quarta-feira, 9 de março de 2016

Maria Velho da Costa - Cravo de Abril


8 DE MARÇO DE 2016
MANUEL AUGUSTO ARAUJO

No DIA INTERNACIONAL DA MULHER, um texto luminoso de Maria Velho da Costa e uma pintura de Teresa Dias Coelho. Nada melhor que recorrer a duas amigas que são duas mulheres artistas de rara qualidade.



Mãos ~ Teresa Dias Coelho 

 A relação entre o homem e a mulher

é a relação imediata, natural e necessária

do homem com o homem.

  KARL MARX



RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.

2.REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-los para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrelaçam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.

PRODUÇÃO

Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descamar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transístor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fileira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.

SERVIÇOS

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas da lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.

TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA

Coisas que elas dizem:

 – Se mexes aí, corto-ta.

– Isso não são coisas de menina.

– O meu homem não quer.

– Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.

– A mulher quer-se é em casa.

– Isto já vai do destino de cada um.

– Deus não quiz.

– Mas o senhor padre disse-me que assim não.

– Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.

– Você sabe que eu não sou dessas.

– Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.

– Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.

– Comprei uns jeans bestiais, pá.

– Sempre dá para uma televisão daquelas novas.

– Cada um no seu lugar.

– Julgas que ele depois casa contigo?

– Sempre há-de haver pobres e ricos.

– Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.

– Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.

– Sempre é homem.



PRODUÇÃO DE DESEJO

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elas limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.

REVOLUÇÃO

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Dezembro de 1975

 in CRAVO, MARIA VELHO DA COSTA, MORAES EDITORES, 1976

https://pracadobocage.wordpress.com/2016/03/08/revolucao-e-mulheres/

Florbela Espanca - “TORRE DE NÉVOA”

* Florbela Espanca

“Subi ao alto, à minha torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: «Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...»

Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha torre esguia junto ao céu!...”


“Livro de Mágoas” - 1919
In: Espanca, Florbela. “SONETOS”. Publicações Anagrama, Lda. Colecção Clássicos 14

http://aquem-tejo.blogs.sapo.pt/torre-de-nevoa-florbela-espanca-90728

Zé Mulemba - Fula Maria

Uma mulher : "FULA MARIA " ,do poeta angolano , Zé Mulemba , pseudónimo de Alberto Telésforo Afonso (Luanda /1942 ). 

Na singeleza do Amor ,na ternura, na simplicidade- sofrida do verso, a minha homenagem às mulheres do Mundo , começando ,òbviamente, pelas minhas ... (João Carreira)
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FULA MARIA

Fula Maria 
Filha do Soba Sapalo 
Da sanzala Camilunga , 
Nasceu,brincou,amou,
Junto à beira da estrada.
Zé Catraio
Satambinja da carrinha 
Do siô Zé Míudo ,
Fazia adeus ao passar 
Na sanzala Camilunga .
Fula Maria esperava 
Sentada na árvore caída ,
Que a carrinha encarnada
Aparecesse lá na curva ,
Com Zé Catraio sentado 
Em cima do saco de fuba .
E tanto tempo esperava ,
Dia e noite sem cansar 
Que o tuku-tuku aparecia
Trazendo pó e barulho .
Fula Maria acenava ,
Fula Maria sorria .
E lá de cima emproado ,
Zé Catraio faz banga
Com sua boina bonita 
E cambriquite coçado.
Fula Maria acenava
Fula Maria sorria .
E certo dia estreou ,
Vestido novo encarnado
Com sapato de fivela,
para ver Zé Catraio
Que nesse dia passava .
Mas seu coração bateu,
Quando Catraio não viu ! 
Satambinja era outro ,
Que p'ra ela nem olhou .
Fula Maria gemeu ,
Fula Maria chorou .
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.https://www.facebook.com/joao.carreira.52?fref=ufi

terça-feira, 8 de março de 2016

guia da boa esposa (1950)

29/12/15

* Lincoln Costa

A melhor qualidade do passado é nos mostrar como mudamos, que rumos tomamos e se essas coisas foram boas ou não.
Se tomarmos a história do mundo, como exemplo, pense em quanta coisa mudou. Costumes, tradições, e até preconceitos que vão sendo mudados e superados.
Vejamos, já parou para pensar em como as mulheres eram vistas na década de 50?
O que os maridos esperavam delas ? Bem, cada vez mais a visão sobre as mulheres tem mudado, e uma prova disso é o que vamos te mostrar agora.
Em maio de 1955, a revista Housekeeping Monthly publicou um artigo chamado“o guia da boa esposa”, que ditava o que a mulher deveria fazer para ser boa com seu marido e filhos.
Pode ser até difícil de acreditar nessas “regras” hoje em dia, mas ainda assim é interessante olhar para o passado e ver como nossa mentalidade continua a mudar.
E se você ficou curioso para saber sobre essas “conselhos”, só continuar a ler.

