terça-feira, 29 de maio de 2018

Miguel Torga, o abafador e a eutanásia

LAURA FERREIRA DOS SANTOS

OPINIÃO
Quem são os verdadeiros abafadores?...
31 de Agosto de 2014, 2:27

Volta e meia, os adversários da morte assistida instrumentalizam o conto “O Alma-Grande” (logo no início de Novos Contos da Montanha) para reduzirem a eutanásia a uma terminação brutal da vida que se dá a quem está supostamente para morrer mas ainda quer viver. Por outras palavras, reduzem a eutanásia a um assassinato. Mas é de facto de um mero assassinato que fala o conto, para já não falar do acto demagógico que é assimilar a eutanásia a um assassinato? Já em tempos, deixei aqui a resposta perplexa do médico belga à jornalista que lhe perguntava quantos doentes já matara: “Eu não mato, eutanasio” (PÚBLICO, 22.04.2014).

Logo na primeira frase do conto, sobre o local onde a história se desenrola, aparece-nos um contexto decisivo: “Riba Dal é terra de judeus”.
PUB
Em seguida, afirma-se que o Padre local “benze, perdoa, baptiza e ensina o catecismo por perguntas e respostas”. Os judeus inquiridos respondem, como é expectável, de acordo com a fé católica, de tal modo que “não há quem possa desconfiar que por detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o Pentateuco”, ou seja, os cinco primeiros livros do que os cristãos chamam Antigo Testamento, apelidados também, pelos judeus, de Thora, no seu sentido menos amplo.

Quando intervém o abafador? A mesma primeira página é bem explícita: “E à hora da morte, quando a um homem tanto lhe importa a Thora como os Evangelhos, antes que o abade venha dar os últimos retoques à pureza da ovelha, e receba da língua moribunda e cobarde a confissão daquele segredo – abafador”.
Estando Isaac com um tal “febrão” que as esperanças estavam perdidas, uma tal D. Rosa lembra o dever da “confissãozinha”. E é então que o um irmão de Isaac lembra à cunhada a necessidade de chamar o abafador. Podemos portanto supor que este tipo de homem tinha a função de proteger as comunidades de judeus que só para sobreviverem pareciam seguir as práticas cristãs, mas que no segredo das suas vidas continuavam fiéis ao judaísmo. Na hora da morte, diante do padre católico, podia ser que o moribundo deixasse escapar a verdade, pondo em perigo, eventualmente de morte, toda a comunidade. Logo, era preciso actuar de modo a que esse diálogo final não acontecesse. De acordo com o conto, haveria sempre quem protestasse diante desta prática, mas, na hora da verdade, a ameaça dos perigos que para uma comunidade traria o facto de a saberem judia e não católica sobrepunha-se ao grande mandamento “não matarás”. Daquela vez, o abafador não cumpre a função para que fora chamado: o filho pequeno de Isaac entra no quarto nos momentos finais, indo para junto do pai, pondo-lhe a mão na testa a escaldar, e o Alma-Grande não tem coragem para agir diante de um terceiro e vai-se embora. Talvez pelo gesto de ternura do filho, Isaac vai recuperando, sem haver lugar à necessidade de qualquer confissão. De acordo com o conto, sendo Isaac mais forte do que o abafador, um dia vingou-se, matando-o.

Como o material até agora por mim encontrado sobre este fenómeno foi muito escasso e academicamente pouco “depurado”, contactei há bastante tempo a filha única de Miguel Torga, Professora Doutora Clara Rocha, que me autorizou a usar as suas informações.

Na sua perspectiva, o conto de facto não tem nada que ver com eutanásia, algo em que a mãe insistia nas conversas de casa. Aliás, a filha tão-pouco deixou que o conto fosse incluído numa antologia de contos de terror, pois esse não se enquadraria nos propósitos do pai. Depois de alguma investigação, na troca de correspondência havida avancei a hipótese de que esse "abafamento" não seria considerado estranho em certas comunidades judaicas de "cristãos-novos", de modo a que o moribundo, à hora da morte, não pudesse denunciar ao padre ou ao médico, por um procedimento ou outro, que afinal a "conversão" fora fictícia, pondo assim em causa também a família ou a comunidade "convertida". Em resposta, disse-me que a minha interpretação estava correcta. Não conseguindo na altura indicar-me fontes onde pudesse esclarecer-me melhor, afirmou-me: “o que lhe posso dizer é que muitas vezes ouvi os meus pais falar sobre essa prática de comunidades judaicas”.

