terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O verdadeiro Gramsci: Revolucionário comunista

Cultura

Vermelho - 22 de Janeiro de 2011 - 9h00

Hoje, fala-se e escreve-se muito sobre Antonio Gramsci. Muito. É indubitavelmente algo positivo. Na segunda metade do século 20, Gramsci foi o político italiano de quem mais se falou e escreveu.

Por Maurizio Nocera*, em L´Educazione Gramsciana
Tradução: José Reinaldo Carvalho

Seguramente, não se fez tanto sobre o liberal Benedetto Croce ou sobre o fascista Giovanni Gentile, os dois filósofos políticos da burguesia dos quais os manuais se interessam como os pensadores máximos do século 20, nem se fez o mesmo sobre políticos como Alcide De Gasperi e o próprio Palmiro Togliatti, este último durante muitos anos secretário-geral do Partido Comunista Italiano e altíssima personalidade política do nosso país.

Leia também: Por que se continua a falar e escrever tanto sobre Gramsci? Simplesmente porque as modas passam e, ao contrário, as ações e os exemplos de alguns homens permanecem e perduram no tempo.

A quem interessaria hoje a filosofia do espírito de Croce, ou a especulação sobre o “pensamento pensante” de Gentile? Águas passadas sob a ponte, águas derramadas para sempre no grande mar da história de todos os tempos, útil talvez para rever de tempos em tempos, como cultura histórico-filosófica, jamais como algo inédito, de experimentável. É fato consumado, visto, discutido, superado.

Outra coisa, contudo, foram as ações políticas e o pensamento especulativo do grande sardo na primeira metade do século passado, pensamento e prática que não encontraram aplicação, porque esmagados no nascedouro, decepados pelo fascismo mussoliniano, que atuava como a versão mais obscura da burguesia italiana. O Gramsci comunista, que lutava pela conquista de uma nova sociedade, pela construção de uma sociedade socialista, devia ser parado, preso.

Dois mil e quinhentos anos atrás, um pouco por fabulação, mas também um pouco com base naquilo que era a realidade concreta daquele tempo, Platão pensou um tipo de nova sociedade, um estado ideal perfeito, que chamou de República e que estruturou para as classes compostas por produtores, defensores e pensadores.

Já se disse que aquela ideia platônica não era senão utopia, fruto do pensamento humano. Isto é o que se pensava e se acreditava durante milênios. Mas se hoje olhamos para as repúblicas modernas nas quais vivemos, como são estruturadas? É de maneira diferente da que pensava Platão? Não me parece. Platão tinha pensado em uma sociedade impossível de realizar-se em seu tempo, mas não excluía a sua exeqüibilidade futura.

Que quero dizer com isso? Simplesmente que o estado idealizado pelo grande filósofo ateniense, embora com altos e baixos e ziguezagues, sucessivamente, ao longo dos séculos, torna-se realidade, que experimentou as diferentes formas de governo idealizadas: a timocracia (plutocracia), a aristocracia, a tirania, a democracia e outras formas intermediárias entre uma e outra.

No seu complexo, a humanidade viu e experimentou na própria pele estas diferentes formas de governo, pelo menos a partir da revolução burguesa de 1789: república presidencialista, república militarista, república democrática, república de conselhos, república totalitária. Nestes anos, que vão de 1945 até hoje, no centro do debate político italiano sempre tem havido momentos de luta institucional muito elevados: a defesa da Constituição republicana dos ataques por parte daqueles que jamais quiseram reconhecê-la e dos que, mesmo reconhecendo-a, nada fizeram para aplicá-la.

Se esta não aplicação é um ponto de referência, o que dizer agora de tudo quanto aconteceu antes daquele histórico evento que viu os comunistas combaterem na primeira linha pela liberdade e a democracia em nome de Antonio Gramsci e Giuseppe Garibaldi? Simplesmente que aquela parte da história política do início do século passado, o que foi pensado, escrito e compreendido na luta política de Antonio Gramsci e dos comunistas nos anos precedentes ao advento do fascismo, não foi jamais aplicado porque esmagado no nascedouro.

A internacional da burguesia, como também suas ramificações periféricas nacionais, sempre tiveram horror de que aquelas ideias políticas encontrassem o mínimo trânsito para sua completa realização, por isso sempre misturaram as coisas com o objetivo de apagar definitivamente a aspiração da classe operária e do povo italiano à conquista da nova sociedade, mais avançada socialmente, mais igualitária no plano dos direitos.

Hoje sabemos que a única sociedade experimentada pela humanidade a ter tais requisitos é a sociedade socialista. Isto ainda não aconteceu na Itália. Primeiro o impedimento foi o fascismo, braço armado executor direto da burguesia mais reacionária, depois sobreveio um longo período de inter-classismo democrata-cristão, no qual a política italiana não era orientada e dirigida pelos italianos mas pelos chefes do imperialismo estadunidense.

Alguém até hoje crê que isto durará eternamente e que as ideias de Antonio Gramsci sobre a nova sociedade já são águas passadas. Ilude-se, porque a história dos homens e mulheres que vivem em nosso planeta é como o vento que antes ou depois varre aquilo que se torna naturalmente obsoleto, seco, inadequado, fora do tempo.

Há mais de 70 anos, políticos, filósofos, historiadores, intelectuais geralmente entendidos, fazem conferências e escrevem sobre o fundador do Partido Comunista da Itália em 1921. Fazem-no sobre a base de diferentes exigências de tipo histórico-sociológico ou político.

Todos, entretanto, são obrigados a dar de Antonio Gramsci uma imagem de homem coerente, cuja vida foi caracterizada pelo empenho constante e luta política pela emancipação e o resgate do proletariado italiano e internacional. Todos têm liberdade para construir a imagem que quiser sobre Gramsci. Mas liberdade de pensamento, de ação e de organização política deve ter também quem pensa em ser comunista e, com isto, pensa no Gramsci fundador de um movimento e de um partido que lutam pela transformação da presente ordem das coisas.

