terça-feira, 8 de março de 2016

Os três “pês” de Cida Pedrosa

8 de março de 2016 - 17h29 


Pernambucana de Bodocó, Cida Pedrosa é uma poeta ousada. Urariano Mota a definiu, certa vez, como uma escritora em que se misturam três pês: poesia, política e partido. Desde o tempo, na década de 1970, quando se mudou para Recife. Na capital pernambucana, aperfeiçoou o gosto pela leitura e pela escrita, que trazia desde a infância. E descobriu o marxismo, a militância de esquerda e o Partido Comunista do Brasil – juntando assim os três pês que marcariam sua vida.



Na política, além de militante comunista, é Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Prefeitura do Recife. No partido, é membro da direção estadual do PCdoB em Pernambuco. Na poesia, escreveu vários livros, comoRestos do Fim, O Cavaleiro da Epifania, Cântaro, Gume, As Filhas de Lilith e Claranã. É também uma das editoras do portal Interpoética. Para esta edição especial do Dia da Mulher, Prosa, Poesia e Arteselecionou alguns de seus poemas. 

Leia na íntegra: 

angélica

o pênis de angélica
era de plástico
passou a vida a esfregar-se no espelho

eis a sina
mulher ou homem

injusto desígnio
para quem precisa-se
inteiro por dentre as coxas

voz rouca sob os lençóis
desejo de iguais
porra
bocetas também são objetos de encaixe

De As filhas de Lilith

tereza

mãos enormes
as de geraldo

tão grandes que não cabem
no corpo magro de tereza

quando se casaram
tinham planos de comprar uma casa
de varanda
e passar uma semana em bariloche

neste tempo
os peitos de tereza
cabiam inteiros nas mãos de geraldo

mãos enormes
as de geraldo

tão grandes que se espremem nas algemas
e não podem mais acenar para tereza
que nesta hora é conduzida
no carro do IML
para exame de corpo de delito
sob suspeita de estrangulamento

De As filhas de Lilith 

milena

gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite

é a única voz soante
nesta cantina de repartição

onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril

sem a voz de milena 
o café desce amargo

De Gume

rainha dos degredados

salve-me rainha
a vida não é doce
nem misericordiosa

hoje só tem panela
e um pouco de maçunim

o marido se foi para as bandas
do beberibe e vende caranguejo 
na feira de peixinhos

salve-me rainha
antes que os de eva morram
sem direito a maçãs ou coisa assim

o gás acabou
os jambeiros do cemitério de santo amaro
desde ontem não safrejam
e minha filha menstruada
não pode freqüentar o ponto hoje à noite

salve-me rainha
desterre
esta vontade de incendiar a vida
e a dor que assola as mãos

De Gume 


Do Portal Vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/277345-11

segunda-feira, 7 de março de 2016

Martinho da Arcada quer ocupar sobreloja e assumir-se como “café literário”

Espaço sobre o café frequentado por Fernando Pessoa pertence à Direcção-Geral do Tesouro. Ministério da Cultura já reconheceu o interesse cultural do projecto.
 

