sábado, 27 de fevereiro de 2016

Há 96 anos nascia o autor de Meu Pé de Laranja Lima



26 de fevereiro de 2016 - 9h37 

Há 96 anos nascia em Bangu, no Rio de Janeiro o escritor José Mauro de Vasconcelos, autor de obras como Meu Pé de Laranja Lima, Vazante, Arara Vermelha e Rua Descalça. 

José Mauro de Vasconcelos contava que não queria ser escritor, mas foi obrigado a sê-lo porque tinha que colocar para fora suas emoções, suas experiências de vidaJosé Mauro de Vasconcelos contava que não queria ser escritor, mas foi obrigado a sê-lo porque tinha que colocar para fora suas emoções, suas experiências de vida José Mauro passou a infância na cidade de Natal, onde se destacou na natação, conquistando vários campeonatos. Apesar do bom desempenho nos esportes sua preocupação maior era com os estudos.

Aos dez anos de idade já cursava o ginasial, época em que se interessou por autores como Graciliano Ramos, Paulo Setúbal e José Lins do Rego.

Na juventude foi para Recife onde trabalhou como professor primário numa vila de pescadores. De temperamento inquieto, da capital pernambucana, começa a viajar pelo Brasil, indo parar no rio Araguaia, onde se juntou aos irmãos Villas Boas na luta em defesa dos índios.

Suas andanças lhe deram subsídios para a literatura. O resultado está no seu livro de estréia, o Romance Banana Brava, lançado em 1942, onde conta a história do mundo dos garimpos.

Em 1962 lança Rosinha, Minha Canoa, considerado o seu primeiro sucesso. Mas a obra que o consagrou, o romance Meu Pé de Laranja Lima, foi lançado em 1968.

Nesta obra José Mauro de Vasconcelos lança mão de sua experiência pessoal para retratar a infância sofrida. O livro, um verdadeiro sucesso editorial, foi escrito em apenas doze dias.

José Mauro de Vasconcelos contava que não queria ser escritor, mas foi obrigado a sê-lo porque tinha que colocar para fora suas emoções, suas experiências de vida.

Tinha um método original para escrever suas histórias. De início, escolhia os cenários onde se movimentarão seus personagens. Mudava então para o local, onde realizava estudos minuciosos. Para escrever Arara Vermelha, percorreu cerca de 450 léguas no sertão bruto.

José Mauro de Vasconcelos também trabalhou como ator. No filme Saci ganhou o prêmio de melhor Ator Coadjuvante.

Participou ainda dos filmes Fronteiras do Inferno, Floradas da Serra e Cantos do Mar.

Seus livros Meu Pé de Laranja Lima, Vazante e Arara Vermelha também foram adaptados para televisão e cinema.

José Mauro de Vasconcelos morreu em 24 de julho de 1984, de broncopneumonia, aos 64 anos de idade, na capital paulista.


Fonte: EBC

http://www.vermelho.org.br/noticia/276786-11

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

História de um cão moscovita


Estima-se que vivam nas ruas de Moscovo cerca de 35 mil cães. Destes, cerca de 500 vivem nas estações de metro, um número impressionante se tivermos em conta que a cidade conta com um total de 200 estações. E entre estes, um número reduzido, aí uns 20, usa o metro para deslocar-se na cidade, um feito notável e que tem chamado a atenção dos estudiosos do comportamento animal. Imaginem um cão capaz de usar escadas rolantes, de escolher a linha de metro e a estação em que deve sair. Que não se assusta com o ruído da locomotiva, com a hostilidade do ambiente, que, seja pelo cheiro ou porque reconhece o nome da estação quando pronunciada pelo aviso sonoro, ou ambos, consegue orientar-se no labirinto subterrâneo.
Malchik não era um desses bichos que viajam, mantinha-se na estação, era fiel à sua casa. Até ao dia em que Yulia Romanova chegou à estação com o seu Staffordshire Bull Terrier, cujo nome a pequena História não registou. Há relatos contraditórios sobre o que terá acontecido: uma testemunha disse que Yulia incentivou o seu cão a ir morder Malchik, que dormia. Outra garantiu que foi Malchik que ladrou ao outro cão e à sua dona, embora todos concordem que não os atacou. Yulia tirou da mala uma faca de cozinha e espetou-a seis vezes em Malchik. Este acabou por morrer ali mesmo, no meio da estação, depois de minutos de agonia.
O assassinato de Malchik indignou muitos cidadãos. Yulia foi detida, descobriu-se entretanto que tinha um historial de maus-tratos a animais, e perturbações psiquiátricas que a levariam a ser submetida a tratamento. Um grupo de artistas, apoiados por cidadãos anónimos, ergueu uma estátua a Malchik, projecto que demoraria anos a concretizar-se. Malchik morreu em 2001 e foi preciso esperar até 2007 para que a sua estátua fosse colocada na estação de Mendeleyevskaya. Que, em seis anos, a memória de um cão vadio não tenha sido esquecida diz bastante sobre a popularidade do bicho e o choque que a sua morte provocou. E sobre a familiaridade dos moscovitas com os guardiães das suas estações.
Conta-se que os cães que viajam no metro evitam as carruagens apinhadas e preferem as do fundo, habitualmente menos frequentadas. Procuram a companhia dos humanos e resguardam-se dela, como é de esperar dos bichos que conhecem o melhor e o pior desses humanos. Esses vinte cães que atravessam a cidade talvez o façam apenas para procurar comida ou também por diversão e vontade de ver o desconhecido. Exploram o que a cidade tem para oferecer-lhes, o que os humanos construíram, e sobrevivem num mundo que não foi feito para eles, mas que os tolera. Mas quando a vida na cidade se endurece, são eles que guardam as estações, são eles que acompanham e defendem os humanos que dormem nas ruas, são eles que retomam o lugar que nunca perderam por inteiro, o de companheiros e defensores de seres humanos solitários e amedrontados.
https://aventar.eu/2016/02/26/historia-de-um-cao-moscovita/#more-1248192

Beatriz Dias Coelho - A “odisseia” da utopia, ou a imagem do mundo que merecemos



26 de fevereiro de 2016 - 15h48 

“… é fácil confessar que muitíssimas coisas há na terra da Utopia que gostaria de ver implantadas nas nossas cidades, em toda a verdade e não apenas em expectativa”. São as últimas palavras de Thomas More em Utopia, ditas depois de Rafael Hitlodeu, o navegador que alegadamente conheceu a ilha da Utopia, terminar o seu relato. A ideia é clara: More simpatiza com alguns dos princípios da sociedade utopiana, mas não a vê como um modelo a implementar de forma exata.

