domingo, 19 de dezembro de 2010

Joan e Zerivan de Oliveira: Algumas e outras palavras

Notícias

Vermelho - 18 de Dezembro de 2010 - 0h02

Os irmãos Joan e Zerivan tomaram contato desde a infância com a poesia. O mérito é de Dona Idalzira, cearense do Cedro, professora, mulher de muita labuta e leituras. Ainda hoje, aos 86 anos, faz versos todos os dias, podendo-se afirmar que a poesia é sua grande companheira cotidiana. Acompanhe essa história através dos textos de Joan e Zerivan.

Algumas palavras

Joan Edesson de Oliveira

A poesia foi algo sempre presente em nossa casa. Desde pequeno acostumei a ver a minha mãe, Dona Idalzira, fazer os seus versos. Por qualquer coisa lá vinha uma poesia. Era o pranto por alguém que morria, era um casamento, um batizado, uma novidade qualquer, uma brincadeira, era a poesia sem motivo algum.

Havia ainda os versos do meu avô, João Bezerra, contados por minha mãe, com os quais eu me deliciava. Uma dessas estrofes carrego até hoje na memória, por causa principalmente da sua carga de humor e ironia.

Há quatro coisas no mundo
Que para mim não se faz
É mulher chamada Ana,
É homem chamado Brás
Calça de bolso na bunda
Paletó lascado atrás

Havia ainda o meu pai, verdadeiro “viciado” nas cantorias no rádio, as quais eu acompanhava atento em sua companhia. Era um rádio Semp, daqueles bem antigos, cujo cordão de sintonia vez por outra quebrava e lá ia eu pra alguma mercearia qualquer atrás de comprar “linha zero” para colocar novo cordão (o rádio era presença obrigatória na sala das casas de então). As cantorias eram diárias, na Rádio Iracema de Iguatu e na Rádio Difusora de Cajazeiras, salvo engano, sempre à tardinha. De longe, o meu cantador favorito era Antonio Maracajá, embora tantos outros gigantes do repente tenham feito morada na minha memória desde então. Meu pai tinha ainda um caderno com poesias de um tio seu, Tio Clóidio, meu tio-avô, refinadíssimas poesias que, infelizmente, perderam-se.

E havia, por fim, a coleção de cordéis de minha tia Maria Bezerra, Mãinha, também infelizmente extraviados, cordéis que foram minha primeira leitura, e a partir dos quais o mundo mágico, encantado, da cultura nordestina, se abriu para mim. Foi um clássico da literatura de cordel, o Romance do Pavão Misterioso que, se a memória não permite precisar como minha primeira leitura foi, no entanto a que mais me marcou.

Num ambiente como este seria impossível não me apaixonar pela poesia.

Poetas, cantadores, cegos de feira, foram uma constante em minha infância e em minha adolescência, tendo uma importância muito grande na minha formação cultural.
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No ano de 1990, morando na cidade do Acaraú, fustigado pela saudade, e lembrando das cartas em poesia que meu avô fazia, relatadas por minha mãe, resolvi escrever para ela nesta forma. Erivan, o irmão caçula, foi quem mandou a resposta, pois Dona Idalzira estava adoentada. Iniciamos aí a nossa correspondência em cordel, que dura até hoje, quase vinte anos depois, quando Dona Idalzira chega aos oitenta e seis anos e ainda rima muito melhor que eu e o Erivan juntos. Erivan é, aliás, o legítimo herdeiro, tendo se dedicado tanto à feitura quanto ao estudo do cordel, objeto do seu mestrado em literatura na Universidade Federal do Ceará.

A jornalista Janaína de Paula, em matéria sobre essa correspondência, chamou-a de “cordel umbilical”. Creio que é isso mesmo, é o laço que nos liga a Dona Idalzira, é o cordão umbilical jamais cortado, perpetuado nestas cartas rimadas onde brincamos, rimos, lamentamos nossas angústias e choramos nossas dores.

Mas uma ligação dessas, quem teria coragem de cortar? Pelo contrário, nós a temos reforçado desde então. A poesia, neste caso, tem servido também para imortalizar o nosso afeto.
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Há, nesse livro, parte da produção de Dona Idalzira. Há quase toda a correspondência trocada entre nós (eu e Erivan) e ela, há os sonetos, há outros poemas. Há muita coisa fora daqui, não havia espaço para tudo. A correspondência poética deste livro confirma os versos do poeta Manoel Caboclo (1916/ 1996).

Porque cordel não é aquele
que está pendurado num cordão
é aquele que é feito
com as cordas do coração.

PS: Quando finalizávamos esse livro fomos surpreendidos pelas poesias de Geórgia, neta de Dona Idalzira, de 14 anos, que resolveu “ingressar no negócio” de cartas em cordel. São, assim, cinco gerações de poesia desde o meu bisavô.


Outras palavras

Zerivan de Oliveira

Quando em junho de 1990, alguns dias depois de uma festa do chitão, saí do Cedro e fui embora para Fortaleza, não imaginava ainda a dimensão total daquele ato, que me levaria, entre outras coisas, à constituição de minha família, do meu doutoramento e da minha constituição enquanto ser. Também não passava pela minha cabeça que o bichinho da saudade iria se apossar do meu peito e lá fazer morada, com casinha e tudo, qual João de Barro num pé de juazeiro.

Aos dezessete anos e iniciando na vida adulta, pensava que tudo que eu precisava era sair debaixo da asa dos meus pais e alçar meus próprios vôos. Voei certo de não estar deixando nada para trás. Ledo engano. A saudade logo me pegou no laço e chorava feito bezerro desmamado longe da minha família.