1. Tenha o jantar sempre pronto. Planeje com antecedência. Esta é uma maneira de deixá-lo saber que se importa com ele e com sua necessidades.

2. A maioria dos homens estão com fome quando chegam em casa, e esperam por uma boa refeição (especialmente se for seu prato favorito), faz parte da recepção calorosa.

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3. Separe 15 minutos para descansar, assim você estará revigorada quando ele chegar. Retoque a maquiagem, ponha uma fita no cabelo e pareça animada.

4. Seja amável e interessante para ele. Seu dia foi chato e pode precisar que o anime e é uma das suas funções fazer isso.

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5. Coloque tudo em ordem. Dê uma volta pela parte principal da casa antes do seu marido chegar. Junte os livros escolares, brinquedos, papel, e em seguida, passe um pano sobre as mesas.


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6. Durante os meses mais frios você deve preparar e acender uma fogueira para ele relaxar. Seu marido vai sentir que chegou a um lugar de descanso e refúgio. Afinal, providenciando seu conforto, você terá satisfação pessoal.


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7. Dedique alguns minutos para lavar as mãos e os rostos das crianças (se eles forem pequenos), pentear os cabelos e, se necessário, trocar de roupa. As crianças são pequenos tesouros e ele gostaria de vê-los assim.

8. Minimize os ruídos. Quando ele chegar desligue a máquina de lavar, secadora ou vácuo. Incentive as crianças a ficarem quietas.
9. Seja feliz em vê-lo. O receba com um sorriso caloroso, mostre sinceridade e desejo em agradá-lo. Ouça-o.

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10. Você pode ter uma dúzia de coisas a dizer para ele, mas sua chegada não é o momento. Deixe-o falar primeiro, lembre-se, os temas de conversa dele são mais importantes que os seus.

11. Nunca reclame se ele chegar tarde, sair pra jantar ou outros locais de entretenimento sem você. Em vez disso, tente compreender o seu mundo de tensão e pressão dele, e a necessidade de estar em casa e relaxar.

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12. Seu objetivo: certificar-se de que sua casa é um lugar de paz, ordem e tranquilidade, onde seu marido pode se renovar em corpo e espírito.

13. Não o cumprimente com queixas e problemas.
14. Não reclame se ele se atrasar para o jantar ou passar a noite fora. Veja isso como pequeno em comparação ao que ele pode ter passado durante o dia.

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15. Deixe-o confortável. Faça com que ele se incline para trás numa cadeira agradável ou deitar-se no quarto. Dê uma bebida fria ou quente pronta para ele.

16. Arrume o travesseiro e se ofereça para tirar os sapatos dele. Fale em voz baixa, suave e agradável.

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17. Não faça-lhe perguntas sobre suas ações ou que questionem sua integridade. Lembre-se, ele é o dono da casa e, como tal, irá sempre exercer sua vontade com imparcialidade e veracidade. Você não tem o direito de questioná-lo.


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18. Uma boa esposa sabe o seu lugar.

É incrível ver como isso mudou e como as mulheres estão cada vez mais mudando esse “padrão”, sendo o que ela quer ser, estão ganhando espaço.
Mas e você? O que achou desse “guia”? Conte para nós nos comentários :)

http://awebic.com/cultura/guia-boa-esposa-1950/

Nuno Marques - 8Março # Operárias Conserveiras # Setúbal



Mariana

8 DE MARÇO DE 2016
NUNO MARQUES
FICÇÃO, MARIANA TORRES, OPERÁRIAS CONSERVEIRAS, SETÚBAL


A propósito das comemorações do Dia Internacional da Mulher e da inauguração de um merecido Monumento a Mariana Torres e às Operárias Conserveiras de Setúbal, dediquei a hora do almoço a rabiscar um pequeno texto de ficção, em jeito de singela homenagem a essas mulheres, que estendo a todas as outras neste dia em que é imperativo lembrar as tremendas desigualdades ainda existentes. E com a minha avó, operária conserveira toda a vida, no pensamento.

