domingo, 11 de novembro de 2012

António Lobo Antues - Os pobrezinhos



Uma crónica de António Lobo Antunes dedicada a Isabel Jonet

"Os Pobrezinhos


Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico.

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à esco

la, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

- O que é que o menino quer, esta gente é assim

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse:

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Na minha ideia o padre Cruz e a Sãozinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"

http://www.citi.pt/cultura/literatura/romance/lobo_antunes/ala92.html

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Amor de Perdição: um bom romance canonizado pelas razões erradas







Literatura

Amor de Perdição: um bom romance canonizado pelas razões erradas

05.11.2012 - 15:27 Por Luís Miguel Queirós

A praceta frente à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso, vai chamar-se Largo do Amor de Perdição
A praceta frente à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso, vai chamar-se Largo do Amor de Perdição (Paulo Pimenta)
 Os 150 anos da primeira edição do livro que Camilo escreveu na prisão estão a ser festejados com pompa e circunstância. A obra até poderá merecer, mas não pelos motivos que a tornaram mítica.

No prefácio que escreveu, em 1879, para acompanhar a 5.ª edição de Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco termina com uma profecia dubitativa: "Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.ª edição do Amor de Perdição quase esgotada." 

Sugerir que a tiragem então acabada de sair levaria mais de um século a esgotar-se era, da parte de Camilo, um óbvio e pouco convincente lance de modéstia, mas o que nem ele, que nunca se teve propriamente em baixa conta, se atreveria a prever, nesses anos em que os favores da crítica começavam a inclinar-se para a nova escola realista de Eça de Queiroz, era que essa "sociedade do século XXI" não apenas não esqueceria os amores contrariados de Simão Botelho e Teresa Albuquerque, como iria mesmo celebrar, e com assinalável pompa e circunstância, os 150 anos da publicação, em 1862, da primeira edição do Amor de Perdição. 

Com o bem achado título de CCB no CCB - leia-se Camilo Castelo Branco no Centro Cultural de Belém -, a instituição dirigida por Vasco Graça Moura dedicou, no final de Outubro, uma semana de intensa programação ao romancista, e em particular ao Amor de Perdição, promovendo debates, conferências, sessões de cinema, e ainda exposições, como aquela que reuniu os estudos de Júlio Pomar para as ilustrações do Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro. E os festejos prosseguem em breve em São Miguel de Seide, na Casa de Camilo, onde a Câmara de Vila Nova de Famalicão organiza, de 16 a 18 deste mês, um colóquio internacional intitulado Amor de Perdição: Olhares Cruzados. O ministro da Educação, Nuno Crato, é um dos que já confirmaram a presença, a par de Mário Cláudio, Vasco Graça Moura, José Pacheco Pereira ou Laborinho Lúcio. 

O tributo mais original fica todavia a dever-se à autarquia portuense, que aprovou recentemente a proposta de se baptizar com o nome de Largo do Amor de Perdição a praceta fronteira à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso com Ana Plácido, e onde escreveu, ao que parece em apenas 15 dias, a história dos contrariados amores de Simão Botelho e Teresa Albuquerque. É a primeira vez que a cidade concede a um romance a honra de figurar na respectiva toponímia. 

A arte da sugestão
Por que motivo, entre os tantos livros que o génio compulsivo de Camilo nos deixou, haveria este romance em particular de conquistar os favores da posteridade e alcançar um estatuto suficientemente icónico para se lhe renderem preitos geralmente reservados aos autores, e não às obras? O ensaísta e camilianista Abel Barros Baptista acredita que o próprio escritor, com o já referido prefácio de 1879, possa ter "contribuído para criar a ideia de que este livro é mais importante do que os outros". Baptista lembra que Camilo, nesse texto, caracteriza o sucesso editorial da obra como "um êxito fenomenal e extralusitano". À sua escala, o Amor de Perdição foi, de facto, aquilo a que hoje chamaríamos um best-seller: no primeiro quartel do século XX, já atingira vinte edições. Mas o próprio Camilo sempre lhe preferiu O Romance de Um Homem Rico, que publicara no ano anterior, e os camilianistas de várias épocas foram assumindo predilecções diversas. Não há na vasta bibliografia de Camilo algo que corresponda a Os Maias, de Eça de Queiroz, um título que seja a sua obra-prima consensual. 

Se Amor de Perdição se foi aproximando desse estatuto, deve-o a um complexo conjunto de motivos, nem todos especialmente válidos. Barros Baptista começa por desmontar a ideia de que sucessivas gerações de estudantes estudaram o livro no ensino secundário: "É uma ideia bastante ilusória", garante o ensaísta, já que "o livro só integrou os programas escolares durante um período muito curto". Entre os elementos que confluíram na lenda gerada em torno da obra conta-se ainda o suposto paralelismo entre a paixão contrariada dos protagonistas e os amores que tinham lançado no cárcere o próprio Camilo e Ana Plácido. Uma comparação que Barros Baptista igualmente desmonta, lembrando que a vida do romancista na cadeia portuense não era bem a que se julga: "Saía de lá para apanhar sol, comprava pantufas para Ana Plácido..."Mesmo a tendência para se ver no Amor de Perdição uma espécie de tradução da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, para o romantismo português do século XIX - em ambos os casos, a inimizade de duas famílias constitui o obstáculo principal à consumação do amor que une os jovens protagonistas - esquece a dimensão triangular que a paixão de Mariana por Simão vem trazer à novela de Camilo. Barros Baptista acha que o livro é "bastante moderno" e "muito menos linear e convencional" do que geralmente se pensa, argumentando que "é difícil apontar-se uma causa única para o que vai acontecendo". A título de exemplo, o ensaísta sugere que, no final, Simão, a caminho do exílio, está já "mais interessado no seu destino do que na ligação amorosa com Teresa", que definha no convento de Monchique. 

"É um dos livros mais interessantes para se conhecer a criatividade de Camilo como romancista, incluindo a sua veia cómica", diz Barros Baptista, apontando um diálogo entre Mariana e Simão como exemplo do talento do autor para sugerir conotações sexuais numa frase de circunstância aparentemente inócua: preocupada com a relutância de Simão em alimentar-se, Mariana leva-lhe um "caldinho" e diz: "(...) coma sem nojo, que esta [malga] nunca serviu." Uma tensão erótica que, na sua adaptação do livro ao cinema, Manoel de Oliveira traduzirá numa cena quase "pornográfica", com Mariana a apresentar a Simão uma galinha de pernas escachadas, numa travessa que transporta à altura da sua própria vagina. 

Um ritmo vertiginoso
Também o romancista Mário Cláudio acha que "o Amor de Perdição é um romance extraordinário" por méritos diversos dos que geralmente se atribuem ao livro. Mas os pontos fracos e fortes que enumera não coincidem exactamente com os que aponta Abel Barros Baptista, o que só confirma que estamos perante uma obra bastante mais aberta e discutível do que a sua precoce canonização deixaria prever. 