Neste contexto, pergunto: quem são os verdadeiros abafadores? Os que defendem uma séria despenalização da morte assistida, ou os que insistem em continuar a abafar a liberdade de consciência e uma última liberdade diante da morte?P
UB
Docente Aposentada da UMinho
laura.laura@mail.telepac.pt)
https://www.publico.pt/2014/08/31/sociedade/opiniao/miguel-torga-o-abafador-e-a-eutanasia-1668153o do artigo Aqui escrevo o restante do post

sábado, 26 de maio de 2018

Miguel Torga - O Alma-Grande

* Miguel Torga


Riba Dal é terra de judeus. Baldadamente, pelo ano fora, o Padre João benze, perdoa, batiza e ensina o catecismo por perguntas e respostas.

- Quem é Deus ? - É um Ser todo poderoso, criador do Céu e da Terra.

Na destreza com que se desenvencilham do interrogatório, não há quem possa desconfiar que por detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o Pentateuco. Mas está. E à hora da morte, quando a um homem tanto lhe importa a Thora como os Evangelhos, antes que o abade venha dar os últimos retoques à pureza da ovelha, e receba da língua moribunda e cobarde a confissão daquele segredo - abafador.

Desses servos de Moisés, encarregados de abreviar as penas deste mundo e salvar a honra do convento, o maior de que há memória é o Alma-Grande.

Alto, mal encarado, de nariz adunco, vivia no Destelhado, uma rua onde mora ainda o vento galego, a assobiar sem descanso o ano inteiro. Quem vinha chamar aquele pai da morte já sabia que tinha de subir pela encosta acima a lutar como um barco num mar encapelado.

- Raios partam o vento! Mas quê! Do mesmo modo que o Alma-Grande era certo na casa da esquina, sempre ao borralho, era certo o bafo da Sanábria a varrer a ladeira.

Diante da casa, bastava gritar-lhe o nome. - Tio Alma-Grande! ó Tio Alma-Grande!

Lá vai... Daí a nada a tenaz das suas mãos e o peso do seu joelho passavam guia ao moribundo.

Entrava, atravessava impávido e silencioso a multidão que há três dias, na sala, esperava impaciente o último alento do agonizante, metia-se pelo quarto dentro, fechava a porta, e pouco depois saia com uma paz no rosto pelo menos igual à que tinha deixado ao morto. Os de fora olhavam-no ao mesmo tempo com terror e gratidão. Às vezes, uma voz ou outra, depois do pesadelo, levantava-se do fundo da consciência e protestava; mas no dia seguinte acontecia ser essa mesma voz que no alto do Destelhado, sobrepondo-se à força do vento, o reclamava.

- Tio Alma-Grande! ó Tio Alma-Grande! - Lá vai... E aparecia à porta logo a seguir. Quando a hora do Isaac chegou, foi um filho, o Abel, que trepou a ladeira. O garoto vinha excitado, do movimento desusado de casa, da maneira estranha como a mãe o mandara chamar o Tio Alma-Grande, e da ventania.

- Que tem o teu pai, rapaz?

O pequeno olhou fixamente a cara seca do abafador.

- Febre... - Bem, vamos então lá...

- E que é que o Tio Alma-Grande lhe vai fazer?

- Vê-lo... Pela rua abaixo só o vento falava. Rouco de tanto bradar, monocórdico, persistente, era nele que tinha expressão a intimidade de ambos: um, o pequeno, nervoso, inquieto, a braços com pressentimentos confusos, que se recusavam a sair-lhe do pensamento; o outro, o velho, a aceitar aquele destino de abreviar a morte como um rio aceita o seu movimento.

Em casa havia lágrimas desde a soleira da porta. Mas a entrada do Alma-Grande secou tudo. Atrás dos seus passos lentos e pesados pelo corredor ficava uma angústia calada, com a respiração suspensa.

- O que é que ele lhe vai fazer? - perguntou de novo o Abel, agora à mãe, quando a porta do quarto se fechou.

A Lia respondeu ao filho com duas lágrimas silenciosas pela cara abaixo.

Lá dentro, colado à cama que a transpiração alagava, o Isaac parecia ter chegado ao fim. Branco, com dois olhos perdidos no fundo da cara, opresso, como que só esperava a ordem de largar a vela. Tinha adoecido havia quinze dias. Um febrão tal que o Dr. Samuel desanimou. Veio, tornou a vir, e acabou por aconselhar que tratassem do caixão. Mas o Isaac era cedro do Líbano, rijo, no cerne. Depois desse desengano ainda o mal o roeu seis dias sem o comer. E sempre de olhinho vivo. Gemia, gemia, finava-se, mas com aquelas duas contas de azeviche a reluzir. Acabou, contudo, por lhe pousar no rosto uma sombra estranha; e a mulher, a Lia, abriu mão da esperança. Dois dias mais, e como na sala a D. Rosa lembrasse a confissãozinha, um irmão do Isaac, o Daniel, chegou-se à cunhada e deixou cair, entre duas palavras de consolo, o nome do Alma-Grande. A Lia, a princípio, reagiu quanto pôde. Mas a perspetiva do padre João a entrar-lhe pela casa dentro venceu-a Mal rompeu a manhã, com uma voz que fez medo ao filho, mandou-o chamar o abafador.

