Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 16 de dezembro de 2024
-Oliver Harden - A Ironia Machadiana: Uma Estratégia de Desnudamento da Condição Humana
domingo, 15 de dezembro de 2024
Rui Pereira - “ELES”
Carlos Matos Gomes - O Desafio da Tecnologia à Deontologia
Carlos Matos Gomes - Inteligência Artificial e Perversidade Natural (1)
sexta-feira, 13 de dezembro de 2024
Rodrigo Guedes de Carvalho - A vida tal como ela não é
Nasci sem telemóveis sequer no horizonte da imaginação e também lá passo mais tempo do que o saudável
Somos um planeta inteiro de turistas japoneses. Lembram-se, certamente, há muitos anos, quando só se conseguiam fotografias com máquinas para o efeito. Eram caras e conferiam estatuto. Os pais aprendiam a fotografar o melhor que conseguissem, a fim de registar a evolução da família, com as férias em lugar especial. Era preciso saber focar, ajustar a luminosidade, ter intuição, olho e velocidade para apanhar o instantâneo dentro de um movimento. Fotografava-se com fé. A cruzar os dedos, na esperança de que tivesse ficado bem, o que só se saberia semanas depois, após a revelação em casa da especialidade.
Uma boa câmara fotográfica pendurada ao pescoço provocava curiosidade e alguma inveja. Depois vieram os japoneses e democratizaram. Nasceram marcas mais acessíveis ao bolso e à aselhice. Claro que não só de um mesmo país. Lá dos orientes. A expressão turistas japoneses era um óbvio lato sensu. Designava os que apareciam pela Europa a disparar a tudo o que mexia ou imóvel permanecia há séculos. Eram molhos de turistas em frente aos históricos monumentos, a carregar nos gatilhos sem cessar. Comentávamos duas coisas, se bem se recordam. Que iam de certeza ficar com uma tralha enorme de fotografias iguais. E, acima de tudo, que pareciam mais interessados em gravar o momento do que em vivê-lo. Adiavam para o diferido. Veriam depois, quando regressassem a casa.
Algumas décadas passadas, somos todos esse turista. Já nem vou à declaração que se tornou, ela própria, um cliché: hoje está toda a gente agarrada ao telemóvel, a toda a hora. E sim, está. Deixou de ser indicativo de juventude, de modernidade, de nova geração para novos tempos. Nasci sem telemóveis sequer no horizonte da imaginação e também lá passo mais tempo do que o saudável. Tal como o meu pai. Como certamente o meu avô, se ainda andasse por cá. É uma máquina maravilhosa, pelas possibilidades cada vez mais infinitas. Cliché número dois: é o mundo na palma da mão. O que me preocupa é o hipnótico. Talvez seja coisa minha, pois que tenho sérios problemas com a sensação de falta de controlo. Não gosto de me meter num carro que não serei eu a conduzir. Tal como sempre foi o único real desconforto com os aviões.
O concerto importa-me pouco, importa-me que o concerto contou com a minha presença, e tenho aqui horas infindas de provas para exibir
Aflige-me o que não depende de mim. Por isso refiro a palavra hipnose. Há toda uma biblioteca de Alexandria com relatos de assombrosas sessões em que pacientes com traumas fundos resolvem muito assunto da cabeça e coração com uma boa hora em que foram conduzidos por um doutor que hipnotiza. Não é para mim. Não, não é por receio de deixar sair muitos segredos. Não tenho muitos, muito menos dos interessantes. É mesmo porque não acredito. E julgo saber que a hipnose tem de encontrar um mínimo de recetividade. Salvam-se, espera-se, as boas intenções terapêuticas, mas ninguém pode negar que há um manobrador e um manobrado.
