quarta-feira, 15 de maio de 2024

Paolo Cortesi - TV como instrumento de alienação

 

Capitalismo ocidental:
Programas de televisão cada vez mais baseados na competição e na submissão

Paolo Cortesi

Penso que já repararam na multiplicação (tão rápida que não pode ser um fenómeno aleatório ou "natural") de programas de televisão baseados na competição. Na verdade, numa competição exasperada que conduz a uma eliminação sistemática e progressiva.

A fórmula é simples, sempre a mesma:   cantores, cozinheiros, cabeleireiros, pasteleiros, dançarinos, aspirantes a empresários (sic) e outras categorias são submetidos a julgamento – muitas vezes implacável, sempre severo – de juízes auto-nomeados. Note-se que os juízes, cujo veredito é definitivo, são, à partida, quase sempre tão desconhecidos do grande público como os aspirantes a serem julgados, mas eles (os juízes) estão investidos de uma autoridade (mas a fonte da sua autoridade nunca é dada a conhecer) absoluta. O "espetáculo" funciona assim:   os examinandos são submetidos a provas muito duras, a concorrência é feroz porque o "jogo" é de eliminação, não há equipas porque o vencedor só pode ser um indivíduo, e os grupos que se formam ocasionalmente têm uma vida que só funciona para a seleção dos indivíduos.

Os juízes usam – reparem, isto acontece em todos os programas – uma dureza ostensiva, uma crueldade programática e apressada. Por vezes, atingem o limiar do insulto, enquanto a humilhação é comum. A arrogância é o código destes programas:   arrogância exibida pelo juiz, arrogância sofrida como inevitável e, portanto, necessária pelo candidato. Ou se ganha ou se chumba:   é esta a mensagem destes programas que, sublinhe-se uma vez mais, estão a generalizar-se cada vez mais. Os examinandos aceitam passivamente a autoridade total dos juízes:   os eliminados têm frequentemente palavras muito duras para si próprios, bem como afirmações exageradas:   "Vou dar tudo por tudo" ou "Não posso falhar, esta é a minha vida" ou "Não o vou desiludir, chefe", etc, etc, etc.

Porque interessa esta enésima forma de televisão-lixo que, francamente, não presta? Porque a televisão atual não descreve, mas antecipa a realidade da sociedade.

Ou melhor: a televisão é o marcador de ritmo, o precursor das teorias sociológicas das classes dominantes. É a prova de fogo. É a receita do bolo envenenado que nos estão a preparar. Sob a (falsa) motivação do entretenimento, a televisão concebe e testa a sociedade que o sistema está a impor.

A televisão é hoje o laboratório de testes e, ao mesmo tempo, o principal arquiteto da sociedade que as classes dominantes estão a conceber e a impor ao mundo ocidental. Os programas a que acabo de aludir não são "jogos":   são a estrutura iminente da sociedade e do mundo do trabalho. As classes dominantes querem uma sociedade dócil, mansa, constituída por indivíduos que não fazem ideia do que é a solidariedade, mas que vivem furiosamente a acotovelarem-se uns nos outros numa competitividade frenética. As classes dominantes querem ter o direito absoluto de julgar, premiar e selecionar. A chamada meritocracia é o rótulo infame que o patronato deu à sua pretensão de escolher quem premiar, com base em critérios que só ele decide e aplica.

Outra mensagem forte que querem transmitir é a seguinte:   "se falhares, a culpa é só tua", e ainda: "dei-te a oportunidade de uma vida, desperdiçaste-a":   são mentiras vergonhosas que só servem para justificar o papel do poder e negar que o êxito se obtém (como acontece) de infinitas e até inomináveis formas, por diferentes meios, e o sucesso, nesta nossa sociedade, depende apenas em pequena parte do valor real das pessoas. Mas se isso fosse admitido, a imponente pirâmide social sobre a qual se erguem os poderosos desmoronar-se-ia como uma montanha de lama. Esta pseudo-ideologia do êxito ignora, e até ridiculariza, tudo o que sabemos há séculos sobre as dinâmicas sociais, as influências do ambiente económico e as redes causais profundas e complexas que moldam a vida dos indivíduos e da sociedade.

Em suma:   não é de todo verdade que só os melhores ganham, e é ainda mais falso que "se fores bom, mais cedo ou mais tarde terás sucesso":   é a mais ridícula mentira burguesa. Certos programas de televisão parecem passatempos divertidos que incitam a cozinhar ou a cantar. Na realidade, são operações de manipulação cultural que subvertem valores seculares, criados pelo empenho e pelo esforço de gerações:   a solidariedade, a colaboração, a consciência, o respeito, a autogestão, a criatividade são lixo que dificulta o projeto de dominação das classes dominantes.

A obediência, a submissão, o carreirismo e o servilismo são as novas coordenadas da sociedade que os senhores nos impõem pela força (repressão, controlo policial, neurose de regulação) e com a sugestão mais ou menos óbvia de um "espetáculo" que só celebra a imbecilidade e a violência.

13/Mai/2024

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Marta Martins Silva entrevista Óscar Cardoso, da PIDE/DGS

* Marta Martins Silva

28 de Abril de 2024

Se estiver na rua e alguém disser "inspector" ainda se vira?

Sim. Muitas pessoas tratam-me assim.


Incomoda-o que definam a sua vida pelos dez anos na PIDE-DGS?

Foram os anos mais felizes da minha vida. Pelo contrário, tenho muito orgulho nisso.


Lembra-se da primeira vez em que teve noção do que era a PIDE?

Diziam que eram uns tipos muito duros. Mas como nunca me meti em manifestações não tive preocupação de saber. Depois do Exército servi na Guarda Republicana. Surgiu a oportunidade de ingressar na PIDE num quadro permanente de oficial miliciano. O futuro era mandarem-me embora quando não precisassem de mim.


Que funções desempenhou antes de ir para Angola?

Fui colocado na investigação. Conheci pessoas extraordinárias, nomeadamente José Barreto Sachetti, meu primeiro director. Vi como se faz um interrogatório, e depois estagiei nos vários serviços.


Há o mito de que se usava o método de interrogatório 'PIDE bom, PIDE mau'...

Isso até existe nos livros da Agatha Christie. Há sempre um mau e um bom.


E era o bom ou o mau?

Normalmente não interrogava. Assistia e coordenava. O meu papel era de inspector, que instruía o processo, e os chefes de brigada é que faziam os interrogatórios.


Muitas pessoas dizem que foram torturadas na PIDE.

Todos dizem que foram.


Nega que tenha havido tortura?

Nego. Estavam horas em pé até dizerem a verdade. Isso não era muito agradável, mas não havia tortura física. Sob palavra de honra: nunca vi torturar ninguém. Mas também devo dizer que o pavor que eles criaram sobre a PIDE facilitava o trabalho. Ficavam tão aterrorizados que contavam a história toda desde pequeninos. Só que quando vinham cá para fora tinham de dizer que foram torturados.


