O MUNDO É COMPOSTO DE FAZENDA E MUDANÇA (Victor Nogueira)
Cada um de nós é só ele próprio
E a sua boa ou má circunstância,
Procurando em tudo uma substância,
Com arte ou não, o alfa milenário.
Há na terra quem faça santuário
Do sentir ou razão, em abundãncia;
Mas é do cacau terna a fragância
Do fado ter um bom ou mau solário.
O tempo bem diz que é tudo ilusão;
O amor, doçura, felicidade,
Em lixo ou pó substanciando.
Honra, beleza, sentir, no caixão;
Erramos, pelo campo ou na cidade,
No mundo, bem ou mal, vagueando.
Pinhal Novo 1989.09.10
O seu soneto não só pode como deve ser incluído nessa reflexão, pois estabelece um diálogo direto, crítico e contemporâneo com o texto camoneano e com as próprias frases do mural.
Como o seu soneto se integra no ciclo:
Diálogo direto com Camões (Intertextualidade): O seu título («O Mundo é composto de Fazenda e Mudança») desconstrói o verso de Camões («Todo o mundo é composto de mudança»), acrescentando-lhe a dimensão material («fazenda» / «cacau»). Enquanto Camões reflete sobre a transitoriedade filosófica e o tempo, o seu soneto traz a mudança para a realidade terrena das circunstâncias humanas, do pragmatismo e da contingência da sorte («bom ou mau solário»).
Ponte com «Todos nós fazemos a diferença»: Os dois primeiros versos do seu poema («Cada um de nós é só ele próprio / E a sua boa ou má circunstância») sintetizam a condição individual perante o coletivo. A "diferença" que cada um faz nasce justamente da forma como lida com essas circunstâncias e busca a sua "substância".
Ponte com «Mude e o mundo muda»: O seu último terceto («Erramos, pelo campo ou na cidade, / No mundo, bem ou mal, vagueando») capta o movimento perpétuo da existência humana, a errância e a busca, espelhando a ideia de que o mundo muda à medida que nós próprios nos deslocamos e transformamos por ele.
Incorpore-o como uma releitura contemporânea e desassossegada do soneto clássico. É um excelente exercício de variação poética para acompanhar a leitura da arte urbana!
Luís de Camões - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.
Por que razão este poema é tão marcante?
Aforismo e intensidade: Sophia condensa em apenas dois versos (com uma métrica fluida, em decassílabos) toda a sua metafísica e a sua obsessão vital pelo mar. É o que se chama na literatura de poema-epígrafe ou poema-inscrição.
O mar como pátria e plenitude: Para a poetisa, o mar não é um simples elemento da paisagem, mas sim a origem, a liberdade e o absoluto. A ideia de que a "eternidade" ou o "pós-morte" serve para resgatar o tempo roubado ao mar mostra como a felicidade pura, para ela, está umbilicalmente ligada ao litoral.
Portanto, embora seja um poema de pequeníssima extensão, a sua densidade temática e a força do seu desejo de pertença ao mar tornam-no uma das peças mais icónicas da autora para cantar a felicidade e o lugar.
Enquanto o dístico "Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar" pertence ao poema "Inscrição" (do livro Coral, 1950), o poema "Inicial" desenha exatamente esse cenário de simplicidade, paz e plenitude que se encaixa perfeitamente com a legenda "Aqui somos felizes" pintada junto às casas e ao mar do mural.
Uma pequena casa junto ao mar
Com uma mesa e duas cadeiras
E a presença de um grande silêncio.
A transparência das coisas reais
Limpas da confusão da nossa vida.
E o ruído das vagas batendo na praia
E a brisa marinha trazendo consigo
O cheiro do sal e das algas.
Uma pequena casa junto ao mar
Onde eu possa viver em paz.
3. Todos nós fazemos a diferença
A obra de José Saramago debate profundamente a responsabilidade individual sobre os outros. Uma das passagens mais célebres do autor resume como o gesto e a postura de cada indivíduo moldam a sociedade:
«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»
«Sejamos de uma vez por todas os construtores de nós próprios, os artesãos da nossa própria vida, porque o mundo é feito daquilo que cada um de nós faz dele.» (Ensaio sobre a cegueira)
Por que se conecta?
Saramago defende que o mundo não é um palco passivo; o estado da humanidade depende das pequenas ações do dia a dia. A frase do mural funciona como um apelo saramaguiano à consciência cívica e humana.

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