sábado, 28 de agosto de 2010

A Velhice do Padre Eterno - Guerra Junqueiro




Neste livro Guerra Junqueiro dispara balas contra a Igreja, mas não contra Deus. O anticlericalismo de Junqueiro manifesta-se forte aqui, com críticas ferozes aos curas e aos papas, sua gula, avareza, ganância e todos os defeitos possíveis. Mas aparece também o sentimento de religiosidade, já que o autor não nega a existência de Deus, apenas a validade e moralidade da Igreja Católica. Este livro foi ilustrado por Leal da Câmara, que reflete em suas aquarelas os sentimentos e impressões de Guerra Junqueiro, com padres bonachões e imagens como Jesus conversando com Voltaire e Deus escarrando. Num aspecto técnico, Junqueiro usa rimas em todos os versos, apesar de não se prender exageradamente a metrificação. 
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http://resumos.netsaber.com.br/ver_resumo_c_2722.html
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A VELHICE DO PADRE ETERNO


O MELRO

O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro; dentre a horta,
Dizia-lhe: "Bons dias!"
E o velho padre-cura não gostava daquelas cortesias.

O cura era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro:
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro desprezava os exorcismos
Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
Até que ultimamente
O velho disse um dia:

"Nada, já não tem jeito!, este ladrão
Dá cabo dos trigais!
Qual seria a razão
Por que Deus fez os melros e os pardais?!"
E o melro entretanto,
Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente
A madrugada clara,
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apesar disto, o rude proletário,
O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.

Que grande tolo o padre confessor!

Foi para a eira o trigo;
E, armando uns espantalhos,
Disse o abade consigo:
"Acabaram-se as penas e os trabalhos."
Mas logo de manhã, maldito espanto!
O abade, inda na cama,
Ouvindo do melro o costumado canto,
Ficou ardendo em chama;
Pega na caçadeira,
Levanta-se dum salto,
E vê o melro, a assobiar, na eira,
Em cima do seu velho chapéu alto!

Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre-cura andava enfermo;
Não falava nem ria,
Minado por tão íntimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura
(Muito embora o leitor não me acredite),
Que o bom do padre-cura
Perdera … o apetite!

Andando no quintal, um certo dia,
Lendo em voz alta o Velho Testamento,
Enxergou por acaso (que alegria!,
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros, escondido
Entre uma carvalheira.

E ao vê-los exclamou enfurecido:

"A mãe comeu o fruto proibido;
Esse fruto era minha sementeira:
Era o pão, e era o milho;
Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Igreja. Estou vingado!"

E, engaiolando os pobres passaritos,
Soltava exclamações:
"É uma praga. Malditos!
Dão me cabo de tudo esses ladrões!
Raios os partam! Andai lá que enfim…"

E deixando a gaiola pendurada,
Continuou a ler o seu latim,
Fungando uma pitada.

Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda douradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
Das plantas dos herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginais as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as crianças.

Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura,
Destacava na frouxa claridade,
Como uma nódoa escura.
E, introduzindo a chave no portal,
Murmurou entre dentes:

"Tal e qual… tal e qual!…
Guisados com arroz são excelentes."

Nasceu a Lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, aveludado,
Do sorriso dos mártires, dos justos.
Um eflúvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da matéria
Murmuravam diálogos gigantes
Pela amplidão etérea.
São precisos silêncios virginais,
Disposições simpáticas, nervosas,
Para ouvir falar estas falas silenciosas
Dos mundos vegetais.
As orvalhadas, frescas espessuras,
Pressentiam-se quase a germinar.
Desmaiavam-se as cândidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar.
(…)

E nisto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar, andou buscando
Umas penugens doces como arminho,
Um feltrozito acetinado e brando.
Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e, louco e mudo,
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.

"Quem vos meteu aqui?!" O mais velho,
Todo tremente, murmurou então:
"Foi aquele homem negro. Quando veio,
Chamei, chamei… Andavas tu na horta…
Ai que susto, que susto!, ele é tão feio!…
Tive-lhe tanto medo!… Abre esta porta
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos a construir a nossa casa
Num bonito lugar…
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas
Para voar, voar!"

E o melro alucinado
Clamou:

"Senhor! senhor!
É porventura crime ou é pecado
Que eu tenha muito amor
A estes inocentes?!
Ó natureza, ó Deus, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
Os filhos que eu criei!
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,
Quanta noite perdida
Nem eu sei…
E tudo, tudo em vão!
Filhos da minha vida
Filhos do coração!!!…
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o Céu par voardes,
E prendem-vos assim desta maneira!…
Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano,
Eis o aguilhão, a fé que nos abrasa…
Encarcerar a asa
É encarcerar o pensamento humano.

A culpa tive-a eu! Quase à noitinha
Parti, deixei-os sós…
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
De mais ninguém!… Que atroz!
E eu devia sabê-lo!
Eu tinha obrigação de adivinhar…
Remorso eterno! eterno pesadelo!…
(…)

Falta-me a luz e o ar!… Oh, quem me dera
Ser abutre ou fera
Para partir o cárcere maldito!…
E como a noite é límpida e formosa!
Nem um ai, nem um grito…
Que noite triste!, oh, noite silenciosa!…"

E a natureza fresca, omnipotente,
Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heróis.
Nas sebes orvalhadas,
Entre folhas luzentes como espadas,
Cantavam rouxinóis.

Os vegetais felizes
Mergulhavam as sôfregas raízes
A procurar na terra as seivas boas,
Com a avidez e as raivas tenebrosas
Das pequeninas feras vigorosas
Sugando à noite os peitos das leoas.
A lua triste, a Lua merencória,
Desdémona marmórea,
Rolava pelo azul da imensidade,
Imersa numa luz serena e fria,
Branca como a harmonia,
Pura como a verdade.
E entre a luz do luar e os sons das flores,
Na atonia cruel das grandes dores,
O melro solitário
Jazia inerte, exânime, sereno,
Bem como outrora o Nazareno
Na noite do calvário!…

Segundo o seu costume habitual,
Logo de madrugada
O padre-cura foi para o quintal,
Levando a Bíblia e sobraçando a enxada.
Antes de dizer missa,
O velho abade inevitavelmente
Tratava da hortaliça
E rezava a Deus-Padre Omnipotente
Vários trechos latinos,
Salvando desta forma, juntamente,
As ervilhas, as almas e os pepinos.

E já de longe ia bradando:

"Olé!
Dormiram bem?… Estimo…
Eu lhes darei o mimo,
Canalha vil, grandíssima ralé!
Então vocês, seus almas do Diabo,
Julgam que isto que era só dar cabo
Da horta e do pomar,
E o bico alegre e estômago contente,
E o camelo do cura que se aguente,
Que engrole o seu latim e vá bugiar!…
Grandes larápios! Era o que faltava
Vocês irem ao milho,
E a mim mandar-me à fava!
Pois muito bem, agora que vos pilho
Eu vos ensinarei, meus safardanas!
Vocês são mariolões, são ratazanas,
Têm bico, é certo, mas não têm tonsura…
E, nas manhas, um melro nunca chega
Às manhas naturais de um padre-cura.
O melhor vinho que encontrar na adega
É para hoje, olé!… Que bambochata!

Que petisqueira! Melros com chouriço!…
E então a Fortunata
Que tem um dedo e jeito para isso!…
Hei-de comer-vos todos um a um,
Lambendo os beiços, com tal gana enfim,
Que comendo-vos todos, mesmo assim
Eu fico ainda quase em jejum!
E depois de vos ter dentro da pança,
Depois de vos jantar,
Vocês verão como o velhote dança,
Como ele é melro e sabe assobiar!…"
Mas nisto o padre-cura, titubeante,
Quase desfalecendo,
Atónito de horror, parou diante
Deste drama estupendo:

O melro, ao ver aproximar o abade,
Despertou da atonia,
Lançando-se furioso contra a grade
Do cárcere. Torcia,
Para os partir os ferros da prisão,
Crispando as unhas convulsivamente
Com a fúria dum leão.
Batalha inútil, desespero ardente!
Quebrou as garras, depenou as asas
E alucinado, exangue,
Os olhos como brasas,
Herói febril, a gotejar em sangue,
Partiu num voo arrebatado e louco,
Trazendo, dentro em pouco,
Preso do bico, um ramo de veneno.
E belo e grande e trágico e sereno,
Disse:
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa mas a alma voa…
Ó filhos, voemos pelo azul!… Comei!" -

E mais sublime do que Cristo, quando
Morreu na Cruz, maior do que Catão,
Matou os quatro filhos, trespassando
Quatro vezes o próprio coração!
Soltou, fitando o abade, uma pungente
Gargalhada de lágrima, de dor,
E partiu pelo espaço heroicamente,
Indo cair, já morto, de repente
Num carcavão com silveiras em flor.

E o velho abade, lívido d'espanto,
Exclamou afinal:
"Tudo o que existe é imaculado e é santo!
Há em toda a miséria o mesmo pranto
E em todo o coração há um grito igual.
Deus semeou d'almas o universo todo.
Tudo que o vive ri e canta e chora …
Tudo foi feito com o mesmo lodo,
Purificado com a mesma aurora.
Ó mistério sagrado da existência,
Só hoje te adivinho,
Ao ver que a alma tem a mesma essência,
Pela dor, pelo amor, pela inocência,
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
Só hoje sei que em toda a criatura,
Desde a mais bela até à mais impura,
Ou numa pomba ou numa fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!…
(…)
Ah, Deus é bem maior do que eu julgava…"

E quedou silencioso. O velho mundo,
Das suas crenças antigas, num momento,
Viu-o sumir exausto, moribundo,
Nos abismos sem fundo
Do temeroso mar do Pensamento.

E chorou e chorou… A Igreja, a Crença,
Rude montanha, pavorosa, escura,
Que enchia o globo com a sombra imensa
Dos seus setenta séculos d'altura;
O Himalaia de dogmas triunfantes,
Mais eternos que o bronze e que o granito,
Onde aos profetas Deus falava dantes,
Entre raios e nuvens trovejantes,
Lá dos confins sidérios do infinito;
Esse colosso enorme, em dois instantes
Viu-o tremer, fender-se e desabar
Numa ruína espantosa,
Só de tocar-lhe a asa vaporosa
Duma avezinha trémula, a expirar!…
(…)

E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:
"Há mais fé e há mais verdade,
Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga… Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!..."