É aqui, nesta curva, nesta intersecção, que coloco o telemóvel, ou as tecnologias, por atacado. Espero conseguir sempre perceber o ponto, a linha perigosa em que deixo de retirar da máquina o que me interessou para permitir-lhe que seja ela a retirar-me comando, ou mesmo vontade. Quando a máquina, depois de anos a aprender as minhas buscas, me começa a alimentar à boca saborosas coincidências. Turistas japoneses? Gente que nos espantava porque só parecia interessada em ver o mundo num ecrã? Que grava em vez de viver? Por favor. Hoje é autorretrato da Humanidade inteira. Vejam qualquer imagem do público que enche pavilhões ou estádios em concertos. Um mar de luzinhas. Em permanência. Poucos olham para o palco com os olhos de ver, olhos para absorver, para transformar mais tarde numa memória gratificante, daquelas que com o tempo se modificam, como as nuvens arrastadas pelos ventos lá em cima. E como essa sucessão de incertezas sobre o que vivemos afinal nos dava espaço para construir, moldar, remendar sentimentos. Já ninguém quer isso. Não vão aos concertos para sentir ou viver, ou para experimentar estados de alma. O estado de alma limita-se à frieza de um profissional de TV em serviço. Música após música, escolhem o filtro, a cor, as legendas sim ou não. Estão a realizar um filme que não veem. Nem no momento, nem depois. Ou alguém me quer convencer que estas filmagens infindas de concertos serão depois apreciadas com muita calma em casa? Serão esquartejadas em clips, stories, reels, fotos com efeitos, cuja finalidade (que começou logo na compra do bilhete) é dizer aos companheiros da rede social: eu estive aqui, eu estive lá. O concerto importa-me pouco, importa-me que o concerto contou com a minha presença, e tenho aqui horas infindas de provas para exibir. Também tenho centenas de fotos de pequenos-almoços de hotel. Não me lembro bem o que comi ou se me soube bem. Mas aqui está a prova. Nunca saímos do quadro de Magritte — isto não é um cachimbo. As pessoas sorriam, que parvoíce, é perfeitamente um cachimbo. Não era. Era a pintura de um cachimbo.
Expresso SEMANÁRIO#2720 - 13/12/24
Raul Luis Cunha - Como obter e tratar a informação sobre a guerra na Ucrânia?
terça-feira, 10 de dezembro de 2024
John & Nisha Whitehead -- É melhor ter cuidado: o estado de vigilância está a fazer uma lista e você está nela
É melhor você tomar cuidado, é melhor não fazer beicinho, é melhor não chorar, porque eu vou te dizer o porquê: neste Natal, é o Estado de Vigilância que está fazendo uma lista e verificando duas vezes, e não importa se você foi bom ou mau.
Você estará nesta lista, quer você goste ou não.
A vigilância em massa é a versão do Estado Profundo de um “presente” que continua dando… de volta ao Estado Profundo.
Redes de arrasto de geofencing . Centros de fusão. Dispositivos inteligentes. Avaliações de ameaças comportamentais. Listas de vigilância de terrorismo. Reconhecimento facial. Linhas de denúncias. Scanners biométricos. Pré-crime. Bancos de dados de DNA. Mineração de dados. Tecnologia precognitiva. Drones. Aplicativos de rastreamento de contato. Leitores de placas de veículos. Verificação de mídia social . Torres de vigilância .
O que tudo isso representa é um mundo em que, a qualquer dia, uma pessoa comum é monitorada, vigiada, espionada e rastreada de mais de 20 maneiras diferentes , tanto pelos olhos e ouvidos do governo quanto pelas empresas.
A Big Tech unida ao Big Government se tornou o Big Brother.
A cada segundo de cada dia, o povo americano está sendo espionado por uma vasta rede de voyeurs digitais, bisbilhoteiros eletrônicos e bisbilhoteiros robóticos.
Essa nova era assustadora de espionagem governamental/corporativa — na qual estamos sendo ouvidos, observados, rastreados, seguidos, mapeados, comprados, vendidos e visados — foi possível graças a um exército global de tecno-tiranos, centros de fusão e voyeurs.
Considere apenas uma pequena amostra das ferramentas que estão sendo usadas para rastrear nossos movimentos, monitorar nossos gastos e farejar todas as maneiras pelas quais nossos pensamentos, ações e círculos sociais podem nos colocar na lista negra do governo, independentemente de você ter feito algo errado ou não.
Rastreando você com base no seu telefone e movimentos : Os celulares se tornaram de fato informantes, oferecendo um fluxo constante de dados de localização digital sobre os movimentos e viagens dos usuários. Por exemplo, o FBI conseguiu usar dados de geofence para identificar mais de 5.000 dispositivos móveis (e seus donos) em uma área de 4 acres ao redor do Capitólio em 6 de janeiro. Essa última tática de vigilância pode levá-lo à prisão por estar no "lugar e hora errados". A polícia também está usando simuladores de sites de celular para realizar vigilância em massa de protestos sem a necessidade de um mandado. Além disso, os agentes federais agora podem empregar uma série de métodos de hacking para obter acesso às atividades do seu computador e "ver" o que você está vendo no seu monitor. Softwares maliciosos de hacking também podem ser usados para ativar remotamente câmeras e microfones, oferecendo outro meio de vislumbrar os negócios pessoais de um alvo.