No seu romance Camilo Broca, Cláudio dá um lugar central a Simão Botelho, o tio de Camilo que serviu de inspiração ao Amor de Perdição, e que, na vida real, "foi um valdevinos, um canalha que chulou uma mulher casada, muito feia e muito rica". Mesmo o Simão protagonista do romance de Camilo "não é muito mais do que um pinga-amores que mata por paixão", observa Mário Cláudio, lamentando que "Simão não seja uma figura mais contraditória", mas reconhecendo que "seria exigir a Camilo uma modernidade que este não poderia ter". 

Vendo Simão como "mais um decalque do Werther, de Goethe, mas sem o lado reflexivo, filosófico, do original", Cláudio não o distingue das restantes personagens de Camilo, que, afirma, "são um pouco estereotipadas, de cartão recortado, com um conteúdo relativamente pobre", o que se "torna claro", acrescenta, "quando as comparamos com as figuras de Eça". O romancista, diz, estava "deformado pela escrita do folhetim literário, que, antes de Balzac, era um desfile de estereótipos: em Camilo, a mulher fatal é sempre muito fatal, o amoroso é muito amoroso, o brasileiro de torna-viagem é sempre burro, perverso e feio". 

Mas Mário Cláudio reconhece que Amor de Perdição "tem um ritmo vertiginoso" - a análise do manuscrito levou os especialistas à convicção de que Camilo escreveu mesmo o livro em duas semanas - e que a obra mostra "um grande conhecimento da técnica novelística". Valoriza ainda o modo como, no Amor de Perdição, a transcrição de cartas "é um engenho mobilizador da acção", algo que "já se fizera lá fora, mas era inédito em Portugal", e elogia "o estudo da triangularidade" oferecido pela relação das personagens de Simão, Teresa e Mariana. 

    segunda-feira, 5 de novembro de 2012

    GARCIA DE RESENDE - Trovas a Inês de Castro

    ...
    GARCIA DE RESENDE
    Trovas a Inês de Castro 
    Trovas que Garcia de Resende fez à morte de D. Inês de Castro, que el-rei D. Afonso, o Quarto, de Portugal, matou em Coimbra por o príncipe D. Pedro, seu filho, a ter como mulher, e, polo bem que lhe queria, nam queria casar. Enderençadas às damas.

    "Estes homens d'onde irão?"
    Qual será o coração
    tão cru e sem piedade,
    que lhe não cause paixão
    uma tão grã crueldade
    e morte tão sem razão?
    Triste de mim, inocente,
    que, por ter muito fervente
    lealdade, fé, amor
    ao príncipe, meu senhor,
    me mataram cruamente!
    A minha desaventura
    não contente d’acabar-me,
    por me dar maior tristura
    me foi pôr em tant’altura,
    para d’alto derribar-me;
    que, se me matara alguém,
    antes de ter tanto bem,
    em tais chamas não ardera,
    pai, filhos não conhecera,
    nem me chorara ninguém.
    Eu era moça, menina,
    por nome Dona Inês
    de Castro, e de tal doutrina
    e virtudes, qu’era dina
    de meu mal ser ao revés.
    Vivia sem me lembrar
    que paixão podia dar
    nem dá-la ninguém a mim:
    foi-m’o príncipe olhar,
    por seu nojo e minha fim.
    Começou-m’a desejar
    trabalhou por me servir;
    Fortuna foi ordenar
    dous corações conformar
    a uma vontade vir.
    Conheceu-me, conheci-o,
    quis-me bem e eu a ele,
    perdeu-me, também perdi-o;
    nunca té morte foi frio
    o bem que, triste, pus nele.
    Dei-lhe minha liberdade,
    não senti perda de fama;
    pus nele minha verdade,
    quis fazer sua vontade,
    sendo mui formosa dama.
    Por m’estas obras pagar
    nunca jamais quis casar;
    pelo qual, aconselhado
    foi el-rei qu’era forçado,
    pelo seu, de me matar.
    Estava mui acatada,
    como princesa servida,
    em meus paços mui honrada,
    de tudo mui abastada,
    de meu senhor mui querida.
    Estando mui de vagar,
    bem fora de tal cuidar,
    em Coimbra, d’assossego,
    pelos campos do Mondego
    cavaleiros vi somar.
    Como as cousas qu’hão de ser
    logo dão no coração,
    comecei entristecer
    e comigo só dizer:
    “Estes homens onde irão?”
    E tanto que perguntei,
    soube logo qu’era el-rei.
    Quando o vi tão apressado,
    meu coração trespassado
    foi, que nunca mais falei.
    E quando vi que descia,
    saí a porta da sala,
    devinhando o que queria;
    com grão choro e cortesia
    lhe fiz uma triste fala.
    Meus filhos pus de redor
    de mim com grande humildade;
    mui cortada de temor
    lhe disse: - “Havei, senhor,
    desta triste piedade!
    “Não possa mais a paixão
    que o que deveis fazer;
    metei nisso bem a mão,
    qu’é de fraco coração
    sem porquê matar mulher;
    quanto mais a mim, que dão
    culpa não sendo razão,
    por ser mãe dos inocentes
    qu’ante vós estão presentes,
    os quais vossos netos são.
    “E tem tão pouca idade
    que, se não forem criados
    de mim, só com saudade
    e sua grande orfandade
    morrerão desamparados.
    Olhe bem quanta crueza
    fará nisto Voss’Alteza,
    e também, senhor, olhai
    pois do príncipe sois pai,
    não lhe deis tanta tristeza.
    “Lembre-vos o grand’amor
    que me vosso filho tem,
    e que sentir grã dor
    morrer-lhe tal servidor
    por lhe querer grande bem.
    Que, s’algum erro fizera,
    fora bem que padecera
    e qu’estes filhos ficaram
    orfãos tristes e buscaram
    quem deles paixão houvera;
    “Mas, pois eu nunca errei
    e sempre mereci mais,
    deveis, poderoso rei,
    não quebrantar vossa lei,
    que, se morro, quebrantais.
    Usai mais de piedade
    que de rigor nem vontade,
    havei dó, senhor, de mim,
    não me deis tão triste fim,
    pois que nunca fiz maldade!”
    El-rei, vendo como estava,
    houve de mim compaixão
    e viu o que não olhava:
    qu’eu a ele não errava
    nem fizera traição.
    E vendo quão de verdade
    tive amor e lealdade
    ao príncipe, cuja são,
    pôde mais a piedade
    que a determinação;
    Que, se m’ele defendera
    que seu filho não amasse,
    e lh’eu não obedecera,
    então com razão pudera
    dar-m’a morte qu’ordenasse;
    mas vendo que nenhum’hora,
    dês que nasci até’gora,
    nunca disso me falou,
    quando se disto lembrou,
    foi-se pela porta fora.
    Com seu rosto lagrimoso,
    co propósito mudado,
    muito triste, mui cuidoso,
    como rei mui piedoso,
    mui cristão e esforçado.
    Um daqueles que trazia
    consigo na companhia,
    cavaleiro desalmado,
    de trás dele, mui irado,
    estas palavras dizia:
    “-Senhor, vossa piedade
    é digna de reprender,
    pois que, sem necessidade,
    mudaram vossa vontade
    lágrimas duma mulher.
    E quereis qu’abarregado,
    com filhos, como casado,
    estê, senhor, vosso filho?
    De vós mais me maravilho
    que dele, qu’é namorado.
    “Se a logo não matais,
    não sereis nunca temido
    nem farão o que mandais,
    pois tão cedo vos mudais
    do conselho qu’era havido.
    Olhai quão justa querela
    tendes, pois, por amor dela,
    vosso filho quer estar
    sem casar e nos quer dar
    muita guerra com Castela.
    “Com sua morte escusareis
    muitas mortes, muitos danos;
    vós, senhor, descansareis,
    e a vós e a nós dareis
    paz para duzentos anos.
    O príncipe casará
    filhos de benção terá,
    será fora de pecado;
    qu’agora será anojado,
    amanhã lh’esquecerá.”
    E ouvindo seu dizer,
    el-rei ficou mui torvado
    por em tais estremos ver,
    e que havia de fazer
    ou um ou outro, forçado.
    Desejava dar-me vida,
    por lhe não ter merecida
    a morte nem nenhum mal:
    sentia pena mortal
    por ter feito tal partida.
    E vendo que se lhe dava
    a ele tod’esta culpa,
    e que tanto o apertava,
    disse àquele que bradava:
    “-Minha tenção me desculpa.
    Se o vós quereis fazer,
    fazei-o sem mo dizer,
    qu’eu nisso não mando nada,
    nem vejo essa coitada
    por que deva de morrer.”
    Fim
    Dous cavaleiros irosos,
    que tais palavras lh’ouviram,
    mui crus e não piedosos,
    perversos, desamorosos,
    contra mim rijo se viram;
    com as espadas na mão
    m’atravessam o coração,
    a confissão me tolheram:
    este é o galardão
    que meus amores me deram.

