* António Santos
Christa Gail Pike tinha 18 anos quando matou uma colega. Nunca o negou. Foi há 31 anos e não estaremos a justificar nada se dissermos que Christa era uma miúda sem família, institucionalizada desde os 12 anos, o que não a salvou do abuso sexual, da pobreza e do abandono. Explicar não é justificar, mas há coisas injustificáveis que também são inexplicáveis, como o Estado do Tennessee, nos EUA, munido dos meios infinitos do país mais rico do mundo e apetrechado de todo o conhecimento disponível na humanidade, ter-se dedicado a torturar Christa Pike durante três horas, tentando assassiná-la com o melhor cocktail de venenos inventados pelos melhores cientistas e administrado pelos melhores médicos (sim, médicos) para, no final, admitir, esse mesmo Estado, que falhou no intuito de matar uma mulher atada a uma cama.
Um mês volvido sobre o crime do regime, foram divulgados os pormenores da tentativa de execução de Christa. A equipa médica demorou quase 50 minutos até encontrar uma veia. Espetaram-lhe nos dois braços, pode ler-se no relatório médico, um total de dez agulhas. Quando o pentobarbital começou finalmente a correr-lhe no sangue, Christa começou a gritar de dores, debateu-se violentamente contra as correias que a prendiam, chorou muito, urinou, defecou e repetiu muitas vezes «o meu braço vai explodir», mas também vomitou, engasgou-se e começou a sufocar, só não morreu. Então, já passadas duas horas de tortura, os médicos deram-lhe uma segunda injecção de veneno, que produziu todos os efeitos anteriores e outros novos, como formarem-se-lhe grandes bolbos na pele, sangrar pelos olhos, nariz e boca e ficar com todo o corpo tão inchado que os médicos correram as cortinas para que não se visse mais o espectáculo. O advogado, que até aqui havia assistido a tudo, garante que ponderaram dar-lhe uma terceira injecção, mas os seus protestos surtiram algum efeito, porque a equipa médica terá temido que uma terceira tentativa fosse judicialmente considerada «punição cruel ou invulgar». Quando chegou a um hospital, onde havia médicos dos que salvam e não dos que matam, chegaram a declará-la em morte cerebral, mas, em desafio à sentença do Estado do Tennessee, Christa acordou. Esta semana, transmitiu ao seu advogado estas palavras: «Ainda não houve um momento desde aquela noite em que não tenha estado com dores. Todo o meu corpo dói. Ainda me custa falar. Estou totalmente sozinha.» Christa Pike, que passou 29 anos seguidos isolada no confinamento da solitária, outra forma de tortura, foi torturada com duas injecções de veneno. Agora, o Estado do Tennessee prepara-se para tentar matá-la pela terceira vez.
O que falhou nesta história? Os químicos? Os médicos? As instituições que há 40 anos não souberam proteger uma criança abandonada? Um regime em que os candidatos a governador fazem campanha com a promessa de executar esta mulher? Um sistema que discute se se deveria ou não transmitir em directo as execuções que faz o Estado como forma de entretenimento? Uma sociedade que cria assassinos no viveiro da violência para depois os assassinar da forma mais cruel possível? Em 2025 executaram-se 47 pessoas nos EUA: o número mais alto desde 2009. Este ano já vão 33.
Primo Levi perguntava-se, desde Auschwitz, «se isto é um homem» e todos sabemos o que é «isto». Podemos perguntar, com a mesma urgência, se isto é uma democracia.
Avante n.º 2762 (5/11/2026)
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