Lendo tudo quanto se escreve hoje sobre o grande sardo, corre-se o risco de não compreender por que ele foi preso, por que o fascismo foi tão implacável contra este homem. Para alguns politiqueiros filósofos, o verdadeiro motivo pelo qual Gramsci acabou sua vida preso, deveria ser debitado aos seus próprios companheiros.

Algum outro se atreve mesmo a dizer que o culpado foi o próprio Stálin, ou pelo menos sua política de defesa da teoria da construção do socialismo em um só país. Credulidade. A verdadeira realidade é que sempre os revisionistas, quando não mentem despudoradamente, envergonham-se de afirmar que Gramsci foi perseguido, preso, encarcerado, recluso por 11 anos, quase sempre em solitária, simplesmente porque era comunista, simplesmente porque era defensor dos direitos da classe operária, simplesmente porque era defensor das melhores tradições e da história da luta pela emancipação do povo italiano.

Que paradoxo é a vida e que miséria é certa política! Quem, hoje, por motivo de trabalho, estudo ou luta política tenha que estudar a história recente de nosso país, não poderá deixar de encontrar em seu percurso de estudioso a história política do comunista Antonio Gramsci, o peso político e científico do seu pensamento marxista-leninista sobre a vida política e cultural italiana.

Até mesmo os neofascistas, herdeiros políticos dos executores materiais da sua eliminação física, até eles são forçados a fazer, mesmo que seja de modo instrumental, considerações sobre Gramsci. Mas no que se refere aos revisionistas de todos os tipos, cuidam de apresentar uma imagem de Gramsci como se ele tivesse sido obrigado pelas circunstâncias a se tornar comunista, um Gramsci substancialmente distanciado da luta de classes, isolado na prisão, que tinha perdido contato com a realidade.

A operação mais desajeitada é aquela que consiste em tentar dar crédito à imagem de um Gramsci de antes de 1926 (ano da sua prisão) e de um Gramsci depois da prisão até 1937. Os revisionistas apontam no sentido de separar verticalmente os dois períodos (já vimos fazerem isto com Marx, Lênin, a União Soviética, o campo socialista) na vã tentativa de fazer aceitar um Gramsci dividido: o primeiro, jovem e, como todo jovem, impetuoso e levado a se colocar em cena; este seria o Gramsci defensor da ocupação de fábricas pela classe operária organizada nos conselhos de fábrica e o Gramsci fundador do PCI e líder dos comunistas italianos. É evidente que para esses senhores, este Gramsci deve ser descartado, esquecido, obnubilado.

O segundo Gramsci, aquele dos “Cadernos do Cárcere”, pelo contrário, pode ser lido, pensado, meditado fora do contexto da luta de classes, na vã esperança de que não seja compreendido até o fim por aquilo que efetivamente ele foi e o quanto pesa ainda hoje o seu pensamento político. As suas mil e uma circunvoluções liquidacionistas tendem, como uma armadilha, a fazer Gramsci aparecer apenas como um pensador político asséptico, cuja ação se diluiu no próprio tempo da sua vida.

É uma lógica canhestra aquela em que me parece até mesmo Luciano Cânfora caiu com seu último livro “Sobre Gramsci” (Datanews/alcazar, maio 2007). Ele apresenta honestamente um Gramsci comunista, em linha com o pensamento leninista, mas também um pouco asséptico, sobre um fundo político em que a luta de classes deve ser apenas imaginada, porque o autor não faz o leitor enxergá-la; para ele, no fundo, Gramsci é um pensador político cujas teses, no plano da teoria, não são no momento criticáveis, mas as teses de um Gramsci que ele estuda e discute como um estudioso, em particular um estudioso do mundo antigo.

Mas aquilo que mais me surpreende do seu breve ensaio é ter reportado declarações referidas em algumas teses de conhecidos falsificadores da história como Isaac Deutscher e François Furet. A análise da leitura de Canfora sobre o pensamento marxista-leninista de Antonio Gramsci parte da crítica de diferentes revisionismos, mas ele foge da natureza perniciosa do revisionismo-pai de todos os demais, o revisionismo de tipo kruchoviano-gorbachoviano, que se encontra na base de não poucas catástrofes.

É por este motivo que se pergunta: por que e para quem Luciano Cânfora escreveu o seu ensaio “Sobre Gramsci” ? Estava lendo o texto de Canfora quando me veio à mente Luigi Russo, um não marxista, reitor da Universidade Normal de Pisa, que pronunciou o discurso “Descoberta de Antonio Gramsci” perante os estudantes na máxima universidade italiana em 27 de abril de 1947 (cf. “Belfagor”, ª XLIII, nº 2, 31 março de 1988, págs. 145-166).

Magistério sublime o que Luigi Russo escreveu: “Gramsci é um homem de um partido político que não é o meu [...], mas ele foi um grande militante desta fatigada democracia, à qual hoje todos os homens de boa vontade e de boa fé querem dar a sua contribuição e nesta aproximação e fraternidade dos ideais corre-se de fato com maior trepidação humana para aqueles que não conhecemos e cujas cartas percorremos com curiosidade febril, porque, para além da fé política de cada um, queremos advertir aquilo que foi o motivo comum da revolta ideal que nestes últimos vinte e cinco anos temos experimentado, desconhecidos um do outro, mas estranhamente íntimos e próximos um do outro, por uma Itália e uma Europa melhores”. (Pág. 147)

* Maurizio Nocera é escritor e membro do Centro Gramsci

 
(Texto escrito em 2007 por ocasião do 70º aniversário da morte de Antonio Gramsci)
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Gramsci nos Cadernos do Cárcere: Sobre o Partido

Mídia

Vermelho - 22 de Janeiro de 2011 - 9h02

Como dirigente teórico e prático do movimento operário e comunista italiano, Antonio Gramsci tinha a perfeita noção do papel do partido, dotado de ideologia, linha política, ampla rede de militância, ligações profundas com as massas e uma organização de quadros capazes de centralizar, disciplinar e dirigir a luta pelo socialismo. Confira no texto que o Vermelho publica abaixo.

