quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mia Couto - Solidão

Mia Couto

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

terça-feira, 21 de novembro de 2017



PRÉ-PUBLICAÇÃO
Jaime Batalha Reis "A anarquia era integral: não havia nem polícia, nem magistrados, nem tribunais, nem leis"
Enviado pelo Governo à Rússia, em 1912, o diplomata só consegue de lá sair a 27 de Abril de 1918, seis anos depois. Apanhado pelo turbilhão da história, com o início da Primeira Grande Guerra e a revolução de Outubro, Batalha Reis é testemunha de acontecimentos únicos e deles dá conta em depoimento
20 de Novembro de 2017, 5:07

Serie A

Reservado junho/setembro, 1918
Exmo. Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros
A presente comunicação, relatando a minha saída da Rússia, será, em carater e forma, inevitavelmente desusada, tratando de factos muito extraordinários, senão únicos, na vida oficial de um diplomata português.
Ignoro até que ponto esse Ministério conhece qual foi a situação do corpo diplomático em Petrogrado durante os últimos tempos revolucionários, por ignorar quais, entre os meus telegramas e ofícios, lograram chegar a Lisboa, havendo-se interrompido, quase completamente, as comunicações com a Suécia, desde o começo da guerra civil finlandesa.
Como é sabido, os Governos da primeira revolução russa, chamados “provisórios”, mas mais ou menos internacionalmente reconhecidos, mostraram-se sempre incapazes de criar e manter qualquer forma de ordem ou legalidade em Petrogrado e na Rússia.
Depois da revolução bolchevique dirigida por Lenine e Trotsky, a anarquia tornou-se quase completa. E digo quase, porque, oficial e ostensivamente, o Governo de facto russo nunca deixou de reconhecer, apesar de alguns episódios excecionais, as qualidades e imunidades dos membros do corpo diplomático, que aliás nunca lhe estiveram formalmente acreditados.
A situação dos Diplomatas foi porém, na realidade sempre, mas sobretudo nos últimos tempos, muito ameaçada e perigosa.
Houve, por mais de uma vez, começos de invasão nas embaixadas de Espanha, Inglaterra e Itália, nas legações da China, Dinamarca e Bélgica. Dois Secretários da legação da Roménia foram insultados e batidos num tramway, o Ministro da Itália atacado e roubado às 10horas da noite num dos lugares mais frequentados de Petrogrado (em frente do Hotel da Europa), saqueada a casa de um dos seus secretários.
A casa onde se achavam o Consulado e, em parte, os arquivos da legação de Portugal, por isso dependência oficial desta e sempre, como tal, reconhecida pelas autoridades superiores do Governo bolchevique, foi, entretanto, muita vez parcialmente invadida por soldados, por guardas vermelhos e operários, que se apresentavam como em cumprimento de missões oficiais, mas realmente para roubar.
A legação de Portugal, onde eu e minha família habitávamos esteve por diferentes ocasiões protegida por soldados russos. Os que, no começo da primeira revolução, nos guardavam eram das Equipagens navais da Guarda Imperial e tinham acabado, quando vieram guardar-nos, de assassinar quase todos os seus oficiais. Quando, por serem soldados os próprios que assaltaram as casas, roubavam e muitas vezes matavam os moradores, preferimos abandonar este meio precário de segurança, foram minhas filhas, e fui eu, que, dividindo entre nós as horas da noite, velávamos pela nossa própria segurança até ser manhã clara.
A atitude dos corpos diplomáticos, permanecendo na capital da Rússia, continuando a exigir o respeito de todas as imunidades e privilégios da extra territorialidade, sem entretanto nunca reconhecerem o último Governo revolucionário, exasperava os bolcheviques.
Todos os dias chegavam às Legações notícias de ameaças contra elas e seus membros, publicadas nos jornais e proferidas nas inumeráveis reuniões públicas.
Por duas vezes o Embaixador dos Estados Unidos, decano do corpo diplomatico, recebera mensagens escritas e assinadas pela junta diretora do Centro Anarquista, tornando as vidas dos diplomatas em Petrogrado responsáveis por tudo que, nos países que eles representavam, fosse feito contra quaisquer anarquistas. Como exemplo, que por assim dizer, me tocou de perto, exemplo, um entre milhares, do estado de toda a Rússia, notarei que, em dezembro de 1917, soldados assassinaram, com sua família, Mr. Goremykine, velho de mais de 80 anos, um dos últimos Presidentes de Conselho de Ministros do Imperador, proprietário da casa da legação de Portugal, por mim habitada até à nossa saída da Rússia. Os assassinos entraram, às 6 horas da tarde, na sua casa de jantar, enforcaram numa porta Mr. Goremykine, estrangularam sua mulher, mataram, a tiro, o General Oftchinikov seu genro, e feriram sua filha, que sobrevivendo, depois enlouqueceu. Estes e todos os assassinatos, ficaram sempre impunes. A anarquia era integral: não havia nem polícia, nem magistrados, nem tribunais, nem leis.
