quinta-feira, 16 de abril de 2026

"Ditadura" ou "palas nos olhos"? Pacheco Pereira e Ventura: O essencial


Pacheco Pereira acusou o líder do Chega de liderar um partido cruel e "anti-cristão", num debate em que André Ventura associou o historiador à extrema-esquerda.

14/04/2026  

José Pacheco Pereira acusou o líder do Chega de "justificar a ditadura" e liderar um partido cruel e "anti-cristão", num debate em que André Ventura associou o historiador à extrema-esquerda e acusou-o de ter "palas nos olhos".

O debate da noite de segunda-feira na CNN Portugal partiu de um desafio lançado por Pacheco Pereira - e que André Ventura aceitou - para uma discussão baseada em "factos e documentos", após a polémica intervenção do presidente do Chega no Parlamento durante a sessão solene que assinalou os 50 anos da Constituição.

O frente a frente decorreu em tom aceso, com interrupções constantes e durou quase mais 30 minutos do que tinha sido anunciado. Os dois intervenientes tinham documentos para basear os argumentos que foram referindo, e Pacheco Pereira levou também uma palmatória, utilizada para castigos corporais.

Os dois mantiveram as respetivas posições relativamente ao número de presos políticos antes e depois da Revolução de 1974, com o líder do Chega a procurar justificar que quis dizer no Parlamento que "no dia antes da Revolução havia menos presos políticos do que houve uns meses depois", para tentar "acabar com aquela narrativa" de que "foi tudo mal antes e foi tudo bom depois".

André Ventura rejeitou também que todas as pessoas detidas nas antigas colónias fossem presos políticos e acusou José Pacheco Pereira de só se indignar "com a violência da direita", enquanto a "violência da esquerda parece-lhe tudo bem e parece-lhe tudo aceitável", repetindo várias vezes que o seu opositor tem "palas nos olhos".

"Há comparações que são elas próprias mentiras, e uma dessas comparações é falar do que aconteceu no período em 1974, 1975 e 1976 e comparar, que é o que o André Ventura faz, com o que aconteceu nos 48 anos anteriores", criticou José Pacheco Pereira, considerando "uma comparação absurda".

O historiador acusou o líder do Chega de "justificar a ditadura" e "dizer que o que aconteceu depois era semelhante ao que acontecia antes" do 25 de Abril.

"E essa comparação coloca-o do lado de antes do 25 de Abril. Sabe porquê? Porque o que está a fazer, é dizer que a democracia é igual à ditadura", criticou José Pacheco Pereira.

O antigo líder parlamentar do PSD considerou também que este não foi "um debate entre direita e esquerda", mas sim "um debate sobre a História".

Questionado diretamente se gosta mais do antigo regime ou do atual, André Ventura respondeu que "o que gostava de ter era uma democracia plena".

"Nós tivemos uma revolução miserável [...] O que nós devíamos ter tido era uma transição democrática, não devíamos ter tido comunistas a assaltar o poder, a expropriar, a matar e a prender", afirmou.

Neste ponto, Pacheco Pereira contrapôs que a Revolução de 1974 "deu a liberdade a Portugal" e a "democracia para [Ventura] poder estar no Parlamento", e acusou o líder do Chega de mostrar "ignorância e demagogia".

Sobre a descolonização, o líder do Chega classificou esse processo como "uma tragédia" e acusou o Estado de ter "abandonado" as famílias que voltaram de África e os antigos combatentes.

Já Pacheco Pereira considerou que a "grande responsabilidade do que aconteceu em África e do tumulto que se gerou depois de 1975 é de Salazar e Marcelo Caetano".

O historiador acusou ainda André Ventura de liderar um país cruel e "o mais anti-cristão", considerando que as posições do Chega contrariam as defendidas pelo Papa.

No debatem houve ainda tempo para falar sobre corrupção, com o presidente do Chega a considerar que "Sócrates roubou muito mais do que Salazar" e Pacheco Pereira a defender que o antigo primeiro-ministro "foi protegido durante muitos anos, entre outras coisas, pelo PSD" e que o partido de Ventura, ao "associar a corrupção à democracia", está a "lutar contra a democracia". 

https://www.noticiasaominuto.com/politica/2972051/ditadura-ou-palas-nos-olhos-o-debate-de-pacheco-pereira-e-ventura

 "Estou muito contente com o que fiz", diz Pacheco Pereira sobre debate

"Estou muito contente com o que fiz e, se fosse hoje, repetiria", afirmou o historiador José Pacheco Pereira sobre o debate com o líder do Chega, André Ventura, durante o qual foi discutido o 25 de Abril.

16/04/2026  

O historiador e antigo deputado do partido Social Democrata (PSD) José Pacheco Pereira afirmou, esta quinta-feira, que está "muito contente" com a sua prestação no debate contra o líder do Chega, André Ventura, e que, "se fosse hoje, repetiria".

O debate, recorde-se, decorreu na noite de segunda-feira na CNN Portugal na sequência de um desafio de Pacheco Pereira - e que André Ventura aceitou - para uma discussão baseada em "factos e documentos", após a polémica intervenção do presidente do Chega no Parlamento durante a sessão solene que assinalou os 50 anos da Constituição.

"Estou muito contente com o que fiz e, se fosse hoje, repetiria", disse o historiador em declarações ao Diário de Notícias.

O antigo deputado do PSD disse ainda que o debate teve o objetivo de "expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito" e "só isso foi uma enorme vantagem".

Pacheco Pereira sublinhou que não aceita a ideia de que o combate político ao populismo se faça à distância, defendendo que, "se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal". "Em casos destes, é preciso sujar as mãos", atirou.

"A ideia de que não devemos rebaixar-nos tem a ver com medo. Há muito medo", referiu ao jornal. "A história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente Nacional, esse caminho, inicialmente seguido,  foi depois revertido por uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação."

O antigo deputado social-democrata defendeu ainda a ideia de que "há uma Esquerda que assume uma espécie de snobismo intelectual". 

E exemplificou: "'Eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com eles'. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas pessoas que me abordam depois daquele debate. É um número muito significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas  que não se sentem representadas."

O que foi dito no debate?

No debate de segunda-feira, Pacheco Pereira acusou o líder do Chega de liderar um partido cruel e "anti-cristão", enquanto André Ventura associou o historiador à extrema-esquerda.

José Pacheco Pereira acusou o presidente do Chega de "justificar a ditadura" e liderar um partido cruel e "anti-cristão", num debate em que André Ventura associou o historiador à extrema-esquerda e acusou-o de ter "palas nos olhos".

Os dois mantiveram as respetivas posições relativamente ao número de presos políticos antes e depois da Revolução de 1974, com o líder do Chega a procurar justificar que quis dizer no Parlamento que "no dia antes da Revolução havia menos presos políticos do que houve uns meses depois", para tentar "acabar com aquela narrativa" de que "foi tudo mal antes e foi tudo bom depois".

André Ventura rejeitou também que todas as pessoas detidas nas antigas colónias fossem presos políticos e acusou José Pacheco Pereira de só se indignar "com a violência da Direita", enquanto que com a "violência da Esquerda parece-lhe tudo bem e parece-lhe tudo aceitável", repetindo várias vezes que o seu opositor tem "palas nos olhos".

"Há comparações que são elas próprias mentiras, e uma dessas comparações é falar do que aconteceu no período em 1974, 1975 e 1976 e comparar, que é o que o André Ventura faz, com o que aconteceu nos 48 anos anteriores", criticou José Pacheco Pereira, considerando "uma comparação absurda".

O historiador acusou o líder do Chega de "justificar a ditadura" e "dizer que o que aconteceu depois era semelhante ao que acontecia antes" do 25 de Abril.

"E essa comparação coloca-o do lado de antes do 25 de Abril. Sabe porquê? Porque o que está a fazer, é dizer que a democracia é igual à ditadura", criticou José Pacheco Pereira.

O antigo líder parlamentar do PSD considerou também que este não foi "um debate entre Direita e Esquerda", mas sim "um debate sobre a História".