    http://triplov.com/poesia/garcia_de_resende/index.htm

    sábado, 3 de novembro de 2012

    D. Dinis - Ai, flores, ai, flores do verde pino



    nstrumentistes - Codex Manesse
    I
    
    
    --- Ai, flores, ai, flores do verde pino,
    se sabedes novas do meu amigo?
               Ai, Deus, e u é?
    
    Ai, flores, ai, flores do verde ramo,
    se sabedes novas do meu amado?
               Ai, Deus, e u é?
    
    Se sabedes novas do meu amigo,
    aquel que mentiu do que pôs comigo?
               Ai, Deus, e u é?
    
    Se sabedes novas do meu amado,
    aquel que mentiu do que mi à jurado?
               Ai, Deus, e u é?
    
    --- Vós me preguntades polo vosso amigo?
    E eu ben vos digo que é sano e vivo.
               Ai, Deus, e u é?
    
    Vós me preguntades polo vosso amado?
    E eu ben vos digo que é vivo e sano.
               Ai, Deus, e u é?
    
    E eu ben vos digo que é sano e vivo
    e seerá vosco ante o prazo saido.
               Ai, Deus, e u é?
    
    E eu ben vos digo que é vivo e sano
    e seerá vosco ante o prazo passado.
               Ai, Deus, e u é?

    terça-feira, 30 de outubro de 2012

    Egito Gonçalves - Sobre os Poemas


    1
    Há poetas que constróem o mundo nos cafés,
    outros que o fazem no claro-escuro
    entre as prisões e os intervalos.

    Há poetas que aguardam cartas de apresentação
    nem eles sabem para onde:
    para a vida que falhou?, para a manteiga
    que lhes foi negada?

    Mas todos têm um sonho, todos
    se esforçam por valer o pão que amasssam
    − lançam seu delicado peso na balança.

    Eles sabem, esses poetas,
    que nada é eterno e imutável.

    2
    Tal a “Cadeia de Santo Onofre:
    copie o texto: envie a cinco amigos”...
    há poetas que se multiplicam, fendem
    a vaga limite, impedem o suicídio,
    explicam a vida, argamassam
    dedicação e raiva.

    Girassóis, rodam sobre si mesmos,
    indicam o ponto onde a luz se abre.

    3
    Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
    uma canção à cidade, martela
    os que dormem alheios, move-se
    silenciosamente ao jeito das estátuas.

    Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
    rosto impreciso solidificando breve;
    tênue tinta azul no papel claro...

    Os poetas têm
    como os pele-vermelhas do cinema
    o seu fumo e os seus cobertores.

    4
    Há poetas que renegam cartas
    de apresentação para o arrivismo;
    recusam a mão ao salário da trampa;
    não enfeixam o nome e a desonra
    nos telegramas do medo.

    Enquanto bebem o café um histrião noturno
    arenga; escuta o seu número; recebe
    por nova pirueta uma ajuda de custo

    segunda-feira, 15 de outubro de 2012

    Antonio Scavone - La drammaturgia inglese del Novecento


    La dimora del tempo sospeso

    Non potendo cantare il mondo che lo escluse, Reb Stein cominciò a leggerlo nel canto.



