quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Marta Pinho Alves . Obrigada, Senhor Colombo




* Marta Pinho Alves

“Soy Cuba”, não obs­tante o seu per­curso er­rá­tico, é ex­tra­or­di­nário

Um dos muitos temas fora da agenda me­diá­tica oci­dental do­mi­nante são as con­sequên­cias do blo­queio a Cuba, que dura desde há apro­xi­ma­da­mente sete dé­cadas, e do mais re­cente cerco ener­gé­tico im­posto à mesma nação por Do­nald Trump, da­tado de Ja­neiro do cor­rente ano, e que se mantém em vigor, apesar da sua clara vi­o­lação dos prin­cí­pios do di­reito in­ter­na­ci­onal e da Carta das Na­ções Unidas. Ha­vana, a ca­pital cu­bana, vive hoje com apa­gões de quase 40 horas con­se­cu­tivas e resto do país até 72 horas. A eco­nomia está pa­ra­li­sada, em par­ti­cular no ramo do Tu­rismo, e o país so­bre­vive sem as con­di­ções mais bá­sicas para o dia-a-dia, como acesso a água, trans­portes ou re­colha de lixo.

Re­cu­perar “Soy Cuba”, filme de 1964, sobre a Re­vo­lução Cu­bana, [realizado pelo soviético Mikhail Kalatozov] não é apenas uma von­tade ci­né­fila, nem se jus­ti­fica apenas pela mes­tria formal ci­ne­ma­to­grá­fica, mas é um acon­te­ci­mento po­lí­tico que nos per­mite olhar para esta nação e as suas imensas con­quistas, acom­pa­nhadas e também ocul­tadas pela sua luta per­ma­nente contra as po­tên­cias opres­soras.

O filme foi pre­pa­rado du­rante quatro anos e fil­mado em dois pelo ge­or­giano Mikhail Ka­la­tozov que contou com fundos pro­ve­ni­entes da União So­vié­tica para do­cu­mentar a Re­vo­lução Cu­bana. Do­tado de uma equipa alar­gada, o ci­ne­asta já con­sa­grado, par­ti­cu­lar­mente como do­cu­men­ta­rista, des­locou-se até Cuba para filmar a mu­dança de sis­tema e apre­sentou o filme con­cluído em 1964. “Soy Cuba” terá es­treado em Ha­vana e em Mos­covo assim que ficou con­cluído, em­bora não haja re­gistos da sua pos­te­rior cir­cu­lação. Afirma-se que foram os mes­tres da nova Hollywood, Martin Scor­sese e Francis Ford Cop­pola, que deram uma nova vida ao filme ao re­des­cobri-lo nos anos 1990 e con­tri­buindo para a sua re­po­sição nos ci­nemas e dis­cussão. Há in­clu­si­va­mente uma frase la­pidar de Scor­sese que é agora usada para pro­mover o filme: o ci­nema (de Hollywood, pres­supõe-se) teria evo­luído muito mais ra­pi­da­mente, do ponto de vista es­té­tico, se este filme ti­vesse sido visto antes. Faz-se de­pender a re­le­vância de um ob­jeto his­tó­rico e a sua va­li­dação ar­tís­tica e so­cial de uma visão do­mi­nante. «Obri­gada, se­nhor Co­lombo», como agra­dece iro­ni­ca­mente Cuba no início da nar­ração do filme por ter sido “des­co­berta”.

“Soy Cuba” foi am­pla­mente dis­cu­tido na aca­demia e na co­mu­ni­dade ci­né­fila em me­ados de 1990 na Amé­rica La­tina, não sa­bemos se ex­cedeu esse con­texto, e foi agora es­treado co­mer­ci­al­mente em Por­tugal pela Midas, em­bora res­trito a ci­nemas de rua e ci­ne­clubes e, como tal, a um pú­blico ca­rac­te­ri­zado por uma li­te­racia ci­ne­ma­to­grá­fica avan­çada. Sobre este tó­pico po­demos dis­cutir noutro mo­mento, o pro­blema não tem a ver com a es­treia, mas com os há­bitos e prá­ticas de dis­tri­buição e fruição do ci­nema no Por­tugal con­tem­po­râneo.

O filme, não obs­tante o seu per­curso er­rá­tico, é ex­tra­or­di­nário. Da pers­pec­tiva formal é de uma imensa com­ple­xi­dade, quer pelo de­am­bular fre­né­tico da câ­mara que nos in­troduz na ver­tigem da vida das per­so­na­gens des­fa­sadas da sua re­a­li­dade e con­di­ci­o­nadas pelo re­gime que as oprime, quer pelos cons­tantes pi­cados e con­tra­pi­cados e as­si­nalam as des­pro­por­ções de força, quer ainda pelos dois planos sequência, o que voa do topo de um edi­fício até mer­gu­lhar na pis­cina no solo, e o que acom­panha um fu­neral e atra­vessa o seu cor­tejo, pas­sando pelas pes­soas que o in­te­gram e pla­nando de­pois entre e dentro dos pré­dios ao seu redor.

Serão talvez as suas per­so­na­gens e si­tu­a­ções que o tornam ainda mais mag­ní­fico. O ven­dedor de fruta op­ti­mista e a perda da ino­cência, as mu­lheres que so­bre­vivem como pros­ti­tutas e a cons­ta­tação de que não há lugar a ilu­sões. Os es­paços de mi­séria e de­gra­dação não são apenas fí­sicos, mas também mo­rais. No con­texto ci­ta­dino, vemos os es­tu­dantes, os in­te­lec­tuais, que lutam, per­ce­bendo da forma mais dura que os actos in­di­vi­duais não bastam e que apenas a or­ga­ni­zação co­le­tiva os torna ca­pazes de en­frentar a di­ta­dura de Ba­tista. É im­pres­si­o­nante a fi­gura do ma­ri­nheiro norte-ame­ri­cano, a que o ci­nema de Hollywood tantas vezes re­correu (veja-se “Um Ame­ri­cano em Paris”), como signo de can­dura e dig­ni­dade, que aqui surge cor­rupto e cau­sador de de­gra­dação. O cam­pe­si­nato e os seus tra­ba­lha­dores com­pre­endem que a força do seu tra­balho em­pe­nhado e di­fícil nada pode contra o de­tentor da terra. Fi­nal­mente, é pela força da guer­rilha e da co­ragem dos que de tudo ab­dicam que surge uma es­pe­rança de re­co­meço.

A marcha final de ce­le­bração da vi­tória as­si­nala a força do povo e a po­tência da con­vicção do novo al­vo­recer.

2026 09 24

https://www.avante.pt/pt/2756/argumentos/185182/Obrigada-Senhor-Colombo.htm

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