Quando foi para Angola levava directrizes de Lisboa para criar os Flechas?

Não. Vigorava lá a teoria de, com a Rodésia, África do Sul e Moçambique, constituir uma confederação antiterrorista. Em Portugal sabia-se disso e em Luanda havia um director muito inteligente que estaria dentro do complô, onde Angola se afastaria de Portugal. Disseram-me para ir lá ver o que se passava. Fui com essa missão, mas a versão oficial da transferência foi aplicar os conhecimentos de guerrilha num sítio onde havia. O director São José Lopes apercebeu-se e não me tratou bem. Andei por Angola toda, e depois pôs-me numa coisa de que não gostava nada: os Reservados.


Tinha de fazer o quê?

Se alguém precisava de uma licença, íamos ver os antecedentes. Em Luanda, onde vivia com a minha mulher, conheci o administrador Manuel Pontes, que passara a maior parte da vida nas terras do fim do Mundo. Falou-me do paraíso da caça que era o Cuando-Cubango, e de um povo extraordinário, os bosquímanos, dos quais tinha ouvido falar na cadeira de Etnografia. Pensei que era interessante aproveitá-los. Propus ao director, que arranjou uma maneira airosa de se ver livre de mim. Deu-me um Land Rover, e fui com a minha mulher e com o velhote. Só que o jipe não estava em boas condições.


Se calhar escolheram-vos o Land Rover pior...

Acredito [risos]. Comecei por recrutar oito, que pareciam múmias, deste tamanho [faz um gesto equivalente a metro e meio], e usavam arcos e flechas. Fizeram uma razia em acampamentos dos ‘turras’. Usavam flechas envenenadas, em arcos pequeninos. Quem apanhava uma flechada daquelas não tinha chance nenhuma. Começámos os flechas bosquímanos, com muito sucesso. Nas terras em que não há nada, descobriam água e o que comer. Raramente traziam alguém vivo, mas limpavam o terreno.


Foram usados contra missões que davam apoio a independentistas?

Que eu saiba, a única pessoa que fez isso fui eu, duas vezes. À missão de Xamavera, de padres franceses que davam apoio logístico aos bandidos, mandámos uns que não eram bosquímanos, fardados com camuflados da UNITA. Beberam a garrafeira, deram palmadas, mas não mataram ninguém. Foram-se embora. A outra foi numa missão da Catota, no Bié, da qual enviavam relatórios para a CIA. Foram lá uns tipos e o missionário resolveu partir.


Nessa altura também ficou a conhecer Jonas Savimbi.

Sim.


Que impressão tinha dele?

A pior. Era o mais traiçoeiro. Entendeu-se dar apoio à UNITA, com o compromisso de fazer tampão ao MPLA, e o Savimbi ficou malvisto com os países africanos. Houve uma altura em que foi preciso fazer um contacto na mata, no Moxico. Eu representava Portugal e da parte deles seria o próprio Savimbi. Fomos ao local, num helicóptero sul-africano, e apareceu-nos um preto de tanga. Mas com brilhantina no cabelo.


Não combinava muito...

E tinha unhas mais bem tratadas do que as minhas. Não gostei quando ele disse que o encontro era mais adiante. Avançámos 50 metros, mas voltámos para o helicóptero, para sobrevoar a zona. O piloto disse que não tinha combustível, e fomos à base encher o depósito. No regresso, chovia torrencialmente. Decidi que voltávamos na manhã seguinte. À noite, o nosso radiotelegrafista, que estava no acampamento da UNITA, comunicou que havia notícias de que os Flechas tinham sido massacrados. Disse-lhe para destruir o rádio e meter-se num buraco. De manhã começámos a ver corpos dos Flechas cortados aos bocados. A operação estava feita para o Savimbi se lavar perante os africanos.


Os Flechas não resultaram em Moçambique?

Aquilo estava tão bem feito que nem o director provincial de Moçambique sabia. Disse-me assim: "Não precisamos de flechas, não queremos flechas e temos raiva a quem quer. Portanto, a partir de agora, considere-se turista". Acabei por voltar para Angola e depois para Portugal, onde apanhei o 25 de Abril e fiquei 733 dias preso.


Onde é que esteve preso?

Caxias, Peniche e Alcoentre.


Pensou que podia morrer?

Tinham a amabilidade de nos dizer em Peniche que nos iam fuzilar. Também tive um plano de fuga. Consegui que a minha mulher me trouxesse uma granada e andei semanas com aquilo junto ao braço. No dia de ir à consulta externa de otorrino, meteram-me no Mercedes, abriu-se o portão e quando olhei pelo retrovisor tinha um Unimog atrás, com uma metralhadora e uma secção de atiradores. Não tinha chance nenhuma.


Quando é que foi julgado?

Estava em Alcoentre quando fizeram a acareação. Fui acusado de torturar um homem, mas eis um pormenor: quando ele disse que eu ia torturá-lo à cela, comandava uma companhia nos Açores e ainda não estava na PIDE. Outro era um lingrinhas, que me acusou de, com 50 homens, lhe ter dado uma surra. Bastava um para dar cabo dele.


Qual foi a primeira coisa que fez ao ser libertado?

Fui ter com os meus pais, a minha mulher e os meus filhos. Depois tentei arranjar emprego. Andei a vender margarina, mas não era o meu estilo. Tinha de me apresentar no posto de Oeiras, de 15 em 15 dias, e o sargento avisou que tinha lá um mandado de captura com o meu nome.


A que se devia o mandado?

Punham-se bombinhas nas sedes comunistas e eu ia a Badajoz buscar material para as fazer. Houve um tipo que estava a fabricar um dispositivo em casa, fez aquilo mal e ia ficando sem um pé. Foi para o hospital e começou a falar, sob efeito da anestesia.


Eram acções do ELP ou do MDLP?

Do ELP, com o Santos e Castro, com quem estive num subúrbio de Madrid. Foi lá que fiz o passaporte e apanhei o avião para a Rodésia


Ainda pensava que Portugal voltaria à situação anterior?

Estava tão desiludido que pensei esquecer-me de Portugal. Quando fui para a África do Sul, era ali que queria ficar, mas entretanto vi o país ceder – e não queria ser preso outra vez.


É procurado por pessoas do seu passado?

Muitas.


Que lhe querem bem ou que lhe querem mal?

Uma vez, à entrada desta propriedade, alguém escreveu "PIDE, vamos-te matar". Tive a tentação de escrever "venham à hora de almoço que há comida", mas pessoas daqui caiaram aquilo. Hoje, é aqui que quero viver.


Costuma votar?

De vez em quando voto, para que não seja um pior a vencer.


Entre os políticos actuais há alguém que se destaque?