Quando o Alma-Grande entrou, o Isaac estava no auge de um combate que quase sempre se trava de corpo extenuado. O inimigo era uma parte de si mesmo apostada em perdê-lo. E a outra metade, um pedaço de ser nobre e agradecido à seiva, corajosamente defendia o resto da muralha. As bagadas pelas têmporas abaixo e um ritmo apressado da respiração davam sinal desta guerra. Mas de nada mais precisava, quem olhasse com limpos olhos humanos, para sentir a grandeza e a solenidade de tal hora.

Por desgraça, o Alma-Grande não podia ver aquilo. Insensível à profundidade dos mistérios da vida, sem o estremecimento de uma fibra sequer, avançou para o leito num automatismo rotineiro. O seu papel não era olhar; era ir inteiro com as mãos ao pescoço, com o joelho à arca do peito, e retirar-se uns minutos depois, como um instrumento que tivesse cumprido corretamente a sua função.

No seu castelo o Isaac pelejava sempre. O fole pressuroso do arcaboiço metia ar na fornalha; espesso, cálido, activo, o suor ia brotando do vulcão.

A casa dir-se-ia um sepulcro habitado por vivos petrificados e mudos. Só no quarto havia movimento e palpitação. Calado, o Alma-Grande avançou. Mas quando de mãos abertas e joelho dobrado ia a cair sobre o Isaac, fê-lo parar uma voz diferente de todas as que ouvira em momentos iguais, que parecia vir do outro mundo, e dizia:

- Não... Ainda não... Ainda não... Quantas vezes o abafador tinha escutado aquilo, gritos de desespero, apelos sôfregos e angustiados, sem se deter na sua missão sagrada! Quantas vezes! Desta, porém, o apelo e os gemidos soavam-lhe nos ouvidos doutra maneira.

- Não... Não... Ainda não... Um pano escuro que até ali vendara os olhos do Alma-Grande queria rasgar-se de cima a baixo. E o abafador, paralisado entre as trevas do hábito e a luz que rompia, lembrava uma torrente subitamente sem destino.

- Não... Ainda não... Ainda não... Era terrível o que se passava. A luta que o Isaac sustentava contra forças que nunca ao certo se conheceram, juntava-se o embate dos dois homens, um a saber que ia matar, outro a saber que ia ser morto.

Estiveram assim algum tempo, de olhos cravados um no outro, a medir-se. Pesado, o suor escorria pela cara do Isaac; quente, o sangue martelava nas têmporas do Alma-Grande.

Foi o ruído súbito e em guincho de uma porta que fez explodir aquela concentração.

O barulho a ouvir-se, e o Alma-Grande, como um peso suspenso e de repente liberto, a cair em cima do moribundo. Nem uma palavra só. Apenas um baque surdo, e as mãos sôfregas do agressor à procura do pescoço do Isaac.

Mas a porta que rangera dera entrada a alguém. A um vulto que o Alma-Grande adivinhava atrás das costas, parado, lívido, a tentar compreender.

Um esforço supremo do Isaac para se livrar das garras que o apertavam e a presença atónita do Abel, tiraram às mãos e ao joelho do Alma-Grande a força habitual. Bem que se extremara nele o assassino, o animal que bebia a grossos tragos o fio de vida que encontrava no caminho! Bem que se lhe avivava na consciência a certeza de que era matar a razão do seu destino! Em vão. O puro instinto não tinha coragem para empurrar aquelas mãos e aquele joelho diante de uma testemunha.

Ergueu-se. Com o rosto coberto por um pano de lividez igual à do agonizante, voltou-se. E sem coragem para encarar os arregalados e aflitos olhos do pequeno, que o varavam, silenciosamente, saiu. Atravessou a sala cabisbaixo, longe da majestade trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida, e a vida não lhe dava grandeza.

Quando, um segundo depois, a Lia, como um bicho culpado, entrou no quarto, o filho estava sentado na cama, com a pequena mão na testa do pai. A criança debatia-se num agitado mar de brumas; mas o seu coração ditava-lhe a mãozita ali, na fronte escaldante do que lhe dera o ser, do mesmo modo que lhe ordenara já a entrada sorrateira e inquieta no quarto.

