* José Gameiro
Na clínica encontrei alguns homens que, em relações em que sentiam culpa, falhavam
Desde há muitas dezenas de anos que as questões relacionadas com a definição da orientação sexual dividem a comunidade científica, muito contaminadas por questões políticas, sociológicas, religiosas. Avançou-se muito nos países democráticos, com a aceitação social, ainda muito incompleta, mas, em culturas mais tradicionais e de religiões mais radicais, a repressão sobre a diferença pode ir até à morte.
Biologicamente, a definição de género está resolvida. Há muitos anos, em 1905, pela geneticista americana Nettie Maria Stevens. A combinação dos cromossomas X e Y resolve, pelo menos parcialmente, a questão. Mas só do ponto de vista biológico.
A questão da identidade de género, diferente da biologia, reprimida, mesmo nos cientistas, “explodiu” no fim do século passado e, ainda hoje, está radicalizada. A Igreja não ajudou nada. Foram precisos muitos anos, depois das discussões políticas e sociais terem crescido, para pequenas aberturas, muito longe da aceitação. Vamos ver o que vai acontecendo depois do que disse, corajosamente, o Papa Francisco.
Entre nós, a repressão das famílias sobre filhos que começam a querer fugir dos estereótipos de género continua a ser frequente, muito por razões sociais. Se nas grandes cidades é mais fácil, imaginem o que é numa vila, numa cidade pequena, numa aldeia, deixar um filho vestir-se de menina, ou mesmo só com cores ditas femininas.
Acabou o tempo em que as meninas não jogavam futebol, só eram aceites se faltava um rapaz e imediatamente colocadas na baliza, alternando entre as duas equipas, para as prejudicar... de igual forma. Brincavam com bonecas e, até aparecer o Ken, namorado da Barbie, não recordo de o fazerem com bonecos masculinos.
Toda esta conversa vem a propósito de um episódio que foi relatado por um amigo, avô de um miúdo de seis anos.
Operado ao abdómen, há uns tempos atrás, o neto ficou preocupado com o seu muito querido avô, mas, naturalmente, teve de esperar a alta até poder estar com ele e voltarem a brincar juntos. São grandes companheiros de aventuras e de conversas.
Um dia, o neto pediu-lhe se podia ver a barriga do avô. Sabia que tinha sido ali que o tinham aberto para tirar o mal. Baixou as calças até à zona acima do púbis e mostrou-lhe uma longa cicatriz, de alto a baixo. O miúdo observou, fez um ar preocupado, que foi imediatamente acalmado. Agora está tudo bem, já não sinto nada, já passou.
Sentiu uma hesitação dele, mas a pergunta veio.
— E a pilinha, avô?
— Passou ao lado.
— Ainda bem avô, como seria o teu xixi.
Esta história é deliciosa, porque mostra uma preocupação afetiva, mas, nesta idade, sobretudo com ele próprio.
A pilinha é um “objeto” mágico desde muito cedo. Na infância, em idades diferentes, mas próximas, os miúdos começam a falar frequentemente do seu órgão. Por vezes comparando com os dos amigos. Muito antes de terem consciência do seu duplo papel.
Esta preocupação continua pela vida fora, por motivos diferentes. Na juventude, naturalmente, pela falta de experiência. Se surge um incidente que envergonha o jovem, pode acontecer que fique como foco de ansiedade nos episódios seguintes. Convém que um adulto lhe diga que quem afirmar que nunca falhou ou está a mentir ou foi convencido que, afinal, correu bem.
Um dos mitos masculinos é que o tamanho importa, o que pode ser complicado e inibidor para alguns. Naturalmente que as parceiras/parceiros importam mais que tamanho na atitude que têm face a alguma falha de performance.
Na clínica encontrei alguns homens que, em relações em que sentiam culpa, falhavam. E, depois, vinham os remoques, deve ser só comigo... Não ajudavam nada.
Esta curta viagem pelas pilinhas, a partir deste episódio terno, pretende mostrar a profunda desigualdade, injusta, entre homens e mulheres. Como dizia um amigo meu, elas nunca falham, se for preciso fingem.
Atenção, isto não é uma crónica machista. É a verdade nua e crua.
Expresso 2026 Novembro 05
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