quarta-feira, 19 de agosto de 2026

(81) A vida no Troino nas quadras de Alice Ramos

  * Victor Nogueira

Pelas paredes das ruas do Troino,  dezenas de quadras populares falando do que presumo sejam ou tenham sido seus habitantes vão sumindo por acção dos agentes atmosféricos erosivos. A origem desta iniciativa é-me desconhecida mas aqui fica uma pequena recolha do que aleatoriamente registei ao longo dos tempos, sobretudo em 2017, Não foi um trabalho sistemático porque, sem roteiro, não consegui  localizar a maioria delas

Maria Alice Ramos foi uma poetisa popular fortemente ligada ao Bairro do Troino (na freguesia da Anunciada, em Setúbal). Ficou conhecida como a "poetisa do povo" por retratar com enorme simplicidade, sensibilidade e sabedoria as memórias, vivências, tradições e figuras marcantes da comunidade setubalense.

As Quadras no Bairro do Troino e a Poesia nas Paredes: As suas quadras foram pintadas e numeradas em muros, fachadas e portões do Bairro do Troino, transformando as ruas  numa galeria de poesia urbana, a céu aberto. Os seus versos, ingénuos, homenageiam figuras locais (como comerciantes e artesãos), locais históricos (como a Escola da Fonte Nova ou a Capelinha da N.ª Sra. da Saúde), além de mostrarem a ligação do bairro ao mar, aos pescadores e às memórias de vida e da infância dos habitantes mais idosos.


1
 Meu querido Bairro do Troino
Onde nasci e cresci
Vou tentar descrever
O que jamais esqueci




10.
Na Igreja da Anunciada,
O bom do Padre Galvão
Com o seu sobrinho António,
Tantos anos sacristão.

14.
Manuel cabo do mar
Lá na rua do Castelo
Na casa do Caramanchão
Tão asseado e tão belo

Alice Ramos

28
Bairro de becos e ruas
De escadinhas tão velhinhas,
Casas pobres bem pequenas
Com portas e janelinhas.

Alice Ramos
25/05/2012

34
Tanta gente boa e sã,
Trago-os no coração,
Havia o Chalé das Canas
E a Escola do Barracão.

35
E lá íamos p'ra escola
Com a malinha na mão.
Eram sempre as 3 manas
Que nos davam a lição.


Rua da Brasileira

36
 A Coelha e a Pedroa
Professoras à maneira
Vendendo as suas flores
O Afonso Bugalheira

Alice Ramos


Rua José Adelino dos Santos

37
O Tio David da cal
De sobrancelhas branquinhas.
Também o Boca da Noite
Que vendia às canequinhas.


38
 Havia a Adega do Zé
O Raul da mercearia
O Miami, o Alves
E a sua papelaria.


39
  Também o Tio Carroça
Com a sua sapataria.
A Escola da Fonte Nova
Alunos e gritaria

41.
De noite pelo meu Bairro
A música para alegrar,
E a Virgem da Arrábida
Ia em procissão pelo mar

Alice Ramos


43
Lenços brancos tão lindos
Nas mãos a acenar
Momentos de comoção
Que nos faziam chorar


44
Foi um bravo pescador
Que a encontrou a boiar
Por isso esta Virgem Santa
Protege os homens do mar

Alice Ramos

50
A senhora Mariana
E o seu filho Fernando
Que entrava na taberna
O jornal apregoando

51
A vizinha Jaqueline
Na sua regataria
Todos compravam fiado
Porque dinheiro não havia

61
E o rapaz das filhós
Que belos os seus pregões:
– Quem me compra as filhós.
Duas custam dois tostões!

62
Assim vivia meu Bairro
De pobreza a trabalhar,
E ao receber a quinzena
As dívidas iam pagar.

63
E às casas de penhor
Lá iam desempenhar,
Parcos bens adquiridos
Com lágrimas a trabalhar.

Alice Ramos

64
E nos santos populares
Neste bairro da cidade,
Bailes, ruas enfeitadas,
Desses tempos que saudade!

Alice Ramos


65
Meu velho bairro do Troino
Tens brasões de tradição
E cada troineiro te tem
Dentro do seu coração


Rua José Adelino dos Santos

66
Somos um Bairro tão pobre,
Mas cheio de amor e virtude
Porque tem a Capelinha
Da Senhora da Saúde.

Alice Ramos

67.
Gente boa do meu Bairro
Sempre tão abnegada,
Virtude da padroeira,
A Virgem da Anunciada.

Alice Ramos

Em  tempo - No blog Nesta hora  João Reis Ribeiro dá notícia destas quadras reproduzindo algumas delas escritas pelo que suponho ser ou ter sido uma poetisa popular radicada no bairro do Troino, de seu nome Alice Ramos. Em 2012 escreve João Ribeiro que  "em Setúbal, o Bairro de Tróino tem poesia na parede", acrescentando que "no Bairro de Tróino, um dos mais característicos bairros de Setúbal, há paredes que se têm oferecido à poesia, aí sendo semeadas quadras assinadas por Alice Ramos, versando as marcas, as figuras, o típico do local. Surgem numeradas, por aqui e por ali, surpreendendo o passante e evocando histórias da cidade. Aqui ficam algumas... "

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