Por Beatriz Dias Coelho


Quanto ao sentido da utopia, a especialista não tem dúvidas: “a utopia é hoje vista como uma estratégia de pensamento prospectivo e holísticoQuanto ao sentido da utopia, a especialista não tem dúvidas: “a utopia é hoje vista como uma estratégia de pensamento prospectivo e holístico “A intenção de More é não apresentar as ideias de Hitlodeu e a sociedade utopiana como modelares, esperando que o leitor seja capaz de um exercício de reflexão crítica sobre os aspectos positivos e negativos dessa sociedade”, diz Fátima Vieira, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto especializada em estudos sobre a utopia.

No ano em que se assinalam 500 anos da sua publicação, a Utopia continua a ser lida, discutida e analisada, e encontra-se em qualquer biblioteca como clássico da literatura. E a sua mensagem, dizem os especialistas com quem falámos, continua a fazer sentido hoje: existem alternativas ao que está instituído.

“É um texto de grande amplitude, de abertura, de descoberta de caminhos, que até àquela altura não havia na cultura europeia”, diz Manuel Frias Martins, professor de Cultura Renascentista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Uma sociedade em que nada é de ninguém – tudo é de todos.

Em que o bem-comum é mais precioso do que o bem individual. Em que a guerra é abominada e a caça é tida como loucura. Em que o ouro e outros metais ditos preciosos não têm valor. Em que um dia de trabalho tem seis horas, uma noite de sono tem oito e o resto do tempo é ocupado por cada um como entender. Assim é na ilha da Utopia, objeto central da obra homónima de Thomas More publicada em 1516, antítese da sociedade europeia do século 16.

More nasceu em 1477 (ou 1478, segundo alguns historiadores), em Londres. Foi advogado, chanceler de Henrique VIII e fez parte da Câmara dos Comuns. Em 1515, baseado em A República de Platão, começa a planear a redação da Utopia. Depois de uma visita a Londres do seu amigo Erasmo, autor de Elogio da Loucura, More envia-lhe o texto terminado. Erasmo, alegadamente sem o autor saber, entrega o texto ao impressor Thierry Martens de Lovaina, que o pública.

Redigida em latim, a Utopia, escreveu José de Pina Martins no estudo introdutório à edição da obra de More da Fundação Calouste Gulbenkian (2006), é “um escrito fundamental do humanismo”. “O ser humano encontra-se no centro do mundo e está nas suas mãos decidir o seu destino”, explica Fátima Vieira. “Não poderia nunca ter sido escrita na Idade Média, quando se acreditava que o destino havia sido já decidido por Deus”. A obra é escrita num tempo novo, em que o homem europeu encabeça os Descobrimentos, que revelam povos desconhecidos, ideias e costumes diferentes, novas possibilidades. É de Portugal, um dos países protagonistas dessas viagens intercontinentais, que vem a personagem central da obra — o navegador Rafael Hitlodeu, que dá a conhecer a ilha da Utopia. A obra, classifica Pina Martins, é um texto “do humanismo renascentista”.

Mas a obra é, também, reflexo de um contexto de acentuadas desigualdades sociais, em que direitos e liberdades estavam longe de ser uma garantia. E assim, Utopia — que é “obviamente uma obra de ficção, mas com um grande contributo para o pensamento filosófico”, diz Fátima Vieira — desenvolve-se em dois livros: o primeiro traça um olhar crítico sobre a época e o segundo dá a conhecer a ilha visitada por Rafael Hitlodeu.

A modernidade da obra

A Utopia é uma obra marcada pela realidade, mas também pela ficção. O primeiro livro trata da realidade – More faz um retrato crítico da Inglaterra (e da Europa) do ponto de vista social, político, económico e religioso. “É um olhar de alguém que sofre com aquele que sofre, um olhar sobre aquele que tem de roubar porque tem fome. More critica as estruturas do Estado exatamente porque acabam por promover o roubo e, em vez de castigar, deviam de facto reorganizar a própria sociedade de maneira a evitar que houvesse pobres e fome”, elucida Manuel Frias Martins. Para o académico, More é, assim, “um dos grandes humanistas que anunciam a modernidade”.

O livro II é integralmente dedicado à ilha da Utopia, à sua organização e aos seus princípios. É, segundo Fátima Vieira, “perfeita ficção”, denunciada pelo próprio navegador que, tal como a ilha, é imaginário. Outros indícios, como os nomes e a sua etimologia, contribuem para essa mesma ideia: a ilha – Utopia, neologismo criado por More que significa “não-lugar” –, a capital – Amauroto, “cidade sem habitantes” –, o rio – Anidro, “rio sem água” –, e o príncipe – Adamos, “chefe sem povo”.

“Todo este jogo é agravado pelo facto de o próprio nome do viajante utópico, Rafael Hitlodeu, conter também uma contradição: se, por um lado, Rafael nos lembra o arcanjo Rafael, portador da ‘cura divina’, por outro lado a etimologia grega de ‘Hitlodeu’ aponta para o facto de ele ser um ‘perito em bagatelas’”, diz Fátima Vieira. Em Utopia, esclarece, há constantes contradições. Mas como interpretá-las? “Todas estas contradições remetem a ilha da Utopia para o plano das ideias, para o plano meramente teórico, e era isso que More pretendia”, explica Fátima Vieira, que preside a Utopian Studies Society/Europe, uma associação interdisciplinar dedicada a estudos sobre o pensamento utópico e que está a preparar várias iniciativas para assinalar os 500 anos da obra de More.
É justamente no livro II que a inovação de More é visível – e acentua-se quando nos apercebemos de que vários princípios da sociedade utopiana, a que continuamos a ambicionar hoje, não são ainda uma realidade em muitos pontos do globo.