Cadernos do Cárcere: Sobre o Partido

Por Antonio Gramsci, em Quaderni del Cárcere
Traduzido do italiano por José Reinaldo Carvalho

[...] Quando se quer escrever a história de um partido político, na realidade enfrenta-se toda uma série de problemas, muito menos simples do que possa crer, por exemplo, Roberto Michels, que não obstante é considerado um especialista na matéria. O que será a história de um partido? Será a mera narração da vida interna de uma organização política? Como ela nasce, quais foram os primeiros grupos que a constituíram, quais as polêmicas ideológicas através das quais se forma o seu programa e a sua concepção do mundo e da vida? Tratar-se-ia, em tal caso, da história de restritos grupos intelectuais e talvez da biografia política de uma individualidade. A moldura do quadro deverá, porém, ser mais vasta e abrangente.

Deverá fazer-se a história de uma determinada massa de homens que terá seguido os promotores, terá apoiado com a sua confiança, com a sua lealdade, com a sua disciplina ou os terá criticado de maneira “realista” dividindo-se ou permanecendo passiva diante de certas iniciativas. Mas essa massa será constituída apenas dos aderentes do partido? Será suficiente seguir os congressos, as votações etc., isto é, todo o conjunto das atividades e do modo de existência com que uma massa de partido manifesta a sua vontade?

Evidentemente será necessário ter em conta o grupo social de que determinado partido é expressão e sua parte mais avançada: isto significa que a história de um partido não poderá deixar de ser a história de um determinado grupo social. Mas esse grupo não é isolado: tem amigos, afins, adversários, inimigos. Somente do complexo quadro de todo o conjunto social e estatal (e freqüentemente até com interferências internacionais), resultará a história de um determinado partido, por isso se pode dizer que escrever a história de um partido significa nada mais que escrever a história geral de um país do ponto de vista monográfico, para pôr em relevo um aspecto característico.

Um partido terá tido maior ou menor significado e peso, na medida em que sua atividade particular tenha pesado mais ou menos na história de um país. Portanto, eis por que do modo de escrever a história de um partido resulta o conceito que se tenha sobre o que é e deva ser um partido.

O sectário se exaltará com as questões internas, que para ele terão um significado esotérico e o encherão de místico entusiasmo; o historiador, embora dando a todas as coisas a importância que têm no quadro geral, porá acento sobretudo na eficiência real do partido, na sua força determinante, positiva e negativa, no haver contribuído para criar um fato e também no haver impedido que outros ocorressem.

O ponto de saber quando um partido está formado, ou seja, quando tem uma tarefa precisa e permanente, dá lugar a muitas discussões e freqüentemente também, infelizmente, a uma forma de arrogância que não é menos ridícula e perigosa que a “arrogância da nação”, de que fala Vico. É verdade que se pode dizer que um partido não está jamais completo e formado, no sentido de que todo desenvolvimento cria novas tarefas e obrigações e no sentido de que para certos partidos é verdade o paradoxo de que estarão completos e formados quando já não existirem mais, isto é, quando a sua existência tiver se tornado historicamente inútil.

Assim, desde que todo partido não é senão uma nomenclatura de classe, é evidente que para o partido que se propõe anular a divisão em classes, a perfeição e a plenitude consistem no não existir mais porque não existirão mais classes e portanto suas expressões. Mas aqui se quer apontar para um momento particular desse processo de desenvolvimento ao momento sucessivo àquele em que um fato pode existir e ao mesmo tempo não existir, no sentido de que a necessidade da sua existência não se tornou ainda “peremptória”, mas depende em “grande parte” da existência de pessoas de extraordinário poder volitivo e de extraordinária vontade.

Quando um partido se torna “necessário” historicamente? Quando as condições do seu “triunfo”, da sua inevitabilidade estejam ao menos em vias de formação e permitam prever normalmente seu ulterior desenvolvimento. Mas quando se pode dizer, em tais condições, que um partido não pode ser destruído com meios normais? Para responder, é necessário desenvolver um raciocínio: para que exista um partido é necessário que confluam três elementos fundamentais (ou seja, três grupos de elementos)

1) Um elemento difuso, de homens comuns, médios, cuja participação é oferecida pela disciplina e a fidelidade, não pelo espírito criativo e altamente organizativo. Sem estes, o partido não existiria, é verdade, mas também é verdade que o partido tampouco existiria “somente” com estes. Estes são uma força somente porque há aqueles que centralizam, organizam e disciplinam o partido, mas na ausência desta força coesiva o partido se dispersaria e se anularia como algo insignificante e impotente. Não se nega que algum desses elementos possa tornar-se uma força coesiva, mas se fala destes precisamente no momento em que não são esta força coesiva e não estão em condições de ser e se são, isto ocorre num círculo restrito, politicamente ineficiente e sem consequência.

2) O elemento coesivo principal, que centraliza no campo nacional, que torna eficiente e potente um conjunto de forças que deixadas a si contariam zero ou umpouco mais; este elemento é dotado de força altamente coesiva, centralizadora, disciplinadora e também, aliás talvez por isso mesmo, de inventividade (se se entende “inventividade” em uma certa direção , segundo certa linha de força, certa perspectiva e ainda certa premissa): é também verdade que somente deste elemento não se formaria o partido, mas o formaria mais do que se não fosse considerado o primeiro elemento. Fala-se de capitães sem exército, mas na realidade é mais fácil formar um exército do que formar capitães. Tanto é verdade que um exército já existente será destruído se faltarem os capitães, enquanto que a existência de um grupo de capitães, bem formados, concordes entre si, com fins comuns, não tarda a formar um exército mesmo onde não existe.

3) Um elemento médio, que articule o primeiro com o segundo, que os ponha em contato, não só “físico”, mas moral e intelectual. Na realidade, para todo partido existem “proporções definidas” entre esses três elementos e se alcança o máximo de eficiência quando tais “proporções definidas” são realizadas.

Dadas estas considerações, pode-se dizer que um partido não pode ser destruído com meios normais quando, existindo necessariamente o segundo elemento, cujo surgimento está ligado à existência das condições materiais objetivas (e se este segundo elemento não existe, todo raciocínio é vazio), mesmo que seja no estado disperso e vagante, não possam deixar de formar-se os outros dois, ou seja, o primeiro que necessariamente forma o terceiro como sua continuação e meio de exprimir-se.

