quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Domingos Lobo . “Memórias Transmontanas e de Outros Lugares”, de Filipe Rua



* Domingos Lobo

Fi­lipe Rua per­corre toda a pa­leta so­cial das pe­quenas al­deias do Alto Douro


Se a grande e im­pres­cin­dível no­vi­dade da nossa Festa do Livro foi a apre­sen­tação pú­blica do livro sobre os 50 anos da Festa do Avante!, livro que nos conta e re­produz em ima­gens icó­nicas o muito que de belo, de in­con­tor­nável e único acon­teceu ao longo de cinco his­tó­ricas dé­cadas, pelos vá­rios es­paços que a Festa per­correu até en­con­trar o seu chão pró­prio, a sua casa frente à be­lís­sima baía do Seixal. A po­lí­tica, a ami­zade, a so­li­da­ri­e­dade in­ter­na­ci­o­na­lista, o me­lhor da nossa mú­sica e das mú­sicas do mundo, es­ti­veram sempre pre­sentes, com­ple­tando a magia e a fra­ter­ni­dade de muitas noites e dias das nossas vidas. Este ano não foi di­fe­rente, mas an­dava pelo ar um raro sor­ti­légio, res­pi­rava-se uma at­mos­fera de ale­gria, de jú­bilo e de or­gulho: a nossa Festa, mesmo contra as di­a­tribes sa­zo­nais, afirmou-se uma vez mais como es­paço cul­tural, so­cial e cí­vico de ex­ce­lência.



A Festa do Livro foi, como ha­bi­tu­al­mente, a montra de grandes li­vros e de reu­nião de lei­tores atentos e par­ti­ci­pa­tivos que, nesta edição, re­do­braram a frequência. O es­paço de apre­sen­tação de al­gumas das no­vi­dades, e muitas foram, es­teve sempre re­pleto e com forte par­ti­ci­pação de jo­vens, o que muito nos apraz re­gistar. Das no­vi­dades, com olhar mais atento sobre a ficção e o en­saio, da­remos conta nestas cró­nicas ao longo de al­guns meses. Hoje, dado ter-se tor­nado um dos li­vros mais re­qui­si­tados na Festa, es­treia ab­so­luta do seu autor, vamos de­bruçar-nos sobre o livro “Me­mó­rias trans­mon­tanas e de ou­tros lu­gares”, de Fi­lipe Rua.

Numa pri­meira abor­dagem, o livro re­mete-nos, num es­tilo de an­tro­po­logia so­cial, que junta a ficção atre­lada a um cru e se­reno re­a­lismo, para o Torga de os “Diá­rios” e, nos ru­ra­lismos que per­correm sa­lu­tar­mente a di­e­gese, para o Aqui­lino de “Terras do Demo”, em­bora a re­a­li­dade que Fi­lipe Rua nos dá a ler seja, apesar das duras con­di­ções de vida e de tra­balho nas terras frias do alto Douro trans­mon­tano (es­tamos já nos 1950/​60), mais ate­nuada do que a des­crita por Torga ou Fer­reira de Castro.

O autor traça de al­gumas per­so­na­gens, da pai­sagem, dos há­bitos e cos­tumes, das agrestes con­di­ções de vida e de tra­balho, um po­de­roso re­trato so­cial, ao qual não faltam os ri­tuais pa­gãos, as festas e ro­ma­rias, a Fé pro­funda do povo trans­mon­tano, aqui­la­tada ao poder tu­telar da Igreja; o amor à fa­mília como eixo cen­tral de uma certa e or­de­nada forma de vida, que só a emi­gração dos iní­cios de 1950 aba­lará e, nos anos 1960, a guerra co­lo­nial, com a fuga de muitos man­cebos, que se ne­gavam a par­ti­cipar numa guerra in­justa e sem sen­tido, para França, Ale­manha e Suíça, prin­ci­pal­mente.

Fi­lipe Rua per­corre toda a pa­leta so­cial das pe­quenas al­deias do Alto Douro, desde as casas cel­ti­beras, à cri­ação do gado, os ri­tuais da ma­tança do porco, dieta es­sen­cial nesses anos de fome e mi­séria a que o sa­la­za­rismo con­denou muitas co­mu­ni­dades ru­rais, a gas­tro­nomia de so­bre­vi­vência, o pão es­casso, a sar­dinha para três fa­mintas bocas, a malga de caldo ralo, a fome dos mais novos dis­far­çada com sopas de vinho, ou de “ca­valo can­sado”, como então se dizia. Também a con­dição su­bal­terna e so­frida das mu­lheres, muito longe das que Sa­lazar re­tra­tava nas suas “li­ções”; as mu­lheres aban­do­nadas às quais cabia a ta­refa dura de criar a prole sem meios nem ajudas (e, neste par­ti­cular, lem­bramo-nos das mu­lheres “viúvas de vivos”, de Jo­a­quim La­go­eiro), as ta­refas do campo de sol a sol, das dez da manhã às quatro da tarde é o ver­da­deiro in­ferno […] nem os cães se atrevem a andar ao Sol nesta al­tura. Até os la­gartos se es­condem. As cri­anças e as di­fí­ceis ca­mi­nhadas para a es­cola: De boné de ore­lhas, sem estar aper­tado de­baixo dos queixos, sete e tal da manhã, se­guia o ra­pa­rigo de passo aper­tado para não chegar tarde à es­cola, ainda era mais de uma hora de ca­minho. Aquele ne­vo­eiro mijão ia-lhe en­so­pando de fora para dentro, mas o calor do seu corpo e o passo apres­sado também aju­davam a en­xugar de dentro para fora.

As feiras de gado, as ta­bernas, os que so­nhavam a fuga da­quela pas­ma­ceira em que a vida se gas­tava inu­til­mente, onde, como nas can­tigas de roda, “tra­balho/​mato o meu corpo/​não tenho nada de meu”. Di­vi­dido em três grupos de nar­ra­tivas: “A Fa­mília, a Fé, as Terras e os Ani­mais”; “A Es­cola e o Tra­balho In­fantil”; e “A Emi­gração e a Guerra Co­lo­nial”, este livro de Fi­lipe Rua é uma abor­dagem atenta e in­for­mada, ei­vada de lin­gua­jares e vo­cá­bulos há muito es­que­cidos, ro­teiro sen­si­tivo e crí­tico da re­a­li­dade vi­vida em terras de Trás-os-Montes; a fome, a en­tre­a­juda, a re­si­li­ência de um povo or­gu­lhoso e in­dó­mito, até aos al­vores li­ber­tá­rios de Abril, tudo isto mi­nu­ci­o­sa­mente con­tado em pe­quenas cró­nicas/​contos, onde o pí­caro ca­minha a par da de­núncia dos tempos bár­baros, das con­di­ções mi­se­rá­veis de vida e da fuga a salto para ge­o­gra­fias mais pró­digas.

Ficção e ver­dade num livro que se es­tru­tura exem­plar, para que a me­mória de tempos cruéis, não se perca na des­me­mória que al­guns tentam impor-nos como norma e fuga ao real.

2026 09 24

https://www.avante.pt/pt/2756/argumentos/185181/%E2%80%9CMem%C3%B3rias-Transmontanas-e-de-Outros-Lugares%E2%80%9D-de-Filipe-Rua.htm

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