O café tem nas paredes várias fotografias de Fernando Pessoa MIGUEL MANSO

Por cima do histórico café Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, Lisboa, existe uma sobreloja com uma entrada directa a partir da rua, que se faz por uma grande porta verde mesmo ao lado da esplanada. É nessa sobreloja, actualmente propriedade da Direcção-Geral do Tesouro, que o proprietário do Martinho, António de Sousa, e o escritor Luís Machado pretendem instalar o espaço Pessoa Plural – projecto que o ministro da Cultura, João Soares, considerou “de elevado interesse cultural”, num despacho que já seguiu para o Ministério das Finanças, segundo confirmou ao PÚBLICO Elísio Summavielle, adjunto do ministro (e entretanto nomeado presidente do Centro Cultural de Belém).  
A ideia, explicam os dois promotores da iniciativa, sentados a uma mesa do Martinho, é “preservar a memória do poeta Fernando Pessoa" através de uma programação com conferências, mesas-redondas, recitais de poesia, espectáculos, projecção de filmes e “eventualmente uma livraria pessoana”. Pretendem também, mensalmente, organizar no restaurante um jantar com uma “ementa pessoana”, criada por Luís Machado, autor do livro À Mesa com Pessoa.
Para isso precisam apenas que o Ministério das Finanças ceda o espaço, que, segundo afirmam, tem actualmente um “arquivo morto”. Houve também já um encontro com a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, para apresentar a ideia. O gabinete da vereadora lembra, contudo, que “o deferimento desta pretensão depende do Ministério das Finanças”.
Há muitos anos – mais exactamente desde 1991 – que Luís Machado e António de Sousa colaboram no esforço de manter actividades culturais no café (hoje restaurante, com um espaço de cafetaria à parte, com entrada própria mas sem mesas) que Pessoa frequentava assiduamente e onde, lembram, “combateu a solidão”, especialmente no final da vida. Questionados sobre se um espaço ligado ao autor doLivro do Desassossego não colidiria com a programação da Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, defendem que se trata de duas coisas diferentes.
“A Casa Fernando Pessoa é sobretudo uma casa-museu”, argumenta Luís Machado. “O Martinho está aqui num dos eixos mais nobres da cidade, por onde passam diariamente muitas centenas de turistas”. António, que é proprietário do Martinho desde 1989, diz que todos os dias recebe visitantes estrangeiros, entre os quais muitos brasileiros, que querem ver “a mesa de Pessoa” e conhecer o local onde o poeta passou muitas horas da sua vida. “Há choro aqui, há abraços, há muita emoção”, descreve.
O Martinho da Arcada – assim conhecido porque um dos seus antigos proprietários, Martinho Rodrigues, do qual recebeu o nome que mantém até hoje, tinha outro estabelecimento no Rossio, chamado precisamente Martinho do Rossio – é o mais antigo café de Lisboa sempre em actividade. Foi um dos primeiros edifícios a nascer na Praça do Comércio quando a própria praça se ergueu após o terramoto de 1755.
A 7 de Janeiro de 1782, poucos meses antes da morte do Marquês de Pombal, o Martinho abriu pela primeira vez as portas, sendo inicialmente conhecido como Casa da Neve, por aí se vender gelo e gelados. Ao longo de dois séculos, sublinha Luís Machado, “foi poiso de jacobinos, liberais, maçons, anarquistas e republicanos”, tendo por tudo isto “um valor histórico indiscutível”.
A ideia de aproveitar a sobreloja foi apresentada pela primeira vez ao anterior Executivo, de Pedro Passos Coelho, mas com as eleições e a mudança de Governo o assunto foi adiado e só agora, já com João Soares, foi retomado. Luís Machado afirma que a lei prevê a possibilidade de cedência de um espaço sem concurso público se os fins a que se destina não forem comerciais e houver o reconhecimento do interesse cultural.
O Martinho foi classificado como local de Interesse Público em 1978, mas nos anos 80 tinha entrado em decadência, receando-se então que viesse a encerrar ou a ficar totalmente descaracterizado. Foi graças aos esforços da Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada, que iniciou a dinamização cultural do espaço, que se conseguiu chamar a atenção para o problema e reunir fundos públicos para a reabilitação, da responsabilidade do arquitecto Raul Hestnes Ferreira.
Mas depois disso o espaço mudou de mãos, tendo sido comprado por António de Sousa. Agora, diz o proprietário, o Martinho quer “assumir a função de café literário, que é a sua verdadeira vocação”. “Para esta casa seria uma nova respiração”, garante.  
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/martinho-da-arcada-quer-ocupar-sobreloja-e-assumirse-como-cafe-literario-1725384

António Gedeão “Todo o tempo é de poesia.

* António Gedeão

“Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobam.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.”

In: Gedeão, António. “Poesias Completas”, (1956 – 1967). Livraria Sá da Costa Editora (Nona edição), 1983. Lisboa.“Movimento Perpétuo” - 1956

http://aquem-tejo.blogs.sapo.pt/tempo-de-poesia-antonio-gedeao-90447

domingo, 6 de março de 2016

Beatriz Dias Coelho - Pelos caminhos da Biblioteca Nacional



BEATRIZ DIAS COELHO
06/03/2016 - 00:34

Passaram 220 anos desde que foi criada, por alvará régio, a maior biblioteca do país. Viagem por 75 quilómetros de prateleiras, 66 mil m2 de edifício, 4,7 milhões de documentos.



Estamos numa sala com 600 m2. Tem duas portas corta-fogo de três toneladas, é anti-sísmica e anti-incêndio — aqui, o simples acto de acender um isqueiro é impossível, uma vez que o ar não é combustível. Há várias estantes: algumas estão vazias, ainda à espera de serem preenchidas. Outras, guardam relíquias que poucos têm oportunidade de ver. Como uma colecção de documentos impressos até 1500 e os espólios de Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Almeida Garrett. E de muitas outras figuras da cultura portuguesa. Preciosidades que estão guardadas em pequenas caixas de cartão, devidamente identificadas com o número do espólio a que pertencem. Qualquer um as poderia abrir, na verdade. Mas antes teria de conseguir entrar na cave da torre de depósitos, onde funciona a casa-forte da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), a maior biblioteca do país. Nesta casa-forte, que é a zona mais segura dentro da BNP, não estão necessariamente os documentos mais antigos, mas aqueles que têm mais valor, os mais raros, os mais importantes. “É como o cofre de um banco”, diz-nos a directora, Maria Inês Cordeiro. E visitá-la é um privilégio — “entre os técnicos da biblioteca ninguém entra sozinho e não entra ninguém que seja de fora”. Há excepções, claro: os representantes de Estado. E os técnicos da manutenção. Nunca, nunca sozinhos.