    La drammaturgia inglese del ’900
    (Un approccio)
         La scena teatrale inglese, per tutto il ’900, è stata caratterizzata, e in alcuni momenti storici dominata, da una sorta di doppia chiave di lettura della società britannica. Da una parte troviamo la monarchia, la dinastia Windsor, l’establishment delle corporazioni di affari e, dall’altra, la società civile nel suo insieme, con le sue sollecitazioni di diritto, i suoi bisogni di equità, le sue idee e le sue attese. Anche quando, con libere elezioni, saliva al governo del paese (cioè dell’Inghilterra) il partito laburista – e il quadro politico inevitabilmente cambiava – abbiamo quasi sempre assistito ad una reiterazione molto “english” dello statu quo, ad una continuità economico-finanziaria nella produzione del benessere, alla difesa di privilegi e procedure, alla conservazione dello spirito o dell’unità nazionale, come se – con i laburisti o con i conservatori – le cose non dovessero mai cambiare o non sono di fatto mai cambiate. 
         Tradizionalista o progressista, la società inglese ha fornito di se stessa, quasi involontariamente, questa doppia chiave di lettura, lasciando uno spazio sempre più ristretto ed enigmatico per distinguere l’opulenza cauta ma orgogliosa della sua ricchezza dalle problematiche civili ed economiche (di sussitenza più che di equità) che sfociavano da quell’opulenza spesso presunta. Pensiamo al declino di città come Manchester o Liverpool e quindi di settori dell’industria che cominciavano a mostrare segnali di stagnazione economica per la mancanza di adeguati investimenti (si parlava infatti di una “questione settentrionale” a proposito dell’arretratezza economica nel Nord britannico).
         Anche in Inghilterra sviluppo e progresso marciavano con una diversa velocità, creando zone di arretratezza e quindi di disagio sociale, privilegiando piuttosto quelle fasce di reddito che avevano consolidato la loro supremazia sociale con le rendite fondiarie (rentier).
    Già alla fine dell’800 Charles Dickens aveva tratteggiato mirabilmente questa doppia anima della società inglese: il povero e il ricco (Nicholas Nickleby), l’emarginato e il truffaldino (David Copperfield), il sognatore e l’affarista (Il Circolo Pickwick) e l’analisi dickensiana risultava tanto più veritiera perché i suoi romanzi erano scritti per così dire “in diretta” con le trasformazioni sociali del suo paese. Accanto a Dickens dobbiamo ricordare Henry Fielding, William M. Thackeray, le sorelle Brontë, Jane Austen: tutti scrittori di prosa, tutti narratori, autori di romanzi che avevano lo scopo di formare le giovani generazioni (il cosiddetto “bildungsroman”). Ma forse più dei narratori, a delineare e a rendere ancora più evidenti le lacerazioni della società inglese sono stati gli scrittori di teatro, i drammaturghi che hanno dominato la scena britannica dagli anni ’50 a oggi.
         Il teatro inglese degli anni ’30 e ’40 – oltre le ineludibili riprese scespiriane – era ancora quello di George Bernard Shaw o di Oscar Wilde o, ancora, le versioni inglesi di celebri commedie da Molière, da Pirandello. C’era anche il music-hall, composto da numeri di “arte varia” – balletto, gag, sketch – che lo imparentava a quello che noi chiamiamo “avanspettacolo”.
         Ma il teatro per definizione, o per elezione, era quello “di parola”, di una drammaturgia cioè fondata sulla potenza evocatrice della parola e dei dialoghi, com’era del resto nella migliore tradizione del teatro elisabettiano. Bisognerà aspettare la guerra e il dopoguerra per trovare sulla scena inglese (come in altri paesi europei) “qualcosa” che somigliasse di più alla realtà storica, che ne interpretasse correttamente le delusioni, le speranze.
         Nel dopoguerra, negli anni ’50, la società inglese si rivede impietosamente rappresentata sulla scena per le sue debolezze, le sue colpe, i suoi limiti. Comincia cioè una lettura diversa dei comportamenti e delle tradizioni, del linguaggio e delle atmosfere ricreate teatralmente per rappresentare senza compiacimenti ciò che era rimasto o sopravvissuto da una guerra vinta e quanto di questa vittoria fosse stato davvero proficuo o illusorio.
         Con Shaw o Wilde, il teatro inglese aveva delineato una società in evoluzione (da un capitalismo cinico e arcaico ad un’organizzazione da welfare) e ne aveva caratterizzato le spinte innovatrici anche se poi questi impulsi venivano assegnati, di volta in volta, alle arguzie dei vecchi, alle intemperanze dei giovani, alle inevitabili trovate teatrali di sempre (riconoscimenti, disvelamenti, conflitti di generazioni). Questo mondo talora consolatorio, talora sarcastico, cominciò a perdere il passo coi tempi, a non essere più credibile, a non scatenare più quell’immedesimazione tra personaggi e pubblico che da sempre il teatro sollecita per configurare il “suo” disegno della realtà. C’era bisogno di storie e personaggi che fossero ancor più immediati, che parlassero di temi e argomenti più vicini alla vita di una nazione e di un popolo che si proiettavano verso un avvenire incerto dopo le macerie e le miserie della seconda guerra mondiale.
    Questa nuova realtà culturale e sociale, o questa nuova rappresentazione dell’esistente sempre più approfondita sulle tematiche dell’attesa e del rinnovamento, fu iniziata nel 1954 dalla commedia “Tavole separate” di Terence Rattigan (1911-71). Rattigan, di origini scozzesi, è stato un autore teatrale e uno sceneggiatore cinematografico prolifico: “Tavole separate” divenne anche un film a Hollywood per la regìa di Delbert Mann e con uno stuolo di attori di primissimo piano, da Burt Lancaster a Rita Hayworth, da David Niven a Deborah Kerr.
         Le “tavole” di cui parla il titolo sono quelle di una pensione sul mare (forse Brighton) che ospita un’umanità varia che passa le proprie giornate di riposo aspettando gli orari dei pasti, la lettura dei giornali, i concerti televisivi, le chiacchiere da salotto. C’è un professore che aspetta la visita di un suo allievo, una signora della classe alta che aspetta di spettegolare sui vizi e le intemperanze degli altri pensionanti, una zitella eccentrica che aspetta di giocare a biliardo per una scommessa di pochi penny, una ragazza timida e bruttina che aspetta di essere almeno colloquiata da qualche bel giovanotto, la padrona della pensione che aspetta il ritorno del suo fidanzato che ne combina un po’ di tutti i colori, un ufficiale a riposo che aspetta di sapere una certa notizia e c’è infine una donna affascinante che aspetta di ritrovare il suo antico amante.
         Tutti aspettano qualcosa o qualcuno ma non siamo ancora dalle parti di un “Godot british”, non c’è reiterazione dell’atmosfera tragica e astratta di Samuel Beckett (En attendant Godot, in francese, è del ’52). Il tratto precipuo della commedia di Rattigan è più primitivo, forse anche oleografico, ma si incunea ambiguamente nel dilemma della convenzione sociale, tanto per richiamarla e definirla quanto per mostrarne la falsa ideologia etica.