No entanto, o consolo veio cedo. E chegou pelas mãos de um carteiro, como meu velho pai, que um dia também ajudou a encurtar a distância entre as pessoas. E o consolo veio rimado por Idalzira, minha mãe, que escrevia para também se consolar da lonjura do seu caçula:

O mundo é como uma bola
girando pra todo lado
ora é leve ora é pesado
tem eixo mas não tem mola
maltrata mas não consola
faz nossa mente esquecida
numa luta desmedida
nos matando de cansaço
levaram o último pedaço
do resto da minha vida

Hoje eu vivo quase só
do mundo sem esperança
mas com fé tudo se alcança
com paciência de Jó
amarrando e dando o nó
para não ser esquecida
nem dar passada perdida
e nem desmanchar o laço
levaram o último pedaço
do resto da minha vida

Lida em voz alta para os colegas da Casa do Estudante (creio que muitos ali se sentiam abraçados pelas palavras da minha mãe), aquela cartinha inaugurou uma correspondência fértil que permanece até hoje como marca e símbolo do quanto a literatura em sua variada gama de possibilidades pode estabelecer vínculos, materializar a memória e traduzir pensamentos.

Com ela e com Joan, migrante para as terras longínquas do Acaraú, comecei a me corresponder usando o cordel. Já se vão quase vinte anos desde que essa brincadeira familiar que agora é transformada em livro começou, unindo nossa família e consolidando nossa trajetória de poetas de cordel.

Lembro de uma vez, poeta letrado que eu já imaginava que era, quis ensinar-lhe a fazer um soneto, iniciando minha aula com a clássica regra “são dois quartetos e dois tercetos”. Minha mãe riu pra mim e falou: “Ah! soneto é isso?” E sacou um pacote de uma gaveta com pelo menos cinquenta sonetos. Quase caio pra trás.

Lembro também, ainda que vagamente, das manhãs de sábado, dia de feira, nos quais nossa casa se transformava, pois recebia a visita dos parentes e aderentes que moravam nos sítios e vinham à procura das cartas que chegavam aos cuidados do meu pai. A maioria dessas pessoas não sabia ler ou escrever e minha mãe cumpria o papel de transmissora dessas notícias de parentes que moravam distante, migrantes nordestinos espalhados pelo mundo. Ao término, muitas vezes entre prantos, as pessoas ditavam a resposta e Idalzira pacientemente traduzia sentimentos em palavras. Muitas dessas cartas terminavam com uma estrofe em cordel.

Relendo nossas cartas hoje, vejo como elas são mais do que simples missivas familiares. Elas constituem um registro precioso da nossa história, de certa forma situa a história do Cedro num contexto mais geral e acima de tudo mantém acesa a chama da poesia popular, que se encaminha para a quinta geração, mais de cem anos de poesia em família.

Idalzira não é uma poetisa comum. Herdou do pai, João Bezerra das Chagas, e do avô, a herança que deixou para mim e meu irmão, que quiçá vá mais longe ainda nos netos e netas dela. Sua verve poética é indomável, por mais que ela viva dizendo que não sabe mais rimar, que está velha, basta um pequeno fato, um acontecimento corriqueiro qualquer, para que ela corra ao papel e transforme um ato simples em um ato mágico. Basta uma saudade inesperada para que ela transforme lágrimas em poesia.

Joan tem plena razão. Aos oitenta e seis anos Idalzira é capaz de rimar melhor do que eu e ele juntos. Esse “cordel umbilical” que nos une não será cortado jamais.
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sábado, 18 de dezembro de 2010

Poesia de Brecht

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O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
Nada é impossível de Mudar
"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."
Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.
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Assim
Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
Suas artes, e ele
Denuncia-os ao inimigo.
Sim, eu conto seus segredos. Fico
Entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
Estou instruído em seus planos.
O latim de seus clérigos corruptos
Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,
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Elogio do Revolucionário

Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.
Interroga a propriedade:
De onde vens?
Pergunta a cada idéia:
Serves a quem?
Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino,
ele cita os nomes.
À mesa onde ele se senta
se senta a insatisfação.
À comida sabe mal e a sala se torna estreita.
Aonde o vai a revolta
e de onde o expulsam
persiste a agitação.
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Elogio da Dialética

A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".
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.Os que lutam

"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
...Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."
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http://www.culturabrasil.pro.br/brechtantologia.htm#O%20Analfabeto%20Pol%C3%ADtico
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Natal é quando um homem quiser - Ary dos Santos

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher



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CCVIRTUAL | 8 de Junho de 2009 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Poema declamado por Luís Gaspar (www.estudioraposa.com), conforme apresentado no Miradouro de Poesia existente no Espaço da Presidência da República no Second Life.
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peixe60 | 23 de Dezembro de 2008 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Quando um Homem Quiser - Música - Fernando Tordo - Letra - Ary dos Santos - Intérprete - Paulo de Carvalho

Dia de Natal - António Gedeão

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão

(in "Máquina de Fogo", 1961; "Poesias Completas", 1968)
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lucubrina | 20 de Dezembro de 2009
Poema de António Gedeão, declamado por Luis Gaspar
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Poesia de Natal (Portugal)

PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
...pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira
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A NOITE DE NATAL
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Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.
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Vão se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.
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Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.
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– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.
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Mário de Sá-Carneiro
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História Antiga
Miguel Torga
  Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

(Miguel Torga)
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 Poema de Natal
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Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio
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nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos
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por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,
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e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.
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Pedro Tamen
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NATAL
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Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.
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Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
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Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.
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Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.
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Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.
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Manuel Alegre
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Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
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Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.
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Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
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Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
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Manuel Maria Barbosa du Bocage
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ROSAS DE INVERNO
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Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.
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Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!
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Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!
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Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.
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Camilo Pessanha
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OS PASTORES
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. Guardavam certos pastores
seus rebanhos, ao relento,
sobre os céus consoladores
pondo a vista e o pensamento.