Cinco meses (outubro a fevereiro) durou no seu estado completo esta situação, mas nunca as missões diplomáticas em Petrogrado pensaram que ela bastasse a fazê-las a abandonar os seus postos.
Só um momento, algumas legações Aliadas entenderam que partiriam, se o governo bolchevique, tendo prendido Mr. Diamandy, ministro da Roménia, não cedesse logo, pondo-o em liberdade, às justas e coletivas exigências do corpo diplomático.
Quando, nos fins de 1916, o embaixador de Inglaterra, Sir George Buchanan, se tornou, pela partida do Visconde Motono, embaixador do Japão, decano do corpo diplomático, algumas vezes foram os chefes de missão convocados a reunir-se, e a deliberar juntos, sobre os acontecimentos correntes.
Começaram então as grandes lutas entre os partidos revelados e produzidos pela Revolução russa.
Mas essas reuniões só se tornaram mais frequentes quando, após Outubro de 1917, as Nações Aliadas da Rússia e as neutras, sem reconhecerem de facto a legitimidade dos diversos Governos, continuaram a manter representação diplomática em Petrogrado.
Na primeira das reuniões das missões Aliadas decidiu-se que estas não praticassem ato algum que não fosse previamente comunicado a todas, discutido e decidido em comum, devendo conservar-se estritamente secreto, para todos os que não fossem os respetivos Governos, o que em tais reuniões se passasse.
Quando, pela partida do Embaixador de Inglaterra, doente na verdade havia muito, e oficialmente apenas ausente por esta razão, o decanato e presidência do corpo diplomático passaram ao embaixador dos Estados Unidos, Mr. David Francis, as reuniões tornaram-se mais frequentes.
Em mais de uma delas se havia discutido a oportunidade, para as legações, de se retirarem de Petrogrado, ou mesmo de saírem da Rússia. A doutrina que, de acordo com as instruções enviadas às embaixadas pelos respetivos Governos, havia sido assente, quase sem discussão, fora a de que as representações diplomáticas se conservassem na capital, enquanto na Rússia existisse qualquer elemento de resistência contra a ação alemã, ou qualquer possibilidade de produzir ou provocar uma tal resistência. Assim, em todas as reuniões em que esse assunto fora discutido se decidira sempre permanecer em Petrogrado.
Alguns representantes supunham (e eu era um deles), que o Governo bolchevique dificultaria a nossa saída da Rússia, conservando os diplomatas como que em reféns para futuras eventualidades.
No mês de janeiro de 1918, os alemães dominavam por muitas formas, ostensivamente já, Petrogrado.
Tornara-se evidente, depois dos últimos acontecimentos militares alemães (entrada em Riga, ação directa sobre o Golfo da Finlândia, ocupação de Pskov, demonstração até Bologoye, sobre as comunicações com Moscovo), que os exércitos alemães ocupariam Petrogrado quando quisessem.
Era pois necessário saber se as legações das Potências Aliadas contra a Alemanha deveriam correr o risco, que a alguns chefes de missão parecia eminente, de serem aprisionados pelos soldados das Potências centrais.
Pela minha parte nunca considerei que este risco fosse próximo: os alemães e os austríacos eram, de facto, ostensivamente mesmo, e pela simples presença de algumas missões oficiais, senhores do único Governo que, na Rússia, tinha força e eram senhores da sua capital em Petrogrado. Enviar tropas a esta cidade importaria a ocupação militar efetiva de uma região extensíssima, no meio de uma população, como a de Petrogrado, densa e esfomeada; importaria a marcha, a alimentação e municiamento, sobre vastos territórios, então gelados, e, dentro de dois meses mais, cobertos de água e lama. A revolução russa fora, com efeito, pelo contrário, fomentada pelos alemães, como meio de não precisarem ter tropas na Rússia. A minha previsão era justa, pois que, 5 meses depois, em pleno verão, ainda as tropas imperiais não ocupavam Petrogrado.
Este meu modo de ver, fiz, por mais de uma vez, sentir aos meus colegas.
Mas nenhuma reunião geral foi nunca convocada para discutir este, mais que todos, importante assunto e resolver sobre ele, se bem que os chefes de missão se tivessem nos últimos dias várias vezes reunido para meras questões de sustentação das suas imunidades diplomáticas e das imunidades dos membros das colónias estrangeiras.
Inesperadamente, uma manhã, o Encarregado de Negócios de Inglaterra, Mr. Lindley, comunicou-me, em termos muito concisos e reservados, ao telefone, haver-se decidido partir, em poucos dias, de Petrogrado. Com efeito, as embaixadas dos Estados Unidos, de Inglaterra, de Itália, de França e do Japão, aliás, ao que parece, sem instruções precisas dos seus Governos, haviam tomado essa resolução, por si mesmas e pelas outras legações aliadas, sem com estas se haverem antes reunido e concertado. Mas nem a forma de partir, nem o lugar de destino exatamente se definiram até ao último momento.

