sábado, 5 de janeiro de 2008

Os vôos do Condor revelados


Autor do mais exaustivo estudo sobre a repressão a militantes de esquerda no Cone Sul nos anos 70, liderada pelo Chile, o jornalista norte-americano John Dinges afirma, em palestra na USP, que a participação do Brasil na operação se limitou a fornecer informações e a treinar agentes estrangeiros

* SYLVIA MIGUEL
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A base documental que o jornalista norte-americano John Dinges usou para escrever o livro Os anos do Condor – Uma década de terrorismo internacional no Cone Sul impressiona. Dinges usou 24 mil relatórios sobre o Chile e 4 mil sobre a Argentina, escolhidos dentre os documentos desclassificados durante a administração do ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e que por muito tempo ficaram em poder da CIA, a agência de inteligência norte-americana. Cópias de correspondências entre a CIA e a Agência de Inteligência do Chile (Dina), além do Archivo del horror, descoberto em 1992 no Paraguai, e de outras 2 mil páginas liberadas por agências norte-americanas a pedido do próprio jornalista, respaldado pela Lei da Liberdade de Informação daquele país, completam o material. Tudo isso sem contar as 200 entrevistas com envolvidos diretamente nos fatos, sejam eles opositores ou militares que protagonizaram as ações sangrentas sob a égide da Operação Condor – assim chamada em alusão ao nome da ave-símbolo do Chile, país de onde foram orquestradas as táticas militares no contra-ataque terrorista.

Apesar das duas horas de atraso, ocorrido por problemas no aeroporto que o forçaram a entrar no Brasil através da Argentina, a palestra que proferiu sobre a obra – seguida de debate com a participação dos professores Sérgio Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, e Rafael Antonio Duarte Villa, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – lotou o miniauditório do Departamento de Antropologia, na segunda-feira, 6 de junho. A edição em português, da Companhia das Letras, tem informações que não haviam sido publicadas na versão em inglês, como, por exemplo, a de que o braço da Operação Condor no Brasil foi o ex-presidente João Baptista Figueiredo.

Para Sérgio Adorno, o livro certamente se tornará referência para os que pesquisam o tema. “Durante os anos em que morei no Chile, de 1972 a 1978, nunca me senti ameaçado durante o governo de Salvador Allende, mas na era Pinochet vivi uma fase de grande terror”, contou na palestra Dinges, que na época trabalhava como colaborador do jornal Washington Post e outros veículos. “Vasculharam minha casa duas vezes e me levaram preso para interrogatório. Levaram a mim, minha esposa e outras duas pessoas para a Via Grimaldi, o campo de tortura mais importante do Condor naquele momento.”


Modelo socialista

No clima do ideário social-marxista que tomava conta do Chile nos anos 70, o líder Allende subiu ao poder em 4 de setembro de 1970 com apoio de Fidel Castro, para desespero dos Estados Unidos, dos capitalistas e das oligarquias. Há relatos de que a CIA tentou evitar a posse do presidente. Mas este sobe ao poder e declara-se socialista, dando início ao desemprego em massa, com a fuga de capital estrangeiro e das grandes mineradoras norte-americanas. “É preciso entender que a Operação Condor aconteceu durante esse momento de radicalizações. No início eu achava que a experiência militar do Brasil era coisa do passado e que o Chile, sim, iria experimentar um regime diferente, que favoreceria os pobres e que seria um modelo socialista. Mas isso representava um perigo que os Estados Unidos não conseguiriam suportar”, disse o jornalista, que é também professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. O governo de Allende foi derrubado em 11 de setembro de 1973 pela Força Aérea e o Exército chileno. A ditadura de Pinochet durou mais de 16 anos.

“Porque lançar corpos no Rio La Plata está criando problemas para o Uruguai, como a aparição de cadáveres mutilados nas praias, fornos crematórios dos hospitais do Estado estão sendo usados para a incineração de subversivos capturados” (Documento da Força Aérea Brasileira, 1977).

A famosa campanha repressiva internacional do Condor, promovida entre as décadas de 60 e 80 através de uma conexão entre as polícias políticas do Chile, Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai, teve seu vôo final em 1980, numa ação envolvendo guerrilheiros peruanos. “O Peru tinha abandonado seu governo militar de inclinação esquerdista e, em 1980, era o membro mais recente do Condor”, relata o livro. Entre os prisioneiros desta que é provavelmente a última operação estava a famosa ativista política argentina Noemi Gianotti de Molfino, uma das fundadoras do grupo Mães da Plaza de Mayo.