         Questa falsa ideologia dei comportamenti farà da spartiacque tra il vecchio e il nuovo nella società inglese, sia pure in una tranquilla pensione sul mare e saranno gli eventi che nessuno avrebbe voluto rendere manifesti a far lievitare sentimenti abbandonati, rimorsi o colpe taciute. Si scoprirà che la donna affascinante è venuta in quella pensione per riallacciare il rapporto d’amore col suo antico amante, attualmente fidanzato della proprietaria, e che l’ufficiale a riposo, accusato di molestie sessuali, dovrà risponderne alla legge e alla società, dichiarando di essere semplicemente un sergente, un parolaio, un uomo solo.
         Le tavole, dunque, restano separate tra la società d’anteguerra (con i timori per il pericolo dell’invasione nazista) e le speranze del dopoguerra, per ricucire e risanare antichi conflitti, antichi carichi sospesi, antichi inganni. È un’Inghilterra in bilico, indecisa e incerta se affidarsi alle smanie di un futuro liberatorio o rinchiudersi in un’auto-contemplazione diagnostica.
         Il bisogno di ristabilire una volta per tutte il rispetto dei sentimenti e delle aspettative esistenziali di ognuno dei pensionanti – cioè di quelli che occupano queste tavole separate – non andrà perduto nel puritanesimo punitivo della società inglese, non sarà compiutamente ribaltata la doppiezza degli atteggiamenti ma, almeno, con estrema franchezza sarà indicata o vagheggiata una compatibile via d’uscita.
         Il falso ufficiale, ormai svilito, otterrà poco alla volta la simpatia degli altri, soprattutto della zitella bruttina che si ribellerà alla madre moralista e la donna affascinante ritroverà l’antico amante, emarginando la proprietaria della pensione nel ruolo ingrato e infelice di locandiera. Questa via d’uscita – esemplare in una località di villeggiatura – non regge nei clamori della città dove i conflitti sono più cruenti, dove si annidano risentimenti e velleità, dove scoppiano rimpianti e rabbia. E saranno infatti gli anni degliangry young men, dei giovani arrabbiati della piccola borghesia e dei proletari con i quali il teatro inglese affronta con un linguaggio innovativo le problematiche della dissoluzione morale, dell’insoddisfazione esistenziale, del conformismo politico, del liberismo economico.
    “Ricorda con rabbia” del 1956 del drammaturgo John Osborne (1929-94) è l’affresco palpitante, amaro e sarcastico, dell’immobilismo e dell’immutabilità della società e degli individui, dei personaggi e della storia di questa commedia.
    Jimmy Porter vive in una soffitta con la moglie Alison ma in realtà sopravvive alla mancanza di un lavoro gratificante, agli ideali che non riesce a concretizzare, ai rapporti sentimentali disprezzandone la piattezza e per i quali inveisce proditoriamente. Straparla, Jimmy, accusa tutto e tutti della sua condizione, della sua irrequietezza e scarica risentimenti e rancori sulla moglie Alison, figlia di borghesi che non hanno mai approvato il matrimonio con l’insoddisfatto Jimmy. Alison si vede costretta a lasciarlo e a nascondergli che aspetta un figlio da lui ma Jimmy non si preoccupa più di tanto e permette ad Helena di prendere il posto di Alison. Neppure con Helena, però, la vita è facile: anche con lei Jimmy rispolvera i suoi lamenti, la sua ira spesso pretestuosa e il suo inconfessato desiderio di completezza. Alison torna, ha perso il bambino, Helena capirà che deve farsi da parte e riprenderanno così, con una monotonia drammatica, questa ciclica irresolutezza di una coppia che non sa trovare sbocchi e spiragli alla sua felicità.
         È una commedia molto “detta”, dai toni forti, dal lessico tipicamente metropolitano, spesso gridata: è la commedia di una generazione che non sa più in cosa credere e si attorciglia su se stessa alla ricerca di un’improbabile emancipazione. Con John Osborne il teatro inglese scopre l’attualità e la disperazione, la miseria e la solitudine, la vacuità di un messaggio ideologico, la coazione a ripetere di una smania o di un’illusione troppo presto esacerbate o tradite.
         Gli anni che seguirono (quelli della swinging London, di Mary Quant, di Carnaby Street, dei Beatles, dello scandalo Profumo) faranno svanire la virulenza di “Ricorda con rabbia” ma lasceranno intatte le tracce di quella denuncia che Osborne lanciò contro le disuguaglianze economiche, le convenzioni sociali o quella che oggi chiamiamo omologazione politica.
         Era senz’altro un teatro off ma che non si connotava pregiudizialmente come l’espressione dilettantistica o giovanilistica di una teatralità da cantina o da laboratorio (come avvenne invece in Italia negli anni ’70 con il pullulare di teatri e compagnie di un solo mese o di un solo anno). Per quanto avversato e stroncato dai critici tradizionalisti, “Ricorda con rabbia” ottenne di essere rappresentato nei luoghi sacri della scena inglese: Osborne si poneva e si pose temerariamente come contro-altare ufficiale di una drammaturgia d’autore, analitica e sentimentale, che proponeva e pretendeva linguaggi diversi, strutture narrative e caratterizzazione dei personaggi più aderenti ai cambiamenti della società e alle dispute ideologiche di quegli anni ’60. Quel contro-altare, poi, trovò terreno fertile al di là dell’Atlantico nelle innovazioni registiche di Bob Wilson o di Julian Beck e della moglie Judith Malina che configurarono quel teatro “totale” e quella scuola di messincena (quadri, costumi, recitazione) che sfociò nel Living Theater, teatro non-teatro o teatro dai linguaggi compositi (verbale, gestuale, immaginifico).
         Ma i fermenti della nuova drammaturgia e dei nuovi drammaturghi furono soprattutto inglesi ed europei (pensiamo ai tedeschi Peter Weiss e Heinar Müller) e designarono un repertorio di testi e una generazione di autori che aderirono alla pratica teatrale da un apprendistato istintivo, per non dire autobiografico. I nuovi autori si avvicinarono al teatro con un empito iconoclastico, con intenti catartici che non sempre venivano finalizzati e con premesse ideologiche assolute e spesso destinate ad un’operazione solo analitica. In altre parole, la “rivoluzionarietà” dei giovani arrabbiati era molto più incisiva dal punto di vista formale (che gli autori giudicavano sussidiario) che da quello teorico e le tesi politiche delle loro opere risultavano essere il più delle volte incompiute.
     C’era già stata in Osborne la consapevolezza malinconica di una tragica immutabilità e si farà ancora più lucidamente disperato il quadro del fallimento che compone Arnold Wesker (1932) sulle prerogative e sulle involuzioni delle classi proletarie. Con “Brodo di pollo con l’orzo” del ’58 o “Parlo di Gerusalemme” del ’60 o ancora “Patatine di contorno” del ’62, Wesker, figlio di immigrati ebrei, esce dalle atmosfere laceranti di storie a due-tre personaggi di Osborne e si lancia nelle vicende ideologiche di gruppi di persone sempre più numerosi in conflitto con gli avvenimenti politici, le esperienze individuali, la fedeltà a un’idea totalizzante.
         Lo sguardo di Wesker è impietoso sui comunisti che si rifugiano nel conformismo (“Parlo di Gerusalemme”), sui militari che obbediscono pedissequamente agli ordini dei superiori (“Patatine di contorno”), su quelle circostanze di vita che sembrano unilaterali e riduttive – come il tema della morte o della vecchiaia ne “I vecchi” del ’72 o “Le 4 stagioni” del ’65 al quale forse si ispirò il nostro Gianni Amico (1933-90) nello sceneggiato televisivo del ’76 “Le cinque stagioni”.
