quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Estaline - Discurso sobre a invasão da URSS em 1941


Discurso Pronunciado na Qualidade de Presidente do Conselho de Comissários do Povo da URSS e Presidente do Comitê de Defesa Nacional

J. V. Stálin

3 de Junho de 1941


Primeira Edição:....
Fonte: Stalin, de Emil Ludwig, Editorial Calvino Ltda. 1943, Rio de Janeiro.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

Camaradas! Cidadãos! Irmãos e irmãs! Homens de nosso Exército e de nossa Marinha!

Dirijo-me a todos vós, amigos!

O pérfido ataque levado a efeito contra nossa Pátria pela Alemanha de Hitler, ainda continua. Apesar da heróica resistência do Exército Vermelho, e não obstante as melhores unidades aéreas do inimigo e as suas melhores divisões haverem sido aniquiladas, encontrando o seu túmulo no campo de batalha, o inimigo continua avançando e remetendo novas forças para a frente. Assim é que essas tropas já conseguiram ocupar a Lituânia, uma parte considerável da Letônia, a parte ocidental da Bielorússia e uma parte da Ucrânia ocidental. A aviação fascista estendeu o raio de operação de seus aviões e bombardeou Murmansk, Orsha, Mogilev, Smolensk, Kiev, Odessa, Sebastopol. Um grave perigo ameaça nosso país.

Como pôde acontecer que nosso glorioso Exército Vermelho tenha abandonado, entregando-as aos exércitos fascistas, varias de nossas cidades e distritos? Será realmente certo que as tropas fascistas alemães são invencíveis, conforme é proclamado pelos vaidosos propagandistas do nazismo? Claro que não! A história demonstra que não há exércitos invencíveis, nem os houve jamais. O exército de Napoleão era considerado invencível, mas foi sucessivamente derrotado pelos exércitos russo, inglês e alemão. O exército alemão do Kaiser Guilherme II, também era considerado invencível na época da primeira guerra imperialista, mas foi vencido varias vezes pelas forças russas e anglo-francesas, sendo finalmente aniquilado por estas últimas. O mesmo se pode dizer do atual exército germano-fascista de Hitler. Este exército não encontrou ainda uma resistência séria no continente europeu; somente em nosso território começa a encontrar essa resistência. E, em consequência da mesma, as melhores divisões do exército nazista foram derrotadas por nosso Exército Vermelho, o que significa que poderá e será aniquilado, como o foram os exércitos de Napoleão e deGuilherme II.

No que se refere à parte de nosso território que, apesar de tudo, foi invadido pelas tropas fascistas alemãs, isso é devido, principalmente, ao fato de que a guerra da Alemanha fascista contra a URSS iniciou-se em condições favoráveis às forças alemãs e desfavoráveis às forças soviéticas. A verdade é que essas tropas alemãs estavam já inteiramente mobilizadas. As 170 divisões nazistas lançadas contra a URSS e que transpuseram as fronteiras soviéticas estavam já completamente prontas, esperando somente o sinal para entrar em ação, enquanto que as tropas soviéticas tiveram ainda que ser mobilizadas e dirigir-se para as fronteiras.

É de grande importância, a esse respeito, o fato de que a Alemanha fascista violou repentina e perfidamente o pacto de não-agressão concluído em 1939 com a URSS, sem ter levado em conta as suas consequências, uma vez que seria considerada como país agressor pelo mundo inteiro. É natural que nosso país, amante da paz, não desejava tomar a iniciativa de romper o pacto; não podia recorrer à perfídia. Mas poder-se-ia perguntar: como pôde o governo soviético concluir um pacto de não-agressão com demônios traidores tais como Hitler e Ribbentrop? Não teria sido um erro do governo soviético? É evidente que não foi. Os pactos de não-agressão, são pactos de paz entre os Estados. Tal foi o pacto que a Alemanha nos propôs em 1939. Poderia o governo soviético repelir tal proposta? Creio que nenhum Estado amante da paz poderia deixar de aceitar um tratado de paz com um Estado vizinho, mesmo quando à frente deste último se encontrassem monstros e canibais como Hitler e Ribbentrop. Mas, como era natural, isso apenas podia ser feito sob uma condição indispensável: esse tratado de paz não devia atentar nem direta, nem indiretamente, contra a integridade territorial, a independência e a honra do Estado amante da paz. Como todos o sabem, o pacto entre a Alemanha e a URSS era um pacto precisamente nessas condições. Que foi que ganhamos com a conclusão desse pacto de não-agressão com a Alemanha? Asseguramos a paz em nosso país durante um ano e meio; e tivemos a oportunidade de preparar nossas tropas para fazer frente à Alemanha fascista, caso a mesma se atrevesse a atacar nosso país, apesar do pacto. Este foi, pois, uma vantagem para nós e uma desvantagem para a Alemanha. E que perdeu a Alemanha fascista, praticando a suprema felonia de romper o pacto e atacando a URSS? É certo que ganhou algumas posições vantajosas para suas tropas, por um curto período, mas perdeu no terreno político, desmascarando-se aos olhos do mundo como um agressor despudorado. Não pode haver dúvida nenhuma de que essa vantagem militar de curta duração constitui, para a Alemanha, apenas um episódio, enquanto é um fator duradouro sobre cuja base terão apoio os êxitos militares decisivos do Exército Vermelho, na sua luta contra a Alemanha fascista.

Eis aí porque todo o nosso valente Exército Vermelho, toda a nossa valente Marinha, todas as nossas águias do ar, todos os povos de nosso país, todos os melhores homens e mulheres da Europa, América e Ásia e, finalmente, os melhores homens e mulheres da Alemanha, condenam as pérfidas ações dos fascistas alemães e simpatizam com o governo soviético, achando que nossa causa é justa, que o inimigo será derrotado, que nós devemos vencer.

Ao iniciar-se esta guerra, que nos foi imposta, nosso país entrou em luta de vida ou de morte com seu mais feroz e pérfido inimigo: o fascismo alemão. Nossas tropas estão lutando heroicamente contra um inimigo armado até os dentes com tanques e aviões. O Exército Vermelho, vencendo inúmeras dificuldades, disputa abnegadamente cada polegada de solo soviético. As forças principais do Exército Vermelho entraram em ação providas de milhares de tanques e aviões. Nossos soldados estão demonstrando um valor inaudito. Nossa resistência ao inimigo está crescendo em força e poderio.

