segunda-feira, 24 de agosto de 2026

(90) José Régio - Coimbra em Edmundo Betencourt e José Régio

* ictor Nogueira / Gemini 


Fotos victor nogueira - Coimbra Casas com História – Edmundo Bettencourt (Foto victor nogueira 2000 F1060041)

Neste prédio habitou / enquanto escolar de Direito / o poeta e cantor presencista / Edmundo de Bettencourt

Gritos de cristal e oiro
Que o Betencourt alto erguia
Que é da roda que algum dia
Vos sabia acompanhar! “ (José Régio)

Homenagem da Academia de Coimbra / aos trovadores presencistas / da década de oiro / Artur Paredes Albano Nogueira / Afonso de Sousa e Guilherme Barbosa / que ao lado de Bettencourt / ergueram um canto novo

Na tomada da Bastilha 25 – 11 – 1988
D.G. da A.A.C.

"Balada de Coimbra" é uma elegia nostálgica em que o poeta evoca o ambiente boémio e académico da cidade universitária. Ao longo do poema, Régio percorre lugares emblemáticos — como o Penedo da Saudade, a Quinta das Lágrimas, o Choupal e a Sé — evocando a memória de estudantes, amantes e músicos que por ali passaram. A estrofe da lápide surge no clímax dessa homenagem, imortalizando a genialidade de Artur Paredes na guitarra e o timbre inconfundível de Edmundo de Bettencourt no fado de Coimbra.



BALADA DE COIMBRA

 

- Do Pendo da Saudade;

Lancei os olhos além,

Meu sonho de eternidade

Com saudade rima bem …

 

Ai sombras da Torre de Anto,

Do Convento de além rio,

Dos muros brancos do Pio

De Santo António a cismar,

Que é de outras sombras que à tarde

Convosco se confundiam,

E ao ar os braços erguiam,

E as mãos abriam no ar …?!

 

(Sem saber para onde iam,

Aonde iriam parar?)

 

- Penha da Meditação …

Silêncio que paira em tudo

A terra e o dão a mão

Num longo colóquio mudo…


Edmundo de Bettencourt (1899–1973) escreveu poesia e foi uma figura relevante da literatura e da música portuguesas do século XX.

Além de ter sido um dos mais celebres cantores do Fado de Coimbra, foi um dos elementos fundadores e dinamizadores da revista presença (fundada em Coimbra em 1927), ao lado de nomes como José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca.

A sua obra poética é marcada pelo lirismo, pelo tom intimista e por uma grande sensibilidade estética. Entre as suas publicações poéticas de relevo destacam-se:

  • Poemas de Sombra e de Sol (1928)

  • As Três Colunas (1948)

  • Poemas (reunião e antologia da sua obra poética)

Apesar de ter uma produção poética bissexta e menos extensa do que a de outros contemporâneos, a sua poesia é muito estimada pela crítica e ocupa um lugar singular no modernismo português.

Enquanto Régio canta a nostalgia, as pedras dos becos de Coimbra e a voz "de cristal e de oiro" de Bettencourt que se esvanece no tempo, a poesia do próprio Edmundo de Bettencourt responde com o eco da pedra e da lápide — transformando a memória académica e o canto num epitáfio de sombra, poeira e silêncio.


"Lápide"  (Edmundo de Bettencourt)


Aqui jaz quem passou pela vida a cantar,

Como a água que passa e não deixa rasto,

Quem teve por amor o simples ver passar

E por ambição um sonho alto e casto.


Pedra sobre pedra no jazigo escuro,

Guardai o silêncio de quem nada disse,

De quem viveu à sombra do próprio muro

E esperou que a noite no fim o cobrisse.


Não venha a saudade trazer-lhe a lembrança,

Nem a dor do mundo lhe turbe o sossego:

Tudo quanto foi ilusão e esperança

Coube neste espaço reduzido e cego.


Ficou só a pedra na terra pousada,

Sem nome, sem data, sem mágoa nem glória,

A dizer ao vento e à curva da estrada

Que a vida é um sopro e a morte é a memória.


A Relação com a Balada de Coimbra

É precisamente este tom lírico de epitáfio e desapego mineral que José Régio evoca quando junta a figura de Bettencourt à paisagem de Coimbra: enquanto a voz de Edmundo de Bettencourt ressoava na noite com "gritos de cristal e de oiro", a sua poesia escrita resgatava a cidade e a própria voz para o silêncio e a austeridade da pedra. (Gemini)

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