A sociedade utopiana é “uma democracia, visto que são os cidadãos que elegem os seus representantes”, diz Paulo Tunhas, professor de filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. “Mas é uma democracia que tem componentes totalitárias. É, indiscutivelmente, um sistema fechado”, como evidenciam alguns princípios: “não se pode, por exemplo, sair de uma zona do território para outra sem autorização”. Numa época de monarquias, a ilha da Utopia tem um sistema político baseado na vontade do povo. “É uma nova forma de fazer política, em que todos os cidadãos podem participar”, explica Mónica Dias, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Para que isso seja possível, More “apresenta o ideal educativo – o acesso de todos à educação é uma das facetas mais importantes da ilha”.

A obra de More tem, além disso, um importante papel na área do Direito. “Há uma ideia de Estado de Direito marcada – as pessoas não são condenadas pela arbitrariedade e pela vontade de um príncipe, há leis conhecidas e respeitadas por todos”, nota Mónica Dias.

O autor inglês não esquece, também, a religião e dedica-lhe um capítulo. Na ilha da Utopia há liberdade religiosa (ainda que existam algumas crenças obrigatórias, como a imortalidade da alma) – “isto é a aceitação da diferença, é a modernidade”, advoga Frias Martins.

Mas para o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a modernidade de Thomas More relaciona-se principalmente com a ideia de “identificar a propriedade privada como o cerne das desigualdades sociais”, diz. É por isso que o autor cria na sua Utopia uma sociedade em que a propriedade privada não existe. “O iluminismo do século 19 vai beber à Utopiamuitos dos seus ideais e sobretudo o modo como vai ler os males sociais. Vai propor correções dos males sociais em termos de reorganização política da sociedade.”

Como Fátima Vieira observa, durante muito tempo pensou-se que More propôs a abolição da propriedade privada, “e por isso foi muitas vezes descrito como um protocomunista”, mas a académica defende que não se pode olhar para Rafael Hitlodeu como um porta-voz de More. “Essa ideia da ausência de propriedade privada de que Rafael Hitlodeu fala ao descrever a ilha da Utopia, não é necessariamente uma proposta defendida por Thomas More”, diz. “A ideia de olhar para o livro e associar-se ao pensamento comunista é típica do século 19 e do século 20, mas é errada porque se está a confundir a ideia de utopia – a ideia de pensar uma alternativa – com as idealizações dessa utopia.”

Mónica Dias defende que não é possível ver um paralelismo directo entre o princípio de abolição da propriedade privada expresso em Utopia e o princípio teorizado no socialismo que surge apenas no século 19, num contexto filosófico, económico e social muito diferente. “Os socialistas não vão, aliás, buscar essa ideia a More, vão sim a Platão, em A República, e a outros filósofos”, advoga.

A docente do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa rejeita comparações entre o socialismo científico enunciado por Karl Marx e Friedrich Engels no século 19 e o texto de Thomas More. “O socialismo científico do século 19, de Karl Marx e Friedrich Engels, aponta para uma sociedade perfeita num fim da História – onde a utopia já não seria necessária — e por isso apela a algo mais drástico, uma revolução – uma alteração total do sistema social —, que não é o que More queria”, afirma Mónica Dias.

“Podemos dizer é que, da mesma maneira que Thomas More olhou para a sua sociedade, viu que havia desigualdades e escreveu Utopia apresentando uma forte crítica social e mostrando que havia um caminho alternativo, os reformistas sociais do século 19 olharam para a sua sociedade e propuseram reformas sociais”. Foi o caso de Robert Owen, reformista britânico considerado um dos rostos do socialismo utópico e que, entre outras medidas, propôs melhorias para as condições de trabalho. “Thomas More nunca foi um revolucionário [como Marx e Engels], foi um reformista. Não escreveu um manifesto [como Marx e Engels], mas uma obra literária.”

More destina ainda um capítulo à guerra, considerada pelos utopianos como “bestial”. Homens e mulheres estão preparados para combater, caso seja necessário, mas na ilha da Utopia a guerra é sempre encarada como uma medida de último recurso. “Esta ideia de paz, por oposição à guerra, é uma ideia que começa no final da Idade Média e avança no Renascimento. O Humanismo é-lhe muito sensível. O século 16 é o século das guerras religiosas, e portanto a questão da paz acaba por ser um elemento central de quem se interessa por pensar o seu tempo. A questão da guerra é, de facto, a questão da paz, ou seja, a valorização da paz e a crença de que a guerra é um desiderato anti-humano, anti-social e anti-bem comum”, explica o professor de Cultura Renascentista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

As convicções religiosas de More viriam a ser, aliás, o motivo da sua morte. Em 1531, o rei inglês Henrique VIII, que queria casar com Ana Bolena, proclama-se Chefe Supremo da Igreja, depois de o Papa Clemente VII lhe negar o divórcio de Catarina de Aragão. More, que não reconhece Henrique 8 como chefe da Igreja e se opõe ao divórcio, é condenado à morte por traição. É decapitado em 1535 e a sua cabeça exposta na Torre de Londres.

As utopias para além da Utopia

Apesar de não ser o primeiro texto sobre um ideal utópico, Utopia — uma palavra criada por More — viria a inaugurar uma tradição de obras que foram, depois, publicadas à luz de uma génese comum: a proposta de projetos alternativos para a sociedade. Para se proteger, Thomas More escreveu de maneira a que fosse sempre “Rafael Hitlodeu a fazer a apologia dessa ordem alternativa” e não o autor propriamente dito, diz Fátima Vieira, que explica que “o género literário utópico, em virtude desta estratégia narrativa, permite a crítica e a passagem de uma mensagem subversiva, tendo por isso conhecido grande pujança, ao longo destes cinco séculos, em tempos de opressão”.

