* Domingos Lobo
Filipe Rua percorre toda a paleta social das pequenas aldeias do Alto Douro
Se a grande e imprescindível novidade da nossa Festa do Livro foi a apresentação pública do livro sobre os 50 anos da Festa do Avante!, livro que nos conta e reproduz em imagens icónicas o muito que de belo, de incontornável e único aconteceu ao longo de cinco históricas décadas, pelos vários espaços que a Festa percorreu até encontrar o seu chão próprio, a sua casa frente à belíssima baía do Seixal. A política, a amizade, a solidariedade internacionalista, o melhor da nossa música e das músicas do mundo, estiveram sempre presentes, completando a magia e a fraternidade de muitas noites e dias das nossas vidas. Este ano não foi diferente, mas andava pelo ar um raro sortilégio, respirava-se uma atmosfera de alegria, de júbilo e de orgulho: a nossa Festa, mesmo contra as diatribes sazonais, afirmou-se uma vez mais como espaço cultural, social e cívico de excelência.
A Festa do Livro foi, como habitualmente, a montra de grandes livros e de reunião de leitores atentos e participativos que, nesta edição, redobraram a frequência. O espaço de apresentação de algumas das novidades, e muitas foram, esteve sempre repleto e com forte participação de jovens, o que muito nos apraz registar. Das novidades, com olhar mais atento sobre a ficção e o ensaio, daremos conta nestas crónicas ao longo de alguns meses. Hoje, dado ter-se tornado um dos livros mais requisitados na Festa, estreia absoluta do seu autor, vamos debruçar-nos sobre o livro “Memórias transmontanas e de outros lugares”, de Filipe Rua.
Numa primeira abordagem, o livro remete-nos, num estilo de antropologia social, que junta a ficção atrelada a um cru e sereno realismo, para o Torga de os “Diários” e, nos ruralismos que percorrem salutarmente a diegese, para o Aquilino de “Terras do Demo”, embora a realidade que Filipe Rua nos dá a ler seja, apesar das duras condições de vida e de trabalho nas terras frias do alto Douro transmontano (estamos já nos 1950/60), mais atenuada do que a descrita por Torga ou Ferreira de Castro.
O autor traça de algumas personagens, da paisagem, dos hábitos e costumes, das agrestes condições de vida e de trabalho, um poderoso retrato social, ao qual não faltam os rituais pagãos, as festas e romarias, a Fé profunda do povo transmontano, aquilatada ao poder tutelar da Igreja; o amor à família como eixo central de uma certa e ordenada forma de vida, que só a emigração dos inícios de 1950 abalará e, nos anos 1960, a guerra colonial, com a fuga de muitos mancebos, que se negavam a participar numa guerra injusta e sem sentido, para França, Alemanha e Suíça, principalmente.
Filipe Rua percorre toda a paleta social das pequenas aldeias do Alto Douro, desde as casas celtiberas, à criação do gado, os rituais da matança do porco, dieta essencial nesses anos de fome e miséria a que o salazarismo condenou muitas comunidades rurais, a gastronomia de sobrevivência, o pão escasso, a sardinha para três famintas bocas, a malga de caldo ralo, a fome dos mais novos disfarçada com sopas de vinho, ou de “cavalo cansado”, como então se dizia. Também a condição subalterna e sofrida das mulheres, muito longe das que Salazar retratava nas suas “lições”; as mulheres abandonadas às quais cabia a tarefa dura de criar a prole sem meios nem ajudas (e, neste particular, lembramo-nos das mulheres “viúvas de vivos”, de Joaquim Lagoeiro), as tarefas do campo de sol a sol, das dez da manhã às quatro da tarde é o verdadeiro inferno […] nem os cães se atrevem a andar ao Sol nesta altura. Até os lagartos se escondem. As crianças e as difíceis caminhadas para a escola: De boné de orelhas, sem estar apertado debaixo dos queixos, sete e tal da manhã, seguia o raparigo de passo apertado para não chegar tarde à escola, ainda era mais de uma hora de caminho. Aquele nevoeiro mijão ia-lhe ensopando de fora para dentro, mas o calor do seu corpo e o passo apressado também ajudavam a enxugar de dentro para fora.
As feiras de gado, as tabernas, os que sonhavam a fuga daquela pasmaceira em que a vida se gastava inutilmente, onde, como nas cantigas de roda, “trabalho/mato o meu corpo/não tenho nada de meu”. Dividido em três grupos de narrativas: “A Família, a Fé, as Terras e os Animais”; “A Escola e o Trabalho Infantil”; e “A Emigração e a Guerra Colonial”, este livro de Filipe Rua é uma abordagem atenta e informada, eivada de linguajares e vocábulos há muito esquecidos, roteiro sensitivo e crítico da realidade vivida em terras de Trás-os-Montes; a fome, a entreajuda, a resiliência de um povo orgulhoso e indómito, até aos alvores libertários de Abril, tudo isto minuciosamente contado em pequenas crónicas/contos, onde o pícaro caminha a par da denúncia dos tempos bárbaros, das condições miseráveis de vida e da fuga a salto para geografias mais pródigas.
Ficção e verdade num livro que se estrutura exemplar, para que a memória de tempos cruéis, não se perca na desmemória que alguns tentam impor-nos como norma e fuga ao real.
2026 09 24
https://www.avante.pt/pt/2756/argumentos/185181/%E2%80%9CMem%C3%B3rias-Transmontanas-e-de-Outros-Lugares%E2%80%9D-de-Filipe-Rua.htm

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