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Acordou sobressaltada com o ecoar da longa sirene no silêncio da noite. Reconheceu o chamamento da Firmin Julien. Aconchegou os miúdos e deixou sorrateiramente a casa, feita de madeira e zinco. Desceu a encosta em passo apressado, mergulhando os pés descalços na terra argilosa e húmida. Quem se demora não tem trabalho. Uma vizinha, já velha e antiga conserveira, olha pelas crianças quando há trabalho. Se o cerco é bom a jornada pode durar vinte horas e estamos na época da sardinha. Tem de aproveitar se há trabalho.

No Tróino abrem-se portas donde saem outras mulheres para a escuridão da noite. Lembra-se, pesarosa, que Irene já não as acompanha. Era escorchadora, mas foi despedida, há tempos, por trazer embrulhadas num trapo escondido no regaço duas sardinhas, para matar a fome aos filhos. Aos 19 anos é viúva e tem a cargo três filhos. O homem da Irene, o Manel, faz sete meses que desapareceu no mar da terra nova, na pesca do bacalhau. A vida ficou ainda mais difícil. Uma mulher só aguenta a fome até que esta seja maior que os filhos. Vive agora da solidariedade de outras camaradas da fábrica e da caridade que, por vezes, desesperada implora às senhoras que passeiam na Avenida da Praia. Uma amiga, Odete, que tem marido soldador na fábrica dos Senhores Bentinhos, era quem mais ajudava, mas muitos soldadores estão a ser despedidos, desde que chegaram as máquinas. É vê-los deambular pela Fonte Nova, famintos, com as mãos feridas pelo rabo do chicharro.

Pela Irene e por todas as mulheres das fábricas, especialmente as cento e quinze que foram despedidas por não furar a greve, saíram para a rua, há semanas, a exigir aumento. Com elas vieram também os moços. Só os soldadores ficaram com os encarregados. Não viam as mulheres como suas camaradas, embora estas sempre tivessem sido solidárias com eles, em todas as lutas. Queriam apenas melhor pagamento pelo duro trabalho, que os patrões logo negaram. Fizeram demorada greve, e dolorosa, pois sem trabalho não há sustento. Mas com o insultuoso soldo que lhes pagavam também não havia futuro.

Sem as operárias para fazer a conserva, quiseram vender o peixe para fora, carregado em carroças. As mulheres saíram à rua para impedir a passagem, mas os industriais tinham a nova guarda da República a defender-lhes o lucro. Mariana, embora jovem, era a mais decidida e corajosa. Atravessou-se à frente da caravana e gritou “Não passarão!”, e todas atrás de si, em humana muralha. Mas a guarda carregou e da cabeça da luta fez o exemplo para furar o bloqueio. Mariana foi violentamente espancada à coronhada, mas não arredou. As demais vieram em seu auxílio e também os moços. Brandiam as espingardas no ar, distribuindo furiosas agressões. Ouviram-se tiros também, até que cada uma e cada um correram como puderam, a proteger-se. As carroças de sardinha seguiram, ladeadas pela guarda.

No chão ficaram mulheres e moços feridos, gritando de raiva e de dor. Mariana jazia imóvel e em silêncio. Quando as mulheres se abeiraram já só restava um corpo e rosto desfigurados pelo cunho do ódio. Alguém gritou “Mataram o António!” O moço fora fuzilado a tiro.

Mulheres e moços carregaram os seus camaradas defuntos. A terra da avenida ficará para sempre manchada com as marcas da vergonha dos assassinos e da memória daqueles que entregaram a vida pelos seus e pela luta de todos à sobrevivência. Os heróis dum povo que vive ajoelhado são os anónimos marianas e antónios que morrem de pé, porque a dignidade não tem preço.

Recorda com profunda mágoa estes acontecimentos. No Tróino agora as gentes caminham soturnas. Uns por tristeza, outros por desonrado pudor. No ar respira-se a tristeza e a fome.

Chega à fábrica e dão-lhe trabalho. Vai engrelhar, como é hábito. Dizem que a enviada veio carregada, pelo que a jornada vai ser longa. Quando a época da sardinha terminar escasseia o trabalho e aperta mais a miséria no estômago. Por enquanto, empilham-se à porta da fábrica caixas de latas de conserva, que seguem para França, carregadas de sangue e de vidas.

https://pracadobocage.wordpress.com/2016/03/08/8marcooperariasconserveirassetubalficcao/

Ivan, o Terrivel – Alexis Tolstoi e Eisenstein


sexta-feira, 22 de abril de 2011

FACTOS HISTÓRICOS:

Ivan Vassilievitch (1530-1584), primeiro monarca a ser proclamado Czar da Rússia (César = imperador), ficou para a Histórica conhecido pelo cognome de “Terrível”, devido à política de terror que levou a cabo em quase todo o seu reinado.