A Velhice do Padre Eterno

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http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/junquei1.htm
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Alberto Caeiro - Poema do Menino Jesus




«Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou – "Se é que ele as criou, do que duvido."
-"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa. »

Alberto Caeiro.
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Biografía de Mia Couto


Poemas del Alma


26
Ago
 
Publicado por Verónica Gudiña
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El escritor mozambiqueño António Emílio Leite Couto, quien acostumbra firmar sus materiales con el seudónimo de Mia Couto, nació el 5 de julio de 1955 en la ciudad de Beira, la capital de la provincia de Sofala.
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Mia CoutoAunque este descendiente de una pareja de emigrantes portugueses mostró desde pequeño una gran afición hacia el universo literario y hasta logró que algunas de sus poesías fueran publicadas por el periódico “Noticias de Beira”, en 1971 Couto se mudó a Maputo con el propósito de aprender Medicina en la Universidad Lourenço Marques.
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Si bien las cuestiones relacionadas a la salud le atraían, su pasión por el mundo de las letras fue más fuerte y lo impulsó a abandonar su formación académica para probar suerte en el campo periodístico.
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A partir de entonces, este destacado escritor inició un camino interesante que le permitió sumar experiencia como periodista en el diario “Tribuna”, ser director de la Agencia de Información de Mozambique y de la revista “Tempo”, demostrar sus aptitudes poéticas a través de “Raíz de Orvalho” y debutar como cuentista en 1986 por medio de “Vozes anoitecidas”.
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Con el paso de los años, su producción literaria se ampliaría con crónicas, relatos breves y novelas, muchas de las cuales se encuentran traducidas a idiomas como el español, francés, alemán, sueco, italiano y catalán.
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“Cronicando”, “Cada hombre es una raza”, “Tierra sonámbula”, “El balcón del Frangipani” y “El último vuelo del flamenco” son algunos de los títulos que permiten apreciar el talento de este exitoso hombre que, ya consagrado como escritor a nivel internacional, decidió retomar sus estudios universitarios y especializarse en Biología, profesión que suele ejercer cuando sus obligaciones literarias se lo permiten.
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Por su destacada labor en el mundo de las letras y en reconocimiento al prestigio alcanzado, en 1999 Mia Couto fue distinguido con el Premio Virgilio Ferreira.

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Resumen de Crónicas marcianas


Poemas del Alma


A lo largo de su trayectoria, el autor estadounidense Ray Bradbury ofreció numerosas evidencias de talento y creatividad literaria pero, sin duda, hubo dos obras que lo consolidaron como escritor de fama mundial: “Fahrenheit 451″ y “Crónicas marcianas”.
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Como en Poemas del Alma ya hemos hecho referencia al primero de esos trabajos mencionados, en esta oportunidad vamos a centrar la información en la serie de relatos cortos inspirados en Marte, sus habitantes y la colonización de dicho planeta por parte de la humanidad.
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Esta colección creada en la década del ‘40 cuya primera publicación data de 1950, se caracteriza por cautivar al lector con narraciones poéticas y melancólicas donde la acción comienza a desencadenarse en 1999, un año que, por ese entonces, representaba el futuro lejano. A través de esas aventuras que, según la visión de Bradbury, se extenderían hasta más allá de este presente que nos toca vivir (cabe destacar que uno de los relatos transcurre, aparentemente, en abril de 2009 y, otro, en octubre de 2026), el novelista consigue desarrollar múltiples temáticas vinculadas al accionar del hombre y su influencia negativa respecto al planeta.
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Puntos clave de las diversas expediciones realizadas, referencias hacia el armamento marciano y los conflictos bélicos, descripción de las transformaciones planetarias y la confirmación de la destrucción generada son sólo algunos de los atractivos que pueden encontrarse en estas historias que fueron agrupadas bajo el nombre de “Crónicas marcianas”.
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En esta obra que ha sido adaptada a la gran pantalla, tuvo versiones televisivas y, en su traducción al español, fue respaldada con un prólogo escrito por Jorge Luis Borges es posible encontrar títulos como “El verano del cohete”, “Noche de verano”, “Los hombres de la tierra”, “La tercera expedición”, “Las langostas”, “Un camino a través del aire”, “La tienda de equipajes”, “Los pueblos silenciosos” y “El picnic de un millón de años”, entre otros.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Vislumbres de la India, de Octavio Paz

Poemas del Alma


25
Ago

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Publicado por Julián Pérez Porto
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Al repasar la vida y obra del talentoso poeta y ensayista mexicano Octavio Paz hay títulos que, por la trascendencia alcanzada o la importancia que tuvieron en la trayectoria del ganador del Premio Nobel de Literatura 1990, consiguen destacarse entre todas las propuestas de su autoría.
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Vislumbres de la IndiaUno de esos materiales que no pasa desapercibido es “Vislumbres de la India”, un ensayo que apareció por primera vez en 1995, dos años después del lanzamiento de “La llama doble. Amor y erotismo”. En este texto, el también creador de “Los hijos del limo”, “Libertad bajo palabra”, “Sor Juana Inés de la Cruz o las trampas de la fe” y “Las peras del olmo” plasma recuerdos de su estadía en territorio indio (donde fue embajador durante algunas temporadas) y describe la huella cultural, artística, política y filosófica que ese país ha dejado en su interior.
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Al ser leído por integrantes del mundo occidental, este libro consigue ampliar los horizontes al presentar una realidad distinta en cuanto a tradiciones, estilos de vida y modos de entender el universo.
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En “Vislumbres de la India”, los datos autobiográficos se conjugan con referencias geográficas, históricas y religiosas para dar lugar a un interesante testimonio que permite conocer tanto las vivencias de Octavio Paz como así también el pasado y el presente de la República de la India, un país asiático que se caracteriza por ser la cuna del hinduismo.
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Si desean saber cómo ha presentado Paz a esa nación que lo sorprendió con una profunda diversidad y “violentos contrastes” al presentarle, en una misma superficie, “lujo y pobreza, mansedumbre y violencia, ríos y desiertos, costumbres e ideas, pluralidad de castas y lenguas, dioses y ritos, llanuras y montañas y grandes ciudades y pueblecillos”, intenten conseguir, en cuanto les sea posible, un ejemplar de “Vislumbres de la India”.


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

El país de octubre, de Ray Bradbury

Poemas del Alma


24
Ago
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Publicado por Julián Pérez Porto
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Las mejores bibliotecas no son las que más ejemplares agrupan sino las que mayor variedad y calidad de textos ofrecen. Aunque, a la hora de coleccionar libros, uno privilegia sus preferencias personales, hay propuestas que, por su relevancia histórica, cultural o artística, no deberían faltar en ninguna biblioteca.
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El pais de octubreUno de esos textos imprescindibles es “El país de octubre”, un interesante título perteneciente a la producción literaria del talentoso estadounidense Ray Bradbury. Si bien la obra no es tan famosa como “Crónicas marcianas” o “Fahrenheit 451″, los veinte relatos cortos que esconde entre sus páginas la convierten en un material de lectura obligada para aquellos que disfrutan las historias inquietantes.
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Esta colección que comenzó a ser difundida en 1956 bajo el nombre de “El país de octubre” está compuesta por trabajos como “El enano”, “El siguiente en la fila”, “La desvelada ficha de póquer de H. Matisse”, “La jarra”, “Tocado por el fuego”, “El pequeño asesino”, “La multitud”, “La caja de sorpresas”, “El hombre del primer piso”, “Había una vez una vieja”, “Reunión de familia” y “La maravillosa muerte de Dudley Stone”, aunque la presencia o ausencia de los cuentos recopilados varía según la edición.
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En este país que describió el también creador de “Las doradas manzanas del sol”, “siempre está haciéndose tarde”, las colinas suelen ser niebla y los ríos, neblina. Allí, asegura el autor, vive “gente de otoño que sólo tiene pensamientos otoñales” y los mediodías suelen desarrollarse de forma rápida mientras que las medianoches parecen ser inmóviles.
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Si este mundo ficticio los entusiasma y los incita a descubrirlo por completo, no olviden conseguir un ejemplar de “El país de octubre”, un libro con varios años de antigüedad que permite apreciar varias de las fantásticas historias que, a lo largo de su trayectoria, ha elaborado el ingenioso Ray Bradbury.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

DAS KAPITAL de Amiri Baraka


martes, 18 de diciembre de 2007


DAS KAPITAL

Estrangulando mujeres en los baldíos de los suburbios sus cuerpos pudriéndose por ahí mientras se beben martinis los viajeros abonados buscando su ejemplar del New Yorker sienten un chiflón y más tarde podrán ponerse más borrachos
mientras ven en la tele el programa repetido sobre Ford. Habrá ríos de ellos bajándose, saliendo por ahí por donde las mataron. Dos de ellas estranguladas por el maniático.
Hay maniáticos ocultos por todos lados, ¿qué no los ves? Docenas y docenas, toneladas de maniáticos (aunque son una minoría). Pero nos aterrorizan de manera uniforme, por todos lados observamos las paredes de nuestras casas, los botes de basura repletos desperdigados por nuestras descuidadas ciudades, y podría darnos
pavor. Una rata se escurre junto a nosotros de pasada a un banquete, ¿no oyes los
brindis que se echan a través de las paredes, llenas de rumores de ratas? Fogonazos, el
hijo de alguna mujer tropezará para morir con un charco de sangre alrededor de la cabeza. Eso no
lo hará el maniático. Estas casas viejas se desmoronan, los desempleados se caen, ruedan al lado nuestro,
desesperados, con los dedos cenicientos, acosados. El aire es frío el invierno se acumula encima de nosotros y se consolida grado
tras grado. Necesitamos una aspirina o algo y apretarnos mucho los sacos. El hombre calvo en la televisión va
por un camino arbolado no es posible aguantar, ni entender, su desabrida ignorancia. La
gente cambia de canalen busca de Good Times y se encuentra a un negro con un sombrero
metido hasta las narices. Resplandores de maniáticas sombras
antes de ir a la cama, antes de bajar la cortina puedes ver que las hojas están
siendo desperdigadas calle abajo ya es demasiado oscuro para ver qué hay escrito en ellas, las fechas, y
lo mucho que debemos. Las calles también pronto van a estar vacías, después de que los fieles regresen a sus
casas de la iglesia, ya salvados de nuevo del Maniaco... excepto que un close-up al rostro del místico mayor, la cara rodando hasta sus manos, te provoca escalofríos por todo el cuerpo, y buscas rastros de la vida de los
maniáticos. Incluso allí, entre los mitofrénicos.