Pré-publicação de Dos Romanov a Lenine, editado pelo Instituto Diplomático, Associação dos Amigos do Arquivo Histórico-Diplomático e com o apoio do Instituto de História Contemporânea

  évora 20.11.2017 22:23
esta porcaria de pré-publicação tinha mesmo que destruir a bela ortographia de Batalha Reis, convertendo-a à traição (como nem os russos, senhores!) ao simplismo pestilencial do acordês? Por que não conservar o sabor, o travo gráfico e phonetico do original?

Pablo Neruda - Sê


* Pablo Neruda



Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Sophia de Mello Breyner - Cantaremos o desencontro:

Sophia de Mello Breyner 

Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga


em O Nome das Coisas (1977)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

António Bagão Félix - ez palavras: na moda, mas feias

***



16 de Novembro de 2017, 08:32

Por


Dez palavras: na moda, mas feias

A
proxima-se o dia do anúncio dos dez vocábulos para a votação da “Palavra do ano”, uma interessante iniciativa da Porto Editora desde 2009.

Enquanto aguardamos, resolvi fazer uma outra escolha: a das 10 palavras mais feias que por aí andam de braço dado com modismos ou encavalitadas em posologia tecnocrática. Fealdade, evidentemente subjectiva. Ou feiura, que só não está entre as eleitas porque ninguém a balbucia. Para mim, a estética da palavra é uma mistura quase sinestésica do som, da textura silábica, do bom casamento (ou não) entre vogais e consoantes, da macieza (ou falta dela), da cor que, por vezes, lhe associo. Numa curta viagem pela memória do ano, eis a minha selecção (por ordem alfabética):
1. Alavancagem, às vezes até sem embraiagem e engrenagem. Muito em voga na linguagem financeira e empresarial. Associo-a a tacto áspero, com vogais sem travagem. Mais tarde ou mais cedo, antevejo que vai servir para medir o grau e intensidade do assédio sexual.
2. Bascular, que não devemos confundir com basculhar ou vascular. Verbo muito usado no futebol, ainda que sem conta, peso e medida. Conjugação retorcida, como por exemplo, no imperativo “bascula tu!” ou no condicional “bascularia”. Além do mais, palavra a preto-e-branco entre as vogais a e u.
3. Disrupção. Pior só o sinónimo rompedura. Associo-a à memória do som agudíssimo do giz arranhando a pobre lousa escolar.
4. Empoderamento. Olfactivamente, o substantivo tem falta de refrigeração, por isso o associo a podre. Tem uma forma axadrezada, o que não significa necessariamente “xadrez” para o empoderado. O verbo é do mais divertido que há. Imaginemos um diálogo: “Empodera-o tu! Não senhor, melhor seria se tu o empoderasses…
5. Engajar. “Engaja, pá, antes que eu engaje”. Eis o engajamento em todo o seu verbal esplendor, indicativo e conjuntivo. Quando ouço estas palavras logo olho para os sapatos para ver se precisam de engraxamento. E do castanho me lembro.
6. Governança. Palpita-me que anda por aqui ideologia de género. É que governo é palavra masculina e governança é feminina, mesmo que juntas com outro palavrão, governabilidade. Cá para mim, associo-a a cozinha, bons pratos e olfacto guloso. E recordo, gostosamente, o governo da governanta da “família Bellamy”.
7. Incumbente. Que me perdoe um qualquer intendente desta palavra incumbente, mas só a retenho no sentido botânico, ou seja pensando na parte da planta inclinada para a terra. Palavra escura, senão mesmo tétrica, não por causa da planta, mas da terra para onde se vai.
8. Paulatinamente. Isto é: latinamente e com pau. Por fases. E atempadamente, a sua irmã siamesa, qual delas mais feia e disforme. Associo-as aos equipamentos desportivos às riscas. Não sei porquê.
9. Performante. Mais um anglicismo, tal qual o performativo. De todas estas palavras é a que cheira melhor, não fosse parente da perfumaria. Mas tirando isso, é como se em vez de um saboroso bacalhau com batatas, grelos e ovo cozido me dessem, em versão “nouvelle cuisine” minimalista, um “bacalhau confitado com pastel crocante de grão de bico, acelga selvagem e sêmola de milho”.
10. Resiliência. Lamento, mas já não a tenho (a dita resiliência) para sequer a comentar. Nem para a alocar (esta seria a 11ª…).
Peço desculpa por ter deixado de fora uma série de palavras que me merecem toda a desconsideração. Não tiveram “cabimento” (outra, a 12ª).