Ocorre que, para que isso advenha, deve ser formada a convicção férrea de que é necessária uma determinada solução dos problemas vitais. Sem esta convicção, não se formará o segundo elemento, cuja destruição é a mais fácil pelo seu escasso número, mas é necessário que este segundo elemento, se destruído, tenha deixado como herança um fermento a partir do qual regenerar-se.

E onde este fermento subsistirá melhor e poderá melhor formar-se senão no primeiro e no terceiro elemento que, evidentemente, são mais homogêneos com o segundo? A atividade do segundo elemento para constituir este elemento é assim fundamental: o critério de juízo deste segundo elemento será buscar: 1) no que realmente faz; 2) no que prepara, na hipótese de sua destruição. Entre os dois fatos é difícil dizer qual seja o mais importante. Como na luta se deve sempre prever a derrota, a preparação dos próprios sucessores é um elemento tão importante de tudo quanto se deve fazer para vencer.
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Gramsci: Sobre a base da organização do Partido

Cultura

Vermelho - 22 de Janeiro de 2011 - 9h04

Antônio Gramsci compreendia que a organização partidária era antes de tudo uma questão política, como afirma desde o início do escrito abaixo. Para ele, o conceito não era uma forma de escapismo do duro labor organizativo, mas o ponto de partida para forjar uma identidade de partido independente da classe operária.

Sobre a base da organização do Partido

Por Antonio Gramsci, em La Costruzione del Partito Comunista
Traduzido do italiano por José Reinaldo Carvalho

Todos os problemas de organização são problemas políticos. A solução destes deve tornar possível ao partido cumprir a sua tarefa fundamental, de fazer com que o proletariado conquiste uma completa independência política, dar-lhe uma fisionomia , uma personalidade, uma consciência revolucionária precisa, impedir toda infiltração e influência desagregadora de classes e elementos que, mesmo tendo interesses contrários ao capitalismo, não querem conduzir a luta contra este até as suas últimas consequências.

Em primeira linha, encontra-se um problema político: o problema da base da organização. A organização do partido deve ser construída sobre a base da produção e portanto do local de trabalho (células). Este princípio é essencialmente para a criação de um partido “bolchevique”. Isso depende de que o partido deve ser apetrechado para dirigir o movimento de massa da classe operária, a qual vem naturalmente unificada pelo desenvolvimento do capitalismo segundo o processo da produção.

Pondo a base organizativa no local de produção o partido cumpre um ato de escolha da classe sobre a qual se baseia. Este proclama ser um partido de classe e o partido de uma só classe, a classe operária.

Todas as objeções ao princípio que põe a organização do partido sobre a base da produção partem das concepções ligadas a classes estranhas ao proletariado, mesmo que sejam objeções apresentadas por companheiros e grupos que se dizem de “extrema esquerda”. Estes se baseiam sobre uma consideração pessimista quanto à capacidade revolucionária do operário e do operário comunista e são expressões do espírito anti-proletário do intelectual pequeno-burguês, o qual crê que é o sal da terra e vê no operário o instrumento material da sublevação social e não o protagonista consciente e inteligente da revolução.

A propósito das células, reproduzem-se no partido italiano as discussões e os contrastes que levaram na Rússia à cisão entre bolcheviques e mencheviques acerca do mesmo problema da escolha de classe, do caráter de classe do partido e do modo de adesão ao partido de elementos não proletários. De resto, este fato tem uma importância notável em relação com a situação italiana.

É a própria estrutura social e são as condições e as tradições da luta política que tornam mais sério na Itália do que em outra parte o perigo de edificar o partido com base numa “síntese” de elementos heterogêneos, ou seja, de abrir neste o caminho à influência paralisante de outras classes. Trata-se de um perigo que será sempre mais grave do que a própria política do fascismo, que empurrará ao terreno revolucionário estratos inteiros da pequena burguesia.

É certo que o partido comunista não pode ser um partido apenas de operários. A classe operária e seu partido não podem fazer pouco caso dos intelectuais nem podem ignorar o problema de aglutinar em torno de si e guiar todos os elementos que por uma via ou outra são levados à revolta contra o capitalismo.

Assim, o Partido comunista não pode fechar as portas aos camponeses: aliás, o partido deve ter em seu seio os camponeses e servir-se destes para fortalecer os laços políticos entre o proletariado e as classes rurais. Mas é de rechaçar energicamente, como contrarrevolucionária, toda concepção que torne o partido uma “síntese” de elementos heterogêneos, ao invés de sustentar sem concessões que este é uma parte do proletariado, que o proletariado deve dar-lhe o impulso da organização que lhe é própria e que ao proletariado deve ser garantida no próprio partido uma função dirigente.

Não têm consistência as objeções práticas à organização sobre a base da produção (células), segundo as quais esta estrutura organizativa não permitiria superar a concorrência entre as diversas categorias de operários e deixaria o partido à mercê do corporativismo.

A prática do movimento de fábrica (1919-1920) demonstrou que somente uma organização aderente ao lugar e ao sistema da produção permite estabelecer um contato entre os estratos superiores e os inferiores da massa trabalhadora (qualificados, não qualificados e manuais) e criar vínculos de solidariedade que removam as bases a todo fenômeno de “aristocracia operária”.

A organização por células traz à formação no partido de um estrato bastante vasto de elementos dirigentes (secretários de célula, membros dos comitês de células etc.), os quais são parte da massa e permanecem nela, mesmo exercendo funções dirigentes, à diferença dos secretários das seções territoriais, que eram por necessidade elementos destacados da massa trabalhadora.