¿Qué puedes hacer? Ya es hora al fin de irse a la cama. Las sombras se
cierran alrededor y el cuarto está callado Casi todos sabemos que hay un maniático suelto. Nuestras vidas un
amasijo de frustraciones y de insatisfechas capacidades. Las chicas muertas, el ruido de las ratas, las sombrías y
relampagueantes luces, la voz muerta en la televisión, ¿había sangre y pelos bajo las uñas del predicador?
Nos quedamos rumiando

algunas otras pistas mientras nos vamos a dormir, los esqueletos de
los billetes de dólar, restos del muerto y gastado trabajo, nos alejan de la escena del crimen, hasta que en una
especie de ataque recordamos que cualquier lugar es la escena del crimen. Y mañana tener que enfrentar que eso gime
a través de nosotros como el viento, tener que enfrentarlo, como una vieja canción en radio city, al trabajar por el
dólarrr gringo, cuando éramos
niños, y entonces pensábamos que no era el viento, sino el maniático rascando
nuestras ventanas. Quién es el maniático, y por qué en todos los lados y al
mismo tiempo...

versión Pedro Serrano
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Publicado por wineruda @ 16:01
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Amiri BarakaAmiri Baraka, born in 1934, in Newark, New Jersey, USA, is the author of over 40 books of essays, poems, drama, and music history and criticism, a poet icon and revolutionary political activist who has recited poetry and lectured on cultural and political issues extensively in the USA, the Caribbean, Africa, and Europe.
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With influences on his work ranging from musical orishas such as Ornette Coleman, John Coltrane, Thelonius Monk, and Sun Ra to the Cuban Revolution, Malcolm X and world revolutionary movements, Baraka is renowned as the founder of the Black Arts Movement in Harlem in the 1960s that became, though short-lived, the virtual blueprint for a new American theater aesthetics. The movement and his published and performance work, such as the signature study on African-American music, Blues People (1963) and the play Dutchman (1963) practically seeded “the cultural corollary to black nationalism” of that revolutionary American milieu.
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Other titles range from Selected Poetry of Amiri Baraka/LeRoi Jones (1979), to The Music (1987), a fascinating collection of poems and monographs on Jazz and Blues authored by Baraka and his wife and poet Amina, and his boldly sortied essays, The Essence of Reparations (2003).
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He has been the subject of numerous documentary films including Mario Van Peeble's Poetic License for The Sundance Channel and St. Clair Bourne's In Motion: Amiri Baraka. He has also appeared in dozens of films including, most recently, M.K. Asante, Jr's award-winning documentary The Black Candle.
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The Essence of Reparations is Baraka’s first published collection of essays in book form radically exploring what is sure to become a twenty-first century watershed movement of Black peoples to the interrelated issues of racism, national oppression, colonialism, neo-colonialism, self-determination and national and human liberation, which he has long been addressing creatively and critically. It has been said that Amiri Baraka is committed to social justice like no other American writer. He has taught at Yale, Columbia, and the State University of New York at Stony Brook.
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Somebody Blew Up America & Other Poems is Baraka’s first collection of poems published in the Caribbean and includes the title poem that has headlined him in the media in ways rare to poets and authors. The recital of the poem “that mattered” engaged the poet warrior in a battle royal with the very governor of New Jersey and with a legion of detractors demanding his resignation as the state’s Poet Laureate because of Somebody Blew Up America’s provocatively poetic inquiry (in a few lines of the poem) about who knew beforehand about the New York City World Trade Center bombings in 2001.
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The poem’s own detonation caused the author’s photo and words to be splashed across the pages of New York’s Amsterdam News and the New York Times and to be featured on CNN--to name a few US city, state and national and international media.
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Baraka lives in Newark with his wife and author Amina Baraka; they have five children and head up the word-music ensemble, Blue Ark: The Word Ship and co-direct Kimako’s Blues People, the “artspace” housed in their theater basement for some fifteen years.
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His awards and honors include an Obie, the American Academy of Arts & Letters award, the James Weldon Johnson Medal for contributions to the arts, Rockefeller Foundation and National Endowment for the Arts grants, Professor Emeritus at the State university of New York at Stony Brook, and the Poet Laureate of New Jersey.



© Amiri Baraka
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http://www.amiribaraka.com/
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Amiri Baraka - Wikipedia, the free encyclopedia

 - Amiri Baraka (born October 7, 1934), formerly known as LeRoi Jones, is an American writer of poetry, drama, fiction, essays, and music criticism. ...
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Aos 82 anos, Günter Grass está de regresso aos irmãos Grimm



19.08.2010


Em "Grimms Wörter", reflecte por isso sobre todas as épocas da história alemã a partir do século XIX, acompanhando o surgimento do nazismo, a Segunda Guerra Mundial, a divisão da Alemanha e sua reunificação em 1990.
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Günter Grass, Prémio Nobel de Literatura 1999, continua fiel à sua máquina de escrever Olivetti na era dos computadores e do iPad. Numa entrevista que deu ao "Der Spiegel" o escritor que está a lançar na Alemanha o terceiro volume da sua autobiografia, "Grimms Wörter" (à letra, "as palavras dos Grimm") conta que depois dá todo o material à secretária, e que é ela que passa o texto para o computador.
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 Aos 82 anos, o escritor alemão está fascinado por Jacob e Wilhelm Grimm cujos contos preencheram a sua infância e influenciaram a sua obra. Fascinado não só pela obra dos irmãos (que iniciaram em 1938 a criação de um grande dicionário alemão, do qual só conseguiram concluir três dos 32 volumes previstos) como pelo seu posicionamento político, que os levou em 1837 a manifestarem-se contra o poder do Estado.


No terceiro volume da sua autobiografia, Grass retoma a sua actividade cívica, mas faz também uma declaração de amor à sua língua, o alemão. "Pareceu-me que a parte da minha biografia que não aparecia em 'Descascando a Cebola' e 'A Caixa' [ambas publicadas em Portugal pela Casa das Letras], a parte relativa à minha actividade política e social, podia encontrar lugar numa história sobre os irmãos Grimm", explicou o escritor numa entrevista à revista suíça "Du". Em "Grimms Wörter", reflecte por isso sobre todas as épocas da história alemã a partir do século XIX, acompanhando o surgimento do nazismo, a Segunda Guerra Mundial, a divisão da Alemanha e sua reunificação em 1990.
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domingo, 22 de agosto de 2010