Todo o povo soviético se levanta, ombro a ombro, com o Exército Vermelho, em defesa de nossa terra natal. Que nos falta para afastar o perigo que ameaça nosso país e que medidas devemos tomar para aniquilar o inimigo? Antes de tudo, é necessário que o povo soviético compreenda toda a gravidade desse perigo e abandone toda a complacência, toda a despreocupação, todos esses estados espirituais da época da construção pacífica e que eram naturais antes da guerra, mas que são funestos hoje, quando a guerra tudo transformou fundamentalmente. O inimigo é cruel e implacável. Propõe-se apoderar-se de nossas terras, regadas com o nosso suor, deseja apoderar-se de nosso trigo, de nosso petróleo, de todo o fruto de nosso trabalho. Tenciona restaurar o poder dos grandes latifúndios, restaurar o tzarismo, destruir a cultura nacional e a existência dos Estados nacionais dos russos, ucranianos, bielorrussos, lituanos, letões, estonianos, tártaros, uzbekos, moldavios, georgianos, armênios e outros povos da União Soviética, para germanizá-los e convertê-los em escravos dos príncipes e barões alemães. É, portanto, uma questão de vida e de morte para o Estado soviético e para os povos da URSS, a questão de saber se poderão ser livres ou deverão ser escravizados.

O povo soviético deve compreender tudo isso e abandonar toda a despreocupação; deve mobilizar-se e reorganizar todo o seu trabalho, colocando-se em pé de guerra, não dando quartel ao inimigo. Alem disso, não deve haver lugar em nossas fileiras para os queixosos e cobardes, para os semeadores de pânico e desertores; nosso povo não deve temer a luta, tomando parte ativa em nossa guerra patriótica contra os opressores fascistas. O grande Lenine, que fundou nosso Estado, costumava dizer que a virtude principal de nosso povo deve ser a sua coragem, o seu valor, a sua audácia na luta. Essa esplêndida virtude bolchevista deve converter-se na virtude de milhões e milhões de combatentes do Exército e da Marinha Vermelhos, de todos os povos da União Soviética.

Todo o nosso trabalho deve ser rapidamente reorganizado em pé de guerra, tudo ficando subordinado aos interesses da frente de batalha e à tarefa de conseguir o aniquilamento do inimigo.

Os povos da União Soviética estão vendo agora que não se atenuou a fúria selvagem do fascismo alemão e seu ódio a nosso país, que assegurou a todos os trabalhadores a liberdade, o trabalho e a prosperidade. Os povos da União Soviética devem erguer-se contra o inimigo, na defesa de sua terra e de seus direitos. O Exército Vermelho, a Marinha Vermelha e todos os cidadãos da União Soviética devem defender, até a última gota de seu sangue, cada polegada do solo soviético, devem lutar até o limite de suas energias por nossas cidades e aldeias; devem desenvolver sua iniciativa e inteligência, que são qualidades características do nosso povo. Devemos organizar, por toda a parte, a ajuda ao Exército Vermelho; intensificar os esforços para engrossar suas fileiras e assegurar o seu reabastecimento em tudo quanto lhe seja necessário; organizar o transporte rápido de tropas, víveres e munições, bem como dar a mais ampla ajuda aos feridos.

Devemos reforçar a retaguarda do Exército Vermelho, subordinando todo nosso trabalho a esse objetivo; todas as nossas fábricas devem ser postas em funcionamento com grande intensidade para produzir mais fuzis, metralhadoras, canhões, cartuchos, obuses, aviões; devemos organizar a proteção das fábricas, centrais elétricas, comunicações telegráficas e telefônicas, assegurando uma eficaz proteção aérea a todas as localidades. Devemos desencadear uma luta implacável contra todos os desorganizadores da retaguarda: desertores, semeadores de pânico, difundidores de notícias falsas; aniquilar os espiões, sabotadores, pára-quedistas inimigos, prestando uma rápida ajuda, para tudo isso, a nossos batalhões de caça.

Devemos ter presente que o inimigo é pérfido, sem escrúpulos e experimentado em matéria de mistificação e difusão de boatos. Devemos ter presente tudo isso, não nos deixando arrastar pela provocação. Devemos levar aos tribunais militares, imediatamente, sem contemplações pessoais, a todos aqueles que, pelo seu espírito cobarde e desmoralizador, criarem obstáculos às tarefas da defesa. Em caso de retirada das unidades do exército, todo o material ferroviário deve ser transportado, não se deixando uma só locomotiva, um só vagão, um único grão de trigo, nem um litro de combustível.

Os colcosianos devem conduzir todo o seu gado e entregar os cereais aos organismos do Estado para que sejam transportados à retaguarda. Todos os bens de valor, incluindo os metais não ferrosos, cereais e petróleo, que não possam ser transportados, devem ser destruídos. É necessário organizar, nas regiões ocupadas pelo inimigo, destacamentos de guerrilheiros, a pé e a cavalo; criar grupos de sabotagem, encarregados de lutar contra as tropas inimigas, desencadear a luta de guerrilhas por toda a parte, fazendo saltar as pontes, obstruindo as estradas, destruindo as linhas de telégrafo e telefone, incendiando os bosques, os depósitos e os transportes.

É necessário criar, nas zonas ocupadas, condições insuportáveis para o inimigo e todos os seus cúmplices. Estes devem ser perseguidos e aniquilados, fazendo-se fracassar todas às suas medidas. Esta guerra contra a Alemanha fascista não pode ser considerada como uma guerra ordinária. Porque não é apenas uma guerra entre dois exércitos. É a grande guerra de todo o povo soviético contra as forças fascistas alemães. O objetivo desta guerra do povo em defesa de nosso país contra os opressores fascistas, não visa apenas a eliminação do perigo que ameaça nosso país, mas tem por fim também ajudar todos os povos da Europa que gemem sob o jugo do fascismo alemão.