https://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/11/16/dez-palavras-na-moda-mas-feias/?page=/&pos=24&b=opinion__compact

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Resende Ventura (Manuel Medeiros) - AMOR CEGO

* Resende Ventura (Manuel Medeiros)


que bom seria que chegasses!
abrir-te a porta
entrares sorridente

e nascer o grande abraço que entre nós
ficou a germinar

a cor do meu planeta é sempre o verde
nos olhos que fechei para guardar
a luz de primavera que lhes deste

ceguei-me de amor por ti

a luz de outono tentou
que me fitasse na cor
das minhas folhas caídas

mas os meus olhos são teus
e já nada mos devolve
nem este espelho de mim

só podem voltar a ver
quando tu batendo à porta
a luz de abrir os acenda
para nos teus me perder

ó momento de chegares!
e nosso abraço a nascer
do milagre de te verem
uns olhos que amor cegou!

Resende Ventura (Manuel Medeiros)

Papel a mais – papéis de um livreiro com inéditos de escritores, Esfera do Caos, Lisboa 2009

Ana Luísa Amaral - Quase de nada místico

Quase de nada místico 

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.

- Ana Luisa Amaral - in Às vezes o Paraíso 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Olá, madrinha !



sábado, novembro 11, 2017

OLÁ MADRINHA

Quando u amigo me disse que Marcelo Rebelo de Sousa tinha designado a Dra. Maria Cavaco Silva, pobre pensionista que já consegue ter dinheiro para as despesas graças à Geringonça, tive um momento Miguel Sousa Tavares, respondi que devia ter sido boca das redes sociais. Mas não, é mesmo verdade, já não tenho só o Zé Pixinha como padrinho, a Dona Maria também é. Isso significa que terei de passar a fazer um desvio sempre que for para o Algarve e passar pela luxuosa vivenda, comprada da forma que todos sabemos para dizer olá à madrinha.

Confesso que tinha uma certa inveja de nunca ter tido uma madrinha de guerra ou de nunca ter podido chamar madrinha à Dona Gertrudes Thomaz, não tendo tido a sorte de ser apadrinhado pelo Presidente do Conselho tive de me contentar com o padrinho que me saiu, o filho do mestre de pesca da traineira onde trabalhava o meu pai. Mas graças ao Marcelo já tenho uma madrinha a sério, como filho da nação já tenho quem me substitua a mãe, nunca me sentirei um português longe dos caminhos do senhor.

Ainda bem que Marcelo chamou a si a competência para designar madrinhas e escolheu essa espécie de Virgem de Boliqueime para todos termos madrinha. Até acho que devia ser reintroduzida a velhinha Cédula de Pessoal, com a sua capa martelada. Assim, todos temos direito ao assento do batizo. Fulano de tal foi batizada na pia batismal pelo pároco Marcelo, tendo como Madrinha a Dra. Maria Cavaco Silva, casada com o Aníbal.

Agora, além de beijinhos, procissões do Senhor dos Passos, abraços, missas do sétimo dia e visitas noturnas às barragens ressequidas, vamos passar a ter madrinha. Teremos a madrinha das vítimas das secas, a madrinha da seleção, até já imagino o engenheiro a rezar a Avé Maria ou a cantar o hino com a mão na peitaça, a lembrar o Trump. Com sorte até o Santana Lopes vai ser amadrinhado, agora que parece que sobreviveu ás facadas e que conseguiu sair vivo e mais ou menos lúcido da tentativa de homicídio do deus menino, ainda no colo da parteira.

Que mais poderemos desejar, temos um presidente que nos dá beijinhos e que nos esclarece todos dos dias e a toda a hora sobre todos as notícias de Portugal, das províncias ultramarinas e do mundo, que nos arranja madrinhas para que não tenhamos quem cuide espiritualmente de nós, temos agora a proteção da N.S. da Conceição, padroeira da nação, mais a sua representante terrena, agora nossa madrinha.

Somo um país e um povo cheios de sorte! De onde virá este cheiro a bafio que estou sentindo?

à(s) sábado, novembro 11, 2017
http://jumento.blogspot.pt/2017/11/ola-madrinha.html

domingo, 12 de novembro de 2017

Cecília Meireles -A bailarina

* Cecília Meireles

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

sábado, 11 de novembro de 2017

Miguel Torga - Dunas

*  Miguel Torga

Areia velha, cansada
De movimento.
Sempre jovem, o vento
Passa num desafio.
Mas só deixa, adivinhada,
A sombra de um arrepio
Na sonolência ondulada...