Erich Maria Remarque (1898-1970) - pseudonym for Erich Paul Remark




German writer, who became famous with his novel IM WESTEN NICHTS NEUES (tr. All Quiet on the Western Front, 1929), which depicted the horrors of war from the point of view of the ordinary soldiers. In his works Remarque focused largely on the collapse of the old European world and values. Although his later novels also were successful, Remarque lived in the shadow of his "big" first book.
"It is just as much a matter of chance that I am still alive as that I might have been hit. In a bomb-proof dug-out I may be smashed to atoms and in the open may survive ten hour's bombardment unscratched. No soldier outlives a thousand chances. But every soldier believes in Chance and trusts his luck." (from All Quiet on the Western Front)
Erich Maria Remarque was born in Osnabrück, Lower Saxony, into modest circumstances. His ancestors were French, the family name was 'Germanized' early in the nineteeth century. Peter Franz Remark, Remarque's father, was a poorly paid bookbinder. Although Franz Remark did not show much interest in intellectual activities, except his interest in the occult, the family had a piano, and at one point in his life Remarque planned a musical career. In 1904, at the age of six, Remarque entered the Domschule (cathedral school), and four years later he moved to the Johannisschle. Remarque was "always the best in class", as one of his closest school friends later recalled. 
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For a time Remarque studied at the University of Münster, but had to enlist in the German army at the age of 18. Remarque fought on the Western Front and was wounded several times. After his discharge Remarque had taken a teacher's course offered to veterans by the government. He taught for a year in a school, and tried also his hand as a stonecutter and a test-cardriver for a Berlin tire company. 
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Remarque began his writing career as a sporting journalist, eventually becoming the assistant editor of Sportbild. Among his friends was Leni Riefenstahl, who later made the Nazi propaganda film Triumph of the Will (1935), and the two-part Olympia (1938), about the 1936 Berlin Olympic Games. Remarque's wife, Jutta Zambona, "tall, slender as a fashion model, and strikingly dressed", as Riefenstahl described Jutta in her book of memoir later inspired heroines in his books. The marriage was stormy, and they both had extra-marital activities. His longest, intercontinental affair Remarque had with Marlene Dietrich; they met first time in Venice in the late 1930s. 
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Fame came with Remarque's first novel, All Quiet on the Westerns Front, which touched a nerve of the time, and sparkled off a storm of political controversy. The book, which first had been rejected by one publisher, sold 1.2 million copies in its first year. H.L. Mencken called it "unquestionably the best story of the World War." Its sequel, DER WEG ZURÜCK (The Way Back), appeared in 1931. It dealt with the collapse of the German Army after the war, and the fate of the surviving heroes, Ernst and his friends.
All Quiet on the Western Front is the most famous novel dealing with World War I. The book starts in 1917 after a battle, in which half of Paul Bäumer's company has been killed. Bäumer is mostly the narrator and Remarque goes through his life in flashbacks. Paul and his classmates have been encouraged by their teacher, Kantorek, to enlist the German army. Bäumer's group includes some school fellows, and Katczinsky, an older man. The group goes through basic training and go to the front. Bäumer tries to understand what is going on. He realizes that back home "no one had the vaguest idea what we were in for. The wisest were just the poor and simple people. They knew the war to be a misfortune, whereas those who were better off, and should have been able to see more clearly what the consequences would be, were beside themselves with joy." Paul visits home on leave, returns to the trenches, is wounded and sent to a military hospital. In the summer of 1918 German front is pushed back, and the soldiers are waiting for the end of the war. In October, when there is nothing much to report on the western front, Paul is killed, a week or so before the armistice. - The story is narrated in first person in a cool style, a contrast to patriotic rhetoric. Remarque records the daily horrors in the trenches, where machine guns killed millions, in laconic understatement. - "At the next war let all the Kaisers, Presidents and Generals and diplomats go into a big field and fight it out first among themselves. That will satisfy us and keep us home." (Katzinsky) Lewis Milestone's film (1930), based on the novel, is a landmark of American cinema. One of the best scenes is when Paul (Lew Ayres) returns to his school and tells new students the truth. "When it comes to dying for your country, it's better not to die at all." The film was denounced by Goebbels as anti-German, but the Poles banned it for being pro-German. Particularly effective were the tracking shots of soldiers attacking enemy lines. In France it was prohibited until 1962. The close-up of Paul's hand reaching for the butterfly at the end, is actually the hand of the director Milestone. - A sequel, The Road Back, was made in 1937.
With All Quiet on the Western Front Remarque became a spokesman of "a generation that was destroyed by war, even though it might have escaped its shells," as he said himself. The German defeat inspired two major war films of the year 1930 - G.W. Pabst's Westfront 1918, adapted from a novel by Ernest Johannsen and Lewis Milestone's film based on Remarque's novel. Milestone was unhappy with the original script - he saw it changed the point of the book, and he hired his friend Del Andrews and George Abbott, a stage director, the shape the final script. The producer Carl Laemmle Junior and Milestone both hated the original ending of the book, in which Paul Baumer dies heroically. Karl Freund, the cameraman, put forward the idea of the hand stretching out toward the butterfly. 
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In the 1930s Remarque's books were banned in Germany by the government. All Quiet on the Western Front and The Road Back were among the works consigned to be publicly burnt in 1933 by the Nazis. Stores were ordered to stop selling his books. The film's premiere was disrupted by Nazi gangs; Remarque was accused of pacifism. It was not until the 1950s the film was shown again in West Germany. In 1938 Remarque lost his citizenship. He had moved to Switzerland in 1932 and in 1939 he emigrated to the United States, where in 1947 he became a citizen. In New York he spent much time at the Stork Club and at 21. In Hollywood he made friends with stars, including the actress Paulette Goddard (1911-1990), whom he married in 1958. Remarque had been married twice before, and to the same woman, Jutta Ilse Ingeborg Ellen Zambona, in 1925 and again in 1938. After the war Remarque settled eventually back in Switzerland, where he made his residence at Porto Ronco on the Seiss shore of Lake Maggiore. His play, DIE LETZTE STATION, about the fall of the Third Reich, was produced in Berlin in 1956. Remarque died at the Sant Agnese clinic at Locarno, on September 25, 1970. He had suffered for months from aneurysm.
"If things went according to the death notices, man would be absolutely perfect. There you find only first-class fathers, immaculate husbands, model children, unselfish, self-sacrificing mothers, grandparents mourned by all, businessmen in contrast with whom Francis of Assisi would seem an infinite egoist, generals dripping with kindness, humane prosecuting attorneys, almost holy munitions makers - in short, the earth seems to have been populated by a horde of wingless angels without one's having been aware of it." (from The Black Obelisk, 1956)
Remarque's later works, depicting the political upheavals of Europe from the 1920s to the cold war, did not achieve the critical acclaim of his first novel. However, his skill to create interesting characters, fascinating plots, and balancing between realistic and sentimental scenes made him a highly popular writer. DREI KAMERADEN (1937) received good reviews and was made into a film in 1938, directed by Frank Borzage. The screenplay was written by Edward A. Paramore and F. Scott Fitzgerald, who was determined to do a good job. Fitzgerald kept completely sober, for a while. However, his contract with M-G-M was not renewed. The final scene in which the two friends of the story are joined by their ghostly comrade, has still a strong emotional charge. Several of Remarque's later novels dealt with people struggling under Nazi rule. Arch of Triumph (1946) told a story about a German refugee physician and an actress. The work was adapted into screen in 1947, starring Charles Boyer and Ingrid Bergman. Remarque himself played the schoolmaster Pohlmann in A Time to Love and a Time to Die (1958), based on his novel ZEIT ZU LEBEN UND ZEIT ZU STERBEN (1954). In the story a German soldier, Ernst Graeber, on furlough from the Russian front, falls in love with his childhood friend, Elisabeth. But he must return to the trenches. The German edition was censored for its "unnational" passages. Douglas Sirk's film version, beautifully photographed in CinemaScope, ends dramatically in Graeber's death. 
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Spark of Life (1952) was a fictional documentary about life in Nazi concentration camps. The Black Obelisk (1956) was a tragi-comedy, in which Remarque explored the chaotic Germany of in the 1920s. Remarque's screenplay The Last 10 Days for G.W. Pabst's film from 1956, was based Judge Michael A. Musmanno's book 10 Days to Die, a study of the death of Hitler in a Berlin bunker. DIE NACHT VON LISSABON (1962, The Night in Lisbon), in which two refugees from Nazism flee in Portugal, and SCHATTEN IN PARADIES, depicting refugees in the United Sates, were published posthumously in English in 1971.
For further reading: Erich Maria Remarque: The Last Romantic by Hilton Tims (2004); Readings on All Quiet on the Western Front, ed. by Terry O'Neill (1999); Als wäre alles das letzte Mal by W. von Sternberg (1998); Opposite Attraction: The Lives of Erich Maria Remarque and Paulette Goddard by Julie Goldsmith Gilbert (1995); World Authors 1900-1950, vol. three, ed. by Martin Seymour-Smith and Andrew C. Kimmes (1995); All Quiet on the Western Front by R.A. Firda (1993); Understanding Erich Maria Remarque by Hans Wagener (1991); Erich Maria Remarque by U.H. Taylor (1989); Erich Maria Remarque: A Critical Bio-Bibliography by C.R. Owen (1984); Erich Maria Remarque by F. Baumer (1976) - See also: Lennart Meri - First World War in literature: Jaroslav Hašek: The Good Soldier Schweik; R.H. Mottram: The Spanish Farm Trilogy; Ford Madox Ford: Paradise's End; Arnold Zweig: The Case of Sergeant Grisha; Richard Aldington: Death of a Hero; Robert Graves: Good-bye to All That; Ernest Hemingway: A Farewell to Arms; Siegfried Sassoon: Memoirs of an Infantry Officer; Henry Williamson: The Patriot's Progress; Frederick Manning: The Middle Parts of Fortune; John Don Passos: Three Soldiers; e.e. cumming: The Enormous Room; Henri Barbusse: Under Fire
Selected works:
  • IM WESTEN NICHTS NEUES, 1929 - All Quiet on the Western Front (tr. by A. W. Wheen, 1929) - Länsirintamalla ei mitään uutta (suom. Armas Hämäläinen, 1929; Leningrad: Kirja, 1931) - film 1930, dir. by Lewis Milestone, starring Lew Ayres, Louis Wolheim, Slim Summerville, John Wray. Academy Awards: best picture, Lewis Milestone as director. - "Clichés such as passing romances or over-emotional death scenes are avoided by low-key performances, with Lew Ayres to the fore. He is beautifully articulate, and his acting deserves to be remembered for other than the vital scenes - the one in the trench with the dying French soldier (Raymond Griffith); the pacifist speech at his school when he returns on leave, and the final shot with the butterfly - scenes like his rage as the boots of a dead comrade are dispassionately removed from the body, or the early sequence in which the recruits get to know the veteran soldiers with whom they have been billeted." (from The Hollywood Professionals: Henry King, Lewis Milestone, Sam Wood, by Clive Denton, Kingsley Canham, and Tony Thomas, 1974)
  • DER WEG ZURÜCK, 1931 - The Road Back (tr. by A.W. Wheen, 1931) - Paluutie (suom. Felix Brofeldt, 1931) - film 1937, dir. by James Whale, written by R.C. Sheriff and Charles Kenyon
  • DREI KAMERADEN, 1937 - Three Comrades (tr. by A.W. Wheen 1937) - Kolme toverusta (suom. Oiva Talvitie, 1947) - film 1938, dir. by Frank Borzage, screenplay by F. Scott Fitzgerald and Edward A. Paramore, starring Margaret Sullivan, Robert Taylor, Robert Young, Franchot Tone. - Three disillusioned war veterans in Germany in the twenties find life hard. They meet a beautiful, a high-spirited girl, who is dying of tuberculosis but brings a glow to their lives. - "A very moving film, not because of the love between Taylor and Sullivan but because of the love between the men - although they, too, love Sullivan, Tone and Young are not jealous of Taylor but happy for him when he wins Sullivan's love. ... A wonderful final shot." (Danny Peary in Guide for the Film Fanatic, 1986)
  • LIEBE DEINEN NÄCHSTEN, 1941 - Flotsam (translated from the German by Denver Lindley, 1941) - film So Ends Our Night (1941), dir. by John Cromwell, starring Fredric March, Margaret Sullivan, Frances Dee, Glenn Ford
  • ARC DE TRIOMPHE, 1946 - Arch of Triump (tr. by Walter Sorell and Denver Lindley, 1945) - Riemukaari ( suom. V. Vankkoja, 1948) - film 1948, dir. by Lewis Milestone, starring Ingrid Bergman, Charles Boyer, Charles Laughton. - An embittered refuge doctor falls in love with a girl with a past in Paris in WW2 France. - The story was remade for TV in 1984 with Anthony Hopkins and Lesley-Anne Down.
  • DER FUNKE LEBEN, 1952 - Spark of Life (tr. by James Stern, 1952) - Elämän kipinä (suom. 1953)
  • ZEIT ZU LEBEN UND ZEIT ZU STERBEN, 1954 - A Time to Live and a Time to Die (tr. by Denver Lindley, 1954) - Rakasta tänään, huomenna... (suom. Matti Karjalainen, 1955) - film A Time to Love and a Time to Die (1959), dir. by Douglas Sirk, starring John Gavin, Lilo Pulver, Keenan Wynn, Erich Maria Remarque. - During World War II, a German officer on his last leave solves problems at home but is killed on his return to the front.
  • DIE LETZTE STATION, 1956 - Full Circle (play, adapted by Peter Stone, 1974)
  • DER SCHWARZE OBELISK, 1956 - The Black Obelisk (tr. by Denver Lindley, 1957) - Musta obeliski (suom. Kai Kaila, 1957)
  • DER HIMMEL KENNT KEINE GÜNSTLINGE, 1961 - Heaven Has No Favorites (translated by Richard & Clara Winston, 1961) - Taivas ei tunne suosikkeja (suom. Markku Lahtela, 1963) suom. Markku Lahtela - film Bobby Deerfield (1977), dir. by Sidney Pollack, screenplay by Alvin Sargent, starring Al Pacino, Marthe Keller, Anny Duperey. - A motor racing driver falls in love with a girl who has an incurable illness.
  • DIE NACHT VON LISSABON, 1962 - The Night in Lisbon (tr. by Ralph Manheim, 1964) - Yö Lissabonissa (suom. Seppo Jokipii, 1964)
  • SCHATTEN IM PARADIES, 1971 - Shadows in Paradise (tr. by by Ralph Manheim, 1971) - Varjoja Paratiisissa (suom. Leena Brummer, 1973)
  • DAS UNBEKANNTE WERK, 1998 (5 vols.) 
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http://kirjasto.sci.fi/remarque.htm
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Avieiros - Alves Redol

Avieiros

Alves Redol

Avieiros

Portugália, 1942
1ª edição
"... Incerto o pão na sua praia, só certa a morte no mar que os leva, eles partem. Da Vieira de Leiria vêm ao Ribatejo. Aqui labutam. Alguns voltam ainda, roídos das saudades do seu Mar. Muitos ficam. Avieiros lhes chamam na Borda de Água..."
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Um dos primeiros e mais marcantes romances do autor.
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Alves Redol 
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Nasceu em 1911 em Vila Franca de Xira. Romancista e Dramaturgo, foi um dos expoentes da literatura neo-realista em Portugal. Os dramas humanos do Ribatejo e do Douro são o tema central da sua obra, descritos em romances como Gaibéus, Barranco de Cegos ou no ciclo Port-Wine. Alves Redol  é, em si mesmo, uma personagem exemplar num movimento literário cuja ambição maior era fazer uma arte do povo e para o povo.
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O Mirante, diário on-line
Edição de 14-02-2008

Nauticampo promove comunidade no Parque das Nações
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Cultura dos pescadores avieiros quer ser património nacional