Questionado diretamente se gosta mais do antigo regime ou do atual, André Ventura respondeu que "o que gostava de ter era uma democracia plena".

"Nós tivemos uma revolução miserável [...] O que nós devíamos ter tido era uma transição democrática, não devíamos ter tido comunistas a assaltar o poder, a expropriar, a matar e a prender", afirmou.

Neste ponto, Pacheco Pereira contrapôs que a Revolução de 1974 "deu a liberdade a Portugal" e a "democracia para [Ventura] poder estar no Parlamento", e acusou o líder do Chega de mostrar "ignorância e demagogia".

Sobre a descolonização, o líder do Chega classificou esse processo como "uma tragédia" e acusou o Estado de ter "abandonado" as famílias que voltaram de África e os antigos combatentes.

Já Pacheco Pereira considerou que a "grande responsabilidade do que aconteceu em África e do tumulto que se gerou depois de 1975 é de Salazar e Marcelo Caetano".

O historiador acusou ainda André Ventura de liderar um país cruel e "o mais anti-cristão", considerando que as posições do Chega contrariam as defendidas pelo Papa.

https://www.noticiasaominuto.com/politica/2974312/estou-muito-contente-com-o-que-fiz-diz-pacheco-pereira-sobre-debate

Ventura e Pacheco Pereira: "Traição" do país e "justificação da ditadura"

Recorde aqui AO MINUTO o debate entre o líder do Chega, André Ventura, e o antigo deputado do PSD, José Pacheco Pereira.

 13/04/2026  

 André Ventura e José Pacheco Pereira defrontaram-se na CNN num debate proposto pelo historiador e prontamente aceite pelo presidente do Chega na semana passada. Durante quase 1h30, o debate ficou marcado por vários momentos de discussão acesa e tensão, com, inclusive, trocas de acusações entre ambas as partes.

 

Desde logo, da parte de André Ventura que acusou Pacheco Pereira de ser "pouco patriota", afirmando que a "esquerda intelectual" (onde incluiu o ex-deputado do PSD) tem "palas nos olhos" e que considera que tudo antes do 25 de Abril foi mau e que tudo depois foi bom. Ventura defendeu ainda que comparar o antes e o após 25 de Abril é "historicamente justo" e que Portugal "traiu" os milhões que estavam nas colónias e o próprio exército português após a revolução.

Já Pacheco Pereira começou por afirmar que Ventura se estava a meter num "sarilho". Ao longo do debate, o discurso do historiador passou explicativo e argumentativo, para acusatório, defendendo que Ventura estava a "justificar a ditadura" ao comparar os 50 anos de ditadura aos dois de transição após a revolução e acabando mesmo a considerar que o líder do Chega "luta contra a democracia".

Destaques

  • Ventura: "Não devíamos ter tido comunistas a assaltar o poder" há 5 dias
  • "Sabe onde está a traição? Na crueldade que o Chega transporta" há 5 dias
  • Ventura está "a justificar a ditadura", acusa Pacheco Pereira há 5 dias
  • Comparar antes e pós 25 de Abril é "historicamente justo", diz Ventura há 5 dias
  • "Sabe quem é que era um assassino? Otelo Saraiva de Carvalho" há 5 dias
  • "Há comparações que são elas próprias erradas", nota Pacheco há 5 dias
  • "Ó, André Ventura, você mete-se em cada sarilho" há 5 dias

Em direto

Fim de cobertura

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Terminamos aqui o nosso acompanhamento AO MINUTO do debate entre o líder do Chega, André Ventura, e o antigo deputado do PSD, José Pacheco Pereira.

Ventura considera que corrupção é um "problema endémico"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Ventura afirmou que Portugal perde todos os anos 18.5 mil milhões de euros para a corrupção, questionando quanto é que se perdia há 50 anos.

 

"Quando é corrupção e olhamos para os dados conseguem dizer assim: 'Bom mas o país era muito diferente'. Mas quando falam de violência e de censura o país já não era diferente", considerou, atirando que o país é "altamente corrupto" e que já o era durante a ditadura. "Temos um problema endémico".

Pacheco Pereira acusa Ventura de "lutar contra a democracia"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

"Você não luta efetivamente contra a corrupção. O que você faz é lutar contra a democracia", atirou Pacheco Pereira.

"José Sócrates roubou muito mais do que o Salazar"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Ventura admitiu que havia corrupção na ditadura, mas não admite que era um regime corrupto. O líder do Chega afirmou que se vivesse durante a ditadura iria, da mesma forma, lutar contra a corrupção: "O que eu não tenho é palas, não vejo só corrupção à direita ou à esquerda. Eu luto contra a corrupção onde ela existiu".

Ventura citou depois Mário Soares, que afirmou que Salazar nunca roubou o erário público e atirou: "José Sócrates roubou muito mais do que o Salazar".

"Sabe qual é o problema? É uma mistura de ignorância e demagogia"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

"Sabe qual é o problema? É uma mistura de ignorância e demagogia", atirou Pacheco Pereira, notando que a "revolução miserável" a que se refere André Ventura trouxe a liberdade a Portugal.

"Mas trouxe coisas más também", interrompeu Ventura.

Ventura: "Não devíamos ter tido comunistas a assaltar o poder"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Ventura recordou que Portugal também levou a "fé cristã a muitos povos do mundo" e que construiu "onde não havia nada para construir", considerando que o país ajudou desenvolver as colónias.

"O que nós devíamos ter tido era uma transição democrática. Não devíamos ter tido comunistas a assaltar o poder. Os senhores como estavam tão cheios de chama do espírito do comunismo, do ataque a tudo, não olharam a meios".

"Sabe onde está a traição? Na crueldade que o Chega transporta"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Pacheco Pereira considerou que a "grande responsabilidade do que aconteceu em Àfrica é de Salazar e de Marcelo Caetano", afirmando que a violência que aconteceu depois foi resultado dos atos dos dois governantes de Portugal durante a ditadura.

O historiador atirou ainda que só é possível falar da guerra "como André Ventura fala" se "legitimarmos a guerra" e recusou que a culpa da violência pós-25 de Abril foi de Mário Soares, Almeida Santos ou de Álvaro Cunhal. "Foi culpa de António de Oliveira de Salazar e de Marcelo Caetano"

"Sabe onde e que está a traição à pátria? É na crueldade que o Chega transporta", atirou mostrando depois uma publicação do partido onde critica um cartaz do SNS em criolo.

"Portugal traiu os milhões que lá estavam e os combatentes"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

"Portugal traiu verdadeiramente em muitos aspetos não só os milhões que lá estavam, como traiu o exército português e os combatentes", atirou Ventura.

"Não tem que ver com esquerda nem com direita. Tem que ver com errámos, fizemos mal", acrescentou.

Ventura e Pacheco Pereira em debate aceso

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Ventura e Pacheco Pereira entram num momento de debate aceso, não deixando o jornalista que está a mediar o debate intervir.

Ventura está "a justificar a ditadura", acusa Pacheco Pereira

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Pacheco Pereira acusa Ventura de estar a "justificar a ditadura" ao comparar o antes e o pós do 25 de Abril e "essa comparação coloca-o do lado do antes do 25 de Abril". O historiador disse, aliás, que com o seu discurso Ventura diz que "a ditadura é igual à democracia".

"Com esse tipo de afirmações de extrema-direita", Chega é fascista, considerou o historiador.

Quanto à falta de ordens para realizar prisões durante a ditadura, Pacheco Pereira recordou que "havia uma polícia política" que podia fazer o que quisesse: "Não precisavam de ordens".

Ventura e Pacheco Pereira começam uma troca acesa de argumentos, falando um por cima do outro.

Comparar antes e pós 25 de Abril é "historicamente justo", diz Ventura

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Ventura defendeu que é "historicamente justo" comparar o antes e depois do 25 de Abril "porque criámos uma classe política dirigente que só conseguiu ver vantagens no que aconteceu, passou a demonizar uma parte da nossa história e a fazer uma espécie de elogio permanente à nossa história a seguir".

