quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ricardo Araújo Pereira - Os perigosos cabeças-rachada


Cartoon Luís Fazrnda - O perigosos cabeças-rachada 



* Ricardo Araújo Pereira

A crise da habitação é tão grave que até no debate sobre habitação falta habitação

A constituição garante o direito de manifestação. Sim, mas há uma lei de 1974 que proíbe as manifestações de continuarem depois da meia-noite e meia. Sim, mas essa lei é provavelmente inconstitucional. Sim, mas nunca foi contestada antes. Sim, mas tem sido ignorada pelas autoridades dezenas de vezes em protestos anteriores, nos quais os manifestantes não foram intimados a desmobilizar apesar de se manterem no espaço público durante a noite. Sim, mas essas eram manifestações de pessoas dignas como bombeiros, polícias e chefes de cozinha, ao passo que nesta os manifestantes não têm profissão definida, além de que alguns usam brincos onde Deus não quis que brincos fossem usados. Sim, mas os protestos têm sido pacíficos, incluindo iniciativas tão perigosas como bordados colectivos, ioga e danças. Sim, mas eu vi uma entrevista a um manifestante em que ele dizia que o objectivo era destruir o sistema. Sim, mas era um no meio dos milhares que se manifestam dormindo em conchinha, além de que esse discurso de destruição do sistema é muito parecido com o de certos partidos sobre cujos dirigentes a polícia não carrega à bastonada, mostrando assim que considera menos ameaçadores os cabeças-rapadas do que os cabeças-rachadas. Sim, mas a polícia actuou para repor a ordem. Sim, mas não havia desordem, tanto que um manifestante que começou uma pichagem sobre o primeiro-ministro numa estátua foi vaiado e forçado a parar pelos outros manifestantes. Sim, mas os manifestantes instalam tendas nas praças sem o licenciamento próprio. Sim, mas as tendas não são verdadeiramente tendas, são símbolos de um protesto que além disso é justo, dado que parece ser consensual que a situação da habitação é insustentável. Sim, mas não se pode dizer que nada esteja a ser feito, até porque no parlamento foi convocado um debate de urgência sobre habitação. Sim, mas nesse debate de urgência discutiu-se sobretudo a legitimidade do debate de urgência, uma vez que o regimento autoriza apenas um debate de urgência por quinzena, e havia discordâncias profundas acerca do significado da palavra quinzena. Sim, mas os jovens também não parecem muito dispostos a fazer os sacrifícios que os nossos pais e avós fizeram para ter habitação. Sim, mas fazendo as contas ao valor do salário médio e da renda média em Portugal não sobra muito dinheiro para comer, pelo que o que se pede aos jovens é de facto um sacrifício, mas não no sentido de abnegação e sim de imolação, como na frase “o cordeiro foi oferecido em sacrifício ao senhorio”.


 
A crise da habitação é tão grave que até no debate sobre habitação falta habitação.

Expresso 29 Outubro 2026

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