O partido deve dedicar um cuidado especial à educação destes companheiros que formam o tecido conectivo da organização e são o instrumento de ligação com a massa. De qualquer ponto de vista que seja considerada, a transformação da estrutura sobre a base da produção permanece a tarefa fundamental do partido no momento presente e o meio para a solução dos mais importantes problemas. Deve-se insistir nisso e intensificar todo o trabalho ideológico e prático relativo a isso.
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pode-se julgar um livro pela capa

Ípsilon


Pode-se julgar um livro pela capa

15.12.2010 - Gonçalo Mira


Há quem aposte na excelência dos materiais e há quem não se possa dar a essa luxo. Há quem trabalhe com prata da casa e quem encomende capas a especialistas. Eis alguns daqueles que contribuem para que um olhar pelos expositores de uma livraria possa ser uma experiência
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Vivemos tempos estranhos. Em tudo e no mundo dos livros também. Se por um lado o panorama é composto por grandes grupos editoriais, financeiramente poderosos, que englobam várias editoras (para não falar em livrarias, distribuidoras), por outro lado, quase todos os meses nasce uma nova editora. E enquanto se vai discutindo e-books, leitores de e-books e morte do livro impresso, as livrarias vão sendo inundadas por novos títulos. Consequentemente, o espaço e o tempo de exposição na livraria acaba por se ressentir. Os grandes grupos podem usar técnicas de marketing mais agressivas, mas o que podem fazer os independentes? Além do critério da escolha dos títulos a publicar, a outra resposta óbvia é apostar na imagem.
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Talvez seja cedo demais para falar, mas parece que atravessamos uma pequena revolução no design de livros em Portugal. Há quem aposte na excelência dos materiais e há quem não se possa dar a essa luxo. Há quem trabalhe com prata da casa e quem encomende capas a especialistas. O Ípsilon foi falar com alguns daqueles que contribuem para que um olhar pelos expositores de uma livraria possa ser uma experiência.
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1. Coerência despreocupada
A Livros de Areia nasceu em 2005, pela mão de Pedro Marques e João Seixas, em Viana do Castelo. A quantidade de títulos publicados desde então é inversamente proporcional à qualidade dos mesmos. Poucos mas bons. Com parcos recursos, sem possibilidade de fazer os livros como gostariam, fazem-nos como podem. E não o fazem mal. Pedro Marques, que é também editor, faz as capas. Com formação em História da Arte, considera-se um autodidacta nesse ofício. Se às vezes a palavra é olhada com estigma, para Pedro isso não é grave, porque está "em muito boa companhia. Um dos meus designers favoritos é Quentin Fiore, autodidacta, que trabalhou com o Marshall McLuhan em todos os livrinhos dele."
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O trabalho é sempre feito a posteriori. Com o texto já em mãos, pensa a capa e executa-a. Tudo feito livro a livro, sem pensar num design de colecção. "Não posso ter um design seriado se tenho apenas dois livros por ano.
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Corro o risco de as pessoas se esquecerem e essa arma perde-se."
No entanto, há uma imagem reconhecível nos Livros de Areia. Isto acontece por todas as capas obedecerem apenas ao gosto pessoal de Pedro Marques. De influência surrealista e expressionista, como uma das suas referências principais, Roman Cieslewicz, o processo é o de recorrer a bancos de imagens, juntar peças como num puzzle, mas também distorcê-las, de tal forma que o resultado seja reconhecível apenas enquanto capa da Livros da Areia. "A ideia é servir o melhor possível o título e o autor. Mas se de facto há pessoas que acham que há uma imagem da editora, tanto melhor."
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Os autores não se queixam, pelo contrário. Um caso curioso é o de Lázaro Covadlo, escritor argentino, que quis utilizar no seu país natal a capa feita por Pedro Marques para o livro "Criaturas da Noite".
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Adepto do paperback, do livro portátil que se leva em viagem, que não pesa, Pedro lamenta ainda assim não ter possibilidade de dar um melhor acabamento a alguns dos livros. "Se tivesse hipótese, teria feito o livro 'Da Treta' com uma capa dura com sobrecapa, com uma fitinha, ou seja, um livro à antiga." E não tem pejo em admitir um pecado mortal, quando lembra a qualidade das edições da Tinta-da-China: "Tenho muita inveja daquelas edições, gostava muito de fazer livros assim, mas não posso."
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Gosta, mas admite: "Essa não é a minha preocupação. A minha preocupação é fazer livros baratos, com o acabamento mais básico, colados, nem sequer têm cadernos." Assim descritos, imagina-se algo muito pior do que é. Porque com materiais baratos também se produzem coisas boas. E a Livros de Areia não é o único exemplo.
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O trabalho de Pedro Marques não se esgota na edição e no design. Embora a uma escala que se pode dizer amadora (o que não significa falta de qualidade), é também alguém que pensa e que luta por que se pense o design de livros. Tenta fazê-lo no seu blogue (pedromarquesdg.wordpress.com) e nos artigos que vai publicando na Bang!, na Os Meus Livros e na Alice (clubalice.com). Não lhe interessam só os designers mas também os editores responsáveis por revoluções no design editorial, como os franceses Jean-Jacques Pauvert, Maurice Girodias e Eric Losfeld.
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"Um dos grandes paradoxos da imprensa cultural, no que diz respeito ao livro em Portugal, é que há uma invasão das capas nos jornais e nas revistas que é inversa à reflexão sobre elas." É isto que quer combater com o seu blogue e com o espaço que lhe vão dando nas revistas.
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2. Do livro ao objecto
Quando pensamos em bons exemplos de design de livros em Portugal é inevitável que o primeiro nome que nos vem à cabeça não seja o da Tinta-da-China. O mérito é todo deles e de Vera Tavares, responsável pelo logotipo e pelas capas da editora, desde o primeiro livro.
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Também na Tinta-da-China a linha gráfica não surgiu premeditadamente. "As coisas foram-se definindo," diz-nos Vera. Teve sempre liberdade artística e beneficiou de uma forte compatibilidade de gostos com a editora Bárbara Bulhosa. O facto de haver pessoas que identificam uma coerência gráfica virá, uma vez mais, do facto de ser a mesma pessoa a fazer as capas. Porém, para Vera é mais fácil ver essa coerência nas colecções do que no catálogo geral.
Mas se a Tinta-da-China causou tanto impacto, isso não se deve apenas às capas. Tendo a possibilidade de investir nos acabamentos, não hesitou em dar aos livros dignidade especial. No catálogo encontram-se muitos livros de capa dura, com bons acabamentos, bom papel, uma embalagem luxuosa para um conteúdo que costuma corresponder em qualidade.
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"Havia uma vontade de não fazer igual ao que se fazia," admite Vera, mas o objectivo é o mais básico: que o livro "esteja nas livrarias, que as pessoas o vejam e comprem, porque a capa é bonita e o conteúdo é interessante."
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Nesta busca pela capa perfeita, considera fundamental a escolha do tipo de letra. É importante que a fonte tipográfica se adeque ao conteúdo e quando a busca não traz resultados satisfatórios, é a própria Vera que desenha as letras. Por vezes volta a utilizá-las, até porque já tem "uma pasta com uma grande colecção de letras, que não chegam a ser fontes, porque não as sei transformar em fonte. São só letras desenhadas."