À obra de Thomas More seguiram-se outras utopias renascentistas e, já no século 17, em 1624, Nova Atlântida, do britânico Francis Bacon aparece como a primeira utopia científica, em que “a base do progresso da sociedade é assegurada por avanços científicos”, afirma a professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Hoje, Nova Atlântida é “considerada fundadora de um género literário muito próximo do utópico: a ficção científica”.

No século 18, a presidente do ramo europeu da Utopian Studies Society destaca As Viagens de Gulliver do irlandês Jonathan Swift, publicada em 1726. “São paradigmáticas de uma atitude cínica em relação à ideia de possibilidade de aperfeiçoamento do ser humano e dos modos de organização em sociedade – é um bom exemplo de uma utopia satírica”. Mas nesse século houve também “um movimento mais positivo, informado pela visão iluminista do ser humano, e que se estende pelo século 19. No século 18 encontramos um conjunto de utopias que, na lógica do pensamento iluminista, nos falam de um futuro de felicidade. São, nessa medida, ‘eucronias’. Memoirs of Planetes (1795), de Thomas Northmore, é um bom exemplo de uma utopia que vê o futuro como forçosamente melhor do que o presente”.

As utopias do século 19 apostam na educação — “confiava-se que a sociedade melhor surgiria como reflexo de um indivíduo melhor”, esclarece Fátima Vieira. É neste século que, no contexto da Revolução Industrial e da “agudização do conflito de classe”, surgem as utopias marxistas. Entre elas, a professora destaca Notícias de Lugar Nenhum (1890), do britânico William Morris, em que “a revolução, abolindo todas as formas de propriedade privada, liberta o indivíduo para uma forma de vida mais solidária”, elucida.

A partir da ideia de utopia surgiram variantes, como a distopia. O século 20 ficou precisamente marcado por distopias, entre as quais se destacam várias obras dos britânicos H. G. Wells, Aldous Huxley e George Orwell e do russo Yevgeny Zamyatin. Nas décadas de 60 e 70 houve, porém, “um revivalismo utópico de feição feminista e ecologista”, nota Fátima Vieira. Foi nessa conjuntura que surgiram obras como Ecotopia (1975) de Ernest Callenbach ou Woman on the Edge of Time (1976) de Marge Piercy.

A especialista em estudos sobre utopia esclarece, no entanto, que as distopias não são necessariamente pessimistas, uma vez que não são antónimas das utopias. “A percepção que temos da distopia mudará se a entendermos como um aviso – a ideia de que aquele é um caminho que não devemos seguir – que ainda vamos a tempo de ouvir.”

Fátima Vieira nota que, nos últimos anos, várias obras têm apontado “para uma redefinição da utopia literária”, entre as quaisUtopia III (2006) do português José de Pina Martins, Inglaterra, uma Fábula (1999) do argentino Leopoldo Brizuela ou A Ilha da Mão Esquerda (1995) do francês Alexandre Jardin. “Estas obras são meta-utópicas, isto é, são exercícios de reflexão sobre o pensamento utópico, e buscam revalidar a utopia como estratégia para a construção do futuro. Cada uma das obras revisita uma obra utópica e atualiza-a para os nossos dias. O que sai valorizado dessas obras é a utopia enquanto estratégia, considerada válida hoje, como ontem, para a imaginação de formas de organização alternativa da sociedade.”

O lugar das utopias

Hoje, importa perceber qual é o lugar e o sentido de Utopia e das utopias em geral. Manuel Frias Martins acredita que as utopias existem “para serem perseguidas” e que devem ser concretizadas “em alguns dos seus ideais”, mas alerta para os seus perigos: “Costumo dizer que se alguma vez uma utopia se realizar, realiza-se sempre como tragédia. Porque a utopia não é realizável, por isso é que é uma utopia. Implementar uma utopia como objectivo final significa eliminar diferenças dentro da própria utopia e eliminar diferenças só se faz através da repressão da diferença. Que, neste contexto, é exactamente o contrário da utopia. Se isso acontecer, estamos perante tragédias que envolvem a morte de milhões de pessoas”.

Paulo Tunhas acredita que “a associação entre utopias e sistemas totalitários desfez o impulso utópico” e defende que a palavra “utopia” é, hoje, “utilizada num sentido muito vago”. “Hoje em dia reivindica-se a utopia, o direito à utopia, como se a utopia fosse uma coisa fácil, digamos assim”, acrescenta.

Fátima Vieira considera que já passou o tempo “dos grandes planos para a transformação do mundo, como os que foram oferecidos no século 19”. Ainda assim, “o desejo de mudança continua”, diz. A especialista em estudos sobre a utopia destaca as leituras do sociólogo francês Michel Maffesoli, que defende que existem hoje utopias intersticiais: “As utopias não existem como grandes planos, mas existem como pequenos planos, em micro-utopias que vão sendo realizadas. Quase não se dá por elas, mas vão efetivamente contribuindo para alterar o mundo.” Fala ainda do filósofo francês Gilles Lipovetsky que acredita, por sua vez, que nos nossos dias são comuns as “utopias individuais, decorrentes da consciência de que a transformação coletiva poderá decorrer da ação de indivíduos comuns, formando redes”.