O privilégio justifica-se — afinal, estamos aqui porque a BNP faz 220 anos. E há, aliás, mais para ver: como se visitar a casa-forte não fosse já suficiente, ao centro da sala, numa comprida mesa rectangular, espera-nos uma pequena amostra do tesouro. Dispostos por ordem cronológica, estão dezasseis documentos cujo peso na História e na Cultura portuguesas é inegável. “A selecção foi feita por Margarida Pinto, responsável dos Impressos, Ana Cristina Santana, responsável dos Manuscritos, e Fátima Lopes, responsável dos Espólios do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea”, informa-nos a directora da BNP. E é então que vemos, entre os documentos — uns, mais do que outros, com um admirável estado de conservação — o mais antigo livro da BNP, que remonta ao século XII; um dos 50 exemplares existentes no mundo da Bíblia de Gutenberg; uma carta de Vasco da Gama; a primeira edição d’ Os Lusíadas; a carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro a explicar a origem dos heterónimos, escrita em Janeiro de 1935.

Nos bastidores da biblioteca
O acervo da BNP integra actualmente cerca de 4,7 milhões de documentos. Com algumas doações e aquisições, o número cresce principalmente graças ao depósito legal, uma lei que remonta a 1805 e que obriga a que sejam entregues à BNP onze exemplares de todas as obras impressas ou editadas em Portugal. Nove exemplares são depois enviados para bibliotecas um pouco por todo o país, incluíndo Açores e Madeira, e para a Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, no Brasil. Os dois restantes integram o acervo da BNP. É esse o percurso que Maria Inês Cordeiro desvenda ao PÚBLICO: a viagem que estas obras fazem, nos bastidores da biblioteca, até serem entregues aos leitores.

Ao chegarem — em paletes coloridas, com diferentes tamanhos, vindas directamente das tipografias —, as obras com destino às outras bibliotecas são empacotadas em caixotes que, uns em cima dos outros, ocupam os dois lados de um corredor largo. Nuns lê-se “Madeira”, noutros “Rio de Janeiro”, mas o critério é igual para todos: “antigamente, era a BNP que enviava todos estes livros para as várias bibliotecas, mas agora isso é insustentável e cada instituição paga o transporte dos seus livros, incluindo o Rio de Janeiro”, assegura Maria Inês Cordeiro, que dirige a BNP desde 2011. A biblioteca recebe mensalmente cerca de 40 mil livros através do depósito legal, “e passa cerca de um mês entre a chegada, a sua distribuição e a catalogação”, conclui a directora.

Para serem restaurados, a maior parte dos  ocumentos são primeiro desmanchados, lavados com uma água controlada, e depois secam naturalmente
Maria Inês Cordeiro, directora da BNP desde 2011
Impõe-se um pequeno desvio ao trajecto principal, informa-nos Maria Inês Cordeiro, com passos apressados: “Vamos ao sector de conservação e restauro”. Conhecemos então o sr. Gonçalves, que já não vai para novo e é o único encadernador a trabalhar na biblioteca — um sintoma da escassez de funcionários de que os utilizadores da BNP actualmente se queixam. Numa parede estão pendurados vários rolos de tecido colorido: “São usados para as lombadas”, explica a directora. Aqui restauram-se “tanto manuscritos como obras impressas, e não só livros, mas todo o tipo de documentos — mapas, desenhos, pergaminhos…”. A cada documento é atribuída uma ficha, na qual se apontam “todas as suas características, doenças e intervenções que vai sofrer” e se incluem algumas fotografias.

Mais à frente, já noutra sala, ficamos a saber que os documentos também são lavados, em banheiras próprias, com chuveiro. Maria Inês Cordeiro justifica: “para serem restaurados, a maior parte dos documentos são primeiro desmanchados, lavados aqui com uma água controlada, e depois secam naturalmente” em secadores próprios que fazem lembrar os vulgares estendais de alumínio. Quanto ao restauro, há vários processos para o fazer, e a directora da BNP mostra-nos um documento restaurado através de reintegração mecânica, um procedimento que recupera documentos “rotos, bichados ou com falhas”.

Feito o desvio, estamos de volta ao trajecto principal e passamos à zona de catalogação. Dispostas, aos pares, em carros de livros, as obras aguardam a sua vez de serem “introduzidas nas bases de dados”. São, depois, classificadas e voltam novamente para os carros de livros, “prontas para seguirem para a torre de depósitos”. Essa é justamente a paragem seguinte; mas antes voltamos à área aberta ao público e visitamos a sala de referência geral, onde os leitores pesquisam e requisitam as obras que querem consultar, e passamos pela mais emblemática sala de leitura da casa — a sala de leitura geral, conhecida pela enorme tapeçaria feita propositadamente por Guilherme Camarinha para decorar a parede do fundo e alusiva à Leitura Nova, uma colecção de cópias de importantes documentos mandada fazer por D. Manuel I e iniciada em 1504. Percebemos, desgostosos, que está por estes dias encerrada “para substituição do sistema de iluminação”, justifica Maria Inês Cordeiro. Conhecemos a sala de leitura temporária, onde filas e filas de secretárias acolhem leitores concentrados, e entramos no elevador que nos leva à icónica torre de depósitos, ampliada entre 2008 e 2012 e que guarda todo o acervo da biblioteca em 10 andares.

