» Daniel Oliveira
Trump chegou ao mesmo sítio onde estava antes da guerra. O Irão sairá com 24 mil milhões desbloqueados, petróleo a fluir, urânio em casa com a promessa que sempre fez, um plano de reconstrução e controlo claro do Estreito de Ormuz. E Trump não tem apoio interno, aliados externos e argumentos para recomeçar a guerra daqui a dois meses. Israel tentou sabotar, não conseguiu e está mais isolado do que em qualquer momento desde a sua fundaçãov
Olhemos para o que parece estar em cima da mesa para ser assinado sexta-feira em Genebra. O Irão congela o programa nuclear no estado atual, mas o urânio altamente enriquecido fica no seu território e mantem-se a promessa genérica de não desenvolver a arma nuclear, que sempre existiu e muito provavelmente terá menos garantias do que Obama tinha conseguido e que Trump rasgou. Os EUA libertam 24 mil milhões de dólares em ativos iranianos bloqueados. Levantam as sanções ao petróleo. Comprometem-se a um plano de reconstrução. O programa de mísseis balísticos não parece estar na agenda. O financiamento ao Hezbollah e aos Houthis também não. E, depois destes meses, fica claro o controlo iraniano do Estreito de Ormuz. Um país que perde uma guerra não sai com estas condições.
O Irão chega a este acordo tem menos infraestrutura militar do que tinha em fevereiro, mas tem mais dinheiro, mais petróleo a vender e o mesmo urânio. Antes desta guerra, já tinha aceitado nas negociações mediadas por Omã nunca desenvolver arma nuclear. Trump rejeitou e atacou. Milhares de mortes e milhares de milhões de dólares depois, chegou ao lugar onde estava. A guerra serviu para quê? Para abrir o Estreito de Ormuz que estava aberto antes dela.
O acordo já favorável ao Irão dá-lhe agora 60 dias para se reorganizar, consolidar posições e tornar qualquer reinício de ataque politicamente inviável. A Europa já se comprometeu a levantar sanções. O Paquistão investiu o seu prestígio na mediação. Os aliados regionais dos EUA querem o petróleo a fluir. Trump não tem opinião pública, aliados e argumentos para recomeçar uma guerra que ele próprio declarou terminada no seu 80º aniversário. A ameaça de voltar a bombardear se não houver acordo em 60 dias não tem credibilidade.
A incógnita é Netanyahu, que puxou Trump para esta aventura, oferecendo-lhe uma derrota política internacional. E ainda tentou sabotar o acordo, atacando o sul do Líbano horas antes do anúncio. O acordo foi feito sem Israel, que não se sente vinculado a ele. Mas Netanyahu pode dar-se ao luxo de continuar a ofensiva no Líbano em rota de colisão com o financiador e aliado de que a sua própria existência depende? Poder, pode. Mas é um caminho perigoso.
Militarmente, Israel atingiu objetivos táticos — infraestrutura nuclear iraniana degradada, Hezbollah enfraquecido. Mas está numa posição política e estratégica que não tem paralelo desde a sua fundação. Fora do acordo que define o futuro do Médio Oriente, isolado da Europa, em tensão com Washington, odiado em quase todo o mundo (o apoio alemão custou a Merz o lugar no Conselho de Segurança da ONU). Nunca, desde 1948, Israel esteve tão só. As vitórias táticas desta guerra custaram-lhe um isolamento político sem precedentes. E isso, a prazo, é mais perigoso do que qualquer acordo nuclear.
https://expresso.pt/opiniao/2026-06-17-trump-perdeu-a-guerra-d1b9f334
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