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Pablo Neruda em homenagem a Tina Modotti

poema feito por Pablo Neruda em homenagem a Tina Modotti:

Tina Modotti, irmã, você não dorme, não, não dorme
talvez o seu coração ouça crescer a rosa
de ontem, a última rosa de ontem, a nova rosa.
Descanse docemente, irmã.

A nova rosa é sua, a nova terra é sua:
você vestiu um vestido novo, de semente profunda
e seu silencio suave se enche de raízes. Você não dormirá em vão.

Seu doce nome é puro, pura é sua vida frágil: de abelha, sombra, fogo, neve, silencio, espuma,
de aço, linha, pólen, construiu-se sua férrea,
sua delicada estrutura.

O chacal, diante dessa joia que é seu corpo adormecido,
ainda levanta a pena, sangrenta ao par de sua alma,
como se você, irmã, pudesse levantar-se,
sorrindo, acima do lamaçal.

Vou levar você à minha pátria para que não a toquem,
à minha pátria de neve, para que sua pureza
não seja alcançada pelo assassino, pelo chacal, pelo vendido:
lá você estará tranquila.

Você ouve um passo, um passo cheio de passos, algo
de grande, desde as estepes, desde o Don, desde o frio?
Você ouve um passo lime, de soldado na neve?
Irmã, são seus passos.

Algum dia eles passarão por seu túmulo pequeno,
antes de as rosas de ontem murcharem;
passarão para ver os de um tempo, amanhã,
lá onde arde seu silêncio.

Um mundo marchou ao lugar onde você ia, irmã.
As canções de sua boca avançam a cada dia,
na boca do povo glorioso que você amava.
Seu coração era valente.

Nas velhas cozinhas de sua pátria, nas estradas
poeirentas, algo se diz, algo passa,
algo volta à chama de seu povo dourado,
algo desperta-se e canta.

É sua gente, irmã: nós que hoje pronunciamos seu nome
nós que de toda a parte, da água e da terra,
com seu nome, outros nomes silenciamos e pronunciamos.
Porque o fogo não morre.


BIOGRAFIA

Tina Modotti nasceu em 16 de agosto de 1896 na cidade de Udine, no norte da Itália, como Assunta Adelaide Luigia Modotti Mondini. Trabalhou desde cedo para ajudar a família, que era de origem humilde. Migrou para São Francisco, na Califórnia, buscando melhores condições de vida

Por Alessandra Monterastelli *

Participou de apresentações de teatro para a comunidade italiana da cidade e trabalhou em alguns filmes, no começo de Hollywood. 

Tina foi ao México em 1922. Apaixonou-se pelas cores do país e pelo espírito caloroso do povo mexicano. Começou a fotografar e conheceu diversos artistas, entre elas Frida Kahlo, com quem manteve estreita amizade, e Diego Rivera, para quem posou como modelo para alguns murais. Aproximou-se, nessa mesma época, de importantes pintores e fundadores do Partido Comunista do México, como Siqueiros e Orozco. 

Entusiasmada para engajar-se na luta revolucionária, passa a colaborar como tradutora para o jornal comunista El Machete; além disso, tendo como base os ensinamentos de Edward Weston, aprimora sua fotografia e adiciona a esta uma perspectiva de classe. Retratava o belo mas também usava a foto como arma de denúncia, registro e valorização do povo mexicano. Uniu, assim, sensibilidade, crítica social e beleza. 

Passa a viver junto com o fundador do Partido Comunista de Cuba e importante líder anti-imperialista da América Latina, Júlio Antônio Mella, por quem se apaixonou. Em 1929 Júlio é assassinado, e Tina é apontada pela imprensa como possível culpada da morte do companheiro; sofreu acusações de promiscuidade típicas usadas contra as mulheres quando o desejo é difamá-las.

Foi expulsa do México e quase presa pela polícia italiana de Mussolini, mas antes de ser capturada foi acudida pela seção holandesa do Socorro Vermelho Internacional, no Porto de Roterdã. 

Foi Para Berlim, onde aprofundou sua militância no Socorro Vermelho Internacional, que atuava na defesa dos presos políticos e vítimas de guerra. Passou por diversos países, como França, URSS e especialmente na Espanha, onde cuidou de milhares de feridos durante a Guerra Civil Espanhola. 

Além de artista, enfermeira e revolucionária, foi lembrada pelos seus discursos em diversos idiomas.