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Embora recuse a ideia de que há livros que, de tão bem trabalhados, se tornam objectos, acaba por concordar, reticente, quando se fala na colecção de humor dirigida por Ricardo Araújo Pereira. Os livros desta colecção acabam por ser objectos estranhos nas nossas livrarias, porque não têm lombada. As capas e os cadernos estão cozidos, com o "esqueleto" à mostra. A ideia foi da editora, Bárbara Bulhosa, que viu algo semelhante num catálogo de uma feira literária. Fez finca-pé para que a ideia se concretizasse, porque é complicada de executar. Garante Vera: os livros são resistentes. "Foram feitos monos, que testámos e atirámos ao chão. É tão resistente como um livro de capa dura normal." E têm a vantagem de, por não terem lombada, se conseguirem abrir totalmente e manterem-se abertos em cima de uma mesa.
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Objectos ou não, os livros da Tinta-da-China saltam à vista. Mesmo quando os autores fazem exigências, Vera consegue executá-las ao seu gosto e terminar com um produto que tem a sua marca. A marca da Tinta-da-China.
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Vinda do mundo da publicidade, Vera Tavares tem formação em História. Como leitora e compradora, irrita-se quando um livro tem uma capa má. Mesmo assim, considera que em Portugal há cada vez mais bons exemplos no design de livros.
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3. Os profissionais
A par das editoras em que o trabalho de design é feito dentro de portas, há outras que recorrem a ateliers profissionais. São casos disso as editoras do grupo Almedina, com grafismo a cargo da Ferrand, Bicker & Associados (FBA), ou a editora independente, sediada no Porto, Ahab, com design do Studio Andrew Howard.
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Estes designers trabalham por encomenda, mas a responsabilidade para com o produto final é a mesma. João Bicker, da FBA, explica-nos: "Trabalhamos sobre as ideias expressas por outros e procuramos interpretá-las visualmente. O essencial é a procura do entendimento do texto, da maneira que melhor o dá a ler. A escolha da tipografia adequada, da forma do livro e da página, o processo de colocar as palavras e as imagens na forma que melhor as sirva."
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Andrew Howard, inglês que trabalha em Portugal desde 1993, vê o processo de design como "a combinação entre o conceptual e o material para criar um objecto que tem de satisfazer as nossas sensibilidades intelectuais e tácteis." E é isso que torna o design de livros, para Andrew, um dos mais completos trabalhos de design gráfico.
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O processo começa sempre pela leitura da obra. E no caso das capas para a Ahab, livros de ficção, "o conteúdo não pode ser resumido num simples momento gráfico."
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Por isso a leitura é fundamental, para perceber não só a história, mas o seu universo e estilo.
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Para João Bicker "não há nada mais importante do que a escolha da tipografia, das letras que darão a ler o texto. Cada tipo de letra carrega no seu desenho características formais e históricas que influenciam a leitura porque influenciam a forma do texto." É importante ter em conta que a FBA, ao trabalhar com o grupo Almedina, tem em mãos muitos livros de ensaio, que pedem uma abordagem diferente da ficção.
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Nos livros de ficção da Ahab, Andrew Howard quis fugir ao facilitismo da tipografia sobre imagem e enveredar antes pelo caminho da união. "O texto torna-se imagem, em vez de ser um elemento separado," diz. Ou seja, Andrew Howard e João Bicker têm abordagens distintas, mas ambos consideram crucial dar importância às letras.
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A Ahab, com um ainda curto período de existência, já ganhou a atenção da crítica e dos leitores que, além da inquestionável qualidade literária de autores que Portugal desconhecia, elogiam também o sólido projecto gráfico do Studio Andrew Howard. E a colecção Minotauro, das Edições 70, desenhada por João Bicker e Ana Boavida, recebeu prémios internacionais de design.
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Se estes dois ateliers estão a produzir boa parte do melhor design de livros que se faz em Portugal, como olham para o trabalho dos outros? Andrew Howard acha que a percentagem de trabalhos bem feitos em Portugal não andará longe do que acontece pela Europa. Já João Bicker é mais crítico. Se é essencial fazer livros que se destaquem nas livrarias, acha que essa tarefa está facilitada "na medida em que o mercado português se caracteriza por uma uniformização de soluções que tudo mistura e tudo confunde."
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4. Geometria não alinhada
"Isto é uma editora pobre e funcionamos sempre com recursos muito parcos." Foi assim que começou a conversa com Vítor Silva Tavares, editor da &etc, uma editora que existe há quase 38 anos, que sempre se manteve à margem, de costas voltadas para o mercado. Há quase 38 anos que faz livros com o mesmo formato, com os materiais mais baratos, e que ainda assim não podem ser ignorados, pelo projecto único que representam.
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Tudo começou no quadrado. Um dia, depois de abandonar o "Diário de Lisboa" para se lançar a uma aventura poética, criar a revista &etc, Vítor Silva Tavares pôs-se a pensar no formato que a revista ia ter. O quadrado já lhe andava na cabeça.
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Pegou num papel e num lápis e desenhou-o. "Um quadrado imperfeito, claro, feito à mão. E a seguir inscrevi-o dentro de um rectângulo, porque se era uma revista, tinha de ser rectangular."
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As medidas foram aperfeiçoadas e aquilo parecia harmonioso aos olhos do seu criador. Fazendo curta a longa história, o formato foi definido para a revista e depois foi feito numa escala menor para os livros da &etc. Assim nasceu este formato único, de personalidade vincada.
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"O quadrado é quase mítico", diz-nos Vítor Silva Tavares. Por isso é que é dentro do quadrado que os artistas desenvolvem o desenho das capas da editora. E aquilo que podia ser uma limitação aos artistas, acaba por ser "um desafio à inventividade e à criatividade." O que explica, na opinião do editor, a felicidade de algumas das capas da &etc.
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A utilização dos materiais mais baratos é motivada não só pelos parcos recursos, mas também pelo "gosto por esses materiais pobres, que ainda têm personalidade, que não são plastificados, industriais, e que pretendo recuperar dando-lhes uma nobreza."
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Depois, a ideia era "dar tanta ênfase à ilustração, à pintura, como à mensagem literária. De forma a constituir um todo e, se possível, fazer do livrinho um objecto onde as artes plásticas e o conteúdo fizessem uma unidade." Dentro daquele quadrado que se insere nas capas da &etc passaram muitos artistas. Ilustradores, pintores e também designers. Só que designers é uma palavra que não se usa naquela cave da Rua da Emenda. Os designers colaboraram enquanto "desenhadores, ou pintores, ou ilustradores. As nossas capas não são capas de design."
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A &etc funciona num universo à parte e orgulha-se disso. Será assim até ao fim. Não podemos falar aqui em design da editora, mas podemos elogiar o projecto gráfico e artístico, que assim Vítor Silva Tavares não se zangará.
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domingo, 23 de janeiro de 2011

