domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Motim das Mulheres - Marco Albertim

Colunas

Vermelho - 13 de Fevereiro de 2011 - 0h04 
A única líder de que se tem notícia, a propósito d’O Motim das Mulheres, é Ana Rodrigues Braga, a mesma Ana Floriano, esposa de Floriano da Rocha Nogueira. Na mesma empreitada, a seu lado, Maria Filgueira, mulher de um capitão da Guarda Nacional; e Joaquina de Sousa. As três se puseram à frente de trezentas mulheres, invadiram a casa do Juiz de Paz de Mossoró, Rio Grande do Norte, e rasgaram os documentos do sorteio para o recrutamento no Exército e na Armada. Decididas, ocuparam a redação do jornal O Mossoroense, acuando o diretor e rasgando as listas dos sorteios que seriam publicadas. Depois, rasgaram os editais de convocação para o recrutamento militar, nas portas da igreja. Foi em 30 de agosto de 1875.
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Conforme resgata a história, o episódio configura-se como uma vertente d’A Revolta do Quebra-Quilos, posto que ocorreu em período e local de resistência à imposição do sistema métrico decimal na medição de pesos e medidas. Isentos para o recrutamento estavam os casados e arrimos de família, feitores e administradores de fazenda, oficiais fabris, marinheiros, grumetes, arrais de barcos de mantimentos,  diretores de obras etc, e condutores de porcos e boleeiros
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Ora... a Guerra do Paraguai deixara o governo com enormes baixas. Resolve o governo mudar a legislação. A lei anterior era conhecida como lei do não  recrutamento. Promulga-se a Lei 2.556, de setembro de 1874. Não mais uma pessoa designada pelo presidente da província faz o recrutamento. A responsabilidade fica com uma Junta Paroquial – juiz de paz, autoridade policial e o pároco. Se antes, solteiros e brancos, pardos alforriados, de qualquer estado civil, com idade de 18 a 35 anos, podiam ser recrutados; com a nova lei, todos estão sujeitos ao recrutamento, de 19 a 30 anos, inclusive os casados. E os recrutas são escolhidos mediante sorteios.
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Por outro lado, a mesma lei isenta quem paga a contribuição pecuniária estipulada no respectivo dispositivo. Mantendo a isenção para graduados e estudantes, acompanhantes de substituto idôneo, proprietários, administrador ou feitor de fazenda com mais de dez trabalhadores; e ainda caixeiro de casa comercial com capital acima de dez contos de réis. A elite, vê-se, continua a desfrutar de privilégios.
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O recrutamento adquirira fama de castigo, porquanto para os quartéis eram enviados opositores do governo e aprisionados no Quebra-Quilos. Vestia-se o colete de couro cru a quem se recusasse.
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A canção popular de então dizia:
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Nasci livre, livre sou
Militei com Pedro Ivo
Porém pr’a ser recrutado
Não julgo isto motivo
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A referência a Pedro Ivo, chefe militar da Revolução Praieira, é elogiosa.  Mas aqui se faz referência ao suplício:
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Em um colete de couro
Preso no tirão comprido
Marcho a pé p’ra cidade
Como se fora bandido 
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Até os desentendimentos entre trabalhadores rurais e proprietários eram resolvidos com o envio dos primeiros para o recrutamento.
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Ana Floriano dera a partida. O diretor d’O Mossoroense, em ofício à Junta Paroquial, diz: “(...) deixo de continuar a publicar no meu periódico a lista de sorteio desta paróquia (...), em conseqüência de haverem os respectivos autógrafos que se achavam em meu poder, inutilizados por um grupo de senhoras, que ontem pelas nove horas do dia invadiram a minha tipografia.”*
Não houve guerra, mas levantes com duração de poucas horas. A repressão, comparada à de outras revoltas, foi pequena. Não houve condenações, sequer de quem fora preso. Em São Bento, Pernambuco, listas e documentos foram destruídos. Uma proclamação foi espalhada incitando o povo a resistir. A lei permaneceu inalterada, obtendo-se no máximo o adiamento do recrutamento.

*Vingt-Um Rosado – O Motim das Mulheres: um episódio do Quebra-Quilos

 
* Menção honrosa dos Prêmios Literários da Cidade do Recife, com o livro Um presente para o papa e outros contos. Integra as antologias de contos Recife conta o Natal e Panorâmica do conto em PE.
* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.
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sábado, 12 de fevereiro de 2011

o jovem Ferreira de Castro - A JANELA DA IDEALIDADE (1925)



Saturday, February 12, 2011


o jovem Ferreira de Castro - A JANELA DA IDEALIDADE (1925)

     Aquela mulher que à hora do crepúsculo vinha sentar-se por detrás da sua janela descerrada, tinha para mim um encanto estranho -- um profundo e inefável mistério.
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     Meus olhos extenuados de procurarem um amor ideal que dir-se-á não existir, que dir-se-á proscrito de todos os corações, encontraram-na uma tarde meditando junto à janela: -- o busto envolto numa auréola romântica, as mãos pálidas, como duas rosas-chá esmaecidas, pousadas sobre um livro aberto.
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     Meditava talvez na conquista duma alma igual à minha -- uma alma igual àquelas de que lhe falavam os seus livros predilectos.
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     E desde então, eu que tenho detido meus passos ante as altas janelas que se recortam a vermelho na treva da noite, interrogando-as sobre os segredos femininos que ocultam a meus olhos sonhadores, ante as janelas que se descerram na quietude da tarde e para trás das quais julgo sempre existirem mulheres nascidas para me compreender e amar, -- principiei a interessar-me por aquela mulher que assim me surgia tão bela, durante um dos meus passeios crepusculares.

Ferreira de Castro, Sendas de Lirismo e de Amor, Lisboa, Edições Spartacus, 1925.
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Friday, February 04, 2011


uma capa de Roberto Nobre

Ferreira de Castro, Sendas de Lirismo e de Amor
Lisboa, Edições Spartacus, 1925 
 
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Jean Genet - O voo do ladrão