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Quando viram que descia,
cheio de glória fulgente,
um anjo do céu do Oriente,
que era mais claro que o dia.

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Jamais os cegara assim
luz do meio-dia ou manhã.
Dir-se-ia o audaz Serafim,
que um dia venceu Satã.

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Cheios de assombro e terror,
rolaram na erva rasteira.
– Mas ele, com voz fagueira,
lhes diz, com suave amor:

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«Erguei-vos, simples, daí,
humildes peitos da aldeia!
Nasceu o vosso Rabi,
que é Cristo – na Galileia!

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Num berço, o filho real,
não o vereis reclinado.
Vê-lo-eis pobre e enfaixado,
sobre as palhas de um curral!

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Segui dos astros a esteira.
Levai pombas, ramos, palmas,
ao que traz uma joeira
das estrelas e das almas!»

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Foi-se o anjo: e nas neblinas,
então celestes legiões
soltam místicas canções,
sobre violas divinas.

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Erguem-se, enfim, os pastores
e vão caminhos dalém,
com palmas, rolas, e flores,
cordeiros, até Belém.

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E exclamavam indo a andar:
– «Vamos ver o vinhateiro!
Ver o que sabe lavrar
nas nuvens, ver o Ceifeiro!

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Vamos beijar os pés nus
do que semeia nos céus.
Ver esse pastor que é Deus
– e traz cajado de luz!»

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Chegando ao presépio, enfim,
caem, de rojo, os pastores,
vendo o herdeiro d’Eloim
que veste os lírios e as flores.

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Dão-lhe pombas gloriosas,
meigos, tenros animais.
– Mas, vendo coisas radiosas,
casos vindouros, fatais…

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Abria o deus das crianças
uns olhos profundos, graves,
no meio das pombas mansas
– nas palpitações das aves.

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Gomes Leal
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Natal Divino
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Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo

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Na fogueira.
O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…
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Miguel Torga
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NATAL CHIQUE
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. Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

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Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

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Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

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Vitorino Nemésio
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http://www.culturalivre.net/2009/11/10/poemas-de-natal-de-autores-brasileiros-e-portugueses/
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ler Mais Ler Melhor - Livro da vida Carlos Pinto Coelho seguido duma entrevista a Ernesto Rodrigues


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filboxaudiovisuais | 3 de Novembro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
não existe nenhuma descrição disponível
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QuintusMovV | 16 de Dezembro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
e homem de Cultura.
Que deixa nesta reportagem uma série advertência à boçalização crescente dos nossos meios de comunicação.
Está de luto a Cultura portuguesa.
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Carlos Pinto Coelho entrevista Ernesto Rodrigues (parte1)
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sombrapairante | 7 de Junho de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Abril 2010
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Carlos Pinto Coelho entrevista Ernesto Rodrigues (parte2)
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sombrapairante | 7 de Junho de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Abril 2010
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sombrapairante | 7 de Junho de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Ernesto Rodrigues na emissão de rádio "À volta dos livros" da Antena 1 (17 de Fevereiro 2010).

5 de Outubro - Uma Reconstituição na Antena 1

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

15 de dezembro de 2010

Jacob Ferdinand Voet

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HortenseManciniJacobFerdinandVoet1675.jpg
em 1675, a mesma retratada, Hortense Mancini, mas outro pintor

Presença

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Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.
Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?
Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?
Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.
Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.
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Hélder Muteia
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14 de dezembro de 2010

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Sir Godfrey Kneller

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Kneller_TheDuchessOfMazarin.jpg
Hortense Mancini, a célebre Duquesa de Mazarin, retratada no século XVII
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Haicai

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Na estrada deserta,
um simples cair de folhas
quebrou o silêncio.
Aquelas lanternas
ziguezagueando nos montes...
Quantos vaga-lumes!
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Abel Pereira
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13 de dezembro de 2010

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Albert Edelfelt

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Albert%20Edelfelt-a.jpg
serenidade fin de siècle
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Porto

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(gentileza de Amélia Pais)
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Havia nos olhos postos o sentido
de não vencerem distâncias.
Calados, mudos, de lábios colados no silêncio
os braços cruzados como quem deseja
mas de braços cruzados.
Os navios chegavam aos portos e partiam.
Os carregadores falavam da gente do mar.
A gente do mar dos que ficam em terra.
As mercadorias seguiam.
Os ventos, dispersos na alma do tempo,
traziam as novas das terras longínquas.
Segredavam-se em noites e dias
a todos os homens
em todos os mares
e em todos os portos
num destino comum.
Os navios chegavam ao porto
e partiam...
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Alexandre Dáskalos
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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Crimes e criminosos na literatura brasileira: o olhar de Lemos Britto