O Rui Rio ou o Paulo Morais. Não vejo mais, até porque vivo atrás do sol-posto e evito a televisão. As raparigas do Bloco de Esquerda dizem coisas com piada, mas não vão a lado nenhum.


Oliveira Salazar foi o último político que respeitou?

Nunca respeitei políticos. Respeitei Salazar como estadista, e estabeleço a diferença entre uma coisa e outra.


Se Portugal fosse ainda pluricontinental teríamos um Presidente ou um primeiro-ministro africanos?

Poderia haver. Mais antiga é a ideia de Norton de Matos, em que a capital era Nova Lisboa e aqui seria o escritório na Europa. Era brilhante.


Se não tivesse acontecido o 25 de Abril chegaria a director-geral da PIDE?

A minha ambição era, quando visse o terrorismo acabado, ir para o Cuando-Cubango. Arranjava uma fazenda de gado, vivia lá, com os meus pretos e bosquímanos, e que ninguém me chateasse.


Como é que pensa que irá ser recordado no futuro?

Um português sem Portugal. Mas não me preocupo muito com isso.


ENTREVISTA  realizada em (2016)  

https://www.facebook.com/UniaoNacionalSalazar/posts

Gouveia e Melo e os tambores da guerra: "Não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam"

A JUVENTUDE E GOUVEIA E MELO, O ALMIRANTE DAS VACINAS, por José Manuel Correia Pinto

A nossa juventude parece desconhecer que a situação em que hoje se encontra, apesar das dificuldades e de algumas carências inegáveis, é incomparavelmente melhor - muitíssimo melhor - do que a da juventude há 50 anos.

Essa melhoria gradualmente alargada a todas as camadas da população deve- se - é bom nunca o esquecer - à generosa e corajosa acção de um grupo de jovens militares que derrubou um governo retrógado e instalou, com o apoio popular, um regime de igualdade de direitos para todos, dando voz a quem nunca a tinha tido. A primeira grande conquista que esses jovens militares alcançaram foi a que pôs termo a uma guerra injusta, que se arrastava há treze anos, e que mantinha refém dela toda a juventude portuguesa.

Depois veio a paz, a juventude foi gradualmente esquecendo a guerra, até ter chegado à triste situação de acreditar estar esse problema resolvido para sempre, desinteressando -se dele, como assunto que deixava de lhe dizer respeito.

Erro fatal da juventude. Se a juventude não tomar em suas mãos a defesa da paz não faltará agora, como sempre, quem a queira mergulhar na guerra, fazendo dela a primeira vítima desses tenebrosos propósitos.

Por isso o apelo que faço à juventude, a toda a juventude e não apenas à que frequenta as universidades, é que leiam o discurso proferido em Aveiro, pelo do Chefe do Estado Maior da Armada, Gouveia e Melo, conhecido como o almirante das vacinas, e se revoltem contra o belicismo criminoso de quem quer fazer de vós carne para canhão.

Portugal não está ameaçado por nenhum país. Porém, Portugal pertence a uma organização militar, agressiva, que desde há trinta anos não tem feito outra coisa que agredir Estados e fomentar a guerra.

No actual momento histórico a situação é particularmente grave por ter incentivado uma guerra na Europa, que lhe está a correr muito mal, e por isso se prepara para nela intervir directamente por vosso intermédio, enviando-vos para o campo de batalha com o falso pretexto de que ireis defender-nos dos que nos querem atacar .

É mentira. O que se passa é exactamente o contrario. Se a juventude não quiser ser a primeira vítima do massacre em grande escala que dessa guerra resultará, ela terá de lutar pela paz, denunciar e expulsar dos lugares de responsabilidade todos aqueles que querem fazer a guerra.

Se esse combate não for travado hoje, amanhã já será tarde.

Está nas vossas mãos, nas mãos da juventude, viver em paz ou morrer na guerra .

Não será depois de terdes sido mobilizados para combater no campo de batalha que o protesto pode ser feito. Para ser eficaz, ele terá de começar imediatamente e somente terminar quando o espectro da guerra tiver sido afastado

Viver em paz ou morrer na guerra depende vós, apenas de vós, e não de qualquer militar ou de qualquer politico!

https://www.facebook.com/josemanuel.correiapinto.9/

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Gouveia e Melo assume a necessidade de a Marinha e as forças armadas estarem em estado de prontidão, preparando as reservas e olhar para o serviço militar. A ameaça é real, por Alexandra Machado, Texto, e Luis Soares, Texto

12 maio. 2024,

"Não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam", declarou Gouveia e Melo.

A Marinha está a considerar “bastante” a possibilidade de poder “entrar em operações reais”, pelo que “encara” o futuro “numa perspetiva de maior prontidão”. Henrique Gouveia e Melo, chefe do Estado Maior da Armada, fez estes avisos este domingo em Aveiro, dizendo ser necessário preparar as forças armadas para o que aí vem, nomeadamente preparando as reservas materiais e humanas.

“Na perspetiva da Marinha importa perceber que, pela primeira vez em muitos anos, a possibilidade de poder vir a entrar em operações reais é bastante considerada”, havendo, pois, “a necessidade de apressar o aprestamento dos navios, reforçar o treino e preparar as reservas, sejam materiais ou humanas. Vamos viver tempos difíceis com elevada tensão e incerteza que nos obrigarão a encarar o nosso futuro numa perspetiva de maior prontidão”.

Sublinhando não pretender ser “pessimista ou alarmista”, acrescentou, num discurso em Aveiro, onde a Marinha recebeu a medalha de ouro do município, que “a dissuasão é certamente a melhor estratégia e o reforço do nosso espírito anímico para cumprirmos com os deveres que nos são exigidos será posto à prova. Tenho a certeza que a marinha portuguesa essencialmente a sua componente humana estará à altura dos acontecimentos, esteja Portugal também à altura deles”.

“Os tempos que se avizinham são perigosos, ignorá-los não é uma opção, estamos perante um momento em que dois pilares, a nossa segurança e prosperidade, NATO e União Europeia, poderão vir a ser submetidos às maiores provações e testes de stress” e Portugal “deverá ter em conta que na sua posição geoestratégica, apesar de aparentemente afastada da linha da frente de batalha, não poderá ignorar as tempestades que se aproximam”.

Gouveia e Melo pede reação da sociedade e que saia “do estado de comodismo e de indiferença e de uma certa preocupação inconsequente em que nos encontramos”. E clama que se ponha em marcha “um plano efetivo”.

“A defesa dos nossos interesses, as nossas vidas exige mais do que nunca uma atitude ativa e vigilante. Anseio que a Europa e Portugal, à dimensão dos nossos interesses, perscrutemos o horizonte, colocando em marcha um plano efetivo, percebendo que o conflito tampão da Ucrânia é decisivo para a segurança europeia”, e, por isso, é “importante desenvolver rapidamente um forte complexo militar e industrial europeu, olhar para o sistema de recrutamento e conscrição [por regra associado ao serviço militar obrigatório] generalizada e prepararmo-nos para reforçar de vez o pilar europeu da NATO.