Ípsilon

Jean Genet em 1957 num quarto de hotel
Hulton-Deutsch Collection/CORBis

Jean Genet - O voo do ladrão

20.12.2010 - Tiago Bartolomeu Costa
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Que homem foi este, para além do santo e do mártir que dele quiseram fazer? Passam cem anos sobre o seu nascimento, mas talvez não tenhamos ouvido tudo o que tinha para dizer
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Parece estar-nos a dizer que não esconde nada. As mãos abertas enfrentam o jornalista, que, naquele quarto de hotel em 1957, lhe perguntava, uma vez mais, quem era. "Se eu estou sozinho, posso falar a verdade. Se estou com alguém, minto. Eu sou marginal", poderia ter-lhe respondido, como disse mais tarde a um amigo escritor, Tahar Ben Jelloun.
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"Com excepção dos seus livros, não sabemos mais dele do que a data da sua morte, que ele imagina próxima", disse Rainer Werner Fassbinder, o realizador alemão que adaptou "Querelle de Brest".
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Mas Jean Genet, abandonado pela mãe num orfanato em Paris, com menos de um ano, foi uma figura maior, que não cabia nos seus próprios livros. "Mau rapaz autodidacta", Jean podia ter sido uma personagem inventada por Genet -achava, aliás, que no teatro representamo-nos sempre a nós próprios ("Uma acção teatral não deve decorrer num palco mas em mim", disse). E porque não acreditava na biografia, "em vida não queria que se lhe perguntasse sobre a sua vida", explica Pascal Fouché, que este ano, quando se assinalam os cem anos do nascimento do escritor, publicou em livro um conjunto de cartas inéditas da mãe do autor de "Un condamné à mort", uma lavadeira que morreria aos 30 anos com gripe espanhola.
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Sem família nem raízes, a ideia de pátria horrorizá-lo-á, e é ao ambiente de uma infância que nunca teve que Jean Genet, por diversas vezes, regressará. Muitas das personagens das suas histórias, como Querelle, o marinheiro homossexual, ou Maurice, o prisioneiro em "Alta Vigilância", carregam nomes de amigos seus no orfanato. Há ainda Solange, uma das criadas na peça do mesmo nome, uma vizinha por quem Genet se apaixonou quando era criança.
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Os seus textos proporão, permanentemente, um outro mundo, uma outra realidade, outro conjunto de valores, onde se encontra, apesar de tudo, um desejo intrínseco de salvação dos homens, anjos caídos e negros.
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Vítima e predador
Era só um homem que distinguia o real da ficção. "É preciso não confundir os planos: há o plano literário e o plano vivido. A ideia de um assassinato pode ser bela. Mas o assassinato real é outra coisa", disse Genet em entrevista, em 1976, a Hubert Fichte.
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Genet viverá aquilo que Aurélie Renaud apelida, num dos artigos incluídos no muito completo dossier que lhe dedicou a última edição da "Magazine Littéraire", de "experiência da exclusão". "Afrontando a sociedade burguesa, Genet escolhe assumir o destino cruel que lhe é imposto pelo exterior. Cultivando a sua alteridade como um tesouro, liberta-se de um perpétuo e fundamental "exercício de alteridade e de alteração", dedicando-se a transformar-se num "estrangeiro profissional"", conclui a autora.
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E Genet, vivendo a experiência da exclusão, institui-se enquanto homem e autor a partir de três princípios que atravessarão a sua vida e a sua obra, a saber: a traição, o roubo e a homossexualidade, "valores cardinais da contramoral que estabeleceu para o seu método [de escrita]".
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"A literatura não apagou a sua vida", diz valter hugo mãe, autor de "o cu de jean genet", breve poema incluído em "contabilidade poesia 1996-2010" e que começa assim: "ninguém podia acreditar que jean genet tivesse ganho asas líquidas, escuras como o fundo dos mares, e pairasse sobre os pensamentos menos cautelosos dos homens." valter hugo mãe diz que o autor francês não teve "a biografia ridícula e vaidosa da maior parte dos autores". "Era um escritor que não escondia nada, que lidava consigo mesmo propondo-se como vítima, mas que se perseguia, como se se quisesse magoar", acrescenta. "insatisfeito, retomava as marés às escuras asas e alava novamente, ondulando e aspergindo o chão com os olhos, sempre ávido de mais", conclui o poema. "Há um discurso incendiário e impiedoso, onde ele é vítima e predador. E, erguendo esse paradoxo, consegue chegar a várias pessoas com temáticas fortíssimas e extremamente amargas", diz ainda valter hugo mãe.
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"A obra de Genet escapa a qualquer fidelidade", escreveu Luís Miguel Cintra no texto incluído no programa do espectáculo "Splendid"s", encenado em 1995. "A sua genialidade estará sobretudo no profundo desassossego a que obriga qualquer um", diz o encenador, que voltará a Genet no próximo ano com "A Varanda", "uma glorificação da imagem e do reflexo".
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"Escrever - e antes de escrever entrar na possessão desse estado de graça que é uma espécie de ligeireza, de inaderência ao chão, ao concreto, àquilo a que habitualmente apelidamos de real", deixou no célebre "Journal d"un voleur". Mais tarde dirá: "Quando escreves, pensa no leitor. Dá-lhe a mão, ou toma a sua; sabe que ele não é obrigado a seguir-te e que, não importa em que altura, te poderá largar e partir."
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Mas "o que está escrito não tem que ser verdade", alerta Jaime Rocha, dramaturgo que assinou "Azzedine", peça que revisita não apenas o modelo dramatúrgico de "Alta Vigilância", mas a própria biografia e bibliografia do autor, e que o Teatro Experimental de Cascais estreará em Abril do próximo ano.
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"Há um lado político, importante e corajoso, porque é político no sentido em que se confronta com questões sobre o sistema e o poder. É um dos autores que, no seu tempo, mais fugiu à autocensura. Não tinha medo das palavras", acrescenta.
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Quando Jean Cocteau leu o manuscrito de "Un condamné à mort", livro "terrível, obsceno, impublicável, inevitável", declarou também que era "o grande acontecimento da época". E foi assim com outros livros, alguns deles publicados sem que o nome do autor aparecesse na capa, para evitar a prisão. E, no entanto, nunca a estética teve prioridade face à política. "A obra de Genet é, de facto, perigosa", escreve Melina Balcázar Moreno na "Magazine Littéraire". "Contra o esquecimento que toda a amnistia supõe, Genet opõe-se à morte dos mortos no seio da comunidade dos vivos."
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"Um homem morto não vale nada, zero, um deserto ao vento", diz a personagem Genet pensada por Jaime Rocha. "Eu vim para falar, para encher as minhas personagens de palavras, para lhes dar a paz. Podia ter-me enforcado, dado um tiro nos miolos. Mas não, vivi santo e morri santo. E isso ficou escrito", diz ainda. Jaime Rocha salienta que há uma crueldade explícita em Genet, "que mais facilmente, porque mais mediático, as pessoas reconhecerão no seu teatro", por onde não deixa de passar "uma corrente de afectos". "Era um homem do tempo da solidariedade e dos afectos", para quem "a violência choca, porque não a pode prever".
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"Falar é roubar palavras", escreveu Sartre em "Saint Genet, comédien et martyr", o monumental texto de introdução às "Obras Completas de Genet", editadas pela Gallimard. Poeta, dramaturgo, ensaísta, prosador, Genet foi, na literatura, polissémico. Mas foi ainda realizador de um filme só, "Un chant d"amour", que vai para lá da provocação que os seus conteúdos explícitos poderiam fazer, porque trata do desejo, num sentido mais primário, mais visceral e, por isso, mais humano.
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O seu teatro continua a ser representado e entre as peças mais importantes estão "As Criadas" (o ano passado vimos a encenação de Jean-Luc Bondy no Festival de Almada) ou "Os Negros"(Rogério de Carvalho apresentou-a, em 2006, no Teatro Nacional S. João). Escrevia Luís Miguel Cintra em 1995: "A ideia de uma obra que se não distingue de uma maneira violenta de viver, a concepção de toda a arte como poesia e da política como prática artística revolucionária, a construção de si próprio como a de um exemplo trágico de relação com os outros, como a elaboração de uma solidão, tornam Genet mais do que num autor, num santo, como Sartre lhe resolveu chamar, num caso exemplar, absoluto e irrepetível, de quem para sempre continuaremos a ler os poemas, os livros, a tentar representar as peças, coleccionar os retratos, cobiçar os amantes. Mas não sei se nos deixará entendê-lo bem."
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"Genet nunca quis ser outra coisa senão um observador", procura explicar René de Ceccatty, mas, acrescenta Jaime Rocha, "estatuaram-no". Na peça que escreveu, a dada altura, o dramaturgo coloca Genet a dizer: "Quiseram fazer de mim um santo e eu quero morrer como se tivesse uma maldição." "Não sou um homem de adesões, sou um homem de revolta. Eu gostaria que o mundo - e preste bem atenção ao que lhe estou a dizer -, gostaria que o mundo não mudasse para que pudesse estar contra o mundo", disse Genet.
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"Era um anti-sistema, mas não era um delinquente puro e duro. Era um homem infinitamente culto, que fez da prisão a sua vida", descreve Jaime Rocha, que salienta o lado militante da cidadania, que o levará a abraçar causas como a dos Black Panters, um movimento revolucionário afro-americano influente nos Estados Unidos nas décadas de 60 e 70, e a causa palestiniana, ainda antes da era bombista. "Ele esteve sempre do lado da vítima", reforça.
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E depois há Chatila, o campo de refugiados na Palestina. Genet foi o primeiro europeu a chegar. "Quatro horas em Chatila" resume bem o envolvimento que queria viver e a destruição do modelo social que queria construir. Jaime Rocha, reinventando esse livro, coloca-o a recordar-se: "Eu vi o sangue coalhado pelas ruas estreitas, rapazes e velhos palestinianos a quem cortaram as mãos e os braços, mulheres com as ancas trespassadas por facas, crânios abertos à machadada, olhos furados, barrigas esventradas, mortos, muitos mortos espalhados pelas ruelas, queimados, desmembrados, dezenas, centenas, dois dias e três noites de matança."
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Depois disto, Genet não poderia esconder mais nada. Morreu na noite de 14 para 15 de Abril de 1986 num pequeno hotel de Paris. A sua campa, discreta em Marrocos (onde viveu os últimos anos), é o último gesto político de um homem sozinho.
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Un canto para Bolívar - Pablo Neruda