Nesta guerra de libertação, não estaremos sós. Nesta grande guerra, teremos como aliados leais, todos os povos da Europa e da América, inclusive o povo escravizado pelo despotismo hitlerista. Nossa guerra pela liberdade de nosso país se fundirá, com as lutas dos povos da Europa e da América pelas suas liberdades democráticas e pela sua independência. Esta será a frente unida dos povos partidários da liberdade contra a escravidão e a ameaça de serem escravizados pelos exércitos fascistas de Hitler.

Sob esse aspecto, o discurso histórico do primeiro-ministro britânico, Churchill, em que hipoteca o seu apoio à União Soviética e a declaração do governo dos Estados Unidos, em que este se mostra disposto a conceder ajuda a nosso país, não podem deixar de suscitar sentimentos de gratidão no coração dos povos da União Soviética e são perfeitamente compreensíveis e sintomáticos.

Camaradas!

Nossas forças são incalculáveis. O presunçoso inimigo dentro em breve se convencerá dessa verdade. Ombro a ombro com o Exército Vermelho, milhares de trabalhadores, colcosianos e intelectuais, levantar-se-ão para lutar contra o inimigo agressor.

A massa de nosso povo se levanta aos milhões. Os trabalhadores de Moscou e de Leningrado começaram já a organizar vastas milícias populares para ajudar ao Exército Vermelho. Tais milícias populares devem ser constituídas em cada cidade onde haja o perigo de invasão; todo o povo trabalhador deve erguer-se em defesa de nossa liberdade, de nossa honra, de nosso país, em nossa guerra patriótica contra o fascismo alemão.

Afim de assegurar a rápida mobilização de todas as forças dos povos da URSS e para repelir o inimigo que, traiçoeiramente, atacou nosso país, foi constituído o Comitê de Defesa do Estado, que concentra em suas mãos todos os poderes estaduais. Esse Comitê já entrou em função, e conclama todo o nosso povo a agrupar-se em torno do Partido deLenine e em torno do governo soviético, afim de apoiar com abnegação o Exército e a Marinha Vermelhos, esmagar o inimigo e conquistar a Vitória.

Todas as nossas forças em apoio do Exército Vermelho e de nossa gloriosa Marinha Vermelha!

Todas as forças do povo para esmagar o inimigo!

Avante, para a nossa Vitória!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Domingos Lobo - Os capitães da areia, de Jorge Amado

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  • Domingos Lobo 


A grande literatura, aquela que expressa as mais lídimas aspirações dos povos, que pugna pela justiça e liberdade face aos opressores, foi sempre um entrave às intenções hegemónicas dos tiranos
A revolução é uma pátria e uma família – a crónica épica dos putos da Bahia, na escrita límpida e sagaz de um grande autor

Avante!



Avô, mesmo que a gente morra, é melhor morrer de repetição na mão, brigando com o coronel, que morrer em cima da terra, debaixo de relho, sem reagir. Mesmo que seja para morrer nós deve dividir essas terras, tomar elas para a gente. Mesmo que seja um dia só que a gente tenha elas, paga a pena de morrer.
In Subterrâneos da Liberdade

Jorge Amado pertence a uma geração de autores brasileiros que produziu, a partir dos anos 1930, uma literatura que começava – depois do fulgor realista de Machado de Assis – a pensar o Brasil fora da herança arcádica do colonialismo, fugindo aos apelos do modernismoe, até, da Renascença Portuguesa em cuja revista Águia poetas como Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida haviam colaborado.
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Essa nova geração de poetas e prosadores, de Carlos Drumond de Andrade a Vinícius de Moraes, de Guimarães Rosa a João Cabral de Melo Neto, visava criar uma literatura autónoma face ao legado do romantismo e do realismo portugueses, que fosse, a um tempo, consciente e interventiva, centrada na realidade brasileira e sul-americana, exprimindo uma sintaxe nova mas fugindo ao folclorismo romântico de José de Alencar, e investindo a sua capacidade discursiva na denúncia das escandalosas desigualdades sociais, as misérias e sevícias sofridas pelo povo miúdo, que a crise de 1929 e o avanço, na Europa, do nazi-fascismo tornavam evidentes mesmo num país que tentava, através do discurso hiperbólico de Getúlio Vargas, proclamado pelos seus seguidores comopai dos pobres, manter o Brasil neutral face ao vasto conflito que abalava o mundo. A neutralidade não o impediu, no entanto, de manter clara simpatia pelos países do eixo, de perseguir, com o patrocínio do clero reaccionário, os comunistas e seus companheiros de jornada e de luta.

Já em Macunaíma, o Herói sem Nenhum Carácter, Mário de Andrade esboçava os caminhos de uma provável nova literatura do Brasil, penetrando o âmago, o carácter e psique de um povo que vivia ainda sobre a égide de um feudalismo rapace, das práticas coloniais e que, abolida a escravatura, foram adquirindo outros processos mais subtis mas, na realidade, não menos perversos de sujeição, repressão e miséria, que hoje, em algumas zonas desse Brasil imenso, e ressalvando os progressos sociais alcançados na última década, ainda persistem. Está por fazer, de forma justa, continuada e determinante, uma verdadeira reforma agrária, que sirva os povos mais pobres do Nordeste brasileiro, reforma que a usura demente pela posse da terra, os contínuos atropelos às leis, levados a cabo pelos grandes agrários e pelos interesses que lhe estão associados, transformou numa guerra absurda e sangrenta, feita de batalhas múltiplas mas, também, de amplas e afirmativas solidariedades, dentro e fora do Brasil, batalhas que, nos seus avanços e recuos, têm sido profundamente injustas para os trabalhadores sem terra, estando estes, face à falta de empenho corajoso dos poderes, em vias de perderem esta frente de luta por um país mais próspero, equilibrado e menos desigual.