As declarações de Gouveia e Melo sobre o serviço militar obrigatório têm vindo a suscitar algum debate público. Primeiro, em artigo de opinião no Expresso, em março deste ano, defendeu que este tipo de recrutamento poderá ter de ser reequacionado. Para mais tarde explicar que “o modelo antigo [do Serviço Militar Obrigatório] é precisamente isso, o modelo antigo. Tem que se encontrar uma nova resposta. Isso não é algo que se encontre amanhã, tem que ser discutida, tem que ser uma resposta que o poder político aceite, que a população aceite, porque só todos nós em conjunto podemos dar uma resposta que seja uma resposta do próprio país”, explicou em abril.

Explicou, novamente, em Aveiro as suas preocupações. “O chapéu protetor dos EUA será posto em causa não só por Donald Trump como pelos desafios que os EUA enfrentam no Pacífico. Não havendo espaço para cooperar, na Europa dissuadir será sempre melhor e mais económico que combater. É tempo de perceber que não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam”.

 

https://observador.pt/2024/05/12/gouveia-e-melo-possibilidade-de-poder-vir-a-entrar-em-operacoes-reais-e-bastante-considerada/

domingo, 12 de maio de 2024

Raul Almeida - A era do ódio

* Raul Almeida

 O Porto, cidade aberta, livre e liberal, assistiu no passado fim-de-semana a um horrível crime de ódio. A tragédia, porque todos os crimes de ódio são uma tragédia, deixou muita gente surpresa, dando conta da distracção ou ignorância em que vive uma grande parte da nossa sociedade sobre o que realmente se passa no país.

Usar a analogia epidémica é, talvez, a forma mais eficaz de falar sobre a revolução subterrânea em curso. Enquanto à superfície as forças radicais vão forçando as fronteiras do aceitável, persistindo na descredibilização das instituições e relativizando a realidade, no plano subterrâneo vão infectando sem controlo os crentes, os sedentos e os vulneráveis. A par da infinitude de coisas extraordinárias que a Net e as redes sociais nos trouxeram, grassa aí todo o tipo de informação especulativa e manipulativa, sendo a nova arma de destruição maciça com exércitos poderosos e eficazes.

De forma persistente e muito bem organizada, essencialmente através dos grupos de WhatsApp e canais do YouTube, está a ser criado um Portugal alternativo, onde vive cada vez mais gente. O foco, porque o medo do diferente une e galvaniza, é sempre o estrangeiro e a terrível ameaça que representa; depois, vêm as instituições, que urge descredibilizar. Há uma parte de Portugal que acha que não se pode sair à rua na Amadora, em Odivelas ou mesmo em Lisboa. Imagens de festas hindus num país qualquer são veiculadas como manifestações islâmicas supremacistas numa qualquer terra portuguesa, sublinhando o perigo iminente para o “português de bem” e a incompreensão pela passividade geral face à ameaça real da imigração. As reportagens de pseudo-repórteres no Martim Moniz, o aproveitamento e distorção das festas de fim de Ramadão ou outras, a invenção de factos e a revisão da história são o pão nosso de cada dia. Aparentes mães de família bramam em vídeo contra a ONU por legislação que nunca fez, acusam a OMS de promoção da pedofilia e avisam contra os inúmeros perigos de confiar no Estado. Cientistas forjados falam do tenebroso plano de controlar a população através de vacinação. Um destacado deputado do Chega faz um vídeo em que acusa a ocupação muçulmana da Península de ter explorado e abusado das nossas mulheres.

Esta persistência na infusão do medo, na insinuação permanente de que o imigrante é um marginal, de que os imigrantes gozam de impunidade perante a lei e têm mais direitos que os “portugueses de bem”, resulta num ódio crescente por parte daqueles que se deixam envolver pela narrativa. Tal como num passado de muito má memória, começaram com os ciganos, usando-os como teste e via de entrada para a construção da fractura social. De repente, havia gente que não se cruzava com um cigano há anos a discorrer sobre o fardo e ameaça que estes constituem. Seguiram-se os desgraçados do bairro da Jamaica, os muçulmanos das mesquitas de Lisboa e todos os que fazem o longo caminho da esperança desde o Indostão. Ventura chega a afirmar em directo nas televisões que Braga está “irreconhecível e tomada por gente do Indostão”. Em paralelo, estava em marcha a narrativa sobre as glórias do nosso passado colonial, os grandes feitos do Estado Novo e a urgência da restauração de uma certa ideia de Portugal que, de resto, nunca existiu.

As declarações de Ventura sobre o crime hediondo do Porto são um tratado de cinismo e o atestado da profunda má-fé que norteia a sua acção política, validando assim a sua ligação a este movimento subterrâneo aparentemente mais informal. O “sim, mas” é inaceitável. A “compreensão” por eventuais milícias e ajustes de contas é um ataque gravíssimo à democracia e ao Estado de Direito. O plantar da dúvida sobre a origem dos criminosos, que afinal serão portugueses de gema, tem o mesmo propósito. Trump, que Ventura já convidou várias vezes para vir a Portugal, faz exactamente o mesmo com os terroristas do 6 de Janeiro e com todos os criminosos que sirvam os seus intentos.

Esta é realmente a maior ameaça que enfrentamos, não aqueles que nos procuram em busca de uma vida melhor, mas os que vivem da divisão, do ódio e da violência. A imigração pode, e deve, ser regulada com humanismo, bom senso e regras claras, visando em primeiro lugar proteger os interesses de quem nos procura, e o todo, por consequência. O radicalismo é mais difícil de combater numa sociedade livre, exige melhor democracia, mais literacia, mais informação, mais cidadania e melhores protagonistas; não se resolve por decreto.

12 de Maio de 2024

https://www.publico.pt/2024/05/12/opiniao/opiniao/odio-2090074

André Cintra - Como os dicionários retratam os negros – nos EUA e no Brasil

 


Albert Hall e Denzel Washington, em cena do filme 'Malcolm X'

Visões racistas ou discriminatórias – que tratam o negro como “escravo”, “indivíduo sem alma” ou “indivíduo comercializável” – são invariavelmente predominantes nos dicionários de língua portuguesa

por André Cintra

Publicado 11/05/2024 11:13 | Editado 11/05/2024 12:11

Há uma sequência de Malcolm X (1992), o filmaço de Spike Lee, que mostra a natureza ideológica das palavras e das representações. A cena é ambientada no pátio da prisão norte-americana de Charleston. Baines (Albert Hall) tenta atrair Malcolm (Denzel Washington) para a Nação do Islã. Mas, antes do convite, há uma série de perorações sobre a relação entre brancos e negros.