A Operação Condor conseguiu êxito em todas as metas a que se propôs, disse Dinges. Entre seus principais efeitos, o jornalista enumera, além das mortes de políticos e importantes líderes de esquerda, o medo imposto aos exilados – “Qualquer exilado ou membro de esquerda sabia que não estava mais seguro em nenhuma parte do mundo”, disse – e o desmantelamento da Junta Coordenadora Revolucionaria (JOC), grupo organizado e com verba para lançar uma guerra de guerrilha em quatro países.

“Iremos até a Austrália, se necessário, para pegar os nossos inimigos” (Manuel Contreras, ex-diretor da Polícia Política de Pinochet, citado pela CIA).


O assassinato do influente ex-embaixador do Chile em Washington, Orlando Letelier, morto por atentado a bomba em seu carro em território norte-americano, mostrou que as asas do Condor pairavam livremente fora do Cone Sul, como também ficou demonstrado em ousadas ações no continente europeu. Um ex-presidente da Bolívia e dois dos mais proeminentes líderes políticos do Uruguai são alguns exemplos, entre os cerca de 30 mil torturados e mortos pela coligação militar, incluindo exilados sob a proteção da ONU.

Nos anos do Condor (1973-1980), a pecha de “terrorista” e “subversivo” caía sobre os opositores às ditaduras anticomunistas da América Latina, que haviam chegado ao poder com forte colaboração dos Estados Unidos. Apoio técnico e liderança estratégica eram a principal ajuda dos norte-americanos, como parte de uma “proposta política continental dentro da Guerra Fria”, segundo Márcia Guena, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP, onde apresentou a dissertação de mestrado “Operação Condor: uma conexão entre as polícias políticas do Cone Sul da América Latina entre as décadas de 60 e 80” (leia o texto ao lado).

“[O ministro das Relações Exteriores da Argentina] Guzzetti foi aos Estados Unidos esperando certamente ouvir algumas reprimendas fortes, firmes e diretas sobre as práticas de violação dos direitos humanos de seu governo. Em vez disso, retornou num estado de júbilo, convencido de que não há problema real com os Estados Unidos a respeito dessa questão” (embaixador Hill, num telegrama criticando o então secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger).


“Quem aqui acredita que Allende foi assassinado?”, perguntou Dinges à platéia. Como resposta aos que levantaram o braço, respondeu: “Ele se suicidou e isso está comprovado historicamente”. Para o jornalista, esse episódio é um exemplo de como a história cria mitos a partir de fatos incompletos ou inconclusos. Segundo ele, a verdadeira extensão da atuação da CIA na Operação Condor ainda repousa numa aura de mitos.


Sobre a CIA e os Estados Unidos terem efetivamente concebido e financiado a operação clandestina internacional dos governos militares do Cone Sul, Dinges insiste que esse é mais um mito. “Falo muito sobre isso no livro. A CIA participou dando treinamento aos agentes da Dina, fornecendo aparato técnico, especialmente sistemas comunicacionais, e integrando o grupo de Inteligência na troca de informações. Não acho que ela seja responsável pela criação da Operação Condor. Para mim isso é uma criação do Chile. O importante é enfatizar que os assassinos eram os latino-americanos. A CIA não chegou a matar pessoas”, defendeu.

Para Dinges, a política ambígua exercida pelos Estados Unidos nos anos do Condor revela um aspecto importante para entender a política norte-americana. “Os Estados Unidos não impulsionaram os assassinatos em massa, não há evidências de que fomentaram aquelas ações. Há evidências, porém, de que tentaram barrar algumas operações. Houve tentativas, mesmo débeis, de proteger os direitos humanos”, afirmou, ao responder a uma pergunta sobre as responsabilidades dos Estados Unidos em relação às vítimas do terror.

Em abril de 1975, os relatórios de inteligência mostravam que Contreras era o principal obstáculo para uma política razoável de direitos humanos dentro da Junta, mas um comitê formado por diversos órgãos governamentais orientou a CIA a manter relações com Contreras. Alguns membros da CIA recomendaram estabelecer uma relação remunerada com Contreras” (Relatório Hinchey).