Luís Sá, responsável pela sala de leitura e pela torre de depósitos, junta-se a nós a partir daqui. Subimos até ao sétimo andar — “vamos ao depósito de ciências e artes”, informa-nos. “O depósito está organizado por grandes temas”, acrescenta a directora. As portas abrem-se e ouvimos o som incomodativo de uma campainha intermitente, uma medida de segurança accionada automaticamente à entrada e à saída de pessoas em cada piso. Chegamos a um corredor de que quase não se vê o final — tem 133 metros de comprimento por 15 metros de largura —, ladeado por filas e filas de prateleiras repletas de obras e conhecidas como “comboios”, devidamente identificadas com placas que, entre outros dados, indicam o tema e o número do comboio. Para aproveitar o máximo de espaço possível, as obras estão organizadas por três formatos: “livros de bolso, livros com formato até A4 e A4 ou superior”, explica Luís Sá, que acrescenta que outro dos critérios de organização é a data de publicação.

19.º a 22.º graus de temperatura com humidade relativa entre os 50% e os 55%, são as condições de conservação

Enquanto andamos pelo interminável corredor, Maria Inês Cordeiro fala sobre as condições de conservação: “a temperatura está normalmente entre 19.º e 22.º e a humidade relativa deve estar entre os 50% e os 55%”, diz, explicando que o tratamento do ar é feito por várias máquinas implementadas no último piso da torre e na cave. A incidência de luz solar é controlada pelas janelas — que são pequenos rectângulos, como convém. Mas a conservação passa também por armadilhar o espaço para combater eventuais habitantes indesejáveis: “colocamos armadilhas com um comprimido que atrai todo o tipo de insectos”. A segurança é assegurada por um sistema anti-intrusão e anti-incêndio e, quanto à limpeza do pó, “não é como lá em casa, não é possível andar sempre a limpar as prateleiras”.

Estamos no fim do percurso: é a partir de uma sala com pequenos elevadores, que existem em todos os pisos da torre, que os livros — e todos os outros documentos — são enviados lá para baixo, para os leitores. “O talão do pedido do leitor é impresso cá em cima e depois os técnicos colocam-nos nestes elevadores próprios”, indica Maria Inês Cordeiro. Nós voltamos ao elevador e deixamos os livros para trás.

Um pouco de História
Hoje, a BNP é um mundo, já se viu. Mas muito aconteceu antes de ficar assim. Nasceu a 29 de Fevereiro de 1796, sob o nome de Real Biblioteca Pública da Corte. Em alvará régio, D. Maria I determinava: “Eu a Rainha faço saber aos que este Alvará virem: que sendo um dos objectos, que ocupam a Minha Real consideração, o cuidado de promover eficazmente os progressos da Literatura Portuguesa; e conhecendo quanto será útil, e vantajoso para se conseguir este fim, o estabelecimento de uma Livraria Pública, […] onde se achem […] os Livros mais precisos pela sua raridade, […] que constituam um riquíssimo depósito, não só de todos os conhecimentos humanos, mas também dos meios mais próprios para conduzir os homens a conseguirem a virtuosa sabedoria, […] ordeno que na Minha Corte, e cidade de Lisboa se erija, […] a Real Biblioteca Pública da Corte.”

Mas a História da BNP começa anos antes. “A BNP é o resultado do pensamento iluminista de algumas figuras muito importantes na segunda metade do século XVIII”, resume a directora. Tudo começou por volta de 1771: Imbuído do espírito iluminista da valorização da razão, Frei Manuel do Cenáculo, que ficaria para a posteridade como uma das personalidades mais relevantes da Cultura portuguesa setecentista, propôs ao rei D. José I a criação de uma biblioteca pública. E assim, em 1775, D. José I decretava que a ala ocidental do Terreiro do Paço acolheria o projecto. Mas só duas décadas depois é que os planos se concretizariam — e o alvará de D. Maria I viria finalmente a fundar a Real Biblioteca Pública da Corte.

Do acervo da Real Biblioteca, gerido pelo bibliotecário-mor António Ribeiro dos Santos, faziam parte as obras da Biblioteca da Real Mesa Censória que, até à sua extinção em 1794, fiscalizava as obras a publicar. Entre doações particulares e aquisições, a Real Biblioteca Pública da Corte foi crescendo e, em 1834, depois da guerra civil contra os absolutistas, os liberais tomaram o poder e a Real Biblioteca passou a chamar-se Biblioteca Nacional de Lisboa. Nesse mesmo ano, a extinção das ordens religiosas viria a contribuir para o aumento do seu acervo: “vieram carroças e carroças cheias de livros de mosteiros e conventos para Lisboa”, conta Maria Inês Cordeiro. O Terreiro do Paço tornou-se pequeno para tão vasto acervo e a Biblioteca acabaria por se mudar para o Convento de S. Francisco, no Chiado, donde saíria apenas em 1969, para ocupar o imponente edifício do Campo Grande projectado por Porfírio Pardal Monteiro propositadamente para a acolher.

A BNP hoje: utilizadores, problemas e o desafio do digital
Dos 66 mil m2 de área total do edíficio, 35 mil m2 estão ocupados pelos 75 quilómetros de prateleiras. Mas a quem serve um património tão extenso? “Os principais utilizadores e exploradores do acervo da BNP pertencem à comunidade académica”, esclarece Maria Inês Cordeiro, que acrescenta que entre os cerca de 45 mil leitores que visitam anualmente a biblioteca — um número que se tem mantido estável nos últimos anos, diz —, quem procura a BNP não são apenas pessoas da Literatura, da História ou das Ciências, mas de muitas outras áreas.

