segunda-feira, 24 de agosto de 2026

(89) Representações de Álvaro Cunhal 03 - A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche

 

Setúbal  - Memorial comemorativo do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal (2013), (Foto victor nogueira  IMG_1522)

Poetas da Imprensa Clandestina (Avante! e O Militante)

  • Contexto: Nos anos 50 e 60, circulavam no boletim A Voz das Camaradas e no jornal Avante! dezenas de poemas assinados sob pseudónimo ou anonimato por militantes e operários.

  • Temática: Muitos destes versos eram dedicados a "Duarte" ou "Arnaldo" (os nomes clandestinos de Cunhal) e focavam-se na sua libertação da prisão de Peniche, comparando a sua fuga a uma "brecha na noite" do fascismo.


Euma poética de resistência militante, escrita por anónimos, operários e comunistas na clandestinidade (ou durante a prisão), dedicada a Álvaro Cunhal  e à lendária fuga do Forte de Peniche a 3 de janeiro de 1960.

1. A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche (Janeiro de 1960)

Nos dias imediatamente a seguir à evasão do Forte de Peniche, versos escritos à pressa por militantes anónimos circularam em edições clandestinas do Avante! e em panfletos distribuídos nas fábricas da Margem Sul e do Porto. Neles, o nome «Duarte» (com o qual Cunhal era conhecido na organização clandestina) surgia como metáfora da própria resistência:

  • Excerto de poema anónimo militante (circa 1960):

«Caiu a grade, quebrou-se o muro,

rasgou-se o vento na noite fria.

O Duarte volta ao nosso lado, 

traz a promessa de um novo dia.

 

Peniche ruiu na sua vaidade, 

a maré alta não guardou a prisão: 

quem tem o povo na sua voz 

nunca esteve preso na amplidão.»

2. O Boletim «A Voz das Camaradas» (Anos 50)

O boletim interno A Voz das Camaradas era redigido e distribuído clandestinamente por e para as mulheres da organização comunista (muitas delas companheiras de militantes presos ou operárias na clandestinidade). Durante os mais de dez anos em que Cunhal esteve preso (1949–1960), era frequente a publicação de poemas de solidariedade dirigidos aos dirigentes encarcerados:

  • Versos de uma militante operária (assinado como «Uma Camarada», anos 50):

«Na cela fria onde o tempo para, 

não vergam a fibra do teu pensar.

Escreves no escuro, Duarte irmão, 

aquilo que o povo há de cantar.

 

A tua ausência é presença viva 

na nossa jornada contra a dor, 

por cada grade que te prende a carne, 

cresce no peito o nosso amor.»

3. José Dias Coelho e os Artistas na Clandestinidade

José Dias Coelho (esculptor e militante clandestino assassinado pela PIDE em 1961) e a sua companheira Margarida Tengarrinha produziam ilustrações e textos para a imprensa clandestina. Na sequência da fuga de Peniche, multiplicaram-se as estrofes populares escritas para serem cantadas ou declamadas em reuniões clandestinas, celebrando o feito:

  • Quadras populares clandestinas (1960):

«Peniche já não é fortaleza,

uma porta que se abriu, o camarada 

 Duarte passou e a noite do fascismo tremeu.

 

Guardavam-no torres e marés,  

guardavam-no armas e sentinelas, 

mas a vontade de um povo livre 

consegue saltar todas as janelas.»

(Gemini) 

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