Dinges avalia que o Brasil conseguiu sair relativamente “limpo” da Operação Condor, pois ele não encontrou documentos comprovando que o País efetivamente tomou parte nas ações que classifica de fase 3, a que envolvia assassinatos propriamente ditos. “Eu diria que o Brasil foi muito sutil e diplomático e tomou parte especialmente no fornecimento de informações. A inteligência brasileira funcionava incrivelmente bem, tanto que treinou os agentes da Dina. Não há documentos provando que tomou parte nos assassinatos do Condor. Há nomes de brasileiros citados nos documentos, entre eles o ex-presidente João Baptista Figueiredo”, disse.

O Chile, que administrou tudo, conseguiu sair da coligação com o saldo de 3 mil mortos, um contraste gritante em relação aos seus vizinhos. Das 100 mil pessoas detidas para interrogatórios naquele país, em torno de 3 mil foram mortas. “Enquanto no Chile morriam entre 5% e 10% dos que eram detidos, nos outros países quase todos os interrogados morriam após tortura. Na Argentina, havia uma probabilidade de que 80% dos detidos fossem mortos. Isso se explica pelo fato de que os outros países aperfeiçoaram o que o Chile desenvolveu. Por isso Pinochet ainda merece ser o símbolo da violência”, disse.

Para o professor Sérgio Adorno, além de obra de referência, Os anos do Condor é uma oportunidade para reavivar a memória e revelar fatos que, embora praticados há décadas, ainda fazem parte do presente. “Os elementos autoritários da cultura ainda não foram superados. Não é só uma questão de atribuir responsabilidades, mas de estarmos alertas ao fato de que Auschwitz sempre pode retornar”, disse. Dinges coloca algumas de suas descobertas no site

http://www.johndinges.com/condor.Grande parte dos documentos que pesquisou está disponível no endereço eletrônico do Freedom Information Act – programa de acesso a informações do Departamento de Estado norte-americano (http:// www.foia.state.gov).



O jornalista John Dinges: milhares de documentos e centenas de entrevistas para compor o livro que revela as ações de governos latino-americanos contra militantes de esquerda nos anos 70

Obstáculos para a verdade

O fato de grande parte dos documentos de alto grau de sigilo ainda permanecer resguardada não permite que a história das ditaduras recentes do Cone Sul seja contada de forma completa, segundo a pesquisadora Márcia Guena. Márcia é autora da dissertação de mestrado “Operação Condor: uma conexão entre as polícias políticas do Cone Sul da América Latina entre as décadas de 60 e 80”, apresentada em 1998 ao Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP. “O que fazemos é um entrecruzar de informações a partir do que está disponível. Muitos documentos ainda permanecem censurados, inclusive nos Estados Unidos”, afirma Márcia, citando como exemplo o site do Freedon Informatiom Act (Foia), do Departamento de Estado norte-americano (www.foia.state.gov). Nele, há documentos de seis páginas em que aparece uma tarja preta e apenas duas linhas disponíveis para consulta. “Não temos ainda uma história completa sobre os acontecimentos.”

Na sua dissertação, Márcia estudou 400 documentos do Archivo del horror, descoberto em 1992 no Paraguai. “Meu objetivo foi mostrar a participação brasileira na Operação Condor a partir da documentação paraguaia”, diz. Em seu estudo, o papel brasileiro aparece mais ligado ao “fornecimento de informações e à aliança de inteligência”, afirma Márcia, concordando com as investigações feitas pelo jornalista John Dinges. “Não encontrei nenhum documento referindo envolvimento do Brasil nos assassinatos promovidos pela Operação Condor. Uma possível exceção foi o episódio do casal uruguaio Lílian Celibert e o marido, preso em Porto Alegre. Mas isso não está documentado nos arquivos e sim relatado pelo grupo Tortura Nunca Mais.”