Rastreando você com base no seu DNA. A tecnologia de DNA nas mãos de funcionários do governo completa nossa transição para um Estado de Vigilância . Se você tiver o azar de deixar seus rastros de DNA em qualquer lugar onde um crime foi cometido, você já tem um arquivo em algum banco de dados estadual ou federal — embora possa ser um arquivo sem nome. Ao acessar seu DNA, o governo logo saberá tudo o mais sobre você que ele ainda não sabe : seu mapa familiar, sua ancestralidade, sua aparência, seu histórico de saúde, sua inclinação para seguir ordens ou traçar seu próprio curso, etc. Afinal, uma impressão de DNA revela tudo sobre “ quem somos, de onde viemos e quem seremos ”. Também pode ser usada para prever a aparência física de possíveis suspeitos. É apenas uma questão de tempo até que a perseguição do estado policial aos criminosos se expanda para o perfil genético e uma caça preventiva aos criminosos do futuro .
Rastreando você com base no seu rosto : o software de reconhecimento facial visa criar uma sociedade na qual cada indivíduo que sai em público é rastreado e registrado enquanto realiza suas atividades diárias. Juntamente com câmeras de vigilância que cobrem o país, a tecnologia de reconhecimento facial permite que o governo e seus parceiros corporativos identifiquem e rastreiem os movimentos de alguém em tempo real. Um programa de software particularmente controverso criado pela Clearview AI foi usado pela polícia, pelo FBI e pelo Departamento de Segurança Interna para coletar fotos em sites de mídia social para inclusão em um enorme banco de dados de reconhecimento facial. Da mesma forma, o software biométrico, que depende dos identificadores exclusivos de uma pessoa (impressões digitais, íris, impressões de voz), está se tornando o padrão para navegar em filas de segurança, bem como contornar fechaduras digitais e obter acesso a telefones, computadores, prédios de escritórios , etc. Na verdade, um número maior de viajantes está optando por programas que dependem de sua biometria para evitar longas esperas na segurança do aeroporto. Os cientistas também estão desenvolvendo lasers que podem identificar e vigiar indivíduos com base em seus batimentos cardíacos, cheiro e microbioma .
Rastreando você com base em seu comportamento : Avanços rápidos na vigilância comportamental não estão apenas possibilitando que indivíduos sejam monitorados e rastreados com base em seus padrões de movimento ou comportamento, incluindo reconhecimento de marcha (a maneira como alguém anda), mas deram origem a indústrias inteiras que giram em torno da previsão do comportamento de alguém com base em dados e padrões de vigilância e também estão moldando os comportamentos de populações inteiras. Um sistema de vigilância "anti-motim" inteligente pretende prever motins em massa e eventos públicos não autorizados usando inteligência artificial para analisar mídias sociais, fontes de notícias, feeds de vídeo de vigilância e dados de transporte público.
Rastreando você com base em seus gastos e atividades de consumo : Com cada smartphone que compramos, cada dispositivo GPS que instalamos, cada conta X/Twitter, Facebook e Google que abrimos, cada cartão de comprador frequente que usamos para compras — seja no supermercado, na loja de iogurte, nas companhias aéreas ou na loja de departamentos — e cada cartão de crédito e débito que usamos para pagar nossas transações, estamos ajudando as empresas americanas a construir um dossiê para seus equivalentes governamentais sobre quem conhecemos, o que pensamos, como gastamos nosso dinheiro e como gastamos nosso tempo. A vigilância do consumidor, pela qual suas atividades e dados nos reinos físico e online são rastreados e compartilhados com anunciantes, se tornou um grande negócio, uma indústria de US$ 300 bilhões que rotineiramente coleta seus dados para obter lucro . Corporações como a Target não apenas rastreiam e avaliam o comportamento de seus clientes, particularmente seus padrões de compra, há anos, mas o varejista também financiou uma grande vigilância em cidades por todo o país e desenvolveu algoritmos de vigilância comportamental que podem determinar se os maneirismos de alguém podem se encaixar no perfil de um ladrão .
