domingo, 14 de fevereiro de 2016

António Jacinto - Carta de um contratado

* António Jacinto

Eu queria escrever-te uma carta 
amor, 
uma carta que dissesse 
deste anseio 
de te ver 
deste receio 
de te perder 
deste mais bem querer que sinto 
deste mal indefinido que me persegue 
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta 
amor,

uma carta de confidências íntimas, 
uma carta de lembranças de ti, 
de ti 
dos teus lábios vermelhos como tacula 
dos teus cabelos negros como dilôa 
dos teus olhos doces como maboque 
do teu andar de onça 
e dos teus carinhos 
que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta 
amor, 
que recordasse nossos tempos a capopa 
nossas noites perdidas no capim 
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos 
o luar que se coava das palmeiras sem fim 
que recordasse a loucura 
da nossa paixão 
e a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta 
amor, 
que a não lesses sem suspirar 
que a escondesses de papai Bombo 
que a sonegasses a mamãe Kieza 
que a relesses sem a frieza 
do esquecimento 
uma carta que em todo o Kilombo 
outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta 
amor, 
uma carta que ta levasse o vento que passa 
uma carta que os cajús e cafeeiros 
que as hienas e palancas 
que os jacarés e bagres 
pudessem entender 
para que o vento a perdesse no caminho 
os bichos e plantas 
compadecidos de nosso pungente sofrer 
de canto em canto 
de lamento em lamento 
de farfalhar em farfalhar 
te levassem puras e quentes 
as palavras ardentes 
as palavras magoadas da minha carta 
que eu queria escrever-te amor....

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas ah meu amor, eu não sei compreender 
por que é, por que é, por que é, meu bem 
que tu não sabes ler 
e eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também

1961, Luanda


http://www.lusofoniapoetica.com/artigos/angola/antonio-jacinto/carta-de-um-contratado.html

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