Além disso, da mesma forma que Dinges, Márcia conta que não encontrou documentos provando que a CIA era financiadora das operações. “A ligação da CIA e de outros órgãos do governo norte-americano está mais relacionada ao envio de informações. Mas não podemos pensar na Operação Condor num contexto diferente da Guerra Fria. Os Estados Unidos promoveram várias operações de cunho clandestino e esta foi só mais uma, envolvendo as ditaduras militares do Cone Sul, com a conivência da CIA, do FBI e do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Diretamente, não se pode comprovar a coordenação dos Estados Unidos, mas se pode
provar isso indiretamente”, afirma Márcia.
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Jornal da USP - 13 a 19 de junho de 2005 ano XX no.728

Decifrar o Porto


Espero que esta leitura ajude os forasteiros a melhor decifrar esta cidade secreta que Eugénio de Andrade, um seu filho adoptivo, não hesitou em considerar «a mais fechada das nossas cidades».

O b pelo v

«Se na nossa cidade há muito quem troque o b por v, há pouco quem troque a liberdade pela servidão.»

Almeida Garrett

Maravilhas e angústias

«O Porto é o lugar onde para mim começam as maravilhas e todas as angústias.»

Sophia de Mello Breyner

Como se vinga

«O portuense não gosta de Lisboa. Não gosta da polícia. Não gosta da autoridade. Da autoridade vinga-se, desprezando-a. Da Polícia vinga-se, resistindo-lhe. De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amável hospitalidade e com a mais obsequiada bizarria.»

Ramalho Ortigão

Rir desbragadamente

«E quanto ao riso, o Porto gosta de rir e de rir com uma certa insolência: ri mais desbragadamente, mais primariamente, mais saudavelmente e com mais gosto do que Lisboa.»

Vasco Graça Moura

Regaço aberto para o rio

«Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é a Ribeira.»

José Saramago

Uma alma de muralha

«Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto dependurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha.»

Agustina Bessa Luís

Invejas

«Lisboa inveja ao Porto a sua riqueza, o seu comércio, as suas belas ruas novas, o conforto das suas casas, a solidez das suas fortunas, a seriedade do seu bem-estar. O Porto inveja a Lisboa a Corte, o Rei, as Câmaras, S. Carlos e o Martinho. Detestam-se!»

Eça de Queiroz

Lição de portuguesismo

«Uma ida ao Porto é sempre uma lição de portuguesismo, tanto mais rica quanto mais raramente lá se vai. É indispensável - claro! - um mínimo de contacto reiterado com esse lar da nação para nele vermos algumas das significações latentes que enriquecem a nossa consciência de práticas.»

Vitorino Nemésio

Uma família

«O Porto não é em rigor uma cidade: é uma família. Quando algum mal o acomete, todos o sentem com a mesma intensidade; quando desejam alguma coisa, todos a desejam ao mesmo tempo. Os portuenses são tão ciosos da integridade da sua cidade, como os portugueses em geral da integridade da nação.»

João Chagas

Aspecto severo e altivo

«O Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos as chaves dos haveres delas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada.»

Alexandre Herculano
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imagem retirada daqui Cidade do Porto


Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15/10/1929

*Gravura - "René Magritte - A arte da conversação"


sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A Prostituição e a Lisboa Boémia do séc. XIX aos Inícios do séc. XX


Editorial Querco, 1985
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Viajar até à Lisboa Boémia do séc. XIX é conhecer o tecido social desse mundo tido como marginal em que participavam fadistas, marialvas, toureiros, boleeiros, vagabundos, marinheiros e, naturalmente, prostitutas, chulos e proxenetas. É confraternizar, de certa maneira, com os espaços sociais dessa vivência boémia: as horas, as esperas de touros, as tabernas, os bordéis.

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Disponível na Livraria Apolo 70

Índice



































































































Introdução5
I - Elementos para uma sociologia do bordel 15
II - A prostituição, o poder e a moral pública no séc. XIX em Portugal 23
III - A Lisboa boémia 43
1. Fadistas e baiucas 45
2. Fadistas e aristocratas 50
2.1. Nas tabernas 53
2.2. Nas esperas de touros 58
2.3. Do marialvismo fadistola à aristocratização do fado 61
IV - Costumes e mudança na prostituição 71
1. Proxenetas 73
2. Chulos 77
3. Prostitutas 80
3.1. Origem e condição social das prostitutas 81
3.2. Esboço de uma estratificação das prostitutas 93
3.2.1. Usos e padrões de comportamento 93
3.2.2. Preços 102
3.2.3. Área habitacional 104
3.2.4. Zonas de giro 107
3.2.5. Clientela 112
V - À laia de conclusão 127
Retirado de