Prova disso é o realizador e encenador Frederico Corado: “As minhas idas à biblioteca são frequentes, por motivos profissionais, quando faço pesquisa para novos trabalhos, em particular no que diz respeito ao teatro”, conta ao PÚBLICO. Corado dá o exemplo de uma exposição que organizou no final de 2015, sobre teatro no Cartaxo, e para a qual se socorreu da BNP: “Infelizmente, o Cartaxo não tem um arquivo muito completo, e tive de ir à BNP sobretudo para consultar jornais antigos. Em relação a alguns jornais, foi-me dito que não podia consultá-los porque estavam muito danificados, mas ofereceram-me alternativas: podia consultá-los digitalmente, se pagasse a sua digitalização”.

Um dos problemas mais recorrentes que os utilizadores da BNP identificam ao PÚBLICO é precisamente o estado de conservação das publicações periódicas. “É uma pena, porque vamos acabar por perder a memória do que era a actividade jornalística nos séculos XIX e XX. O papel é muito frágil, desfaz-se e a consulta deixa de ser possível”, lamenta Paulo Silveira e Sousa, investigador de História e utilizador frequente da biblioteca, numa conversa conjunta na cafetaria com presenças igualmente assíduas nas salas de leitura — o historiador Diogo Ramada Curto [colaborador do PÚBLICO] e João Pedro George, autor de obras como Marquesa de Paiva (2015) e O Que é um Escritor Maldito? (2013).

Uma biblioteca nacional não pode viver apenas do acervo que herdou do passado, tem de comprar obras - Diogo Ramada Curto, historiador

Os três investigadores partilham diariamente a sala de leitura geral e concordam que há actualmente dois problemas de base que condicionam o seu trabalho. Em primeiro lugar, “faz falta a formação de uma nova geração de profissionais dentro da biblioteca, que beneficie da passagem de testemunho do saber acumulado das pessoas mais velhas, que se vão reformando”, diz Diogo Ramada Curto. A análise dos relatórios de actividade da biblioteca mostra que, de facto, o panorama não é animador: enquanto que em 31 de Dezembro de 2010 “estavam ao serviço 231 trabalhadores”, na mesma data, em 2014 — de acordo com o mais recente relatório disponível —, “estavam ao serviço 195 trabalhadores”.

Em segundo lugar, continua Diogo Ramada Curto, “uma biblioteca nacional não pode viver apenas do acervo que herdou do passado, tem de comprar obras”, considera, preocupado com a falta de recursos para a aquisição de obras. João Pedro George vai mais longe e diz mesmo que esta é uma realidade que “atrasa imenso o conhecimento do país, porque os investigadores não têm acesso a determinados documentos, que acabam nas mãos de privados”. Também aqui os dados dos relatórios de actividade são reveladores: em 2010 foram adquiridas “105 obras de bibliografia corrente”, lê-se no relatório, e 1873 “no âmbito de leilões, espólios e raridades”. Já em 2014, “não foram adquiridas obras de bibliografia corrente” e foi “suspensa a assinatura de publicações periódicas estrangeiras”, tendo sido adquiridas 53 obras “no âmbito de leilões, espólios e raridades”.

Associada ao acervo da BNP está a memória colectiva do país, lembra Diogo Ramada Curto: “essa memória colectiva relaciona-se com a investigação que fazemos, é através da investigação que pensamos a memória colectiva, e por isso a biblioteca tem de ter condições para que possamos investigar, não basta ter o acervo”. Silveira e Sousa, Ramada Curto e George reconhecem, no entanto, que a falta de dinheiro é um problema transversal às instituições culturais em Portugal e elogiam a competência da equipa da biblioteca dadas as actuais circunstâncias.

Luís Ribeiro, um historiador de arte que trabalha em projectos relacionados com manuscritos medievais, não hesita: “a actual direcção é extremamente receptiva a colaborar com investigadores”, diz. O verdadeiro problema é o horário — é limitado e limitativo. “Sei que há condicionantes orçamentais e de recursos humanos, mas o horário devia ser mais alargado e mais noturno. Para quem está a fazer investigação em part-time, o fim-de-semana é ideal, por isso a biblioteca devia estar aberta mais horas ao fim-de-semana e não fechar ao domingo”. Mas Maria Inês Cordeiro diz que o alargamento do horário não é, “com os recursos que a biblioteca tem” hoje, uma hipótese “viável”: “a média de pessoas na sala de leitura geral a partir das 18h30 — apenas 10 ou 15 pessoas — não o justificaria”.

