As sondagens
mostram que a medida está longe de ser consensual. Gera preocupação pela
possível falta de mão-de-obra estrangeira e pela perspectiva de um “Brexit à
suíça”, pondo fim a acordos com a UE.
Inês Chaíça
13 de Junho de
2026
A Suíça vai votar, este domingo, um referendo
que quer limitar o crescimento da população a dez milhões até 2050 e inscrever
esse objectivo na Constituição. O partido que está a apoiar esta iniciativa, o
Partido Popular Suíço (SVP), diz que é uma forma de lidar com a imigração
excessiva, de contornar a falta de oferta de habitação e de aliviar a
sobrecarga das infra-estruturas e dos transportes públicos. Mas há quem
antecipe outras dores de cabeça.
A proposta — a que o SVP chama “Iniciativa de Sustentabilidade”, quase como um eufemismo —
assenta no facto de a população na Suíça ter aumentado de forma exponencial
desde que foram assinados os acordos de livre circulação de pessoas e bens com
a União Europeia, em 2002.
A população cresceu 1,7 milhões desde então,
para os actuais 9,1 milhões, um aumento explicado quase exclusivamente pela
imigração vinda de outros países europeus: “As empresas, assim como as
instituições públicas, muitas vezes contratam os trabalhadores qualificados de
que precisam na União Europeia”, lê-se no texto da proposta.
É precisamente
isso que pretendem contornar. A proposta, explicada em termos simples, funcionará a dois
tempos: primeiro, quando o país chegar aos 9,5 milhões, o Conselho Federal e o
Parlamento terão de tomar medidas “na área do asilo e da reunificação
familiar”, afectando maioritariamente os refugiados. Depois, se o limite de dez
milhões for ultrapassado por dois anos consecutivos até 2050, a Suíça será
obrigada a terminar com os acordos que permitem a livre circulação de pessoas
“incluindo o que tem com a União Europeia”, frisa a proposta.
O SVP, a maior
força política do país, acredita que a Suíça chegou a um “ponto de ruptura” e
cumpre, assim, uma promessa de campanha que, em 2023, se focou sobretudo na
demografia e na imigração. De acordo com os últimos dados, de 2024, a população
estrangeira na Suíça era 32,5%, um dos números mais elevados do continente.
Desses, apenas uma fracção (menos de 220 mil pessoas) são refugiados. A larga
maioria, 73%, são imigrantes europeus.
Não é a
primeira vez que o partido tenta aprovar uma medida do género. Há pouco mais de
uma década, em 2014, foi a votos uma iniciativa muito mais clara nos seus
propósitos: chamava-se “Acabar com a imigração em massa”; foi aprovada por uma
margem mínima, mas nunca foi totalmente aplicada. Agora, a nova iniciativa foi
desenhada de modo a que isso não volte a acontecer.
Na sua
essência, esta medida é inédita. A ser aprovada, será a única no mundo. As
comparações são escassas: medidas de conservação que limitam a presença de
humanos em ecossistemas frágeis, como nas ilhas Galápagos, ou políticas
específicas para conter o aumento da população, como as da China. Mas nenhum
desses exemplos se pode comparar, porque nenhum deles é resultado da vontade da
própria população.
“A experiência internacional sugere que é difícil limitar o crescimento populacional através de metas quantitativas ou restrições migratórias quando a economia continua a necessitar de mão-de-obra estrangeira”, explica Inês Vidigal, coordenadora executiva do Observatório da Emigração do Iscte, por e-mail, ao PÚBLICO. “Em países envelhecidos e com baixos níveis de fecundidade, como a Suíça, a imigração desempenha um papel importante na renovação da população activa e no funcionamento de diversos sectores económicos”. Por isso, defende, esta proposta é muito mais política do que puramente demográfica.
Uma
sociedade dividida
Os suíços estão
habituados a decidir directamente sobre as medidas que os vão afectar: referendos como este acontecem, normalmente, quatro vezes
por ano. Mas, neste caso, nem as sondagens conseguem prever o que vai
acontecer.
As últimas,
publicadas no fim de Maio, mostram uma curta vitória do “não” (com 52% dos
votos), um aumento de cinco pontos percentuais desde as anteriores sondagens.
Mostram os números disponíveis que a proposta é rejeitada pelos jovens, pelas
mulheres e pelos residentes urbanos. Os homens, eleitores de meia-idade em
zonas rurais, estão receptivos à proposta: “Muita gente aqui não fala inglês e
sente-se deslocada. A geração mais velha pensa que antes estava em casa”,
resume Dolfi Müller, político e residente em Zug, uma das cidades mais ricas do
país, ao Wall Street Journal. Agora, “sente que ficaram para
trás”.
Neste momento,
só os eleitores do SVP mostram apoio abertamente à iniciativa, com 96% das
intenções de voto. À esquerda, a oposição à medida excede os 80%.
Além do SVP, a
medida não reúne o apoio nem do Governo, nem dos empregadores, nem dos
sindicatos. O Conselho Federal assumiu, numa comunicação ao Parlamento, que a
iniciativa iria “pôr em perigo a prosperidade suíça, prejudicar o funcionamento
da sociedade e comprometer o caminho bilateral com a União Europeia”. O
ministro da Justiça, Beat Jans, chamou-lhe um “risco enorme num mundo incerto”.
Num país onde
as multinacionais são a coluna vertebral da economia (da Nestlé à Novartis,
passando pela Roche, que rejeitou directamente a proposta) que, por sua vez,
depende da mão-de-obra imigrante para suprir necessidades (quer se trate de
trabalhadores qualificados, quer não), a conversa assusta. Também assusta a
perspectiva de uma espécie de “Brexit à suíça”, porque o bloco dos 27 é o
principal mercado de exportação do país: mais de metade das exportações da
Suíça vão para a UE, o que corresponde a cerca de 160 mil milhões de euros.
Por tudo isso, a associação empresarial Economiesuisse classificou-a como “a iniciativa do caos”.
O país
tornou-se “vítima do seu próprio sucesso”, admite Reto Föllmi, professor de
economia internacional da Universidade de St. Gallen, no norte do país, à Associated Press. “Será que a Suíça está farta da sua
prosperidade?”, questionava-se Joseph de Weck, investigador no German Council
on Foreign Relations, num artigo de opinião publicado no The Guardian. Se não for isso, assinala, é um
lembrete para os democratas de todo o continente: “Nem uma economia saudável é
capaz de conter a extrema-direita.”




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