E foi talvez o gesto inocente e filial que fez correr novamente nas veias do Isaac o sangue da confiança. Sem confissão, vinte dias depois comia o caldo ao lume como se nada tivesse sido. E nada tinha sido realmente para toda a gente da terra, menos para ele, para o pequeno e para o Alma-Grande. Os outros passaram da agonia à morte e da morte à ressurreição, na inconsciência de quem passa do calor ao frio e do frio novamente ao calor. Só os três sabiam, de maneiras diversas, que o drama fora mais negro e profundo. O Isaac vira as garras da morte ao natural; o Alma-Grande olhara pela primeira vez a escuridão do seu poço; o garoto, esse, pressentira coisas que não podia clarificar ainda no pensamento.

Vagaroso, o tempo foi deslizando; e com ele apagara-se já de todo na lembrança da terra a doença do Isaac. Missa e Sabath.

Os três, porém, debruçavam-se sem descanso sobre o lago onde se reflectia a imagem negra do passado. O Isaac, cada vez mais dorido, olhava, olhava, e via a vingança; o Alma-Grande, cada vez mais culpado, olhava, olhava, e via o medo; o pequeno, inocente, via apenas a angústia de não entender. E os três formavam como que uma ilha de desespero no mar calmo da povoação. Não se falavam, fora do filho a pedir a bênção ao pai, do pai a dar-lha, e de uma saudação ambígua e monossilábica do Alma-Grande ao passar pelo Isaac. Mas traziam-se guardados uns aos outros, como se nenhum deles quisesse perder a hora em que, para a eternidade, varressem do céu das consciências a nuvem pesada que o toldava.

E esse momento, finalmente, chegou. Vinha o Alma-Grande de ver a filha e os netos, em Bobadela, quando o Isaac, que o seguia como um cão de fila, lhe saltou à estrada. Testemunhas, só Deus e o Abel, que, sem o pai suspeitar, o acompanhava também por toda a parte, e olhava a cena escondido atrás de um fragão.

- Não matarás... Assim era no Evangelho. Fora dele, numa lei diferente, a moral tinha outros caminhos, como o próprio Alma-Grande sabia.

- Não matarás...
O Isaac, porém, olhava o Alma-Grande com os mesmos olhos implacáveis que lhe vira nas horas de agonia.

- Não... Não... Mas o Isaac era o mais novo e o mais forte. E. quando o Alma-Grande foi a dar conta, estrebuchava no chão, de costas, com o pescoço apertado nas mãos do outro, e com a tábua do coração sob o peso infinito de um joelho.

- Não... Não...

O pequeno, do penedo, via a cara congestionada do Alma-Grande, e ouvia o esforço da respiração a forçar o garrote.

- Não... Possantes, inexoráveis, as tenazes iam apertando sempre. E, com mais um estertor apenas., estavam em paz os três. O Isaac tinha a sua vingança, o Alma-Grande já não sentia medo, e a criança compreendera, afinal.

Novos Contos da Montanha

«O abafador existiu até há bem poucos anos, e foi praticado no concelho de Pombal até final dos anos 50, a troco de 50 escudos. Era corriqueiro ouvir dizer aos mais velhos a frase "estava a sofrer, demos-lhe o abafa, foi um gesto de caridade".»

http://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2018/05/o-alma-grande-miguel-torga.html

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Helena Pato - A Noite mais Longa de Todas as Noites



A mulher que saltou dos calabouços da PIDE para as redes sociais tem um novo livro








Tem 79 anos e sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...
TIAGO MIRANDA

Helena escreveu um livro. Helena foi professora de Matemática. Helena foi cerzideira. Helena combateu a ditadura. Helena escovou tapetes. Helena foi presa pela PIDE. Histórias de combate de muitas Helenas num novo livro de contos memoriais da luta pela liberdade, com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácio do ex-Presidente Jorge Sampaio

“Agosto há-de trazer-me sempre péssimas recordações. Salvo as datas dos nascimentos das minhas mulheres queridas, que me surgem nesse mês como flores de deus no deserto, as desgraças e os dias de má sorte familiares, que me aconteceram em Agosto, teimam em não desaparecer das imagens registadas em cartões de memória que armazeno à revelia de mim própria”. Assim começa um dos contos memoriais de “A Noite mais Longa de Todas as Noites”, o novo livro de memórias da luta contra a ditadura, da autoria de Helena Pato, agora publicado pelas Edições Colibri.
“Obra de uma precisão exemplar e simultaneamente de uma beleza límpida no seu veio narrativo, enquanto tessitura de recordações assumidamente pessoais embora arreigadamente políticas”, é como o define a escritora Maria Teresa Horta no prefácio.



Capa do novo livro de Helena Pato. São contos memoriais da luta contra a ditadura com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácio do ex-Presidente da República Jorge Sampaio
D.R.

