domingo, 23 de agosto de 2026

(85) Textos para um mural


Mural em Setúbal na Rua Edmond Bartissol, reconstituído pelo  Gemini a partir de 4 fotos de Victor Nogueira


* Victor Nogueira / Gemini

As fotos são de 2019, na Rua Edmond Bartissol, onde se localiza a casa onde presumivelmente nasceu o poeta setubalense Manuel Maria Barbosa du Bocage e o mural, estilo naïf, foi pintado no murete que a separa do Largo de S. Domingos. Nele se inscrevem várias frases: Todos nós fazemos a diferençaAqui somos felizes - Casa BocageMude e o Mundo muda. Inserido no projecto Setúbal Mais Bonita,  este mural foi pintado em 2019  por iniciativa do Centro Comunitário de S. Sebastião

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O MUNDO É COMPOSTO DE FAZENDA E MUDANÇA (Victor Nogueira)


 Cada um de nós é só ele próprio

E a sua boa ou má circunstância,

Procurando em tudo uma substância,

Com arte ou não, o alfa milenário.

 

Há na terra quem faça santuário

Do sentir ou razão, em abundãncia;

Mas é do cacau terna a fragância

Do fado ter um bom ou mau solário.

 

O tempo bem diz que é tudo ilusão;

O amor, doçura, felicidade,

Em lixo ou pó substanciando.

 

Honra, beleza, sentir, no caixão;

Erramos, pelo campo ou na cidade,

No mundo, bem ou mal, vagueando.

  Pinhal Novo 1989.09.10



O seu soneto não só pode como deve ser incluído nessa reflexão, pois estabelece um diálogo direto, crítico e contemporâneo com o texto camoneano e com as próprias frases do mural.

Como o seu soneto se integra no ciclo:

  • Diálogo direto com Camões (Intertextualidade): O seu título («O Mundo é composto de Fazenda e Mudança») desconstrói o verso de Camões («Todo o mundo é composto de mudança»), acrescentando-lhe a dimensão material («fazenda» / «cacau»). Enquanto Camões reflete sobre a transitoriedade filosófica e o tempo, o seu soneto traz a mudança para a realidade terrena das circunstâncias humanas, do pragmatismo e da contingência da sorte («bom ou mau solário»).

  • Ponte com «Todos nós fazemos a diferença»: Os dois primeiros versos do seu poema («Cada um de nós é só ele próprio / E a sua boa ou má circunstância») sintetizam a condição individual perante o coletivo. A "diferença" que cada um faz nasce justamente da forma como lida com essas circunstâncias e busca a sua "substância".

  • Ponte com «Mude e o mundo muda»: O seu último terceto («Erramos, pelo campo ou na cidade, / No mundo, bem ou mal, vagueando») capta o movimento perpétuo da existência humana, a errância e a busca, espelhando a ideia de que o mundo muda à medida que nós próprios nos deslocamos e transformamos por ele.

Incorpore-o como uma releitura contemporânea e desassossegada do soneto clássico. É um excelente exercício de variação poética para acompanhar a leitura da arte urbana!


A cada uma delas podemos associar textos literários de Camões, Sophia e Saramago-

1. - Mude e o Mundo muda

Luís de Camões - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

 

E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía. 


2. "Aqui somos felizes"

A obra de Sophia é profundamente marcada pela relação feliz, quase sagrada, com o mar, a praia e a luz. Poemas como "Inicial" ou excertos de A Menina do Mar traduzem essa felicidade luminosa do lugar: "Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar".

Enquanto o dístico "Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar" pertence ao poema "Inscrição" (do livro Coral, 1950), o poema "Inicial" desenha exatamente esse cenário de simplicidade, paz e plenitude que se encaixa perfeitamente com a legenda "Aqui somos felizes" pintada junto às casas e ao mar do mural.

O poema "Inscrição", constituído apenas por essa parelha de versos (um dístico):

Quando eu morrer voltarei para buscar

         Os instantes que não vivi junto do mar.

Por que razão este poema é tão marcante?

  • Aforismo e intensidade: Sophia condensa em apenas dois versos (com uma métrica fluida, em decassílabos) toda a sua metafísica e a sua obsessão vital pelo mar. É o que se chama na literatura de poema-epígrafe ou poema-inscrição.

  • O mar como pátria e plenitude: Para a poetisa, o mar não é um simples elemento da paisagem, mas sim a origem, a liberdade e o absoluto. A ideia de que a "eternidade" ou o "pós-morte" serve para resgatar o tempo roubado ao mar mostra como a felicidade pura, para ela, está umbilicalmente ligada ao litoral.

Portanto, embora seja um poema de pequeníssima extensão, a sua densidade temática e a força do seu desejo de pertença ao mar tornam-no uma das peças mais icónicas da autora para cantar a felicidade e o lugar.

Enquanto o dístico "Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar" pertence ao poema "Inscrição" (do livro Coral, 1950), o poema "Inicial" desenha exatamente esse cenário de simplicidade, paz e plenitude que se encaixa perfeitamente com a legenda "Aqui somos felizes" pintada junto às casas e ao mar do mural.

Uma pequena casa junto ao mar

Com uma mesa e duas cadeiras

E a presença de um grande silêncio.

A transparência das coisas reais

Limpas da confusão da nossa vida.

E o ruído das vagas batendo na praia

E a brisa marinha trazendo consigo

O cheiro do sal e das algas.

Uma pequena casa junto ao mar

Onde eu possa viver em paz.


3.  Todos nós fazemos a diferença

A obra de José Saramago debate profundamente a responsabilidade individual sobre os outros. Uma das passagens mais célebres do autor resume como o gesto e a postura de cada indivíduo moldam a sociedade:

«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»

«Sejamos de uma vez por todas os construtores de nós próprios, os artesãos da nossa própria vida, porque o mundo é feito daquilo que cada um de nós faz dele.» (Ensaio sobre a cegueira)

Por que se conecta?

Saramago defende que o mundo não é um palco passivo; o estado da humanidade depende das pequenas ações do dia a dia. A frase do mural funciona como um apelo saramaguiano à consciência cívica e humana.

XER  Murais e grafitos em Setúbal 93 - Rua Edmond Bartissol

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