* José Jorge Letria
Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.
in "Animália Odes aos Bichos"
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 23 de junho de 2014
domingo, 22 de junho de 2014
A serra da arrábida em sebastião da gama
O agoiro do bufo, nos penhascos,
foi o sinal da Paz.
O Silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.
Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte amiga;
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.
O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra
nunca alcançou.
E outros murmúrios de água escuto, mais além:
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou.
Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia;
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
—passam a dar-se em mim.
E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.
A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
desceu da Serra e concentrou-se em mim.
E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar...
… … … … … … …. … … … … … … …
… … … … … … …. … … … … … … …
Ai não te cales, água murmurante!
Ai não te cales, voz do Poeta errante!,
—se não a Serra pode despertar.
In SERRA-MÃE , Ática, 1991
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sábado, 21 de junho de 2014
Matos Serra - O QUE É PRECISO
***
O QUE É PRECISO (Obrigada amigo Matos Serra )
É precisa uma flor
é preciso um bom vinho
é preciso o amor
é preciso um caminho.
É preciso o prazer
é precisa a ternura
é preciso viver
um amor em loucura.
É preciso o carinho
é preciso o calor
melhor que um bom vinho
como um terno licor.
É preciso dizer
é preciso afirmar
que há um verbo a escolher
que é o verbo amar.
É preciso dizer
que o amor tem um custo
é preciso saber
qual o preço que é justo.
A proposta correta
e o justo valor
está na troca direta
é amor por amor.
Matos Serra
É precisa uma flor
é preciso um bom vinho
é preciso o amor
é preciso um caminho.
É preciso o prazer
é precisa a ternura
é preciso viver
um amor em loucura.
É preciso o carinho
é preciso o calor
melhor que um bom vinho
como um terno licor.
É preciso dizer
é preciso afirmar
que há um verbo a escolher
que é o verbo amar.
É preciso dizer
que o amor tem um custo
é preciso saber
qual o preço que é justo.
A proposta correta
e o justo valor
está na troca direta
é amor por amor.
Matos Serra
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sexta-feira, 20 de junho de 2014
Fernando Pessoa : Gato que brincas na rua
|
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=757#ixzz35gtVj0O4
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quinta-feira, 19 de junho de 2014
josé manangão - serra da arrábida
Serra da Arrábida a grande jóia
Beijada pelas águas do rio "Sado"
Defronte, a Peninsula de "Tróia
A cidade de Setúbal, vive a seu lado
-
Tem no seu ventre um convento
Cercado por luxuriante vegetação
Não fora essa doença do cimento
A Natureza cumpriria sua função
-
As escarpadas afiadas pelo tempo
Suas grutas, ainda por desvendar
Sua beleza, acaríciada pelo vento
Beijada pelas águas do rio "Sado"
Defronte, a Peninsula de "Tróia
A cidade de Setúbal, vive a seu lado
-
Tem no seu ventre um convento
Cercado por luxuriante vegetação
Não fora essa doença do cimento
A Natureza cumpriria sua função
-
As escarpadas afiadas pelo tempo
Suas grutas, ainda por desvendar
Sua beleza, acaríciada pelo vento
Os mirantes, onde vamos admirar
Ao seu redor e em cada momento
O infinito, onde o céu, abraça o mar
-
Ao seu redor e em cada momento
O infinito, onde o céu, abraça o mar
-
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Soneto
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Charles Baudelaire, Os Gatos
Charles baudelaire
Lindo gato, vem cá, vem ao meu colo;
Encolhe as unhas dessa pata,
E deixa que eu mergulhe nos teus olhos,
Um misto de metal e ágata.
Quando os meus dedos, à vontade, afagam
O dorso elástico, a cabeça,
E a mão se me inebria de prazer
No corpo eléctrico, a apalpá-lo,
Vejo a minha mulher. O seu olhar,
Tal como o teu, querido animal,
Frio e profundo, fende-nos qual dardo,
E da cabeça até aos pés
Um ar subtil, um perfume perigoso
Nadam em torno do seu corpo.
http://lugardaspalavras.no.sapo.pt/assinar_a_pele.htm
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terça-feira, 17 de junho de 2014
frei agostinho da cruz e a serra da arrábida
ELEGIA II
(Da Arrábida)
Alta Serra deserta,
donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo:
Aquela
saüdade que me manda
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?