“Você aceitou tudo o que o homem branco lhe disse. Ele disse que você era um pagão negro – e você acreditou nele”, afirma Baines. “Ele disse para você idolatrar um Jesus loiro, de olhos azuis, de pele branca – e você acreditou. Ele disse que o preto era uma maldição – e você acreditou. Você já procurou a palavra ‘preto’ no dicionário?”.

A dupla se dirige à biblioteca da cadeia, onde Baines abre um dicionário e lê diversas definições de “negro”: “destituído de luz”; “desprovido de cor”; “envolto na escuridão – logo, muito sombrio e obscuro, como em ‘futuro negro’” (…); “coberto de sujeira”; “imundo”; “lúgubre”; “hostil”; “proibido, como ‘um dia negro’”; “insensato ou extremamente perverso, como em ‘magia negra’”; “indica desgraça, desonra ou culpa”.

A estudante secundarista Franciele de Souza Meira

Baines empurra o dicionário até Malcolm e pede para que ele leia os diversos significados da palavra “branco”: “a cor da neve alva”; “o reflexo de todos os raios do espectro”; “o oposto de preto”; “sem manchas ou defeitos”; “inocente”; “puro” (…); “sem intenções malignas”; “inofensivo”; “honesto”; “negociação justa”; “honorável”.

A provocação dá certo, a ponto de Malcolm decidir ler e copiar todo o dicionário, de verbete em verbete. É o estopim para a mudança que transformará um “vigarista de Massachusetts” num dos líderes negros mais influentes do século 20.

Não sei se a jovem secundarista Franciele de Souza Meira, de 17 anos, já assistiu a Malcolm X. Moradora de Extrema (MG), essa estudante de ensino médio do Instituto Federal de São Paulo, matriculada no campus de Bragança Paulista (SP), foi premiada por uma pesquisa de iniciação científica que lembra a viagem de Malcolm pelo universo das palavras.

Para mostrar o “viés racista” da língua portuguesa, Franciele selecionou 17 dicionários, lançados em períodos distintos. Em cada um deles, buscou a definição de “preto” e “negro”, fazendo uma análise comparativa do discurso. Porém, das edições antigas (como o Rafael Bluteau, de 1712) até os contemporâneos (Aurélio e Houaiss), não houve adaptações significativas.

As visões racistas ou discriminatórias – que tratam o negro como “escravo”, “indivíduo sem alma” ou “indivíduo comercializável” – são invariavelmente predominantes. Apenas três dicionários – o da Academia Brasileira de Letras (1976), o de Biderman (1992) e o de Bechara (2011) – não associam “negro” e “preto” a padrões pejorativos.

“As definições encontradas em dicionários mais antigos eram esperadas de certa forma, pois esses dicionários foram publicados quando circulava, à época, um discurso pró-escravidão”, comenta Franciele. “Em relação aos dicionários mais recentes, realmente fiquei surpresa por ver que havia continuidade desse discurso, relacionando os indivíduos negros ao período escravocrata.”

Sob orientação do professor Rafael Prearo Lima, o estudo foi batizado de “Registro de ‘Preto’ e ‘Negro’ em Dicionários de Língua Portuguesa”. Em outubro de 2023, conquistou o primeiro lugar na Bragantec (Feira de Ciência e Tecnologia de Bragança Paulista), onde concorreu na categoria Ciências Humanas e Linguagens.

Cinco meses depois, em março deste ano, foi medalha de ouro na maior feira de iniciação científica da América Latina, a Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia). Franciele superou outros 43 projetos finalistas da categoria “Ciências Humanas” e recebeu a premiação em cerimônia na USP (Universidade de São Paulo).

Inicialmente, a estudante secundarista pensou em usar a literatura – e não os dicionários – para denunciar esse retrato dos negros como “inferiores, menos humanos”. Ao trocar a ficção pelo “discurso oficial”, sua pesquisa ganhou força e contundência. “As coisas que são colocadas nos dicionários representam uma ideia da sociedade. Eles mostrarão as definições que servem para aquela sociedade naquele tempo”, diz Franciele. “Não esperava que todo o discurso mostrado durante o século 20 continuasse no século 21.”

O estudo também mostra a falta que faz a efetivação da Lei 10.639/2003, que obriga escolas de ensino fundamental e médio a incluírem no currículo conteúdos sobre a história e a cultura afro-brasileiras. Não dá para mudar conceitos enraizados onde faltam novos paradigmas. A pesquisa de Franciele dá pistas do longo caminho a percorrer.

https://vermelho.org.br/2024/05/11/como-os-dicionarios-retratam-os-negros-nos-eua-e-no-brasil/

Entrevista a Serguéi Karaganov

 11 DE MAIO DE 2024

https://karaganov.ru/en

 É claro que o complexo industrial-militar-media anglo-saxónico, com a ajuda dos seus vassalos, pretende preservar a todo o custo a sua hegemonia global e as suas conquistas colonialistas.

A hegemonia não pode aceitar a mudança de paradigma de um mundo multipolar emergente.

Qualquer discussão sobre paz, diplomacia ou negociações relativas às guerras que iniciou está fora de questão. As populações ocidentais, cujas mentes estão contaminadas pelo neoliberalismo e pela russofobia, estão actualmente aterrorizadas por uma “iminente invasão russa”… O delírio em massa está a impedir que a RAZÃO regresse ao Ocidente. Como o resto do mundo pode lidar com esta loucura? E o que o resto do mundo pode esperar?

Voltamo-nos para o Professor Sergei A. Karaganov* – Presidente Honorário do Conselho de Política Externa e de Defesa (a principal organização pública de política externa da Rússia) e Diretor Acadêmico da Faculdade de Economia Mundial e Política Mundial da 'Escola Superior de Economia da Universidade de Moscou Universidade Nacional de Investigação – uma vez que há muito que oferece opiniões perspicazes sobre temas como a utilização da dissuasão nuclear como um alerta ao Ocidente para restaurar o bom senso e a necessária articulação da Rússia do Ocidente para o Oriente.

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ALERTAR O OCIDENTE CONTRA A ESCALADA

Pergunta: Para alertar o Ocidente contra uma escalada da guerra na Ucrânia e contra a sua crescente agressão contra a Rússia, você argumentou a favor da dissuasão nuclear... Você acredita que os líderes ocidentais, a maioria dos quais estão dando um sentimento totalmente irracional, podem leva essas ameaças a sério?

Professor Karaganov: Muitas elites ocidentais já não têm noção de história e perderam o sentido de autopreservação. Chamo essa condição de “parasitismo estratégico”. O mesmo se aplica a boa parte da população ocidental, que se tornou complacente em relação à paz, em grande parte garantida pela dissuasão nuclear, que não compreende. Além disso, o nível intelectual da maioria das elites caiu drasticamente devido a mudanças nos padrões morais e à deterioração do seu sistema de ensino superior – especialmente na Europa. Portanto, há muito poucas pessoas que entendem essas questões.