Sermão de 4ª feira de cinzas (excerto) - Pe. António Vieira

Quarta-feira,25de
Em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses, Ano de 1670.

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris (1).

(1) Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter.
I. O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.
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Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar.
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Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento.
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E que duas coisas enigmáticas são estas?

Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter.

— Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.

O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança.
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Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer.
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Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó.
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Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente.
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De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista.
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Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es?
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Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário?
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É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es?
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Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo.
A Igreja diz-me, e supõe que sou homem: logo não sou pó.
O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional.
O pó vive? Não.
Pois como é pó o vivente?
O pó sente? Não.
Pois como é pó o sensitivo?
O pó entende e discorre? Não.
Pois como é pó o racional?
Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es?

Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. [ ...]

[...]

Em que cuidamos, e em que não cuidamos?
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Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte.
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Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz.
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E para que esta resolução dure e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora.
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De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma?

(23) Disse: Agora começo (Sl 76,11).
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Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma.
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Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida.
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E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora.

Primeiro: quanto tenho vivido?
Segundo: como vivi?
Terceiro: quanto posso viver?
Quarto: como é bem que viva?

Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo!


Para ver o sermão completo: http://www.scribd.com/doc/2858980/Sermoes-Pe-Antonio-Vieira
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http://dacordalaranja.blogspot.com/2009/02/sermao-de-quarta-feira-de-cinzas-padre.html
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sábado, 22 de janeiro de 2011

O casaco fofinho - Oscar Mascarenhas



 

O casaco fofinho

2011-01-17

A velhota declina nome completo: «Maria de Fátima da Conceição Pereira.» O candidato, de passagem por Ponte de Lima, experimenta a textura do casaco da idosa: «É... é fofinho», elogia. «Pois é, é fofinho», concorda Maria de Fátima, para logo lhe dizer ao que vinha: «A ver se o Senhor Cavaco me arranjava qualquer coisinha, eu precisava de um bocadinho de reforma...» Alguns riem-se. A mulher olha descoroçoada para o candidato: «Não percebe...»
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Cavaco Silva puxa a mulher por um braço: «Esta é a minha senhora. Esta senhora trabalhou praticamente a vida toda.» Maria de Fátima contrapõe, com voz sumida: «Também eu...» O candidato nem a ouve. Tem uma arenga para despachar, não pode perder a oportunidade: «Sabe qual é a reforma dela? Não chega a 800 euros por mês. Foi professora em Moçambique, em Portugal, mas ainda ninguém descobriu, em Portugal, a reforma da minha mulher. Portanto depende de mim, tenho de trabalhar para ela. Mas como ela está sempre ao meu lado e não atrás, merece a minha ajuda.»
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Maria de Fátima vê assim «indeferido» o seu pedido de ajuda. Pudera! Quem a manda ir 'atrás' - e não 'ao lado' do candidato?...
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É visível que as muitas dúvidas que têm sido levantadas acerca dos negócios de Cavaco Silva o deixaram de asa ferida e este choro sobre a reforma da mulher é o contra-ataque aos que lhe movem a «campanha suja». Mas contra-ataque vesgo e bisonho que não o deixa mais limpo, pelo contrário.
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É pequena a reforma da senhora professora? Há três explicações para isso: ou os professores ganham muito mal - o que não consta; ou a senhora não trabalhou, afinal, «a vida inteira» e está a receber uma fracção proporcional ao tempo de serviço efectivo; ou o cálculo das pensões é um roubo ao trabalhador - coisa que nunca se ouviu Cavaco Silva denunciar em dez anos de primeiro-ministro e cinco de Presidente - mas não percamos a esperança, que ainda falta uma semana de campanha onde vale tudo, até promulgar os cortes salariais de Função Pública e sair à rua a clamar que é uma injustiça, que muitos ricos ficaram de fora!
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Como pode um candidato-presidente, perante uma modesta velhinha que teve a infeliz ingenuidade de lhe pedir ajuda na rua, queixar-se de que a mulher tem uma reforma pequenina - e que tem de ser sustentada por si, porque «merece»? Quantas piscinas municipais de chá precisa um homem destes de beber antes de ser digno do lugar que ocupa?
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Vá-se lá embora em paz, senhora Maria de Fátima. Vai mais aconchegada no seu casaco fofinho do que com as lamúrias do «senhor Cavaco»
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http://www.jn.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=1758979&opiniao=Oscar%20Mascarenhas
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Las dadivas - Tela de Jean-Batiste Valadie

Fotos de ti

Foto 1 de 87   


Las Dádivas

"La mano que se abrió sobre mis días
es una mano grande como el cielo.
Me dio raíz, memoria, y para respirar
una herida que llaman la rosa de los vientos."