Posted: 11/12/2010 by Revista Espaço Acadêmico 
por PAULO FERNANDO DE SOUZA CAMPOS*
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Em 11 de abril de 1941, em Grajaú, Rio de Janeiro, o acadêmico Lemos Britto concluía o texto introdutório do livro O crime e os criminosos na literatura brasileira. Muito provavelmente no recôndito de seu escritório, o ex-professor da Faculdade de Direito da Bahia afirmava que as letras nacionais ocupavam lugar de destaque no campo da criminologia, sobretudo entre investigadores e outros manipuladores técnicos que poderiam encontrar em sua obra muitas idéias e revelações sobre o tema. A introdução esclarecia que seu livro não se tratava de uma obra de arte ou de crítica literária e que, tampouco, pretendia constituir-se num tratado de psicologia criminal. De acordo com o autor, seu livro poderia ser assumido como uma obra de fixação dos tipos de formas criminais em todo o país, um apanhado de realidades inexoráveis a serviço do estudo da delinqüência e dos delinqüentes no Brasil (Britto, 1946: 6)
Um exemplar da obra de Lemos Brito, publicada pela Livraria José Olympio Editora em 1950, foi adquirido por Coriolano Nogueira Cobra e doado a Biblioteca da Academia de Polícia de São Paulo, passando a compor o acervo daquele espaço de consulta e conhecimento. Largamente utilizado por alunos da Escola de Polícia, o livro de Lemos Britto era freqüentemente lido por que oferecia sínteses da literatura brasileira, especificamente aquelas cuja narrativa remontavam acontecimentos trágicos, mortes bárbaras, cenários e personagens que ofereciam uma imagem acabada do crime e dos criminosos. Fonte constante às pesquisas realizadas por aspirantes a policiais, a obra de Lemos Britto era lida por elucidar pontos omissos, ilustrar afirmações ou estabelecer confrontos úteis com a realidade vivida, sobretudo na capital paulista a partir dos anos 1920. (Britto, 1946:  8)
I.
Na segunda metade do século passado a cidade de São Paulo impunha uma vida conturbada aos homens e mulheres que viveram o período. Marcado por tensões sociais permanentes e abrigando um número de pessoas sem precedentes na História do Brasil, o espaço citadino da capital paulista transformara-se em território de disputas, campo da violência e de luta pela sobrevivência, cada vez mais competitiva, segregacionista e intolerante (Bernardi: 2000)
As constantes reformas e deslocamentos reorganizadores dos espaços e sociabilidades da jovem metrópole com ares de cosmopolitismo pretendiam, no pensar e agir das elites, eliminar um dos problemas enunciado pelas falas inaugurais de um novo tempo: a criminalidade. Havia, no período, um interesse obsessivo em determinar os tipos criminais, poder identificá-los, descobrir seus estigmas e comportamentos, unindo diferentes saberes em torno de um bem comum: classificar as personalidades desviantes para eliminá-las do convívio social mais amplo. Tal possibilidade permitiria uma intervenção profilática no corpo social, excluindo os considerados desviantes, criminosos, sujeitos perigosos, considerados no período como uma maré montante de desqualificados, inaptos para o progresso e modernidade requeridos (Campos: 2003)
Povoada por um contingente bastante heterogêneo, formado por pessoas de diferentes etnias, a cidade de São Paulo possibilitava encontros e movimentos considerados como perigosos, agitadores, impondo às instituições de controle um alerta constante. Não por acaso, a criminologia – identificada por Lemos Britto como geografia da dor – assume nas primeiras décadas do século passado uma decisiva participação no controle social da cidade de São Paulo. A idéia central era não mais focar os efeitos da lei nos processos criminais mas em saber quem eram os criminosos, quais eram suas feições, seus perfis psicológicos e anatômicos. A Antropologia criminal de base lombrosiana permitiu a formação de uma cientificidade capaz de determinar tipos criminológicos por intermédio de disciplinas como, craniologia técnica, antropometria, biotipologia, entre outras que determinavam física e moralmente as pessoas.
II.
A publicação de O crime e os criminosos na literatura brasileira pretendia fazer uma investigação despretensiosa e singela em torno do crime e dos criminosos coletando de romances, novelas, contos, poesia e da própria história brasileira, narrativas que evidenciassem ações delituosas sem distinguir autores clássicos de modernos, consagrados de obscuros, cultos e célebres de modestos e tímidos estreantes, como afirmava Lemos Britto. (Britto: 1946, 9)
As representações oferecidas pelo autor sobre os criminosos expunham tendências de classificação que vinculavam os negros a tipos de criminosos sexuais como, tarados, maníacos, estranguladores, estupradores, significando-os como desviantes das condutas consideradas normais pela ordem médica e norma jurídica. Assim, surpreendendo trechos de romances, sintetizando novelas, recordando contos ou crônicas, citando poesias, Lemos Britto pretendia desvendar personalidades desviantes, reconhecê-las e representá-las a partir dos discursos disseminados e assumidos pelo encontro da medicina com o direito.
Em um dos capítulos de seu livro, que recebeu o título de “Os criminosos e seus estigmas”, a interpretação do poema “O Assassino”, de Gonçalves Dias, apresenta o criminoso a partir de noções antropológicas, identificando possíveis sinais reveladores de sua anomalia como, por exemplo: mãos grandes, implantação anormal das orelhas, escassez de barba e pêlos, fronte fugidia, desmedido desenvolvimento das mandíbulas, entre outros. No caso do poema, o sinal revelador da identidade do assassino emerge quando Gonçalves Dias evidencia uma característica física do personagem principal:
“… Ei-lo, seu rosto pálido se encova,/ Incerto, mais que os vôos de um morcego,/ Seu andar, ora lento, ora apressado,/Profunda agitação revela aos olhos./ Crespos os cenhos, enrugada a fronte,/ Semelha a luz de uma tocha mortuária,/…. O sinal que caracterizava o assassino, de acordo com Lemos Britto eram os cabelos crespos, um traço indelével da condição inferior nata dos negros que na seleção realizada pelo autor são expostos como sediciosos, degenerados.” (Britto: 1946, 17)
Recuperando o conto de Medeiros e Albuquerque, intitulado “Noivados trágicos”, publicado no livro Mãe Tapuya, Lemos Britto apresenta a história da viúva Leonor cujo marido chamado Augusto, tomado de desejo, logo após o almoço, chama-a para si no objetivo da posse. A história que segue narra uma cena trágica que envolve sexo, desvio e mortes trágicas. Ao citar o conto, Lemos Britto ressalta a passagem do episódio vivido por Leonor que, após se entregar ao marido, de súbito, percebe que o mesmo pesa mais do que o costume. Chamando-lhe (Augusto, Augusto) e como ele não respondia, assustada, observa que o marido havia morrido. Atormentada, a jovem viúva é lavada para uma fazenda para descansar. (Britto: 1946, 34)