Quanto ao sentido da utopia, a especialista não tem dúvidas: “a utopia é hoje vista como uma estratégia de pensamento prospectivo e holístico. Na verdade, o raciocínio utópico parte do entendimento de que as sociedades funcionam como sistemas e que, por isso, cada vez que for alterado um dos aspectos desse sistema (por exemplo, o económico), todos os outros aspectos serão afetados.” Fátima Vieira remete para um vídeo publicado no YouTube*, no qual o escritor uruguaio Eduardo Galeano descreve “a forma exemplar como o realizador de cinema argentino Fernando Birri terá explicado para que serve a utopia: a utopia é algo que colocamos no nosso horizonte, damos dez passos e ela afasta-se dez passos, damos mais dez passos e ela afasta-se outros dez. Mas é para isso mesmo que ela serve – para nos fazer caminhar”.


Fonte: Blog do Rogério Cerqueira Leite

http://www.vermelho.org.br/noticia/276827-11

Um poema para Francisca

26 de fevereiro de 2016 - 17h04 

O poeta Claudio Daniel enviou com exclusividade ao Vermelho um poema em homenagem à líder quilombola Francisca das Chagas Silva, assassinada com requintes de crueldade no interior do Maranhão no começo do mês de fevereiro. 

Francisca Chagas era dirigente quilombola no interior do Maranhão A cena da dirigente morta, o corpo nu, com sinais de estupro, estrangulamento e perfurações, chocou o país e movimentos sociais de diversos segmentos se mobilizaram em defesa da luta da mulher no campo. Para a presidenta da CTB do Maranhão, Isis Tavares Neves, “O simbolismo desta imagem, é do escárnio de como são tratadas as reivindicações e a luta das mulheres para serem vistas, tratadas e respeitadas na lei e na vida como seres humanos”. 

Claudio Daniel, por sua vez, expressou sua indignação como costuma fazer com mestria, através da poesia. Leia na íntegra o poema Retrato IV em homenagem à Francisca, e à luta da mulher camponesa. 

Retrato IV

(Francisca Chagas da Silva)

Pedras queimadas
na crueza 
do abandono
tuas disformes formas
marcadas 
a cutelo.
Pele dispersa 
arroxeada 
de corpo inânime
esfiapada
entremostrada
em febras 
de açougue.
Despejada 
na lama, 
como dejeto: 
um aviso 
do quebra-ossos
para que ninguém 
reclame.
Mundo 
desmundo
de mortes 
emudecidas
onde olhos
se fecham
para o flagelo
mais cegos 
que a noite
mais cegos 
que a morte
de indistintas 
estrelas —
apenas os corvos 
crocitam, 
apenas os corvos
— cachorros do céu —
desenham, 
com suas vozes
desconexas
a cena do mais 
absoluto
horror.

Claudio Daniel, 2016 

Do Portal Vermelho

http://www.vermelho.org.br/noticia/276840-11

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Sidónio Muralha – “Três poemas

* Sidónio Muralha 
17.01.2012

Companheira dos homens
I
A poesia dos senhores que propagam o nevoeiro e confundem as gentes
poesia tão pessoal como uma escova dos dentes,
a poesia que eles queriam guardar nas suas casas
numa gaiola, como um pássaro a quem mutilassem as asas,
a poesia quebrou as algemas e saiu da prisão
e arrastou-se nas trincheiras, e dormiu nos campos de concentração,
e amou aqueles que negam mas que nunca se negaram,
e conheceu prostitutas que nunca se entregaram,
e comeu na malga dos soldados aquela sopa de massa
que é igual para todos como o pré e a desgraça.
E os homens aprenderam nas noites de inclemência
a cantar os seus versos, a recitá-los de cor,
e a murmurá-los nessas horas em que tudo é confidência
e em que cada palavra ganha uma ressonância maior.
II
O medo faz calar as aves nas florestas densas
mas as canções dos homens faze-as mais largas, mais intensas,
mais impetuosas, mais rudes, canções que ferem e espantam
pois com o medo as aves calam-se e os homens gritam e cantam.
E a canção é um homem que percorre o Mundo lés a lés
gesticulando com os seus próprios braços, andando com os seus próprios pés,
grito que vai de continente em continente implacável e forte
e que passa as fronteiras sem precisar de passaporte.
Canções robustas e lavadas que se levantam cedo
e bebem a madrugada e têm o fôlego dos atletas,
porque enquanto as aves se calam, estranguladas pelo medo,
o medo, como uma faca, rasga os corações dos poetas.

III
E os poetas dão-se as mãos como se encontram as poesias
e se encontram as exigências de duas refeições todos os dias.
Que todos temos os mesmos problemas, as mesma fúrias e dores,
e todos pagamos o mesmo juro nas casas de penhores,
e todos falamos a mesma língua terrena, viva, saborosa e agreste
e deixamos aos anjos a linguagem celeste,
e todos transportamos tijolos para a casa começada
e lhe rasgamos as janelas e a desejamos arejada,
e todos temos um estômago e temos um coração
que bate compassadamente a mesma inquietação.
Inquietação presente nas coisas, nos gestos e no ar,
inquietação que remexe ou que paira, ameaçadora e tamanha,
como um polvo que se revolve no fundo do mar
ou um grão de dinamite incrustado na montanha.



http://www.estudioraposa.com/index.php/17/01/2012/sidonio-muralha-tres-poemas/

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Ferreira Fernandes - A publicidade a Costa? Passos encarrega-se



* Ferreira Fernandes


Matos Correia, vice-presidente do PSD, disse ontem: "Não vou descer ao nível do senhor primeiro-ministro." E ainda: "Não estamos num comício, senhor primeiro-ministro!" Naturalmente, foram palavras que caíram bem aos do Governo.

Talvez Santos Silva, Centeno e o próprio António Costa aplaudissem de pé se a tal palavra, composta, não tivesse sido repetida, ontem e hoje, à exaustão. Houve um deputado da oposição que no seu discurso a disse 9 vezes: "primeiro-ministro". Com hífen e tudo. Se Costa aplaudisse de cada vez que é tratado pelos adversário por aquilo que é, não faria outra coisa... Hoje. Porque ainda há pouco não era assim.

Hoje, "primeiro-ministro" passou a palavra corriqueira na boca dos deputados da direita. Mas ainda há dois meses era tabu. Lembram-se, em dezembro, de Passos Coelho a evitar? "Este Governo, assim como o seu chefe..." Ou Portas só a usar seguida de acinte? "Senhor primeiro-ministro, vírgula, mas senhor primeiro-ministro que o povo não escolheu"... Pronto, agora já existe. Mas, convenhamos, era escusado a oposição dar pretextos destes para os Governo encher o peito.

Outra palavrinha: geringonça. Desnecessária, a menos, claro, que a direita faça mesmo questão de promover o adversário. Atenção, em si, gosto da palavra. Gosto de palavras que, quando as pensamos fora de prazo, ressuscitam. Um dia, Freitas do Amaral, em discurso que defendia o contrário do que eu pensava, disse: "Que topete!" Adorei. Desde Eça que não ouvia "topete". Há poucos anos, Eduardo Catroga disse: "pentelho." Voltei a gostar. Vale muito mais do que a horrível "minudência." Minudência é daquelas palavras que se enrolam na língua. A palavra pentelho, não.

Geringonça é caranguejola. Gosto, já o disse, da palavra. Começou por me lembrar aqueles brinquedos antigos de lata. Havia-os em carrinhos e lambretas, mas o meu preferido era o carrossel. Muito miúdo, tive um na mão, antes de os conhecer numa feira popular, comigo lá dentro. Mas geringonça é engenhoca que funciona mal. Na tal feira, fiquei uma eternidade de cabeça para baixo numa roda gigante. O motor da geringonça tinha pifado.

Assim, quando a oposição começou a chamar geringonça a este governo, o sangue subiu-me à cabeça. Suspeitei que o Governo não ia lá. Tomava posse mas caía logo no parlamento. Ou, pelo menos, ficava suspenso, com o povo de cabeça para baixo, sem orçamento... Bom, o facto é que foi indigitado, tomou posse, passou no parlamento e, hoje, o OE 2016 vai ser aprovado.

Estas dois episódios à volta das palavras "primeiro-ministro" e "geringonça" acabaram por servir de propaganda ao Governo. Não é esquisito? A insistência neles faz-me até desconfiar. E se for mesmo propaganda, encapotada, mas decidida desde o início com a intenção de promover o Governo?

Lembro que a publicidade, às vezes, vai por caminhos ínvios. O cientista francês Antoinie Parmentier (1737-1813) era adepto da batata, quando esta era mal vista, tida por propagar a peste. Então, Parmentier semeou batata no arredores de Paris e pôs os campos guardados por tropa, de dia, e abandonados, à noite. Entretanto, difundiu que aquilo era proibido. Acicatado, o povo colheu, comeu e gostou. E, hoje, o Metro de Paris tem uma estação chamada Parmentier, em homenagem ao grande difusor da batata.

E se Passos Coelho, no fundo, só quer ter o nome numa estação do Metro de Lisboa?

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/a-publicidade-a-costa-passos-encarrega-se-5043732.htm

l

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Francisco Louçã - A biblioteca de Eco e os cinco minutos de jazz

 * Francisco Louçã
22 de Fevereiro de 2016, 12:39


As evocações homenegeatórias a Umberto Eco destacaram o filósofo que devolveu a curiosidade à filosofia, o escritor que se divertiu com os seus romances (havia nele um Salgari que nunca escondeu e que norteou a sua busca das terras incógnitas) e o homem cívico que compreendeu que a força de Berlusconi era só a nossa fraqueza, nossa, dos cidadãos desprotegidos perante o tumulto comunicacional e a perda de identidades que a pós-moderna cosmologia impõe. A vertigem do efémero era o ódio de Eco, como se pode compreendê-lo. Eco, como, entre nós, Eduardo Lourenço ou João Martins Pereira, ou Augusto Abelaira, ou Urbano Tavares Rodrigues, era o Montaigne de um tempo novo que ainda brande a modernidade contra o culto do flash, da cosmética e do pronto-a-vestir que dá conforto às transumâncias ideológicas.

Por isso mesmo, a biblioteca era a sua vida. Mas não qualquer biblioteca. Sem labirintos, como a do Nome da Rosa, embora talvez com esconderijos, porque os há sempre, uma biblioteca pessoal não deve ter mais de trinta mil livros, dizia Eco para si mesmo. É muito livro, não sei se ele os pensava poder ler todos, mais os que lá não estão e passam por nós. Na verdade, ler esses livros não é a medida de um bibliotecário, é simplesmente viver com eles, com o gosto da novidade, com o espírito do coleccionador, com o fascínio das ideias escondidas: quando lemos um bom livro nunca terminamos de o ler.

À sua maneira, José Duarte é também um bibliotecário de sons, um coleccionador de jazz, e que tem também um limite, embora o desafie sempre e já lá vão cinquenta anos, e com que graça e enlevo ele cuida dos seus sons, ninguém saberá contar o que lhe devemos. Começou ainda Salazar era vivo e lutava-se nas colónias, o Vietname era uma certeza para Washington e ninguém tinha ouvido falar de Pinochet, a Checoslováquia ainda não tinha sido ocupada. Continuou pelos anos fora, como se o som dele fosse o eco bom do que se ia passando no mundo. E não era? Quando ouvimos uma boa música nunca terminamos de a ouvir.

Os “5 minutos” foram de tudo e disseram quase tudo.  Mas não se pode ouvir tudo, mesmo que os arranjos que o “5 minutos de jazz” vai pondo no ar sejam como esses livros que adoramos, que tocamos e que lemos porque sabem mais do que nós. São eles que estão à nossa espera e que nos levam pela mão.

A biblioteca e o jazz são duas das respirações da vida. A vida é bela.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/02/22/a-biblioteca-de-eco-e-os-cinco-minutos-de-jazz/

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Adélia Pires - Mário

* Adélia Pires

O Mário é o que muitos considerariam uma personagem.

Surge de manhã muito cedo a deambular pela rua num passo bêbado a que os tiques da medicação combinada com o álcool o condenaram. Senta-se na esplanada do café em frente ao meu trabalho, bebe um café e interpela os que vão entrando para despacharem o vício da cafeína. Geralmente pede-lhes tabaco, ou uma moeda.

Conheço o Mário há muitos anos. Se o encontro de manhã ofereço-lhe um café por conta da moeda que me pede e graças a isso fui brindada com muitas conversas de cariz dadaísta nas madrugadas pré-laborais. Por vezes pergunto-lhe se quer comer alguma coisa, mas a resposta é sempre a mesma. Que não, que já comeu, que a mãe cozinha, mal, mas cozinha e que faz comidas pesadas que lhe atrapalham os vôos funambulares matinais. 

Os pais do Mário habituaram-se há muito à ideia de terem perdido um filho que não morreu. De vez em quando o pai calcorreia as ruas à procura do filho e quando o encontra o Mário desaparece por uns dias, às vezes semanas. Quando regressa vem com o cabelo curto, barba feita e roupas mais limpas.

Depois volta tudo ao mesmo. Os tiques de contorcionista voltam a assombrar as madrugadas dos clientes do café, os rabiscos furiosos em cadernos e livros técnicos saídos de um baú de meados do século passado espalham-se pelas mesas da esplanada e vejo-me brindada novamente com conversas lindíssimas, mas sem nexo aparente que tento acompanhar enquanto o Mário se senta sem convite à mesa onde tomo o café.

Um dia disse-me de manhã, com um sorriso seráfico, “menina gosto muito de si” e nesse mesmo dia à hora de almoço, depois de umas quantas cervejas, trocadas por moedinhas que outros lhe deram a troco de sossego, insultou-me com meia dúzia de palavrões cabeludos.

Não duvidei por um instante da sinceridade das suas palavras da alvorada.

Da última vez que o Mário desapareceu esteve ausente durante muito tempo e senti-lhe a falta.

Ontem depois do almoço quando regressava ao trabalho, imersa em pensamentos pouco poéticos, ouvi-o chamar-me “menina!”. Quando me virei vi um Mário diferente. Os tiques tinham-se atenuado, as roupas estavam mais limpas que o costume, embora cobertas de noites ao relento, o cabelo curto a barba feita, os olhos brilhantes e um sorriso de felicidade estampado no rosto. “Menina, tenho uma coisa para lhe dizer! Deixei de beber álcool” e para o provar, quem sabe, segurava na mão esquerda uma garrafa de água em vez da usual garrafa de cerveja. “Já fez um mês… mas a pressão é muito grande, sabe menina…”. Eu devolvo-lhe o sorriso e aperto a mão imunda que me estende. Partilhámos então um instante de felicidade e senti naquele momento que aquela era a mão mais limpa que alguma vez tinha tocado.

https://aventar.eu/2016/02/19/mario/#more-1247459

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Derek Walcott - Mañana, mañana

* Derek Walcott 

 Recuerdo las ciudades que nunca he visto 
exactamente. Venecia con sus venas de plata, Leningrado 
con sus minaretes de toffee retorcido. París. Pronto 
los impresionistas obtendrán sol de las sombras. 
¡Oh! y las callejas de Hyderabad como una cobra desenroscándose.

Haber amado un horizonte es insularidad; 
ciega la visión, limita la experiencia.
El espíritu es voluntarioso, pero la mente es sucia. 
La carne se consume a sí misma bajo sábanas espolvoreadas de migas,
ampliando el Weltanschauung con revistas.

Hay un mundo al otro lado de la puerta, pero qué inquietante resulta 
encontrarse junto al propio equipaje en un escalón frío cuando el alba 
tiñe de rosa los ladrillos, y antes de tener ocasión de lamentarlo, 
llega el taxi haciendo sonar una vez la bocina, 
deslizándose hasta la acera como un coche fúnebre—y subimos.



Derek Alton Walcott es un escritor de origen caribeño, nacido en el pueblo de Castries en la isla de Santa Lucía el 23 de enero de 1930. Se trasladó a Jamaica para cursar la carrera de Literatura en la Universidad de las Indias Occidentales. A los 23 años, fundó en Trinidad y Tobago el Taller Trinitario de Teatro, donde produjo sus primeras puestas en escena. Se mudó a Estados Unidos y comenzó a dar clases en más de una universidad, incluyendo Harvard. En el año 1992, Walcott fue galardonado con el Premio Nobel.
Su producción se divide principalmente entre la poesía, con casi 20 poemarios, y el drama, donde se cuentan alrededor de treinta obras de teatro, aunque también ha incursionado en otros géneros. Es un escritor capaz de generar intensas imágenes visuales y de sumergir al lector en un comprometido análisis de la cultura y la moral, ofreciendo una estructura elegante y cuidado. Entre sus libros de poemas destacan "Otra vida", "El reino de la manzana", "El viajero afortunado" y "Omeros"; este último es el nombre de su poema épico, pieza por la que muchos lo reconocen. De sus obras teatrales resalta "Sueño en la montaña del mono" y también resulta esencial su ensayo literario titulado "La voz del crepúsculo".

Lee todo en: Derek Walcott - Poemas de Derek Walcott http://www.poemas-del-alma.com/derek-walcott.htm#ixzz42ABADGBx

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

António Nobre - Ballada do Caixão

* António Nobre

O meu vizinho é carpinteiro, 
Algibebe de Dona Morte: 
Ponteia e coze, o dia inteiro, 
Fatos de pau de toda a sorte: 
Mogno, debruados de velludo 
Flandres gentil, pinho do Norte... 
Ora eu que trago um sobretudo 
Que já me vae a aborrecer, 
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo, 
Havia immenso que fazer!...) 
- Olá, bom homem! quero um fato, 
Tem que me sirva? - Vamos ver... 
Olhou, mexeu na caza toda... 
- Eis aqui um e bem barato. 