Para Jorge Sampaio, “as estórias de Helena Pato valem, primeiro, pela valência pessoal de sabor autobiográfico, de grande despojamento, sobriedade e elegância, e depois por serem o retrato de uma época de resistência contra a ditadura”.
Estes contos memoriais – como lhe preferimos chamar – evocam com ternura e humor facetas duras da resistência ao Estado Novo e da luta pela democracia em Portugal.

Helena, dos calabouços da PIDE para as redes sociais, é a reportagem multimedia com a história do empenho de Helena na criação e gestão da página no Facebook “Antifascistas da Resistência”.
Esta página tem milhares de seguidores, centenas de biografias de mulheres e homens que desempenharam qualquer papel na luta contra o Estado Novo, e dá a conhecer cidadãos anónimos que podem ter dado guarida a alguém que precisava de um abrigo seguro, ou guardado livros dessas.
Neste livro que acaba de chegar às bancas, Helena Pato, consegue fazer humor com momentos de luta que tiveram os seus perigos. Terminamos com mais um cheirinho de “As férias, a PIDE e a GNR”, o conto memorial que escolhemos para iniciar este texto:
“Uma meia hora antes da hora combinada para a chegada do Zé, fui ao portão examinar novamente a rua e descubro uma chusma de GNR. Mesmo em frente, havia vários agentes num jeep e, mais adiante, na curva da descida para Portimão, mais quatro, de pé. Imaginei que a PIDE teria pedido a sua colaboração e que o meu regresso a casa lhes confirmara a nossa presença na vila. Era preciso avisar o Zé: eles que não viessem! Mas como, sem eu ter carro nem conhecidos em Monchique, que dessem uma ajuda descendo a Ferragudo? (o jeito que teria dado um telemóvel!)”

A FUGIR DA PIDE ... COM FAMA DE LADRA DE FRUTA

“Vi a solução que me permitia avisar o Zé de que a casa estava cercada. Sairia pelas traseiras, correria por aí abaixo, saltando de quinta em quinta, fora dos olhares da GNR, até parar na subida da estrada nacional, longe do centro da vila. Esperaria o carro em que o Zé vinha (...)
Por entre hortas, pomares e plantações, corri disparada, a saltar cercas e muros, e sem olhar aos arranhões nas silvas, nem a quem andava por ali. Subitamente, no silêncio do lindíssimo vale – sem que eu percebesse de onde surgira um camponês – há uma mão que me agarra com toda a força, pelo braço, ao mesmo tempo que uma voz me interpela, aos berros, ameaçadora:
— Ladra de um cabrão, queres a minha fruta ou o meu tomate, ó…?

Perdida de riso, consegui escapulir-me (...)”.

Em “A Noite mais Longa de Todas as Noites”, há mais contos memoriais com muito humor. Apesar de o livro evocar a luta contra o regime do Estado Novo, e descrever momentos desse “tempo de clandestinidade, tão intensamente (...)” – como escreveu Luís Farinha, diretor do Museu do Aljube, num outro posfácio – que nos faz uma visita guiada e viva sobre esses tempos de noites longas.

http://expresso.sapo.pt/cultura/2018-05-24-A-mulher-que-saltou-dos-calaboucos-da-PIDE-para-as-redes-sociais-tem-um-novo-livro#gs.r7bpFgQ


Helena Pato foi presa em junho de 1967. Tinha 28 anos e já era viúva. Alfredo morrera um mês depois de ser detido pela PIDE. O seu 25 de Abril chegou dois dias depois, quando o segundo marido saiu da prisão de Caxias. Foi professora do secundário e sabe que os mais novos querem conhecer a História. Foi esta uma das razões que a levaram a criar a página “Antifascistas da Resistência” no Facebook, que já tem 400 biografias e milhares de seguidores Neste fim de semana em que celebramos a família e nos preparamos para o ano que há de vir, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

MANUELA GOUCHA SOARES
Texto

Joana Beleza
JOANA BELEZA
Vídeo

Tiago Miranda
TIAGO MIRANDA
Foto

Se Helena Pato soubesse que a ditadura do Estado Novo ia cair uma semana depois, nunca teria deitado rolos e rolos de documentos proibidos pela janela. O ambiente andava agitado, “o Zé receava ter sido denunciado e decidimos sair uns dias de Lisboa” para aliviar a pressão: “Fomos a Londres, passámos lá o aniversário dele [12 de abril] e regressámos a 17, porque nos disseram que até essa altura não tinha havido denúncias. Nesse dia, decidimos limpar tudo o que estivesse em casa e nos pudesse comprometer; fizémos uma queima de papéis na casa de banho, enrolámos jornais clandestinos e cartazes e atámos uma batata a cada rolo para ganhar peso e velocidade... deitámos os rolos pela janela porque não fomos capazes de destruir aqueles materiais que tinham dado trabalho a imprimir, a fazer”.