Prosseguindo sua narrativa, o autor recorta a cena em que a viúva, já na fazenda, em uma tarde ameaçadora, é assaltada por uma inquietação. Agitada, caminhando a esmo pela fazenda, Leonor depara-se não muito distante com um negro. A descrição do encontro revelado por Lemos Britto emite significados reveladores do ponto de vista das representações sobre os negros as quais remontam a noção de hereditariedade mórbida identificada pela medicina legal como uma psicopatologia degenerativa. Nas palavras do autor:
“Dados alguns passos, a moça avistou um vulto que se dirigia para a fazenda. Mais perto, pôde ver que se tratava de um negro. Era um antigo escravo, já velho, mas ainda robusto. “Louvado seja o Nosso Senhor Jesus Cristo! Leonor teve uma resolução louca. Sem uma palavra, decidida e brusca, avançou para o negro, fê-lo parar e com movimento frenético abriu, desabotoando, desatando, rasgando, as roupas de que estava vestida (…) Com o mesmo frenesi atirou-se a despir o preto. Era já agora um furor alucinado: puxava, rasgava as calças dele… O negro, um momento espantado, sentiu diante daquele corpo nu despertarem-lhe inconsciente, involuntariamente, energias lúbricas de sátiro, todo o calor sensual de sua raça… Num momento o corpo divino de Leonor tinha sôbre si aquêle mono asqueroso, mais asqueroso ainda pelo furor de lubricidade bestial que o animava…” (Britto: 1946, 35)
A imagem do negro como sedicioso, bestial, lúbrico também é sugerida na novela escrita por Benjamin Costalat intitulada A virgem da macumba. Trata-se, como descrito por Lemos Britto, de um preto pai de Santo que atrai ao seu terreiro uma pobre órfã na intenção de fechar-lhe o corpo. Entretanto, prosseguindo a narrativa, Lemos Britto destaca cenas nas quais o preto pratica atos de pederastia relatando a seguinte passagem: “…no quarto, despe a mocinha, acaricia-lhe as curvas, e, de repente, enlaça-a, lúbrico, morde-lhe os seios.” Como em outros recortes selecionados por Lemos Britto, as práticas sádicas, pedófilas do pai de santo são expostas em nítida consonância com as teorias preconizadas pela antropologia criminal italiana. (Britto: 1946, 38)
Nesse sentido, torna-se importante ressaltar que a passagem de A virgem da macumba selecionada por Lemos Britto reiterava a negação, bastante comum no período, das religiosidades afro-brasileira. Em sua análise e levantamento, o autor finaliza o excerto de A virgem da macumba com a seguinte assertiva: “A macumba, aliás, é sabidamente um ponto de corrupção de menores e mulheres feitas.” (Britto: 1946, 39)
As aberrações sexuais, as forças latentes da herança, o desvio mórbido e a pederastia permeiam o olhar de Lemos Britto sobre os negros projetando-os das páginas da literatura brasileira em nítida associação com as teorias que fundamentavam práticas médicas e proposituras jurídicas, dispostas inclusive em regime de legislação penal. Como o autor afirmava, a literatura prestaria um serviço inapreciável à organização social e a ciência criminal permitindo o reconhecimento de tipos desviantes, seus perfis e sociabilidades: Rodolpho Theophilo punha-nos em contato com Punaré, o negro cearense que matou uma criança para comer tendo à mão caça abundante (…) um jovem escritor paraense nos pinta o quadro de outro prêto que assassina o patrão paralítico arremessando-o a uma fogueira em tôrno da qual momentos antes desfilara um cortejo festivo. Neles, e sem o pretender, a literatura desenvolve o tema da sobrevivência atávica dos instintos inferiores da raça negra… (Britto: 1946, 40)
Na primeira metade do século XX, os negros eram comumente identificados como degenerados, criminosos natos, figuras anômalas que disseminavam o mal, a morte e a doença. As representações que daí emergiam, ampliavam as distâncias pois ampliavam as imagens que exibiam os negros como bestiais, sensuais, corruptores e assassinos, verdadeiras celebridades do mundo do crime.
III.
Mesmo que examinado nos seus próprios termos e em seu contexto, o livro de Lemos Britto é um registro valioso para o entendimento das questões afetas à discriminação racial no Brasil. As imagens que o autor recupera ao selecionar os crimes e os criminosos na literatura brasileira, acabam por apontar como esses tipos foram assimilados ao longo da história nacional, permitindo dimensionar os prejuízos daí decorrentes na medida em que exprime uma visão altamente segregacionista, intimamente ligada à teoria da degeneração racial proposta pela antropologia criminal.
Trazer à tona os prejuízos morais e as associações indevidas que evocaram os negros como figuras anômalas, bestiais, lúbricas, implica em desconstruir um tipo de representação que foi, durante muito tempo, assumida como verdade e tornada fonte para uma suspeição generalizada entre os manipuladores técnicos e os controladores do social. Os fragmentos evidenciados permitem remontar uma produção discursiva pautada em arranjos classificatórios que estabeleciam como critérios à identificação e significação social das pessoas a cor da pele, o tipo de cabelo, os traços anatômicos e a origem étnica.
A literatura brasileira, obviamente, não se resume ao olhar restrito de Lemos Britto, apresentando uma gama variada de personagens, tramas e comportamentos muitas vezes diametralmente opostos ao olhar do autor. Porém, ao lançar mão das associações expostas, as quais vinculavam os afro-brasileiros a tipos criminais degenerados, pretendeu-se identificar significados e focalizar imagens que foram preponderantes à permanência de uma rede de sociabilidade danosa, vulgar e idiossincrática, mas ainda reconhecível na ordem social vigente, cujas vicissitudes têm levado a segregacionismos, suspeições generalizadas, torturas e mortes de pessoas negras pelo fato de serem negras.
Evocar as imagens e as representações filtradas pelo olhar de Lemos Britto, Presidente do Conselho Penitenciário do Distrito Federal, Presidente da Sociedade Brasileira de Criminologia, Professor nas Faculdades Nacional de Direito e Politécnica da Bahia e membro da Academia Carioca de Letras, implicou desconstruir um discurso que se mostrou hegemônico acerca das manifestações dos fenômenos raciais, tanto ao nível das idéias, que induz a acreditar em uma realidade que não é verdadeira, quanto ao nível da práxis, que se manifesta através dos atos da emoção (ódio, inveja, repulsa, agressividade), isto é, de exteriorização do fenômeno racial (Carneiro: 1996, 22).
Referências:
BERNARDI, C de. O lendário meneghetti: imprensa, memória e poder. São Paulo: Annablume, 2000.
BRITTO, L. O crime e os criminosos na literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1946.
CAMPOS, P. F. de S. Os crimes de preto Amaral: representações da degenerescência em São Paulo. 1920. Assis, 2003, 325f. Tese (Doutorado em História) Faculdade de Ciências e Letras – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.
CARNEIRO, M. L. T. “O discurso da intolerância. Fontes para o estudo do racismo”. In: Di CREDDO, M. do C. S. Fontes históricas: abordagens e métodos. Assis: Programa de Pós-Graduação em História, 1996. p. 21-32.
MOURA, C. As injustiças de Clio: o negro na historiografia brasileira. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990.

