sábado, 19 de janeiro de 2013

Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz





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Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz
Última edição: 2012
ISBN: 978-972-0-79310-2


Sinopse
Pela primeira vez, as cartas de amor de Fernando Pessoa e de Ofélia Queiroz são apresentadas em edição conjunta.

Uma edição conjunta é a forma mais adequada para dar a ler uma correspondência, que pressupõe sempre um diálogo, uma interação, a existência concreta de dois interlocutores. Cada carta é, em si mesma, ou a resposta a outra carta ou pretexto para ela. Até quando o destinatário opta por não responder, de algum modo, o seu silêncio se inscreve na carta seguinte. Assim, uma relação amorosa, sustentada epistolarmente, como a de Pessoa e Ofélia, só é, na verdade, entendível quando os dois discursos se cruzam e mutuamente se refletem.



Neste livro a ideia comum de que estaríamos perante um namoro platónico, sem réstia de erotismo, desfaz-se por inteiro. Vemos, enfim, surgir um Pessoa diferente do outro lado do espelho. Um Pessoa não só sujeito e manipulador da escrita, mas um Pessoa indefeso, objeto do discurso (e do afecto) de outrem, personagem de uma história real.





Sobre os Autores




Ophélia Queiroz nasceu em Lisboa, na Rua das Trinas, no dia 14 de junho de 1900. Filha de pais algarvios, de Lagos, é a mais nova de oito irmãos. Concluiu o primeiro grau da instrução, embora desejasse ser professora de matemática, mas procurou estar sempre atualizada estudando Francês e Inglês. Gostava de ler, de ir ao teatro e de conviver. Passava muitas horas em casa do sobrinho, o poeta Carlos Queirós, a conviver com grandes artistas como Carlos Botelho, Vitorino Nemésio, Almada Negreiros, Olavo d'Eça Leal, Teixeira de Pascoaes, José Régio e outros. Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de maio a 29 de novembro de 1920 e de 11 de setembro de 1929 a 11 de janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta. A primeira fase, marcada por uma paixão sincera, termina com uma carta em que Pessoa afirma que o seu destino pertence a outra lei. O reencontro, motivado por uma fotografia do Poeta a beber no Abel Ferreira da Fonseca, oferecida a Carlos Queirós, inicia-se quando esta mostra vontade de possuir uma igual e ele lhe envia uma com a dedicatória: Fernando Pessoa em flagrante delitro. Nesta segunda fase, nota-se uma enorme confusão de sentimentos e perturbação psíquica.


A partir de 1936 até 1955 trabalhou no SNI (Secretariado Nacional da Informação). Nesse ano, na Tobis, conhece Augusto Soares, um homem de Teatro, com quem casa em 1938.


Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz de Ofélia Queiroz , Fernando Pessoa

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Carlos Graieb - o baú de Pessoa


O baú do poeta

Nova edição revela facetas de Fernando Pessoa
e ilumina pontos de sua discreta biografia

Carlos Graieb
O poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) é um sucesso de público e crítica. Considerado unanimemente o melhor da língua ao lado de Luís de Camões, Pessoa hoje é também saudado como um dos maiores de todos os tempos, em qualquer idioma. Ele é o único português que aparece entre os grandes em O Cânone Ocidental elaborado pelo crítico americano Harold Bloom. Nas últimas décadas, Pessoa também virou ídolo popular no Brasil e em Portugal. Ao lado de Che Guevara e Gandhi, é campeão de vendas daquelas camisetas que trazem frases impressas. As dele são sempre as mesmas: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena" e "O poeta é um fingidor". Pessoa, no entanto, é muito mais do que isso. Mesmo os fãs do poeta português conhecem pouco, proporcionalmente, de sua obra. Fernando Pessoa publicou apenas um livro em vida, Mensagem, e alguns versos em jornal. Boa parte de sua literatura ficou guardada numa arca de madeira escura, grandalhona, contendo exatamente 27.543 textos. Nos anos 40, uma parcela desse legado foi lançada numa primeira edição de sua obra completa, mas ficou faltando muita coisa. Os novos inéditos começaram a vir à tona há cerca de quinze anos, em livros que só circularam entre especialistas. Apenas no ano passado, em Portugal, atingiram o grande público numa edição comercial da obra de Pessoa que saiu pela casa Assírio & Alvim de Lisboa. Essa nova edição, que deverá ter ao todo 23 volumes, começa a ser publicada agora no Brasil pela Companhia das Letras. Os livros trarão muitas surpresas mesmo para o leitor habitual de Pessoa.
A jovem Ofélia
Queiroz: único
amor conhecido
na vida do poeta
Foto: Reprodução

A Ofélia ­ IV

Porque o olhar de quem não merece
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.

Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
Retirado do livro Pessoa por Conhecer,
de Teresa Rita Lopes
Como todo mundo aprendeu na escola, o poeta português é famoso pelas personalidades literárias que criou. As mais famosas são o clássico Ricardo Reis, o pagão Alberto Caeiro e o atormentado Álvaro de Campos, chamados heterônimos porque tinham estilo próprio e até temperamentos diferentes. Mais alguns poucos eram conhecidos: o guarda-livros Bernardo Soares e os ingleses Charles Anon e Alexander Search. Estudos recentes demonstraram que chegam a 72 as personalidades literárias de Pessoa. Os inéditos também trazem subsídios para iluminar a discreta biografia do poeta. Ele, que jamais teve emprego fixo, viveu apertado com dívidas e acossado pela pobreza. Agora, pode-se entender melhor suas posições políticas e até sua sexualidade. Por último, as pesquisas restabelecem o texto original de alguns poemas de Pessoa que haviam sido publicados anteriormente de forma errada.
Machista — Talvez os dados mais impressionantes que emergem dos textos recém-descobertos sejam os relativos às novas personalidades literárias do autor. Muitos merecem leitura, como Antônio Mora e o Barão de Teive. O primeiro é filósofo. Ele teoriza sobre um certo neopaganismo e mostra o lado provocador de Pessoa, com passagens polêmicas que levariam o poeta à execração pública em tempos politicamente corretos. Num fragmento encontrado pela professora portuguesa Teresa Rita Lopes, flagra-se o machista Mora dizendo o seguinte: "As três classes mais profundamente viciadas, na sua missão social, pelo influxo das idéias modernas, são as mulheres, o povo e os políticos. A mulher, na nossa época, supõe-se com direito a ter uma personalidade; o que pode parecer 'justo', 'lógico' e outras coisas parecidas; mas que infelizmente foi de outro modo disposto pela natureza". Já o Barão de Teive é um pouco parecido com Bernardo Soares, o autor do famoso Livro do Desassossego. Pessoa inventou a história de que teria encontrado "o único manuscrito" do barão numa gaveta. A Assírio & Alvim pretende publicar livros com textos de Mora e de Teive. Segundo Teresa Rita Lopes, que há mais de três décadas se dedica ao estudo de Pessoa e já produziu alguns ensaios marcantes, como os dois volumes de Pessoa por Conhecer, as várias personalidades literárias inventadas por Pessoa eram como figuras de um romance, ou diário, que ele foi "escrevendo para viver e vivendo para escrever".
Os novos textos já publicados em Portugal revelam facetas inusitadas do talento de Pessoa. Ele gostava, por exemplo, de escrever poemas infantis para as sobrinhas. Esses poucos textos já estão reunidos num volume, O Melhor do Mundo São as Crianças. Em A Língua Portuguesa, o poeta reflete longamente sobre o idioma dando a entender que, hoje, seria um opositor feroz da reforma ortográfica. Existe ainda o Pessoa ficcionista, autor da novela A Hora do Diabo, que tinha inclusive planos de redigir contos policiais. Há o criador de chistes e piadas e o inventor de charadas e jogos. Note-se, aliás, que boa parte dos trabalhos mencionados é em prosa. Pouca gente sabe, mas a obra em prosa de Fernando Pessoa é mais extensa que a poética.
Fernando Pessoa:
castidade e dificuldades
financeiras
Foto: Reprodução

Sem título

De leste a oeste comandamos,
Onde o sol vai, pisamos nós.
Ao luar de ignotos fins buscamos
A glória, inéditos e sós.
Hoje a derrota é a nossa vida
Doença o nosso sono brando.
Para quando é a nova lida,
Ó mãe Ibéria, para quando?

