quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Vasco Cardoso - As imagens de Paris e Lisboa e o desejo mediático pelo “confronto”

* Vasco Cardoso

Es­tará por provar que as in­ter­mi­ná­veis horas de di­rectos te­le­vi­sivos sejam a forma mais ri­go­rosa e es­cla­re­ce­dora de in­formar os te­les­pec­ta­dores. Re­lembro, entre ou­tros exem­plos, a ine­nar­rável co­ber­tura dada ao “re­fluxo” de André Ven­tura em plena cam­panha elei­toral, acom­pa­nhada a par e passo por todas as te­le­vi­sões com os re­sul­tados que se ima­gina. Mas nestes tempos de de­sin­for­mação, esse tipo de co­ber­tura no­ti­ciosa as­sumiu-se como regra, fa­ci­li­tando não poucas vezes a ma­ni­pu­lação de opi­niões, seja de forma subtil, seja de forma gros­seira. Foi o que acon­teceu no pas­sado sá­bado (já tinha acon­te­cido antes), com os cinco ca­nais de te­le­visão a exi­birem du­rante toda a tarde ima­gens das lutas pela ha­bi­tação que de­cor­riam em Por­tugal e, ao mesmo tempo, ima­gens a partir de Paris, par­ti­cu­lar­mente as que en­vol­viam con­fron­tação e a acção da po­lícia.

A mis­tura destas duas re­a­li­dades bas­tante dis­tintas no mesmo ecrã é tudo menos ino­cente. Visou trans­mitir uma ideia de caos e con­fronto que ob­jec­ti­va­mente não se tem ve­ri­fi­cado nas lutas pelo di­reito à ha­bi­tação em Por­tugal. À falta de me­lhor, os ca­nais de te­le­visão de­ci­diram im­portar ima­gens de França para fa­bricar uma re­a­li­dade pa­ra­lela.

A dis­puta pelas au­di­ên­cias – apa­ren­te­mente ex­ci­tadas pela vi­o­lência – é uma ex­pli­cação de­ma­siado curta para esta bi­zarria. Na ver­dade, há um evi­dente pro­pó­sito po­lí­tico por de­trás destas ima­gens. Desde logo, pre­parar o ter­reno junto da opi­nião pú­blica para in­ter­ven­ções da po­lícia des­pro­por­ci­o­nadas como as que acon­te­ceram na ma­dru­gada de sá­bado no Rossio, e já antes ti­nham acon­te­cido no Porto. Mas so­bre­tudo, des­viar as aten­ções dos pro­blemas da ha­bi­tação e da ne­ces­sária res­posta que o Go­verno se re­cusa a dar, para uma abor­dagem de cariz re­ac­ci­o­nário ques­ti­o­nando o di­reito de ma­ni­fes­tação e ou­tras li­ber­dades de­mo­crá­ticas que o povo con­quistou com Abril. É para aí que o go­verno PSD/​CDS, que o Chega e a IL, querem ar­rastar a dis­cussão. Uma ar­ma­dilha que também in­te­ressa ao grande ca­pital, à banca, aos fundos imo­bi­liá­rios que estão a lu­crar mi­lhões com a crise no acesso à ha­bi­tação.

Avante n.º 2761 (29/10/2026)

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