* PAULO FERNANDO DE SOUZA CAMPOS é Doutor em História e Pesquisador Associado do Núcleo Negro da UNESP para Pesquisa e Extensão (NUPE / PROEX / UNESP). Texto originalmente apresentado como comunicação no II Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa “Balanços e Perspectivas” realizado pelo Centro de Estudos Portugueses da Universidade de São Paulo – CEP/USP em outubro de 2003. Especial agradecimento a Profa. Dra. Rita Chaves. Publicado na REA, nº 31, dezembro de 2003, disponível em 
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Porto: A falsidade dos mitos e a verdade que neles há

12.12.2010 - 19:07 Por Jorge Marmelo

Era uma vez – a maior parte das histórias incluídas no livro Lendas do Porto, de Joel Cleto, podia começar assim, como fábulas para adormecer crianças. Falam de lutas de mouros, actos heróicos e bárbaros e, em alguns casos, fazem parte de memória identitária das comunidades que ainda as contam. Dificilmente resistem ao confronto com a História, mas, segundo o autor, são mais do que simples mentiras. "Em alguns casos, são os únicos vestígios arqueológicos que existem relativamente a determinadas épocas e acontecimentos", diz Joel Cleto.


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A estátua ao Tripeiro evoca um dos mais conhecidos mitos da cidade, acerca da origem das tripas à moda do Porto 
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A estátua ao Tripeiro evoca um dos mais conhecidos mitos da cidade, acerca da origem das tripas à moda do Porto (Fernando Veludo/nFactos) - Escultura de Lagoa Henriques
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Resultado de dois anos de crónicas na revista O Tripeiro, o livro, recentemente editado pela Quidnovi, conta com fotografias de Sérgio Jacques e faz questão de desmentir o rifão segundo o qual não se deve permitir que a verdade e os factos estraguem uma boa história. Algumas das lendas da região do Grande Porto são contadas tal como foram fixadas ou continuam a ser narradas, mas são também confrontadas com elementos documentais e, na maior parte dos casos, desmentidas por estes. "Esse é o grande desafio do historiador", considera Cleto.

Da velha história, feita pedra, que estará na origem da fama de "tripeiros" que os portuenses têm, à horrível carnificina entre cristãos e mouros que tingiu de sangue um ribeiro que passou a chamar-se rio Tinto, são várias as lendas que os factos desmentem. "Mas nem tudo é falso. Em alguns casos, no meio daquilo que é irreal, há vestígios concretos, elementos para a arqueologia imaterial", diz Joel Cleto.

Um dos exemplos da verdade que existe nos mitos é o da chamada ilha do Frade: na pequena ilhota que a maré vaza descobre junto à foz do Douro teria ficado preso, e nu, um frade que tentou seduzir uma moça numa noite de nevoeiro. Se aconteceu ou não tal episódio, é difícil saber. Mas Cleto recorda que essa lenda é o único indício de um convento franciscano que existiu em Gaia, do qual não restou mais nenhum vestígio.

Noutro caso, também em Gaia, a lenda do rei Ramiro II, de Leão, é praticamente o único sinal da suposta existência, na margem esquerda do Douro, de uma fortaleza moura tida por inexpugnável, mas que, no século X, terá sido completamente arrasada depois de Gaia, a esposa do rei católico, ter sido raptada pelos mouros e ali feita prisioneira. Neste caso, a lenda explica não só a origem dos topónimos Gaia e Miragaia, como o desaparecimento dos vestígios da grande fortaleza moura.

Outro exemplo? O do fabuloso assalto que o bandoleiro Zé do Telhado, o Robin dos Bosques do Entre Douro e Minho, terá feito, em Agosto de 1852, à quinta que hoje é a Casa de Ramalde. Consultados os documentos, Joel Cleto concluiu que, naquele ano, o palacete estava em ruínas, destruído durante as invasões francesas, e que só veio a ser recuperado quando Zé do Telhado já estava morto.