Foi com esta ideia matricial, a de que a prioridade absoluta tem de ser o ser humano, como escreveu José Saramago, que Jorge Amado publicou, em 1937, o romance Capitães da Areiae transformou a saga desses jovens da Bahia, os mais excluídos entre os excluídos, num hino pungente e inconformado contra o cortejo de misérias e das desigualdades chocantes que o capitalismo, um pouco por todo o mundo, foi gerando. Jorge Amado reflecte a sociedade desse tempo, os finais dos anos 1930, com um olhar assertivo e cru, detecta e denuncia, com dialéctica clareza, fugindo aos chavões da retórica, os gérmenes do problema, definindo-os um a um com corajosa e perspicaz determinação: a ganância extrema, as sinistras teias de um poder corrupto, violento e gizado para defender os poderosos, o clero vergado ao dinheiro, à pompa e circunstância, a grande burguesia detentora de todos os privilégios e das rédeas do Estado (a crítica subliminar ao governo de Getúlio está, apesar de nunca citado, omnipresente, neste romance exemplar), e os fazendeiros broncos e violentos, os novos ricos desse Nordeste imenso, das terras ricas e sofridas do cacau, os coronéis com o seu exército de jagunçose prostitutas e, por fim, mas não menos violenta, a bexiga negraque o Omolu, na sua omnipotência de deus cego, mandou para a cidade sabendo que nela só os pobres morreriam, porque lá em cima, na cidade alta, os ricos se vacinaram. É que os deuses, mesmos os que viajaram até às praias de São Salvador nos porões dos navios negreiros, sabem, na sua irracional candura, que é mais fácil deixar morrer um pobre, mesmo que dele a alma, nos improváveis paraísos siderais, se transforme num pássaro feliz, do que enfrentar a fúria terreal dos ricos.

Estão longe, estes órfãos que passeiam pelas ruas da Bahia a fome e a miséria, o engenho e a arte de furtar para sobreviver, dos meninos de Esteiros de Soeiro, ou do rapaz que olhava deslumbrado os Bonecos de Luz, de Romeu Correia, ou ainda esses líricos e sonhadores João, do José Gomes Ferreira, que começava, neste mundo adverso, a aprender a não ter medo, e o Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol. Filhos de uma outra realidade é certo, de outras geografias da fome, mas são todos eles, uns mais do que outros, vítimas inocentes e indefesas de um mesmo e perverso sistema.

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Com Capitães da Areia, caminhamos pelas ruas da Bahia com um punhado de adolescentes aos quais, os tempos e a usura dos homens, não deixaram que fossem meninos: o Professor, que lê livros de aventuras para poder sonhar para além do horizonte de ratos do trapiche; o Volta Seca que renascia numa alegria de Primavera ao ouvir as histórias de Lampião, ao qual se juntará para vingar todas as afrontas do mundo; Sem-Pernas em busca de um naco de ternura que ele sabe existir algures, sonhando se jogar no mar porque no mar os sonhos são todos belos e se deixou morrer num voo sobre a cidade, como um trapezista de circo, para que o não prendessem; oJoão de Adão, que queria fazer a revolução para que todos fossem iguais e os meninos como ele pudessem ir à escola;Dora, irmã, mãe e noiva, que as febres e os maus tratos levaram cedo para os céus de Omolu e se transformou em mais uma estrela brilhando sobre o mar da Bahia; o Gato, no seu tirocínio para malandro ao jeito da ópera de Brecht/Weill na versão carioca de Chico Buarque; Boa-Vida nas margens de outros apelos; o ingénuo e generoso João Grande; Pirulito que se queria puro para merecer Deus, e Pedro Bala, o capitão,sábio e arguto, sonhando ser como o pai, como o Loiro, morto durante a greve dos estivadores, ser valente e danado como o pai que morreu para mudar o destino da gente.

Este Capitães da Areia é, nas palavras de Jorge Amado, um hino do povo da Bahia. A poesia dos pobres vem expressa nesse olhar cúmplice que o autor derrama, com sensível e comedido dramatismo, sobre a vida, as aventuras da sobrevivência, as amarguras da fome e das torturas, dos meninos abandonados nas ruas de São Salvador da Bahia e, ao descrever essa saga que ainda hoje, volvidos 75 anos sobre a sua publicação, a escrita poderosa e a sua actualidade formal, a simplicidade dos processos narrativos utilizados por Jorge Amado para no-la contar, nos arrebata, emociona e revolta. Esse modo novo de utilizar o léxico, que vinha já de País do Carnaval Jubiabá, mas que neste romance ganha uma outra desenvoltura sintáctica, uma coloquialidade que nos faz, leitores formatados por um formalismo sem nervo nem inventiva, integrantes dessa fala, a reconhecer nela um linguajar barroco, tocante e excessivo, que penetra e fecunda a matriz identitária e primeva de uma língua de muitos percursos, de muitos povos, de muitas e desvairadas viagens. Uma língua que, com Jorge Amado, traz o fulgor úbere, criativo e musical do crioulo, que vem das florestas angolanas, das roças de S. Tomé e atravessa a sintaxe dos nordestes ameríndios, dos sertões, do Brasil mais profundo. Para nos contar esta saga, e as outras que tiveram o cenário geográfico das terras do cacau e do candomblé como território privilegiado dos seus romances, precisava Jorge Amado de retirar da língua que nos é comum o surro engravatado, o empertigado laço que por vezes a tolhe e emudece, e manter-lhe o húmus, a água, o sal e o mel tornando-a, também, nossa, levando-a desse modo a percorrer o desmedido, festivo e infrene chão das palavras que o povo tece, como, sobre outras paragens, o fez Aquilino, criando essa girândola, essa monódia única, esse fascínio de muitas línguas misturadas, no dizer de Guimarães Rosa.

O lírico e o fantástico, esse telúrico amor das gentes, da paisagem e das cidades (que os romances posteriores de Jorge Amado tornariam ainda mais evidentes) cruzam-se neste naco de prosa rude e sedutora, a que o compromisso político e a lúcida postura social do autor empresta uma ampla e significativa intervenção de sentido humano e progressista. Esse olhar sobre os espantos, sobre os comportamentos dos filhos dos deserdados, a boca aberta de admiração, vamos encontrá-lo também presente num dos mais belos textos (infelizmente esquecido) de Romeu Correia, Bonecos de Luz e em alguns poemas recolhidos por Maria Rosa Colaço e incluídos no livro A Criança e a Vida.