"Temos documentos históricos que diz que o presidente do Governo mandou prender", atirou, referindo-se aos executivos pós-25 de Abril, e notando que durante a ditadura o primeiro-ministro nunca ordenou nenhuma prisão.

"É uma comparação absurda", atira Pacheco Pereira

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Ventura afirmou que não pode aceitar o "desequilíbrio" do "nosso regime" que continua a dizer que "antes do 25 de Abril foi tudo mau, e depois do 25 de Abril foi tudo bom. E acrescentou que gostava que Pacheco Pereira fosse capaz de dizer que houve violência, tortura, terrorismo dos dois lados.

Pacheco respondeu: "Eu nunca neguei, mas eu recuso-me em fazer a comparação que Ventura faz. É uma comparação absurda. A tortura que aconteceu depois do 25 de Abril foram casos isolados. É dúplice. Antes tivemos entre 30 mil e 40 mil presos políticos".

"Sabe quem é que era um assassino? Otelo Saraiva de Carvalho"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

"Sabe quem é que era um assassino? Otelo Saraiva de Carvalho e nós condecorámo-lo", atirou Ventura.

Pacheco Pereira tenta depois intervir e inicia-se uma troca de argumentos entre os dois.

"Só se indigna com a violência da direita, e depois com a da esquerda diz que está tudo bem", acusa o líder do Chega.

"É preciso que em televisão pela primeira vez alguém fale da violência que a extrema esquerda trouxe ao país depois do 25 de abril. E é preciso ser um rapaz de '83", acrescentou.

"Há comparações que são elas próprias erradas", nota Pacheco

Carolina Pereira Soares há 5 dias

"Há comparações que são elas próprios erradas e uma [delas] é falar do que aconteceu entre 74 e 76 e o que aconteceu nos outros 50 anos antes", afirmou Pacheco Pereira.

"Houve de facto violência", admitiu o historiador, referindo-se a presos políticos portugueses "Não me importo de aceitar para efeito da discussão que houve violência". Contudo, notou, a maioria dessas pessoas foi libertadas meses depois, e nem nunca passou pela cadeia.

André Ventura acusa Pacheco Pereira de viver numa versão "cor-de-rosa do mundo" e que quando alguém discorda começa a "inventar".

Ditadura feroz com cento e tal presos? "Coisa estranha"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

"Uma grande parte dos presos era pessoas que tinham atacado o Estado português", argumentou Ventura. "Se considerar isto presos políticos, eu acho que isto é grave para o Estado português porque é muito pouco patriota", atira a Pacheco Pereira que nega, de imediato, a acusação, afirmando que está a ser ofendido.

Ventura questiona: "Como é que éramos uma ditadura tão feroz e tinha cento e tal pessoas presas em Lisboa? Coisa estranha, que coisa tão estranha", notou, comparando com o pós-ditadura numa altura em que houve milhares de presos políticos.

Ventura acusa Pacheco Pereira de não gostar do seu país

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Ventura considera que Pacheco Pereira não gosta do seu país, com o ex-deputado do PSD a refutar o argumento.

"A guerra colonial foi uma guerra injusta", diz Pacheco Pereira. Ventura atira que a guerra "correu mal" porque "os traímos", referindo-se aos colonatos.

"Ó, André Ventura, você mete-se em cada sarilho"

Carolina Pereira Soares há 5 dias

"Ó, André Ventura, você mete-se em cada sarilho", começa por dizer Pacheco Pereira.

O historiador por perguntar a Ventura se acha que houve guerra em África ou no Ultramar ou guerra colonial, desencadeando uma troca de argumentos entre os dois.

Inicia-se um debate aceso entre André Ventura e Pacheco Pereira sobre o que está em causa quando o exército português foi atacado pelos habitantes das colónias, com o historiador a notar que os prisioneiros nessa altura eram considerados portugueses, daí a dimensão de presos políticos.

"Gostava de ter uma democracia plena", diz Ventura

Carolina Pereira Soares há 5 dias

O debate começa pelo tema dos presos políticos, com André Ventura a ter a primeira intervenção.

André Ventura começa por elogiar a iniciativa do repto de Pacheco Pereira: "Acho que é muito importante este momento porque acho que isto também define as democracias".

Já sobre a questão dos presos políticos, Ventura disse que "no dia antes da revolução havia menos presos políticos do que havia depois da revolução", acrescentando que a sua intervenção na assembleia servia para "acabar" com a teoria de que foi "tudo mau antes e tudo bom depois".

Questionado se gostava mais da ditadura de antes ou de a democracia de hoje respondeu que "gostava de ter era uma democracia plena".

"Eu aceito toda a discussão e todo o argumento. Não me venham é dizer que as pessoas todas presas nas colónias eram presos políticos", atirou.

Debate já começou

Carolina Pereira Soares há 5 dias

Tem agora início o debate entre José Pacheco Pereira e André Ventura.

Ventura aceitou: "Não me escondo e não tenho medo"

Lusa há 5 dias

O presidente do Chega, André Ventura, disse na quinta-feira, dia 9, que aceitava debater, esta segunda-feira, com o historiador José Pacheco Pereira. Numa publicação na sua conta oficial na rede social X, pode ler-se que o líder do Chega "aceita o desafio de Pacheco Pereira", falando num "grande debate" agendado para hoje, às 22 horas, na CNN Portugal.

Pacheco Pereira desafiou, chocado com "todas as formas de mentira"

Lusa há 5 dias

No domingo, dia 5 de abril, no programa O Princípio da Incerteza, no qual é comentador residente, o historiador José Pacheco Pereira tinha desafiado André Ventura para um debate baseado em "factos e documentos", após a polémica intervenção do presidente do Chega no parlamento durante a sessão solene que assinalou os 50 anos da aprovação da Constituição.

Segundo Pacheco Pereira, André Ventura recorreu a "todas as formas de mentira", como a "mentira propriamente dita, a omissão da verdade e a sugestão de falsidade".

Um dos exemplos foi a menção à suposta existência de mais presos políticos após a revolução de 25 de Abril de 1974 do que antes, invocada por André Ventura, mas que José Pacheco Pereira rejeitou, apresentando dados que apontam para mais de 12 mil presos políticos entre 1945 e 1974, além de milhares detidos nas colónias.

No período pós-25 de Abril, Pacheco Pereira assinalou que uma parte significativa dos detidos eram agentes da PIDE, classificados como membros de uma organização criminosa, bem como elementos ligados a episódios específicos como o 28 de Setembro, o 11 de Março ou organizações como o MRPP.

 

https://www.noticiasaominuto.com/politica/2971907/ao-minuto-pacheco-pereira-enfrenta-ventura-em-direto-acompanhe-aqui 

Gtavura gerada pelo chatGPT. 

Pietro Gori - Nostra patria è il mondo intero


 Mural sobre internacionalismo proletário, em Orgosolo, Sardenha (Itália)

O que está escrito
  • Texto principal: "Nostra patria è il mondo intero..." (Nossa pátria é o mundo inteiro).

  • Contexto: Como mencionei, é um verso de Pietro Gori, um advogado e pensador anarquista que escreveu a canção "Nostra patria è il mondo intero" em 1894.

  • Nomes: No canto inferior direito da imagem, aparecem os nomes de Karl Marx e Friedrich Engels, os fundadores do socialismo científico.

 Essa canção é um dos hinos mais bonitos e emocionantes do movimento anarquista italiano. Escrita por Pietro Gori em 1894, enquanto ele estava no exílio, a letra reflete o espírito de resistência e a rejeição às fronteiras nacionais.

Originalmente, os versos faziam parte de um poema intitulado "Sante Caserio", dedicado ao anarquista que assassinou o presidente francês Sadi Carnot, mas a música tornou-se um hino de fraternidade universal.