Lágrimas derramar em toda a parte,
Que fará nesta saüdosa, e branda?
Daqui
mais saüdoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte.
Aqui
sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.
Duvido
poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.
Mas
ouço queixar dentro a Lapa escura,
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.
Roídas as entranhas aparecem
Daquela rouca voz, que lá murmura.
Eis
por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.
Os
olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me
em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés doutros mais verdes arvoredos.
Assim
com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.
Se
pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido
de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
Ali
me chamo cego, ali perdido,
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.
Ali por tantos nomes me nomeio,
Quantos por culpas tenho merecido.
Ali
gemo, e suspiro, ali pranteio;
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.
Ali geme, e suspira, ali pranteia
O monte, e vai de meus suspiros cheio.
Ali
me faz pasmar, ali me enleia
Quanto colhendo estou da saüdade,
Que por toda esta terra se semeia.
Quanto colhendo estou da saüdade,
Que por toda esta terra se semeia.
Ora
me ponho a rir da vaïdade,
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.
Ora triste a chorar com quanto estudo
Erros solicitei da mocidade.
Tudo
se muda enfim, muda-se tudo,
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.
Tudo vejo mudar cada momento:
Eu de mal em pior também me mudo.
Soía
levantar meu pensamento
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.
Assentado sobre estas penedias
Duras, eu duro mais nelas me assento.
Punha-me
a ver correr as águas frias
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.
Por cima de alvos seixos repartidas,
Que faziam tremer ervas sombrias.
As
flores, que levava já colhidas,
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.
Passando pelos vales enjeitava
Por outras doutra nova cor vestidas.
O
livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava.
Cuidei
que se esquecesse nesta Serra
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.
A dura imiga minha natureza;
Mas donde quer que vou lá me faz guerra.
Oh!
quem vira naquela fortaleza
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!
Rodeada de fogo de amor puro,
Daquele amor divino esta alma acesa!
Quão
firme, e quão quieto, e quão seguro
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!
No campo se pusera em desafio!
E quão brando sentira o ferro duro!
Mas
se agora de mim me não confio,
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.
Se fujo, se me escondo, se me temo,
É porque sinto fraco o peito frio.
Alevantam-se
os mares; e pasmo, e tremo:
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.
Vejo vento contrário, desfaleço,
A corrente das mãos me leva o remo.
Confesso
minha culpa, bem conheço
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.
Que por mais graves males que padeça
Menos padecerei do que mereço.
Mandais,
Senhor, que busque, bata, e peça,
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.
Eu busco, bato, e peço a vós, Senhor,
Sem haver cousa em mim que vos mereça.
Com
os braços na Cruz, meu Redentor,
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.
Abertos me esperai, co lado aberto,
Manifestos sinais do vosso amor.
Ah!
quem chegasse um dia de mais perto
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!
A ver cos olhos de alma essa ferida,
Que esse coração mostra descoberto!
Esse,
que por salvar gente perdida
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.
De tanta piedade quis usar,
Que deu nas suas mãos a própria vida.
A
sangue nos quisestes resgatar
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.
De tão cruel, e duro cativeiro,
Vendido fostes vós por nos comprar.
Padecestes
por nós, manso Cordeiro,
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:
Arçam postos no fogo os corações.
Pisado, preso, e nu entre ladrões,
Ardendo o fogo posto no madeiro:
Arçam postos no fogo os corações.
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/fcruz.htm
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segunda-feira, 16 de junho de 2014
Joaquim Pessoa - Dia 283. (excertos)
***
Boa noite gente! Fiquem bem!
Joaquim Pessoa
Dia 283. (excertos)
Sou um fantasma em busca de uma pátria. O sítio onde estou é
um quintal cheio de melancolia e de solidão, onde cada um foge
de si próprio e os que se afirmam felizes são aqueles que ainda
não têm consciência disso.