Se o trágico que perpassa, numa suspensão de lágrima revolta, este texto, lembra, na sua atmosfera, da descrição da miséria que gera a revolta, o poema Domingo, de Manuel da Fonseca, – crónica de uma burguesia que vem para o sol lançar um tostão nas mãos dos pedintes –, e a exortação do poeta para que todos, se acaso o quiséssemos, podermos fazer coisas maravilhosas na vida: os meninos vestidos de trapos deixariam de viver no acaso das ruas; os pintores lúcidos não se suicidariam nos carris; as meninas não se entregariam por uma nota de cem. Se o mudar o destino da gente de Pedro Bala saísse da ficção e se volvesse realidade, certamente o carrossel do Nhozinho França voltaria a ter os seus cavalos pintados de azul e vermelho e as meninas dançariam com os rapazes, sem receio, uma velha valsa feliz tocada por uma velha pianola e tudo seria natural como uma tarde de domingo.

Ao contrário dos poderes e da burguesia baiana de finais dos anos trinta do século vinte, que via nessa centena de adolescentes sem chão o pesadelo maior para as suas noites de digestão suave e descansada, Jorge Amado vê, como nenhum autor antes dele, (nem mesmo Lins do Rego, com o seuMenino de Engenho1 vai tão longe na análise social e na clareza dialéctica da denúncia que o texto de Jorge Amado, corajosamente, expressa) o grupo social que a industrialização, a saída de uma sociedade pós-colonial, o ruralismo arcaico e quase feudal, a incipiente experiência do capitalismo brasileiro, gerado na ressaca da 1ª. Guerra Mundial e o advento do fascismo na Europa, com os fluxos migratórios da Alemanha, Itália e Portugal, começavam, com a perversidade que o sistema consolidaria no futuro próximo, a excluir. A essesdeserdados do progresso, Jorge Amado emprestaria as armas perenes da palavra solidária, atenta e impressiva. Recuperandoas margens, humanizando-as e colocando-as no tempo histórico e social de uma Bahia gerada pela usura, pela cupidez, pela corrupção e pela hipocrisia, Jorge Amado constrói um dos mais inovadores e sensíveis monumentosficcionais de toda a história da literatura.

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João Luiz Lafetá afirma que a literatura brasileira dos anos 1930, nomeadamente os textos de José Lins do Rego e Jorge Amado, reflectiam a consciência pessimista do subdesenvolvimento, contrariando o discurso oficial que tentava propagandear para o exterior a visão mítica de um Brasil moderno, novo e progressivo, pátria das oportunidades, nos códigos lampeiros dos discursos de Getúlio Vargas, frase que o seu comparsa de aquém-Atlântico não desdenharia subscrever, tanto que ambos, em linha mimética de acção e pensamento criaram o seu Estado Novo. É o mesmo João Luiz Lafetá que refere que a consciência da luta de classes, embora de forma confusa, penetra em todos os lugares – na literatura inclusive, e com uma profundidade que vai causar transformações importantes. A este período da história do Brasil se refere Jorge Amado, lateral mas com crítico acinte, no final de Capitães da Areia.

É com medo das transformações importantes, e daquelas que a literatura pode gerar no imaginário dos povos, dessa subversão invisível que a arte produz, que o governo de Getúlio Vargas manda queimar em praça pública, em 1939, seguindo os ritos do nazismo alemão, mais de 800 exemplares deCapitães da Areia e o confisco dos restantes. Salazar, na sua sacra vigília sobre tudo que ressumasse cultura (consta que não puxava, como o outro, da pistola, que para tais tarefas tinha esbirros mais destros, mas lançaria, por certo, ao ar empestado de S. Bento, em eslavo beirão, impropérios previamente benzidos de assustar, no poleiro, as poedeiras galinhas e a serena dona Maria e seu chá prás lombrigas), também ordenou, através da seita invertebrada dos coronéis censórios, que se proibisse dois romances do herege Jorge Amado: Jubiabá e, claro, Capitães da Areia. Só não ordenou que prendessem o autor de tais aleivosias dado que, para tarefa tal, o comparsa Getúlio se havia já antecipado.

A grande literatura, aquela que expressa as mais lídimas aspirações dos povos, que pugna pela justiça e liberdade face aos opressores, foi sempre um entrave às intenções hegemónicas dos tiranos.

A estrutura narrativa de Capitães da Areia é, 75 anos após a sua publicação, um romance actual, pungente e incómodo. A sua estrutura narrativa afasta-se do modelo de contiguidade evolutiva, de sentido aristotélico, herdada do romantismo e do realismo – e de algum realismo social, sobretudo de Ferreira de Castro – preferindo Jorge Amado autonomizar cada capítulo e, nesse espaço narrativo (que pode funcionar como um corpo efabular separado do conjunto da obra) reflectir/denunciar, singularizando-o para melhor apreensão do leitor, um determinado e particular aspecto das teses mestras deste romance, a vários títulos, nomeadamente na argúcia dos processos oficinais ainda hoje raros, notável. Assim, temos, logo no início da narrativa, como introdução, as cartas enviadas à redacção do Jornal da Tarde. Ficamos a saber dos furtos, da posição, face aos desmandos dos jovens larápios, do Juiz de Menores e do Chefe da Polícia, de uma costureira e do padre José Pedro, ambos denunciando os métodos do reformatório público, e uma epístola final, enviada ao jornal pelo próprioReformador, desmentindo, no melhor estilo fascistóide, as denúncias anteriores. O primeiro capítulo é expositivo: são-nos apresentados os principais personagens, os seus métodos de sobrevivência, o meio de origem e o trapiche onde vivem. Um outro capítulo, o mais poético de quantos preenchem esta obra, leva-nos ao Grande Carrossel Japonês, local onde os capitãespodem ser, por entre a ilusão das luzes, o rodar dos cavalos de pau e o som de uma velha valsa, por instantes, os meninos que nunca os deixaram ser. No capítulo Docas, Pedro Bala fica a saber, pela boca de João de Adão quem foi seu pai, o pai que lutou na greve, que morreu para que os homens tivessem uma outra vida, melhor e mais digna. Depois veio a peste, a varíola, e com ela partiram milhares de pobres de São Salvador da Bahia. Ao contrário do conformismo fadista, o lazaredo, reduto último, de sentido bíblico, dos infectados, prova indubitável de que é, numa sociedade ferozmente dividida em classes, uma desgraça ser pobre.

