* Daniel Oliveira
As redes sociais contam. Sobretudo para baixar a abstenção, que prejudicava Lula. Na primeira volta, a campanha de Lula falou para os seus e esqueceu-se de que os outros não estavam a ouvir. Janones liderava o Exército de Lula e mandava gostar, comentar e partilhar um vídeo antes de o ver e nunca responder aos de Flávio. Ensinou a máquina a mostrar e a esconder. Os democratas brasileiros aprenderam a jogar no tabuleiro desequilibrado
Lula venceu com quase 52% dos votos válidos. Há três semanas, ficou atrás de Flávio Bolsonaro na primeira volta: 45,16% contra 47,03%. Mais de 2,2 milhões de votos de diferença. Não lhe acontecia desde 1998. Assim como nunca acontecera esta reviravolta. Desde 1989, quem ganhou a primeira volta ganhou sempre a segunda. Venceu com o dobro da diferença de votos de 2022. Sabia-se que este milagre dependia de uma coisa: levar os abstencionistas, num país onde o voto é teoricamente obrigatório, a votar.
Na véspera, a última sondagem da Datafolha ainda dava Flávio dois pontos à frente. Na noite, já não. A reviravolta terá muitas explicações. Uma delas tem nome: André Janones, deputado mineiro, e um canal de WhatsApp chamado Exército do Lula. Não é a única explicação. Não sei se é a mais importante. Mas é a que mais diz sobre a forma como se ganham eleições num tempo em que as redes sociais contam muito.
Na primeira volta, a campanha de Lula fez o que sempre fez. Caetano, Gil e Chico gravaram o "Bora, Lula". Mais de 200 artistas, de Anitta a Ivete Sangalo, declararam apoio. Regravaram-se os jingles de 1989. Era uma campanha para comover os convertidos. Comoveu-os. Os outros não estavam a ouvir. Depois da derrota, terá sido o próprio Lula, um fenómeno político global com poucos paralelos na história recente, admitiu que a campanha não estava bem organizada. Janones fez o diagnóstico numa frase: "Não estamos nos anos 80 mais, estamos em 2026."
O problema não era a mensagem. Era o canal. Os eleitores de Lula e os de Flávio vivem em mundos que não se tocam. O que cada um vê é decidido por plataformas que distribuem conteúdo segundo a probabilidade de provocar reação. Neste mundo, desmentir o adversário é comentá-lo, e comentá-lo é dar-lhe alcance. A incomunicabilidade não é um acidente desta eleição. É o cenário em que qualquer campanha tem de trabalhar.
O terreno também não é plano. Segundo a Secretaria de Comunicação do PT, a página de Flávio tinha quase três vezes mais engajamento do que a de Lula, com menos 17,2% de seguidores. A campanha denunciou ao tribunal eleitoral uma rede de 255 perfis geridos por inteligência artificial, que terá somado 58 milhões de visualizações num mês a atacar Lula e Janja.
O Exército do Lula nasceu em abril, com cerca de 50 mil membros. Depois da derrota na primeira volta, passou os 6 milhões em pouco mais de duas semanas. Não são robôs. São pessoas transformadas em distribuidores. As ordens não trazem argumentos: gostar, comentar, partilhar depressa, publicar nas histórias, reenviar por mensagem, ver os vídeos até ao fim, mesmo sem som. A 8 de outubro, Janones pediu que gostassem, comentassem e partilhassem um vídeo intitulado "Lula reeleito" antes de o verem, para que o algoritmo o julgasse relevante. O conteúdo era indiferente. A regra inversa valia para o adversário: não ver, não comentar, não partilhar nada de Flávio, nem para o contrariar. O alvo eram os indecisos, os que podiam mudar de voto e os que tinham faltado na primeira volta. Não se trata de mentir ou de não mentir, nem de convencer. Trata-se de ensinar a máquina a mostrar uma coisa e a esconder outra.
Os números acompanharam. De 16 de agosto a 4 de outubro, Lula somou 83,8 milhões de interações nas redes e Flávio 73,7 milhões. De 5 a 17 de outubro, Lula teve 110,7 milhões e Flávio 31,3 milhões. Uma vantagem de 14% passou a ser de mais de três vezes e meia. A Datafolha de véspera dava a pista do resto. Entre os eleitores com maior propensão para votar, Flávio ganhava por 52% contra 48%. Entre os que faltaram na primeira volta ou vivem longe da assembleia de voto, Lula ganhava pela mesma margem. A eleição decidia-se em quem saía de casa. Era exatamente esse o alvo do Exército. A abstenção diminuiu mais de dois pontos percentuais, o que contraria o comportamento histórico das eleições no Brasil, onde a abstenção costuma aumentar na segunda volta. A campanha de Lula conseguiu tirar gente de casa.
Nenhuma campanha discutiu argumentos. As duas litigaram sobre os canais. A pedido de Flávio, o presidente do tribunal eleitoral, Nunes Marques, suspendeu o Exército do Lula a 11 de outubro, alegando difusão coordenada de informação falsa. No dia seguinte, a área técnica do próprio tribunal não encontrou essa informação no canal. O corregedor repôs o canal. Nunes Marques voltou a tirá-lo do ar, agora por falta de registo. A campanha registou-o e ele regressou. Janones agradeceu a Flávio: o bloqueio levou-o aos 4,3 milhões.
Do outro lado, a campanha de Lula levou a Meta a tribunal. A Meta admitiu falhas técnicas que reduziram o alcance de aliados de Lula e negou qualquer viés. O plenário do tribunal proibiu-a, por unanimidade, de limitar o alcance de conteúdos sobre os candidatos, sob multa de 500 mil reais por dia. Ninguém discutiu a qualidade da água, mas quem controla a torneira.
Nada disto é invenção da esquerda. Nikolas Ferreira, deputado de Flávio, teve 3,1 milhões de votos. Sendo politicamente indigente, foi o mais votado da história do Brasil. O vídeo "O Nordeste que foi esquecido" chegou aos 146 milhões de visualizações em dois dias. Nikolas também tem o seu canal, a Tropa do Flávio. A diferença está no método. Nikolas aposta no conteúdo: produção cara, narrativa, emoção. O próprio Janones o reconheceu num áudio aos seus: do outro lado gastam milhões e andam de jatinho, deste lado só há gente. E Nikolas fez o que Janones proibia aos seus. Quando Lula gravou um vídeo a chamar apoiantes para a rua, respondeu com um vídeo de reação a gozar com o presidente. Pela lógica de Janones, ajudou a distribuí-lo. Há um paradoxo final: o general do maior exército digital da esquerda teve 78.780 votos e ficou em 34.º lugar em Minas.
Um método indiferente à verdade não é uma boa notícia, mesmo quando serve os democratas. Em 2022, Janones admitiu à Reuters que os seus ataques e exageros não tinham ajudado o debate público, mas disse que a esquerda tinha de usar as armas do adversário. E a vitória não muda a assimetria. O filósofo Marcos Nobre descreve o partido digital bolsonarista como uma estrutura permanente, organizada para liderar todo um ecossistema. O Exército do Lula é o canal de um homem, com prazo de validade, registado no tribunal eleitoral. Por isso mesmo pôde ser suspenso.
Esta não é a razão central para a vitória de Lula, contra todas as apostas de há poucas semanas. Mas a verdade é que os democratas brasileiros aprenderam a jogar num tabuleiro que não é seu, com regras que outros escrevem e que as plataformas aplicam como querem. Desta vez, Lula ganhou a guerra pelo algoritmo. Mas ganhou-a com as armas do adversário.
Expresso 20286 Outubro 26
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