A cultura dos pescadores avieiros - que povoaram as margens do Tejo e deixaram marcas culturais na zona de Azambuja, Salvaterra de Magos e Vila Franca de Xira – quer ser elevada a património nacional. É pelo menos esta a intenção de um projecto que está a ser divulgado na Nauticampo 2008, um evento que decorre no Parque das Nações, em Lisboa, até 17 de Fevereiro, num espaço que conta com mais de 54 metros quadrados. 
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Os responsáveis pelo projecto, que envolve já 75 instituições, vão mostrar um barco avieiro, artes de pesca avieiras, fotos históricas, quadros a óleo sobre a temática e apresentarão um filme em formato DVD. Os responsáveis do projecto sublinham a “viragem histórica” na edição deste ano da Nauticampo, num “contributo muito importante para o desenvolvimento e dinamização da cultura ribeirinha do Tejo e em particular da cultura avieira”. “Em vez de uma ‘orientação ao produto’ (barcos, acessórios e equipamento), a Nauticampo vai evoluir no sentido de uma ‘orientação aos estilos de vida’ (paixão pelo mar, gosto pela aventura e forte ligação à família)”, sublinham.
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Para dia 16, está agendada uma conferência sobre as “vidas ribeirinhas na construção da identidade nacional”, promovida pela Associação Náutica da Marina do Parque das Nações, uma das instituições que se associou ao projecto, e pelo Centro Náutico Moitense.
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O projecto que visa elevar a cultura avieira a património nacional teve a sua origem numa investigação sobre os avieiros do Patacão (Alpiarça), realizada em Junho de 2006. Desde então, a Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça (AIDIA) e a Escola Superior de Educação de Santarém, que coordenam os trabalhos de candidatura, contactaram 135 instituições e pessoas, tendo sido realizadas cerca de 70 reuniões, incluindo o I Encontro Regional da Cultura Avieira, em Junho de 2007.
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“O interesse suscitado pelo projecto levou a que tenham aderido até esta data 75 das instituições e pessoas que foram contactadas”, afirmam. O objectivo é entregar a candidatura da cultura avieira a património nacional até 2009, depois da realização de um encontro nacional previsto para Outubro deste ano. 
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Os pescadores avieiros são provenientes da aldeia piscatória de Vieira de Leiria, concelho da Marinha Grande. No Inverno rumavam ao Tejo à procura de sustento. Deixavam o mar salgado e bravio e partiam no encalço da água doce onde pescavam o sável. Muitos viviam nos barcos avieiros, cobertos apenas, por uma lona. O quarto era à proa, a cozinha ao meio e a oficina da pesca à ré.
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A comunidade avieira também ergueu nas margens do Tejo as típicas casas palafíticas assentes em estacas de madeiras. Uma tradição que levaram da Praia da Vieira e que impedia que as cheias atingissem as casas. Com o passar dos anos os donos das terras da Borda d’Água autorizaram-nos a estabelecer-se nas margens do Tejo, onde começaram a construir as primeiras barracas. 
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Foram várias as aldeias construídas ao longo do Tejo, segundo a tradição dos pescadores da Praia da Vieira, mas hoje poucas resistem. 
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Além da Palhota, no concelho do Cartaxo, a única que conserva maiores semelhanças com a tradição avieira, ainda existem as ruínas do Patacão, aldeia abandonada em 1988. Nas Caneiras as novas casas de tijolo e as de madeira, pré-fabricadas, tomaram o lugar das barracas avieiras. O Esteiro do Nogueira, em Vila Franca de Xira, deu lugar a uma moderna marina e na foz do Alviela, as duas aldeias chamadas Barreiras do Rio e Barreiras do Tejo estão desde meados do século passado à espera que a chuva e o vento as deite abaixo.
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“Teimosos os avieiros sempre lutaram pela sobrevivência desde que viram que o Tejo tinha começado a morrer devagar. Os seus filhos, que emigraram ou foram trabalhar para as fábricas, ficaram à espera, sempre com os olhos postos no rio. E sabe-se lá porquê, o peixe que tinha desaparecido, voltou. Voltou o sável, voltou a lampreia. E voltaram à pesca os filhos dos últimos avieiros do Tejo, num regresso às raízes, enchendo o rio de belos barcos com a proa virada para o céu”, lê-se no site da Palhota Viva (www.palhotaviva.pt). A comunidade apaixonou escritores e foi motivo de inspiração de livros e filmes. O escrito neo-realista Alves Redol imortalizou também a comunidade com o romance dedicado aos “Ciganos do Rio”, como lhes chamou.
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Casa típica onde Alves Redol viveu alguns meses
Imagem captada a 30 de Junho de 2007
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http://www.leme.pt/imagens/portugal/rotas/rota-dos-avieiros/0034.html
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sábado, 21 de agosto de 2010

Memorabilia ultramarina

Vítor Ferreira
Dossier

Memorabilia ultramarina

12.08.2010 - Eduardo Pitta
 
Ípsilon
 

Resgate de um passado sem futuro, esta literatura não se desembaraça do eterno retorno de si mesma
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O que define um retornado? Existe uma literatura de retornados? Os franceses chamam "pied-noir" aos franceses naturais da Argélia, categoria que inclui Althusser, Camus, Derrida e outros. Nós inventamos o termo "retornado" para designar os colonos de Angola e Moçambique. Dos retornados da Guiné ou São Tomé ninguém se lembra. Cabo Verde não encaixa nestes parâmetros.
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Realidades diferentes, de facto.
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Em Angola, a luta entre os movimentos independentistas (MPLA, UNITA, FNLA) teve expressão urbana na Batalha de Luanda, que a 9 de Julho de 1975 mergulhou a cidade num banho de sangue. Como refere Tiago Rebelo, "Na população branca dissolveu-se de vez a ilusão de que seria possível ter um lugar no futuro de Angola." (cf. "O Último Ano em Luanda", Presença, 2008) Em consequência, o governo português organizou uma ponte aérea de proporções homéricas: durante 140 dias, entre 17 de Julho e 3 de Dezembro de 1975 (a independência de Angola, a 11 de Novembro, não estancou o êxodo), centenas de aviões evacuaram para Portugal meio milhão de refugiados. A sociedade portuguesa não voltaria a ser a mesma.
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A ponte aérea é o tema do livro de Júlio Magalhães, "Os Retornados. Um amor nunca se esquece" (Esfera dos Livros, 2008), inspirado no caso verídico de uma hospedeira da TAP que fez onze voos em duas semanas. Como metáfora, é impressiva a imagem de um país a ser escoado de avião.
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Em Moçambique, a tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974, gorada ao fim de quatro dias, provocara a fuga de milhares de secessionistas para a África do Sul e a Rodésia. Quase nenhuns os que vieram para Portugal, onde a política do MFA era objecto da sua ira.
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Testemunha próxima dos acontecimentos, Ricardo de Saavedra escalpeliza o golpe e respectivas sequelas em duas obras: "Aqui Moçambique Livre" (Livraria Moderna, 1975; o título apropria-se do nome do movimento rebelde) e o romance "Os Dias do Fim" (1995; edição revista em 2008, Casa das Letras). Isto para dizer que, ao contrário de Angola, a saída dos portugueses de Moçambique fez-se à revelia das autoridades portuguesas, por iniciativa e risco dos interessados.
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O mundo desaparecido
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Feito o intróito, vejamos de que modo esta literatura do eterno retorno fixou o destino das populações deslocadas.
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Ao "boom" da literatura da guerra colonial, tema a que o Ípsilon dedicou dossier (4-4-2008), seguiu-se a publicação de livros que fazem o inventário dos dias de vinho e rosas vividos nas "províncias ultramarinas", com enfoque em Angola. Sem a pretensão de ser exaustivo, destacaria, além dos citados, os livros de António Trabulo, "Retornados - O Adeus a África" (Cristo Negro, 2009), e Manuel Acácio, "A Balada do Ultramar" (Oficina do Livro, 2009). Denominador comum, vénia a um mundo desaparecido.
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Vista do Índico, a borrasca imperial tem outros matizes. As suas balizas são eloquentes: "A Sombra dos Dias" (Bertrand, 1981), romance autobiográfico de Guilherme de Melo, sobre 50 anos da vida de uma família em Moçambique; e o corrosivo "Caderno de Memórias Coloniais" (Angelus Novus, 2009), de Isabela Figueiredo. Quando "A Sombra dos Dias" chegou às livrarias, a opinião pública não estava, como está hoje, receptiva a memórias coloniais. A crítica de referência ignorou o livro, o que não impediu fortuna de público, traduzida em sucessivas reedições.
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A partir da sua experiência pessoal (círculo familiar, homossexualidade, carreira jornalística, inflexão ideológica, ligações amorosas) Guilherme de Melo faz um "tour d'horizon" ao modo de vida moçambicano e à sociedade laurentina em particular. A nostalgia é temperada pela consciência dos factos, sem cedências de natureza "passadista". O que não é de admirar, se nos lembrarmos do primeiro romance do autor, "As Raízes do "dio" (Arcádia, 1965), que circulou em Portugal mas foi retirado do mercado em Moçambique, onde a guerra de libertação tinha começado menos de um ano antes.
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Ao contrário, Isabela Figueiredo faz o relato de uma menina de 12 anos acossada pela memória dos massacres de Setembro de 1974: "a negralhada perdeu o freio [...] chacinou, cega, tudo o que era branco". Também se lembra de ter visto os restos de um vizinho (desmembrado à catanada) espalhados no milheiral. Sobre a sociedade local, de que guarda recordações de infância, o discurso, mordaz, constrói um "patchwork" do que terá ouvido ou intuído em casa: "Os brancos iam às pretas. [...] As pretas tinham a cona larga e essa era a explicação para parirem como pariam, de borco, todas viradas para o chão, onde quer que fosse, como os animais. A cona era larga. A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque à cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido, e pouco, e com dificuldade, que elas eram muito estreitas, portanto muito sérias, e convinha que umas soubessem isto das outras." Pela primeira vez, alguém questiona o mito da "multirracialidade". Os retornados não gostaram, fazendo de Isabela um alvo a abater.
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A falência do modelo de independência com que muitos colonos sonharam para Angola foi o detonador da literatura jubilatória que associamos à "saga" dos retornados. Isso é nítido nos livros de António Trabulo e Manuel Acácio. De certo modo também o é nos de Ricardo de Saavedra, mas o tom difere: lá onde Trabulo e Acácio tecem loas ao "paraíso perdido", Saavedra regista com secura o atropelo dos dias: "Há pouco mais de uma hora saiu a primeira edição daquele que deve ser caso único na história da imprensa em língua portuguesa. Para explicar um jornal do povo, este 'Diário' será paradigma. Redigido por profissionais que nunca trabalharam juntos, composto por linotipistas que só de vista se conheciam, montado e impresso por quem apareceu [...] sem artigos assinados ou nome de director, está agora a ser distribuído por populares que o anunciam como o jornal da liberdade."
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O traço distintivo destas obras é o de estabelecerem um contraponto entre a sociedade portuguesa, moldada pela política do Estado Novo, e o modo de vida de Angola e Moçambique, menos opressivo que na "Metrópole". Não cabe aqui desenvolver o tema da colonização dos territórios de África sob administração portuguesa, nem é essa a preocupação dos autores visados. No seu conjunto, são obras de fim de ciclo. Indiferentes ao juízo da História, os autores lamentam a perda de um mundo julgado imutável.
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Vastos territórios, Angola e Moçambique designaram-se, sucessivamente, por Colónias (até 1951), Províncias Ultramarinas (1951-72) e Estados (1972-75; por força da revisão marcelista da Constituição que mudou a Lei Orgânica do Ultramar). O desenvolvimento económico (em Angola) e um cosmopolitismo pautado por costumes "anglo-saxónicos" (em Moçambique, país que faz fronteira com seis países de língua inglesa), deram origem a sociedades abertas. Forçados ao cinzentismo do Portugal dos anos 1970, os autores da "memorabilia" ultramarina tentam resgatar o brilho de um passado sem futuro. Isabela Figueiredo não poupa nos adjectivos: "A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. [...] Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho..."
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Afinal, a maioria destes autores deixou África no início da adolescência. Isabela Figueiredo e Júlio Magalhães nasceram em 1963, Manuel Acácio e Tiago Rebelo em 1964. Sem perceberem porquê, todos viram fugir a possibilidade de outro destino. Dos quatro, só Isabela não culpa o devir histórico. (O seu ressentimento é de outra índole.) São diferentes os casos de Guilherme de Melo (n. 1931), Ricardo de Saavedra (n. 1941) e António Trabulo (n. 1943), homens feitos quando o Império enfim ruiu.
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Num país onde "tudo demora muito tempo a mudar" (cf. "Caderno de Memórias Coloniais", 2009), o desencanto foi "de rigueur". Nem outra coisa seria de esperar. Na síntese certeira de Guilherme de Melo, tinha secado "o esplendor da relva."
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Os retornados estão a abrir o baú