Poemas del Alma




PADRE nuestro que estás en la tierra, en el agua, en el aire
de toda nuestra extensa latitud silenciosa,
todo lleva tu nombre, padre, en nuestra morada:
tu apellido la caña levanta a la dulzura,
el estaño bolívar tiene un fulgor bolívar,
el pájaro bolívar sobre el volcán bolívar,
la patata, el salitre, las sombras especiales,
las corrientes, las vetas de fosfórica piedra,
todo lo nuestro viene de tu vida apagada,
tu herencia fueron ríos, llanuras, campanarios,
tu herencia es el pan nuestro de cada día, padre.

Tu pequeño cadáver de capitán valiente
ha extendido en lo inmenso su metálica forma,
de pronto salen dedos tuyos entre la nieve
y el austral pescador saca a la luz de pronto
tu sonrisa, tu voz palpitando en las redes.

De qué color la rosa que junto a tu alma alcemos?
Roja será la rosa que recuerde tu paso.
Cómo serán las manos que toquen tu ceniza?
Rojas serán las manos que en tu ceniza nacen.
Y cómo es la semilla de tu corazón muerto?
Es roja la semilla de tu corazón vivo.

Por eso es hoy la ronda de manos junto a ti.
Junto a mi mano hay otra y hay otra junto a ella,
y otra más, hasta el fondo del continente oscuro.
Y otra mano que tú no conociste entonces
viene también, Bolívar, a estrechar a la tuya:
de Teruel, de Madrid, del Jarama, del Ebro,
de la cárcel, del aire, de los muertos de España
llega esta mano roja que es hija de la tuya.

Capitán, combatiente, donde una boca
grita libertad, donde un oído escucha,
donde un soldado rojo rompe una frente parda,
donde un laurel de libres brota, donde una nueva
bandera se adorna con la sangre de nuestra insigne aurora,
Bolívar, capitán, se divisa tu rostro.
Otra vez entre pólvora y humo tu espada está naciendo.
Otra vez tu bandera con sangre se ha bordado.
Los malvados atacan tu semilla de nuevo,
clavado en otra cruz está el hijo del hombre.

Pero hacia la esperanza nos conduce tu sombra,
el laurel y la luz de tu ejército rojo
a través de la noche de América con tu mirada mira.
Tus ojos que vigilan más allá de los mares,
más allá de los pueblos oprimidos y heridos,
más allá de las negras ciudades incendiadas,
tu voz nace de nuevo, tu mano otra vez nace:
tu ejército defiende las banderas sagradas:
la Libertad sacude las campanas sangrientas,
y un sonido terrible de dolores precede
la aurora enrojecida por la sangre del hombre.
Libertador, un mundo de paz nació en tus brazos.
La paz, el pan, el trigo de tu sangre nacieron,
de nuestra joven sangre venida de tu sangre
saldrán paz, pan y trigo para el mundo que haremos.

Yo conocí a Bolívar una mañana larga,
en Madrid, en la boca del Quinto Regimiento,
Padre, le dije, eres o no eres o quién eres?
Y mirando el Cuartel de la Montaña, dijo:
"Despierto cada cien años cuando despierta el pueblo".




Poemas de Pablo Neruda

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Oralidade e cultura popular na escrita de José Saramago - Walter Praxedes