Rastreando você com base em suas atividades públicas : Corporações privadas em conjunto com agências policiais em todo o país criaram uma rede de vigilância que abrange todas as principais cidades para monitorar grandes grupos de pessoas perfeitamente, como no caso de protestos e comícios. Eles também estão se envolvendo em extensa vigilância online, procurando por quaisquer indícios de “ grandes eventos públicos, agitação social, comunicações de gangues e indivíduos criminalmente predicados ”. Os contratados de defesa estão na vanguarda desse mercado lucrativo . Os centros de fusão, US$ 330 milhões por ano, centros de compartilhamento de informações para agências federais, estaduais e de aplicação da lei, monitoram e relatam comportamentos “suspeitos”, como pessoas comprando paletes de água engarrafada , fotografando prédios governamentais e solicitando uma licença de piloto como “atividade suspeita”.
Rastreando você com base em suas atividades nas redes sociais : Cada movimento que você faz, especialmente nas redes sociais, é monitorado, minerado em busca de dados, processado e tabulado para formar uma imagem de quem você é, o que o faz funcionar e como melhor controlá-lo quando e se for necessário colocá-lo na linha. Como o The Intercept relatou , o FBI, a CIA, a NSA e outras agências governamentais estão cada vez mais investindo e confiando em tecnologias de vigilância corporativa que podem minerar discursos constitucionalmente protegidos em plataformas de mídia social como Facebook, Twitter e Instagram para identificar extremistas em potencial e prever quem pode se envolver em futuros atos de comportamento antigovernamental. Essa obsessão com as mídias sociais como uma forma de vigilância terá algumas consequências assustadoras nos próximos anos . Como Helen AS Popkin, escrevendo para a NBC News , observou: "Podemos muito bem enfrentar um futuro em que algoritmos prendem pessoas em massa por fazer referência a downloads ilegais de 'Game of Thrones' ... o novo software tem o potencial de rolar, no estilo Terminator, mirando em cada usuário de mídia social com uma confissão vergonhosa ou senso de humor questionável."
Rastreando você com base em sua rede social : Não contentes em apenas espionar indivíduos por meio de suas atividades online, agências governamentais agora estão usando tecnologia de vigilância para rastrear a rede social de alguém , as pessoas com as quais você pode se conectar por telefone, mensagem de texto, e-mail ou por mensagem social, a fim de descobrir possíveis criminosos. Um documento do FBI obtido pela Rolling Stone fala sobre a facilidade com que os agentes conseguem acessar dados da agenda de endereços do WhatsApp do Facebook e dos serviços iMessage da Apple a partir de contas de indivíduos visados e indivíduos não investigados que podem ter um indivíduo visado em sua rede. O que isso cria é uma sociedade de "culpa por associação" na qual todos somos tão culpados quanto a pessoa mais culpada em nossa agenda de endereços.
Rastreando você com base no seu carro : Leitores de placas são ferramentas de vigilância em massa que podem fotografar mais de 1.800 números de placas por minuto, tirar uma foto de cada número de placa que passa e armazenar o número da placa e a data, hora e local da foto em um banco de dados pesquisável, depois compartilhar os dados com a polícia, centros de fusão e empresas privadas para rastrear os movimentos de pessoas em seus carros. Com dezenas de milhares desses leitores de placas agora em operação em todo o país, afixados em viadutos, carros de polícia e em setores comerciais e bairros residenciais, ele permite que a polícia rastreie veículos e execute as placas em bancos de dados da polícia para crianças sequestradas, carros roubados, pessoas desaparecidas e fugitivos procurados. Claro, a tecnologia não é infalível: houve vários incidentes em que a polícia erroneamente confiou em dados de placas para capturar suspeitos apenas para acabar detendo pessoas inocentes sob a mira de uma arma.
