domingo, 9 de agosto de 2026

(61) De 'Já Bocage não sou!' a 'Era eu Bocage!«





Setúbal - Fotos victor nogueira

* Gemini

Numa caixa de eletricidade decorada nas ruas de Setúbal, a figura do poeta surge acompanhada pelas datas do seu falecimento (1805) e da intervenção (2014), juntamente com a afirmação: «ERA EU BOCAGE!».

Esta inscrição na rua contradiz frontalmente o tom da célebre trilogia de sonetos da agonia, escrita pelo poeta no leito de morte, onde ele renegava a sua faceta libertina e pedia para esquecerem a sua persona satírica.


De «Já Bocage não sou!» a «Era eu Bocage!»

Já Bocage não sou!... À cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento...

Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento

Leve me torne sempre a terra dura;


Conheço agora já quão vã figura

Em prosa e verso fez meu louco intento:

Musa!... Tivera algum merecimento

Se um raio da razão seguisse pura.

 

Eu me arrependo; a língua quase fria

Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria:

 

Outro Aretino fui... A santidade

Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,

Rasga meus versos, crê na Eternidade!


No segundo soneto dessa trilogia derradeira, a angústia da retratação prossegue:


Meu ser evaporei na leve fumaça

Da profana razão, da vaidade;

Eis da morte a gravíssima verdade:

Sombra o futuro, o passado um nada.

 

Sem poder reparar a vida irada,

Sentindo-me tragar pela eternidade,

Quero a meu favor a piedade

Da divindade por mim tanto ultrajada.

 

Anjos, santos, que o céu habitais,

Pedindo por mim ao Juiz supremo,

Mitigai-lhe a justiça e os ais!

 

E vós, homens, que o erro alheio vedes,

Ponderai a lição no meu extremo:

Não vos fieis na vida, pois que a perdeis!

Na lateral do mesmo equipamento urbano, a intervenção de 2014 remata a ponte temporal entre o passado e o presente com o aforismo: «NO PASSADO ENCONTRAMOS FUTURO DURANTE O PRESENTE».

A arte urbana faz assim a síntese perfeita: se na hora do fim o homem quis apagar o "Bocage", a memória popular de Setúbal recusou esse desaparecimento. A cidade resgata o poeta, desmentindo o desespero com que ele encerrava o terceiro e mais famoso soneto do seu tríptico de morte:

Meu ser evaporei na lida insana

Do tropel de paixões que me arrastava

Ah! Cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava

Em mim quase imortal a essência humana:

 

De que inúmeros sóis a mente ufana

Existência falaz me não dourava!

Mas eis sucumbe Natureza escrava

Ao mal, que a vida em sua orgia dana.

 

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!

Esta alma, que sedenta em si não coube,

No abismo vos sumiu dos desenganos;

 

Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,

Ganhe um momento o que perderam anos,

Saiba morrer o que viver não soube.

Uma outra seuência de fotos mostra diferenças na mesma caixa de electricidade, correspondentes a momentos cronológicamente diferentes, embora de momento não me seka possível estabelecer a sequência.


Nesta fotografia mais aproximada, é possível ler claramente a inscrição feita em manuscrito a preto sobre a mancha verde, logo abaixo de «ERA EU BOCAGE!»:

DEPOIS MORRI

PENDURARAM-ME

ALI NO MEIO

DAQUELA PRAÇA

QUE DESGRAÇA!

Abaixo dessa quadra bem-humorada encontra-se ainda uma assinatura estilizada do autor/artista.

O Contexto da Frase

Esta quadra humorística faz uma referência direta e muito irónica à estátua de Bocage na Praça do Bocage, no centro de Setúbal (inaugurada em 1871, onde a estátua do poeta figura no topo de uma elevada coluna de mármore):

  • "Penduraram-me ali no meio daquela praça": O poeta, com o seu humor característico, queixa-se de ter sido colocado num pedestal alto no centro da praça principal.

  • "Que desgraça!": A piada bocagiana ao facto de, depois de morto, ter ficado "imobilizado" no cimo de um monumento à vista de todos.


Adenda: A Anedota do «Era eu Bocage!»

A expressão inscrita na caixa técnica remete para o vasto anedotário popular em redor do poeta. Conta a tradição que, certa noite, Bocage foi abordado na escuridão por uma patrulha de arma em riste, que lhe ordenou bruscamente:

Quem vem lá? Identifique-se!

Ao que o poeta, mantendo a serenidade e o improviso acutilante, terá respondido:

Se é para roubar, não vale a pena, sou o Bocage e não tenho um tostão; se é para matar, faça favor, sou o Bocage e não tenho medo; se é para levar preso, era eu Bocage que já lá ia!

Fotos Victor Nogueira

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