A situação é um pouco melhor nos Estados Unidos, que parece ter retido pelo menos os restos de uma classe política com mentalidade estratégica, mas obviamente não está a comandar o espectáculo. No entanto, alguns permanecem próximos do poder e podem, por vezes, influenciar aqueles que estão no poder.

De qualquer forma, a situação ali é bastante preocupante. Apenas um exemplo: o Presidente Biden e o seu Secretário de Estado Blinken disseram recentemente que o aquecimento global é tão mau ou pior do que a guerra nuclear. Fiquei bastante chocado. É muito louco.

As populações ocidentais, habituadas durante décadas à democracia, à prosperidade e ao consumo de massa, parecem paralisadas e não resistirão a parar e privar o lobby da guerra do seu poder. A diplomacia também não funciona mais. O que você acha que está por trás dessa complacência ocidental? Falta de imaginação sobre como poderia ser a guerra em seu próprio solo? Um caso de deficiência cognitiva, delírios patológicos, orgulho, ignorância da história? Um disfarce para seu desespero e ansiedade em relação à sua própria existência? Ou poderia ser apenas uma fachada para uma estratégia friamente calculada da parte deles?

Todos os fatores que você mencionou desempenham um papel. Embora eu acredite que o fator mais importante seja a sua incapacidade e recusa em enfrentar a realidade. As pessoas estão tão acostumadas com essas imagens tremeluzentes em suas telas que as confundem com a realidade. Este é um problema para todas as nações, mas especialmente para aquelas mais afetadas pela tecnologia digital.

Há pessoas nos círculos dominantes do Ocidente – nos Estados Unidos, mas especialmente na Europa – que estão a perder a capacidade de governar o seu povo devido a problemas crescentes que não conseguem gerir ou mesmo enfrentar… como o aumento das desigualdades sociais, migração, até mesmo questões climáticas. Claro, eu poderia continuar e continuar…

O capitalismo moderno é um sistema totalmente inadequado. Baseia-se no crescimento sem fim do consumo, que acaba por matar a Terra. Em vez de tentar reduzir o consumo, as classes políticas ocidentais modernas estão a tentar transferir o fardo do combate à poluição e até a culpar as alterações climáticas nos fabricantes (a maioria dos quais estão no mundo “em desenvolvimento”), mas não nos consumidores – a maioria dos quais). estão nos países em desenvolvimento. no chamado mundo “desenvolvido”.

A lista de problemas e desafios não resolvidos é muito longa. Os círculos dirigentes tentam desviar a atenção dos seus cidadãos destes problemas criando um inimigo. Desta vez é a Rússia... Um alvo fácil devido à sua russofobia já generalizada e profundamente enraizada, mas também porque a Rússia é relativamente "pequena" em termos de economia, e perder a Rússia como parceiro económico custa mais barato do que perder a China. (Mas o sentimento anti-China também está a aumentar, especialmente nos Estados Unidos.)

Há uma camada crescente entre as elites ocidentais que começaram a preparar os seus cidadãos para a guerra. Entretanto, os líderes ocidentais cortaram completamente todos os laços entre os seus cidadãos, os russos e a própria Rússia. O comércio e até mesmo o discurso com os russos são mais ou menos proibidos, e quem visita a Rússia acaba sendo interrogado pela polícia ou pelos serviços de segurança. É sintomático de uma preparação para a guerra, deste aumento da hostilidade. Já conseguiram transformar a maioria dos ucranianos num rebanho de odiadores, todos os quais se dirigem obedientemente para o matadouro. Em seguida vêm algumas nações europeias.

Isto tudo é bastante sombrio. Estamos a observar isto com atenção e estamos conscientes de que algumas classes políticas ocidentais ou classes dominantes estão hoje tão desesperadas que instigam guerras para esconder a sua incompetência e/ou crimes.

OS ALVOS FÁCEIS DO OCIDENTE

Muitos notaram claramente a falta de interesse da Alemanha e da UE em investigar a destruição dos gasodutos Nord Stream… Depois vieram os “Taurus Leaks”, nos quais oficiais militares alemães puderam ser ouvidos  pela primeira vez discutindo ataques na Crimeia com o Forças Armadas dos Estados Unidos. oficiais  , quatro meses antes de Scholz e Pistorius tomarem conhecimento desses planos.

Recentemente, a Suécia e a Finlândia renunciaram à sua neutralidade estatal e acolhem agora bases da NATO no seu território, o que, segundo eles, lhes proporcionará mais segurança. O que você acha que está por trás desse comportamento? Por que se permitem tornar-se os primeiros alvos de uma guerra quente contra a Rússia? Porque é que estas pessoas estão a sacrificar os seus próprios países ao estado profundo americano? A quem eles realmente servem? A sua lealdade é a outra entidade e não ao seu próprio país?

Na verdade, o nível de inteligência e o sentido de responsabilidade da maioria das classes dominantes – particularmente na Europa – deterioraram-se seriamente. Os Estados Unidos – que neste caso quase tenho de aplaudir – criaram uma imensa classe compradora na Europa… uma classe que tem muito mais no coração os interesses dos Estados Unidos e as ordens que lhe dão do que os interesses dos seus próprios países. e povos.

O estado profundo americano não está apenas ancorado nos Estados Unidos… há também uma extensão na Europa. É constituída pelo que poderíamos chamar de “a classe imperialista liberal global” que visa servir “interesses comuns”. Mas os europeus são ainda piores do que os americanos, porque sacrificam abertamente os interesses das suas nações. Eles são claramente traidores da sua pátria... E é por isso que encobriram crimes como provocar a guerra na Ucrânia, a explosão do Nord Stream... é por isso que estão até dispostos a arriscar o fornecimento de armas de longo alcance à Ucrânia. . (Curiosamente, os Americanos não fornecem abertamente armas de longo alcance, porque entendem que isso poderia levar a uma escalada, mesmo nuclear.) Portanto, os Americanos estão simplesmente a sacrificar os Europeus. Eles já estão a usar a Ucrânia como bucha de canhão… e parece que estão a preparar-se para usar os seus aliados europeus também como bucha de canhão.

Observamos estes desenvolvimentos com grande preocupação e estamos conscientes de que, infelizmente, não temos praticamente parceiros razoáveis ​​na Europa. Estamos, portanto, nos preparando para o pior cenário possível. No entanto, esperamos que, ao intensificar a nossa prática de dissuasão nuclear, possamos acalmar algumas pessoas na Europa e nos Estados Unidos. Se isto não for bem sucedido, as numerosas crises que assolam o mundo acabarão por se transformar numa Terceira Guerra Mundial.