E temos os deuses, as crenças, os saveiros, e as praias largas da Bahia, território de marítimos, de Mães de Santo, de Yemanjá, de Omolu e das negras que rebolam na areia a sedução mais gostosa dessa vida; os heróis do imaginário popular – e estes são transversais a todos os povos oprimidos:Lampião (morto em 1938) faz parte desse universo mítico, tal como o nosso José do Telhado, o Robin Hood medieval ou o Jesse James das pradarias ianques.

*

Neste universo do qual o amor se ausentou (andou nos olhos de Dora e de Pedro Bala, mas durou o tempo breve de um afago), a exuberante capacidade discursiva e coloquial de Jorge Amado, traça, com sageza, sem contemplações, o retrato da sociedade baiana de finais dos anos 1930. E nem os pobres – os remediados, que pensam terem atingido, face aos seus iguais, um estatuto superior – são poupados à aguda análise do autor de Gabriela, Cravo e Canela. Quando os pobres, pelo facto de terem mais um pão, se tornam igualmente predadores dos seus iguais. E, nessa denúncia, nesse contundente olhar sobre o real, vemos Jorge Amado no mesmo patamar de uma incontida indignação, que encontramos em algumas passagens da obra de Alves Redol. Quando a mãe de Dora morre de varíola, o dono do tabique apressa-se a expulsar os dois órfãos: desinfecta à pressa o sobrado e aluga o espaço a quem o possa pagar, indiferente ao rogo dos vizinhos e às lágrimas das crianças – não há, nesta criatura, o mínimo lampejo solidário: só a irracional ganância o molda.

Este Brasil telúrico, lírico, fantástico e cruel, embrenhado nas suas crenças ancestrais, com o coração doendo nas suas raízes africanas, livre do jugo colonial mas acorrentado pela fome e pela miséria, é o Brasil que Caymmi cantou, o Brasil dePedro Pedreiro, de Construção que Chico Buarque denunciou em cantigas que povoam o nosso imaginário, do Operário em Construção, de Vinícius, o Brasil de Alencar, de Drumond, daVida e Morte Severina, de Cabral Neto, o Brasil dos seringais de Ferreira de Castro mas, sobretudo, o Brasil de Jorge Amado e Lins do Rego – O País do Carnaval vivendo a absurda realidade de ter, dentro de si, convivendo no mesmo espaço, como máscaras de uma tragédia secular, as veredas da fartura mais obscena e sem limites e os largos sertões da pobreza e da exclusão.

O derradeiro capítulo de Capitães da Areia, é o da transformação de Pedro Bala: de menino ladrão, em revolucionário. É este, exactamente, o corolário lógico desta obra que lhe imprime um significado amplo e épico, enquanto objecto literário de rara asserção humanista no panorama da literatura universal. Não apenas porque Jorge Amado elabora uma lúcida e justa análise do tecido social que gera a iniquidade e a miséria extremas em que sobrevivem as margens do sistema capitalista, de que os Capitães da Areiaserão o rosto visível, mas os modos como o autor soube encontrar para cada um dos seus protagonistas, e no contexto definido, sem dogmáticas redundâncias, saídas que apontam ao futuro. A Pedro Bala cabe, naturalmente – seguindo a lógica narrativa – percorrer o caminho que o pai iniciou, e de outros exemplos revolucionários como o dos meninos de Lasso, em Itália. Pedro Bala, tal como A Mãe, na obra de Gorky, começa a compreender que só através da luta organizada, juntando a voz de todos os explorados, é possível transformar o mundo.

Agora que vivemos, numa Europa que se afunda atada à retórica da sua pesporrência, da pretensa superioridade moral e civilizacional, tempos de desencanto, de fome, de iniquidade e exploração generalizadas, é importante regressarmos a um romance2 que ainda, 75 anos depois, nos deixa presos às aventuras, à saga épica desse grupo de meninos abandonados – presos aos seus sonhos, às suas lutas, às suas tristezas e alegrias. Ao contrário dos burgueses da cidade alta de São Salvador da Bahia, que exigiam às polícias que prendessem e castigassem esse bando de marginais, nós iremos com eles para a rua gritar contra o medo e torcer o destino, porque esta canção da Bahia de Jorge Amado é uma canção de Liberdade,um hino de todos nós.

Somos hoje todos companheiros dos Capitães da Areia, sofrendo as mesmas exclusões, empurrados, pelos mesmos senhores de sempre, para as mesmas margens: Os pobres é tudo companheiro. Companheiro da gente.

(...) E, apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.

1 Meninos de Engenho, de José Lins do Rego, publicado em 1932

2 E também a Vinhas da Ira, de John Steinbeck, como propôs nas páginas do Ípsilon António Pinto Ribeiro, salientando que, tantas décadas depois, este romance voltou a deixar de ser «apenas ficção», para se colar à realidade dura deste nosso tempo: 800 mil desempregados em Portugal, 4 milhões em Espanha, um milhão e duzentos mil na Grécia. 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Maria Isabel Barreno - As tarefas


As tarefas
(Redacção de uma rapariga de nome Maria Adélia nascida no Carvalhal e educada num asilo religioso em Beja)

Há muitas espécies de tarefas e cada pessoa tem que cumprir a sua tarefa. As tarefas dividem-se em duas espécies: as tarefas do homem e as tarefas da mulher. As tarefas do homem são aquelas da coragem, da força e do mando. Quer dizer: serem presidentes, generais, serem padres, soldados, caçadores, serem toureiros, serem futebolistas e juízes, etc., etc. Ao homem deu Deus nosso Senhor a tarefa de velar e mandar, que até Jesus Cristo foi homem e Deus escolheu ter filho e não filha para morrer neste mundo em desconto dos nossos pecados que são muitos e na hora da morte disse «Pai perdoa-lhes que eles não sabem o que fazem». Deste modo são os homens que organizam as guerras para tirarem o mundo da perdição e do pecado (por exemplo: as cruzadas), combatendo para salvar a Pátria e defender assim as mulheres, as crianças e os velhos. 

