11 Agosto 2026
Se pensarmos em filmes com
componentes de propaganda política, como O Couraçado Potemkine (1925), de
Sergei Eisenstein, ou O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl,
encontramos um paradoxo com que não é fácil lidar: a retórica dos seus
discursos ideológicos combina-se de forma espectacular com a ousadia
experimental das respetivas narrativas. Podemos reencontrar tal dinâmica noutro
clássic…
Estamos perante um filme de
denúncia da ditadura de Fulgencio Batista e exaltação da revolução liderada por
Fidel Castro, triunfante a 1 de janeiro de 1959. A sua produção resultou da
aliança da Mosfilm, o maior estúdio da URSS, com o Instituto Cubano del Arte e
Industria Cinematográficas (ICAIC), fundado a 24 de março de 1959. Na altura,
Kalatozov era um símbolo forte da produção soviética, sobretudo através
de Quando Passam as Cegonhas, Palma de Ouro de Festival de Cannes
de 1958.
Que o “rótulo”
político-ideológico corre o risco de viciar a compreensão do contexto em que
nasce cada filme, prova-o, neste caso, o facto de Soy Cuba não
ter sido bem recebido pelas autoridades políticas e culturais, tanto de Cuba,
como da URSS. Porquê? Vale a pena recordar dois dados conjunturais.
Assim, por um lado, as formas de repressão do regime de Fidel Castro começavam
a desmanchar as ilusões utópicas da Revolução — durante décadas demonizado por
muitas vozes críticas, Topázio (1969), de Alfred Hitchcock,
foi um dos primeiros títulos a refletir tal evolução. Ao mesmo tempo, por outro
lado, num processo de “reconversão” cultural iniciado no XX Congresso do PC
soviético, em 1956 (quando Nikita Khrushchov denunciou os crimes da era
estalinista), a produção cinematográfica da URSS procurava alargar o seu
reconhecimento internacional — Quando Passam as Cegonhas foi
um momento importante de tal processo, como seria Guerra e Paz, de
Sergei Bondarchuk, Óscar de melhor filme estrangeiro referente a 1968.
"Eu sou Cuba”
Tendo como base um argumento
escrito pelo poeta russo Yevgeny Yevtushenko e pelo escritor e cineasta cubano
Enrique Pineda Barnet, Soy Cuba proclama o fulgor da
identidade de um país libertado — “Eu sou Cuba” é dito, em off,
pela voz da atriz Raquel Revuelta. É ela que faz o balanço das quatro
histórias em que o filme se divide: primeiro, o retrato de uma jovem cubana que
se prostitui num clube de Havana frequentado por americanos; depois, a saga de
um agricultor cuja quinta é vendida a uma empresa dos EUA, desapossando-o da
produção de cana do açúcar; em terceiro lugar, a tragédia de um estudante
revolucionário que recebe a missão de matar um oficial da polícia; enfim, uma
evocação épica da luta dos revolucionários da Sierra Maestra e da queda do
regime de Batista.
Se nos lembrarmos da energia anímica de Quando Passam as Cegonhas, a começar pelos grandes planos dos rostos, diremos que Soy Cuba é um sofisticado prolongamento desse filme, em particular nas cenas em que a incrível movimentação da câmara tende a criar um espaço em que se cruzam inquietação e sensualidade — não será exagero considerar que Sergey Urusevsky, director de fotografia, é um verdadeiro co-autor do filme. Mesmo quando a exuberância formal corre o risco de atrair um formalismo auto-complacente (a dialéctica formal de Eisenstein não está ao alcance de todos...), Soy Cuba confronta-nos com uma questão identitária que transcende o tempo da sua produção. A saber: como é que as singularidades individuais se exprimem nos movimentos colectivos?
Difundido de forma breve e
discreta por cubanos e russos, Soy Cuba só foi realmente
descoberto em 1992, no Festival de Telluride, no Colorado. Apesar de
projetado numa cópia sem legendas, o filme rapidamente se transformou
num fenómeno cinéfilo, a ponto de Martin Scorsese e Francis Ford Coppola
patrocinarem o seu restauro e respetivo lançamento em 1995. Em 2026, com
chancela da Midas Filmes, é um dos grandes acontecimentos do nosso verão
cinematográfico.


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