A rua, enquanto suporte de comunicação, funcionou nos anos subsequentes ao 25 de Abril como uma extensão das redações e das tipografias. Nos registos que aqui apresento, a imagem é o ponto de partida para observar esta relação entre o papel e o reboco, dividida em três eixos:
1. A memória dos jornalistas e dos jornais na cidade
A arte urbana contemporânea tem servido para eternizar figuras que fizeram da palavra a sua ferramenta de trabalho. É o caso de Fialho de Almeida, cronista e polemista incontornável das letras portuguesas, lembrado em murais em Setúbal, ou de Mário Zambujal, nome maior do jornalismo desportivo e generalista, homenageado no mural da Estrada de Benfica, em Lisboa. São registos que ligam a memória de quem viveu o jornalismo à presença física e perene na cidade.
2. O jornal partidário como palavra de ordem
No calor do PREC, o jornal de partido deixou de ser apenas algo que se comprava na banca para passar a ser algo que se lia no muro.
O Avante!: Mural de 1977 que celebrava a publicação e a festa do jornal do PCP, provando a força desta imprensa na ocupação simbólica da cidade.
O Grito do Povo: As imagens da UDP (na Ajuda ou na Rua de S. Jorge, entre 1975 e 1976) mostram o apelo direto: "Lê e discute com os teus camaradas". O mural funcionava como uma "primeira página" de rua, alertando para temas políticos e para a organização política da época.
3. Os "Jornais de Parede": a imprensa de base
Os 'joenaus de parede' são outra faceta da "imprensa de rua", como em Alcácer do Sal e Mora. Em 1974 e 1975, quando a informação precisava de chegar rapidamente a todas as localidades, a parede tornava-se o suporte principal. Comissões de moradores e forças políticas (como a UDP e o PCP) afixavam comunicados, palavras de ordem e notícias – como o apelo "Vingaremos Catarina", com alertas e palavras de ordem, criando uma rede informativa que precedia, ou substituía, a tiragem dos jornais de papel.
Estes registos fotográficos são o que resta dessa imprensa efêmera. Pintada à escova, colada com cola de farinha ou gravada na memória urbana, ela continua a contar a história de um tempo em que os muros também eram, de facto, jornais.
Nos dias de hoje, em que a imprensa em papel é marginalizada pela imprensa on line e redes sociais, os garfitos, mais ou menos elaboados, mais ou menos artísticos. são a nova expressão dos 'jornais de parede' nos anos da pré-revolução.





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