Rastreando você com base em sua correspondência : Quase todos os ramos do governo — do Serviço Postal ao Departamento do Tesouro e todas as agências entre eles — agora têm seu próprio setor de vigilância , autorizado a espionar o povo americano. Por exemplo, o Serviço Postal dos EUA, que vem fotografando o exterior de cada pedaço de correspondência em papel nos últimos 20 anos, também está espionando textos, e-mails e postagens de mídia social dos americanos. Liderado pela divisão de aplicação da lei do Serviço Postal, o Programa de Operações Secretas da Internet (iCOP) está supostamente usando tecnologia de reconhecimento facial, combinada com identidades falsas online , para descobrir possíveis encrenqueiros com postagens "inflamatórias". A agência alega que a vigilância online, que está fora de seu escopo de trabalho convencional de processamento e entrega de correspondência em papel, é necessária para ajudar os funcionários dos correios a evitar " situações potencialmente voláteis ".
Agora o governo quer que acreditemos que não temos nada a temer desses programas de espionagem em massa, desde que não tenhamos feito nada de errado.
Não acredite.
A definição do governo de um "bandido" é extraordinariamente ampla e resulta na vigilância sem mandado de americanos inocentes e cumpridores da lei em uma escala impressionante.
Como deixo claro no meu livro Battlefield America: The War on the American People e em sua contraparte fictícia The Erik Blair Diaries , a vigilância, o stalking digital e a mineração de dados do povo americano — armas de conformidade e controle nas mãos do governo — não tornaram a América mais segura. E certamente não estão ajudando a preservar nossas liberdades.
De fato, a América nunca estará segura enquanto o governo americano tiver permissão para destruir a Constituição.
WC: 1897
segunda-feira, 2 de dezembro de 2024
Luís Osório - A história de amor de Carlos Paredes com a jovem guitarrista por quem se apaixonou
* Luís Osório
Na última semana antes do 25 de Abril, a história de uma amor improvável entre o génio Carlos Paredes e a jovem guitarrista por quem se apaixonou
1.
Conheci Carlos Paredes quando ele já só podia sorrir.
Em criança tinha estado com ele várias vezes, mas aí não conta, aí os adultos passam pelos filhos dos amigos como vinha vindimada, dão beijinhos e abraços, mas os beijinhos e abraços não são, na maior parte das vezes, vínculos de futuro.
O grande mestre da guitarra portuguesa era amigo do meu pai.
E foi nessa condição, de filho do meu pai, que a Luísa Amaro, sua companheira me desafiou para o ir ver ao Lar Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa.
Corria o ano de 1994 ou 1995, por aí.
Fez trinta anos que entrei no seu quarto e ele me sorriu.
Já não falava, mas ouvia música.
E ainda via televisão.
2.
Infelizmente não voltaria a tocar.
A doença neurológica deixou-o dependente de cuidados durante nove anos.
Entrou no lar em 1993 e partiu no verão de 2004.
Quando a notícia chegou aos ouvidos dos portugueses alguns julgavam que já tinha morrido.
Acontece-nos muito, não é?
Deixamos de aparecer e morremos antes de morrer.
Carlos Paredes, o génio mais humilde que este país já conheceu, a partir de certa altura foi para dentro. Tinha os olhos abertos, mas já não via, deixara de sorrir.
Mas Luísa Amaro esteve sempre à beira da sua cama.
Caminhou para o lar todos os dias durante nove anos.
3.
Carlos convidara-a para tocar com ele.
Luísa acabara de fazer 25 anos e era uma enorme esperança da guitarra portuguesa. Católica e empenhada na carreira apaixona-se por Paredes depois do primeiro espetáculo que fizeram juntos.
Viveram dez anos dedicados um ao outro.
E depois Luísa viveu mais dez anos totalmente dedicada a Carlos Paredes.
Luísa Amaro, é justo que se diga, sofreu na pele o preconceito de uma sociedade que condenava as mulheres a serem párias.
Ouviu de tudo e ouviu até de alguns músicos – que estava com Carlos por interesse, que desejava aproveitar-se do seu nome e projeção, que não tinha direito a nada se ele morresse.
4.
Só que Carlos Paredes caiu numa cama e deixou de ser falado.
E ouvido.
Mas Luísa Amaro caminhou todos os dias para aquela cama onde se sentava, onde punha música, onde tocava para ele as partituras que compunha, onde lhe contava de temas domésticos, onde esperou até ao último minuto que voltasse a sorrir.
Nesta última semana antes do 25 de Abril quis recordar Paredes.
E homenagear essa extraordinária compositora, guitarrista e mulher de Carlos Paredes a quem voltarei a aplaudir no meu monólogo na Figueira da Foz.
2024 04 16
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