         Educato e forse anche sobillato dalle sollecitazioni ideologiche che finirono per stemperarsi in una tormentata decantazione, Wesker ripiegò in una drammaturgia dagli accenti elegiaci e dai torni irriverenti soprattutto ne “I vecchi” dove emerge un robusto disincanto, fatto tanto di naturalismo che di realismo, che trova in questo gruppo di vecchi ebrei che ricordano, che rappresentano se stessi attraverso una sfrontata mimesis, l’essere di fatto sopravvissuti a qualcosa (forse la long revolution) che non è stata mai realizzata.
    Su un altro versante c’è l’intellettualistico, l’accurato, il “cinico” Harold Pinter (1933-2008), Premio Nobel 2005: autore per molti aspetti irrappresentabile secondo i canoni tradizionali della messinscena ma arguto e fertile secondo gli stilemi della mise en éspace. Il repertorio dei testi di Pinter è ragguardevole, famoso, di un linguaggio teatrale che alterna il grottesco ad una insolita comicità, la rappresentazione della realtà alla realtà della rappresentazione, come in un gioco più che assurdo dell’incomunicabilità o della vita interiore eletta a paradigma superstite e immodificabile dell’esistenza.
         Da “Festa di compleanno” a “Il calapranzi” – fedele al nume tutelare di Beckett e alla sua ideologia dell’attesa e del nulla che si anima dalla vacuità delle azioni – Pinter radicalizza il tema dell’unità dell’atto teatrale, riducendo l’azione a pausa, il dialogo a monologo, l’esteriorità a finissimo viatico interiore del destino degli uomini.
         Pinter dà voce e forma a verità inconfessabili, fa emergere dal mistero e dall’inganno delle passioni la profondità caotica eppure lineare di sentimenti abbandonati e poi ripresi, di idealità sottoposte a continue inversioni, a destabilizzanti interruzioni del continuum fisico-temporale e a sorprendenti ricomposizioni della struttura-tempo, che rimanda a successive e infinite scansioni. È una profondità che sconcerta e disorienta e ne è un esempio esauriente “Tradimenti” del ’78 che ripercorre a ritroso e all’interno di un pluri-rapporto amoroso qualcosa in più delle “pene d’amore perdute”, situandosi piuttosto in quella “terra di nessuno” che sono gli amori banalmente perduti e le passioni interiormente esaltate, divise da una frammentazione esistenziale che sembra l’unica possibilità di stare o resistere nella vita senza fondamento che ha suggestionato l’umanità nell’ultimo quarto di secolo del secondo millennio (come aveva già scritto in “Vecchi tempi” del 1970).
         Osborne, Wesker e Pinter hanno prestato le loro drammaturgie anche al cinema: John Osborne sceneggiò con Tony Richardson “Tom Jones”, mirabile trasposizione del romanzo di Henry Fielding, Arnold Wesker ha collaborato con Lindsay Anderson mentre Harold Pinter è stato lo sceneggiatore abituale di Joseph Losey (fra tutti “Il servo” e “L’incidente”).
    I temi e i linguaggi di questi tre commediografi hanno trovato una sintesi fedele e infedele nell’autore che attualmente rappresenta al meglio la scena inglese degli ultimi anni: il drammaturgo Edward Bond (1934).
    Personalità rigorosa, di un eclettismo mai dispersivo, Bond, come Wesker, pone al centro della sua attenzione il travaglio politico-ideologico e l’assetto esistenziale di uomini che tendono ancora a definire e puntualizzare destini e prospettive sociali. Il suo interesse, tuttavia, non si esaurisce in una fiacca geremiade del declino della classe operaia: ostico e anti-convenzionale, Bond privilegia tanto l’empito ideologico che lo ispira (la denuncia e la lotta anti-capitalistica), quanto il linguaggio e la struttura drammaturgica che regge il suo “messaggio” con storie senz’altro aberranti (come “Salvo” del ’65) o semplicemente esemplificative della vita quotidiana (come “Il mare” del ’73).  Sicuramente Bond ha radicalizzato i suoi temi: dall’abiezione di operai violenti che lapidano un bambino (“Salvo”) all’alienazione delle classi sottomesse con l’unico sfogo di un’estrema e forse terroristica vitalità (“Il mare”). Ma Bond ha anche rivisitato Shakespeare con un suo personalissimo “Lear”, ha evidenziato i conflitti di una società che naviga con approssimazione tra verità e inganno (“Quando si fa giorno” del ’68).
         Violenza e crudeltà lo hanno di fatto emarginato nella nicchia dell’autore che apertamente si dichiara di sinistra ma c’è da aggiungere, positivamente, che non basta essere di sinistra per essere poi e necessariamente un autore di frontiera o un drammaturgo “di riserva”. Molti dei suoi testi, in verità, non sono arrivati sulla scena, sono rimasti testi da leggere in volume o in raccolte antologiche.
         La lezione brechtiana di un teatro epico ha senza dubbio suggestionato Bond e influito sulla sua scrittura e sul mandato drammaturgico che si è autoconferito ma, a questo punto, chiediamoci quanti – e non solo in Inghilterra – siano portatori sani di un coraggio e di un talento. Non si scrive col coraggio, dicono i critici, ma il talento è già una forma di coraggio, rispondono gli autori.
         Nel 1987 Bond scrive “La compagnia degli uomini” (che è andato in scena di recente al Piccolo di Milano per la regìa di Luca Ronconi con l’interpretazione, fra gli altri, del novantunenne Gianrico Tedeschi). In questo testo Bond ha ripreso i suoi soggetti abituali trasferendoli – come in una “cantata” epocale – a quelle linee di comportamento e di negazione, di affari e di complotti che hanno esemplarmente caratterizzato la società che ancora viviamo, fino al sacrificio forse purificatore di uomini che avevano sempre e solo sacrificato la vita degli altri.
         Può irritare Edward Bond con la sua scrittura aggressiva e con il mondo laido che rappresenta, può risultare estremo ed esasperato per le brutalità che mette in scena senza pudore ma può anche ispirare una sofferta e controversa auto-analisi quando ci presenta senza infingimenti il contesto della realtà storica (“plan of the reality”).
         La realtà che Bond scompagina è la stessa che abitualmente rimuoviamo per interesse egoistico o di parte ed è la stessa di Eschilo o di Euripide (anche loro rivisitati da Bond) o di Shakespeare: la ferocia di Macbeth è forse improponibile nel raffronto con le violenze della nostra “democratica” società?
         La scrittura di Bond, come per Osborne e Pinter, si è impegnata anche col cinema, collaborando con Michelangelo Antonioni per la sceneggiatura di “Blow up”.
         Quella doppia opzione di cui si diceva all’inizio di quest’approccio alla drammaturgia inglese del ’900 si è assottigliata da Osborne a oggi ed ha configurato la società inglese come modello fra i tanti di degrado e incertezza: degrado socio-economico e incertezza di vita.
         Il quadro è tragico ma ai drammaturghi tocca questo compito ingrato: restituire della società un ritratto impietoso e oggettivo. In quest’antologia della drammaturgia inglese resta fuori, a tempi alterni, l’irlandese Samuel Beckett che, come un autore sovranazionale (come Ionesco, ad esempio) ha inteso dare dei suoi tempi, delle sue origini e della sua scrittura un segno storico di insoddisfazione e di sconfitta. D’altra parte, il teatro, e non solo quello inglese, ha sempre offerto di sé questo impavido omaggio.