Mas depois, reconhece Joel Cleto, há casos em que os documentos parecem desmentir o mito, ainda que outros dados acabem por reavivar a lenda. É o caso do altar de prata da Sé do Porto, que teria sido escondido com cal durante as invasões francesas e, deste modo, poupado ao esbulho. Há documentos que apontam para uma versão menos fantasiosa e que indicam que uma senhora abastada terá pago a salvação da jóia, mas recentes descobertas arqueológicas descobriram vestígios de cal nas paredes próximas do altar.

Lendas para mais um livro

"São casos em que nem a história consegue dar uma resposta cabal", reconhece o autor, que acrescenta outro exemplo a esta categoria: é muito pouco provável que a lenda que associa a passagem do corpo de Santiago de Compostela por Matosinhos tenha podido ter lugar no ano 44, já que os documentos apontam para uma chegada posterior do cristianismo a esta parte da Península Ibérica. "Mas há cada vez mais evidências de que, alguns séculos depois, a expansão da fé se fez precisamente através da bacia do Douro", explica Joel Cleto.

Por outro lado, reconhece o autor, algumas das lendas agora reunidas "estão a cair no esquecimento e correm o risco de se perderem". Também por isso, Cleto promete continuar a contar (e a desmontar) os muitos mitos que o Grande Porto ainda guarda. "É possível que daqui a dois anos haja outro livro", diz. Talvez aí já se consiga explicar, por exemplo, a origem do topónimo portuense Fonte da Moura, do qual o historiador nunca conseguiu descobrir nenhum sinal. "Mas, em noventa por cento dos casos, quando há histórias de mouras e tesouros, há também vestígios arqueológicos", garante.

Noutros casos há apenas histórias curiosas, como aquela que explicará a expressão "emprenhar pelos ouvidos", ainda muito utilizada sempre que se quer falar de alguém que se deixou enganar por aquilo que ouviu. Segundo parece, a origem da frase está numa lâmina de bronze existente na Capela do Ferro do Mosteiro de Leça do Balio, a qual narra a anunciação da imaculada concepção, na qual o comunicado divino sai da boca de Deus e entra graficamente nos ouvidos de Maria, que assim teria "emprenhado" pelo pavilhão auricular.Quanto à história das tripas que terão sobrado do abastecimento da frota que a cidade do Porto preparou para a conquista de Ceuta, e que deram origem ao emblemático prato, a História indica, segundo Joel Cleto, que o petisco tem origens bastante anteriores, remontando ao período suevo. O mais provável, porém, é que, pelo menos neste caso, os factos jamais consigam estragar a bela e heróica lenda dos tripeiros, nem substituam a história que se conta há várias gerações e que continua a convencer os turistas.
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Livro
Escrito por Mariana e André   
9789725648995
Livro, José Luís Peixoto
José Luís Peixoto
Este livro elege como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França, contada através de uma galeria de personagens inesquecíveis e da escrita luminosa de José Luís Peixoto.
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Entre uma vila do interior de Portugal e Paris, entre a cultura popular e as mais altas referências da literatura universal, revelam-se os sinais de um passado que levou milhares de portugueses à procura de melhores condições e de um futuro com dupla nacionalidade.
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Avassalador e marcante, Livro expõe a poderosa magnitude do sonho e a crueza, irónica, terna ou grotesca, da realidade.
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Através de histórias de vida, encontros e despedidas, os leitores de Livro são conduzidos a um final desconcertante onde se ultrapassam fronteiras da literatura.
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A história narra a vida de um rapazinho que é deixado pela mãe num fontanário, de madrugada. Antes de partir, ela entrega-lhe um livro e promete que voltará dentro de algumas horas. Mas abandona-o e vai para França, trilhando os caminhos da emigração. Acolhido por uma família da aldeia, e sem nunca mais saber da mãe, o rapaz vai crescer enamorado por uma rapariga da terra que o corresponde nos sentimentos. Chegados à idade adulta, decidem ambos emigrar para França, mas partem separados.
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O livro - único objecto de valor que o rapaz possuiu em toda a sua vida - servirá para os manter ligados e é através dele que se vão reencontrar.

 http://www.cortegaca.pt/pt/sugestaoliteratura
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Trava-Línguas de Luísa Costa Gomes

Trava Línguas
Escrito por Mariana e André    . .
9789722031271
Trava-Línguas, Luísa Costa Gomes
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Trava-Línguasde Luísa Costa Gomes
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Trava-Línguas (ou destrava-línguas) são pequenos textos, em prosa ou em verso, que jogam sobretudo com os sons das palavras e que se distinguem por serem normalmente difíceis de dizer. Se forem ditos muito depressa, é quase impossível pronunciá-los sem tropeçar. Neste livro procurou-se que todos eles contassem uma história simples.
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Ora vamos tentar:
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Num ninho de nafagafos
Há sete nafagafinhos.
Quando a nafagafa sai
Ficam os nafagafos sozinhos.
Coitadinhos!
Onde foi a nafagafa?
Foi a Faro em fraca
Fragata francesa
Que havia num frasco.
Comprou farinha,
Farelo, farófia,
Frescas travessas de fruta,
E truta.
Esfalfada a nafagafa
Voltou num voo veloz
Prós sete nafagafinhos.
Com tantos tantos presentes
Ficaram todos contentes!
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http://www.cortegaca.pt/pt/opinioes-e-sugestoes/literatura
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vítor Silva Tavares no DN - Amante de livros radicalmente livre... & etc

 13.12.10

Vítor Silva Tavares no DN (04/09/2010)