Ípsilon

Um império encaixotado: a foto de Alfredo Cunha (1974) é simbólica. Caixotes de retornados amontoam-se junto ao Padrão dos Descobrimentos
Dossier

Os retornados estão a abrir o baú

12.08.2010 - Raquel Ribeiro


Foi preciso esperar mais de 30 anos para que as feridas abertas pelo retorno dos colonos em África começassem a sangrar. Muitos decidiram agora escrever sobre o estigma de "retornado". Fundamental para se perceber o que é ser português, hoje
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Há 35 anos, após 14 anos de guerra colonial, mais de meio milhão de pessoas regressava das colónias portuguesas em África, pondo fim a 500 anos de império ultramarino português. "Nós fomos, nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação", escreveu Eduardo Lourenço, em "O Labirinto da Saudade". "Mesmo na hora solar da nossa afirmação histórica, essa grandeza era, concretamente, uma ficção. Nós éramos grandes (...), mas éramos grandes longe, fora de nós, no Oriente de sonho ou num Ocidente impensado ainda."
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Portugal, um país que se tinha imaginado grande, com vastos territórios nos trópicos que eram uma extensão da sua diminuta dimensão europeia, viu-se enfiado numa ponte aérea de vários meses. No final de 1975, com a independência das suas províncias ultramarinas, o país estava novamente confinado a um rectângulo na costa europeia do Atlântico.
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A balada do Ultramar tem sido cantada por vários escritores desde o final da década de 70, mas foi preciso esperar 30 anos para que as feridas abertas por um retorno abrupto começassem a sangrar. A história não mentiu ao dizer que muitos vieram com a roupa que tinham no corpo para um país aonde nunca tinham estado e onde foram rotulados de "retornados".
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Agora, muitos decidiram escrever sobre isso - sobre como era a vida na colónia, sobre o que perderam, sobre o que ficou, sobre como foi "regressar" e viver com o estigma de "retornado" -, buscando a sua identidade nos meandros de uma memória pessoal que era também uma história colectiva e tentando perceber o que é ser português hoje. Nos últimos anos, têm vindo a lume livros sobre a presença portuguesa em África: diários de guerra, ficções e autobiografias, mas também livros escritos por retornados (ou não) evocando a tragédia da ponte aérea ou as consequências do retorno na vida de muitos portugueses.
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O quotidiano na colónia
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António Mateus partiu para o Lobito com a família aos cinco anos. Aos 25 saía de Angola. Chegou ao Brasil via ponte aérea por Lisboa, "com uma mão na frente e outra atrás, e 180 dólares no bolso". Aos 61 anos, reformado, a viver em Palma de Maiorca, é autor de "Lobito" (Guerra e Paz, 2009) e "Lubango, Paris, Mavinga" (2010). Porquê escrever? "É uma questão de aritmética: 25 mais 35 são 60. Muita gente saiu de África com cerca de 25 anos, passaram-se 35, e muitos temos 60 anos hoje."
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Tinha estas histórias há anos na cabeça, mas uma vida intensa de trabalho impediu-o de se sentar a escrever - Brasil, Espanha, América Latina, Paris, andou um pouco por todo o lado. Não é um nómada, mas um cidadão do mundo, mistura de "lobitanga" (do Lobito) e "chicoronho" (de Sá da Bandeira, actual Lubango), português mas também maiorquino.
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África só está lá nos livros, explica, porque foi aí a sua juventude: "A minha adolescência passei-a lá. As namoradas, o primeiro beijo; foi lá que conheci a minha mulher e que o meu filho nasceu. Isso marca de tal maneira uma pessoa porque são transformações profundas da juventude."
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Muitas destas novas narrativas sobre África são circulares: nos anos 50, dá-se a partida para Angola ou Moçambique, a bordo dos paquetes.
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Colonos vindo das Beiras, de Trás-os-Montes, do Alentejo, das enormes "bolsas de miséria do interior", refere Mateus. Depois, a vida na colónia passa-se, com mais ou menos sobressaltos, até ao regresso forçado em 1975. Neste caso, "Lobito" é excepção (há uma partida, mas não se dá o "retorno", porque a narrativa não chega a esse tempo histórico).
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Nos primeiros capítulos, Mateus fala criticamente do Estado português que se limitava a "meter as pessoas nos navios, onde, amontoadas como animais, seriam levadas a povoar as colónias". Só a "amizade e solidariedade dos portugueses já desterrados substituíam as obrigações de um Estado omisso", escreve. Depois, a horrenda viagem de barco, em terceira classe: "O enjoo levava ao vómito constante (...). Numa mesma camarata, dez ou quinze pessoas a vomitar ao mesmo tempo." A viagem era degradante, "fazendo lembrar as viagens dos escravos nos barcos negreiros". Remata com ironia: "Os portugueses tinham demonstrado ser grandes especialistas nesse tipo de travessias."
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Em "Lobito" seguimos os passos do jovem mulato Zé Beto e dos seus dois amigos, Zeca (negro) e Zé Lisboa (branco). A questão da raça está lá, premente (sem a violência de outros textos, é certo), mas Mateus cartografa igualmente outras barreiras, de classe, que marcavam a sociedade estratificada do Lobito, bairro a bairro. Na cidade, diz ao Ípsilon, "havia mais diferença entre ricos e pobres do que entre pretos e brancos. Era uma sociedade de castas". Continua: "Não quero fazer um paraíso disto: os pretos na classe média eram uma minoria, de facto, mas a violência do racismo está mais na geração anterior à minha, nos mais velhos, um racismo gutural, de uma violência verbal no trato e na humilhação".
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Para quem esteve no Lobito, as referências locais são familiares: dança-se ao som de merengue, bebem-se Cucas geladas, o ponto de encontro era no Pic-Nic, ia-se à taberna do Peralta, banhos de mar era na ponta da Restinga, e via-se cinema ao ar livre nas noites quentes. Este era o quotidiano dos colonos em África, sobretudo em Angola, como o livro de Ana Sofia Fonseca, "Angola, Terra Prometida" (Esfera dos Livros, 2009) tão bem mostra. A jornalista, de 32 anos, recolheu depoimentos de mais de 80 pessoas, antigos colonos e não só, para compor um livro que é, em muitos aspectos, um documento exaustivo da vida na colónia.
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Durante anos, conta ao Ípsilon, foi ouvindo histórias sobre os "melhores anos" em África. Perguntava-se "como é que se podia falar dos 'melhores anos' quando esta foi uma época em que a maioria da população vivia muito mal, e a partir de 1961, de guerra também? Os 'melhores anos' são referidos por pessoas que viviam numa 'redoma dourada'. Tinha interesse em compreender a complexidade desse fenómeno."
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Estas pessoas "trazem Angola presa à alma" e, juntas, "revelam o retrato de um período que ainda é uma noite escura", escreve Fonseca. É o retrato de um tempo que não existe mais. "Como era a vida das pessoas? Diziam que era maravilhosa, mas como era? Havia mais liberdade ou não? A PIDE era mais ou menos interventiva do que cá? A rádio como funcionava? O que é que as pessoas faziam à noite? Como era a vida das mulheres?", pergunta. De Luanda às outras cidades, nas fazendas, nas plantações de café e de algodão, no mato, nas caçadas, no entretenimento (futebol, corridas de carros, música, cinema, praia, noite), "Angola, Terra Prometida" mostra até que ponto o dia-a-dia em Angola antecipa um duro contraste com o "retorno" a um Portugal rural, atrasado, pequeno.
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Quando escreveu o livro, fez tudo para "não cair em nostalgias, nem tão-pouco em culpas por expiar". Não há aqui qualquer branqueamento: Fonseca admite que este é um retrato das elites numa sociedade profundamente injusta, cheia de desigualdades. Acredita que é à sua geração que cabe contar estas histórias, "sem saudosismo, sem tabus".
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Para a investigadora Sheila Khan, o livro de Ana Sofia Fonseca faz uma "sociologia das ausências", tal como Khan o fez no seu livro "Imigrantes Africanos Moçambicanos" (Colibri, 2009). Ou seja: "Transforma em existente palpável aquilo que é produzido como ausente e mostra que esses silêncios não estão nada calados", diz. Ao coligir estas histórias num enquadramento social, histórico e cultural, "este é um livro-útero porque cria um espaço de conforto e de sossego suficiente para que as pessoas tenham possibilidade de assimilar, absorver e pensar nestas narrativas de vida".
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O marketing da nostalgia
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É provável que o leitor já se tenha deparado com muitos destes livros: capas em tom sépia, postais ilustrados com imagens nostálgicas de uma África que não existe mais. Para a professora Isabel Ferreira Gould, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, estes livros são o resultado de um trabalho de marketing com uma missão concreta: "Criar uma noção de familiaridade, fazer um apelo emocional ao leitor e à sua saudade. As editoras têm claramente um público em vista: pessoas que viveram em África."
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Só que as capas enganam, porque nem todos os livros apresentam a ideia de um império perdido mas idílico, de tempos idos mas felizes. Estes livros estabelecem um contraste importante entre o que é o "colonialismo" e a "colonialidade", diz Sheila Khan. "O colonialismo é a ideologia, a regra; a colonialidade é esse colonialismo reduzido no seu dia-a-dia, na prática, no seu agenciamento, nas relações entre as pessoas. Tem a ver com a forma como um mesmo fenómeno é sentido, vivido e imposto." Estes livros, argumenta, traduzem o quotidiano colonial e "os sentimentos que estavam colados a ele, as vivências, a forma como cada um percebia e sentia essa forma de estar num lugar que, não sendo seu, era seu; como cada um se apropriava dele e como é que a sua identidade se transformava a partir deste".
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Nesta literatura está a colónia em toda sua complexidade, mas também a nostalgia: "A nossa relação com a casa, o espaço e o tempo, ansiando por um lugar de pertença. Nostalgia pelo perdido, pelo que África poderia ter sido, e pelo que não tínhamos e queríamos ter tido", explica Isabel Ferreira Gould.
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Antes, a literatura portuguesa contemporânea portuguesa já tinha ido a África, visitando o período da guerra colonial nos livros de Lídia Jorge, António Lobo Antunes, João de Melo; só no final dos anos 90, surgem as primeiras obras sobre a experiência do Império e do colonialismo. Há aqui um salto e não se pode ignorá-lo. Estes livros são importantes: "Não podemos escamotear esta narrativa de nostalgia." A qualidade literária não está em causa: "É uma narrativa muito próxima do testemunho, e muitos são novos autores a estrear-se."
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No livro que Ferreira Gould vai publicar, "Império na Primeira Pessoa: Memória, Família e Colonialismo na Narrativa Portuguesa Contemporânea", estas obras vão figurar porque falam "da relação de pertença e não-pertença sob a perspectiva do colono. Porque há vários colonos. Ele é muito importante enquanto figura literária: é colonialista, é colonizador, mas também é imigrante e as pessoas têm muito pudor em falar nisto." O colono é um imigrante fruto e veículo de uma ideologia: "O pai de família, o pai português, o racista."
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Este livros, sublinha a investigadora, não devem ser lidos com o preconceito com que o Portugal europeu, continental, sempre tratou os retornados. "Lidamos melhor com a memória do soldado que fez a guerra colonial do que com a do colono. Como pensá-la, como rememorá-la? É legítima a sua memória? Estes romances trazem notícias ao pensar de forma legítima a memória da colónia e do retorno, hoje."