A chuva de rolos e batatas sobre o Bairro das Colónias durou até tarde. Com a casa ‘limpa’ de papéis comprometedores, Helena e o marido, o historiador José Manuel Tengarrinha, dirigente do MDP/CDE, acreditaram que poderiam dormir descansados. Eram 6H00 da manhã quando a campainha da porta os acordou com alvoroço. A PIDE entrou e virou a casa do avesso. Ao fim de muitas horas de buscas, Tengarrinha foi para Caxias, sob prisão.

Lisboa 1974: Helena Pato no primeiro comício do PCP, no Campo Pequeno
Lisboa 1974: Helena Pato no primeiro comício do PCP, no Campo Pequeno

“O telefone começou a tocar porque nessa madrugada tinham sido presos outros dirigentes do MDP; eu achei que ele ia ter pela frente uns anos em Peniche”. Apesar da angústia, nesse 18 de abril, Helena, não teve muito mais tempo para pensar nisso: “Tínhamos dois filhos pequenos, que tinham ficado a dormir em casa dos meus pais... e eu fazia anos no dia seguinte. O meu filho já ligava à ideia dos anos e [também] por causa dos meus pais decidi fazer o jantar de família”. A crise obrigava-a a reagir, andar para a frente, como uma tocha que ilumina o caminho, ou não fosse esse o significado do seu nome em grego.

Mesmo para esta mulher de combate, que resistitu seis meses em regime de isolamento na cadeia de Caxias, foi estranha e azeda a celebração do seu 35º aniversário. “A primeira visita ao Zé estava agendada para as 11h00 de quinta-feira, 25; ficou logo marcada no dia em que o levaram. Eu ainda fui uma vez a Caxias levar roupa e comida, e recebi uma carta dele. Uma carta muito curiosa, extensa” que Tengarrinha sabia que iria ser lida pela PIDE. Em vez de se queixar da prisão, o historiador escreveu sobre o século XIX. “Quase que fez o plano de um livro”, diz Helena, que ontem [24 de abril] ofereceu este documento ao Museu do Aljube.

1969: casamento de Helena Pato (4ª da fila da frente da esquerda para a direita) com José Manuel Tengarrinha (à sua direita)
1969: casamento de Helena Pato (4ª da fila da frente da esquerda para a direita) com José Manuel Tengarrinha (à sua direita)

DR

Por volta das 4h30 da madrugada de dia 25, o telefone tocou na residência do casal Pato/Tengarrinha. Helena pegou no auscultador e ouviu alguém dizer: “Houve uma revolução e o seu marido vai sair da cadeia”. Não respondeu. Pousou o auscultador sem dar qualquer resposta e, depois de desligar, falou sozinha: “Provocadores.... fazem isto para provocar, nem me deixam dormir durante a noite”.

Minutos depois o telefone voltou a tocar. Desta vez foi a empregada que ajudava Helena a cuidar dos filhos, quem respondeu e anunciou eufórica: “Houve uma revolução ... o senhor doutor vai ser libertado!”.

Atordoada, Helena que passara a noite anterior a cozinhar para levar comida ao marido preso, deve ter ligado a rádio como todos os portugueses que já estavam acordados aquela hora. As informações eram poucas, o telefone continuava a tocar: “Arranjei-me e fui para a Av. do Uruguai, para uma reunião em casa da Julieta Correia e do marido, o jornalista Fernando Correia que creio que também estava preso, para me encontrar com familiares de outros presos políticos e combinarmos o que iríamos fazer”.

Por ironia do destino, Helena não foi capaz de festejar a Revolução no dia em que ela aconteceu. Foram dois dias de grande tensão; só conseguia pensar no marido e nos outros presos... que só deixariam a prisão de Caxias no dia 27.

Caxias: Jorge Sampaio, Pereira de Moura, Salgado Zenha e Francisco e Miguel Sousa Tavares juntaram-se aos familiares dos presos políticos para aguardar a sua libertação
Caxias: Jorge Sampaio, Pereira de Moura, Salgado Zenha e Francisco e Miguel Sousa Tavares juntaram-se aos familiares dos presos políticos para aguardar a sua libertação

A reunião na Av. do Uruguai serviu para distribuir tarefas. Helena e a sua camarada do PCP, Aida Magro, começaram por se deslocar ao Rádio Clube Português, ocupado pelos militares do MFA. Daí seguiram para o exterior da prisão de Caxias onde passaram o resto do dia.