blog da Revista Espaço Acadêmico

Oralidade e cultura popular na escrita de José Saramago

Posted: 09/02/2011 by Revista Espaço Acadêmico in colunista da REA
por WALTER PRAXEDES*
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Uma das características mais marcantes da criação romanesca do escritor português José Saramago é a reconstituição da oralidade em sua escrita. Discuto, a seguir, as opiniões de alguns estudiosos da obra saramaguiana a esse respeito. O objetivo é enfatizar a relevância da cultura popular como fonte de inspiração e reflexão.
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Como ponto de partida podemos tomar um raciocínio do próprio Saramago, para quem as características de sua técnica narrativa
“… provêm de um princípio básico segundo o qual todo o dito se destina a ser ouvido. Quero com isso significar que é como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o narrador oral não usa pontuação, fala como se estivesse a compor música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras” (SARAMAGO, Cadernos de Lanzarote, 1997: 223).
Para Walter Benjamin (1983) a diferença entre as figuras do narrador e a do romancista se deve, em grande medida, à dependência do gênero romanesco em relação ao livro. Ao invés de ser um contador de histórias presente, o romancista é alguém que pode estar distante no espaço e no tempo e que realiza a sua expressão através da reprodução técnica permitida pela indústria do livro.
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Através de seus romances Saramago assimila, em parte, as posições do narrador e do romancista, derrubando a fronteira existente entre ambas, através da recuperação da tradição oral, e também pelo fato de assumir a posição de alguém que utiliza-se da imaginação para reinterpretar a história portuguesa e interpretar a realidade contemporânea para contar ao leitor a sua versão das mesmas, realizando, assim, um diálogo reflexivo sobre a condição humana e o “sentido da vida”, na intenção da superação da solidão do autor e do leitor.
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O romance Levantado do chão, publicado em 1980, tem a especificidade de demarcar um ponto de superação na expressão literária e romanesca de José Saramago. Na obra, o autor consegue desenvolver uma forma de discurso que reproduz a diversidade conflituosa da realidade retratada pela narrativa em construção, através da incorporação da tradição oral dos camponeses alentejanos. Em uma entrevista a Horácio Costa, Saramago assim  explica esse momento de sua produção literária:
“Eu tinha uma história para contar, a história dessa gente, de três gerações de uma família de camponeses do Alentejo, com tudo: fome, o desemprego, o latifúndio, a política, a igreja, tudo. Mas me faltava alguma coisa, me faltava como contar isso… Então, o que aconteceu? Na altura da página 24, 25, estava indo bem e por isso eu não estava gostando. E sem perceber, sem parar para pensar, comecei a escrever como todos os meus leitores hoje sabem que eu escrevo, sem pontuação. Sem nenhuma, sem essa parafernália de todos os sinais, de todos os sinais que vamos pondo aí… Então, eu acho que isso aconteceu porque, sem que eu percebesse, é como se, na hora de escrever, eu subitamente me encontrasse no lugar deles, só que agora narrando a eles o que eles me haviam narrado. Eu estava devolvendo pelo mesmo processo, pela oralidade, o que, pela oralidade, eu havia recebido deles.” (SARAMAGO, 1998: 22-23)
A preocupação com a história e a identidade portuguesa, revelada em seus romances, torna as narrativas criadas por Saramago um meio para o encontro com personagens, homens e mulheres, com identidades específicas, por certo, mas que já revelam as perspectivas e os valores que o autor antevê como imprescindíveis para o futuro de sua sociedade. Leyla Perrone-Moisés (1998: 101-108) interpreta que
“… o aspecto ao mesmo tempo artificioso e natural do português de Saramago resulta de uma engenhosa aliança do erudito com o popular, do livresco com a oralidade. Sua prosa incorpora uma rica tradição literária, de Fernão Lopes a Vieira, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós e Pessoa, aí presentes num intertexto que não é apenas alusivo ou citacional, mas que age num nível mais difícil de captar, o da arquitetura sintática, da prosódia, das técnicas narrativas e descritivas. A essa tradição, Saramago trouxe sua nota pessoal que, na superfície do texto, consiste na supressão da maior parte dos sinais convencionais de pontuação, marcadores de pausas ou de entoação. Esse modo de escrever, segundo ele, lhe ocorreu de repente após a 20ª página de “Levantado do Chão” (1980) e tornou-se desde então sua marca registrada. A supressão total ou parcial de pontuação, largamente praticada desde o início do século pelos prosadores de vanguarda (em Portugal por Almada Negreiros), não tem, em Saramago, um intuito puramente experimental, mas decorre do caráter oral de sua prosa, mais proferida do que escrita, e proferida com larguíssimo fôlego. Essa prática só funciona plenamente porque Saramago tem o domínio absoluto da lógica discursiva, do ritmo da frase e da respiração do falante, de modo que seu leitor jamais se extravia nos segmentos do discurso ou confunde os interlocutores de um diálogo.”
Um dos sujeitos recriados por Saramago na forma de personagem de ficção é Antonio Mau-Tempo, membro da terceira geração da família camponesa, aqui lembrado justamente porque na narrativa “…será grande contador de histórias, vistas e inventadas, vividas e imaginadas, e terá a arte suprema de apagar as fronteiras entre umas e outras…” (Levantado do chão: 124). Saramago alimenta sua pesquisa com as histórias contadas pelos camponeses e as recria  dando a voz a Antonio Mau-Tempo, que vai juntando mais e mais histórias em seus relatos, pois, afinal, como numa boa conversa “…a gente começa a contar um caso, mas metem-se outros adiante…” (Levantado do chão: 130). Na voz de Antonio Mau-Tempo as histórias acabam sempre com um julgamento dos fatos relatados. As contravenções praticadas pelo bandido José Gato e seu grupo sempre acabavam com uma boa justificativa: “… ao José Gato conheci-o sempre como um homem que se meteu naquela vida porque não ganhava para comer”;  e seguidas, ainda, de um julgamento moral de suas ações: “… Tinha boas coisas o José Gato, essa justiça deve de se lhe fazer. Nunca roubou nada aos pobres, a orientação dele era só roubar onde o havia, aos ricos, como dizem que fazia o José do Telhado” (Levantado do chão: 133); ou ainda numa absolvição de Antonio Mau-Tempo ao contraventor, em tom fatalista: “…o José Gato era um maltês sério. Acho que foi sempre um homem muito só, esta é a minha idéia” (Levantado do chão: 135).
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No romance seguinte, Memorial do convento, José Saramago volta a apresentar um contador de histórias, Manuel Milho, trabalhador na construção do Convento de Mafra e amigo de Baltasar Sete-Sóis, um dos protagonistas da narrativa. Em volta de uma fogueira, antes de dormir, sentavam-se os amigos para ouvir a história contada  por Manuel Milho por etapas, deixando o melhor da história sempre para o dia seguinte, acirrando, assim,  a curiosidade dos ouvintes que resistiam contra a postergação do fim da narrativa:  “… O José Pequeno protestou, Nunca se ouviu história assim, em bocadinhos, e Manuel Milho emendou, Cada dia é um bocado de história, ninguém a pode contar toda… (Memorial do convento: 253). A história de Manuel Milho acaba com uma lição moral que ensina aos ouvintes o exemplo daqueles que perseguiram tenazmente as suas vontades.
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Como nos ensina Segolin (1999: 274) “… a obra de Saramago nos evoca ainda o velho contador de histórias, ao pé da fogueira ritual ou da lareira doméstica, … a tecer com a voz e o corpo enredos fantásticos sobre seres não menos fantásticos ou a transformar, com a magia do verbo e da voz, as miudezas e os pequenos gestos do cotidiano em momentos epifânicos reveladores, pondo a nu heroísmos e fantasmas insuspeitados e recônditos no âmago do ser humano, deflagrando sonhos, pondo em cena nosso teatro interior, estimulando-nos a trazer à luz os anjos e demônios que nos habitam”.
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Através desta reprodução da oralidade na escrita, torna-se possível uma comunicação entre autor e leitor, pois o narrador emite um discurso problematizador da realidade histórica, no qual o elemento contraditório é intrínseco à própria representação do real que é afirmada e em seguida analisada e criticada. A narrativa desenvolve-se como uma forma de comunicação do pensamento em movimento contínuo tentando dar conta do movimento da realidade, através de sucessivas superações, que possibilitam uma nova síntese. Pode-se afirmar, por isso, acompanhando uma reflexão de João Alexandre Barbosa (1998), que “…o romance de Saramago é uma prolongada discussão acerca das relações possíveis entre a representação da realidade pela linguagem da narrativa e as inserções operadas pela imaginação ficcional”. O próprio Saramago, na posição de narrador do Memorial do convento, explica sua opção pela recuperação da imaginação na escrita: “…fingindo, passam então as histórias a ser mais verdadeiras que os casos verdadeiros que elas contam…” (Memorial do convento: 134).
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A oralidade torna possível, segundo Calvino (1990: 51) “…a dilatação do tempo pela proliferação de uma história em outra, que é uma característica da novelística oriental. Sheherazade,  conta uma história na qual se conta uma história na qual se conta uma história, e assim por diante”. O narrador de Levantado do chão não esconde do leitor a utilização desse artifício, como fica evidente na seguinte digressão:
“A gente vai falando para passar o tempo, ou para não deixar que ele passe, é um modo de pôr-lhe a mão no peito e dizer, ou suplicar, Não andes, não te movas, se dás esse passo pisas-me, que mal é que eu te fiz. É também como baixar-me, pôr a mão na terra e dizer-lhe, Pára, não gires, ainda quero ver o sol”. (Levantado do chão: 166-167)
Por tudo isso podemos concluir que a narrativa saramaguiana reafirma a importância da voz  dos excluídos e marginalizados para o entendimento humano. Porém, muito mais do que um mero recurso estilístico, trata-se de um projeto bem sucedido de recuperação da cultura popular na literatura e de demonstração de que entre ambas não pode ser estabelecida uma barreira.
Referências
BARBOSA, João Alexandre. “Até aos limites da realidade”. In: Suplemento Mais!. Jornal Folha de São Paulo, 6/12/98.
BENJAMIN, Walter. “O narrador”. In: Textos escolhidos. Coleção Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1983.
CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo, Companhia das letras, 1990.
JÚDICE, Nuno. “José Saramago: O romance no lugar de todas as rupturas”. In: Atelier du Roman, n.º 13, Paris. 1987-1989. Artigo divulgado na página do Instituto Camões na Internet
PERRONE-MOISÉS, Leyla. “As artimages de Saramago”. Jornal Folha de São Paulo, 6/12/98.
SEGOLIN, Fernando. “O evangelho às avessas de Saramago ou divino demasiado humano ou o Deus que não sabe o que faz”. In: BERRINI, Beatriz (org.). José Saramago uma homenagem. São Paulo, Educ/Fapesp, 1999.
SARAMAGO, José. Levantado do chão. Rio de Janeiro, São Paulo, Editora Record, Editora Bertrand Brasil, 1996.
______. Memorial do convento. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997.
______. Cadernos de Lanzarote. São Paulo, Cia das Letras, 1997.
______. Entrevista a Horácio Costa. In: Cult - Revista Brasileira de Literatura - Ano 2 – n. 17, São Paulo, 1998.