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Por isso, o que se apaga ou se omite é tão importante como o que está escrito. "Sim, muitos apagam, mas também reconstroem. No discurso da memória, as falhas são tão importantes como o que está lá. São testemunhos que rompem com a narrativa histórica porque o narrador pode dizer 'fui eu, vivi, perdi, estava lá', mas, por outro lado, essas narrativas são prisioneiras da identidade, o que limita o que podemos dizer sobre o outro".
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Sheila Khan chama-lhe literatura de "retornados" (e sublinha as aspas).
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A violência da linguagem
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Os livros de Isabela Figueiredo, "Cadernos de Memórias Coloniais" (Angelus Novus, 2009) e de Ricardo de Saavedra, "Os Dias do Fim" (edição de 1995 revista e aumentada, Casa das Letras, 2008) rompem com uma certa imagem da colónia, e demonstram a violência do quotidiano e do período de independência com a força crua da linguagem.
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Exemplos: "Uma branca não admitia que gostasse de foder, mesmo que gostasse. E não admitir era uma garantia de seriedade para o marido, para a imaculada sociedade toda." (Figueiredo, 47 anos) "O jornalista que sou percorreu os trilhos da guerra. Foi treinado para se defender e para matar, se necessário. Empurraram-no contra um inimigo impiedoso.
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Cumpriu o que lhe mandaram, na atitude ingénua e cómoda de prestar um serviço à Pátria. O homem que sou é o resultado laboratorial de um equívoco (...). Eis porque, neste poiso africano que antecede a aerogare da Portela de Sacavém, me contorço. Deprimido e soturno, pareço uma galinha pedrês, a sacudir as asas, no terreiro da aldeia de colmo a que ateiam fogo." (Saavedra, 58 anos)
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Figueiredo e Saavedra saíram de Moçambique com a independência e estes livros são os seus diários - autobiográfico, no caso de Isabela; ficcional (?), no caso de Saavedra - da colónia, da violência, do retorno e do exílio. "Tive de cortar com o passado, e cortei mesmo. Não sou saudosista, não quero reconstituir nada, não quero vingança, mas gostaria que os meus netos soubessem que sofremos", diz Saavedra ao Ípsilon.
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O livro de Figueiredo foi uma "pedrada no charco", diz Sheila Khan. "Isabela é a filha desobediente" que vem romper com o "status quo" da literatura sobre a colónia, e essa ruptura é feita de uma forma muito violenta: "A maneira como ela entra no texto, ninguém quer ouvir aquilo. Tínhamos uma ideia muito pacífica e paradisíaca do colonialismo português em África." A autora tem recebido mensagens de leitores que se identificam com a sua visão da colónia - racista, violenta, profundamente injusta. "Sinto-me bem porque sinto que não sou só eu, não fui só eu que tive de ouvir aquilo, muitas mais pessoas ouviram as mesmas coisas. Durante muito tempo senti-me muito sozinha relativamente ao que eu sentia sobre a minha realidade africana, sobre as minhas memórias".
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Estes são exemplos do que Isabel Ferreira Gould chama de "narrativas de decantação", ou seja, "textos escritos na primeira pessoa" sobre memórias "que estão estruturadas entre uma visão crítica do colonialismo e a necessidade de exaltar, para o bem e para o mal, as figuras fundamentais da identidade dos sujeitos da narrativa". São, em muitos casos, "obras de filhos a rever as suas memórias e as das suas famílias, estabelecendo tensões e conflitos dentro da sua própria geração e com a geração dos seus progenitores". Mas, ao tentar filtrar o passado, ao decantá-lo, "como o próprio nome indica, também estão a homenagear, louvar, a elogiar: há uma tensão entre quem critica e ao mesmo tempo louva o progenitor".
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Os silêncios guardados no baú ainda por abrir são o resultado de "pactos de amor nas famílias, que não podem ser quebrados", diz Isabela Figueiredo, que esperou pela morte do seu pai para poder dizer tudo. "Só dentro de alguns anos é que estas histórias poderão vir à tona. Os filhos que viveram esta realidade e que podem contá-la estão presos a esse pacto, comprometidos na teia de afectos."
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Retornado ou refugiado?
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"Vim sem nada, só com a roupa que tinha vestida"; "Nós estivemos dois dias no aeroporto de Luanda"; "Nós vivíamos em Nova Lisboa. Quando saímos já havia tiros"; "Nós éramos do Uíje... deixámos lá tudo"; "Eu nem sei do resto da minha família"; "E agora o que vai ser de nós nesta terra?"
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É através deste mosaico de vozes que Carlos Vale Ferraz descreve em "Fala-me de África" (Casa das Letras, 2007) a tragédia do retorno. O romance tornou-se série de televisão, "Regresso a Sizalinda", agora em estreia na RTP. Não é sobre o retorno em si, diz o autor, "mas uma história de busca de identidade. E também da relação dos portugueses com África". A questão dos retornados, nota, sempre o tocou: "Não apenas aqueles milhares de pessoas que vieram em 1975, mas a vivência do retorno. A ideia de Portugal de 1975 para cá é a que está reflectida no livro, a de que encerrámos um ciclo".
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O ciclo fechou-se, mas ainda estamos todos com a cabeça em África. Diz Vale Ferraz: "Num determinado momento, a expansão foi como aquelas crianças que andaram a juntar as carruagens num comboiozinho. Numa determinada fase, fomos perdendo carruagens, primeiro a Ásia, depois o Brasil, depois a Índia, e finalmente perdemos a carruagem de África. De repente, vimo-nos todos dentro da mesma carruagem, e há uma certa sensação de sufoco. É isso que faz as pessoas escrever: não temos para onde fugir." Perante a impossibilidade de fuga, "agora, vamos ter de pensar em nós, aqui, como nos relacionamos com os outros".
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É por isso que Isabel Ferreira Gould afirma que estes livros são "sobre Portugal, sobre nós e a nossa relação com África, sobre o eu português e como este vê o outro". África está lá enquanto espaço e cenário, "paisagem, campo de batalha, de encanto e desencanto".
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Carlos Vale Ferraz, 64 anos, não é um retornado. Foi militar e cumpriu comissões em Angola, Moçambique e Guiné. De seis romances, três são sobre África. Escreve sobre o continente porque, explica, "na segunda metade do século XX, é o assunto determinante da história de Portugal": "Se não escrevemos sobre África, não percebemos nada do que se passou em Portugal, não percebemos nada do que foi o Estado Novo, nem o que foram as transformações a seguir. Escrever sobre África é escrever sobre o nosso tempo. O Lobo Antunes não conseguiria escrever sobre as pessoas suburbanas que vão para os centros comerciais ao domingo se, na sua maioria, não fossem pessoas que vieram de África, quer sejam aquelas que foram combater e depois vieram da província para aqui, quer sejam aquelas que regressaram em 1975."
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Os "retornados" (mais aspas) foram bodes expiatórios do colapso do império, e esta literatura que está a aparecer em Portugal (de, para ou sobre retornados) está a abrir as feridas. "Estas pessoas não são retornados, muitos não retornam a lugar nenhum. São refugiados de guerra", diz António Mateus. "Retornado" é a palavra "inventada para contornar uma realidade". Dizerem-se "refugiados", explica Khan, é a "forma como as pessoas tentam descolar-se da imagem de retornado, de mágoa e de exílio. Dizer que se é um refugiado é dizer que se foi expulso da sua terra, que não se pertence a Portugal e que Portugal não se lhes pertence." Ricardo de Saavedra foi um refugiado político, "tout court", exilado na África do Sul. A sua personagem Luís Ribeiro Sales escreve, em "Dias do Fim": "Estou no campo de refugiados de Nelspruit. Não se trata de reportagem, não vim como observador. Sou um deles. Sentado numa pedra, escrevo. Tudo o que me resta cabe debaixo do braço."
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Os "de cá", explica Isabela Figueiredo, "diziam que os retornados andavam a explorar os negros. Eram ataques muito fortes, batia na ferida das pessoas, porque era uma metáfora, mas era verdade; era um eu colectivo que se enquadrava nessa imagem". "Retornado" soava "assim como quando se diz 'ó preto' como ofensa: 'ó retornado!' soava mal, porque queria dizer fascista, explorador." Ela olha para a palavra de outra maneira: "Como se ela quisesse dizer: pessoa que veio de África a seguir à independência."
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Cartografia emocional
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Todos estes escritores são "órfãos desse grande progenitor que foi o colonialismo português. Ao não ser capaz de dar a nenhuma destas pessoas o sentido de cordão umbilical, o colonialismo vai tocar na debilidade estrutural do que é ser-se português", diz Khan.
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A literatura do retorno é uma forma especial de luto. Um luto que ainda não foi verdadeiramente feito, porque não se "pode pensar em luto sem se sepultar um corpo, e nós não temos lá nada sepultado porque viemos embora", e que é descrito em "A Balada do Ultramar", de Manuel Acácio (Oficina do Livro, 2009). Jornalista na TSF, Acácio, 46 anos, não é retornado e nunca foi a África. Foi casado com uma portuguesa que se dizia angolana, retornada. Admite que "A Balada do Ultramar" é o seu luto pela morte da mulher (há cinco anos), mas também o luto que milhares de portugueses não fizeram.
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As palavras de Khan vão ao encontro do seu romance: "É um silêncio insepulto que nos diz que aparentemente está tudo bem e está tudo resolvido (porque afinal Portugal recebeu de forma pacífica e 'gloriosa' estas pessoas). Mas se elas têm necessidade de escrever, é porque alguma coisa não está bem."
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Foi por sentir que alguma coisa não estava bem que Acácio escreveu. Partiu com "muitos preconceitos para este livro". Tinha medo do que as pessoas iam pensar: "Que sou saudosista e colonialista, que estou a tentar reescrever a história". É o seu primeiro romance, sobre um homem que está a contar a história do regresso. "Quis pôr-me no papel de quem se sentiu injustiçado, mal recebido. Alguém que sente que é de África e está de certa forma a fazer um ajuste de contas com o seu passado."
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Nove anos à frente do Fórum TSF fizeram-no perceber que a memória pacificada da mulher com Angola não coincidia com a memória de muitos outros retornados. (Ou)viu que "as feridas não estavam nada saradas, estavam todas em carne viva. Havia uma grande revolta silenciada naquelas pessoas. Os fóruns eram uma oportunidade de falarem." "['A Balada do Ultramar'] é o filho desse espanto com que fiquei quando percebi que havia uma enorme revolta de pessoas que tiveram de deixar tudo e depois chegaram cá e foram apontadas, criticadas, estigmatizadas", continua.
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Não ter contas a ajustar com o "seu" passado colonial poderia à partida ser um impedimento, mas acabou por ser uma vantagem: "Não estou preso às recordações da minha família, não estou amarrado a laços".
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Talvez por isso, esse homem velho conta a história das suas vivências em África sem o pudor do afecto. O livro passa esse saudosismo do passado colonial (propositado, diz), mas também toca de forma clara na questão da sexualidade, "na ida às cubatas, no racismo, na violência verbal, no trabalho escravo".
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No fundo, os retornados são isto: "Às vezes penso que devíamos ser como as cobras. Elas aprenderam a largar a pele envelhecida e deixam-na para trás sem qualquer remorso", escreve Acácio. Mas o remorso, a vergonha, a mágoa ainda estão lá. Esta é "a dor de uma geração", diz. "Há uma cartografia emotiva que está por fazer."
 