Dois povos vêm da mesma raça
Da mãe comum dois filhos nados,
Hispanha, glória, orgulho e graça,
Portugal, a saudade e a espada,
Mas hoje... clama no ermo insulso
Quem fomos por quem somos, chamando.
Para quando é o novo impulso
Ó mãe Ibéria, para quando?

Fernando Pessoa
Sexualidade "branca" — Pessoa namorou uma única mulher, Ofélia Queiroz, que parece ter-lhe inspirado uns poemas ruins e várias cartas ("todas as cartas de amor são ridículas" é outra de suas frases estampadas em camisetas). Não se sabe de outras aventuras sexuais, de qualquer tipo, que possa ter tido. Foi ele homossexual? Ou teve uma sexualidade "branca", inexistente? Só há especulações. Ele sempre se achou feio. E triste. Normalmente é lembrado como um homem tímido, dado a devaneios metafísicos (algo que está bem documentado em sua poesia) e a explorações místicas. Pessoa, que pensou em ser astrólogo profissional, usando o pseudônimo Rafael Baldaya, guiava-se por seu horóscopo. Certa vez, deixou a poetisa brasileira Cecília Meireles aguardando em um café porque os astros lhe diziam que o dia não era propício para conhecer novas pessoas.
Ao contrário do que se pensava, Pessoa escreveu sobre sexo. Há no espólio diversos poemas e textos a respeito de amor e de mulheres, no sentido bíblico. Freqüentemente eles são surpreendentes. "O desdobramento do eu é um fenômeno em grande número de casos de masturbadores", escreveu Pessoa, certamente pensando em seus próprios heterônimos. Um deles, o já citado Antônio Mora, defende que a mulher deve ter experiências sexuais antes do casamento, em contraste com o que rezava o costume da época. Em outra passagem desconhecida, Pessoa joga com a idéia da homossexualidade: Álvaro de Campos faz insinuações a respeito de Ricardo Reis, que teria tentado disfarçar, "pela sintaxe", o fato de que uma de suas odes é dirigida a um rapaz. Segundo Teresa Rita Lopes, o mais provável é que Pessoa fosse casto, não gay. "Se não assumiu, é porque não tinha de assumir. Ele não teria problemas quanto a isso, já que defendeu sem preconceitos seus amigos homossexuais, como o escritor Antônio Botto".
As primeiras incursões no espólio literário de Fernando Pessoa ocorreram na década de 40. Ligados à editora portuguesa Ática, esses exploradores desentranharam do baú escritos fundamentais. As edições da Ática têm o mérito do pioneirismo e tornaram-se canônicas pelos cinqüenta anos seguintes. Serviram de base, por exemplo, para as edições brasileiras mais utilizadas, a da Nova Aguilar e a da Nova Fronteira. Esses pioneiros, contudo, fizeram certa bagunça remexendo a papelada, que só voltou a ter ordem em 1968, quando foi catalogada. Também mandaram para a gráfica poemas em que havia dúvidas, deixando para os tipógrafos a responsabilidade de "acertar" o texto. Até hoje isso compromete a boa leitura de alguns clássicos. É o caso de "Passagem das horas", extenso poema assinado pelo heterônimo Álvaro de Campos. Em 1990, a pesquisadora brasileira Cleonice Berardinelli, membro da Equipa Pessoa, uma comissão nomeada pelo governo português para fazer edições críticas da obra do poeta, descobriu que a edição da Ática simplesmente invertia o posicionamento de dois grandes trechos do poema, alterando sua interpretação. Em outros casos, havia erros de grafia que modificavam completamente o sentido, como no verso Assim sou a máscara — que durante cinqüenta anos foi lido como Assim sem a máscara.
O poeta quando
criança, em Durban,
África do Sul