Letra: Nostra patria è il mondo intero

Italiano (Original)Português (Tradução)
Nostra patria è il mondo interoNossa pátria é o mundo inteiro
Nostra legge è la libertàNossa lei é a liberdade
Ed un pensiero ribelle in corE um pensamento rebelde no coração
Ci destò la volontà.Despertou-nos a vontade.
Scacciati di terra in terraExpulsos de terra em terra
Costretti a errare andiamForçados a vagar vamos
Per la giustizia e per l'amorPela justiça e pelo amor
In esilio noi moriam.No exílio nós morremos.
Ma il dì dell'umana riscossaMas o dia do resgate humano
Fra poco splenderàEm breve brilhará
Il sol dell'avvenireO sol do porvir (futuro)
Di giustizia e libertà.De justiça e liberdade.
E allora i poveri oppressiE então os pobres oprimidos
Si stringeranno la manDarão uns aos outros a mão
E spunterà la paceE despontará a paz
Per l'umana famigli'Para a família humana.


Nostra Patria è il mondo intero - Pietro Gori (versione di Franco Trincale)

Notas sobre a Canção

  • O "Sol dell'avvenire": Esta expressão (O sol do porvir) tornou-se uma das imagens mais poderosas da iconografia socialista e anarquista italiana, simbolizando a esperança num novo mundo.

  • Contexto de Orgosolo: Ao veres este mural na Sardenha, percebes que a letra não é apenas música; é o fundamento da identidade política daquela vila, que sempre se viu como uma comunidade de resistência contra a autoridade central imposta.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Bertold Brecht - Sobre a Violência (Über die Gewalt).

 


2022 02 05 Foto victor nogueira - Grafito de Frank - ACAF na Estrada da Graça, em Setúbal, com versos de Bertolt Brecht 'Do rio que tudo arrasta se diz que é violento' (2021 05 26 Canon 192_05)

Na Estrada da Graça, em Setúbal, nas cercanias das instalações portuárias, existem uma série de edifícios, hoje abandonados, mas onde outrora funcionavam "boites" destinadas principalmente á marinhagem. Num deles, grafitado, encontra-se um verso dum dos poemas de Brecht.

«Do rio que tudo arrasta se diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem»

esse texto faz parte de um poema curto de Bertolt Brecht intitulado "Sobre a Violência" (originalmente em alemão, Über die Gewalt).

Brecht, um dos dramaturgos e poetas mais influentes do século XX, utilizava frequentemente metáforas da natureza para criticar as estruturas sociais e políticas.

O Poema Completo

Embora existam variações na tradução, a versão mais comum em português é:

Sobre a Violência

Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

A tempestade que fustiga as bétulas é tida como violenta. E a tempestade que faz dobrar os dorsos dos operários na rua?


O Significado

A intenção de Brecht com estes versos é provocar uma reflexão sobre a causa e o efeito:

  1. A Reação vs. O Sistema: O "rio" representa a revolta ou a reação de quem é oprimido. Essa reação é frequentemente rotulada como "violenta" pela sociedade.

  2. A Violência Invisível: As "margens" representam o sistema, as leis, a economia ou a repressão que limita a liberdade do indivíduo. Essa força constante e compressora muitas vezes não é chamada de violência, mas é ela que causa o transbordo do rio.

É uma crítica poderosa à forma como o status quo define o que é ou não aceitável, ignorando a violência estrutural que gera o conflito. (Google Gemini(

José Cid - Tenho a Força de Mil Homens


Foto victor nogueira - Setúbal - Avenida 5 de Outubro, com as buganvílias em flor. (Canon 180_05 2020 05 31 IMG_1505)

"Todo o mundo / há-de ouvir / Todo o mundo / há-de sentir / Tenho a força / de mil homens / para o que há-de vir." "Mantenham-se seguros / Em breve estamos juntos."

Tenho a Força de Mil Homens

Autor: José Cid

Tenho a Força de Mil Homens

Autor: José Cid

 

Todo o mundo há-de ouvir

Todo o mundo há-de sentir

Tenho a força de mil homens

Para o que há-de vir

 

Tudo o que eu sofri

Tudo o que eu chorei

Ninguém sabe, ninguém viu

Mas eu sei que não errei

 

Vou gritar ao vento

Vou gritar ao mar

Que o amor é um momento

Que não pode acabar

 

Todo o mundo há-de ouvir

Todo o mundo há-de sentir

Tenho a força de mil homens

Para o que há-de vir

 

Nas noites de solidão

Nas horas de amargura

Eu sinto no coração

Uma força que perdura

 

E quando o sol brilhar

E a paz nos envolver

Nós vamos todos cantar

E o medo vai morrer

 

Todo o mundo há-de ouvir

Todo o mundo há-de sentir

Tenho a força de mil homens

Para o que há-de vir


Nota: A frase final que referiste anteriormente ("Mantenham-se seguros / Em breve estamos juntos") foi um aditamento pessoal feito pelo próprio José Cid num vídeo viral gravado durante o confinamento de 2020, adaptando a sua música ao contexto da pandemia. Não faz parte da letra original da canção de 1989. Embora a canção seja um clássico da sua carreira, o texto ganhou uma nova vida e um significado emocional profundo durante a pandemia de COVID-19, em 2020. (Google Gemini)

Horácio - Ode 18 (Carpe diem)


foto victor nogueira - Carpe diem  - grafito em setúbal, na rua gil eanes (2020.04.11)
 
«Carpe diem é parte da frase latina carpe diem quam minimum credula postero (literalmente: 'aproveita o dia e confia o mínimo possível no amanhã'), extraída de uma das Odes, de Horácio (65 a.C. - 8 a.C.), e tem numerosas traduções possíveis: "colhe o dia" (tradução literal), "desfruta o presente", "vive este dia", "aproveita o dia" ou "aproveita o momento". 

O poeta latino exorta sua interlocutora, Leuconoe, a desfrutar do prazer que a vida oferece, a cada momento. No contexto da decadência do Império Romano, a frase resumia o ideal horaciano, de origem estoico-epicurista, de aproveitar o que há de bom em cada instante, já que o futuro é incerto. Entretanto a frase é frequentemente repetida, com um sentido (inexato) de convite ao viver alegre e despreocupado.
(...)  Na ode 11 (8 versos) do livro I, o poeta direige-se a Leuconoe (a menina "dos pensamentos ingênuos"), enquanto ela se ocupa de cálculos astrológicos ("os números babilônicos") para saber se eles viverão muito tempo. O conselho dado pelo poeta é não se preocupar se viverão muito ou pouco mas beber e aproveitar o presente, pois o futuro é incerto : carpe diem.

Tu não questiones — é crime saber — o fim que para mim, que para ti
os deuses reservaram, ó Leucônoe, nem mesmo consultes
os números babilônicos. Quão melhor é suportar o que quer que venha!
Quer Júpiter te haja concedido muitos invernos, quer seja o último
o que agora quebra as tirrenas ondas contra as pedras,
sejas sábia, diluas os vinhos e, por ser breve a vida,
limites a longa esperança. Enquanto falamos, foge invejoso
o tempo: aproveita o dia, minimamente crédula no amanhã.» (Wikipedia)

Peppino Marotto - Sa Bomba Americana


Mural pacifista em Orgosolo, Sardenha (Itália)

*  Peppino Marotto 


Sa Bomba Americana (Versão Completa)

Em Sardo

I

Sa bomba americana

partida terra-terra

dae Perdas de Fogu

colpìdi una columba.

 

II

Sa bomba americana

si li succede gherra

fenta una tumba

totu su mundu

in sa terra soguiana.

 

III

Su pastore s’est pesadu

contra a su militare

ca sa terra est de chie

b’est naschidu e l’at traballada.

 

IV

Non cherimus cannonis

ni bases istranzeras

cherimus pane e pasu

pro sa Sardigna intrea.

 

Tradução para Português

I

A bomba americana

lançada terra-a-terra

a partir de Perdasdefogu

atingiu uma pomba.

 

II

A bomba americana

se a guerra acontecer

fará uma tumba

de todo o mundo

nesta terra de sol.

 

III

O pastor levantou-se

contra o militar

porque a terra é de quem

nela nasceu e a trabalhou.

 

IV

Não queremos canhões

nem bases estrangeiras

queremos pão e paz

para a Sardenha inteira.

 

Por que o mural corta o texto?