Órfão aos 8 anos, o pequeno Ivan teve uma infância conturbada; assistindo às disputas pelo poder por parte dos boiardos, era obrigado a assistir a sessões de tortura e execuções, de forma a moldar-lhe o carácter enquanto futuro imperador. Assustado, Ivan entregou-se à leitura compulsiva da Bíblia sob a supervisão do bispo de Moscovo, Makari, tornando-se assim um cristão ortodoxo fanático.

Coroado aos 16 anos, logo ordena a expropriação dos bens dos boiardos e da igreja, chamando a si o poder de Deus.

Acabando por conseguir unificar a nação russa e expulsar os tártaros através de sucessivas guerras mantidas ao longo de duas décadas, Ivan fica de facto conhecido pelo clima de terror do seu reinado, um déspota que mandou executar milhares de pessoas inocentes.

Em 1564, numa jogada política, ameaça abdicar e sai de Moscovo; os moscovitas, liderados pelo clero e assustados com essa possibilidade, imploram-lhe que recue na pretensão. Ivan aceita o pedido com a condição de, a partir dessa data, poder lidar com os seus inimigos e traidores da forma que achar por bem e assim cria a famoso melícia Oprichnina, uma força policial composta por homens que juravam completa fidelidade ao czar e que, sob as suas ordens, impuseram o clima de terror que vigorou em toda a Rússia até à morte de Ivan.

A OBRA:

Alexis Tolstoi (não confundir com Leon Tolstoi. Alexis era parente afastado de Leon, mas são dois autores diferentes), traça neste livro, que se inicia em 1565 precisamente aquando da criação dessa milícia de Ivan, o início do terror que trouxe a Ivan Vassilievitch tão terrível cognome.

Nikita Romanovitch Serebriany é um jovem boiardo que regressa à Rússia após uma ausência de cinco anos na Lituânia onde esteve ao serviço do Czar.

Ao chegar a uma aldeia, depara-se com um ataque de dezenas de soldados vestidos de preto a aldeões desarmados e fica impressionado com a brutalidade desse ataque. Decide intervir e, com os homens que comanda, põe termo a essa ofensiva, matando dezenas desses soldados e fazendo prisioneiros outros tantos. Ao os interrogar, fica a saber tratarem-se todos eles de oprichininos, que estão ao serviço do czar e que cumpriam ordens do mesmo. Serebriany recusa-se a acreditar, no entanto e não querendo arriscar até chegar à presença do czar, resolve não executar nenhum desses prisioneiros, soltando-os.

Está lançado o mote para os acontecimentos que marcaram a História da Rússia e que tem nesta obra um excelente manual.

Alexis Tolstoi é capaz de criar todo um fresco memorável da época. Assente em várias famílias de todas as facções envolvidas, ele dá-nos os vários pontos de vista, deixando para o leitor a sua própria interpretação dos factos e as ilacções a tirar.

Percebemos quais as razões que levou Ivan a impor esse clima. As movimentações dos boiardos que, feridos na sua honra, tentam virar o rumo dos acontecimentos; enquanto isso a História perfila-se diante de nós como um filme de tão realista e poética é a escrita de Tolstoi.

Alexis Tolstoi não deslustra a fama dos autores russos que tiveram em Leon Tolstoi, Dostoievsky, Nabokov, Gogol, Pasternak, entre outros, toda uma escola que é única em todo o mundo dada a excelência da sua obras.

Este é um livro fabuloso, poderoso e bela na sua narrativa. Embalamos na escrita como se tivéssemos numa montanha russa: ora vamos em linha recta, ora, de repente, nos vemos em descidas vertiginosas onde terríveis batalhas desfilam diante dos nossos olhos.


“… enquanto viveres, os lábios do povo manter-se-ão fechados pelo terror; mas do teu reinado, assim que terminar, ficará somente a lembrança dos teus crimes. E o teu nome passará de geração em geração, sempre execrado até ao dia do juízo final! …”

Publicada por Miguel Chaica à(s) sexta-feira, abril 22, 2011 

http://nlivros.blogspot.pt/2011/04/ivan-o-terrivel-alexis-tolstoi.html




 Ivan the Terrible (Russian: Иван Грозный,Ivan Grozniy) is a two-part historical epic filmabout Ivan IV of Russia commissioned by Soviet Premier Joseph Stalin, who admired and identified himself with Ivan, to be written and directed by the filmmaker Sergei Eisenstein. Part I was released in 1944 but Part II was not released until 1958, as it was banned on the order of Stalin, who became incensed over the depiction of Ivan therein. Eisenstein had developed the scenario to require a third part to finish the story but, with the banning of Part II, filming of Part III was stopped and what had been completed was destroyed. (Wikipedia)



Maria, por Urariano Mota



8 de março de 2016 - 9h21 

Dona Maria era o que era, e com isso os homens queriam dizer que ela era a pessoa física apenas, carnes. Deste modo e maneiras eles a viam: mulher – e aqui vai um gênero e universo de entendimento bárbaro -, gorda, baixinha, mas com um aspecto, ar, que não devia ser o da sua condição.

