* Andreia Pinto Ferreira
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Desde quando é que a salvação do comércio tradicional de Lisboa passou a depender de um aglomerado efémero de casinhas de madeira, importado do modelo de consumo do centro da Europa? O argumento de que o mercado de Natal é o balão de oxigénio indispensável para os lojistas da Baixa Pombalina é repetido com uma urgência quase dramática, contudo, importa suspender o automatismo da resposta económica oficial e refletir sobre o modelo de cidade que estamos a aceitar e, acima de tudo, sobre a armadilha política que ele esconde.
Este género de iniciativa sazonal converteu-se num fetiche de planeamento urbano replicado de forma idêntica por metrópoles de todo o mundo. As praças públicas são anualmente privatizadas e transformadas em centros comerciais a céu aberto, sob a promessa de uma "dinamização" abstrata. Mas será que este modelo estrutural serve realmente quem resiste na economia de proximidade? O comércio local de Lisboa — aquele que dá identidade às ruas o ano inteiro — tem vindo a ser asfixiado por rendas comerciais pornográficas, pela perda de habitantes e pela desregulação turística. São factos.
Oferecer aos lojistas um mercado gourmet de seis semanas como compensação por doze meses de abandono estrutural não é uma solução, é uma esmola de luxo que serve de biombo estético para ocultar a gentrificação.
A perversidade desta estratégia atinge o seu expoente máximo quando se utiliza este argumento para colocar a cidade em guerra consigo mesma. Ao agitar o fantasma do prejuízo económico dos comerciantes para forçar a saída dos manifestantes pela habitação, o poder político ativa o mecanismo mais antigo e eficaz de controlo social: colocar trabalhadores contra trabalhadores. De um lado, o pequeno comerciante, o funcionário de balcão e o artesão, pressionados pela corda na garganta da sobrevivência mensal. Do outro, os que acampam na praça — que na sua esmagadora maioria são também trabalhadores, precários, estudantes e famílias cujo ordenado foi totalmente engolido pela crise imobiliária. Cria-se uma falsa dicotomia entre o direito a trabalhar e o direito a habitar, como se a praça pública fosse uma arena de escassez onde a dignidade de um grupo tivesse de ser canibalizada para garantir a subsistência do outro.
Esta armadilha esconde o facto de que a habitação não é um problema isolado de quem não tem teto, é a viga mestra de toda a economia real. Quando uma cidade se torna inacessível para viver, os primeiros a sofrer são precisamente os lojistas locais, que perdem os seus clientes de sempre e os seus próprios funcionários, empurrados para periferias cada vez mais distantes. A crise da habitação é um problema estrutural que afeta a sobrevivência da comunidade inteira. Ao mesmo tempo, é crucial sublinhar que o direito à habitação não é uma prerrogativa exclusiva de quem tem a produtividade medida por um contrato de trabalho, é um direito humano universal, fundamental para a existência digna de qualquer indivíduo, trabalhe ele nas lojas da Baixa, estude, ou se encontre nas margens do sistema económico.
Promover mercados de Natal à custa da exclusão do protesto social é escolher a cidade-cenário em detrimento da cidade-comunidade. Os cidadãos precisam de ser estimulados a refletir se querem continuar a consumir uma ficção importada que esteriliza o espaço público, ou se exigem soluções reais para os problemas estruturais que afetam tanto o lojista como o ativista. O Natal e as suas barracas efémeras passarão com o inverno. Mas enquanto a habitação continuar a ser tratada como um bem de luxo, nenhuma iluminação festiva será capaz de apagar a sombra de uma cidade que escolheu vender postais em vez de proteger a vida de quem a constrói todos os dias.
7 de novembro de 2026
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