Íbis, ave do Egito

O Íbis, ave do Egito,
Pousa sempre sobre um pé
(O que é
Esquisito).
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.
Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
(E essa era
Boa)
Ser um íbis esquisito
Ou pelo menos estar no Egito.
Estrofes de poema de Fernando Pessoa
No caso das edições da Assírio & Alvim, a responsabilidade pelo texto cabe a Teresa Rita Lopes e seus colaboradores. "Não estamos fazendo edições críticas, mas edições criteriosas", diz a pesquisadora. "Os versos de Pessoa costumam ter muitas variantes, sem indicação de qual era a opção final. Para dar conta disso, redigimos as notas necessárias, mas evitando que esse aparato técnico se transforme num problema para o leitor comum." Existe, porém, uma questão jurídica em torno dessa nova edição que começa a sair no Brasil. A obra de Pessoa, que havia caído em domínio público em 1985, voltou a ser patrimônio dos herdeiros do poeta no ano passado, graças a uma mudança na legislação européia. Esses herdeiros concederam exclusividade de publicação à Assírio & Alvim e, em razão disso, as outras edições de Pessoa que existiam em Portugal (algumas boas, outras muito ruins) estão saindo aos poucos de circulação. A pergunta é: será que essa legislação vale também no Brasil? O assunto dá pano para mangas. Segundo o diretor da Assírio & Alvim, Manuel Hermínio Monteiro, a expectativa é de que os livros lançados por outras editoras, que não a Companhia das Letras, também deixem o mercado, sem que para isso seja necessária ação na Justiça. Tudo indica, porém, que uma nova pendenga judicial vem aí.

Uma descrição dos heterônimos

Alberto Caeiro,
Ricardo Reis e
Álvaro de Campos,
imaginados pelo pintor
Almada Negreiros
Em torno do meu mestre Caeiro havia, como se terá depreendido destas páginas, principalmente três pessoas ­ o Ricardo Reis, o Antônio Mora e eu. O Ricardo Reis era um pagão latente, desentendido da vida moderna e desentendido daquela vida antiga, onde deveria ter nascido. Caeiro, reconstrutor do Paganismo, ou melhor, fundador dele no que eterno, trouxe-lhe a matéria da sensibilidade que lhe faltava. O Antônio Mora era uma sombra com veleidades especulativas. Encontrou Caeiro e encontrou a verdade. Por mim, antes de conhecer Caeiro, eu era uma máquina nervosa de não fazer nada. Logo que conheci Caeiro, verifiquei-me. Mais curioso é o caso do Fernando Pessoa, que não existe, propriamente falando. Ouviu ler o Guardador de Rebanhos. Foi para casa com febre, e escreveu, num só lance ou traço, a Chuva Oblíqua.
Montagem de trecho sobre os heterônimos assinado por Álvaro de Campos


