segunda-feira, 11 de abril de 2016

Luís Filipe Castro Mendes - "DO MEDO" e "DE MEMÓRIA"

Do Medo



Não pode o poema 
circunscrever o medo, 
dar-lhe o rosto glorioso 
de uma fábula 
ou crer intensamente na sua aura. 
Nós permanecemos, quando 
escurece à nossa volta o frio 
do esquecimento 
e dura o vento e uma nuvem leve 
a separar-se das brumas 
nos começa a noite. 

Não pode o poema 
quase nada. A alguns inspira 
uma discreta repugnância. 
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios 
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas 
sobre a terra. 
Quem reconhece a poesia, esse frio 
intermitente, essa 
persistência através da corrupção? 
Quase sempre a angústia 
instaura a luz por dentro das palavras 
e lhes rouba os sentidos. 
Quase sempre é o medo 
que nos conduz à poesia. 



Voltando ao medo: as asas 
prendem mais do que libertam; 
os pássaros percorrem necessariamente 
os mesmos caminhos no espaço, 
sem possibilidades de variação 
que não estejam certas com esse mesmo voo 
que sempre descrevem. 
Voltando ao medo: o poema 

desenha uma elipse em redor da tua voz 
e cerca-se de angústia 
e ervas bravias — nada mais 
pode fazer. 

Luis Filipe Castro Mendes, in "A Ilha dos Mortos" 

De Memória

Nunca te surpreendeu o sorriso estático 
das imagens antigas? Alguma coisa aqui 
tivemos de perder. Percorro dias e corpos na memória, 
mas o que procuro mais é não te ver. 

Quem ama quem? As máscaras trocaram-se 
e a tua voz ressoa neste palco. 
Trouxe versos e música para te dar, 
mas o rosto que tivemos já partiu; 
fiquei eu só, à beira da memória, 
água do mar que não serve para beber. 

Porque esta foi a paixão, o grande acto, 
a tímida paixão de asas de chumbo. 
Eu vi-te muitas vezes frente ao mar, 
mas quem de nós para acender a cinza? 
- ronda-nos a ave de presa despojada 
sobre os malefícios. Aliás, coisas passadas. 

Não te surpreendeu? O amor 
surpreende - não convém, desarruma. 
E nunca se ama ao certo quem se ama. 
Procuramos apenas um brilho, 
um brilho muito intenso no olhar, 
um brilho que não vamos definir 
e que algum dia iremos renegar. 

Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música" 

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