Maria Inês Cordeiro olha para o processo de digitalização dos documentos e a expansão da Biblioteca Nacional Digital, criada em 2002, como desafios: “A partir do momento em que a Internet e os meios tecnológicos se vulgarizaram, a BNP mudou radicalmente a forma como fornece os vários serviços e como dá acesso àqueles documentos [mais antigos e valiosos] a que só muito poucas pessoas antes podiam aceder”, explica. É a esses documentos que é dada prioridade na “difusão através da digitalização”, continua a directora da BNP, que destaca as vantagens da Biblioteca Nacional Digital: “qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, a qualquer hora e para qualquer efeito, não só tem acesso aos documentos como pode fazer o download e reutilizar. Por sua vez, a BNP, enquanto gestora desses bens culturais, consegue garantir o cumprimento da missão de os preservar a longo prazo”.

Apesar da evolução natural para o digital, o grande objectivo mantém-se: “Queremos preservar para o futuro, mas ao mesmo tempo ter relevância para a sociedade viva e que quer hoje utilizar a biblioteca. Temos de ter um equilíbrio entre as duas coisas”. A actuação da instituição, no entanto, mudou: “Até há 20 ou 30 anos, a biblioteca era reactiva — estava aqui, guardava o acervo para quem quisesse utilizá-lo —, e hoje é proactiva — temos de o ser para chegarmos à sociedade”. Por isso tem vindo a promover, nos últimos anos, exposições, mostras, colóquios, congressos, publicações e edições. “Anualmente, fazemos entre 60 e 70 eventos e lançamos entre 10 e 15 edições”, refere.

Quinze anos depois do seu lançamento, a Biblioteca Nacional Digital disponibiliza actualmente 27 mil documentos para consulta online, entre os quais o único exemplar conhecido de História de mui nobre Vespasiano (1496), sobre o imperador romano, e o  Cancioneiro da Biblioteca Nacional, uma cópia do século XVI do maior cancioneiro de poesia trovadoresca em português. Frederico Corado compreende a morosidade e as dificuldades inerentes ao projecto, mas lamenta que seja apenas possível aceder a um número tão reduzido de documentos, tal como Dora Santos Silva, investigadora do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que consulta frequentemente o portal. “Gosto de ir vendo as obras que vão sendo disponibilizadas”, explica, apesar de considerar que “o site não é user friendly”. “Não há, por exemplo, a organização em temas, que tornaria a consulta e a descoberta mais fáceis. A biblioteca permite a descoberta, mas a descoberta também deve ser um pouco facilitada”.

“A exigência do público é imensa e não perdoa nada”, concorda a directora. “Se não tivermos a última facilidade para o telemóvel ou para o tablet, já ficamos para trás; se não tivermos o acervo com uma boa visibilidade e recuperabilidade no Google, já existimos menos”, admite. Destaca, por outro lado, os recursos que a criação da Biblioteca Nacional Digital exigiu — e continua a exigir — e que envolvem “a transformação das infraestruturas técnicas, a necessidade de os profissionais adquirirem novas competências e a constante actualização dos meios de fornecimento do serviço do ponto de vista tecnológico”. “É uma realidade tão mais complexa quanto mais simples parece a sua utilização e tão ou mais dispendiosa do que a biblioteca das prateleiras”, advoga. Mas não tem dúvidas de que este é o caminho do futuro: “em 2013, apercebemo-nos de que o volume de tráfego na Biblioteca Nacional Digital é tal que pode corresponder, num ano, a vinte anos do volume de leitura nas salas de leitura aqui na BNP”. E conclui: “isso é o que as pessoas querem, é isso que nos convém”.

http://www.publico.pt/portugal/noticia/pelos-caminhos-da-biblioteca-nacional-1724966

Nuno Júdice - Nos teus olhos

* Nuno Júdice

É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.


sábado, 5 de março de 2016

Shakespeare Sonnet-a-Day

 * Shakespeare

Sonnet #2


When forty winters shall beseige thy brow,
And dig deep trenches in thy beauty's field,
Thy youth's proud livery, so gazed on now,
Will be a tatter'd weed, of small worth held:
Then being ask'd where all thy beauty lies,
Where all the treasure of thy lusty days,
To say, within thine own deep-sunken eyes,
Were an all-eating shame and thriftless praise.
How much more praise deserved thy beauty's use,
If thou couldst answer 'This fair child of mine
Shall sum my count and make my old excuse,'
Proving his beauty by succession thine!
This were to be new made when thou art old,
And see thy blood warm when thou feel'st it cold.


http://www.sonnetaday.com/ 

sexta-feira, 4 de março de 2016

Entre Dois Impérios. Viajantes Britânicos em Goa (1800 – 1940)

CRÍTICA

Isto não é guia para turistas nostálgicos

Entre Dois Impérios é uma reflexão sobre a ocupação do continente indiano.
Livros Entre Dois Impérios. Viajantes Britânicos em Goa (1800 – 1940) 

Pangim é agora uma pequena cidade pujante, fervilhando de comércio e turismo, com casas coloniais recuperadas e monumentos restaurados. A Velha Goa, a “Roma do Ocidente”, com a bela catedral, igrejas, colégios e conventos, abandonada durante séculos, oferece aos visitantes uma visão de esplendor sereno; mas não foi assim que a contemplaram os viajantes estrangeiros quando, depois de uma época de apogeu no século XVI, se tornou visível o colapso do império português, num longo estertor de séculos que Filipa Lowdes Vicente analisa na sua pesquisa em torno desse lugar mítico, através do olhar, impressões e reacções dos que aportaram aquelas paragens, desde finais do século XVIII até ao século XX. Entre Dois Impérios não é um guia para turistas nostálgicos; é uma profunda reflexão sobre a ocupação do continente indiano com todas as suas consequências sociais, políticas, religiosas e sociológicas. 

