quinta-feira, 5 de novembro de 2026

António Santos - Se isto é uma democracia


* António Santos

Ch­rista Gail Pike tinha 18 anos quando matou uma co­lega. Nunca o negou. Foi há 31 anos e não es­ta­remos a jus­ti­ficar nada se dis­sermos que Ch­rista era uma miúda sem fa­mília, ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada desde os 12 anos, o que não a salvou do abuso se­xual, da po­breza e do aban­dono. Ex­plicar não é jus­ti­ficar, mas há coisas in­jus­ti­fi­cá­veis que também são inex­pli­cá­veis, como o Es­tado do Ten­nessee, nos EUA, mu­nido dos meios in­fi­nitos do país mais rico do mundo e ape­tre­chado de todo o co­nhe­ci­mento dis­po­nível na hu­ma­ni­dade, ter-se de­di­cado a tor­turar Ch­rista Pike du­rante três horas, ten­tando as­sas­siná-la com o me­lhor cock­tail de ve­nenos in­ven­tados pelos me­lhores ci­en­tistas e ad­mi­nis­trado pelos me­lhores mé­dicos (sim, mé­dicos) para, no final, ad­mitir, esse mesmo Es­tado, que fa­lhou no in­tuito de matar uma mu­lher atada a uma cama.

Um mês vol­vido sobre o crime do re­gime, foram di­vul­gados os por­me­nores da ten­ta­tiva de exe­cução de Ch­rista. A equipa mé­dica de­morou quase 50 mi­nutos até en­con­trar uma veia. Es­pe­taram-lhe nos dois braços, pode ler-se no re­la­tório mé­dico, um total de dez agu­lhas. Quando o pen­to­bar­bital co­meçou fi­nal­mente a correr-lhe no sangue, Ch­rista co­meçou a gritar de dores, de­bateu-se vi­o­len­ta­mente contra as cor­reias que a pren­diam, chorou muito, urinou, de­fecou e re­petiu muitas vezes «o meu braço vai ex­plodir», mas também vo­mitou, en­gasgou-se e co­meçou a su­focar, só não morreu. Então, já pas­sadas duas horas de tor­tura, os mé­dicos deram-lhe uma se­gunda in­jecção de ve­neno, que pro­duziu todos os efeitos an­te­ri­ores e ou­tros novos, como for­marem-se-lhe grandes bolbos na pele, san­grar pelos olhos, nariz e boca e ficar com todo o corpo tão in­chado que os mé­dicos cor­reram as cor­tinas para que não se visse mais o es­pec­tá­culo. O ad­vo­gado, que até aqui havia as­sis­tido a tudo, ga­rante que pon­de­raram dar-lhe uma ter­ceira in­jecção, mas os seus pro­testos sur­tiram algum efeito, porque a equipa mé­dica terá te­mido que uma ter­ceira ten­ta­tiva fosse ju­di­ci­al­mente con­si­de­rada «pu­nição cruel ou in­vulgar». Quando chegou a um hos­pital, onde havia mé­dicos dos que salvam e não dos que matam, che­garam a de­clará-la em morte ce­re­bral, mas, em de­safio à sen­tença do Es­tado do Ten­nessee, Ch­rista acordou. Esta se­mana, trans­mitiu ao seu ad­vo­gado estas pa­la­vras: «Ainda não houve um mo­mento desde aquela noite em que não tenha es­tado com dores. Todo o meu corpo dói. Ainda me custa falar. Estou to­tal­mente so­zinha.» Ch­rista Pike, que passou 29 anos se­guidos iso­lada no con­fi­na­mento da so­li­tária, outra forma de tor­tura, foi tor­tu­rada com duas in­jec­ções de ve­neno. Agora, o Es­tado do Ten­nessee pre­para-se para tentar matá-la pela ter­ceira vez.

O que fa­lhou nesta his­tória? Os quí­micos? Os mé­dicos? As ins­ti­tui­ções que há 40 anos não sou­beram pro­teger uma cri­ança aban­do­nada? Um re­gime em que os can­di­datos a go­ver­nador fazem cam­panha com a pro­messa de exe­cutar esta mu­lher? Um sis­tema que dis­cute se se de­veria ou não trans­mitir em di­recto as exe­cu­ções que faz o Es­tado como forma de en­tre­te­ni­mento? Uma so­ci­e­dade que cria as­sas­sinos no vi­veiro da vi­o­lência para de­pois os as­sas­sinar da forma mais cruel pos­sível? Em 2025 exe­cu­taram-se 47 pes­soas nos EUA: o nú­mero mais alto desde 2009. Este ano já vão 33.

Primo Levi per­gun­tava-se, desde Aus­chwitz, «se isto é um homem» e todos sa­bemos o que é «isto». Po­demos per­guntar, com a mesma ur­gência, se isto é uma de­mo­cracia.

Avante n.º 2762 (5/11/2026)

Sem comentários: