quinta-feira, 16 de abril de 2020

Ho Chi Minh - Quatro meses, já

* Ho Chi Minh

"Um dia encarcerado:
Mil anos lá fora”.

Não é vã palavras
este provérbio antigo.
Quatro meses na cela
destruíram meu corpo
mais que dez anos de vida.
Quatro meses de fome,
quatro meses de insônia,
sem mudar de roupa
sem poder me lavar.
Abandonou-me um dente,
cabelos branquearam,
negro, magro, faminto,
vestido de sarna e de feridas.
Mas paciente sou,
duro, rijo,
sem recuar um palmo.
Materialmente miserável,
o moral, firme.


"Poemas do Cárcere" (ed. Laemmert, Rio, 1968), traduzido por Coema Simões e Moniz Bandeira 

Victor Jara - "Estadio Chile", ou "Somos Cinco Mil"

* Victor Jara

"Estadio Chile", o "Somos Cinco Mil", es el nombre común de un poema y canción no titulada y acreditada a Víctor Jara creada en los días previos a su muerte. Jara fue torturado y asesinado por el Ejército de Chile en Santiago con posterioridad al Golpe de Estado en Chile del 11 de septiembre de 1973. El lugar de su muerte fue el Estadio Chile, estadio renombrado luego de la dictadura militar como "Estadio Víctor Jara". (Wikipedia)

Somos cinco mil
nesta pequena parte da cidade.
Somos cinco mil.
Quantos seremos no total,
nas cidades e em todo o país?
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura!Seis de nós se perderam
no espaço das estrelas.Um morto, um espancado como jamais imaginei
que se pudesse espancar um ser humano.Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores
um saltando no vazio,
outro batendo a cabeça contra o muro,
mas todos com o olhar fixo da morte.Que espanto causa o rosto do fascismo!Colocam em prática seus planos com precisão arteira,
sem que nada lhes importe.O sangue, para eles, são medalhas.A matança é ato de heroísmo.É este o mundo que criaste, meu Deus?
Para isto os teus sete dias de assombro e trabalho?Nestas quatro muralhas só existe um número
que não cresce,
que lentamente quererá mais morte.Mas prontamente me golpeia a consciência
e vejo esta maré sem pulsar,
mas com o pulsar das máquinas
e os militares mostrando seu rosto de parteira,
cheio de doçura.E o México, Cuba e o mundo?Que gritem esta ignomínia!
Somos dez mil mãos a menos
que não produzem.Quantos somos em toda a pátria?O sangue do companheiro Presidente
golpeia mais forte que bombas e metralhas.Assim golpeará nosso punho novamente.Como me sai mal o canto
quando tenho que cantar o espanto!Espanto como o que vivo
como o que morro, espanto.De ver-me entre tantos e tantos
momentos do infinito
em que o silêncio e o grito
são as metas deste canto.O que vejo nunca vi,
o que tenho sentido e o que sinto
fará brotar o momento..."

(Victor Jara, Estádio de Chile, Setembro 1973)

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Somos cinco mil aquí.
En esta pequeña parte de la ciudad.
Somos cinco mil.
¿Cuántos somos en total en las ciudades y en todo el país?
Somos aquí diez mil manos que siembran y hacen andar las fábricas.

¡Cuánta humanidad con hambre, frío, pánico, dolor, presión moral, terror y locura!
Seis de los nuestros se perdieron en el espacio de las estrellas. Un muerto, un golpeado como jamás creí se podría golpear a un ser humano.
Los otros cuatro quisieron quitarse todos los temores, uno saltando al vacío, otro golpeándose la cabeza contra el muro, pero todos con la mirada fija de la muerte.

¡Qué espanto causa el rostro del fascismo!
Llevan a cabo sus planes con precisión artera sin importarles nada.
La sangre para ellos son medallas.
La matanza es acto de heroísmo.

¿Es éste el mundo que creaste, Dios mío?
¿Para esto tus siete días de asombro y trabajo?

En estas cuatro murallas sólo existe un número que no progresa.
Que lentamente querrá la muerte.

Pero de pronto me golpea la consciencia
y veo esta marea sin latido
y veo el pulso de las máquinas
y los militares mostrando su rostro de matrona lleno de dulzura.

¿Y México, Cuba, y el mundo?
¡Qué griten esta ignominia!

Somos diez mil manos que no producen.
¿Cuántos somos en toda la patria?

La sangre del Compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas.
Así golpeará nuestro puño nuevamente.

Canto, que mal me sales
cuando tengo que cantar espanto.
Espanto como el que vivo, como el que muero, espanto.
De verme entre tantos y tantos momentos del infinito
en que el silencio y el grito son las metas de este canto.

Lo que nunca vi, lo que he sentido y lo que siento hará brotar el momento...

—Víctor Jara, "Estadio Chile"


António José Forte - AZULIANTE

* António José Forte

Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho    e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome    a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e    ver no meio do deserto    o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito    eu sei choverá    muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa
        cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente

Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabes tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz     contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre     o estado
segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente     meu amor     de oriente a ocidente

Digo não     Eu digo não
digo o teu nome que diz não

No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão
                                                                           para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos

passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite    mil e uma noites de quem espera

Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir

No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase sobre a terra

tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua    eu a tempestade
de coração a coração
Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos    e este será o sinal

Poema de António José Forte [1931-1988]

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Gonçalo M. Tavares - Diário da Peste. Alguns idosos saem para a rua de forma ostensiva



* Gonçalo M. Tavares
Diário da Peste,
14 Abril

15.04.2020 às 7h22

Alguns idosos saem para a rua de forma ostensiva.
Há quem fale numa espécie de coragem alucinada.
Um quase suicídio, um para-suicida.
Nos mais velhos na rua, uma lucidez - mas com os olhos maiores do que o corpo.
Uma gula insólita, perigosa. Os velhos querem viver.
“Reino Unido. Chamadas para agência de apoio à vítima de violência doméstica disparam em todo o território”.
Aumentam os crimes na casa, diminuem no exterior.
Uma necessidade de violência que se desloca do interior para o exterior, do exterior para o interior.
Índia prolonga o fechamento em casa por tempo indeterminado.
E Argentina prolonga quarentena até 27 de abril.
Fazer o cálculo: talvez a violência geral do mundo seja uma variável fixa.
Se somarmos os crimes, dentro e fora, obteremos sempre o mesmo resultado.
É uma hipótese. Investigar isso.
Especialista em Homeopatia garante que “estímulo vibracional melhora os sintomas do coronavírus”.
Em quarentena mantenha o número de refeições, mas reduza as porções.
Ou: mantenha as porções, mas reduza as refeições.
No Rio de Janeiro, um militar idoso, um general, andava pela ciclovia com uma pistola na mão.
Tinha interrompido o isolamento em casa. Talvez já não aguentasse.
Estava com um surto, diziam.
Gritava que queria falar com os filhos.
Chegou mais tarde um dos filhos que o acalmou.
Orwell: “O importante não é mantermo-nos vivos, é mantermo-nos humanos.”
Cary Grant e Ingmar Bergman no filme “Notorius” de Hitchcock.
Um beijo de dois minutos, perseguição e suspensão mútua.
Um dos beijos mais longos do cinema.
Alguém comenta essa cena: tens três opções: ou me beijas, ou te beijo, ou nos beijamos.
Uma amiga do México conta que os jovens de classe média e alta fazem corona parties.
18-20 anos.
Mas alguns estão a morrer porque são obesos.
Comemos de forma desequilibrada, diz.
Comemos mal há muitos anos, diz ainda.
Uma entrevista de 2017 ao Papa Francisco.
O mau humor não é exemplo de santidade, afirma o Papa.
E diz: “às vezes pedem-me um exemplo de beleza simples, que ajude as pessoas a serem mais felizes.”
E o Papa levanta dois dedos e murmura: o sorriso e o sentido de humor.
O sorriso, sobretudo quando é gratuito, acrescenta.
“Governador do Rio de Janeiro infetado.”
O número de mortes em Nova Iorque ultrapassa as 10 mil.
Economia mundial vive a pior crise desde a Grande Depressão, avisa o FMI.
A palavra problema vem do grego.
Em grego problema significa promontório.
Uma elevação que entra pelo mar dentro. E também obstáculo.
À volta do problema não há chão, não há sítio para pôr os pés.
Podes discursar ou gritar, mas não te deves mexer.
Mantém-te quieto até encontrares a solução.
A solução é ter terra por baixo dos pés.
Não se cair enquanto se anda.
Eu faço equilíbrio num muro de 15 cm de altura.
A Jeri concorda com a cabeça não sei com quê, e a ferida da Roma melhora.
Eu depois fico parado e espero.
Não cair já é bom, os dias não estão para acelerações.
“Quero fazer uma confissão pessoal”, disse o Papa em 2017. “Todos os dias depois de rezar as orações principais, rezo a oração do mártir Tomás Moro para pedir sentido de humor.
Oração que começa de uma maneira que faz rir, diz o Papa, sorrindo:
“Dá-me Senhor, uma boa digestão.
Mas também algo para digerir”.
“Roger Waters emociona-se a tocar versão de John Prine, músico que a covid-19 vitimou.”
"Tenho saudades tuas, meu irmão", diz Roger Waters.
Rezar para pedir sentido de humor a Deus.
O incêndio perto de Chernobyl está controlado.
China promete não discriminar africanos que vivem no país.
China inicia testes clínicos de duas vacinas em seres humanos.
“Porque é que os países liderados por mulheres parecem responder melhor à crise do coronavírus”, uma reportagem.
Alemanha, Taiwan, Nova Zelândia, etc., como exemplos.
A repetição do amo-te, amo-te, é absurda - diz Barthes.
Mas não é absurda, diz Barthes, porque a linguagem nos apaixonados não é linguagem, é um toque de pele.
Parece que estão a falar, mas estão a tocar.
Nestes dias, isso é evidente.
Sul de Itália. Nápoles: filas enormes de homens pobres.
Uma fila em frente a uma igreja, são recebidos por homens protegidos de alto a baixo e vestidos de branco.
Entregam um saco de comida a cada um.
A igreja nos momentos duros deixa de ser um edifício e sai para o exterior.
Aumenta de comprimento, largura e altura.
Gosto destes versos do Nicanor:

“17 elementos subversivos
foram surpreendidos ontem
nos arredores de La Moneda
transportando laranjas”.

Que o dia nos dê boa digestão, mas também algo para digerir.

Pierre Perret - La Bête est revenue

* Pierre Perret



Sait-on pourquoi, un matin,
Cette bête s'est réveillée
Au milieu de pantins
Qu'elle a tous émerveillés
En proclamant partout, haut et fort :
"Nous mettrons l'étranger dehors"
Puis cette ogresse aguicheuse
Fit des clones imitatifs.
Leurs tirades insidieuses
Convainquirent les naïfs
Qu'en suivant leurs dictats xénophobes,
On chasserait tous les microbes.

Attention mon ami, je l'ai vue.
Méfie-toi : la bête est revenue !
C'est une hydre au discours enjôleur
Qui forge une nouvelle race d'oppresseurs.
Y a nos libertés sous sa botte.
Ami, ne lui ouvre pas ta porte.

D'où cette bête a surgi,
Le ventre est encore fécond.
Bertold Brecht nous l'a dit.
Il connaissait la chanson.
Celle-là même qu'Hitler a tant aimée,
C'est la valse des croix gammées
Car, pour gagner quelques voix
Des nostalgiques de Pétain,
C'est les juifs, encore une fois,
Que ces dangereux aryens
Brandiront comme un épouvantail
Dans tous leurs sinistres éventails.

Attention mon ami, je l'ai vue.
Méfie-toi : la bête est revenue !
C'est une hydre au discours enjôleur
Qui forge une nouvelle race d'oppresseurs.
Y a nos libertés sous sa botte.
Ami, ne lui ouvre pas ta porte.

N'écoutez plus, braves gens,
Ce fléau du genre humain,
L'aboiement écœurant
De cette bête à chagrin
Instillant par ces chants de sirène
La xénophobie et la haine.
Laissons le soin aux lessives
De laver plus blanc que blanc.
Les couleurs enjolivent
L'univers si différent.
Refusons d'entrer dans cette ronde
Qui promet le meilleur des mondes.

Attention mon ami, je l'ai vue.
Méfie-toi : la bête est revenue !
C'est une hydre au discours enjôleur
Dont les cent mille bouches crachent le malheur.
Y a nos libertés sous sa botte.
Ami, ne lui ouvre pas ta porte.
Car, vois-tu, petit, je l'ai vue,
La bête. La bête est revenue.

«Nuit et Brouillard» por Jean Ferrat


* Jean Ferrat

Ils étaient vingt et cent, ils étaient des milliers
Nus et maigres, tremblants, dans ces wagons plombés
Qui déchiraient la nuit de leurs ongles battants
Ils étaient des milliers, ils étaient vingt et cent

Ils se croyaient des hommes, n'étaient plus que des nombres
Depuis longtemps leurs dés avaient été jetés
Dès que la main retombe, il ne reste qu'une ombre
Ils ne devaient jamais plus revoir un été

La fuite monotone et sans hâte du temps
Survivre encore un jour, une heure, obstinément
Combien de tours de roues, d'arrêts et de départs
Qui n'en finissent pas de distiller l'espoir

Ils s'appelaient Jean-Pierre, Natacha ou Samuel
Certains priaient Jésus, Jéhovah ou Vishnou
D'autres ne priaient pas, mais qu'importe le ciel
Ils voulaient simplement ne plus vivre à genoux

Ils n'arrivaient pas tous à la fin du voyage
Ceux qui sont revenus peuvent-ils être heureux
Ils essaient d'oublier, étonnés qu'à leur âge
Les veines de leurs bras soient devenues si bleues

Les Allemands guettaient du haut des miradors
La lune se taisait comme vous vous taisiez
En regardant au loin, en regardant dehors
Votre chair était tendre à leurs chiens policiers

On me dit à présent que ces mots n'ont plus cours
Qu'il vaut mieux ne chanter que des chansons d'amour
Que le sang sèche vite en entrant dans l'histoire
Et qu'il ne sert à rien de prendre une guitare

Mais qui donc est de taille à pouvoir m'arrêter
L'ombre s'est faite humaine, aujourd'hui c'est l'été
Je twisterais les mots s'il fallait les twister
Pour qu'un jour les enfants sachent qui vous étiez

Vous étiez vingt et cent, vous étiez des milliers
Nus et maigres, tremblants, dans ces wagons plombés
Qui déchiriez la nuit de vos ongles battants
Vous étiez des milliers, vous étiez vingt et cent

Miguel Torga - Alentejo

* Miguel Torga

Alentejo!
Minha terra total!
Meu Portugal
Aberto,
Eternamente incerto
Nas fronteiras, no tempo e nas colheitas!
Minhas desfeitas
Praças fortificadas!
Minhas insatisfeitas
Correrias,
A contar no franzido das lavradas
As rugas tatuadas
No rosto dos meus dias...

terça-feira, 14 de abril de 2020

Jorge Sarabando - “Uma bomba a iluminar a noite do Marão”

Em tempos de confinamento, um livro que nos ajuda


“É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.”

“Uma bomba a iluminar a noite do Marão”
(Edições Afrontamento, Porto)

 Jorge Sarabando
Há 44 anos, um atentado bombista matou dois jovens transmontanos na flor da vida: Maximino de Sousa e Maria de Lurdes Correia. Foram vítimas do ódio político. O Padre Max, assim conhecido na comunidade, era tido como um Padre com ideias comunistas, e a Maria de Lurdes era uma jovem estudante, alegre e espontânea, a quem dera boleia.

Tratou-se de um crime político, planeado e executado por um comando da rede terrorista da extrema-direita, com apoios locais, que aconteceu numa fase já declinante do processo revolucionário, justamente em 2 de Abril de 1976, dia em que o Presidente da República, General Francisco da Costa Gomes, promulgou a Constituição, no momento seguinte à sua votação final.

O golpe de 25 de Novembro acabou com a fase mais criadora da Revolução. O Governo e a Assembleia Constituinte continuaram em funções, mas havia forças que pensavam poder ainda reverter o curso da História. O período entre Novembro de 75 e Abril de 76 foi dos mais violentos e mortíferos, tendo sido cometidos 97 atentados bombistas. Lembro o assassínio a tiro, na própria noite de 25 de Novembro, do operário vidreiro e sindicalista António Almeida e Silva, numa rua do Porto, a morte de Rosinda Teixeira, em Santo Tirso, de duas pessoas da Embaixada de Cuba, de um cidadão junto do CT Vitória, do PCP, em Lisboa, vítimas de explosões, sem esquecer, noutro quadro, a morte, por disparos da GNR, de quatro pessoas, numa pequena multidão que se manifestava pacificamente, no final do ano, junto à cadeia de Custóias, onde estavam detidos militares de esquerda, acusados de envolvimento no 25 de Novembro. Foi nessa época que ocorreu o atentado bombista na Câmara Municipal de Vila Real, que por pouco não atingiu o Presidente da Comissão Administrativa, Rogério Fernandes, conhecido militante do PCP e amigo do Padre Max. Foi na mesma altura que uma bomba destruiu o carro do médico de Chaves Maximino Cunha. O crime infame que vitimou o Padre Max e a estudante Maria de Lurdes não foi um caso isolado. 

Um dos méritos do livro de Daniela Costa é o de mostrar o outro lado da História, para além dos números, dos factos e da sua interpretação. São as pessoas, os seus sonhos, as vivências, as emoções, os desejos, os conflitos, o sofrimento, o enfrentamento de interesses, o entorno social, o caldeio de lutas, a miséria moral e a grandeza humana, os acasos e as causas, o encanto e o desencanto, a sordidez dos actos e a beleza da vida, a inquietação, a magia, o mistério, o egotismo e a generosidade e o amor em dádiva, tudo isto, e muito mais do que isto, flui na leitura de um texto que transcende o tempo e o lugar.

Outro mérito advém do modelo narrativo. A voz da autora desdobra-se em outras vozes, todas elas com densidade própria, coloração, respiração, e uma autenticidade que nos transporta às fragas do Marão e às lonjuras, ao cheiro da terra, e aos socalcos do Douro, lá onde a mão humana esculpiu a paisagem. Uma escrita com rara mestria que permitiria mesmo uma expressão cénica pois, uma a uma, em diferentes registos, como que se apresentam num proscénio.

Logo de início uma primeira figura, antecedendo as demais, assim fala: “Os meus dedos grossos de trabalho e velhice arranham-me as maçãs do rosto de cada vez que enxugo estas lágrimas que não me deixam”. E com isto se anuncia o dramatismo da acção.

Em outras falas se cruzam palavras como sonho, fuga, liberdade, que lembram aquele verso de Torga “ grandes serras paradas à espera de movimento”. E com isto se define a essência de uma contradição: a fixidez, a imobilidade do que está, e a mudança a que se aspira.

Outra figura diz detestar um quadro torto e uma sala desarrumada. E com isto revela a fonte do desajustamento que o incomoda: não é a desordem das coisas mas sim a desordem das pessoas que não aceitam a perpetuação das desigualdades.

As figuras sucedem-se cada uma com o seu testemunho. Sempre ausentes e sempre presentes lá estão o Padre Max e a Maria de Lurdes através das palavras de quem os conheceu, e amou ou odiou.

Lá vem aquela suposta avó, mulher do campo digna, honesta, carinhosa, a quem os filhos emigrantes permitiram uma vida melhor na cidade, e que tanto estimava o seu hóspede Padre Maximino.

Lá vêm os colegas da Lurdes e alunos do Padre Max, a quem este apoiava com aulas gratuitas para poderem prosseguir os estudos.

Lá vêm os sacerdotes amigos de Max, um mais compreensivo, outro mais distante.

Lá vem o prelado com suas blandícias, espelhando as contradições da Igreja.

E o cacique de direita e suas más companhias.

E o grande proprietário do Douro a quem um dia as trabalhadoras reclamaram o justo pagamento.

E uma colega que juntava a altura da sua condição social à baixeza dos seus sentimentos.

E o filho família, de raiva exposta e verbo radical, um tanto aventureiro.

E o activista sindical da UDP que lutava na empresa por melhores salários.

E gente da rede terrorista e dos interesses de classe que serviam.

E o advogado, corajoso e persistente, que não deixou cair o caso na obscuridade.

E personagens luminosas, por ideais e afectos, e outras sombrias, pela trama de ódios e violências.

Uma a uma chegam ao proscénio e falam, os discursos não se cruzam mas vão construindo um quadro. Os percursos pessoais, as relações humanas, onde não falta um enredo amoroso e, em fundo, o eco de lutas sociais, pela devolução dos baldios aos povos, pela justa paga do trabalho nas vindimas e na apanha da azeitona, ou em torno da Gestão da Casa do Douro.

Foi a época das grandes manifestações, como a que foi organizada pela Igreja, com pretexto no caso da Rádio Renascença, mas que, talvez por diligências do PCP, designadamente junto do Bispo, e um Apelo dirigido aos cristãos de Vila Real, não causou violências, como, entre outras cidades, aconteceu em Braga, onde o Centro de Trabalho foi destruído.

Ou a manifestação em Lame

go contra os militares do MFA da Comissão de Gestão da Casa do Douro. “Nem Cunhal nem Pardal” era o grito de guerra de uma multidão arrebanhada pelos caciques e que chegou à Assembleia Constituinte pela voz de um deputado da região.

Cenas da luta de classes em Trás-os-Montes, dir-se-á. O livro de Daniela Costa é isto, mas é muito mais do que isto, porque tem o dom da boa literatura: desde início a leitura nos prende e logo nos transporta e nos situa num outro mundo, e nos coloca dentro de uma história, como se tivéssemos também conhecido e convivido com o Padre Max, um jovem bom, generoso, um cristão convicto, um homem de fé.

Falámos das vítimas, falemos agora da rede terrorista a que já nos referimos, responsável por 566 actos violentos, entre Maio de 75 e Abril de 77, entre os quais 310 atentados bombistas e 194 incêndios e assaltos, tendo como alvo forças de esquerda e o movimento sindical.

Quem a constituía? O ELP, o MDLP, a rede Maria da Fonte e outras organizações congéneres, que tinham como base logística a Espanha franquista, onde actuavam com nomes de fachada como a empresa Tecnomotor ou a Fundação Nossa Senhora de Fátima. Uma das melhores fontes para conhecer este mundo sórdido é o livro de Maria José Tíscar “A contra-revolução no 25 de Abril” (edições Colibri).

Quem a dirigia? Inicialmente antigos dirigentes da PIDE como Barbieri Cardoso e Cunha Passo, ou o inspector Meneses Aguiar ou o legionário Rebordão Esteves Pinto, a que se juntou depois a corte spinolista que fugiu para Espanha, após o golpe falhado de 11 de Março.

Quem eram os efectivos? Antigos agentes da PIDE e legionários, alguns colonos inconformados, mercenários, fascistas convictos, gente a mando dos caciques, um certo lumpen de fácil recrutamento.

Quem os financiava? Banqueiros e grandes empresários que nunca aceitaram o 25 de Abril e muito menos o rumo socialista que tomou e veio a ser consagrado na Constituição, além de conhecidas agências de países da NATO.

Os crimes foram punidos? As primeiras prisões são do verão de 76, efectuadas pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária, mas poucos foram os autores morais e materiais presos e menos os condenados. Em geral beneficiaram de uma teia de cumplicidades que lhes permitiu encontrar boas soluções de vida, e alguns vieram até a ser distinguidos pelo poder político emergente.

Houve mesmo quem publicasse livros em que se gaba dos seus feitos. Foi o caso de um tal Manuel Gaspar, de quem o jornalista Ricardo Saavedra escreveu as memórias (O Puto, edições Quetzal). Depois de ter participado no golpe racista de 7 de Setembro de 74 em Moçambique, donde era natural, e na marcha até Luanda com as forças sul-africanas que tentavam impedir a independência de Angola em 11 de Novembro, sob a direcção do MPLA, desembarcou em Portugal, onde logo entrou ao serviço da rede terrorista. É um dos participantes confessos no assassínio do Padre Max e da Maria de Lurdes que, nas pgs, 337 a 340, descreve com detalhe. É um relato impregnado de cinismo onde defende, como é habitual nestes casos, que a intenção não era matar mas apenas assustar. Começa, com certo gáudio, a descrever a cena em que “à hora certa”…”lá vinha Maria de Lurdes, toda fresca e radiante nos seus dezoito ou dezanove anos”, para terminar explicando as mortes: “Só que o destino do casal, infelizmente, estava traçado, e contra o destino não há planos que resistam”. Por curiosidade se acrescenta que o indivíduo esteve preso em Alcoentre, por outras acusações, donde fugiu passado pouco tempo.

No mesmo livro se transcreve um artigo do jornal fascista A Rua, de 8 de Junho de 77, onde se fazia a afirmação de que a Maria de Lurdes estava “grávida de 3 meses”, que ficou provado, mais tarde, ser uma abjecta calúnia.

O fascismo não é coisa do passado, está de regresso e em força. Há uma direita tradicional, que se move no campo democrático, que tem da violência fascista uma visão instrumental pelo que possa ser útil para os seus interesses de classe. Tende a contemporizar ou condescender porque teme, acima de tudo, o ascenso revolucionário que a crise do capitalismo possa gerar nas classes trabalhadoras. A grande burguesia, a alta finança, têm com as organizações fascistas laços de cumplicidade e mesmo vínculos orgânicos, muito resguardados. Como aconteceu nos anos 20 e 30 com os resultados conhecidos. Como aconteceu em Portugal nos anos da Revolução. Como hoje vai acontecendo na Europa ou no continente americano.

O livro de Daniela Costa, para além do valor literário que tem, é um contributo mais para conhecer a revolução e a contra-revolução no Portugal de Abril.

É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.

Jorge Sarabando
Abril de 2020
Via: as palavras são armas

António Cícero - O famoso poema ‘Carpe diem’, do poeta romano Horácio

  * António Cícero


   Virgil, Horace and Varius in Mecene's home. Painting by Charles Francois Jalabert (1819)

“Carpe diem”
– por Antônio Cícero*


UM DOS poemas mais famosos do poeta romano Horácio é a ode 1.11. Nela, dirigindo-se a uma personagem feminina, Leucônoe, o poeta lhe diz que não procure adivinhar o futuro:

Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.


[Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.]


A frase “carpe diem” tornou-se um aforismo epicurista e um tema poético a que inúmeros poetas recorrem. No Brasil, por exemplo, Gregório de Matos, imitando um famoso poema de Góngora, diz, em soneto dedicado a uma “discreta e formosíssima Maria“:

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca o Sol, e o Dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Ó não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.


O soneto mencionado de Góngora, uma obra-prima, é o seguinte:

Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano;
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano;
y mientras triunfa con desdén lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;

goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fue en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,

no sólo en plata o viola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.


O poeta Mário Faustino escreveu o seguinte belíssimo soneto chamado “Carpe Diem“:

Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)


Mas Horácio, em outra ode igualmente famosa, a 3.30, afirma que suas Odes sobreviverão às milenàrias pirâmides:

Erigi um monumento mais duradouro que o bronze,
mais alto do que a régia construção das pirâmides
que nem a voraz chuva, nem o impetuoso Áquilo
nem a inumerável série dos anos,
nem a fuga do tempo poderão destruir.
Nem tudo de mim morrerá, de mim grande parte
escapará a Libitina: jovem para sempre crescerei
no louvor dos vindouros, enquanto o pontífice
com a tácita virgem subir ao Capitólio.
Dir-se-á de mim, onde o violento Áufido brama,
onde Dauno pobre em água sobre rústicos povos reinou,
que de origem humilde me tornei poderoso,
o primeiro a trazer o canto eólio aos metros itálicos.
Assume o orgulho que o mérito conquistou
e benévola cinge meus cabelos,
Melpómene, com o délfico louro.


[Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber edax, non aquilo impotens
possit diruere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
non omnis moriar multaque pars mei
vitabit Libitinam: usque ego postera
crescam laude recens, dum Capitolium
scandet cum tacita virgine pontifex:
dicar, qua violens obstrepit Aufidus
et qua pauper aquae Daunus agrestium
regnavit populorum, ex humili potens
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxisse modos. sume superbiam
quaesitam meritis et mihi Delphica
lauro cinge volens, Melpomene, comam.]


A própria admiração que a ode continua a suscitar, parecendo confirmar o vaticínio de Horácio, aumenta essa admiração.

Ou seja, enquanto na ode 1.11 o poeta recomenda ignorar o futuro, na ode 3.30 ele exalta o futuro dos seus poemas. Que haja uma contradição aqui não é nenhum problema. Diferentemente dos textos teóricos, os poéticos podem contradizer-se, ainda que sejam do mesmo autor, sem que, com isso, sofram o menor arranhão.

Se ambos forem bons, então, ao ler o primeiro, concordamos inteiramente com ele; ao ler o segundo, é com este que concordamos inteiramente, sem deixar de continuar a concordar com o primeiro. Ambos podem ser profundamente verdadeiros ou reveladores. Um poema é capaz de contradizer a si próprio e ser uma obra-prima: ele pode até ter que se contradizer, como o “Odeio e Amo” (“Odi et amo”), de Catulo, para vir a ser uma obra-prima.

De todo modo, o poeta Haroldo de Campos escreveu um magnífico poema, intitulado “Horácio Contra Horácio”, que diz:

ergui mais do que o bronze ou que a pirâmide
ao tempo resistente um monumento
mas gloria-se em vão quem sobre o tempo
elusivo pensou cantar vitória:
não só a estátua de metal corrói-se
também a letra os versos a memória
— quem nunca soube os cantos dos hititas
ou dos etruscos devassou o arcano?
o tempo não se move ou se comove
ao sabor dos humanos vanilóquios —
rosas e vinho — vamos! — celebremos
o instante a ruína a desmemória


Não só, portanto, aos poetas é lícito contradizerem-se uns aos outros ou a si próprios, tanto em diferentes poemas quanto no mesmo poema, como tais contradições podem constituir o motivo de um poema.

Observo, porém, que a ode 1.11 pode também ser lida de modo que não necessariamente contradiga a ode 3.30. Digamos que a concepção de poesia subjacente à ode 3.30 seja que, dado que o grande poema vale por si, ele é, em princípio, indiferente às contingências do tempo. Sendo assim, não se concebe um tempo em que tal poema venha a caducar.

Logo, mesmo reconhecendo a possibilidade de que os textos se percam, talvez a verdadeira razão do orgulho de Horácio seja o fato de que suas odes intrinsecamente merecem existir. Isso quer dizer que elas merecem existir AGORA.

E merecem existir agora, seja quando for agora: seja quando for que alguém diga ou pense: “agora”. É desse modo que, precisamente ao celebrar “o instante a ruína a desmemória”, o poema se faz eterno agora. Nesse sentido, apreciá-lo é colher o dia: “carpere diem”.

*Artigo do poeta Antônio Cicero foi originalmente publicado 6 de fevereiro de 2010, na coluna do autora na “Ilustrada”, da Folha de São Paulo. Está disponível no blog Acontecimentos.

Poeta romano Horácio


Quinto Horácio Flaco (latim: Quintus Horatius Flaccus – 65 a.C.-8 a.C.). Poeta lírico, satírico e filósofo latino. Horácio nasceu em Venúsia, Itália, no ano 65 a. C. Filho de um escravo liberto que exercia a função de cobrador de impostos, fez seus estudos em Roma onde foi aluno de Lucio Orbílio Pupilo. Aperfeiçoou seus estudos literários em Atenas.

Estabeleceu-se em Roma como escriba de questores. Foi amigo do poeta Virgílio, que o apresentou a Caio Mecenas que o levou para integrar os círculos literários, tornando-se o primeiro literato profissional romano. Cultivou diversos gêneros literários principalmente a ode, em que utilizou os moldes gregos. Procurou sempre imprimir um cunho nacional às suas produções.

Seu primeiro livro conhecido foi “Sátiras” (35 a.C.). Sua obra prima, são os três livros de poemas líricos, “Odes” (23 a.C.), complementados por um quarto volume escrito em 13 a.C. Gozou de grande prestígio junto ao imperador Augusto e para ele compôs “Carmem Saeculare” (20 a.C.), um hino epistolar de caráter litúrgico dedicado a Apolo e Diana. Sua poesia escrita em forma de sentença teve muitas delas transformadas em provérbios. Faleceu em Roma, Itália, no ano 8 a.C.

Horácio - Carpe Diem

* Horácio

Tu não questiones — é crime saber — o fim que para mim, que para ti
os deuses reservaram, ó Leucônoe, nem mesmo consultes
os números babilônicos. Quão melhor é suportar o que quer que venha!
Quer Júpiter te haja concedido muitos invernos, quer seja o último
o que agora quebra as tirrenas ondas contra as pedras,
sejas sábia, diluas os vinhos e, por ser breve a vida,
limites a longa esperança. Enquanto falamos, foge invejoso
o tempo: aproveita o dia, minimamente crédula no amanhã.
~~~~~~~

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati. seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

Odes I, 11.8, de Horácio
Penna, Heloísa; Júlia Avellar (orgs.) Odes e Canto Secular . Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2014, pp 10-11

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Fascismo, por Manuel Loff

* Manuel Loff
Criado em 13-04-2020

Estádio conjuntural da evolução do capitalismo e do imperialismo europeus, superado pela derrota militar do nazismo em 1945, ou proposta permanente de práxis política dos setores mais violentos da classe dominante da sociedade capitalista? Desvio incaraterístico na leitura burguesa do mundo contemporâneo, típico de uma era depressiva, ou categoria válida de interpretação da realidade política, social e cultural, aplicável a contextos muito distintos do europeu e a conjunturas posteriores a 1945, à resistência imperialista à descolonização formal, à relativa desindustrialização do Norte do fim de Novecentos, ao fim dos modelos reacionários autoritários clássicos na Europa e nas Américas?

Discutir a atualidade e a operatividade histórica do conceito de fascismo é necessariamente dificultado pelo facto evidente de este ser tornado maldito pela memória do Holocausto e pela sua própria representatividade no conjunto das estratégias políticas das direitas, reconhecendo-se ao fascismo, portanto, uma entidade própria e, sobretudo, ainda hoje vigente como categoria do real.


Não conseguir ler a realidade com que nos deparamos é a forma mais evidente de não ser sujeito da nossa própria vida, da nossa própria história. Saber onde e quando há fascismo é tão importante hoje como o foi no passado. A proposta de leitura do fenómeno que aqui faço bebe a sua vitalidade teórica fundamentalmente na perspetiva de construção do conceito de fascismo genérico, que teve em Enzo Collotti o seu pensador mais sólido. Para a geração de movimentos e regimes autoritários e simultaneamente reacionários do período de entre-guerras mundiais, pelo menos, Collotti sustenta ser possível perceber a «existência de uma ideia-guia, e de tendências de evolução das ideias e instituições políticas, que [podem] assimilar-se no conceito de fascismo, entendido como força de rutura capaz de modificar equilíbrios políticos e sociais, e capaz também de mobilizar estados e potências para a desestabilização da ordem existente, na sua ambição de propor e impor uma nova ordem à Europa»1.

Na definição do mais representativo historiador que trabalha nestes termos em Portugal, Fernando Rosas, trata-se de «uma realidade «fundamental da história europeia dos primeiros 30 ou 40 anos deste século [XX]: a do surgimento de um movimento reacional geral de tipo novo, nascido da crise do sistema liberal, particularmente afirmado e clarificado no período de entre as duas guerras, o qual, sem prejuízo de diferentes formalizações e expressões nacionais, atravessa e unifica historicamente o conjunto das sociedades capitalistas europeias desse período» (Rosas, 1989: 22).

Antes de mais, o fascismo progride em conjunturas de crise da economia capitalista e da cultura social e política que lhe está associada. Ele esconde-se por detrás de reações ultraconservadoras à sociedade de massas, incorporando, contudo, um discurso modernizador e metodologias de mobilização social e política adaptadas às caraterísticas próprias da massificação, o que se tornou, logo nos anos 1920, uma das mais seguras garantias do seu sucesso.

Os fenómenos de concentração capitalista, como aqueles que correspondem à atual fase de desenvolvimento capitalista, com a consequente ameaça de proletarização das classes médias, produzem habitualmente formas de discurso anticapitalista reacionário, que diz pretender o regresso a formas corporativas protegidas, de organização da economia e da sociedade, de atividade económica, aparentando recusar por igual concentração e coletivização, ainda que, socioeconomicamente, a História tenha amplamente demonstrado que a primeira foi uma das mais evidentes consequências da prática política do fascismo.

Nos processos de conquista de poder em que o fascismo se envolveu, os seus arautos sustentaram retóricas em torno do que, nos anos 1930, pelo menos, se chamava o socialismo nacional, escorado, nos países de maioria católica, pela teorização vaticana do corporativismo.

Chegado ao Poder, conquistada a hegemonia no plano do Estado, os fascismos submeteram as classes populares, e muito particularmente os assalariados, em evidente colaboração de classe com um patronato industrial e agrário que vivera o período 1917-23 sob verdadeiro pânico. A prática política destes regimes foi a da intervenção regulamentadora e hiperburocrática das atividades económicas mas assegurando sempre o consenso com os grandes interesses patronais.

Particularmente popular entre os setores social e economicamente menos seguros da burguesia, essas novas e frágeis classes médias que o avanço da escolarização, da urbanização e da terciarização propiciou a partir da I Guerra Mundial, o fascismo emergiu nos anos que se seguiram ao triunfo da Revolução de Outubro como forma brutal de reação ao avanço do movimento operário, reforçado este pelo empenho (e consequente desilusão profunda) das massas no esforço de guerra e pelo triunfo e resistência da revolução soviética.

O pânico antirrevolucionário que viveu a classe dominante e que se estendeu às classes médias foi certamente terreno lavrado para a sementeira fascista, mas é necessário termos bem presente que a grande maioria das experiências fascistas e fascizadas tiveram êxito em momentos de refluxo, e não de avanço, do movimento operário: desde a Itália do fim de 1922 à Alemanha de 1933, passando pelas ditaduras reacionárias que se implantam por toda a Europa meridional e do Sul durante o período, os fascismos instalam-se no poder de forma mais preventiva face à possibilidade de reemergência da capacidade revolucionária do movimento operário, num momento em que esta se perdera ou estava em vias de se perder.

Efetivamente, nem o triunfo de Mussolini ocorre nos anos (1919-20) de mais intensa mobilização revolucionária em Itália, nem Hitler é chamado ao poder pela burguesia mais reacionária em 1919 ou em 1923, quando o movimento espartaquista/comunista alemão conseguiu reunir o maior consenso na classe operária alemã em torno de uma alternativa revolucionária; e muito menos as ditaduras antirrevolucionárias se instalam no poder em Portugal, em 1926, ou na Áustria em 1934, confrontando movimentos revolucionários no clímax da sua capacidade sociopolítica, ainda que, pelo contrário, essa situação possa configurar os casos do levantamento militar franquista na Espanha de 1936.

O fascismo não foi meramente um estádio conjuntural da evolução do capitalismo e do imperialismo europeus, porque não só esteve e está presente fora da Europa e não foi completamente superado pela derrota militar do nazismo em 1945. Pelo contrário, ele emerge como proposta permanente de práxis política dos setores mais violentos da classe dominante da sociedade capitalista.