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Em Janeiro de 1920, o poeta Fernando Pessoa conheceu a jovem Ophélia Queiroz (ou "Ofélia Queirós", indistintamente) nos escritórios da Baixa lisboeta onde ela entrou para trabalhar como dactilógrafa e ele já exercia os seus serviços como tradutor de correspondência comercial. Pouco tempo depois, iniciaram uma relação amorosa que iria durar até Novembro daquele mesmo ano, e que depois de nove anos de silêncio foi retomada no Verão de 1929, para terminar nova e definitivamente, ao fim de uns meses, embora o contacto se mantivesse até a morte do poeta em 1935. Esta relação é conhecida pelas cartas que ele escreveu a ela, 48 cartas publicadas em 1978 e precedidas de um texto explicativo da própria Ophélia (testemunho sóbrio e modesto mas muito precioso, dado que é tudo aquilo que tornou público) e das cartas dela para ele, publicadas pela sua sobrinha em 1996 e ainda inéditas em castelhano, e que só foram publicadas anos depois tanto da morte da própria Ophélia (1991) como do marido desta pois, ao contrário de Fernando, ela chegou a casar-se, mas só anos depois da morte do poeta. 
Além desta correspondência, apenas existem testemunhos isolados, demasiado vagos e escassos que recriem ou relembrem este amor. Nem mesmo dos familiares ou amigos mais próximos, porque foi uma relação levada com a máxima discrição e nunca se oficializou. Além disso, quando o interesse por o poeta se exaltou no que diz respeito à sua vida privada, já haviam passado muitos anos e as recordações tinham sido apagadas ou quem as tinha, simplesmente, tinha morrido. De qualquer maneira, foi o único amor conhecido do poeta, o único nos seus 47 anos de vida; e a publicação em 1996 das cartas de Ofélia para Fernando (um total de 110 cartas, mas certamente foram, no mínimo, mais de uma dúzia, entre extraviadas, ilegíveis e as que a família censurou) lança luz em tantos lados de sombra e destrói o ponto de vista unidireccional (cartas dele para ela) que até então os seus biógrafos contemplavam, principalmente no que respeita à chamada "segunda fase", o período compreendido entre 1929 até quase à morte do poeta. Porém, desde aquela data de 1996, em que se dá a conhecer esse outro ponto de vista, poucos foram os que abordaram ou retomaram esta relação, e menos ainda os que têm valorizado devidamente a figura de Ofélia Queiroz.
Desde a sua morte até aos nossos dias, o Destino que tão negado foi para si em vida, transformou Pessoa numa das vozes mais poderosas na literatura universal do século XX e no escritor português de todos os tempos com maior reconhecimento depois de Luís de Camões. Desde 1985, os seus restos mortais descansam na Abóbada do Mosteiro de Jerónimos, próximo dos grandes da pátria portuguesa, como Vasco da Gama ou o próprio Camões. Ofélia, que levou uma vida discreta e anónima coerente com a sua condição burguesa, nunca usou o seu laço com Pessoa em benefício próprio, nem revelou qualquer pormenor da sua intimidade nem da sua vida privada, por respeito ao seu marido e para consigo mesma, por muito que o seu Fernandinho acabasse transformado no grande Pessoa, figura, quase caricatura de si mesmo, explorada até a saciedade. E a verdade é que hoje não sei onde os seus restos mortais. É tão pouco o que se sabe sobre ela!...
Porém, um amor como este foi tão simples e tão complicado como qualquer relação entre um homem e uma mulher, com as mesmas grandezas e misérias, igualmente sublime e ridículo; um amor comum, atemporal e universal, que dava outra volta à chave no mecanismo complexo da personalidade do poeta, quebra-cabeças de peças que não encaixam e que, como num desses desenhos de M.C Escher, não se sabe onde a pessoa começa e a personagem termina, como a mão que se desenha a si mesma e vice-versa ou as pegadas que se apagam na praia de todas as recordações quando a maré dos anos sobe, num desses mares que ao contemplá-lo, como diria o mesmo Pessoa num dos seus poemas imortais, “dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca”.
A partir da correspondência entre ambos, do testemunho deixado pela própria Ophélia Queiroz, das recordações e impressões de familiares, amigos, conhecidos e biógrafos, assim como da obra do próprio Fernando Pessoa, muito especialmente partindo da consideração de diário íntimo do Livro do Desassossego, é que este romance reconstrói isso, um amor como este. E fá-lo partindo do mais profundo dos respeitos e com a preocupação máxima de concebê-lo o mais fielmente possível a que, como é de supor, sucederam os factos, permitindo que o leitor formule a sua própria opinião. Digamos que ponho Fernando e Ophélia a passear por esta Lisboa aqui revisitada (marco incomparável sem o qual esta história não é concebida) e deixo-os serem levados pela corrente, como mais dois peões, daquele rio humano que era qualquer uma das artérias principais da Baixa ou do Chiado em 1920 ou 1929 no momento do fecho dos escritórios e comércios. Ponho-os a dar um passeio e sigo-os, a uma distância prudencial, mas sentando-me ao lado nos cafés e eléctricos para prestar atenção e não perder o fio da conversa… ou melhor, para apanhar no voo o fio da última conversa, que invariavelmente teria de continuar na carta seguinte, escrita febrilmente naquela mesma noite. 
Ao narrar este amor em “Um amor como este”, tentei apanhar as migalhas que o poeta deixou então à entrada do labirinto (Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros...) e deixo-me levar até naufragar para conseguir entender a grandeza e a miséria deste amor concreto, e assim deixar claro, ao jeito de um livro de bordo, algumas coordenadas que nos orientem, a nível pessoal, em naufrágios futuros, ou ao menos nos ajudem a superá-los na íntegra. Deixo-me apanhar na sua teia de aranha para acabar por fazer a mim mesmo a pergunta inevitável que faz qualquer um que se aproxime seriamente do estudo da figura do poeta (como aquele que faz Antonio Tabucchi no seu "Um baú cheio de pessoas": … Chegados a este ponto, talvez os poucos amigos que pensavam conhecê-lo, que conheciam não só os aspectos públicos do intelectual mas também o aspecto privado do homem, aquele "tom menor de uma condição de empregado patologicamente respeitosa com o ritual", os amigos ao corrente do deambular daquele empregado de escritório tão previsível (o chapéu, o fato escuro, o quarto alugado, a paragem no café - sempre o mesmo - para as quatro conversas), provavelmente terão experimentado uma certa desorientação: Pessoa: quem era este homem?):
…Fernando Pessoa, quem era este homem?...
…Sem querer ou saber assumir que talvez a resposta já nos tinha dado o próprio, e muito claramente, no seu indispensável, inesquecível Livro do Desassossego:
“Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.”
 Pois bem. Acendo a vela, mas não há mais cera do que a que arde. Que isto sirva de aviso à navegação: nada de golpes de efeito e jogos de adivinhas. Truques literários, o justo. Ofereço um amor como este e Pessoa em estado puro, para terminar com a abertura desta outra questão, não menos profunda, não menos fascinante:
 …Ophélia Queiroz, quem era esta mulher?...
 E neste caso dá-nos a resposta, na primeira pessoa, nas suas cartas. E se este livro tem algo de homenagem é por isso que se atribui o primeiro lugar a Ofélia, Ofélinha… Bebé, bebezinho, Nininha pequena, meu querido amor… Porque acredito que já está na hora de ouvi-la e reconhecê-la.
…“Não o considero um homem normal e como tal não espero de si banalidades ou trivialidades. Se por vezes reclamo, é pelo muito que o quero e não sei dizer-lhe que fiquei contente por não ter falado consigo, ou não ter recebido notícias suas. Não sei gostar deste modo. Não é de estranhar que, gostando muito de mim, sofra muito por não nos termos visto. Mas a sua carta de hoje fez-me bem, agora esperarei com mais resignação. Porque esperarei por Fernandinho o tempo que for necessário.”…
Desejo de todo o coração que um amor como este os consiga emocionar. E antecipo as minhas desculpas pela falta de jeito evidenciada nesta tentativa.
 Afectuosamente,
 LUIS MORALES.
(Do "Prólogo" do romance "Um amor como este")