Os muralistas de Orgosolo, liderados por Francesco Del Casino (que colaborava estreitamente com Marotto), escolhiam frequentemente as estrofes que melhor comunicavam com o desenho.

Neste caso, as duas primeiras estrofes focam-se no terror global e tecnológico (o avião, a bomba, o fim do mundo), o que combina perfeitamente com a imagem inspirada em O Grito. As estrofes seguintes são mais focadas na luta de classes e na posse da terra, um tema que muitas vezes aparece noutros murais da vila acompanhado por figuras de pastores e camponeses.

Peppino Marotto não era apenas um poeta; ele era a "voz da consciência" de Orgosolo. Ele utilizava estes versos para transformar a dor local numa luta universal contra a opressão.  Foi um pastor e líder operário. Ele acreditava que a arte e a poesia deveriam servir para despertar a consciência do povo. Ele foi tragicamente assassinado em 2007, em Orgosolo, num crime que chocou a ilha.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Em tormo do 25 de Abril, entre Pacheco Pereira e André Ventura

 


Uma palmatória, comparações "absurdas" e "traições à pátria": o debate entre Pacheco Pereira e Ventura sobre presos políticos

Uma frase de Ventura que levou os deputados constituintes a abandonarem uma sessão no Parlamento levou a um debate tenso, longo, com relatórios pelo meio e até uma palmatória.

Mariana Lima Cunha. Texto

14 abr. 2026

A premissa era simples: contrariar a ideia, lançada por André Ventura na sessão solene pelos 50 anos da Constituição portuguesa, de que houve mais presos políticos a seguir ao 25 de Abril do que (imediatamente) antes. O repto foi lançado por Pacheco Pereira, Ventura aceitou, e o que se seguiu foi 1h20 de debate (e alguns gritos) em que os dois discutiram as prisões, a descolonização e a corrupção durante a ditadura portuguesa, com diferentes armas: muitos livros, um dossiê com relatórios e uma palmatória, levada por Pacheco Pereira para ilustrar as torturas levadas a cabo pelos portugueses nas antigas colónias.

O debate organizado pela CNN andou sempre à volta da mesma ideia: André Ventura queria defender que houve prisões políticas e tortura no período da transição para a democracia, o que significaria que nem tudo na democracia é bom e “nem tudo [na ditadura] foi mau”; Pacheco Pereira considerava a comparação “absurda”, uma vez que punha em confronto as prisões, torturas e outras restrições às liberdades que aconteceram durante 48 anos de ditadura e a “turbulência própria” dos meses seguintes, a que se pôs termo com a normalização do regime democrático.

O líder do Chega explicou inicialmente que o que “quis dizer” no dia da sessão da Constituição foi que especificamente no dia 24 de Abril de 1974 havia menos presos políticos em Portugal do que haveria uns meses depois, referindo-se também aos expatriados que foram “perseguidos pelos novos donos de sistema”. Falou da forma como cresceu em Mem Martins, sem “privilégio”: “Estou à vontade para dizer: o sistema anterior errou mas o que veio não trouxe naqueles meses tudo de bom. Eu gostava era de ter uma democracia plena, em que não houvesse presos políticos e torturados e expropriações”.

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador

Além disso, Ventura arrancou o debate contestando a ideia de que todas as pessoas presas nas colónias fossem presos políticos, mostrando as imagens de bebés mortos pela UPA em 1961 e defendendo que alguns presos o foram por estarem a “atacar os nossos militares”.

“Você mete-se em cada sarilho…”, cometou Pacheco Pereira, lembrando o número de presos a 24 de Abril — 127 em Portugal continental, 4249 nas colónias — e lembrando também que o número de guerrilheiros presos era relativamente baixo, até porque muitos eram executados; grande parte dos presos seriam “enfermeiros, funcionários dos correios, pastores protestantes, professores, estudantes aliciados a regressarem a Portugal”. Além disso, argumentou, quem se defendia da “ocupação portuguesa” deveria ser considerado preso político. “Se Espanha invadisse Portugal o que fazia? É uma atitude política”, frisou. “Como bom nacionalista que é, admite que estavam a lutar pelo seu país”.

Por entre ataques vários — “hoje não tem aqui a Alexandra Leitão, é o André Ventura”; “Eu gosto muito do meu país, em muitos aspetos mais do que o André Ventura” — os debatentes foram comparando números e também os castigos corporais que existiram, em muito maior número durante o Estado Novo. “Trouxe uma palmatória que era usada nos castigos corporais”, mostrou Pacheco Pereira, lendo descrições de torturas da PIDE em Moçambique: “Violação anal com garrafas, mutilação do pénis com queimaduras, choques elétricos, suspensão do tecto de cabeça para baixo, Sabe qual é o problema? É que estes são pretos. Eram tratados como sub-homens. Vários deles desapareceram. Estas violências eram sistemáticas e aconteceram durante todo o período do império colonial”.

Já Ventura leu as descrições de torturas que aconteceram já depois do 25 de Abril, incluindo de “carpinteiros, comerciantes, advogados e reformados, pessoas que discordavam da extrema-esquerda”, e ironizou: se a ditadura era “tão feroz”, não poderiam existir apenas “cento e tal presos em Lisboa” (número que se referia apenas à véspera do 25 de Abril).

“Podemos concordar que tudo o que é tortura é mau, mas não me venham com a história de que a violência de direita é má e a de esquerda é boa”, foi repetindo o líder do Chega, enquanto o historiador defendia que há “comparações que são elas próprias mentira“, como a que Ventura faz entre 48 anos de ditadura e os dois anos posteriores. “É tão pontual que é incomparável”, disse, frisando que não nega que tenha havido violência e tortura já no período da liberdade, mas que a da ditadura foi “sistemática”. “Sabe o que são 48 anos de tortura sistemática, de humilhação das pessoas comuns, de violência, de censura? Isso cria uma situação em que a transição portuguesa, mesmo com esses casos, foi relativamente pacífica. Deixou uma enorme herança de vingança e ressentimento“.

Inevitavelmente, a discussão passou por nomes particularmente controversos — Pacheco Pereira descreveu Marcelino da Mata como um “assassino” que se “gabava” de matar homens, mulheres e crianças, Ventura respondeu que Otelo Saraiva de Carvalho é que era “um assassino e um bandido”. Ventura defendeu que PCP e UDP deviam pagar as “expropriações erradas” do pós-25 de Abril e que em toda a ditadura não se encontra uma ordem de Salazar ou Marcelo Caetano para mandar prender alguém — não precisavam, já que tinham uma polícia política ao dispor, contrapôs o historiador.

Houve ainda tempo, num debate com mais meia hora do que o anunciado, para falar da descolonização, que Ventura considerou “criminosa” (“Queriam tanto a independência e hoje estão a vir para cá viver”) e para Pacheco Pereira concluir que o interlocutor “justifica a ditadura”. “Com esse tipo de afirmação de extrema-direita, [o Chega] é um partido fascista“. “Eu nasci em 1983, não quero saber da ditadura para nada”, respondeu Ventura. “É a história da Humanidade, temos de estar do lado da nossa pátria”, exclamou, confrontado com o número de pessoas mortas na guerra colonial.

Com Pacheco Pereira a culpar Salazar pelos erros na descolonização, Ventura acusou-o de “trair a sua pátria”. “Devíamos ter tido uma transição democrática, não comunistas a assaltar o poder. Os senhores, incluo-o a si, estavam tão cheios de chama do espírito de comunista não olharam a meios. Por isso Portugal está na cauda da Europa”. “Essa ‘revolução miserável’ deu a liberdade a Portugal e para dizer o que diz. Quem lutou contra a ditadura lutou por Portugal. Eu amo o meu país”, respondeu Pacheco Pereira.

A discussão passou ainda pelos grupos terroristas de extrema-esquerda e extrema-direita após o 25 de Abril, tendo a ELP “beneficiado” da condescendência “gigantesca” das autoridades e sido, como as FP-25, “amnistiada com a ideia de que se ia pacificar a sociedade”. Os últimos, frisou Pacheco Pereira, chegaram a ser condenados porque “a democracia nessa altura estava a funcionar”.

