Poetas da Imprensa Clandestina (Avante! e O Militante)
Contexto: Nos anos 50 e 60, circulavam no boletim A Voz das Camaradas e no jornal Avante! dezenas de poemas assinados sob pseudónimo ou anonimato por militantes e operários.
Temática: Muitos destes versos eram dedicados a "Duarte" ou "Arnaldo" (os nomes clandestinos de Cunhal) e focavam-se na sua libertação da prisão de Peniche, comparando a sua fuga a uma "brecha na noite" do fascismo.
1. A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche (Janeiro de 1960)
Nos dias imediatamente a seguir à evasão do Forte de Peniche, versos escritos à pressa por militantes anónimos circularam em edições clandestinas do Avante! e em panfletos distribuídos nas fábricas da Margem Sul e do Porto. Neles, o nome «Duarte» (com o qual Cunhal era conhecido na organização clandestina) surgia como metáfora da própria resistência:
Excerto de poema anónimo militante (circa 1960):
«Caiu a grade, quebrou-se o muro,
rasgou-se o vento na noite fria.
O Duarte volta ao nosso lado,
traz a promessa de um novo dia.
Peniche ruiu na sua vaidade,
a maré alta não guardou a prisão:
quem tem o povo na sua voz
nunca esteve preso na amplidão.»
2. O Boletim «A Voz das Camaradas» (Anos 50)
O boletim interno A Voz das Camaradas era redigido e distribuído clandestinamente por e para as mulheres da organização comunista (muitas delas companheiras de militantes presos ou operárias na clandestinidade). Durante os mais de dez anos em que Cunhal esteve preso (1949–1960), era frequente a publicação de poemas de solidariedade dirigidos aos dirigentes encarcerados:
Versos de uma militante operária (assinado como «Uma Camarada», anos 50):
«Na cela fria onde o tempo para,
não vergam a fibra do teu pensar.
Escreves no escuro, Duarte irmão,
aquilo que o povo há de cantar.
A tua ausência é presença viva
na nossa jornada contra a dor,
por cada grade que te prende a carne,
cresce no peito o nosso amor.»
3. José Dias Coelho e os Artistas na Clandestinidade
José Dias Coelho (esculptor e militante clandestino assassinado pela PIDE em 1961) e a sua companheira Margarida Tengarrinha produziam ilustrações e textos para a imprensa clandestina. Na sequência da fuga de Peniche, multiplicaram-se as estrofes populares escritas para serem cantadas ou declamadas em reuniões clandestinas, celebrando o feito:
Quadras populares clandestinas (1960):
«Peniche já não é fortaleza,
uma porta que se abriu, o camarada
Duarte passou e a noite do fascismo tremeu.
Guardavam-no torres e marés,
guardavam-no armas e sentinelas,
mas a vontade de um povo livre
consegue saltar todas as janelas.»
(Gemini)
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