* Vasco Cardoso
Estará por provar que as intermináveis horas de directos televisivos sejam a forma mais rigorosa e esclarecedora de informar os telespectadores. Relembro, entre outros exemplos, a inenarrável cobertura dada ao “refluxo” de André Ventura em plena campanha eleitoral, acompanhada a par e passo por todas as televisões com os resultados que se imagina. Mas nestes tempos de desinformação, esse tipo de cobertura noticiosa assumiu-se como regra, facilitando não poucas vezes a manipulação de opiniões, seja de forma subtil, seja de forma grosseira. Foi o que aconteceu no passado sábado (já tinha acontecido antes), com os cinco canais de televisão a exibirem durante toda a tarde imagens das lutas pela habitação que decorriam em Portugal e, ao mesmo tempo, imagens a partir de Paris, particularmente as que envolviam confrontação e a acção da polícia.
A mistura destas duas realidades bastante distintas no mesmo ecrã é tudo menos inocente. Visou transmitir uma ideia de caos e confronto que objectivamente não se tem verificado nas lutas pelo direito à habitação em Portugal. À falta de melhor, os canais de televisão decidiram importar imagens de França para fabricar uma realidade paralela.
A disputa pelas audiências – aparentemente excitadas pela violência – é uma explicação demasiado curta para esta bizarria. Na verdade, há um evidente propósito político por detrás destas imagens. Desde logo, preparar o terreno junto da opinião pública para intervenções da polícia desproporcionadas como as que aconteceram na madrugada de sábado no Rossio, e já antes tinham acontecido no Porto. Mas sobretudo, desviar as atenções dos problemas da habitação e da necessária resposta que o Governo se recusa a dar, para uma abordagem de cariz reaccionário questionando o direito de manifestação e outras liberdades democráticas que o povo conquistou com Abril. É para aí que o governo PSD/CDS, que o Chega e a IL, querem arrastar a discussão. Uma armadilha que também interessa ao grande capital, à banca, aos fundos imobiliários que estão a lucrar milhões com a crise no acesso à habitação.
Avante n.º 2761 (29/10/2026)
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