Morreu vítima de um ataque cardíaco fulminante em 1942. Enterrada com uma bandeira vermelha sobre o seu caixão, em meio aos seus companheiros e camaradas, a memória de Tina é celebrada até hoje, pelos seus grandes feitos na luta como mulher e revolucionária, e pelo seu trabalho fotográfico.
http://www.vermelho.org.br/noticia/300790-11

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Palíndromos e tautologias



Bem vindos ao manicômio!!!
Antes que estraguem por completo a língua portuguesa que está a ser tratada com os pés, nada melhor do que recordar um pouco a beleza que ela tem.


SABE O QUE É UM PALÍNDROMO?
NÃO?!
Um palíndromo é uma palavra ou um número que se lê da mesma maneira nos dois sentidos, normalmente, da esquerda para a direita e ao contrário.

Exemplos: OVO, OSSO, RADAR. O mesmo se aplica às frases, embora a coincidência seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase; é o caso do conhecido:
SOCORRAM-ME, SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS.
Diante do interesse pelo assunto (confesse, já leu a frase ao contrário), tomei a liberdade de seleccionar alguns dos melhores palíndromos da língua de Camões...
ANOTARAM A DATA DA MARATONA
ASSIM A AIA IA A MISSA
A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA
A DROGA DA GORDA
A MALA NADA NA LAMA
A TORRE DA DERROTA
LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA: ANIL É COR AZUL
O CÉU SUECO
O GALO AMA O LAGO
O LOBO AMA O BOLO
O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO
RIR, O BREVE VERBO RIR
A CARA RAJADA DA JARARACA
SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ
E já agora
E sabe o que é tautologia?
É o termo usado para definir um dos vícios, e erros, mais comuns de linguagem. Consiste na repetição de uma ideia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.
O exemplo clássico é o famoso ' subir para cima ' ou o ' descer para baixo ' . Mas há outros, como pode ver na lista a seguir:
- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exacta
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com
- expressamente proibido
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livreescolha
- superávit positivo
- todosforam unânimes
- conviver junto
- facto real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planear antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a últimaversão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito .

Note que todas essas repetições são dispensáveis.
Por exemplo, ' surpresa inesperada ' . Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não.
Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias. Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia.

Gostou?
Reenvie para os amigos amantes da língua Portuguesa




Victor Barroso Nogueira como tautologias tens a do nosso professor de história, o vasconcelos, quando ao abordar a civilização egípcia dizia "os cadáveres depois de mortos eram embalsamados". E como classificar palavras que na inversa têm outro significado, como Roma / Amor - Rama / Amar - Após / Sopa ? E como palíndromos temos aia, ama, rapar ...era um nunca mais terminar, LOL

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Papiniano Carlos - OS MENINOS NASCEM

* Papiniano Carlos

Vós podeis, tiranos, forjar ainda mais sólidas algemas,
chapear de aço as paredes das nossas e vossas cadeias,
e fazê-lo-eis;

Vós podeis, tiranos, cravar mais fundo as vossas baionetas,
esmagar-nos nas ruas debaixo das patas dos vossos cavalos,
e fazê-lo-eis;

Vós podeis, tiranos, roubar, incendiar, fuzilar sem descanso,
vedar os caminhos ainda livres, envenenar as fontes ainda puras,
e fazê-lo-eis;

Vós podeis, tiranos, vir de novo descarregar a vossa cólera
sobre Oradour,
lançar vossa chuva de raios sobre nosso humano desejo de viver,
e fazê-lo-eis,

Vós podeis, tiranos, inventar ainda piores suplícios,
mordaças mais espessas, baixezas mil vezes mais desumanas
para Buchenwald,

inutilmente o fareis:

Esta simples criancinha dormindo em seu berço,
este menino ainda na barriga de sua mãe, olhai
como vos fitam
serenos e terríveis.


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Luís de Sttau Monteiro - Angústia para o jantar


sábado, janeiro 17, 2004

ANGÚSTIA PARA O JANTAR - Luís de Sttau Monteiro


«Nunca vi nada que não fosse lógico. Tudo tem uma lógica, muito embora esteja por vezes escondida. É a isso que chamamos o segredo das coisas. O que distingue os homens lúcidos dos inconscientes é que os primeiros procuram descobrir a lógica das coisas, ao passo que os segundos julgam que as coisas surgem por si próprias e procuram, não a sua lógica, mas a sua rima.» p.24 

«Gonçalo entrara um dia, à hora do almoço, em casa do porteiro dum dos seus prédios. A família estava reunida em torno da mesa. A mãe e os filhos comiam batatas fritas e o pai o único bife. Fora-lhe impossível não comentar. 
- Então a carne é toda para si, João? 
A mulher saltara logo a defender a casa portuguesa: 
- Carne é para quem trabalha, Sr. Doutor. 
O porteiro passara a manhã sentado numa poltrona, no átrio do prédio, lendo O Século, enquanto a mulher varrera a escada, limpara a casa, cozinhara e olhara pelas crianças. 
- Parece-me que a Maria é quem mais trabalha nesta casa... 
O porteiro, de pé, com o guardanapo na mão, esclarecera a situação: 
- O marido sou eu, Sr. Doutor.» p.29,30 