Como leitura burguesa do mundo contemporâneo, típico de uma era depressiva, ele não foi um desvio incaraterístico, mas, pelo contrário, ele deve, a meu ver, ser lido como categoria válida de interpretação da realidade política, social e cultural, aplicável, insisto, a contextos muito distintos do europeu e a conjunturas muito posteriores a 1945, como pode vir a ser presente, caraterizada pela relativa desindustrialização do norte do planeta, acompanhada por formas muito acentuadas de desmantelamento da democracia política e social onde ela parecia consolidada, por modelos muito evidentes de reforço do poder pseudo-carismático de chefes políticos endeusados por novas técnicas de manipulação e controlo simbólico, por práticas muito eficazes de atomização das formas de representação da opinião e da organização dos interesses sociais.

O fascismo é, em suma, uma das componentes mais perigosas do neo-totalitarismo capitalista que avança sobre o planeta neste novo século.



Texto publicado no boletim da URAP nº161 (Jan-Mar 2020)

domingo, 12 de abril de 2020

Pablo Neruda - Os Comunistas

* Pablo Neruda 


Os que colocam a alma na pedra,
no ferro, na dura disciplina,
ali vivemos só por amor
e já se sabe que nos dessangramos
quando a estrela foi tergiversada
pela lua sombria do eclipse.
Agora vereis que somos e pensamos.
Agora vereis que somos e seremos.
Somos a prata pura da terra,
o verdadeiro mineral do homem,
a fortificação da esperança;
um minuto de sombra não nos cega:
com nenhuma agonia morreremos.

Páscoa: perguntas pertinentes



12.4.20



- Pai, o que é a Páscoa?
- Ora, Páscoa é …uma festa religiosa!

- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus e na Páscoa a sua ressurreição.

- Ressurreição?
- Ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendido?

- Mais ou menos... Mãe, Jesus era um coelho?
- Que parvoíce é essa? Estás-te a passar! Coelho? Jesus Cristo é o Pai do Céu!

- Mãe, mas o Pai do Céu não é Deus?
- É filho! Jesus e Deus são a mesma coisa. Vais estudar isso na catequese. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.

- É por isso que na Trindade fica o Espírito Santo?
- Não é o Banco Espírito Santo que fica na Trindade, meu filho. É o Espírito Santo de Deus. É uma coisa muito complicada, nem a mãe entende muito bem, para falar a verdade nem ninguém.

- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual ao Pai Natal, só que em vez de presentes, ele traz ovinhos.

- O coelho põe ovos? Não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era, era melhor, ou então peru.

- Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro, não é? Em que dia é que ele morreu?
- Isso eu sei: na Sexta-feira santa. Morreu na Sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de aleluia.

- Um dia depois portanto!
- Não, filho - três dias!

- Então morreu na quarta-feira.
- Não! Morreu na sexta-feira santa... ou terá sido na quarta-feira de cinzas? Ouve, já me baralhaste todo! Morreu na sexta-feira e ressuscitou no sábado, três dias depois!

- Como !?!? Como !?!?

- Pai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.

- Só?
- Que eu saiba sim, porquê?

- Não sei não, mas tenho um palpite que o nome dele tinha no apelido Coelho. Só assim esta coisa do coelho da Páscoa faz sentido, não achas?

José Pacheco Pereira - Ler sobre a “santa trincadeira”


Ler sobre a “santa trincadeira”
Voltemos à terra. Deixem a covid-19 à porta e leiam Aquilino e façam a festa da língua portuguesa em casa.
11 de Abril de 2020, 6:00

Uma pessoa às vezes tem sorte e conhece na vida algumas personagens que pareciam apenas estar nos romances. Nos tempos em que estive em Boticas a dar aulas, bendizendo estar tão baixo na lista dos professores que fui parar àquele magnífico sítio, conheci algumas. A escola era pequena, pelo que acabava por dar aulas a praticamente todos os alunos e conhecer todos os professores e o pessoal administrativo da escola. A maioria dos professores que lá estavam colocados maldiziam a sua sorte, porque era o ultimo sítio onde queriam estar e à mais pequena oportunidade queriam era vir-se embora. Não era fácil nem lá chegar, nem de lá sair, porque todas as opções de estrada para o Porto demoravam pelo menos cinco horas de tormento, quer se fosse pelo Barroso, quer por Vila Pouca de Aguiar, muitas vezes com neve, e, no caso do trajecto que incluía o Marão, apanhar aquela sucessão de curvas em que apetecia deitar o carro por uma ribanceira abaixo ou parar e não sair mais dali. Não havia volta a dar.

Eu ficava muitas vezes no fim-de-semana, porque gostava de lá estar numa casa de emigrante alugada junto da aldeia de Pinho, na estrada entre Boticas e Vidago. A casa era nova, mas a construção era má e incluía uma parede com “pedra rústica” e um andar térreo de terra batida onde se colocava a lenha. Depois, por cada racha na parede entrava vento e frio, e ali havia mesmo frio, mas as janelas – quando se conseguiam abrir – mostravam uma paisagem de serras e vales, sem ventoinhas, e com muito poucas construções modernas no meio do verde. Às vezes havia uma nuvem pousada mesmo debaixo da janela. Descia-se e estava nevoeiro e subia-se e estava um sol esplendoroso.

Um dos meus colegas era a tal personagem da literatura, que muitos podem adivinhar como sendo tirada dos livros de Aquilino. Já faleceu e deve estar no Céu a ser servido por um anjo dispenseiro das cozinhas do paraíso. Sim, eu devo a Boticas ter conhecido um genuíno abade, na verdade um padre que dava aulas na escola e exercia o seu trabalho pastoral nas aldeias altas do Barroso, Alturas, Dornelas, até à fronteira com o Larouco. Tinha uma “corpanzil”, uma palavra que me evita usar eufemismos ou expressões pouco politicamente correctas, e uma enorme sotaina para o tapar. Nos dias em que dava aulas íamos almoçar juntos a um restaurante que também vinha na literatura, o Santa Cruz, neste caso referido por Ferreira de Castro. O restaurante era de umas senhoras que cozinhavam praticamente ao lado, traziam elas próprias a comida à mesa e das quais pouco sei a não ser que tinham parentes no Canadá, porque me pediam para lhes traduzir uns formulários em inglês que tinham que preencher.

Mais uma vez, o almoço podia vir nos livros de Aquilino e eu, que já conhecia algumas descrições aquilinianas, como o ataque a vários capões por um bando de abades ao pequeno-almoço, sabia muito bem onde estava metido. Não havia muita variedade, mas também não era preciso. O almoço tipo consistia em pedaços de bola de presunto, às vezes acompanhados por fatias de presunto, de entrada, seguidos por uma sopa de legumes, a que se acrescentavam de imediato umas trutas. E ainda estávamos só nos preliminares, faltava o prato principal. Este era quase sempre vitela assada com batatas e arroz, ou frango assado com batatas e arroz e salada. O nosso bom padre comia tudo e, por isso, também a salada. Depois vinha a sobremesa, a maioria das vezes um pudim e uns doces caseiros, melhor, um pudim mais uns doces caseiros e café. Vinho, ele não ia no “vinho dos mortos” que dizia que era para os turistas, antes preferia a variante de barril, servida em caneca, ou melhor, canecas. Dar aulas a seguir era um tormento.

Já comi em muitos sítios, mas presunto, trutas, batatas e carne são deste planeta e as de Boticas eram de outro corpo celeste regido por Gargantua e seu filho Pantagruel

Não se lhe podia dizer que não a coisa nenhuma, porque ele insistia já com o garfo ou a colher cheia junto ao prato dizendo “ó senhor professor tire um pouco mais carne…”. E eu obedecia ao eclesiástico, ungido por um sacramento especial, que eu não tinha nem queria ter, mas à mesa impunha autoridade. Era o tempo da “santa trincadeira”;

Ocupemo-nos da santa trincadeira, que o meu estômago está a gritar contra a cabeça que o governa! –​ proferiu o abade, ajeitando o corpanzil à margem da mesa opípara.

O problema é que a descrição parece demasiado trivial nestes tempos em que as sardinhas “repousam no seu suco” e as coisas são “resumidas”. Só que o presunto era de Chaves, as trutas do Beça, as batatas, que quem nunca as comeu não sabe o que são batatas, idem para a carne do Barroso. Já comi em muitos sítios, mas presunto, trutas, batatas e carne são deste planeta e as de Boticas eram de outro corpo celeste regido por Gargantua e seu filho Pantagruel.

Voltemos à terra. Deixem a covid-19 à porta e leiam Aquilino e façam a festa da língua portuguesa em casa.