Sinto que me empurram para a morte como se me oferecessem
um refúgio onde me querem de costas para a vida, para tudo o
que nela sempre procurei desesperadamente transformar, como
se quisesse mudar o sangue em água pura.
Procuro amar-me a mim e amar os outros com uma obstinação
ágil e silenciosa, procuro uma intimidade com um mundo cuja
herança tenho dificuldade em reconhecer e aceitar.
Não tenho pátria e busco uma. Um país onde as estrelas não es-
tejam tão distantes, onde o silêncio faça sentido, onde o sentido
das coisas não seja o do fogo que as consome. Persigo uma pá-
tria que venha de dentro de mim, mas que seja de todos aqueles
que os meus lábios possam pronunciar o nome.
in ANO COMUM,
Editora Edições Esgotadas, 2013.
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domingo, 15 de junho de 2014
Alvina Nunes Tzovenos In: Palavras ao Tempo
***
Feliz noite ! Amigos/As e Camaradas.....
Baila sob a luz das estrelas.
Desata o fio de teus sapatos.
Deixa que o sol te beije de esperanças e risos.
Faz e de tua vida
um hino ao beijar os olhos da manhã
uma harpa ao por os pés no ventre da noite
um rodopio de azuis, de conchas e de búzios.
Deixa que o vento brinque com teus pés
a chuva te beije ate se cansar
as flores e os verdes e os caracóis
enfeitem teus cabelos de Verões.
Corre atrás da vida com ternura de criança
e canções plenas de paz
e com risos de palhaços
porque tudo, todos nos
brincamos de viver bem
sempre, sempre
num carrossel
no circo da vida.
Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo
Baila sob a luz das estrelas.
Desata o fio de teus sapatos.
Deixa que o sol te beije de esperanças e risos.
Faz e de tua vida
um hino ao beijar os olhos da manhã
uma harpa ao por os pés no ventre da noite
um rodopio de azuis, de conchas e de búzios.
Deixa que o vento brinque com teus pés
a chuva te beije ate se cansar
as flores e os verdes e os caracóis
enfeitem teus cabelos de Verões.
Corre atrás da vida com ternura de criança
e canções plenas de paz
e com risos de palhaços
porque tudo, todos nos
brincamos de viver bem
sempre, sempre
num carrossel
no circo da vida.
Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo
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sábado, 14 de junho de 2014
Fernando Pessoa - A múmia
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terça-feira, 10 de junho de 2014
David Mourão-Ferreira - Presídio
PRESIDIO
Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco?…
E o ventre, inconsistente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não. Meu amor… Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo…
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão-Ferreira, "Lira de Bolso"
Antonioni
Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco?…
E o ventre, inconsistente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não. Meu amor… Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo…
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão-Ferreira, "Lira de Bolso"
Antonioni
Part5ilhado por isabel reis
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domingo, 8 de junho de 2014
alberto caeiro - O amor é uma companhia
* Alberto Caeiro
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
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sábado, 7 de junho de 2014
eugénio de andrade - Rumor
Acorda me
um rumor de ave
Talvez seja a tarde
a querer voar.
A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão que não tive.
Talvez nada
ou só um olhar
que na tarde fechada é ave.
Mas não pode voar (Eugénio
de Andrade)
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quinta-feira, 5 de junho de 2014
Fernando Pessoa - Pobre Velha Música!
Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
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terça-feira, 3 de junho de 2014
Ary dos Santos - O objecto
* Ary dos Santos
Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas qua - o o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.
Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.
E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.
E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão
Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.
Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas qua - o o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.
Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.
E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.
E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão
Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.
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segunda-feira, 2 de junho de 2014
eugénio de andrade - nas ervas
Escalar-te lábio a lábio
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar.
Os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão
porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve,
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve. (Eugénio
de Andrade)
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quinta-feira, 29 de maio de 2014
Fernando Pessoa - De Quem é o Olhar
De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?
Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.
Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora —
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua —
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!
Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
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