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1 a 10 de um total de 15
comentario20.08.2010 - 15:12 - Anónimo, angola
ja vi mais ou menos o q foi ca deixado e o q existe hoje, é apenas um povo q n sabe viver com outras raças, ou mesmo pq é de outro bairro ou do outro lado da estrada. esqece-se a incapacidade propria no odio ao de fora empreendedor, sem solução proxima-
comentario20.08.2010 - 11:12 - PT, PT
Sou filho da leva de imigrantes dos meados dos anos sessenta. Nasci em Luanda e vivi, do que a memória se lembra, em Carmona-Uíge. O meu pai era capataz na JAEA e a minha mãe doméstica e vivíamos num anexo. Mais tarde mudamo-nos para um prédio onde a minha mãe foi ser porteira! Como pudemos ser chamados de colonos? Como pude ser chamado de retornado?
comentario20.08.2010 - 09:11 - Anónimo, Angola
Onde está a responsabilidade politica de tudo isto? Onde estão os responsáveis pela miséria de milhares de cidadãos? Como se reparam os danos e sofrimento causados a tantos jovens que sem culpa alguma foram enxovalhados no seu dia-a-dia? Aqui já li a minha história escrita na primeira pessoa por outro comentador, e como eu existem milhares... Quem vai esquecer de chegar ao ciclo preparatório e ao secundário e por ter nascido em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau ou São Tomé e Príncipe ouvia sistemática mente da boca de colegas de escola frases como "Ó branco de pele virada ao contrário!", "Vai para a tua terra!", "Retornado de segunda!", etc., etc., Etc.. Recordo-me como se fosse hoje a chegar à estação dos comboios e a mãe a querer apanhar um táxi com os seus quatro filhos. Depois de entrados indicou o local, o "bom" do taxista apenas referiu, para o bairro dos retornados? Não, não vou. E a mãe a ter de sair com os seus quatro filhos e voltar para a praça à espera que houvesse algum bom taxista que nos iria deixar à porta de casa. Recordo-me por debaixo da Ponte 25 de Abril da quantidade de caixotes que foram roubados, vandalizados, saqueados com os pertences de muitas famílias que ainda conseguiram enviar ao abandonarem a sua vida. Recordo-me de a própria polícia mal tratar quem nascesses nas ex-colónias. Hoje vivo em Angola, um regresso que esperava mais amistoso, mas "simpaticamente" me tratam por branco, pula, e repetem aquilo que na infância e juventude ouvia, "Vai para a tua terra!". pergunto-me vezes sem conta, de onde sou afinal?
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comentario20.08.2010 - 07:13 - Anónimo, PORTO
Quando cheguei a portugal com os meus pais tinha eu 5 anos de idade , os meus pais nascidos em portugal eu e os meus irmãos nascidos e moçambique mas com nacionalidade portuguesa ou não foce moçambique uma colonia portuguesa , no entanto a minha alcunha na escola era o retornado era assim que me chamavam e muitas das vezes com despreso e odio , medo e egnorancia . Como muitos outros portugueses nós perdemos todos os bens de um dia para o outro ,chegamos a lisboa desolados sem ter para onde ir , no entanto os meus pais não cruzaram os braços e logo se desenrrascaram , vivemos tempos menos bons ,eu e os meus irmãos fomos criados , educados sem nunca pedirmos um centimo ao nosso governo portugues , hoje todos nós temos negocios em ramos diferentes e vivemos bem e confortavelmente para inveija de muitos , é que a honestidade o trabalho e a força de vontade de lutar acaba por dar frutos , é uma questao de honrra e de sacudir a miseria que nos caiu em cima dos ombros , os meus pais encinaram-me a olhar as pessoas olhos nos olhos com coragem pois quem não deve nao teme , passem bem pois o retornado fará o mesmo... 
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comentario20.08.2010 - 07:13 - Anónimo, PORTO
Quando cheguei a portugal com os meus pais tinha eu 5 anos de idade , os meus pais nascidos em portugal eu e os meus irmãos nascidos e moçambique mas com nacionalidade portuguesa ou não foce moçambique uma colonia portuguesa , no entanto a minha alcunha na escola era o retornado era assim que me chamavam e muitas das vezes com despreso e odio , medo e egnorancia . Como muitos outros portugueses nós perdemos todos os bens de um dia para o outro ,chegamos a lisboa desolados sem ter para onde ir , no entanto os meus pais não cruzaram os braços e logo se desenrrascaram , vivemos tempos menos bons ,eu e os meus irmãos fomos criados , educados sem nunca pedirmos um centimo ao nosso governo portugues , hoje todos nós temos negocios em ramos diferentes e vivemos bem e confortavelmente para inveija de muitos , é que a honestidade o trabalho e a força de vontade de lutar acaba por dar frutos , é uma questao de honrra e de sacudir a miseria que nos caiu em cima dos ombros , os meus pais encinaram-me a olhar as pessoas olhos nos olhos com coragem pois quem não deve nao teme , passem bem pois o retornado fará o mesmo... 
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comentario20.08.2010 - 06:46 - Rui, Saint Helena, E.U.A.
Eu nasci no Lobito. A minha Mae nasceu no Lobito. Fomos corridos em 1975 e 1976. Por mais que tente, sinto-me nao pertencer a nenhum sitio em particular. Apesar de ter saido com apenas 6 anos, tudo a minha volta daquele tempo esta ainda hoje presente; as cascatas agua em Sa da Bandeira, o fazer carrinhos de arame e caricas com os meus amigos da sanzala, a restinga, o gelado cassata do Veneza, a Ginha (a minha babysitter), os tiros ha noite na rua, as balas a entrarem pelo quarto ha noite, o esperar no hangar em Luanda pelo voo da Aeroflot para nos levar a Lisboa... Sao memorias que marcam e que magoam. Tal como a minha mae, nao era retornado, era Angolano sem patria.
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comentario20.08.2010 - 06:26 - Paulo, Luanda, Angola
Retornados? Muitos não o eram pois não tinham nascido em Portugal e retornados parecem-me ser assim os que regressam agora a Angola 
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comentario20.08.2010 - 03:01 - Manuel Ayres, Estoril, Portugal
Todos os grandes povos, passaram por situações que normalmente resultam do fim de ciclos civilizacionais, muitos deles bem mais dramáticos. Mas ao ler este artigo, compartilho do alívio que resulta dessa capacidade de catarse que provavelmente só com o tempo se alcança.
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comentario19.08.2010 - 20:08 - Ricardo Martins Soares, Curitiba - Brasil
Interessantíssimo! Mas há uma pergunta que não quer - e não deve - calar: Quando será que o Estado português, que hoje se tem como livre e democrático, vai começar a indenizar os retornados que contra a própria vontade foram obrigados a fugir da Africa? A França, a Inglaterra, a Itália e até Israel já indenizaram seus cidadãos que foram lesados no continente africano. É só seguir o exemplo...
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comentario19.08.2010 - 17:42 - Alexandre, Évora
Bom... fui uma vez a África, durante uma semana ali a Marrocos. Mas habituei-me aos comentários caçados em criança aos adultos (nasci em 74) menos lisonjeadores para com esta gente. Não obstante, os meus pais acolheram um jovem casal em casa proveniente de Moçambique. Ainda hoje somos amigos. As coisas são o que são e as circunstâncias (históricas, políticas, económicas) moldaram muita da nossa percepção do fenómeno antes e agora. Eu, simplesmente, fico feliz por termos exibirmos alguma maturidade para colocar estas questões em cima da mesa. Mesmo quando se trata de comportamentos inaceitáveis socialmente mas que foram tolerados ou encorajados por um regime já naquela época anacrónico. Ainda que para isso tenha sido preciso passar um terço de século. 
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comentario20.08.2010 - 07:13 - Anónimo, PORTO
Quando cheguei a portugal com os meus pais tinha eu 5 anos de idade , os meus pais nascidos em portugal eu e os meus irmãos nascidos e moçambique mas com nacionalidade portuguesa ou não foce moçambique uma colonia portuguesa , no entanto a minha alcunha na escola era o retornado era assim que me chamavam e muitas das vezes com despreso e odio , medo e egnorancia . Como muitos outros portugueses nós perdemos todos os bens de um dia para o outro ,chegamos a lisboa desolados sem ter para onde ir , no entanto os meus pais não cruzaram os braços e logo se desenrrascaram , vivemos tempos menos bons ,eu e os meus irmãos fomos criados , educados sem nunca pedirmos um centimo ao nosso governo portugues , hoje todos nós temos negocios em ramos diferentes e vivemos bem e confortavelmente para inveija de muitos , é que a honestidade o trabalho e a força de vontade de lutar acaba por dar frutos , é uma questao de honrra e de sacudir a miseria que nos caiu em cima dos ombros , os meus pais encinaram-me a olhar as pessoas olhos nos olhos com coragem pois quem não deve nao teme , passem bem pois o retornado fará o mesmo...
comentario20.08.2010 - 03:01 - Manuel Ayres, Estoril, Portugal
Todos os grandes povos, passaram por situações que normalmente resultam do fim de ciclos civilizacionais, muitos deles bem mais dramáticos. Mas ao ler este artigo, compartilho do alívio que resulta dessa capacidade de catarse que provavelmente só com o tempo se alcança.
comentario20.08.2010 - 06:26 - Paulo, Luanda, Angola
Retornados? Muitos não o eram pois não tinham nascido em Portugal e retornados parecem-me ser assim os que regressam agora a Angola
comentario19.08.2010 - 14:02 - Eduardo Magalhães, Lisboa, Portugal
Não concordo com a frase de Khan "Mas se elas têm necessidade de escrever, é porque algo não está bem". A necessidade de escrever não tem só a ver com sentimentos negativos. Talvez seja verdade que ainda não esteja descrita de uma maneira desapaixonada a vivência africana, o que é interessante é o actual reencontro de ex-residentes, que ocorre cada vez mais frequentemente, o prazer que o estimula, menos que um sentimento de nostalgia de uma terra perdida ou de tempos que não voltam. Para mim, revela a satisfação de termos atravessado o tempo e agora mais disponíveis queremos partilhá-lo com os outros. Como forma de agradecimento.
comentario19.08.2010 - 20:08 - Ricardo Martins Soares, Curitiba - Brasil
Interessantíssimo! Mas há uma pergunta que não quer - e não deve - calar: Quando será que o Estado português, que hoje se tem como livre e democrático, vai começar a indenizar os retornados que contra a própria vontade foram obrigados a fugir da Africa? A França, a Inglaterra, a Itália e até Israel já indenizaram seus cidadãos que foram lesados no continente africano. É só seguir o exemplo...
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