* WALTER PRAXEDES é docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e Doutor em Educação (FEUSP). Publica na REA, nº 35, abril de 2004, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/035/35/wpraxedes.htm
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lançamento do livro "Classes, Valor e Acção Social" de João Aguiar





Divulgação do Livro

João Valente Aguiar (investigador do ISFLUP)

À venda, entre outros, nos seguintes locais:
                     Livraria Leitura/Bulhosa
                     Bertrand Livreiros
                     FNAC
                     Wook

Agradece-se divulgação.
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(sessões de lançamento anunciadas em breve)
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

“O amor é um pássaro verde, num campo azul, no alto da madrugada” - Vitor Barroca Moreira

 A cultura

maio 31, 2004

Palavra de Criança (no final, "NOTAS VN"

rosa.jpg  LIVRO: «A Criança e a Vida»

Helder Raimundo #

Já conhecia o livro havia tempo. O trabalho de Maria Rosa Colaço, professora do ensino primário, era uma lufada de ar fresco no ensino tonto e saloio dos anos 60 e nas escolas tristes e salazarentas da época. Os textos que recolheu, poesias e histórias, ferventes e imagéticas, de meninos das ruas e dos bairros de lata na margem sul de Lisboa, eram flores anunciando o Abril futuro. Poderiam ter sido escritos por qualquer um de nós, que entre 1960 e 1969, se sentaram irrequietos nos bancos velhos das escolas, aprendendo as letras com que, hoje, nos ajudam a pensar sobre elas próprias.

Lembro de ter lido o poema da contra-capa do livro e ter pensado no quotidiano do Vitor Barroca Moreira, que o escreveu aos nove anos: “O amor é um pássaro verde, num campo azul, no alto da madrugada”. Lembro ainda de ter visto a minha infância neste poema, de liberdade, de aventura, de protesto. Mas havia outros, muitos mais, cheios de flores, amizades e zangas, como o do Inácio da Silva Cruz, de 10 anos: “O amor é como duas borboletas que estivessem sobre uma rosa, a mais linda de todas do jardim. O amor tem que haver. Se não houvesse amor não havia nada bonito. O amor são duas estrelas a brilhar, a brilhar. A rosa e o sol são o amor. O amor é a poesia. O amor são dois passarinhos a construir a sua casinha. O amor é não haver polícias”.

De Maria Rosa Colaço, disse Casimiro de Brito, poeta louletano: “Educadora, escritora vigilante e aberta: aberta à soterrada voz do seu povo, aos longos silêncios que rodeiam a corrupção, à deslumbrada visitação do sol pelas crianças, à quotidiana construção do amor”. Estas são palavras de poeta,  de gente que nega a morte, não negando o poema ou as palavras com que se fazem os Homens.

É como a viagem à lua do Manuel Miranda, de 8 anos: “Despedia-me do meu pai e da minha mãe. Preparava as malas e ia para a lua. Quando lá chegasse falava com Deus e os anjos. Ficava lá com os meus companheiros e nunca mais voltava porque encontrava os anjos a cantar e as estrelas ali mesmo ao pé. Porque lá não havia guerra e lá estava muito sossegadinho e não havia misérias, nem morria ninguém”. Assim, o Manuel viajou à lua, antes de outros, como o principezinho da história.

Maria Rosa Colaço diz-nos que estas crianças “não eram génios, nem poetas, nem meninos prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões de coisas...essenciais ao dia-a-dia. Moravam em casas com buracos e dormiam nos barcos, no vão das portas, nos degraus da doca, em qualquer sítio”.

Comprei este livro em Coimbra, em Novembro de 1992, para voltar a sentir o eco fundo dos seus apelos de criança. E agora, ao pegar nele posso dizer mais uma coisa: a sua autora, Maria Rosa Colaço, depois de rumar a Cacilhas/Lisboa, para educar as crianças da rua, escreveu neste jornal. Na «Voz de Loulé» escreveu muitos textos, insertos na página literária “Prisma de Cristal”, coordenada por Casimiro de Brito. O seu primeiro texto publicado é de 1 de Janeiro de 1957.

É ela que diz: “Companheira do sol e das raízes, cheguei à grande cidade”. Nós acompanhamo-la!

Maria Rosa Colaço A Criança e a Vida, Edições ITAU, Lisboa, 12ª edição.

# http://contrasenso.blogs.sapo.pt
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Notas VN
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29 out. 2010... eram um poster com um casalinho sentado junto a um muro e beijando-se, com o título O amor é um pássaro azul no alto da madrugada. ...
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26 out. 2009 ... «O amor é um pássaro azul no alto da madrugada», dizia um poster do ITAU, «escandaloso», dos anos 60 do passado milénio, que ornamentava o meu quarto de estudante em Évora ...
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Publicada por Victor Nogueira em Sexta-feira, Agosto 31, ...... Comentei para a Celeste, a mãe dos meus filhos, que duvidava que crianças escrevessem daquela maneira. Vai daí, ela foi buscar os cadernos dos alunos que trouxera para ...

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Marea Viva- Juan Liscano

Poemas del Alma


Como la ola pero no como la mar inacabable
como la ola solamente que nace y se derrumba
como la ola que muere de su propio impulso
que se expande rugiente y se estrella espumea destella
hasta abolirse en la ribera o regresar a su origen
como la ola que es un temblor del tiempo
tú y yo sobre la playa
frente a las olas
en el tiempo que nos destruye y nos repite.