José Machado Pais - Prostituição

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[PDF] CRIMINOSOS, BOÉMIOS, PROSTITUTAS E OUTROS MARGINAIS - O Mundo da Transgressão Social


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terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Caminheiro caminhando se faz o caminho



* Victor Nogueira
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CAMINHANTE CAMINHANDO SE FAZ O CAMINHO (1)

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Em que lugar e tempo sossegarei
A que porto chegarei
Em que ombro descansarei
Este imaginar sonhando
Este buscar sem fim buscando
Este querer não querendo

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Este estar não estando
Este chegar partindo
O caminho que seguirei !?


1986.Maio.03

Setúbal

Caminhante caminhando se faz o caminho (2)

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Este imaginar sonhando
Este buscar sem fim buscando
Este querer não querendo
Este estar não estando
Este chegar partindo
O caminho que seguirei!

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Em que lugar e tempo sossegarei?
A que porto chegarei?
Em que ombro descansarei?

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CAMINHANTE CAMINHANDO SE FAZ O CAMINHO (3)

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d’Este imaginar sonhando
d’Este buscar sem fim buscando
d’Este querer não querendo
d’Este estar não estando
d’Este chegar partindo
d’O caminho que seguirei!

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Em que lugar e tempo sossegarei?
A que porto chegarei?
Em que ombro descansarei?

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1988.Julho.24

Setúbal

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CAMINHANDO INTERRoGATIVAMENTE

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Caminhando o caminho, bem ou mal,
Partindo a derrota que seguirei,
Em busca daquilo que serei
Usando faladura em areal.

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É razão instinto de animal?
Acordado pe(r)di o que sonhei?
Como águia ou pardal não voei
Atolado em verde lamaçal?

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Como posso dormir ficando desperto?
Onde vivem o amor e o ódio?
Como fazer a paz estando em fera guerra?

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Como afastar do mundo o mar, deserto,
Afastando a dormideira do ópio?
Caminho em busca do sol na terra!

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imagem das pegadas retirada daqui

durangomes.spaces.live

VN - Antologia de Poesia de Ano Novo


Vivam
Com os meus votos dum bom ano, aqui fica alguma poesia.
VM
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Ano Novo (Popular – Brasil)
Chegamos em sua morada
Eu e meus companheiros
Nós andamos festejando
O primeiro de janeiro

Entrada do ano novo
Com prazer e alegria
Com grande contentamento
Eu festejo este dia

Eu festejo o Ano Novo
Com muita moralidade
Deus do céu lhe dê saúde
E muita felicidade

Acordai se estás dormindo
Neste sono tão profundo
Levante e seja bem-vinda
Mais um ano neste mundo

Senhora dona da casa
É uma flor de maravilha
Venha nos dar seu anos
Junto com sua família

O meu terno está cantando
Para alegrar a todo ano
Nós andando festejando
A entrada do Ano Novo

Meu senhor dono da casa
Deus do céu que lhe ajude

-->
Que passe este 60
Gozando boa saúdeEu festejo o Ano Novo
Nesta data querida
É mais um ano que passamos
No calendário da vida

Meu senhor dono da casa
Estamos aqui de novo
Parabéns muita saúde
E um feliz Ano Novo

RECEITA DE ANO NOVO
Carlos Drummond de Andrade
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Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)

-->novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegrama?).
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.-->
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre..


PASSAGEM DO ANO
- Carlos Drummond de Andrade
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O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

-->Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 Ano Novo
Chico Buarque
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O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
-->
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E que já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
-->A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
-->Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo




ANO NOVO, VIDA NOVA ...

(Maria Isabel de Mendonça Soares)

-->Hoje, que o ano começa,
e para que comece bem,
vou fazer uma promessa
ao meu pai e à minha mãe.
E para não a esquecer
e que ninguém me desminta,
nesta folha de papel
aqui fica escrita a tinta.
Prometo solenemente
não brincar com o meu irmão,
repartir com toda agente
-->brinquedos, bolos ou pão;
ter sempre tanto juízo
quer de dia, quer de noite,
que nunca há-de ser preciso
apanhar nenhum açoite.
Se assim fizer, hei-de ter
muitos amigos e amigas
porque a amizade se pega
mais que o sarampo e as bexigas.