Ainda houve tempo para uma breve incursão pelo tema da corrupção, com Ventura a dizer que na ditadura “havia corrupção como agora há” — “Então porque é que não pôs um cartaz a dizer 100 anos de corrupção?”, questionou Pacheco Pereira, referindo-se ao cartaz em que o Chega diz que já lá vão “50 anos de corrupção” — isto é, referindo-se apenas ao tempo de democracia. Ventura acabou por dizer que “Sócrates roubou muito mais do que Salazar” e que o “sistema está podre de corrupção”, acabando por prometer que se tivesse nascido mais cedo, no tempo da ditadura, lá estaria também a lutar contra o problema.

A troca de acusações final teve a ver com cristianismo — “eu sou ateu”, disse Pacheco Pereira; “faz mal”, respondeu Ventura”; “o seu partido é o mais anticristão. Não há uma declaração dos dois últimos Papas que não seja diretamente contra as posições do Chega na imigração”, atirou o historiador; “Não me dá lições de cristianismo porque fazemos (…) luta contra a islamização”, respondeu o líder partidário. Teriam continuado por ali fora, mas já não havia mais tempo.

 https://observador.pt/2026/04/14/uma-palmatoria-comparacoes-absurdas-e-traicoes-a-patria-o-debate-entre-pacheco-pereira-e-ventura-sobre-presos-politicos/

domingo, 12 de abril de 2026

Prabhat Patnaik - Duas fracturas provocadas pelo neoliberalismo – Competição darwiniana entre os países do Sul Global


Prabhat Patnaik [*]
 
A posição do governo indiano em relação à guerra dos EUA e dos israelenses contra o Irão revela um grau inacreditável de pusilanimidade. A Índia participou na recente reunião de cerca de cinquenta países convocada pelo Reino Unido, onde o Irão foi fortemente criticado por ter fechado o Estreito de Ormuz, mas não proferiu uma única palavra contra a agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão. Da mesma forma, a Índia foi um dos patrocinadores de uma resolução na Assembleia Geral da ONU que criticava o Irão por atacar outros países do Golfo (embora o Irão estivesse a atacar apenas as bases militares americanas localizadas nesses países); mas, mais uma vez, não foi proferida uma única palavra nessa resolução condenando a agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão. É também digno de nota que a Índia demorou vários dias a manifestar qualquer pesar pelo assassinato do líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, e várias semanas a manifestar qualquer choque pelo covarde assassinato de 175 alunas inocentes em Minab.

Tal pusilanimidade, no entanto, não se limita à Índia: nada menos que 135 países foram co-patrocinadores da resolução desonesta e hipócrita da AGNU mencionada acima, com medo de que, caso contrário, ofendessem os americanos. Na verdade, com exceção de um punhado de países em todo o mundo, nenhum teve a coragem de condenar inequivocamente a guerra flagrantemente ilegal e imoral desencadeada pela aliança EUA-israelense contra o Irão. Trata-se de um assunto de extrema preocupação, pois o ataque ao Irão revoga o conceito de soberania das nações, que fora o conceito central na luta pela descolonização e que esteve na base de toda a ordem pós-colonial; destrói, por outras palavras, a própria razão de ser da descolonização.

Esta pusilanimidade por parte dos países do Terceiro Mundo é também motivo de grande perplexidade:   afinal, trata-se de países que travaram longas e árduas lutas anticoloniais para alcançar o estatuto de Estados independentes e soberanos; como podem permanecer em silêncio quando essa mesma soberania está a ser violada, no caso de um Estado do Terceiro Mundo, pelo poderio armado do imperialismo norte-americano?

A resposta a esta questão, sem dúvida complexa, deve, no entanto, incorporar o reconhecimento de pelo menos duas fraturas que o neoliberalismo introduziu no nosso mundo. Uma delas é a fragmentação do conceito de "nação", cuja concretização havia sido alcançada pela luta anticolonial. Este conceito de "nação" diferia fundamentalmente do conceito europeu, que se desenvolvera na sequência dos Tratados de Paz de Westfália, pelo menos em três aspetos:   em primeiro lugar, era inclusivo e não identificava qualquer "inimigo interno"; segundo, ao contrário do nacionalismo europeu, rejeitava quaisquer ambições imperiais próprias, no sentido de ter pretensões sobre os recursos de terras distantes; e terceiro, não idolatrava a nação como estando acima do povo, cujo "dever" supostamente era servi-la.

O surgimento deste conceito inclusivo de "nação" foi, por sua vez, um reflexo do facto de a luta anticolonial ser uma luta multi-classista; e o regime económico dirigista que foi erigido após a independência, embora promovesse o desenvolvimento capitalista, também procurava colocar freios ao capitalismo desenfreado em nome da consecução do desenvolvimento "nacional". Isto visava preservar a sua base de apoio multiclasse, à qual nem mesmo os capitalistas monopolistas se opunham naquela altura, uma vez que desejavam uma trajetória de desenvolvimento em que o Estado exercesse relativa autonomia face ao imperialismo. A existência de um vasto setor público fazia parte dessa trajetória. Além disso, a política de não alinhamento seguida por estes regimes dirigistas complementou essa busca pelo desenvolvimento em relativa autonomia face ao imperialismo. Michal Kalecki, o conhecido economista, errou ao chamar tais regimes de "regimes intermediários" e ao sugerir que as classes médias detinham o poder decisivo nesses regimes; mas acertou ao identificar o capitalismo de Estado (setor público) e o não alinhamento como as duas características mais distintivas desses regimes.

Com a globalização do capital, no entanto, as coisas mudaram. A burguesia monopolista interna integrou-se ao capital globalizado e abandonou a sua agenda de seguir uma trajetória de desenvolvimento relativamente autónoma da metrópole. Segmentos das classes profissionais e burocráticas superiores da sociedade, ansiosos por enviar os seus filhos para estudar e estabelecer-se na metrópole, juntaram-se como apoiantes do regime neoliberal que surgiu sob a égide desse capital globalizado. Os ricos proprietários de terras também procuraram a sua sorte dentro desta nova ordem neoliberal, que não só promoveu um capitalismo desenfreado e sem restrições, mas também se voltou fortemente contra os trabalhadores, camponeses, trabalhadores agrícolas, pequenos produtores e a classe assalariada mais baixa. Produziu-se uma cisão na aliança de classes que tinha sido forjada no decorrer da luta anticolonial.

Já não era a "nação" contra a metrópole que estava em foco, mas o grande capital, incluindo o capital multinacional, contra os grupos sociais que se interpunham à instauração de um "desenvolvimento" rápido, definido exclusivamente em termos de taxas de crescimento do PIB. O interesse do grande capital foi, por um truque de prestidigitação, identificado como "interesse nacional", e o dever de todas as classes era promovê-lo. Esta mudança no significado do termo "nação" significou, na prática, uma fractura da "nação" cuja concretização era o desiderato da luta anticolonial. A libertação da "nação" do domínio imperialista, longe de ser o objectivo primordial, deixou de ser sequer um objectivo desejado ou relevante para o governo num contexto neoliberal.

Este é o primeiro caso de "fractura" referido acima. Devido a esta fractura, o critério com base no qual o governo de um regime neoliberal toma decisões não é se uma determinada posição defende a soberania nacional, mas se promove os interesses materiais do grande capital, que são considerados idênticos aos da "nação" no seu novo significado. Alinhar-se com a aliança EUA-israelense parece, em suma, mais vantajoso do que apoiar o Irão, vítima de agressão, do ponto de vista dos interesses do grande capital nos países do Sul global; isto ajudaria a explicar, em certa medida, os silêncios ensurdecedores, mencionados anteriormente, na AGNU e noutras resoluções.