Depois há as tarefas das mulheres, que acima de todas está a de ter filhos, guardá-los e tratá-los nas doenças, dar-lhes a educação em casa e o carinho; é também tarefa da mulher ser professora e mais coisas, tal como costureira, cabeleireira, criada, enfermeira. Há também mulheres médicas, engenheiras, advogadas, etc., mas o meu pai diz que é melhor a gente não se fiar nelas que as mulheres foram feitas para a vida da casa, que é uma tarefa muito bonita e dá muito gosto ter tudo limpo e arrumado para quando chegar o nosso marido ele poder descansar do trabalho do dia que foi tanto, a fim de arranjar dinheiro para nos sustentar e aos filhos. 

Como a vida está muito cara e ninguém pode com ela, diz a minha mãe que a mulher tem de trabalhar para ajudar o marido, mas eu cá não gostava nada de ter de ajudar o meu marido e só hei-de casar com um homem rico que me possa dar vestidos e automóvel, ir ao cinema, ter duas criadas e a minha mãe diz-me, filha fazes tu muito bem pensar assim, não cases com um pelintra como o teu pai, que o ordenado que ele ganha não dá para as faltas: desterrou-se a gente para estas terras porque ele é mesmo apalermado, mas é teu pai tens que lhe guardar respeito. Desterrou-se a gente e aqui só se comermos as pedras que o chão dá e eu estou neste asilo. Na terra da minha mãe sempre havia o meu avô que ajudava e lá a terra bota mais coisas das suas entranhas para matar a fome. Mas o meu pai resolveu-se a vir para estas bandas, de pedreiro, e como uma das tarefas da mulher é obedecer ao homem, assim fez minha mãe, que o que nos vale é ela ir a dias a casa da fidalga, parente de outra fidalga que teve uma filha aqui no convento, que uma das tarefas das mulheres, dantes, era ir para o convento e ainda hoje será, mas agora nem sempre vai obrigada. Diz o senhor prior que é uma vocação mas eu não sei o que isso quer dizer e ponho tarefa que é mais bonito. Ainda outro dia a fidalga me perguntou se eu não queria ir para freira (na família dela têm a mania de irem para freiras) e eu respondi muito obrigada e fiquei calada a olhar para o chão como a minha mãe me ensinou, ela disse que engraçadinha e fez-me uma festa na cabeça e eu vi os anéis que ela trazia nos dedos, a brilharem. Anéis com pedras lindas e pensei que fidalga deveria ser uma tarefa para as mulheres: então eu queria ser fidalga e beijei a mão da fidalga assim de repente, só para sentir na boca os anéis e ela julgou que fosse por mor dela e disse coitadinha e deu-me cinco escudos, mas quando eu queria ir à tenda comprar rebuçados a minha mãe tirou-me o dinheiro enquanto gritava não sejas gastadeira rapariga, que isso sempre dá para trazer um pouco de arroz e batatas, e eu lhos dei porque os filhos igualmente têm as suas tarefas e uma delas é obedecer aos pais, mas pensei que nunca mais lhe contava nada da minha vida nem lhe mostrava nada que me dessem: cada um governa-se e a gente nesta vida tem de ter a tarefa de ser esperta, e uma das tarefas da mulher é disfarçar, que bem vejo a minha mãe com o meu pai. Uma vez até me disse: filha, olha que a mulher tem de usar muita manha para conseguir o que quer, pois como somos mais fracas, o homem faz da gente gato-sapato e esse é o que é dado. Mas a gente tem de se defender. Outra das tarefas da mulher, então, será ter manha. 

É preciso não se cair em tentação, diz o Senhor Prior, eu cá não percebo nada dessas coisas e só sei que quando for grande nunca hei-de ser uma desgraçada tal a minha mãe, sempre a limpar as porcarias que o meu pai e a fidalga fazem. Pelo menos a fidalga sempre nos vai dando uns fatozitos velhos e uns restos de comida em vez de os deitar no caixote. Que também há as tarefas dos pobres e as tarefas dos ricos. Uma das tarefas dos ricos será serem caridosos e a dos pobres pedir e aceitar o que lhes dão mostrando-se muito agradecidos. 

O mundo sempre foi assim, prega o Senhor Prior, uns com tudo outros sem nada, é essa a vontade de Deus; concerteza porque ele nunca teve fome como nós, mas o Senhor Prior respondeu que para se ir para o céu depois de morto é preciso ser-se pobre e os ricos não vão para o céu, e contou uma história de um camelo que entrava pelo fundo de uma agulha e eu por achar graça, deitei a rir de tal maneira que ele me pôs logo de castigo. Que uma das tarefas das crianças é estarem de castigo, tal como uma das tarefas das pessoas grandes é castigarem as crianças por via de que elas aprendam a gostar de castigar pessoas; que castigar é uma tarefa bastante usada e precisa para a vida. 

Ainda a semana passada o patrão do meu pai o castigou por ele estar a dizer aos que trabalhavam com ele, que deviam pedir mais dinheiro que aquele não era nenhum para demanda da comida e a casa que se tem de pagar. E o patrão do meu pai deixou o meu pai sem trabalho uma semana em que só eu comi, por assim dizer, por via de estar no asilo que só lá não durmo. 

E a minha mãe fartou-se de moer o meu pai com palavras e choros, homem não te metas nestas coisas, olha o resultado que dá, a gente aqui a morrer de fome e os outros de barriga cheia, que o patrão não os castigou mas só a ti que eras o das ideias. 

Que uma das tarefas dos patrões é a de castigar os empregados, e a tarefa dos empregados é a de trabalhar para os patrões a fim de estes ficarem mais ricos e mais patrões. Talvez eu um dia case com um patrão. 

A verdade é que isso não quer dizer nada, pois quando o meu pai vem bêbedo e bate na minha mãe, grita: aqui eu é que sou o patrão. E ela cala-se e põe-se a chorar baixinho. 