Ao princípio da noite Helena decidiu voltar a casa; queria saber dos filhos, comer, tomar banho. Telemóveis eram coisa que não existia nem em sonhos, e as cabines telefónicas não estavam propriamente à porta da cadeia...

Veio com a sua amiga Luísa Amorim. “No meu bairro havia um clima de festa ... e de acampamento. As escadinhas ao lado da minha casa, que dão para o Bairro das Colónias, estavam cheias de soldados sentados de metralhadora” em punho. Era tarde, estava frio, “e eu e a Luísa ficámos com pena deles e decidimos fazer café e umas sandes e ir lá levar-lhes. Eu levei uns cobertores ... e só três dias depois é que dei conta que tinha ficado sem cobertores em casa”. Quem viveu a Revolução sabe que aconteceram coisas destas e que ninguém prestava atenção a minudências ... como cobertores, por muita falta que eles façam numa casa.


Na véspera dos 42 anos da queda da ditadura em Portugal, Helena colocou este post na sua página pessoal do Facebook, onde recorda os soldados a quem deu os cobertores; raramente coloca notas de caráter privado na sua página do Face.

ANTIFASCISTAS DA RESISTÊNCIA TÊM QUASE 5 MIL LIKES
Há dois anos, quando estava prestes a deixar a direção do movimento cívico Não Apaguem a Memória, Helena constatou que havia muitos professores e alunos que procuravam material sobre a resistência à ditadura. Se os arquivos da PIDE e outros, os jornais, etc, fornecem elementos, há uma parte da história que vive de outro tipo de informações e testemunhos.

Enquanto militou no Não Apaguem a Memória [fundado em 2006 para contestar a transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo], verificou que havia muita gente que era esquecida pelas formas convencionais de preservar a memória: “Há muitas biografias escritas sobre dirigentes, mas existiram muitos homens e mulheres, heróis anónimos da resistência, pessoas que tiveram vidas muito difíceis, de quem ninguém sabe nada”. E foi assim, para lembrar o papel destes heróis anónimos, que surgiu no Facebook o grupo “Fascismo nunca mais”, que tem quase 10 mil membros.

Aos 77 anos sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...
Aos 77 anos sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...

TIAGO MIRANDA

“A ideia era criar um grupo aberto; mas eu cliquei numa opção para grupo fechado e quando dei conta reportei para o Facebook. Nunca responderam e não foi possível reverter a situação. O grupo ficou mesmo fechado, e criámos uma outra página no Facebook, “Antifascistas da Resistência”, onde estão as biografias”. Esta página é pública e tem quase cinco mil seguidores

Para salvaguardar algum ataque informático [já tiveram um], ou outro clique involuntário de Helena ou de alguma das outras duas administradoras que com ela colaboram, foi criado um blogue com o mesmo nome onde está um índice das biografias com links de acesso aos textos.

Militante do Partido Comunista durante 29 anos [1962 - 1991], Helena faz questão de fazer biografias de “gente de todas as áreas que esteve envolvida em ações de resistência. E convidei para colaborarem comigo na administração das páginas, duas mulheres de outras áreas políticas: Inês de Castro, professora de História e a Benedita Vasconcelos que é de Direito”.

Nos comentários, “não são permitidas agressões que sirvam para denegrir o passado dos antifascistas”, e é uma forma de evitar querelas entre pessoas de tendências e fações diferentes.

Itália, 1964: Helena Pato com o seu primeiro marido, o jornalista e dirigente estudantil, Alfredo Nolaes, que morreu em 1965 de cancro, um mês depois de ser detido pela PIDE no regresso ao país... porque queria morrer em Portugal
Itália, 1964: Helena Pato com o seu primeiro marido, o jornalista e dirigente estudantil, Alfredo Nolaes, que morreu em 1965 de cancro, um mês depois de ser detido pela PIDE no regresso ao país... porque queria morrer em Portugal

DR

Maria Helena Martins dos Santos Pato Noales Rodrigues, é este nome que está escrito nas fotos da prisão que se vêem no vídeo que abre este trabalho, foi presa em junho de 1967. Tinha 28 anos e já era viúva. O marido, o jornalista e dirigente estudantil, Alfredo Noales Rodrigues, com quem casara em 1960, saiu do país em 1962 para não ser preso pela PIDE. Foi para Paris e Helena foi ter com ele logo que pode; ainda não tinha acabado o curso, mudou a matrícula para a Universidade de Coimbra [muitos estudantes que tiveram ‘problemas’ com a polícia política utilizaram esta solução para acabar os cursos noutras universidades portuguesas] e vinha a Portugal uma vez por mês, de comboio – a viagem durava quase 30 horas – para tentar acompanhar as matérias e fazer exames.