O livro está dividido em duas partes principais: a primeira que analisa o confronto entre dois tipos de colonialismo: o inglês, de cariz imperialista, orgulhoso, rico, organizado, segregacionista, prepotente, protestante; e o português, antigo de séculos, decadente, católico, desorganizado, pobre, mestiço, enxovalhado, cómico até, no seu laxismo e pretensiosismo.

Baseando-se em testemunhos, tanto de viajantes ocasionais como de figuras oficiais da hierarquia inglesa na Índia, a autora vai traçando um quadro (pouco lisonjeiro) das condições dos territórios sob o domínio da coroa e depois da República portuguesa. A segunda parte do livro é composta por testemunhos de viajantes britânicas por estas terras inóspitas e pouco acolhedoras, as quais, no entanto, fosse por curiosidade, fosse por dever – acompanhar os maridos – não fugiam às difíceis condições com que se deparavam.

A larga e rápida colonização do continente indiano no século XIX, por parte dos britânicos, deixou de fora os territórios portugueses de difícil acesso – só em 1888 é que Goa passou a estar ligada à Índia britânica pelo caminho-de-ferro que terminava em Mormugão, obrigando os visitantes a apanharem um barco até Pangim. No entanto, e apesar de todas as dificuldades, os territórios sob alçada portuguesa exerciam um fascínio peculiar, pelo seu património histórico e arqueológico. Com o orientalismo cada vez mais na moda, valia a pena o risco para se poder contemplar os vestígios de uma glória que os ingleses desejavam e emulavam. As provas do declínio serviam de ilustração de erros que os britânicos queriam evitar. E desses erros, os mais flagrantes, como ilustra a autora, seriam o catolicismo, com a acção da terrível Inquisição e a tendência para a mestiçagem. Uma vez que era voz comum que os indianos não conseguiam governar-se a si próprios e que os portugueses eram tão ou mais incapazes, os ingleses procuravam legitimar as suas aspirações à ocupação britânica, num processo em que os antigos colonizadores seriam, por sua vez, colonizados. Os ingleses achavam por bem tomar conta de Goa, Damão e Diu, territórios que consideravam como excrescências bizarras de uma glória fanada, entregues à sua triste sorte, nas mãos de um povo preguiçoso e lânguido, incapaz de insuflar uma nova dinâmica civilizacional. 

A segunda parte desta obra analisa com detalhe a posição das mulheres nas sociedades britânica, portuguesa e indiana, com especial incidência sobre os relatos de Isabel Burton, católica, inglesa, aristocrata, que se deslocou a Goa, por causa de S. Francisco Xavier e as suas relíquias. Isabel, mulher do explorador Richard Burton e co-autora da tradução para o inglês de Os Lusíadas, lança um olhar irónico sobre o modo de estar das portuguesas, espartilhadas em regras de conduta despropositadas e semelhantes às impostas às indianas. No entanto, e uma vez que o sistema de castas não era permitido por lei em território luso, a separação social era confusa e sujeita a uma intrincada teia de costumes que, para alguns, eram considerados laxistas e, para outros, ridículos e pomposos. O relato de Anne Bremner, protestante, mulher prática e mãe de filhos pequenos é bastante mais objectivo. Ao acompanhar o marido nas suas funções de cônsul em Goa tem a oportunidade de descrever o dia-a-dia na colónia. Refere a falta de electricidade e de saneamento básico, a ausência de política urbanística, o formalismo nas relações sociais e a segregação dos sexos. O ambiente em Goa é descrito “como se de uma lenda se tratasse, incluindo uma lição de história que todos sentiam obrigação de repetir” (pág. 179). 

A ocupação portuguesa na Índia é uma fonte inesgotável de ensinamentos. Filipa Vicente avança com este contributo, numa obra indispensável que junta o estudo do colonialismo com o estudo do género. Apenas peca pela repetição de detalhes e uma “arrumação” ligeiramente confusa das múltiplas informações, um resultado que se deve ao facto de os textos serem autónomos mas de indiscutível interesse.

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/isto-nao-e-guia-para-turistas-nostalgicos-1724779

