de um turista com um mapa de pernas para o ar. Olha para ele, acha tudo muito
interessante e depois vai parar a outro país.
Em 2024, apresentou no NOW um
vídeo da Fox News como sendo recente e relacionado com a Rússia, quando o vídeo
era de 2014 e Jeanine Pirro falava do Estado Islâmico. Confrontado com o erro,
explicou que recebera aquilo pelo WhatsApp e que não tivera tempo para
confirmar a informação.
É uma metodologia extremamente
interessante.
Antigamente verificava-se a
notícia antes de a transmitir, agora recebe-se uma coisa no telemóvel, mete-se
na televisão e logo se descobre o que era.
A ERC acabou por considerar que o
NOW violara o rigor informativo, mas aparentemente nem uma entidade reguladora
consegue acompanhar a velocidade com que Ireneu transforma uma mensagem de
WhatsApp em política internacional.
Depois veio o episódio do suposto
dirigente do Hamas que afinal era um clérigo iraquiano crítico do próprio
Hamas, ao qual foram atribuídas declarações que pertenciam a outra pessoa,
porque aparentemente até as identidades passaram a ser facultativas no comentário
internacional.
E finalmente chegámos a Ceuta, ou
melhor, a Toulouse, porque para Ireneu a geografia parece ser uma ciência
dispensável. Mostrou imagens de violência como sendo das últimas horas em
Ceuta, quando eram imagens de Toulouse, em França, relacionadas com os festejos
da vitória do PSG na Liga dos Campeões.
Toulouse em Ceuta, França em
Espanha, Maio em Setembro e adeptos de futebol transformados em migrantes.
É difícil errar tanto sem começar
a suspeitar que há alguém nos bastidores a baralhar deliberadamente o atlas.
Depois veio a fabulosa história da
Mercadona, segundo a qual migrantes estariam a comprar produtos para fabricar
bombas, história que a própria empresa desmentiu e que o Polígrafo classificou
como falsa.
Mas nada disto se compara à
monumental descoberta histórica de que a Padeira de Aljubarrota teria corrido
com os espanhóis em 1640, confundindo a Batalha de Aljubarrota, em 1385, com a
Restauração da Independência, em 1640.
São apenas 255 anos de diferença,
uma pequena imprecisão para quem comenta a História como quem escolhe uma data
num calendário de parede. É como dizer que Camões escreveu Os Lusíadas depois
de inventarem a internet.
O problema é que Ireneu não
comenta apenas História, comenta política internacional, guerras, migrações,
terrorismo e relações entre Estados, tudo isto com a confiança de quem parece
acreditar que o mundo é uma espécie de radionovela onde os factos são apenas
sugestões.
E talvez seja essa a verdadeira
inovação.
Já não precisamos de
correspondentes internacionais, historiadores ou especialistas, basta um homem
com acesso ao WhatsApp, uma cadeira num estúdio e uma relação suficientemente
flexível com a verdade.
Ireneu conseguiu transformar a
política internacional numa espécie de quermesse cognitiva onde Toulouse pode
ser Ceuta, 2014 pode ser ontem, um crítico do Hamas pode ser dirigente do Hamas
e Brites de Almeida pode atravessar dois séculos e meio para participar na
Restauração.
Há pessoas que explicam o mundo.
Ireneu prefere inventá-lo.
E fá-lo com aquele ar solene de
quem acredita que, se disser uma barbaridade com suficiente convicção, talvez a
realidade se sinta intimidada e vá embora.
Só que a realidade tem este
defeito terrível.
Insiste em existir.
E parece que finalmente alguém
percebeu que talvez não seja boa ideia deixar um homem destes diariamente à
solta pela televisão, pelo que Ireneu foi finalmente colocado na prateleira,
numa espécie de reforma dourada do comentador internacional, passando a mostrar
a cara apenas ao domingo.
É uma solução sensata e,
sobretudo, uma solução humanitária. Se não conseguimos impedir Ireneu de
comentar o mundo, pelo menos podemos reduzir a exposição do mundo a Ireneu.
Ao domingo, portanto, lá teremos a
sua aparição semanal, como aqueles relógios antigos que abrem uma portinhola e
fazem sair um cuco durante alguns segundos para anunciar que ainda estão vivos.
A diferença é que o relógio tem a vantagem de não possuir a capacidade de confundir
Toulouse com Ceuta.
E tudo isto acontece na
Medialivre, empresa de que Cristiano Ronaldo é accionista, o que acrescenta uma
camada de surrealismo à coisa. Não sei se Ronaldo acompanha as intervenções de
Ireneu, mas imagino a reunião de accionistas. Alguém apresenta os resultados,
outro fala das audiências, alguém pergunta pela estratégia editorial e
Cristiano levanta a mão para saber se a Padeira de Aljubarrota já foi
entrevistada.
É que, sendo accionista, Ronaldo
adquiriu uma pequena parte da empresa, mas ninguém me garante que tenha
recebido também uma fracção da Padeira, de Ceuta, de Toulouse e dos restantes
territórios imaginários do império geopolítico de Ireneu.
No fundo, é uma espécie de reforma
dourada à portuguesa. Não se manda o especialista para casa, apenas se lhe
reduz o horário para que possa continuar a explicar o planeta sem o planeta ter
de levar com ele todos os dias.
E talvez seja mesmo essa a grande
conquista.
Durante a semana, a Terra gira
normalmente, Toulouse continua em França, Ceuta continua em Espanha,
Aljubarrota permanece em 1385 e 1640 continua a ser 1640.
Depois chega domingo, abre-se a
televisão, aparece Ireneu e tudo volta a ser possível.
A História pode mudar de século, a
geografia pode mudar de continente e o WhatsApp pode transformar-se novamente
em Conselho de Segurança da ONU.
Há pessoas que estudam o mundo
para o compreender.
Ireneu prefere recebê-lo por
mensagem.
Felizmente, agora só ao domingo.
Valha-nos isso...
2026 setembro 09
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