Más tarde
después
cuando no estemos
¿verán otros ojo este mismo movimiento
con los ojos de quienes lo contemplamos ahora?
¿podremos asomarnos a aquella mirada?
¿tendrá la nostalgia en otros labios
sabor a salitre
como ahora la tiene en tus labios?
¿Despedirán las aguas descendentes
este profundo macerado olor sulfuroso
levemente carnal y carnívoro
que evoca despojos de líquenes de algas de mariscos?
si así fuese: ¿los sabrán nuestros polvos
lo sabrá nuestra muerte?

Desde lo profundo del otoño marino
te invito a subir hacia el día futuro clarísimo
en que alguna pareja enlazada
semejante a la nuestra
al contemplar las olas que rompen destellan espumean se abolen
pensará en la muerte uniforme general
pensará en la suya y en quienes más tarde
podrán perpetuar la mirada con que se aman ahora
la mirada con que también ven moverse las olas
en el tiempo sien duración que las repite y las destruye.

Acaso sientan ellos entonces vivir su eternidad.
Acaso la sentirán como si fuera el firmamente
acaso empiecen a ascender hacia su nebulosa
como las aguas vivas del mar en tiempos de equinoccio.
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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Desejos - Carlos Drummond de Andrade

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu."
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É assim que te quero, amor - Pablo Neruda

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Para Ti - Mia Couto

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
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Plano - Nuno Júdice

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Penélope - David Mourão-Ferreira

Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.
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Fiz um conto para me embalar - Natália Correia

Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Cátaros: Extermínio dos puros - por Pedro Silva


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Eles afirmavam que Jesus não era filho de Deus e defendiam a igualdade entre mulheres e homens. Conheça a história dos cátaros, cristãos que foram vítimas de uma cruzada e alvo da Inquisição