Existe também uma segunda "fratura" provocada pelo regime neoliberal. Embora o regime neoliberal seja "vendido" ao Sul global como o portador de um crescimento impulsionado pelas exportações que traria uma taxa de crescimento do PIB mais elevada para todos os países em comparação com o regime dirigista anterior, esta afirmação é completamente falsa. Uma vez que a taxa de crescimento da procura mundial agregada não aumenta quando mais países seguem uma estratégia de crescimento impulsionado pelas exportações, o regime neoliberal que generaliza esta estratégia entre todos os países está, na prática, a forçá-los a envolver-se numa competição darwiniana entre si, ou seja, a seguir uma estratégia de "empobrecer o vizinho".

A taxa de crescimento mais elevada de alguns países do que antes, ao abrigo da estratégia de crescimento impulsionado pelas exportações, deve, por conseguinte, ser à custa de outros países que agora registam uma taxa de crescimento mais baixa do que antes. Os países envolvidos numa corrida para se superarem uns aos outros dificilmente podem ser considerados como "cooperando" entre si. O efeito da busca generalizada da estratégia neoliberal é, portanto, um abandono de facto do não-alinhamento, de uma trajetória em que os países do Sul global se mantinham unidos para enfrentar o imperialismo. Agora, os países do Sul global, cada um obcecado em alcançar um maior crescimento do PIB e, consequentemente, dentro do paradigma neoliberal, obcecado em atrair mais investimento metropolitano para esse fim, preferem bajular o imperialismo a fim de superar os seus vizinhos. Isto conduz a uma fragmentação do movimento de não alinhamento, que é a segunda fragmentação que mencionámos anteriormente.

O silêncio da maioria dos países do Sul global face à agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão, que pode parecer intrigante à primeira vista, não é assim tão intrigante afinal. O neoliberalismo tem vindo a atuar há já algum tempo na subversão tanto do conceito de nação como do conceito de não-alinhamento, abandonando o núcleo anti-imperialista que caracterizava estes conceitos e substituindo-os por conceitos alternativos que dão prioridade à tarefa de angariar o favor do imperialismo acima de tudo o resto. O resultado deste processo é o que vemos hoje.

O capitalismo é invariavelmente hostil a qualquer prática coletiva contra si, mesmo que essa prática coletiva assuma a forma de uma simples ação sindical. Ele acredita na atomização dos agentes económicos. O capitalismo neoliberal, que representa um regresso ao capitalismo desenfreado e descontrolado, traz mais uma vez à tona esta tendência para a atomização dos agentes económicos, através da ruptura da aliança de classes que participara na luta anticolonial e através da subversão do movimento dos não-alinhados, que representava a oposição coletiva dos países do Sul global à hegemonia imperialista.

Cabe aos povos do Sul global, e não aos governos que atualmente promovem os interesses da grande burguesia dominante, estender a solidariedade ao povo do Irão; a luta do Irão contra a aliança EUA-Israel é de importância crucial para a recuperação da soberania do Sul global.

12/Abril/2026
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia
O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0412_pd/two-fractures-effected-neo-liberalism

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Mahmoud Darwish. - Sobre esta terra


Mural concluído pelo artista Marco Yumare jovens artistas parlamentares e o povo das comunas da Costa Guairena. - Praça Brion de Maiquetia, Caracas, Venezuela.  "Texto em Verde: "Sobre esta tierra hay algo que merece vivir: la madre de todos los comienzos" (Sobre esta terra há algo que merece ser vivido: a mãe de todos os começos). Origem da frase: Esta é uma citação célebre do poeta palestino Mahmoud Darwish, do seu poema "Sobre esta terra".  Na Praça Brión de Maiquetía, o artista Marco “Yumare9”, jovens, artistas, parlamentares e o povo das comunas da Costa Guaireña se uniram, junto ao MST, para reafirmar: Palestina livre! A ação integra a Jornada Internacional Muros pela Palestina e se ergue como um abraço à distância, uma denúncia do genocídio em curso e uma afirmação da solidariedade internacionalista.


O poema "Sobre esta terra" (Ala Hadhihi al-Ard) é uma das obras mais emblemáticas de Mahmoud Darwish. Ele resume a conexão profunda, dolorosa e esperançosa do poeta com sua terra natal.

Sobre Esta Terra

Mahmoud Darwish

 Sobre esta terra há o que merece viver:

A hesitação de abril,

o cheiro do pão ao amanhecer,

as opiniões de uma mulher sobre os homens,

os escritos de Ésquilo,

o começo do amor,

a grama sobre as pedras,

mães que vivem no fio de uma flauta

e o medo que os invasores têm das recordações.


Sobre esta terra há o que merece viver:

O fim de setembro,

uma senhora que sai dos quarenta com todo o seu viço,

a hora de sol na prisão,

nuvens que imitam um rebanho de criaturas,

as aclamações de um povo para aqueles que sobem à morte sorrindo

e o medo que os tiranos têm das canções.


Sobre esta terra há o que merece viver.

Sobre esta terra está a senhora da terra,

a mãe de todos os começos,

a mãe de todos os fins.

Chamava-se Palestina.

Chama-se, agora, Palestina.

Minha senhora: eu mereço, porque tu és minha senhora,

eu mereço viver.



Um toque de contexto

Darwish escreveu este poema com uma estrutura de catálogo, listando detalhes sensoriais e cotidianos que, juntos, formam a identidade de um povo.

  • A dualidade: Ele contrasta a beleza da vida (o cheiro do pão, o amor) com a dureza da ocupação (a hora de sol na prisão, o medo dos tiranos).

  • A "Mãe": Quando ele se refere à "mãe de todos os começos", ele está personificando a terra não apenas como um território geográfico, mas como a origem de toda a dignidade e história de seu povo.

É uma leitura poderosa, especialmente considerando que ele afirma o direito à vida como algo conquistado pela simples existência dessa terra. (Google Gemini) uma denúncia do genocídio em curso e uma afirmação da solidariedade internacionalista.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Raquel Varela - {Entre Saramago e Mário de Carvalho}

 * Raquel Varela
 ·
Esqueci-me de dizer algo muito importante. O "Ministro da Educação" do Estado português (certamente não de quem trabalha em Portugal e tem os seus filhos na escola) disse esta coisa insólita, que junta na mesma receita Trump e Estaline, cito de cor, a alternativa a Saramago "também do Partido Comunista" Mário de Carvalho". Talvez tenha sido a IA, de que o Ministro é fervoroso adepto,  a formular tamanha barbaridade. Primeiro, comparar Saramago com Mário de Carvalho é um absurdo, não vou explicar, não é preciso, Mário de Carvalho é um grande escritor, Saramago reinventou a língua e com isso o mundo. Mas há mais, e muito pior. Essa comparação surge porque são apoiantes do PCP. Nem Saramago foi propriamente um escritor do PC, nem Mário de Carvalho pode-se reduzir a tal (embora em ambos haja algo como um sistema cultural de resistência à ditadura que criou um intelectual colectivo em que o PC teve um papel essencial). O incrível é isto - que o Ministro da "educação", sim, da educação, diz que um escritor pode ser substituído por outro...do PC. 

Como não recordar a proibição de livros ordenada por Estaline ou o movimento MAGA de Trump que já cancelou dezenas de clássicos nas escolas norte-americanas? Enfim, como dizer isto a um Ministro, vou soletrar: a arte é o campo da liberdade, li-ber-da-de. Não tem partido, embora possa ser política. O que fazer com Céline, Borges ou Vargas Llosa?, grandes escritores de direita que nos ofertaram a arte em vida? Como ouvir este ruído, este zinco a bater em ferro, que é um Ministro afirmar que há escolhas em literatura no programa...que são também partidárias?

2026 04 07

sexta-feira, 27 de março de 2026

Alfredo Barroso - NÃO É CÓMODO SER DE ESQUERDA



*  Alfredo Barroso 

O eurodeputado e famoso ex-ministro da Saúde de um governo do PS, António Correia de Campos, escreveu no Público, em 21 de Janeiro de 2013, que «o povo não come ideologia». Claro que não! Tal como não come música, literatura, artes plásticas, cinema e muitas outras coisas consideradas fúteis pelos economicistas de serviço. Ao contrário dos hamburgers da McDonald’s, por exemplo… Ou dos bifes que a drª Isabel Jonet acusou o povo de comer todos os dias, para ruína da pátria e da república… E quem não se recorda daquele ministro de Berlusconi que se atreveu a contrariar jornalistas que insistiam em falar-lhe de Cultura, dizendo que «a ‘Divina Comédia’, de Dante, não serve para comer porque com ela não podemos fazer sanduíches»?! 