Através do blog da & etc cheguei a esta entrevista/retrato de Vítor Silva Tavares, feita por Fernando Madaíl para o Diário de Notícias de 04/09/2010:
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Vítor Silva Tavares
Amante de livros radicalmente livre... & etc
por FERNANDO MADAÍL
4 Setembro 2010
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O vulto da editora que lança títulos fundamentais em pequenas tiragens privou com as figuras fundamentais do seu tempo, de Almada a Cardoso Pires.
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Relógio da sopa? Oh! Lá está ele com o surrealismo." O relógio de cavalinho da sala de Vítor Silva Tavares, na Rua das Madres (mora na casa da Madragoa onde nasceu, a 17 de Julho de 1937), quando era empenhado, nos seus tempos de miúdo de pé descalço e língua de trapos ("se quiser, língua de Gil Vicente", ironiza), garantia à família caldo melhorado com chouriço de sangue ou naco de toucinho.
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A alma da editora & etc - cujo catálogo se pode apreciar por algumas capas reproduzidas nestas páginas - , orgulha-se da miséria em que cresceu. O que ajuda a perceber a forma como assume uma vida "radicalmente independente", de quem foi retorquindo aos que queriam ser seus patrões que ninguém o punha no "olho da rua", pois nunca de lá tinha saído. Mesmo sabendo "a moeda que se paga por um suplemento de liberdade, que - essa sim - é impagável". 
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O criador da chancela livreira marginal é filho de um maquinista da marinha mercante, que terá privado com o líder comunista Bento Gonçalves no Arsenal e tinha uma biblioteca que ia de Alves Redol a Paço d'Arcos - todos os títulos devorados por Vítor, leitor compulsivo desde que começou a juntar sílabas, não lhe importando se a obra era assinada por Zola, Salgari ou Spillane -, e de uma mulher que tanto trabalhava nas descargas de carvão e peixe como na fábrica das anchovas e, na sua imaginação cinéfila, era uma Anna Magnani.O miúdo que a avó, remendeira de velas de barcos e cantora de fados em tabernas, levava à sopa dos pobres do Sidónio, chegou a ver filmes atrás do ecrã - "o cavalo de John Wayne, em vez de cavalgar da esquerda para a direita, andava ao contrário". Mais tarde, trocaria os piolhos pelos cineclubes, os musicais da MGM pelo neo-realismo italiano - e lembra que este cinema permitiu a Joaquim Namorado dar um nome ao realismo socialista português.
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Filho ilegítimo, pela legislação da época, foi rejeitado na escola oficial e frequentou aulas particulares em casa de duas velhotas, que ensinavam pela pedagogia da I República e liam passagens de poemas de Junqueiro e João de Deus que o futuro editor de nomes como Pedro Oom, Cesariny ou Herberto Helder, o amigo de Manuel da Fonseca, de João César Monteiro, de outros mais, ainda sabe de cor. Aluno de quadro de honra, mas revoltado no liceu da elite, num exame do 5º ano (actual 9º) atirou o hemisfério de Magdeburgo à cabeça do professor e foi expulso
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Coleccionou ofícios, de empregado de escritório numa firma importadora de bisturis cirúrgicos a pintor de Cristos a óleo que um marchand vendia para conventos. Fez cenografia e adereços no teatrinho de bolso das Janelas Verdes - e Almada ficou encantado com os figurinos dos anjos que Vítor Silva Tavares concebeu para a peça Deseja-se Mulher.
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Em África, foi examinador de cartas de condução em Angola (embora sem nunca ter tido o documento que o habilitava a conduzir), jornalista de O Intransigente e director de informação do Rádio Clube de Benguela. Ali rodou, com Juca Branco, Uma História do Mar, que, se ainda existisse cópia, talvez fosse o primeiro filme de ficção angolano. Depois, escreveu crónicas de cinema na revista Flama, contos no Diário Popular, crónicas no República, textos sobre as mulheres no Jazz na Crónica Feminina, coordenou o suplemento literário do Diário de Lisboa.
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Aos 24 anos, era director literário da Ulisseia e, nos dois ou três anos em que esteve na editora, publicou obras como Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon (que "era a Bíblia dos guerrilheiros africanos"), ou Viagem ao Fim da Noite, de Céline ("o que me valeu ser considerado um reaça do pior"). Além dos censores, tinha a visita, "mês sim, mês sim", de brigadas da PIDE, pois lançava títulos como Praça da Canção (Manuel Alegre) ou Feira Cabisbaixa (Alexandre O'Neill). Ao publicar Crítica de Circunstância (Os Doutores, a Salvação e o Menino Jesus), de Luiz Pacheco, um polícia político perguntou a Vítor Silva Tavares se não lhe parecia que farsista, como era designado o tirano Herodes, era parecido com fascista.
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Em 1967, quando o Jornal do Fundão foi suspenso por seis meses, preparava-se um magazine de letras, artes e espectáculos para se publicar naquele semanário oposicionista, mas com a sageza de evitar que fosse logo proibido. E no primeiro dos 26 números desse suplemento & etc - que haveria de ser revista autónoma de 1973 a 1974, tornando-se, depois, apenas editora - havia textos sobre o filme Pedro, o Louco, o fadista Alfredo Marceneiro e o novo bar Snob.
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O nome foi inventado por José Cardoso Pires, que nunca esqueceu o concelho de Aquilino, após lhe entregar um exemplar do livro de estreia, Os Caminheiros e Outros Contos : "Sabe o que é preciso para se ser escritor? Orelhinha!" E foi assim que, ao correr da conversa sobre o magazine, notando que Vítor Silva Tavares repetia a expressão & etc (talvez reminiscência do seu livro angolano Hot e Etc), Cardoso Pires soltou uma espécie de eureka.
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E como está a chancela de culto, que só faz pequenas tiragens e (excepto O Bispo de Beja, apreendido pela PJ) nunca reedita qualquer título? "Está há 36 anos na falência", diz o amante de livros, que não tem automóvel, computador ou telemóvel.
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