por Pedro Silva
Os forasteiros chegam à pequena vila sem causar nenhum alarde. Após percorrer centenas de quilômetros a pé, seu andar tornou-se arrastado e seus calçados se deterioraram. Têm a cabeça raspada e vestem-se de forma maltrapilha, com uma longa batina de cor negra presa por uma tira fina de couro. Após uma recepção praticamente inexistente, eles começam a ser reconhecidos e respeitados pela comunidade. Em pouco tempo, se tornarão líderes religiosos capazes de fazer frente à influência da poderosa Igreja Católica.
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No fim do século 12, as cenas descritas acima se tornariam cada vez mais comuns na ampla região do Languedoc, no sul da atual França. Cidade após cidade, os cátaros iam espalhando sua fé, baseada na simplicidade e na busca da pureza (katharos, em grego, significa “puro”). A religião nascera do cristianismo, mas era marcada por profundas diferenças em relação às doutrinas do Vaticano. Acusados de heresia e até chamados de adoradores do diabo, os cátaros provocaram uma implacável reação do papado. O esforço para eliminá-los incluiu uma cruzada e foi um dos principais motivos para a criação do Tribunal do Santo Ofício – mais conhecido como Inquisição.
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No século 14, cerca de 200 anos após o catarismo ter surgido, seus últimos representantes foram varridos do mapa. Para entender a intensidade da violência promovida pela Igreja Católica contra eles, é fundamental compreender como os cátaros foram capazes de conquistar os corações e as mentes medievais. E sua brutal eliminação é um dos exemplos mais bem acabados do incrível poder do papado sobre a Europa da Idade Média.
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Bispos vistosos
O primeiro grupo cátaro conhecido apareceu na década de 1120, na cidade de Limousin. Logo eles chegaram a povoados próximos, como Albi, Toulouse e Carcassonne, sempre no Languedoc. A região, separada do resto do território francês pelas montanhas dos Pirineus, era governada pela dinastia dos Raimundos. Eram terras prósperas, fortes na agricultura e na indústria têxtil. À primeira vista, seria difícil prever que num local tão estável – e religioso – pudesse surgir uma crença que desafiasse a Igreja. Mas, àquela altura, a sociedade medieval estava passando por importantes transformações.
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A Europa vivia uma fase de aumento populacional e melhoria das condições de vida, com o desenvolvimento das cidades medievais. No ambiente urbano, aumentava o contato entre as pessoas e a busca pelo conhecimento. Uma parcela da população começou então a refletir sobre várias questões, entre elas a própria fé. Na origem da expansão do cristianismo, que ocorrera cerca de nove séculos antes, estavam valores como a pobreza, o sofrimento pessoal e a sensação de unidade com Deus. Por volta do século 11, entretanto, a situação do clero não era exatamente essa.
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Por todo lado, pululavam grandes edifícios religiosos, magnificamente ornamentados – alguns deles deram início ao estilo que ficaria conhecido como “gótico”, que caracteriza algumas das principais catedrais da Europa. Além disso, os sacerdotes cristãos (sobretudo os bispos e seus representantes locais, os padres) usavam os fartos recursos da Igreja para garantir a si mesmos uma vida tranqüila. A imagem típica do cristianismo, aquele Jesus magro, de olhar triste e agonizando na cruz, era apenas uma vaga recordação – o perfil do clero estava mais próximo do bispo rechonchudo de roupas vistosas e dedos ornados com toda a sorte de joalharia.
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Abaixo os dogmas
Diante das contradições da Igreja, a influência dos cátaros avançava rapidamente. Em 1167, alguns deles se reuniram no encontro que marcou o nascimento oficial da nova religião: o concílio de Saint-Félix-de-Caraman (hoje Saint-Félix-Lauragais, no sul da França). Compareceram cátaros não só do Languedoc, mas de áreas mais distantes como a Lombardia (na atual Itália) e a Catalunha (hoje na Espanha). Muito pouco se sabe sobre o que ocorreu na reunião. Ela provavelmente foi presidida por um homem chamado Nicetas – um cristão dissidente vindo de Constantinopla e apelidado de “papa” – e organizou as bases do catarismo.
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Para os cátaros, o livro sagrado era a Bíblia (em particular o Novo Testamento). Sua religião, entretanto, divergia muito do catolicismo. O princípio fundamental era o dualismo: segundo ele, o mundo seria composto de dois reinos opostos e coexistentes. O primeiro, comandado por Deus, seria invisível e luminoso, onde só existiria o bem. Já o segundo reino, material e visível, seria controlado pelo diabo. Em outras palavras: segundo o catarismo, o inferno ficava na Terra. E o objetivo da vida humana seria escapar do mal através da purificação dos espíritos, reencarnação após reencarnação. Se isso fosse feito, quando chegasse o Juízo Final, todos se salvariam e iriam para o reino de Deus.
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Apesar de se considerarem cristãos, os cátaros não acreditavam que Jesus fosse filho de Deus. Ele era apenas considerado um profeta importante, que havia divulgado alguns ideais que mereciam ser seguidos. Para completar a afronta ao catolicismo, os cátaros viam São João Batista como nada menos que um instrumento a serviço do diabo. Afinal, por meio do batismo, ele teria cumprido a profecia de que Jesus era o messias – coisa na qual, como vimos, o catarismo não acreditava.
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Assim como a teoria, a prática dos cátaros era bem diferente da dos católicos. Eles recusavam o ritual da hóstia sagrada (em suas cerimônias, bastante simples, havia apenas a repartição do pão). Tampouco aceitavam o papel subalterno que o papado romano reservava para as mulheres – para o catarismo, o ser humano não admitia distinção entre sexos. A elas era permitido, inclusive, celebrar ritos religiosos.
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A autoridade do papa ou de seus bispos não era reconhecida pelos cátaros. Sem uma liderança espiritual única, eles dividiam os seguidores da religião em três níveis. O mais alto deles era o dos Perfeitos, também conhecidos como “bons homens”. Para chegar a esse posto, era preciso passar por duras provas e receber o Consolamentum, o único sacramento cátaro (que, grosso modo, resumia num só o batismo, a ordenação e a extrema-unção). Os Perfeitos eram celibatários e passavam grande parte dos dias em oração e jejum.
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Abaixo dos Perfeitos estavam os Crentes, categoria que reunia a grande maioria dos cátaros. Eles comungavam das práticas de virtude e humildade, mas não estavam obrigados a qualquer tipo de abstinência. Podiam casar (embora preferissem o concubinato) e só tinham direito a receber o Consolamentum na hora da morte. O terceiro nível da sociedade cátara era composto pelos Ouvintes. Simpatizantes da religião, eles acompanhavam as palestras dos Perfeitos e se curvavam perante eles para receber a bênção.
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Na virada do século 13, o avanço dos cátaros havia se tornado a maior preocupação da Igreja. “Havia o perigo de que a contestação à ordem imposta por Roma se estendesse rapidamente a outras regiões da cristandade”, escreveu o historiador Ernest Bendriss em artigo publicado na revista espanhola História y Vida em março de 2007. A reação não tardaria.
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Armas contra a fé
“Matem-nos todos. Deus saberá reconhecer os seus!” De acordo com alguns registros, foi com essas palavras que o abade Arnoldo de Amaury incitou à aniquilação total dos cátaros que se escondiam na fortaleza de Béziers, no Languedoc, em julho de 1209. Há quem defenda a tese de que a frase nunca foi dita. De qualquer modo, ela resume bem o espírito da sangrenta Cruzada Albigense – graças à grande concentração de cátaros na cidade de Albi, eles também eram conhecidos como “albigenses”.
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Antes de recorrer às armas, entretanto, a Igreja tentou combater o catarismo no campo da fé. Há relatos de que, entre 1165 e 1198, os cátaros foram perseguidos publicamente em locais tão díspares quanto Lombers (França), Colônia (Alemanha) e Oxford (Inglaterra). Para ouvir e julgar os hereges, a Igreja montou tribunais eclesiásticos. Graças à experiência dos cátaros como oradores, entretanto, eles se defenderam brilhantemente das acusações e viram sua fé ganhar status de religião. Apesar de ter havido algumas condenações, o prestígio dos Perfeitos saiu fortalecido.
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Em 1205, Domingos de Gusmão criou a ordem dos dominicanos. Pregando uma postura moral exemplar e o retorno aos princípios originais da cristandade, eles tentavam competir com a “pureza” dos cátaros. O problema é que os sacerdotes católicos não conseguiam se aproximar da população como os Perfeitos. Quando um líder cátaro chegava a uma vila, sua primeira preocupação era encontrar emprego. Após trabalhar de dia para se manter, ele dedicava a noite ao diálogo com os locais, procurando transmitir seus conceitos religiosos. Enquanto isso, os monges católicos raramente eram vistos em contato com o povo – optavam, em geral, pela clausura.
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Diante da contínua perda de fiéis, o papa Inocêncio III decretou o confisco dos bens de todos aqueles considerados hereges. Sua vontade foi cumprida por todos os cantos da Europa. Exceto no Languedoc, onde os governantes se recusaram a agir contra os cátaros. A alternativa encontrada pelo pontífice foi montar uma verdadeira força-tarefa: ordenou que os clérigos se unissem aos pregadores dominicanos para, em conjunto, redobrar a batalha pela fé no Languedoc. Sacerdotes católicos se misturaram aos Perfeitos nas ruas, mas pouca coisa parecia mudar. Até que um crime selou o destino dos cátaros.
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Em 1208, o legado papal (figura máxima da hierarquia da Igreja na região, representante direto do pontífice) Pedro de Castelnau foi morto por alguns habitantes de Toulouse. Logo correu a notícia de que os assassinos eram, supostamente, cátaros. Inocêncio III teve, então, a deixa de que precisava. Em 10 de março, organizou uma cruzada liderada por Arnoldo de Amaury e pelo bispo Folquet de Marselha. No campo de batalha, o comando coube a Simão de Montfort, à frente de um exército com 10 mil homens.
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Além dos cátaros, o alvo da cruzada foram os principais nobres que davam proteção a eles: o conde Raimundo VI de Toulouse e o visconde Raimundo Rogério de Trencavel. O primeiro grande ataque, em Béziers, surpreendeu pela violência intensa e indiscriminada. Cátaros e católicos, Perfeitos e padres, não importa: todos foram massacrados pelos cruzados. “Os cruzados não mostravam clemência. Mulheres e crianças amontoaram-se na igreja de Santa Maria Madalena, na parte alta da cidade”, escreve o historiador canadense Stephen O’Shea em A Heresia dos Cátaros. “Deveriam ter sido à volta de mil, um cálculo baseado na capacidade da igreja. Fossem quantos fossem, a igreja estava apinhada de aterrorizados católicos e cátaros quando os cruzados derrubaram os portões e massacraram todos os que ali se encontravam”, completa. Em 1840, durante uma reforma do templo, várias ossadas foram descobertas sob o piso.
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Estima-se que, em Béziers, nada menos que 20 mil pessoas tenham sido mortas – praticamente toda a população da cidade. Depois disso, os cruzados destroçaram Carcassonne, Bram, Minerve, Termes e Lavaur, ignorando quaisquer tentativas de rendição. Como recompensa pelo extermínio dos hereges, os cruzados ganharam o perdão pelos seus pecados – e puderam repartir entre si as riquezas e terras do Languedoc. A carnificina só parou em 1229, quando foi celebrado o tratado de paz de Meaux-Paris, entre Raimundo VII de Toulouse e o rei Luís IX da França.
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A fogueira final
Inocêncio III morreu sem ter conseguido extinguir o catarismo. A tarefa coube a seu sucessor, Gregório IX, que assumira em 1227. Com a situação aparentemente controlada em termos militares, o papa teve uma idéia que seria decisiva para a história dos séculos seguintes. Em 1231, por meio da bula Excommunicamus, criou a Santa Inquisição. Não é exagero dizer que a caça aos cátaros foi uma das principais razões para a novidade. Afinal, após anos de perseguição, eles haviam mudado sua maneira de agir. Agora, os Perfeitos misturavam-se à população, sem usar a tradicional veste negra. Para facilitar a identificação dos cátaros, a Inquisição empregava métodos sofisticados – e sórdidos – de interrogatório e investigação.
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A última ação militar contra os cátaros foi o cerco a Montségur, em 1243. Naquela época, a Inquisição já havia provado sua eficácia para eliminar seletivamente os hereges. Depois das condenações nos tribunais inquisitórios, a Igreja usava o “fogo purificador”: de acordo com o discurso oficial, a morte na fogueira seria a única forma de salvar as almas dos cátaros.
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Encurralados, os cátaros eram colocados diante da seguinte escolha: negar sua fé ou enfrentar a fogueira. De uma forma ou de outra, a religião ia sendo exterminada. Em 1321, foi executado o último sacerdote cátaro conhecido, Guillaume Bélibaste, que havia se refugiado no oeste da Espanha. Cerca de um século depois, já não se ouvia mais falar de seguidores do catarismo. Terminava assim a trajetória dos contestadores que, com humildade de caráter e simplicidade de métodos, haviam conquistado o respeito do povo – da mesma forma que os primeiros cristãos haviam feito, 12 séculos antes, na Palestina.