«O povo não come ideologia» é uma frase muito batida, normalmente utilizada pela direita ou por políticos oriundos da extrema-esquerda sempre em trânsito para a direita. É característica do pragmatismo sem princípios que tomou conta dos partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas membros da Internacional Socialista, na última década do século passado, a partir da fracassada Terceira Via teorizada por Anthony Giddens e adoptada por Tony Blair, Gerhard Schroeder, António Guterres e «tutti quanti» por essa Europa fora. No fundo, não passou de uma conversão encapotada às delícias do neoliberalismo. Foi uma abdicação ideológica que os tornou comparsas da direita e reforçou o «rotativismo» no poder, com as mordomias que ele confere e os tachos que permite distribuir.

«Ser de esquerda não tem necessariamente de ser cómodo. Quase nunca é» - dizia João Martins Pereira, uma referência ideológica para muitos da minha geração. E o que é uma ideologia? Para não complicar as coisas, recorro a um dicionário bem conhecido, o da Porto Editora, que reza assim sobre ideologia: «1. Sistema de ideias, valores e princípios que definem uma determinada visão do mundo, fundamentando e orientando a forma de agir de uma pessoa ou de um grupo social (partido político, grupo religioso, etc.) 2. Estudo da origem e da formação das ideias».

Claro que há ideologias boas e ideologias más, democráticas e totalitárias, pluralistas e intolerantes. Mas, ao contrário do que costuma afirmar a direita (sempre demagógica até ao tutano), não me parece que, em si mesmo, o conceito de ideologia seja um papão. Nem uma sanduíche de Dante. Nem um bife à Isabel Jonet. Aliás, só um «prodígio sem ossos» («boneless wonder», como chamava Churchill a um dos seus adversários políticos) é que pode singrar na política sem qualquer quadro de valores e princípios, sem uma visão do mundo que lhe sirva de referência, caminhando aos ziguezagues, recorrendo à navegação de cabotagem por incapacidade de se fazer ao largo e de correr riscos, definindo novos rumos e tentando mudar o estado das coisas para que os cidadãos consigam viver melhor, numa sociedade menos desigual, mais justa e mais solidária. 

Um «prodígio sem ossos» não faz grandes ondas, provoca apenas uma ligeira ondulação enquanto aguarda tranquilamente a sua vez para regressar ao poder. A Internacional Socialista está cheia de «prodígios sem ossos» ansiosos por agradar a plutocratas, banqueiros, grandes empresas e seus accionistas, gestores e patrões. A Internacional Socialista está em crise profunda porque os partidos que dela fazem parte cortaram as suas raízes históricas, abdicaram de ter um pensamento próprio, autónomo, original, e julgaram erradamente que se renovavam catrapiscando ideias e propostas dos seus adversários da direita neoliberal e neoconservadora. Os resultados estão à vista. De facto, não é nada cómodo ser de esquerda…

05/Fevereiro/2013

https://www.facebook.com/somera.simoes

quinta-feira, 26 de março de 2026

Daniel Oliveira - Chega nas autarquias: Sorria, foi enganado outra vez e sabia

* Daniel Oliveira

Desvinculações do partido para ganhar pelouros, casos, nomeações escandalosas, balbúrdia entre vereadores. Nada disto é surpreendente no partido que queria acabar com os tachos e a bandalheira, mas é a rampa de lançamento de quem não conseguiu lugares noutros lados. Não é provável que os seus eleitores não o saibam. Mas não é um voto de exigência, é um voto de desistência

Em várias autarquias houve acordos com o Chega, sobretudo em câmaras do PSD. De uma forma ou de outra, formal (Sintra) ou informalmente (Lisboa), os vereadores do Chega ajudaram a construir maiorias em cinco dos seis maiores concelhos do país. Isto seria uma estratégia de poder. Mas na maior parte das câmaras talvez seja difícil falar de estratégia.

Em apenas cinco meses fora oito os vereadores eleitos pelo Chega que abandonaram o partido e passaram a independentes: em Lisboa, Ana Simões Silva (eleita por um voto de diferença) desfiliou-se e integrou o executivo de Carlos Moedas, assumindo os pelouros da Saúde e do Desperdício Alimentar. Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa seguiu o mesmo caminho e entrou no executivo de Luís Filipe Menezes com pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal. Em Coimbra, Maria Lencastre Portugal desfiliou-se e foi nomeada para funções executivas numa empresa municipal de Ana Abrunhosa, do PS. Em Mirandela, Luís Saraiva conseguiu sair do partido ainda antes da tomada de posse, deixando claro ao que vinha. No Funchal, Luís Filipe Santos e Jorge Afonso Freitas saíram do partido, mas mantiveram-se sem pelouros. O mesmo aconteceu na Marinha Grande, com Emanuel Vindeirinho. E em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato, o que é um pouco diferente.

Em poucos meses, o Chega já soma mais casos de demissões, desvinculações e ruturas do que partidos com muito mais vereadores e presidências de câmara. Mais do que divergências, é gente à procura de um lugar ao sol.

Em São Vicente, na Madeira (outro dos três concelhos conquistados pelo Chega), o presidente retirou os pelouros aos outros vereadores do seu partido e governa sozinho. Em Portimão, 19 eleitos do Chega a ameaçarem demitir-se em bloco porque dois dos três vereadores do partido viabilizaram o orçamento do PS. Dizem que o fizeram porque o orçamento é bom. Permitam-me duvidar.

Em Lisboa, o vereador que não abandonou o partido queimou-se com a nomeação da Mafalda Livermore para a administração dos Serviços Sociais da Câmara. A sua namorada é alvo de investigação por burla e exploração de imigrantes. Mas as nomeações de pessoas demasiado próximas é um clássico no partido que ia lutar contra o nepotismo – Rui Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, levou a irmã para assessora. Explicou-se: “Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes”.

Onde não há debandada há balbúrdia.

Tudo contrasta com o partido que promete acabar com a bandalheira, o oportunismo e os arranjinhos do sistema. Mal se aproximam dos únicos tachos a que já têm acesso, ninguém lhes ensina nada. Porque o Chega não passa de uma rampa de lançamento para quem foi rejeitado por outros partidos. Cresceu muito e depressa, tem falta de quadros e recebeu o refugo de carreiristas que, chegados ao poder, tratam da vidinha. Sejamos justos: estando longe do poder nacional, ainda são carreiras de pouca ambição.

Nada disto deveria surpreender os eleitores. Já no mandato anterior o Chega acumulava episódios nas autarquias e na Assembleia da República. O deputado Miguel Arruda foi só o mais mediático, por ser risível. Num recorde absoluto de problemas com a justiça, há dirigentes e deputados do partido da “lei e da ordem” envolvidos em processos que vão da condução sob efeito de álcool a abuso de menores – esta semana já vai no quinto suspeito de pedofilia.

Não é provável que a maioria dos eleitores do Chega desconheça estes casos. Que não saiba que os vereadores que elegeu saltaram para fora do partido para chegar ao pote. Que viva a leste do destino do seu voto. Alguns estarão de tal forma fanatizados que ou justificarão o injustificável ou encontrarão consolo no burocrático distanciamento do líder cada vez que algum caso chega aos jornais. O eleitorado do Chega é o sonho de qualquer político: dá tudo sem exigir nada.

Mas a maioria apenas confirma a tese que tenho há algum tempo: o voto no Chega não é dos desiludidos da democracia, mas dos que desistiram dela. Não é um voto de exigência, é um voto de desistência. Não querem abalar o sistema, aceitam a caricatura do sistema, porque “eles são todos iguais”. Estão-se nas tintas. Já não esperam nada. Sobretudo daqueles em quem votam.

2026 03 26

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