«- A cidade, vista à noite, é estranha. Já pensou no que farão em casa todos esses tipos que a gente vê na rua, com emblemas do Benfica na lapela? Uns emblemas feitos de pedrinhas? 
- Sou um deles. 
- É? E que faz você à noite, em casa? 
Hoje era capaz de responder. À noite, em casa, repetimos o que fizemos durante o dia: nada. À noite, em casa, continuamos a esperar pela morte e, quando ela se aproxima, compreendemos que devíamos ter feito mais qualquer coisa.» p.144 

 "Angústia para o Jantar", de Luís de Sttau Monteiro, areal editores, Outubro 2002, 205p., pvp.13€ 

Estas são personagens que vivem diariamente com o medo: da morte e da vida adiada, de que os 2500$00 não cheguem até ao fim do mês, que a fortuna e o estatuto já não passem para a geração seguinte, que a primeira vez nunca mais volte a acontecer. Isto num cenário em que todas as posições estão bem definidas, patrões e empregados, senhoras e pegas, em que a palavra “revolução” das conversas da malta tinha um sentido diferente do que lhe conhecemos hoje. 

Ao lermos esta obra, não é de espantar que Luís de Sttau Monteiro tenha sido várias vezes preso pela PIDE. Não há sequer referências directas ao regime político de então: é um “Isto já não chega aos nossos filhos...” que se lê aí e se sente em todo o livro. No fundo, “quem vence as batalhas é quem está dentro do seu tempo”. 

Um grande bem-haja a quem me sugeriu a sua leitura. Angústia para o Jantar é uma das primeiras obras do extenso legado que Luís de Sttau Monteiro nos deixou. 

«Levantou-se, deu a volta ao sofá e aproximou-se da janela. Lá fora a chuva parara. Por entre uma aberta nas nuvens via-se o Sol, um Sol da cor do aço frio, e indiferente. Durante uns momentos, telhados molhados reflectiram a luz acinzentada do fim do dia. Depois, subitamente, as nuvens juntaram-se e recomeçou a chover. Lá em baixo, na rua escura e suja, passaram dois cães a correr, e ao fundo, à esquina, surgiram uns vultos curvados que logo desapareceram pela porta da taberna. 

Teresa voltou a sentar-se. Parecia-lhe que acabara de ver o futuro. A rua escura e suja, a luz acinzentada e os vultos lá ao longe, à porta da taberna, constituíam uma antevisão do mundo pelo qual se batiam o Pedro e os seus amigos. Sem que soubesse porquê, voltou a ter medo.» p.151


http://pilha-livros.blogspot.pt/2004/01/angstia-para-o-jantar-lus-de-sttau.html

A obra “Angústia para o jantar”, da autoria de Luís de Sttau Monteiro, conta a história de dois "amigos" dos bancos do liceu que jantam todos os meses no dia 15, há mais de 30 anos. No entanto nada mais os une, um - o "senhor doutor" - bem instalado e sucedido na vida, outro levando uma obscura, mesquinha e miserável vida de amanuense. O que me prendeu na obra foi a simultaneidade dos discursos: aquele que se pronuncia, por vezes mais ou menos hipocritamente, e aquele que se pensa, muitas vezes com cinismo ou inveja. (Victor Nogueira)

    “ANGUSTIA PARA O JANTAR”   (1)


(...) " Se o meu destino histórico não se apressa, chega tarde...Estou velho. Velho e farto. E se eu tivesse agora uma mulher na cama? Se eu fosse casado? Não acontecia nada. Contava-lhe o que se passou no restaurante. Contava-lhe tudo. Tudo não. Há coisas que não se podem contar. Um homem não pode contar à mulher que foi humilhado por um amigo no restaurante. Essas coisas só se contam quando é possível rematá-las acrescentando que depois se deu um par de bofetadas no amigo. E os homens que levam bofetadas nos restaurantes? Que contam eles às mulheres? Nada. Deve ser difícil ser casado. Todo o homem, mais tarde ou mais cedo, leva um par de bofetadas de que não pode falar à mulher e depois, cada vez que olha para ela, lembra-se das bofetadas que não foram contadas. Cada vez que olha para ela, leva outro par de bofetadas.(...)