- Está na moda? - Está na moda. 
(Gostei e nem quiz apreçal-o: 
Muito justinho, pouca roda...) 
- Quando posso mandar buscal-o? 
- Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro: 
(Poz-se o bom homem a aplainal-o...) 

Ó meus amigos! salvo-erro, 
Juro-o pela alma, pelo céu! 
Nenhum de vós, ao meu enterro, 
Irá mais dandy, olhae! do que eu! 

António Nobre, in 'Só' 

http://www.citador.pt/poemas/ballada-do-caixao-antonio-nobre

António Nobre - Viagens na Minha Terra

* António Nobre


As vezes, passo horas inteiras
Olhos fitos nestas braseiras,
Sonhando o tempo que lá vai;
E jornadeio em fantasia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pai.
Que pitoresca era a jornada!
Logo, ao subir da madrugada,
Prontos os dois para partir:
- Adeus! Adeus! É curta a ausência,
Com campainhas a tinir!
E, dia e noite, aurora a aurora,
Por essa doida terra fora,
Cheia de Cor, de Luz, de Som,
Habituado à minha alcova
Em tudo eu via coisa nova,
Que bom era, meu Deus! Que bom!
Moinhos ao vento! Eiras! Solares!
Antepassados! Rios! Luares!
Tudo isso eu guardo, aqui ficou:
A paisagem etérea e doce,
Depois do Ventre que me trouxe,
A ti devo eu tudo que sou!
No arame oscilante do Fio,
Amavam (era o mês do cio)
Lavandiscas e tentilhões…
Águas do rio vão passando
Muito mansinhas, mas, chegando
Ao Mar, transformam-se em leões!
Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!
Os lavradores mailos filhos
A terra estrumam, e depois
Os bois atrelam ao arado
E ouve-se além no descampado
Num ímpeto, aos berros: - Eh! Bois!
E, enquanto a velha mala-posta,
A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeões, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta…
A gente segue e deixa-os sós.
Que pena faz ver os que ficam!
Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu:
Outros, passando a nosso lado,
Diziam: «Deus seja louvado!»
«Louvado seja!» dizia eu.
E, meiga, tombava a tardinha…
No chão, jogando a vermelhinha,
Outros vejo a discutir.
Carpiam, místicas, as fontes…
Água fria de Trás-os-Montes
Que faz sede só de se ouvir!
E, na subida de Novelas,
O rubro e gordo Cabanelas
Dava-me as guias para a mão:
Isso… queriam os cavalos!
Que eu não podia chicoteá-los…
Era uma dor de coração.
Depois, cansados da viagem,
Repoisávamos na estalagem
(Que era em Casais, mesmo ao dobrar…)
Vinha Sra. Ana das Dores
«Que hão-de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar…»
Oh! Ingénuas mesas, honradas!
Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir…
O cuco da sala, cantando…
(Mas o Cabanelas, entrando,
Vendo a hora: «É preciso partir.»)
Caía a noite. Eu ia fora,
Vendo uma estrela que lá mora,
No Firmamento português:
E ela traça-me o meu fado
«Serás Poeta e desgraçado!»
Assim se disse, assim se fez.
Meu pobre Infante, em que cismavas,
Porque é que os olhos profundavas
No Céu sem par do teu País?
Ias, talvez, moço troveiro,
A cismar num amor primeiro:
Por primeiro, logo infeliz…
E o carro ia aos solavancos.
Os passageiros, todos brancos,
Ressonavam nos seus gabões:
E eu ia alerta, olhando a estrada,
Que em certo sítio, na Trovoada,
Costumavam sair ladrões.
Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!
Fazer parte duma quadrilha,
Rondar, à Lua, entre pinhais!
Ser Capitão! Trazer pistolas,
Mas não roubando – dando esmolas
Dependuradas dos punhais…
E a mala-posta ia indo, ia indo.
O luar, cada vez mais lindo,
Caía em lágrimas – e, enfim,
Tão pontual, às onze e meia
Entrava, soberba, na aldeia
Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!
Lá vejo ainda a nossa Casa
Toda de lume, cor de brasa,
Altiva, entre árvores, tão só!
Lá se abrem os portões gradeados,
Lá vêm com velas os criados,
Lá vem, sorrindo, a minha Avó.
E então, Jesus! Quantos abraços!
- Qu’é dos teus olhos, dos teus braços,
Valha-me Deus! Como ele vem!
E admirada, com as mãos juntas,
Toda me enchia de perguntas,
Como se eu viesse de Belém!
- E os teus estudos, tens-me andado?
Tomara eu ver-te formado!
Livre de Coimbra, minha flor!
Mas vens tão magro, tão sumido…
Trazes tu no peito escondido,
E que eu não saiba, algum amor?
No entanto entrava no meu quarto:
Tudo tão bom, tudo tão farto!
Que leito aquele! E a água, Jesus!
E os lençóis! Rico cheiro a linho!
- Vá, dorme, que vens cansadinho.
Não adormeças com a luz!
E eu deitava-me, mudo e triste.
(- Reza também o Terço, ouviste?)
Versos, bailando dentro em mim…
Não tinha tempo de ir na sala,
De novo: - Apaga a luz! – Que rala!
Descansa, minha avó, que sim!
Ora, às ocultas, eu trazia
No seio um livro e lia, lia,
Garrett da minha paixão…
Daí a pouco a mesma reza:
- Não vás dormir de luz acesa,
Apaga a luz… (E eu ainda… não!)
E continuava, lendo, lendo…
O dia vinha já rompendo,
De novo: - Já dormes, diz?
- Bff! … e dormia com a ideia
Naquela Tia Doroteia,
De que fala Júlio Dinis.
Ó Portugal da minha infância,
Não sei que é, amo-te a distância,
Amo-te mais, quando estou só…
Qual de vós teve na Vida
Uma jornada parecida,
Ou assim, como eu, uma Avó? 


Paris, 1892

http://repositorio.uma.pt/bitstream/10400.13/610/1/MestradoLilianaMartins.pdf