Em 1964, nesta foto do jovem casal que o Expresso publica, Alfredo está visivelmente mais magro no que nas fotos que vimos do seu casamento com Helena em 1960.

Quando tiraram a foto, Helena ainda não sabia que o marido estava doente. Nem ela nem ele, porque o linfoma ainda não tinha sido diagnosticado. Na década de 1960, o tratamento das doenças oncológicas estava menos avançado do que hoje e Alfredo foi definhando. Exilado político, tinha o desejo de vir morrer a Portugal, no país onde nasceu e perto dos pais e restante família. Foram feitas diversas diligências junto da polícia política, pedindo que Alfredo pudesse sem regressar sem correr o risco de ser detido. A resposta era invariavelmente a mesma: “Poderá regressar quando houver uma declaração médica que garanta que não tem mais do que 30 dias de vida. Claro que nenhum médico poderia passar uma declaração destas…”, porque nunca se sabe qual é a verdadeira evolução do cancro em termos de tempo. Nem hoje, nem naquela época.

Alfredo voltou em novembro de 1965. Saiu do avião em cadeira de rodas, os pais estavam à espera dele… e foi detido pela PIDE para interrogatório. Morreu um mês depois, em dezembro desse ano.

Assembleia da República, janeiro de 2014: Helena Pato na abertura da sessão de homenagem aos advogados dos presos políticos
Assembleia da República, janeiro de 2014: Helena Pato na abertura da sessão de homenagem aos advogados dos presos políticos

A maioria dos portugueses não conhece a história de vida de Alfredo Noales. E também não conhece o papel de Belmira Cruz, Manuela Bernardino, Cândido Capilé, Gina Azevedo, Manuel Baridó e Olímpia Brás, e muitos mais, que Helena vai juntando no grupo fechado [por engano dela…] do Facebook “Fascismo nunca mais” e na página aberta “Antifascistas da Resistência” e no blogue com o mesmo nome, que conta com a ajuda informática de Eduardo Brissos. “Quis dar a conhecer a vida dos heróis anónimos, de pessoas com quem me cruzei, que me tocaram. Houve uma mulher que foi presa mais ou menos na mesma altura em que eu, uma operária corticeira, a Olívia, que enfrentou a ditadura com uma força extraordinária, e é quase desconhecida. Foi uma mulher que me ajudou muito…”, diz Helena, a ex-professora de Matemática que recorda nas redes sociais a história de pessoas que mal sabendo ler – ou não sabendo de todo – começaram a trabalhar por volta dos oito anos em troco de 10$00 [5 cêntimos] por mês “para pagar o pão que comiam”.

Autora de dois livros em que recorda a luta contra a ditadura, “Saudação, Flausinas, Moedas e Simones” e “Já uma estrela se levanta”, nunca gostou muito da ideia de existirem quotas na política, apesar de ter sido uma das fundadoras do Movimento Democrático das Mulheres, em 1969: “As mulheres têm de se afirmar pelas suas qualidades… e afirmam-se desde que lhes sejam dadas condições” para que isso aconteça: “O que está a acontecer com o Bloco de Esquerda é um exemplo disso”.

Aos 77 anos, tem o projeto de “reescrever um romance guardado há anos. É um romance de amor, a história de um quadrado amoroso, e tenho uma certa má consciência de ter abandonado aquelas personagens de que gosto tanto à sua sorte. Só que também gostava de fazer um blogue que funcione ao contrário da maior parte dos blogues… e acho que a net vai ganhar (risos). Um blogue onde começaria por recordar histórias da minha infância e ia enchendo de histórias, reescrevendo algumas para não me andar a repetir, até à atualidade em que começaria a escrever crónicas” sobre o que se passa. “Já disse à minha filha que quando eu ainda for viva mas não for capaz de escrever… ela pode escrever o que lhe contei, e depois de eu morrer também”.

Quanto às biografias, tem dois tabus: “Não as publico em livro, já tive uma proposta mas está fora de questão; estas biografias estão bem para a função que cumprem de divulgar histórias de pessoas, mas não têm rigor” científico. “E nunca escreverei a minha própria biografia para colocar na página. Se alguém o fizer, vou lá e PUF!”. É assim Helena, a mulher que aos 28 anos observava a vida das formigas e o nascimento das florzinhas no muro da prisão de Caxias, para enganar o regime de isolamento a que fora condenada: “Não podia ir ao recreio, não me deram os livros que pedi, nem jornais, nem papel, nem linhas, lã, agulhas para fazer tricô, ou qualquer coisa para me ocupar”.

http://expresso.sapo.pt/arquivos-expresso/2016-12-25-Helena-dos-calaboucos-da-PIDE-para-as-redes-sociais#gs.zS5qZks






***