sábado, 17 de outubro de 2026

São José Almeida - Pedro Passos Coelho, a tentativa de golpe interno e o fim do PSD

* São José Almeida

A entrevista feita por Maria João Avillez ao antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, na SIC Notícias, no domingo passado, não me surpreendeu. Na minha opinião, foi até um momento político confrangedor. Com a convicção com que sempre defende as suas posições, Pedro Passos Coelho deu um passo em frente na possibilidade de se voltar a candidatar à liderança do PSD. Um comportamento que, associado às críticas que teceu ao actual primeiro-ministro e líder do PSD, Luís Montenegro, surgiu como um abrir de portas a uma tentativa de golpe de Estado interno no PSD.

Numa surpreendente declaração sobre a sua vontade de voltar ao poder executivo, Pedro Passos Coelho tentou defenestrar o actual chefe do Governo: “Se eu tivesse de equacionar uma possibilidade dessas, isso teria de corresponder a uma situação em que o PSD visivelmente não tivesse a possibilidade de entregar um resultado satisfatório face àquilo que o país precisa e de eu achar que eu o poderia fazer. E, se isso vier a acontecer, eu ponderarei e tomarei uma iniciativa, se for caso disso.”

E, voltando a defender que o PSD devia, logo no início da legislatura, ter feito um acordo com o Chega e a Iniciativa Liberal, Pedro Passos Coelho teceu elogios ao líder de direita radical populista André Ventura e considerou-o um político de “bastante mérito”, com “poder de iniciativa notável”, que foi capaz de construir um partido com o peso eleitoral do Chega.

Logo na noite de segunda-feira, num jantar do PSD, para comemorar um ano da conquista do município do Porto, Luís Montenegro tratou de responder. Sem nunca referir o nome de Pedro Passos Coelho, não deixou de afirmar que aqueles que desejam o seu “insucesso político” terão de “esperar sentados”.

Na mesma segunda-feira, também o líder do Chega, André Ventura, respondeu a Pedro Passos Coelho, em termos que são até humilhantes para o antigo primeiro-ministro. Tratou de afirmar que, logo a seguir às últimas legislativas, tinha proposto ao PSD um acordo à direita, para que fossem criadas “condições de unidade para fazer reformas na área da saúde, da segurança, da agricultura, da justiça”, acrescentando: “Mas, francamente, esse tempo já passou. Os protagonistas do PSD, na altura, entenderam que isso não devia ser feito, nós respeitámos, e a vida continua. Portanto, eu acho que essa crítica, que é justa, não é certamente para o Chega; o Chega esteve disponível para construir essa maioria, que, depois, por decisões de líderes do PSD e não do Chega, acabou por não se construir.”

E, baseando-se nos estudos de opinião que colocam o Chega à frente do PSD, André Ventura considerou que “não faz muito sentido agora estar a falar de um governo liderado por Montenegro nestas condições, com o Chega como parceiro”. Para inverter a proposta de Pedro Passos Coelho e afirmar que o Chega tem de “liderar as alternativas à governação” e concluir: “Eu tenho de construir essa alternativa à governação, porque, quando governar, e eu espero que isso aconteça, eu quero ter um governo maioritário, quero ter um governo com condições de governar, e quero poder fazer reformas.” Seguindo a lógica do líder do Chega, será que Pedro Passos Coelho aceitaria ser vice-primeiro-ministro de André Ventura?

Já a 8 de Novembro 2025, neste espaço de opinião, questionei as reais possibilidades e o espaço político que Pedro Passos Coelho tem para voltar a liderar o PSD e tentar ser primeiro-ministro. Não só pela forma como a memória da sua anterior governação provoca reacções e unifica à esquerda, mas também porque o PSD não é o PSD de há uma década. O país mudou e o PSD também mudou. Tem novas gerações de dirigentes, de militantes e de eleitores. Como então escrevi, há um vasto grupo de comentadores políticos que alimentam, em relação a Pedro Passos Coelho, um fenómeno de sebastianismo. O que eu não esperava é que a sede de poder e de protagonismo de Pedro Passos Coelho ficasse tão ávida que o levassem a dar o passo que deu, no sentido de abater Luís Montenegro, como líder do PSD e primeiro-ministro.

Continuo, contudo, a pensar que o tempo de Pedro Passos Coelho passou. Mais. Duvido que tenha sucesso eleitoral se regressar à liderança do PSD, para assumir uma aliança de poder com o Chega. Os níveis de votação com que António José Seguro foi eleito Presidente da República mostram a rejeição que André Ventura provoca no eleitorado. E tudo indica que, se tal aliança política vier a existir, o ideário político do PSD será adulterado e será desviado para um programa político ainda mais neoliberal do que o do actual Governo. Seria, provavelmente, ultraliberal, extremista, populista de direita radical. Até porque Pedro Passos Coelho abriu a porta a esse extremismo, quando era primeiro-ministro, e tem pressionado Luís Montenegro, criticando-o por não fazer reformas.

É certo que Pedro Passos Coelho exige reformas, mas não explicou ainda o que são essas suas reformas, no concreto. Só nesta entrevista a Maria João Avillez, na SIC Notícias, deixou um indicador claro do que pensa sobre o que deve ser feito para resolver os problemas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), ao afirmar que “o Estado já não tem autoridade para reabilitar o Serviço Nacional de Saúde, como ele precisava de ser reabilitado”. Só não concluiu a ideia, assumindo a defesa da entrega da gestão do SNS aos grupos privados de saúde, mas esta ideia ficou implícita. Isto quando o SNS já está a financiar os grupos privados de saúde, com a externalização de serviços de saúde. Até já há centros de saúde que são geridos pelo sector privado.

Um regresso de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD e a eventual aliança política de governação com o Chega podem até vir a acontecer, mas isso significará o fim do PSD, que ajudou a construir a democracia portuguesa.

P]ublico 2026 10 17

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