A entrevista
feita por Maria João Avillez ao antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho,
na SIC Notícias, no domingo passado, não me surpreendeu. Na minha opinião, foi
até um momento político confrangedor. Com a convicção com que sempre defende as
suas posições, Pedro Passos Coelho deu um passo em frente na possibilidade de
se voltar a candidatar à liderança do PSD. Um comportamento que, associado às
críticas que teceu ao actual primeiro-ministro e líder do PSD, Luís Montenegro,
surgiu como um abrir de portas a uma tentativa de golpe de Estado interno no
PSD.
Numa
surpreendente declaração sobre a sua vontade de voltar ao poder executivo,
Pedro Passos Coelho tentou defenestrar o actual chefe do Governo: “Se eu
tivesse de equacionar uma possibilidade dessas, isso teria de corresponder a
uma situação em que o PSD visivelmente não tivesse a possibilidade de entregar
um resultado satisfatório face àquilo que o país precisa e de eu achar que eu o
poderia fazer. E, se isso vier a acontecer, eu ponderarei e tomarei uma
iniciativa, se for caso disso.”
E, voltando
a defender que o PSD devia, logo no início da legislatura, ter feito um acordo
com o Chega e a Iniciativa Liberal, Pedro Passos Coelho teceu elogios ao líder
de direita radical populista André Ventura e considerou-o um político de
“bastante mérito”, com “poder de iniciativa notável”, que foi capaz de
construir um partido com o peso eleitoral do Chega.
Logo na
noite de segunda-feira, num jantar do PSD, para comemorar um ano da conquista
do município do Porto, Luís Montenegro tratou de responder. Sem nunca referir o
nome de Pedro Passos Coelho, não deixou de afirmar que aqueles que desejam o
seu “insucesso político” terão de “esperar sentados”.
Na mesma
segunda-feira, também o líder do Chega, André Ventura, respondeu a Pedro Passos
Coelho, em termos que são até humilhantes para o antigo primeiro-ministro.
Tratou de afirmar que, logo a seguir às últimas legislativas, tinha proposto ao
PSD um acordo à direita, para que fossem criadas “condições de unidade para
fazer reformas na área da saúde, da segurança, da agricultura, da justiça”,
acrescentando: “Mas, francamente, esse tempo já passou. Os protagonistas do
PSD, na altura, entenderam que isso não devia ser feito, nós respeitámos, e a
vida continua. Portanto, eu acho que essa crítica, que é justa, não é
certamente para o Chega; o Chega esteve disponível para construir essa maioria,
que, depois, por decisões de líderes do PSD e não do Chega, acabou por não se
construir.”
E,
baseando-se nos estudos de opinião que colocam o Chega à frente do PSD, André
Ventura considerou que “não faz muito sentido agora estar a falar de um governo
liderado por Montenegro nestas condições, com o Chega como parceiro”. Para
inverter a proposta de Pedro Passos Coelho e afirmar que o Chega tem de
“liderar as alternativas à governação” e concluir: “Eu tenho de construir essa
alternativa à governação, porque, quando governar, e eu espero que isso
aconteça, eu quero ter um governo maioritário, quero ter um governo com
condições de governar, e quero poder fazer reformas.” Seguindo a lógica do
líder do Chega, será que Pedro Passos Coelho aceitaria ser
vice-primeiro-ministro de André Ventura?
Já a 8 de
Novembro 2025, neste espaço de opinião, questionei as reais possibilidades e o
espaço político que Pedro Passos Coelho tem para voltar a liderar o PSD e
tentar ser primeiro-ministro. Não só pela forma como a memória da sua anterior
governação provoca reacções e unifica à esquerda, mas também porque o PSD não é
o PSD de há uma década. O país mudou e o PSD também mudou. Tem novas gerações
de dirigentes, de militantes e de eleitores. Como então escrevi, há um vasto
grupo de comentadores políticos que alimentam, em relação a Pedro Passos
Coelho, um fenómeno de sebastianismo. O que eu não esperava é que a sede de
poder e de protagonismo de Pedro Passos Coelho ficasse tão ávida que o levassem
a dar o passo que deu, no sentido de abater Luís Montenegro, como líder do PSD
e primeiro-ministro.
Continuo,
contudo, a pensar que o tempo de Pedro Passos Coelho passou. Mais. Duvido que
tenha sucesso eleitoral se regressar à liderança do PSD, para assumir uma
aliança de poder com o Chega. Os níveis de votação com que António José Seguro
foi eleito Presidente da República mostram a rejeição que André Ventura provoca
no eleitorado. E tudo indica que, se tal aliança política vier a existir, o
ideário político do PSD será adulterado e será desviado para um programa
político ainda mais neoliberal do que o do actual Governo. Seria,
provavelmente, ultraliberal, extremista, populista de direita radical. Até
porque Pedro Passos Coelho abriu a porta a esse extremismo, quando era
primeiro-ministro, e tem pressionado Luís Montenegro, criticando-o por não
fazer reformas.
É certo que
Pedro Passos Coelho exige reformas, mas não explicou ainda o que são essas suas
reformas, no concreto. Só nesta entrevista a Maria João Avillez, na SIC
Notícias, deixou um indicador claro do que pensa sobre o que deve ser feito
para resolver os problemas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), ao afirmar que
“o Estado já não tem autoridade para reabilitar o Serviço Nacional de Saúde,
como ele precisava de ser reabilitado”. Só não concluiu a ideia, assumindo a
defesa da entrega da gestão do SNS aos grupos privados de saúde, mas esta ideia
ficou implícita. Isto quando o SNS já está a financiar os grupos privados de
saúde, com a externalização de serviços de saúde. Até já há centros de saúde
que são geridos pelo sector privado.
Um regresso de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD e a eventual aliança política de governação com o Chega podem até vir a acontecer, mas isso significará o fim do PSD, que ajudou a construir a democracia portuguesa.
P]ublico 2026 10 17
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