Rosario Castellanos


(Tela de Jean-Batiste VALADIE)
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(...)
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Victor Nogueira
Fui em busca de Valadie e este é um quadro diferente da maioria dos outros que encontrei na net, diáfanos e descobrindo o corpo feminino. Este tem outra força, combinando o colorido dos muralistas mexicanos ou das vestes andinas com o contr...aste da brancura da paz
..
Baseado nos versos de Ricardo Castellanos, retribuo com um bjo e um poema de um autor dssconhecido :-)
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CORAÇÃO ROSA DOS VENTOS



A tua carta é um pássaro pintado
…………………………com emoção e alegria!
Cada folha é uma seara dividida em quatro e
na delicadeza do teu olhar
sou um rio
…….... leve rumor
…. suave brisa que passa e canta!


(Setúbal, 1992)
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Poesia da Mudança - Brecht, Vinícius e António Jacinto

De Brecht
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O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
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Nada é impossível de Mudar
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"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."
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Privatizado
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"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence
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e de Vinicius por Mário Viegas - Operário em Construção 


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edilsonfoto | 16 de Novembro de 2007 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Oprerário em Construção texto de Vinicius de Moraes, Declamação Mario Viegas, Edilson Edilson Almeida.
UJC BAIXADA
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e de António Jacinto e Rui Mingas - "Monagambé"
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lmdoliveira | 1 de Março de 2009 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
a musica e bela voz de Rui Mingas, a letra é de António Jacinto. Dois angolanos de mão cheia!
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Monangambé
(António Jacinto/Rui Mingas)

Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras

- "Monangambé..."

António Jacinto (Poemas, 1961).
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RECANTO DA POESIA EM VERSO E PROSA
Grupo fechado#
5 pessoas gostam disto.
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Alice Alves Paree que lhe sinto o cheiro....!
há 3 horas · GostoNão gosto
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Maria Clara Roque Esteves maravilhoso!Mesmo uma mulher de estatura mediana cruza a memória com o infinito dos lugares e do tempo.E as imagens (das palavras) são relevantes para quem julga perceber a importância dos momentos, sem repetição dos dias. " O mundo avança e o metal organiza-se".
há 2 horas · GostoNão gosto
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Alice Alves O cheiro de África....O feitiço que Africa nos lança...um misto de emoções tão intensas, que nos marcam e que não conseguimos descrever..apenas sentir.... :-)))
há 2 horas · Gosto
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Música - Poesia - Dança
Grupo aberto
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4 pessoas gostam disto.
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José Carlos Moutinho Lindo poema....cantado pelo Rui Mingas
há 21 horas · GostoNão gosto
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Maria Catarina Palma Fialho BONITO POEMA ...CHEIRA A ÁFRICA:::!
há 19 minutos
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

4º Motivo Da Rosa (Cecília Meireles)

: Victor
Assunto: Boa Noite
Data: 19/Jan 19:42
4º Motivo Da Rosa (Cecília Meireles)
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Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
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  boa noite Pictures, Images and Photos

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Hino ao Sol


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RuiGD | 7 de Março de 2007 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 1 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Ensinamentos de provérbios árabes ao som de uma das mais belas canções que ouvi até hoje "Hino ao Sol".


Victor Nogueira através de Odete Maria Botelho Botelho:
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extasis - Amado Nervo

SOPHIE diz:
30/Mai/2010 16:56
extasis
Cada rosa gentil ayer nacida,
cada aurora que apunta entre sonrojos,
dejan mi alma en el éxtasis sumida...
¡Nunca se cansan de mirar mis ojos
el perpetuo milagro de la vida!

Años ha que contemplo las estrellas
en las diáfanas noches españolas
y las encuentro cada vez mas bellas.
Años ha que en el mar, conmigo a solas,
de las olas escucho las querellas,
y aun me pasma el prodigio de las olas!

Cada vez hallo la Naturaleza
más sobrenatural, más pura y santa,
Para mí, en rededor, todo es belleza;
y con la misma plenitud me encanta
la boca de la madre cuando reza
que la boca del niño cuando canta.

Quiero ser inmortal, con sed intensa,
porque es maravilloso el panorama
con que nos brinda la creación inmensa;
porque cada lucero me reclama,
diciéndome, al brillar: «Aquí se piensa,
también aquí se lucha, aquí se ama».

Amado Nervo 
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O Caminho da Vida - Charles Chaplin

| Odete diz:
26/Mai/2010 12:31
O Caminho da Vida

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.
A cobiça envenou a alma dos homens..Levantou no mundo as muralhas do ódio...e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticinios.
Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela.A máquina que produz a abundância, tem-nos deixado em penúria.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos, nossa inteligência, empedernidos e crueis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que as máquinas, precisamos de HUMANIDADE.
Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.
Sem essas virtudas, a vida será de violência e tudo será perdido.

(charles chaplin)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Alfredo Keil - Murmures Op. 9 No. 2 e Gandhi



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edwardgp | 18 de Novembro de 2008 | 13 utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo

piano: Gabriela Canavilhas

Disco da PORTUGALSOM
http://www.numerica-multimedia.pt/

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À DESCOBERTA DO AMOR

Ensaia um sorriso
e oferece-o a quem não teve nenhum.
Agarra um raio de sol
e desprende-o onde houver noite.
Descobre uma nascente
e nela limpa quem vive na lama.
Toma uma lágrima
e pousa-a em quem nunca chorou.
Ganha coragem
e dá-a a quem não sabe lutar.
Inventa a vida
e conta-a a quem nada compreende.
Enche-te de esperança
e vive á sua luz.
Enriquece-te de bondade
e oferece-a a quem não sabe dar.
Vive com amor
e fá-lo conhecer ao Mundo.

Mahatma Gandhi
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Carmen diz:
17/Mai/2010 23:15
Uma boa semana, amigo Victor!
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