CRISES GLOBAIS EMERGENTES

Estas crises globais emergentes são o resultado de mudanças tectónicas na actual ordem mundial, baseadas principalmente na dominação de quinhentos anos do Ocidente, em grande parte baseada na sua superioridade militar. A pólvora e os canhões foram inventados na China. Mas os europeus, constantemente em guerra, aproveitaram-no melhor e tiveram um melhor sistema de organização do seu exército. Com base nisso, começaram a colonizar o resto do mundo, suprimindo e até destruindo certas civilizações (astecas, incas), primeiro extraindo renda colonial, depois neocolonial. Mas essa base começou a ser abalada pela antiga União Soviética, quando alcançou a paridade nuclear, e agora por uma Rússia ressuscitada. A convulsão de todo este sistema deu origem a inúmeras crises e conflitos. Mas, acima de tudo, ajudou a libertar “o resto”, “o Sul global” ou, melhor, “a maioria global”.

Agora a questão não é apenas como parar o Ocidente, mas também como parar as ondas crescentes de conflitos militares em todo o mundo. Ao abordarmos os nossos principais interesses de segurança, libertámos simultaneamente o resto do mundo do domínio ocidental e minámos a sua capacidade de desviar riqueza de outros países.

O Ocidente está agora num estado de desespero. Para incutir-lhes algum bom senso, precisamos de restaurar o “medo saudável”, isto é, restaurar a validade da dissuasão nuclear. Infelizmente, não vejo outra solução neste momento. Porque muitas pessoas, especialmente no Ocidente, parecem ter perdido a cabeça e o sentido de responsabilidade. 

O GENOCÍDIO EM CURSO...

Hoje, o genocídio bárbaro que “Israel” – como outra potência colonialista ocidental – está a levar a cabo contra os palestinianos continua inabalável. O sofrimento da população civil palestiniana é inconcebível e o resto do mundo continua a observá-lo. O que está a “comunidade internacional” a fazer – para acabar com os massacres perpetrados por “Israel” e a destruição da pátria palestiniana… e para fazer com que os Estados Unidos e a União Europeia parem de apoiar “Israel”? E… diria que o genocídio na Palestina (juntamente com os ataques militares em curso na Síria) e a guerra na Ucrânia são essencialmente parte de uma “Grande Guerra” contra as nações soberanas da maioria mundial que se recusam a tornar-se vassalos do Hegemon? ?

No actual “sistema global”, a “comunidade internacional” fará muito pouco para ajudar os palestinianos.

Vejo todo o conflito palestiniano como um elo numa cadeia de conflitos desencadeada por mudanças tectónicas de poder no sistema actual e pelas tentativas desesperadas do Ocidente para manter o seu domínio. É claro que os Estados Unidos – embora se retirem externamente dos muitos países e territórios em todo o mundo que ocuparam e dominaram – estão secretamente a causar instabilidade nesses territórios, a fim de criar problemas aos seus futuros líderes. E a maioria desses territórios fica na Eurásia.

Devo dizer que nunca teria imaginado como os israelitas poderiam ter lançado esta guerra [contra a Palestina] sem o apoio aberto dos Estados Unidos. Para todos os efeitos, parece que alguns setores nos Estados Unidos decidiram iniciar uma nova grande guerra no Médio Oriente para desestabilizar toda a região (de qualquer forma, os Estados Unidos já não dependem do petróleo e do gás do Médio Oriente). Leste, portanto, não tinham interesse em manter qualquer estabilidade ali).

O massacre em Gaza minou a legitimidade de Israel e não vejo como essa legitimidade poderia alguma vez ser restaurada. Parece que temos as sementes de uma nova grande guerra no Médio Oriente e de uma nova tragédia – também para o povo judeu, que também está a ser sacrificado pela estupidez e arrogância dos líderes israelitas. Não entendo os políticos israelenses. Obviamente perderam a cabeça… tal como a classe política europeia. E os palestinos continuam a ser massacrados por causa deste programa.

Para além da utilização da ameaça nuclear como meio de dissuasão... e considerando que as "instituições globais" como a ONU e o Tribunal Internacional de Justiça são ineficazes para impedir guerras e genocídios, e que são - poder-se-ia dizer - essencialmente nas mãos das elites ocidentais… não poderíamos conceber uma medida dissuasora adicional – como uma “Aliança de Resistência” global, actuando como uma “frente” activa contra o poder unipolar?

A maioria global é potencialmente muito mais poderosa do que o antigo Movimento Não-Alinhado e está, naturalmente, a tornar-se um factor muito mais importante na política internacional. Um novo sistema irá emergir nas próximas décadas – isto é, se sobrevivermos a este período de crises e guerras… e se pudermos evitar uma Terceira Guerra Mundial, que seria provavelmente a última guerra… e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar isto.

Não vejo qualquer possibilidade de criar o que poderia ser chamado de "Aliança de Resistência" num futuro próximo... no entanto, uma Comunidade de nações livres - "livres" no sentido de serem capazes de viver e trabalhar de acordo com os seus interesses nacionais - seria uma contribuição importante para a paz mundial. Mas para alcançar um futuro mundo de nações livres, para criar mais segurança e reduzir potenciais tensões, precisaremos de reintroduzir “bloqueios de segurança” no sistema internacional.

De momento, existe apenas um “bloqueio de segurança”: a dissuasão nuclear. Precisamos também de construir um novo sistema institucional paralelamente ao sistema existente que está em colapso. A ONU pode continuar a existir, mas obviamente não pode voltar a ser eficaz, porque o seu secretariado é dominado por funcionários orientados para o Ocidente. Deveríamos, portanto, construir um sistema institucional inteiramente novo baseado no BRICS+, SCO+ e outras instituições semelhantes.

Na verdade…precisamos de um novo conjunto de instituições que não sejam dominadas pelo Ocidente, cujo poder está em declínio e cuja autoridade moral desapareceu, porque falhou em todos os sentidos – política, económica e acima de tudo eticamente – depois de desencadear incontáveis ​​actos brutais. de violência. agressão quando teve a oportunidade de ditar o destino da comunidade mundial. Esta era do “momento unipolar” atingiu o seu auge na década de 1990 e no início de 2000.

As potências ocidentais mostraram o que valem. Eles agora devem ser deixados de lado. Temos de construir um sistema paralelo de governação global – um sistema que seja mais justo e mais eficaz. Precisamos de um novo Tribunal Internacional de Justiça, de instituições que ajudem a reduzir a fome no mundo e de instituições que trabalhem para melhorar a saúde global (durante a pandemia de Covid vimos como as nações ocidentais, que praticamente controlavam as instituições globais, não conseguiram lidar com a situação). enfrentar este desafio de forma adequada e adequada).

COLONIALISMO VERSUS INTERNACIONALISMO

A Rússia czarista era uma potência colonial e estava em competição feroz com os estados coloniais da Europa Ocidental, particularmente o Império Britânico. Como o colonialismo russo czarista diferia, digamos, do colonialismo britânico?