quinta-feira, 3 de março de 2016

Vasco Cardoso - Uma longa estrada


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  • Vasco Cardoso 


Uma longa estrada
Durante anos estiveram ao serviço de Moscovo, conspiraram e desenvolveram actividades subversivas contra os interesses da Nação. Quiseram impor uma ditadura em Portugal, aniquilar liberdades e a democracia. Quiseram roubar as terras, o gado e nacionalizar a propriedade até à última barbearia. Expulsaram e perseguiram camaradas seus, fizeram purgas, impuseram uma disciplina férrea que esmaga o indivíduo e a sua identidade. Têm arquivos secretos, segredos terríveis e planos ameaçadores. Fazem greves só para destruir empresas e chatear a vida de quem trabalha. Querem os sindicatos como correias de transmissão dos seus mesquinhos interesses. Gostariam de ver em Portugal o regime da Coreia do Norte. Vivem da miséria do povo e precisam dela para existir. Cantam sempre vitória mesmo quando têm derrotas. São praticamente os únicos que ainda existem na Europa. Só sabem protestar e não têm qualquer vocação para governar. Agora são a muleta do Governo PS. Esperam pela primeira oportunidade para mandar o Governo abaixo. São velhos e têm uma cassete. Têm uma festa com coisas muito estranhas. Querem coisas impossíveis, como não pagar a dívida, sair do euro ou nacionalizar bancos. Não compreendem que o mundo mudou e falam da classe operária, dos trabalhadores, do imperialismo, do futuro socialista e comunista. Esperam pelos amanhãs que cantam...


O conjunto de barbaridades, calúnias e ataques dirigidos ao PCP não são um pormenor de conjuntura. São uma realidade factual, presente ao longo de décadas de luta do Partido, uma arma de arremesso usada pelas classes dominantes, difundindo a mentira, estimulando o preconceito. Com diferentes matizes ao longo dos tempos, o objectivo supremo da construção de uma sociedade nova e a acção consequente para o concretizar, suscita o ódio de classe capaz de mobilizar poderosos meios para limitar a capacidade de atracção do ideal comunista e do PCP. Temem a força dos ideais e das convicções, a justeza das propostas e da acção política, a presença e acção organizada, a ligação aos trabalhadores e ao povo, o reconhecimento do seu trabalho, honestidade e competência. Temem a capacidade de resistir, a alegria de lutar, a confiança no povo e no futuro. Eles estão prestes a completar 95 anos e têm consciência da longa estrada que têm pela frente.

http://avante.pt/pt/2205/opiniao/139338/

quarta-feira, 2 de março de 2016

Thiago de Melo - Arte de Amar

* Thiago de Melo

Não faço poemas como quem chora, 
nem faço versos como quem morre. 
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira 
quando muito moço; achava que tinha 
os dias contados pela tísica 
e até se acanhava de namorar. 
Faço poemas como quem faz amor. 
É a mesma luta suave e desvairada 
enquanto a rosa orvalhada 
se vai entreabrindo devagar. 
A gente nem se dá conta, até acha bom, 
o imenso trabalho que amor dá para fazer. 

Perdão, amor não se faz. 
Quando muito, se desfaz. 
Fazer amor é um dizer 
(a metáfora é falaz) 
de quem pretende vestir 
com roupa austera a beleza 
do corpo da primavera. 
O verbo exato é foder. 
A palavra fica nua 
para todo mundo ver 
o corpo amante cantando 
a glória do seu poder.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/tmello.html

terça-feira, 1 de março de 2016

Thiago de Mello comemora 90 anos de poesia e luta política

1 de março de 2016 - 10h52 

No próximo dia 15 de março, Thiago de Mello comemora seus 90 anos de vida. Cidadão do Brasil e do mundo, o poeta vai compartilhar este momento com leitores e amantes da poesia e da literatura em uma solenidade realizada na Biblioteca Mário de Andrade, no centro da capital paulista. 

Thiago de Mello comemora seu aniversário no próximo dia 15 de março em São Paulo Artista identificado com a cultura do Amazonas, morou em vários países — Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha — mas, terminada a ditadura no Brasil, optou por voltar à pequena Barreirinhas, cidade amazônica onde nasceu e vive até hoje.

Preso e torturado durante a ditadura, exilou-se no Chile. Lá conheceu Pablo Neruda, de quem se tornaria amigo e tradutor, tendo também sua obra traduzida pelo chileno. Thiago de Mello é reconhecido como um dos maiores nomes vivos da poesia de caráter social.

Sua obra sofreu influência da revolta, provocada em um momento histórico no qual a repressão se generalizou na América do Sul. Marca desse período, o livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, rendeu-lhe, em 1975, o Prêmio de Poesia concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e que o apresentou internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Muitos de seus poemas mais populares tomam o partido dos pobres e dos oprimidos do mundo, tais como Faz Escuro Mas Eu Canto (1968), Os Estatutos do Homem (1973) e Canto do Amor Armado (1975). Já Campo de Milagres (1998) trouxe com força a preocupação ecológica em sua poética.

Em visita à Fundação Maurício Grabois, em 2014, o poeta falou de seu profundo desejo de ver a construção de uma sociedade mais humana e solidária no Brasil. Abordou a realidade da Amazônia, alertando para a exuberância da floresta na qual existe, injustificadamente, uma população empobrecida.

Naquela ocasião, Thiago de Mello discorreu ainda sobre a realidade da América Latina e sobre a mobilização popular “que derrubou a ditadura” no Brasil como uma evidência da força do povo. “Quando uma parcela de um povo se conscientiza, sabe as razões porque este povo está sendo oprimido, a primeira coisa que ele faz é querer se organizar para lutar. Esse povo conscientizado vai crescer e vai ser invencível”, afirmou.


Do Portal Vermelho, com Fundação Maurício Grabois