 As mulheres odeiam os jogos dos homens, como odeiam todos os jogos de que não façam parte. Necessitam de estar no palco como os peixes de estar na água. É por isso que odeiam a guerra, o futebol, a caça. Sabem instintivamente que são jogos de homens, jogos inventados por eles, jogos que os homens preferem jogar sozinhos e nos quais elas, ainda que tomem parte, constituem um embaraço.(...)

 O marido é quem decide, é quem vai à frente, é quem come o bife. Acima do marido está o pároco, acima do pároco, o bispo, e acima do bispo, Deus. Eu estou no meio, dou dinheiro ao pároco e pisco o olho ao beijar a mão do bispo. É o meu jogo, o meu lugar no jogo. Regra número sete dos jogos que não levam a nada: "ninguém escolhe o seu lugar no jogo. Ninguém ganha o seu lugar no jogo. Todos nascem no lugar que lhes compete."(...)

 As pegas são mesmo assim. As baratas, as que estão no princípio da carreira e que ainda se chamam Lucindas, Lurdes ou Carmos, têm um profundo respeito pelas famílias e pelas mulheres legítimas dos amigos. Para elas a família é qualquer coisa de sagrado que está ligada ainda às recordações das mães que deixaram nas Beiras ou no Alto do Pina, no Minho ou em Campo de Ourique. No segundo grau da carreira já se chamam Odettes, Lizettes e Arlettes. Já falam dos "velhotes" com desprezo e da família como se esta fosse uma "velharia" merecedora do destino que tem. Num terceiro grau chamam-se Celines, Jeaninnes e Marguerites. Começam a compreender que existem regras e já não falam das famílias. Nem das suas, nem das famílias dos amigos.(...)

 Gostaria de te chamar "amor", Alexandra, mas não o posso fazer. Eras capaz de acreditar, e como necessitas de amor e de acreditar em alguém, eras mesmo capaz de acabar com o matulão que te faz ler Aragon... e eu não te amo, Alexandra, embora gostasse, neste momento, de te chamar "meu amor"... só porque tenho pena de ti... e de mim... e de tudo...(...)

 Não vale a pena responder. A estas coisas não se responde. São os diálogos domésticos dos casais da nossa idade e do nosso meio. Substituem o amor e a vida. Quebram o silêncio e dão a impressão de que tudo vai bem. E vai. O mais engraçado é que tudo vai bem. Quando nada há de comum entre um homem e uma mulher senão a cama e o facto de conhecerem a mesma gente, de que podem eles falar, na idade em que a cama começa a ser o local onde se dorme e nada mais?(...)"

(1) Este romance de Luís de Sttau Monteiro, foi editado em 1961, em pleno fascismo e no início da guerra colonial. Refere-se aos hábitos sociais e aos preconceitos que existem numa sociedade dividida em classes e do  seu papel (aparentemente) pré-definido pela sociedade.Através da narração de acontecimentos banais, quotidianos, e dos vícios e embustes que caracterizam a vida social lisboeta dos anos 60 do século XX,  talvez extensível a todo o jardim à beira-mar prantado,o escritor - oscilando entre a "verdade" do que é dito e a "verdade" do que ao mesmo tempo e na realidade se pensa  - apresenta/representa um conjunto de personagens que se vão cruzando entre si, revelando conversas de grupos de estudantes de esquerda; o comportamento de um indivíduo de classe média-alta que tem esposa e filhos já adultos e noutra casa sustenta a amante, e de quem a esposa tem conhecimento; a diferença de mentalidade e atitude entre jovens e a. geração dos seus pais já conformados com a realidade vigente e do seu lugar na sociedade, até  atingir um final surpreendente. (Victor Nogueira)

https://www.facebook.com/notes/victor-barroso-nogueira/lu%C3%ADs-de-stau-monteiro-entre-ang%C3%BAstia-para-o-jantar-e-as-redac%C3%A7%C3%B5es-da-guidinha/10152164254509436/


***
(...) É depois do jantar. Um enorme cansaço, desolador, entorpecedor, tem-se estado apoderando da minha cabeça. Completamente alheio enfiei a comida, acabando primeiro que os outros, uma grande irritação pela barulheira do rádio na cozinha (sempre a merda ruidosa do rádio), um enfado pelas desajeitadas tentativas do sr. Marquês para tirar-me do meu alheamento, do meu mutismo, a despedida brusca. Todo este cansaço, todo este desalento, pelo clarão súbito da última página [de Domingo à Tarde, de Fernando Namora] pela consciência de que todas as nossas relações são um jogo cujas regras (subconscientemente) sabemos (mas não queremos admitir), que toda a vida é uma enorme representação teatral, um palco mundano. (Lembras te, Shakespeare? Lembras te, Stau Monteiro da "Angústia para o Jantar"?)   (NSM - 1971.12.01/03)