Sim, em muitos aspectos a Rússia czarista era uma potência colonial, mas era muito diferente das potências coloniais ocidentais. Quando os russos avançaram para leste e sul, conquistando e desenvolvendo a Sibéria, não recorreram a meios genocidas. Como os russos se misturaram com as elites locais, houve um grande número de casamentos interétnicos, de modo que os russos não eram colonialistas nos moldes ocidentais. Os czares até convidaram as elites locais para se juntarem à nobreza russa. Parece que quase duplicámos o número de príncipes que tínhamos quando incorporámos a Geórgia, cuja nobreza afirmava ser príncipe. Metade da nobreza russa era etnicamente não-russa. A Rússia absorveu as culturas dos povos colonizados em vez de suprimi-las. O racismo é quase completamente estranho aos russos.

Embora a Rússia tenha beneficiado naturalmente da riqueza dos países vizinhos, na maioria dos casos subsidiou-os... e este foi particularmente o caso durante a era soviética, quando a Rússia era o principal fornecedor de riqueza. Acredito que todas as repúblicas da antiga União Soviética, exceto uma, foram fortemente subsidiadas.

Somos, portanto, uma potência colonial apenas no nome. Em muitos aspectos, a Rússia metropolitana era uma colónia dos seus subúrbios. Depois, devido à sua necessidade de segurança, a Rússia expandiu-se, mas em muitos casos pagou um preço económico por esta expansão. Por exemplo, após a Segunda Guerra Mundial, a Ucrânia foi reconstruída antes de áreas da Rússia propriamente dita que tinham sofrido com a ocupação nazi. Podemos também constatar com certo orgulho que a maior parte das civilizações dos povos nórdicos da Sibéria persistiram até aos dias de hoje (ao contrário destes territórios usurpados nos Estados Unidos ou noutros lugares). Algumas das suas populações até aumentaram, por exemplo em Yakutia. Estudiosos russos e, especialmente, soviéticos criaram línguas escritas para esses povos e, claro, trouxeram a educação com eles. As línguas escritas das regiões bálticas, hoje estados, foram desenvolvidas em São Petersburgo no final do século XIX.

A Rússia não era, portanto, “colonialista” no sentido tradicional do termo. Em última análise, tratava-se da criação de um Estado comum em que as elites locais e as populações locais – que não eram de etnia russa – pudessem desempenhar um papel igual, e por vezes até mais importante e privilegiado, do que os próprios russos étnicos. É também uma consequência da nossa história... Fomos colonizados pelo império de Genghis Khan, mas os mongóis não nos impuseram a sua cultura, a sua língua ou as suas crenças. Nossa expansão imitou mais ou menos esse tipo de expansão. Portanto, não descreveria a nossa expansão como “colonialista”, mas sim “internacionalista”.

E, claro, a nossa expansão trouxe-nos recursos, especialmente da Sibéria. Primeiro foram as peles, o que chamamos de “ouro macio”, depois todos os tipos de pedras preciosas, prata, ouro, depois petróleo, gás. E agora a Sibéria é o celeiro da Rússia, a base do nosso futuro. A Sibéria fornecerá à Rússia e à Eurásia alimentos, água e recursos naturais durante décadas, senão séculos.

IMPÉRIOS VERSUS CIVILIZAÇÕES

Alguns defensores de um futuro mundo multipolar falam em reunir regiões geográficas do mundo em “impérios”… Qual seria então a posição da Rússia? A noção de “construir vários impérios” não representaria um problema num mundo multipolar?

É muito cedo para falar em impérios futuros, mas um império – além de ter sido por vezes um território de poder que reprimiu outros povos – foi também por vezes uma área que proporcionou segurança e bem-estar a muitos povos.

Não tenho certeza se veremos um mundo com vários impérios importantes. Acredito que já ultrapassamos esse período da história. Se falarmos da Rússia, será um dos centros culturais, políticos, económicos e militares do mundo. Será uma “civilização de civilizações” abrangendo muitos grupos étnicos… uma civilização eurasiana aberta a outros.

Pessoalmente, não gostaria que a Rússia se tornasse novamente um vasto império, porque a forma russa de construir um império foi, em última análise, à custa dos próprios russos. Os seus objectivos podem ter sido nobres, mas tiveram um custo demasiado elevado para o povo russo. Prefiro ver-nos como uma civilização de civilizações: respeitando os outros, aprendendo com as experiências de todas as nações... um guardião político-militar que garante a liberdade de outras nações escolherem o seu próprio caminho. Libertar o mundo da hegemonia é, em última análise, o nosso destino manifesto.

OLHANDO PARA O ORIENTE E PARA A MAIORIA MUNDIAL

A Rússia é a anfitriã do BRICS+ este ano… A Rússia também organizou e acolheu recentemente a Conferência Multipolaridade, o Festival Internacional da Juventude e muitos outros eventos para reunir a maioria mundial… O que poderia a Rússia aprender com a Ásia? África? América latina? E o que estas regiões poderiam aprender com a Rússia?

Aprendemos uns com os outros. Os russos têm a particularidade de ser uma nação culturalmente aberta. Esta abertura cultural é na verdade a própria essência de ser “russo”. Nascemos como uma “nação de nações”. Somos conhecidos como uma civilização estatal. Mas, mais uma vez, eu chamar-nos-ia “uma civilização de civilizações”. Ao longo dos séculos do nosso desenvolvimento, acolhemos muitas civilizações e somos, quase por definição, internacionalistas. É claro que temos racistas e chauvinistas na Rússia. Mas, no geral, os russos são excepcionalmente internacionalistas. Estamos, portanto, mais bem preparados do que a maioria para enfrentar o mundo multipolar, multicultural e multirracial de amanhã. Devemos aprender uns com os outros a viver em paz, respeitar e apoiar as culturas uns dos outros, desenvolver a nossa própria cultura e promovê-la em todo o mundo. Mas acima de tudo, devemos respeitar o carácter único de cada povo e promover um enriquecimento intercultural positivo.

Estou muito optimista em relação ao mundo que está por vir, se conseguirmos evitar uma Terceira Guerra Mundial. Mas esta é a nossa tarefa comum.

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*Sergey Aleksandrovich Karaganov

Biografia detalhada:  https://karaganov.ru/en/

Especialização: Políticas externas e de defesa soviética/russa, aspectos económicos e de segurança da interacção russo-europeia, pivô russo para o Oriente.

Autor e editor de 28 livros e panfletos, publicou cerca de 600 artigos sobre política externa econômica, controle de armas, estratégia de segurança nacional, política externa e de defesa da Rússia. Artigos e livros foram publicados em mais de 50 países.

Presidente do conselho editorial e editor da revista “Russia in Global Affairs”. As opiniões mencionadas neste artigo não refletem necessariamente a opinião de Al Mayadeen, mas expressam exclusivamente a opinião do seu autor.

Publicada por Pena Preta à(s) sábado, maio 11, 2024 

https://foicebook.blogspot.com/2024/05/entrevista-de-karaganov.html