E pronto, vou acabar, pois não podia dizer todas as tarefas que há no mundo, se não estava a vida inteira a escrever. Só gostava de falar de mais uma tarefa que é a da mulher de má vida. E eu ainda não percebi o que seja isso da má vida, pois má vida tem a minha mãe e todas as mulheres como ela. 

Prega o Senhor Prior ser tal coisa grande pecado e qualquer mulher que tenha essa tarefa vai para o inferno...

Diz o Senhor Prior que uma das tarefas da mulher é ser virtuosa, e eu embora também não perceba o que seja ser virtuosa, imagino que não deve dar nenhum arranjo. 

Gosto muito das tarefas. 

Maria Adélia

20/6/71 

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa in NOVAS CARTAS PORTUGUESAS, Dom Quixote, 2010

domingo, 5 de agosto de 2012

Poesia em Modus Vivendi


* V.G.


As Palavras


Disse, num dia de grande e fecunda inspiração,
Um grande e admirável senhor, dado às letras
(certamente conceito e postura vindos diretos
do seu coração),
Que as palavras são, por vezes, bonitos cristais
E outras vezes afiados e cruéis punhais
O que, em boa da verdade,
Ele bem soube o que disse, não foram tretas….
São preciosas quando, relâmpagos de beleza,
Significam verdade, pureza, inocência,
E não naufrágio, despudor ou aparência
Nem inverdades ditas com inconsequente leveza.
São como dores fundas e indizíveis, as palavras
Quando, mágicas, desvendam ambiguidades
(Talvez reveladoras de certas necessidades),
E transformam amizades boas em outra coisa
Qualquer.


As palavras têm poder e temperatura interna
Têm corpo e podem cegar qualquer um
Não só eu ou tu, mas outro mortal comum
Mesmo quando ditas ainda em ventre materno…
Muitas vezes podem salvar, proteger ou, sensuais,
Prender o ingénuo amante nas teias do amor
(mal sabe ele as suas futuras penas de dor….)
E podem também dar cor e luz à vida e ao mais.
Há palavras que doem, como mentiras que me
Pregam
E palavras que aliviam, como mães que nos
Embalam
São quimeras, castelos e dragões imaginados,
As palavras, quando me abraçam e quero acreditar
Porém tenebrosas, quando me devassam e reduzem
A nada…
Ou quase nada.


É na inegável síncope da noite 
E na metáfora indecifrável da vida
Que as palavras tomam corpo 
E transformam o que supostamente se tem 
Naquilo que se tem que ter.
São sonâmbulas, como algozes, as palavras
E reinam entre as trevas e os montes desertos
Da nossa imaginação,
Onde o limbo e a quase consciência
Tomam conta dos nossos sonhos mais secretos.
As palavras são fascinantes e fortes mistérios
Com poderes absolutos - e mais sérios
Do que se pensa…
Quem mente, com palavras, sobre o que é
Cai no primeiro degrau da sua consciência.
Difícil o enleio, já que aqui não há ciência,
No mastigar verdades com certeza e boa-fé.


Mas nem sempre serão as palavras que me dirão
Aquilo que quero ver…
Serão sempre os meus olhos que verão
Aquilo que não existe.








Outras Palavras



No entanto
Há palavras que os encantam
Na certeza
De haver beleza
No seu reflexo
E nos seus sentidos
Muitas vezes difusos,
Pois, esquecendo as mágoas,
E deixando correr as águas,
São sinfonia,
Constelações,
Muitas delas, alegria
E outras, canções.
Milagres, é o que fazem,
Também, as palavras

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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sofia de Mello Breyner - Musa ensina-me o canto




Musa ensina-me o canto 
Venerável e antigo 
O canto para todos
 Por todos entendido 

Musa ensina-me o canto 
O justo irmão das coisas 
Incendiador da noite 
E na tarde secreto 

Musa ensina-me o canto~
Em que eu mesma regresso 
Sem demora e sem pressa 
Tornada planta ou pedra 

Ou tornada parede 
Da casa primitiva 
Ou tornada o murmúrio 
Do mar que a cercava 

(Eu me lembro do chão 
De madeira lavada 
E do seu perfume 
Que atravessava) 

Musa ensina-me o canto 
Onde o mar respira 
Coberto de brilhos 
Musa ensina-me o canto 
Da janela quadrada 
E do quarto branco 

Que eu possa dizer como 
A tarde ali tocava 
Na mesa e na porta 
No espelho e no corpo 
E como os rodeava 

Pois o tempo me corta 
O tempo me divide 
O tempo me atravessa 
E me separa viva 
Do chão e da parede 
Da casa primitiva 

Musa ensina-me o canto 
Venerável e antigo 
Para prender o brilho 
Dessa manhã polida 
Que poisava na duna 
Docemente os seus dedos 
E caiava as paredes 
Da casa limpa e branca 

Musa ensina-me o canto 
Que me corta a garganta 



in Livro VI - 1962

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Poesia de Maria Azenha em Modus Vivendi


* Maria Azenha

Navegação
    

navegar o silêncio a memória
navegar as estrelas o odor do espaço
o seu sangue coagulado em planícies de vento
por jardins alinhados de poeira e ar
navegar os destroçosas palavras e os barcos
navegar por sinais intemporais
ou por silêncios de espectros terraços
templos imersos
em conversas de aéreos vitrais

 navegar os astros em cânticos desertos
em grandes transatlânticos do espaço
entrevistando luzes terrestres
navegar alucinadamente
vocábulos e tendões
por inúmeros portais invisíveis electrões

 navegar na cápsula do Tempo muito lentamente
galáxias ritmos e ritos
navegar o vento
navegar inesperadamente 
a astrofísica da vida
navegar secretamente contra o escuro 
contra a luz apodrecida 
uma esfera de silêncio
navegar contra os átomos ausentes


As Veias do Espaço



digo o voo das aves
essas veias levíssimas do espaço
as suas sílabas subitamente sentadas
em cadeiras voláteis
digo essas delicadas naves
que navegam por metáforas matemáticas

as suas figuras de números tranquilos
os seus modos de penetrar o espaço
as suas danças de átomos
os seus múltiplos resíduos
em silenciosos halos de naufrágios

digo as suas galáxias de luz e números

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