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

cartas de fernando pessoa a ofélia


CARTAS A OFÉLIA

  
Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de Maio a 29 de Novembro de 1920 e de 11 de Setembro de 1929 a 11 de Janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta.  

folha de poesia

artes, ideias e o sentimento de si

 

CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 27 DE ABRIL DE 1920
     
     
Meu Be«be»zinho lindo:
     
Não imaginas a graça que te achei hoje á janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).
     
Tenho estado muito triste, e além d'isso muito cansado - triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d'essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado...
     
Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria á minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.
     
Enfim...
     
Amanhã passo  á mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
     
Sempre e muito teu
     
assinatura de Fernando Pessoa
     
     
     
     
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 31 DE MAIO DE 1920
     
     
Bebezinho do Nininho-ninho:
     
Oh!
     
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!
     
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
     
Oh! O Nininho é pequenininho!
     
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis ho'as.
     
Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia. [desenho de uma meia] (isto é a meia das cinco e meia).
     
Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
     
Jinhos, jinhos e mais jinhos.
     
assinatura de Fernando Pessoa
     
     
     
   
   
   
   
CARTA A OPHÉLIA QUEIROZ – 25 DE SETEMBRO DE 1929
   
   
Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz:
    
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
   
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
   
Cumprimenta V. Ex. ª
   
Álvaro de Campos
eng. Naval
   
   
   
   
   
   
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 9 DE OUTUBRO DE 1929
   
   
     Terrivel Bébé
   
      Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é  sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .
assinatura de Fernando Pessoa 


 
Cartas de Amor, Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa, Ática, 1978 (3ª ed. 1994)

http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/11/05/ofelia.aspx


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ler aqui o integgral das cartas
http://recursos.wook.pt/recurso?&id=3516367

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as VontadesMudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
Muda-se o ser, muda-se a confiança: 
Todo o mundo é composto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades. 

Continuamente vemos novidades, 
Diferentes em tudo da esperança: 
Do mal ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem (se algum houve) as saudades. 

O tempo cobre o chão de verde manto, 
Que já coberto foi de neve fria, 
E em mim converte em choro o doce canto. 

E afora este mudar-se cada dia, 
Outra mudança faz de mor espanto, 
Que não se muda já como soía.