BALADA DE COIMBRA
- Do Pendo da Saudade;
Lancei os olhos além,
Meu sonho de eternidade
Com saudade rima bem …
Ai sombras da Torre de Anto,
Do Convento de além rio,
Dos muros brancos do Pio
De Santo António a cismar,
Que é de outras sombras que à tarde
Convosco se confundiam,
E ao ar os braços erguiam,
E as mãos abriam no ar …?!
(Sem saber para onde iam,
Aonde iriam parar?)
- Penha da Meditação …
Silêncio que paira em tudo
A terra e o dão a mão
Num longo colóquio mudo…
Edmundo de Bettencourt (1899–1973) escreveu poesia e foi uma figura relevante da literatura e da música portuguesas do século XX.
Além de ter sido um dos mais celebres cantores do Fado de Coimbra, foi um dos elementos fundadores e dinamizadores da revista presença (fundada em Coimbra em 1927), ao lado de nomes como José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca.
A sua obra poética é marcada pelo lirismo, pelo tom intimista e por uma grande sensibilidade estética. Entre as suas publicações poéticas de relevo destacam-se:
Poemas de Sombra e de Sol (1928)
As Três Colunas (1948)
Poemas (reunião e antologia da sua obra poética)
Apesar de ter uma produção poética bissexta e menos extensa do que a de outros contemporâneos, a sua poesia é muito estimada pela crítica e ocupa um lugar singular no modernismo português.
Enquanto Régio canta a nostalgia, as pedras dos becos de Coimbra e a voz "de cristal e de oiro" de Bettencourt que se esvanece no tempo, a poesia do próprio Edmundo de Bettencourt responde com o eco da pedra e da lápide — transformando a memória académica e o canto num epitáfio de sombra, poeira e silêncio.
"Lápide" (Edmundo de Bettencourt)
Aqui jaz quem passou pela vida a cantar,
Como a água que passa e não deixa rasto,
Quem teve por amor o simples ver passar
E por ambição um sonho alto e casto.
Pedra sobre pedra no jazigo escuro,
Guardai o silêncio de quem nada disse,
De quem viveu à sombra do próprio muro
E esperou que a noite no fim o cobrisse.
Não venha a saudade trazer-lhe a lembrança,
Nem a dor do mundo lhe turbe o sossego:
Tudo quanto foi ilusão e esperança
Coube neste espaço reduzido e cego.
Ficou só a pedra na terra pousada,
Sem nome, sem data, sem mágoa nem glória,
A dizer ao vento e à curva da estrada
Que a vida é um sopro e a morte é a memória.
A Relação com a Balada de Coimbra
É precisamente este tom lírico de epitáfio e desapego mineral que José Régio evoca quando junta a figura de Bettencourt à paisagem de Coimbra: enquanto a voz de Edmundo de Bettencourt ressoava na noite com "gritos de cristal e de oiro", a sua poesia escrita resgatava a cidade e a própria voz para o silêncio e a austeridade da pedra. (Gemini)
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