    ***


    http://rebstein.wordpress.com/2011/03/21/la-drammaturgia-inglese-del-novecento/

    quarta-feira, 10 de outubro de 2012

    O teatro "em livro" em Portugal está quase "fora de cena"

    Expresso

    Lisboa, 26 Mar (Lusa) - Depois do 25 de Abril, e exceptuados os primeiros anos, marcados pelo aparecimento de novas e em geral pequenas editoras interessadas na divulgação do género, o Teatro quase "saiu de cena" na edição em livro em Portugal.

    17:00 Quinta feira, 26 de março de 2009


    *** Raul M. Marques, da Agência Lusa ***
    Lisboa, 26 Mar (Lusa) - Depois do 25 de Abril, e exceptuados os primeiros anos, marcados pelo aparecimento de novas e em geral pequenas editoras interessadas na divulgação do género, o Teatro quase "saiu de cena" na edição em livro em Portugal.
    Hoje, contam-se pelos dedos de uma mão - e talvez sobrem dedos - as editoras que, regularmente, em colecções ou fora delas, publicam teatro.
    A escassez explica-se - e os editores, em geral, não se coibem de a dizer com todas as letras: de todos os géneros, mais ainda do que a Poesia, que nunca, ou muito raramente, aparece na lista dos "best-sellers", o Teatro é a sua "besta negra", o Teatro "não vende", "não há tradição de leitura de Teatro em Portugal".
    A verdade é que, nos anos 60 e 70, eram em número considerável em Portugal as colecções de Teatro. Ocorre perguntar: lia-se então mais teatro?
    A Editorial Presença, por exemplo, manteve durante anos uma colecção que, tendo começado com um romance - "Tanguy", de Michel de Castillo -, abriu depois espaço prioritário ao teatro e deu a conhecer alguns dos nomes maiores desta arte: Tchekov (As três irmãs, O Selvagem, etc), August Strindberg, Arhur Miller, Henrik Ibsen, Ionesco, a par de autores nacionais como Mário Braga e Luís Francisco Rebello, entre outros.
    Papel também relevante na divulgação do teatro mundial teve a Portugália, que deu chancela a obras de Bertolt Brecht (Os tambores da noite, Mãe coragem e os seus filhos, O círculo de giz caucasiano, entre outras) Durrenmatt (A visita da velha senhora, Os físicos), Max Frisch (A muralha da China, Biederman e os incendiários), Arthur Miller (Depois da queda, Incidente em Vichy), John Osborne (Lutero).
    A Editorial Estampa, em associação com a Seara Nova, assegurou, numa colecção especificamente dedicada ao género teatral, a publicação de peças como "O despertar da Primavera", de Frank Wedekind, "A ilha dos escravos", de Marivaux, "A estalajadeira", de Goldoni. Na tradução destas peças intervieram dois dos nomes maiores da interpretação e da encenação na actualidade em Portugal, Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo.
    A Plátano, na sua colecção Teatro Vivo, deu a conhecer, por exemplo, "As troianas", de Eurípides, na versão de Jean Paul Sartre, peças em um acto de Jorge de Sena, "A 10.ªa turista", de Mendes de Carvalho, e, de outro quadrante geográfico, "Milho para o oitavo exército", de Loo Ding, Chang Fan e Chu Shin-Nane.
    "Assassínio na Catedral", porventura o mais importante trabalho do poeta T.S. Eliot para o Teatro, foi dado a conhecer em Portugal pelo TheatruMundi, da Delfos, uma editora a que ficou a dever-se também a publicação de "O animador", de John Osborne - peça que em Londres teve Laurence Olivier no protagonista - "A luz fria", de Carl Zuckmayer, e "Teatro para três estações", de Christopher Fry.
    Durante algum tempo, a Prelo deu à estampa repertório da Sociedade Portuguesa de Autores. Eram publicados nesta colecção de teatro da editora exclusivamente obras de autores portugueses: entre outras, "A bela Impéria", de Carlos Selvagem", "Um dia de vida", de Costa Ferreira, "Casaco de fogo", de Romeu Correia, "É urgente o amor", de Luís Francisco Rebello.
    Na Contraponto apareceram peças de Pirandello (Seis personagens em busca de autor), de Jean Anouilh, Benavente, Lorca, Sade, Saroyan, Ionesco.
    A Civilização abriu uma colecção de teatro fundamentalmente orientada para os clássicos, muitos dos quais traduzidos por nomes de vulto das letras portuguesas: Beaumarchais, Calderon de la Barca (A vida é sonho, O alcaide de Zalamea e O mágico prodigioso), Eurípides (Ifigénia em Áulis, As bacantes, Electra - traduzidas por Natália Correia), Lope da Vega (Fuenteovejuna), Marivaux, Molière, Racine, Musset, Shakespeare, Tirso de Molina, Oscar Wilde.
    Espaço ao teatro consagraram também, antes do 25 de Abril, e em colecção própria, a Arcádia, que revelou, por exemplo, a peça-chave de Samuel Beckett (À espera de Godot) e a Minotauro, que tornou conhecidos "Mestre Ubu", de Alfred Jarry, "O Tempo e a Ira", de John Osborne, "Os chapéus de chuva", de Fiama Hasse Pais Brandão, "Um caso sem importância", de Armand Salacrou.
    Depois do 25 Abril, algumas novas editoras surgiram no mercado - e o Teatro fez logo de início parte do seu catálogo: a Centelha e a Rolim foram duas delas.
    Já no mercado quando a Revolução dos Cravos aconteceu, a Moraes teve uma colecção de Teatro patrocinada pela então Secretaria de estado da Cultura e que divulgou sobretudo obras de autores portugueses premiadas no concurso que durante anos a citada secretaria promoveu.
    Mais recentemente criada, a Cotovia desenvolveu um projecto de edição teatral digno de registo, lançando duas colecções (Teatro e Livrinhos de Teatro, esta em parceria com os Artistas Unidos) com autores como Pasolini, Joe Orton, Jon Fosse, Harold Pinter, Juan Mayorga, a par dos portugueses Nunu Júdice e Miguel Castro Caldas.
    Em igual plano esteve até à sua saída do mercado a Campo das Letras, que deu chancela a três colecções de Teatro (Campo de Teatro, Dramat e Colecção Teatro nacional São João, esta em parceria com o teatro nacional nortenho) e nelas difundiu autores clássicos e contemporâneos.
    A Sociedade Portuguesa de Autores tem também uma colecção de teatro mas de publicação irregular, a Almedina lança escritores da lusofonia numa colecção denominada "Cena Lusófona", o Inatel publica os autores premiados nos concursos de teatro que organiza e o mesmo faz o Teatro Maria Matos com os seus.
    O restante cenário a isto se resume: lá de quando em quando, nas editoras de maior ou menor peso, sai um livro de teatro. Regra geral, obra "com subsídio" ou de um autor "com peso" e/ou "da casa".
    RMM.
    Lusa/fim





    terça-feira, 9 de outubro de 2012

    Egito Gonçalves - Notícias do Bloqueio


    Notícias do Bloqueio

    Aproveito a tua neutralidade,
    o teu rosto oval, a tua beleza clara,
    para enviar notícias do bloqueio
    aos que no continente esperam ansiosos.

    Tu lhes dirás do coração o que sofremos
    nos dias que embranquecem os cabelos...
    tu lhes dirás a comoção e as palavras
    que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

    Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
    sustentando a defesa à nossa volta
    - único acolchoado para a noite
    florescida de fome e de tristezas.

    Tua neutralidade passará
    por sobre a barreira alfandegária
    e a tua mala levará fotografias,
    um mapa, duas cartas, uma lágrima...

    Dirás como trabalhamos em silêncio,
    como comemos silêncio, bebemos
    silêncio, nadamos e morremos
    feridos de silêncio duro e violento.

    Vai pois e noticia com um archote
    aos que encontrares de fora das muralhas
    o mundo em que nos vemos, poesia
    massacrada e medos à ilharga.

    Vai pois e conta nos jornais diários
    ou escreve com ácido nas paredes
    o que viste, o que sabes, o que eu disse
    entre dois bombardeamentos já esperados.