Por Urariano Mota* 

O Filho Renegado de Deus, livro de Urariano.O Filho Renegado de Deus, livro de Urariano. Viam como um contrassenso absoluto aquela pessoa, digo, aquela mulher gorda e baixa, que não se dava conta da sua espécie. Num tempo das divas glamorosas do cinema, num tempo de massacre da beleza anônima dos subúrbios, dona Maria não passava de “uma albacora”. Crua, essa palavra além da redução a um peixe, pois mulheres apenas se comiam e se tornar alimento era sua razão de ser, tal definição, difamação, amesquinhava-a numa coisa aquém do que entendiam o gênero feminino, pois era, além de mulher, gorda e baixinha, larga como as albacoras, que não eram uma dieta ideal para os comedores de carne bovina. Peixe gordo, congelado, a se comer apenas nas sextas-feiras santas, em sinal de penitência. 

É curioso, no entanto, como as mulheres vizinhas possuíam de Maria outra visão. Elas a reconheciam como uma senhora decidida, solidária e resguardada de merecer piedade. Ela rejeitava, “me repugna”, como dizia, qualquer piedade para a sua condição. Mulher brava, de coragem e de raiva. Do gênero e da forma daqueles bravos a quem os fracos não temem, porque sabem que essa bravura se dirige somente contra o injusto mais forte. Lídia, a sua jovem comadre, dela falaria na lembrança em 2012: “Ela era uma mulher bonita, de rostinho redondo, com os olhos pequeninos, muito vivos. Para mim, era uma boneca índia”. E com os olhos rasos d’água se balançava na cadeira, como a lembrar em silêncio a injustiça que atravessa a vida de mulheres como Maria, uma injustiça que também era feita contra Lídia, depois de passar por fracassados casamentos. “Dona Maria era muito bonita, com os olhos miúdos, negrinhos”, repete. E cala, e embarga a voz. “Vocês não querem sapoti? Tá fresquinho”, oferece. 

No filho de Maria dá uma brutal vontade de abraçar Lídia, de lhe dizer “eu compreendo os seus sapotis, eu compreendo a sua dor, eu sei da sua infelicidade, eu sei do que você não se queixa, do que a magoa, eu sei, amiga da minha mãe”. E mais, amarga como uma proposta e uma promessa que é uma formulação de princípio: “Eu não vou calar o seu mundo”. Ele sabe, e não diz nem a si mesmo, que revê em Lídia aquela mulher que se foi tão pletórica, vermelha, no vigor e sangue farto na altura dos seus 30 anos. Ah, é da sua natureza a reencarnação, ah, é do seu gênero, gênese e ser de transmigração, como se o espírito quisesse um novo corpo para uma vida que não foi possível. Dói nele uma dorzinha doce e fina porque Lídia não é a sua mãe, mas por ela será capaz de a ouvir e de lhe falar. Com a intensidade aguda de um violino em uma romanza, naquela, ele sabe, guardada em silêncio, naquela maldita e fina romanza número 2 em fá maior. Porque tudo então lhe recorda a senhora gorda, albacora, brava e bonita como uma bonequinha índia. Para o filho, sempre como uma mulher toda e tão só ternura. Desde 1956, passando por 1957, 1958, os anos da sua terra de felicidade, ele a guardaria nos traços e feições. Uma guarda de modo inconsciente. Era um modo retrato, daqueles no porta-retratos, em que só aparecem definidas as linhas do rosto até o pescoço, o que era um modo geral dos porta-retratos, e ao mesmo tempo, em Maria, uma exclusão, pois lhe negavam a totalidade do corpo. Ele a veria, fortalecido na lembrança por aquele retrato, como o rosto da mulher brava que era só suavidade.

Nota: Para o Dia Internacional da Mulher, recorto um trecho do romance O Filho Renegado de Deus. 

*Publicado originalmente no Diário de Pernambuco, 8 de março de 2016

http://www.vermelho.org.br/noticia/277295-11