Caçador de cátaros

Simão de Montfort acabou morto por uma guarnição feminina
Antes de ser convidado para comandar as tropas da Cruzada Albigense, Simão de Montfort, nascido por volta de 1160, já havia sujado suas mãos de sangue em nome da Igreja. Ele participara da fracassada Quarta Cruzada, entre 1202 e 1204. O movimento havia sido convocado para expulsar os muçulmanos da Terra Santa, mas acabou se desviando um bocado do objetivo. Um dos culpados foi o próprio Simão de Montfort, que no meio do caminho resolveu saquear com seus homens a cidade de Zara (hoje Zadar, na Croácia), contrariando as determinações do papa Inocêncio III para que nenhum cristão fosse atacado durante a campanha – a Quarta Cruzada, aliás, terminaria de modo ainda pior, com a pilhagem de Constantinopla, em 1204. Anos mais tarde, durante a Cruzada Albigense, Montfort reforçou sua reputação de líder inflexível e implacável. Glorificado como herói da fé católica por diversos cronistas, ele foi o responsável direto pela morte de milhares de pessoas – já que raramente dava ordens para poupar alguém. Em 1209, Montfort se tornou visconde de Béziers e Carcassonne, duas localidades que suas tropas haviam arrasado. Liderando um massacre após o outro, ele logo se transformou no senhor absoluto da região do Languedoc. Montfort lutou pela expansão de seus domínios até a morte, em 1218, durante um cerco à cidade de Toulouse. Segundo alguns relatos, ele foi atingido por uma pedra atirada por uma catapulta da guarnição feminina da resistência cátara – destino apropriado para alguém conhecido por ser “firme como uma rocha”.

Heresias sortidas

Na época dos cátaros, católicos também desafiaram a Igreja
Percebendo que a Igreja estava se desviando de seus princípios originais, o papa Gregório V promoveu uma ampla mudança na instituição. A Reforma Gregoriana, iniciada em 1075, reforçava a obrigatoriedade do celibato no clero e atacava a simonia (a venda de falsas relíquias cristãs). Enquanto o papado tentava reestruturar o catolicismo, entretanto, a confusão teológica era generalizada. Além de grupos cristãos dissidentes – entre os quais os cátaros se destacaram –, a Igreja daquela época foi obrigada a enfrentar vozes dissonantes dentro de sua própria comunidade de seguidores e sacerdotes. Em 1110, o religioso Tanchelm de Antuérpia, originário da região de Flandres (hoje na Bélgica), levou alguns fiéis católicos a idolatrá-lo cegamente – a ponto de aceitarem beber a água que ele usava para tomar banho. Crítico dos rumos da Igreja, ele se proclamou messias e acabou preso na cidade alemã de Colônia. Ficou na cadeia entre 1113 e 1114 e, no ano seguinte, após ser libertado, foi morto por um padre católico. Na mesma época, Pedro de Bruis, nascido na Provença, quis reformar a Igreja na marra. Apesar de ser padre, ele chacoalhou o sul da França promovendo ataques a igrejas e queimando crucifixos – assim como os cátaros, ele detestava a opulência dos templos católicos e desprezava o significado místico da cruz. Acusado de heresia, foi executado na fogueira em 1126.

Saiba mais

Livros
A Heresia dos Cátaros – Uma Revolução Medieval, Stephen O’Shea, ASA, 2003
Editado em Portugal, descreve os mais dramáticos episódios relacionados aos cátaros.
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Hereges de Deus – A Cruzada dos Cátaros e Albigenses, Aubrey Burl, Madras, 2003
Um relato vívido e impressionante da história cátara. O assunto principal é a sangrenta Cruzada Albigense.
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http://historia.abril.com.br/religiao/cataros-exterminio-puros-435805.shtml
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Raimundo, o Cátaro - Dominique Baudis

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romance histórico
Raimundo, o Cátaro
Dominique Baudis
 
Acusado de brandura, de condescendência para com os inimigos da Igreja, Raimundo VI foi excomungado, proscrito, despojado das suas terras, forçado ao exílio.
 
«Acusado de brandura, de condescendência para com os inimigos da Igreja, [Raimundo VI] foi excomungado, proscrito, despojado das suas terras, forçado ao exílio... (...)
Para redesenhar aos nossos olhos a verdadeira face deste toulousano de grandiosidade subtil, para voltar a dar voz e timbre à sua palavra abafada, Dominique Baudis mergulhou com paixão nos tumultos da sua época, e igualmente nos da sua alma. Um período que é reconfortante para nós considerar longínquo, infinitamente longínquo, e grosseiro, tenebroso e bárbaro, obtuso e inumano – mas a nenhuma destas crueldades foi poupado este nosso século de luzes brutais. Nenhuma, nem as maldições, nem as guerras alegadamente abençoadas, nem a pilhagem, nem o fogo, nem as cidades arrasadas.
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De igual forma, nenhuma das personagens que o autor ressuscita (...) pertence a uma espécie diferente, a uma humanidade diferente, hoje esquecida. São todos nossos irmãos, arrevesados, perdidos, em efervescência, atormentados, actores como nós da mesma comédia, na mesma cena, num outro cenário. Sob as suas cabeças, esse mesmo Céu, umas vezes límpido, outras demasiadamente carregado.»
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Amin Maalouf, In "Prefácio"
 
Título: Raimundo, o Cátaro
Autor: Dominique Baudis
ISBN: 972-8605-67-6
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Dominique Baudis
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Figura de proa no romance histórico escrito em língua francesa, foi jornalista de vários canais da televisão francesa e tem vindo a exercer diversos cargos públicos de destaque no seu país. Foi presidente do Município de Toulouse, deputado na Assembleia Nacional e, actualmente, preside ao Conselho Superior do Audiovisual desde 2001.
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Nesta obra, Raimundo, o Cátaro, alia o rigor histórico a uma narrativa literária de grande qualidade. Raimundo VI, conde de Toulouse, personalidade sui generis para o seu tempo, está no centro do impactante facto histórico que foi a cruzada contra os Cátaros. Baudis entra na sua alma e dá-lhe voz, uma voz que ressoa ainda no nosso tempo...
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http://www.esquilo.com/autores_dbaudis.html
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

John Steinbeck movie




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John Steinbeck movie

Não te quero senão porque te quero - Pablo Neruda

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu cor...ação inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.
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Pablo Neruda
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RECANTO DA POESIA EM VERSO E PROSA
Grupo fechado
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Silêncio - David Mourão Ferreira

Fotos de Alice Coelho - Fotos do Mural

Foto 69 de 77 

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Silêncio

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;
redoma de cristal este silêncio imposto.
Que lívido museu! Velado, sepulcral.
Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

Um hálito de medo embaciando o vidrado
dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.
Na silente armadura, e sobre si fechado,
ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós
que a própria voz do mar segue o risco de um disco...
Não cessa de tocar; não cessa a sua voz.
Mas já ninguém pretende exp'rimentar-lhe o risco!

David Mourão-Ferreira
Nesta foto: Blue Gitan
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