    Mas diz-lhes que se mantém indevassável
    o segredo das torres que nos erguem,
    e suspensa delas uma flor em lume
    grita o seu nome incandescente e puro.

    Diz-lhes que se resiste na cidade
    desfigurada por feridas de granadas
    e enquanto a água e os víveres escasseiam
    aumenta a raiva
    e a esperança reproduz-se

    1952
    Egito Gonçalves
    O Pêndulo Afectivo - Antologia Poética, 1950-1990
    Porto, Afrontamento, 1991

    quinta-feira, 27 de setembro de 2012

    Poesia de Brecht



    Nada É Impossível De Mudar

    Desconfiai do mais trivial ,
    na aparência singelo.
    E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
    Suplicamos expressamente:
    não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
    pois em tempo de desordem sangrenta,
    de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
    de humanidade desumanizada,
    nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

    ...
    Elogio da Dialética

    A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
    Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
    Só a força os garante.
    Tudo ficará como está.
    Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
    No mercado da exploração se diz em voz alta:
    Agora acaba de começar:
    E entre os oprimidos muitos dizem:
    Não se realizará jamais o que queremos!
    O que ainda vive não diga: jamais!
    O seguro não é seguro. Como está não ficará.
    Quando os dominadores falarem
    falarão também os dominados.
    Quem se atreve a dizer: jamais?
    De quem depende a continuação desse domínio?
    De quem depende a sua destruição?
    Igualmente de nós.
    Os caídos que se levantem!
    Os que estão perdidos que lutem!
    Quem reconhece a situação como pode calar-se?
    Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
    E o "hoje" nascerá do "jamais".

    ...
    Elogio do Revolucionário

    Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
    Mas a coragem dele aumenta.
    Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
    e pela conquista do poder.
    Interroga a propriedade:
    De onde vens?
    Pergunta a cada idéia:
    Serves a quem?
    Ali onde todos calam, ele fala
    E onde reina a opressão e se acusa o destino,
    ele cita os nomes.
    À mesa onde ele se senta
    se senta a insatisfação.
    À comida sabe mal e a sala se torna estreita.
    Aonde o vai a revolta
    e de onde o expulsam
    persiste a agitação.

    ...
    "Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. 
    E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
    Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
    hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
    sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
    de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
    nada deve parecer impossível de mudar."

    ...

    Expulso Por Bom Motivo

    Eu cresci como filho
    De gente abastada. Meus pais
    Me colocaram um colarinho, e me educaram
    No hábito de ser servido
    E me ensinaram a dar ordens. Mas quando
    Já crescido, olhei em torno de mim
    Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
    À gente pequena.

    Assim
    Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
    Suas artes, e ele
    Denuncia-os ao inimigo.
    Sim, eu conto seus segredos. Fico
    Entre o povo e explico
    Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
    Estou instruído em seus planos.
    O latim de seus clérigos corruptos
    Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,

    Então
    Ele se revela uma farsa. Tomo
    A balança da sua justiça e mostro
    Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
    Que me encontro entre os despossuídos, quando
    Tramam a revolta.
    Eles me advertiram e me tomaram
    O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
    Eles foram me caçar, mas
    Em minha casa
    Encontraram apenas escritos que expunham
    Suas tramas contra o povo. Então
    Enviaram uma ordem de prisão
    Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
    As idéias da gente baixa.
    Aonde vou sou marcado
    Aos olhos dos possuidores.
    Mas os despossuídos
    Lêem a ordem de prisão
    E me oferecem abrigo. Você, dizem
    Foi expulso por bom motivo.

    ...

    Louvor ao Estudo

    Estuda o elementar: para aqueles
    cuja hora chegou
    não é nunca demasiado tarde.
    Estuda o abc. Não basta, mas
    Estuda. Não te canses.
    Começa. Tens de saber tudo.
    Estás chamado a ser um dirigente.
    Freqüente a escola, desamparado!
    Persegue o saber, morto de frio!
    Empunha o livro, faminto! É uma arma!
    Estás chamado á ser um dirigente.
    Não temas perguntar, companheiro!
    Não te deixes convencer!
    Compreende tudo por ti mesmo.
    O que não sabes por ti, não o sabes.
    Confere a conta. Tens de pagá-la.
    Aponta com teu dedo a cada coisa
    e pergunta: "Que é isto? e como é?"
    Estás chamado a ser um dirigente.

    ...
    Esse Desemprego!

    Meus senhores, é mesmo um problema
    Esse desemprego!
    Com satisfação acolhemos
    Toda oportunidade
    De discutir a questão.
    Quando queiram os senhores! A todo momento!
    Pois o desemprego é para o povo
    Um enfraquecimento.
    Para nós é inexplicável
    Tanto desemprego.
    Algo realmente lamentável
    Que só traz desassossego.
    Mas não se deve na verdade
    Dizer que é inexplicável
    Pois pode ser fatal
    Dificilmente nos pode trazer
    A confiança das massas
    Para nós imprescindível.
    É preciso que nos deixem valer
    Pois seria mais que temível
    Permitir ao caos vencer
    Num tempo tão pouco esclarecido!
    Algo assim não se pode conceber
    Com esse desemprego!
    Ou qual a sua opinião?
    Só nos pode convir
    Esta opinião: o problema
    Assim como veio, deve sumir.
    Mas a questão é: nosso desemprego
    Não será solucionado
    Enquanto os senhores não
    Ficarem desempregados

    ...

    Precisamos De Você

    Aprende - lê nos olhos,
    lê nos olhos - aprende
    a ler jornais, aprende:
    a verdade pensa
    com tua cabeça.
    Faça perguntas sem medo
    não te convenças sozinho
    mas vejas com teus olhos.
    Se não descobriu por si
    na verdade não descobriu.
    Confere tudo ponto
    por ponto - afinal
    você faz parte de tudo,
    também vai no barco,
    "aí pagar o pato, vai
    pegar no leme um dia.
    Aponte o dedo, pergunta
    que é isso? Como foi
    parar aí? Por que?
    Você faz parte de tudo.
    Aprende, não perde nada
    das discussões, do silêncio.
    Esteja sempre aprendendo
    por nós e por você.
    Você não será ouvinte
    diante da discussão,
    não será cogumelo
    de sombras e bastidores,
    não será cenário
    para nossa ação

    ...

    Perguntas De Um Operário Que Lê

    Quem construiu Tebas, a das sete portas?
    Nos livros vem o nome dos reis,
    Mas foram os reis que transportaram as pedras?
    Babilònia, tantas vezes destruida,
    Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
    Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
    No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
    Foram os seus pedreiros? A grande Roma
    Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
    Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
    Sò tinha palácios
    Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
    Na noite em que o mar a engoliu
    Viu afogados gritar por seus escravos.
    O jovem Alexandre conquistou as Indias
    Sòzinho?
    César venceu os gauleses.
    Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
    Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
    Chorou. E ninguém mais?
    Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
    Quem mais a ganhou?
    Em cada página uma vitòria.
    Quem cozinhava os festins?
    Em cada década um grande homem.
    Quem pagava as despesas?
    Tantas histórias
    Quantas perguntas
    ...

     Os que lutam

    "Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
    Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
    Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
    Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."
    ...