* Manuel Loff
18 de Agosto de 2026
A Grande Guerra trouxera consigo,
um pouco por toda a Europa mas sobretudo entre nós, a permanente irrupção dos
militares e o sistemático uso da violência na vida política.
Há cem anos, o regime liberal
português, que, com intermitências, havia durado mais de um século desde a
Revolução de 1820, foi um dos primeiros na Europa a ceder perante a vaga
autoritária fascizante do pós-I Guerra
Mundial. A participação de Portugal na Grande Guerra acelerou, como ocorria
por toda a Europa, o processo de crise do sistema liberal, de que a República
do 5 de Outubro foi, no nosso país, a última etapa.
O rol de consequências que da
guerra decorreram (cem mil jovens enviados para a guerra, racionamento,
requisições forçadas, censura e supressão de liberdades, repressão da
contestação social), coincidindo no seu ano final com a pandemia da gripe
pneumónica, exasperara inevitavelmente a grande maioria da sociedade. Dela
foram sintomas os levantamentos da fome e os assaltos aos armazéns e às lojas
de víveres, as greves que os sindicatos convocaram contra Afonso Costa (1917) e
Sidónio Pais (1918), ou a remobilização religiosa em torno das chamadas “aparições” de Fátima (maio-outubro de 1917).
Se a saturação da guerra ateara
uma chama revolucionária nas trincheiras europeias, levantando milhares de
soldados contra os seus oficiais na recusa de continuar a combater e criando,
na Rússia, condições para o derrube do czarismo e, perante a recusa de Kerensky
em retirar o país da guerra, o triunfo dos bolcheviques (novembro de 1917), em
Portugal o tempo ainda era o de um Sidónio “salvador da Pátria”.
A “República Nova” que ele encenou em 1917-18, representou o
primeiro grande sucesso das direitas portuguesas em dar-se um “banho de massas”
— o mesmo que João Franco não conseguira obter dez anos antes. A construção
propagandística do Governo “carismático” de Sidónio em plena pneumónica, com as
suas “sopas dos pobres”, os seus banhos de multidão, as prisões e deportações
de grevistas e dirigentes sindicais, mostrou a católicos e monárquicos que era
este, e não a restauração monárquica, o único caminho viável para superar a
República. Sidónio representa, portanto, o primeiro esboço de uma alternativa
política autoritária, simultaneamente moderna e conservadora, de tipo
protofascista, e deixaria um rol de lições que seriam aprendidas pelo
salazarismo. Foi (também) daqui que o 28 de Maio surgiu.
A Grande Guerra trouxera consigo,
um pouco por toda a Europa, mas sobretudo entre nós, a permanente irrupção dos
militares e o sistemático uso da violência na vida política — o que George
Mosse chamou a “brutalização da política”. Começando pela Monarquia do Norte
(janeiro-fevereiro de 1919), a conspiração e o golpismo tornaram-se sistémicos
nos oito anos que decorreram entre o assassínio de Sidónio (dezembro de 1918) e
o fim do regime.
É impressionante como se tem
desvalorizado este fator quando se usa o argumento que mais banalmente se
escuta para explicar a crise da República: fala-se da instabilidade política (a
famosa contabilização, de resto discutível, dos “45 governos” em 16 anos) sem
se mencionar a quinzena de intentonas e golpes organizados pelas direitas
monárquicas, católicas e republicanas conservadoras, conducentes, só por si, à
queda de um terço dos governos do período. O discurso que as direitas de então
faziam contra o “caos” da República — e que ainda hoje encontramos em manuais
escolares — foi, antes de mais, um discurso performativo: quem o veiculava
foram os mesmos que provocaram o caos. É como se quem partisse deliberadamente
a loiça se queixasse de que ela se tivesse partido.
O tão habitual procedimento de
sublinhar o que se diz ser a “exceção portuguesa” sem sequer se analisar ou
conhecer adequadamente o contexto internacional continua a permitir fazer uma
leitura da História que, além de culpar a República pela sua própria queda,
tende a não ver que a instabilidade do regime republicano português era
semelhante à vivida noutros regimes liberais na conjuntura dos anos da guerra e
do pós-guerra sem que o desenlace golpista tivesse sido o mesmo. É o caso da
França, entre tantos outros, onde, nos mesmos anos de vigência da I República
portuguesa (1910-26), se constituíram 1,9 governos por ano, semelhantes aos 2,3
em Portugal (excluídos os gabinetes impostos por golpe militar).
Por outras palavras, o 28 de Maio
não foi a consequência inevitável da “instabilidade” republicana, como se
tivesse sido organizado simplesmente para a ela pôr termo. O golpe de 1926, que
triunfa porque, como já acontecera no golpe de Sidónio, se rompera o que
Fernando Rosas chamou o “bloco social do 5 de Outubro” (a convergência entre os
setores organizados do “operariado industrial” e dos “trabalhadores oficinais e
artesanais” com o “republicanismo popular e radical”), é o resultado final de
uma alternativa política e ideológica autoritária e violenta tecida pelos
grupos sociais dominantes àquela que achavam ser a incapacidade do
republicanismo em resistir ao avanço da contestação operária nos primeiros anos
da República e, sobretudo, da guerra e do pós-guerra.
O pânico sentido perante o
exemplo da Revolução Russa e a sua capacidade de resistência face à
agressão estrangeira foi o argumento final para apostar na mimetização do
fascismo italiano (1922-45) e da ditadura militar de Primo de Rivera (1923-30),
com as necessárias adaptações à realidade social e cultural portuguesa.
O salazarismo quis justificar o
28 de Maio descrevendo a República como o “descalabro das finanças e da moeda,
a ruína da economia, o assalto da propriedade, a desordem da rua e dos
espíritos, os assassinatos dos inimigos políticos e dos militares de prestígio,
os insultos e vexames da gente honesta nas praças e nas cadeias, as campanhas
anti-religiosas, a 'justiça popular', a indisciplina e afundamento dos órgãos
do Estado” (Salazar, 1940). Era a enunciação de um cardápio de mentiras
históricas (nada do que Salazar menciona ocorreu, ou ocorreu nos termos que ele
usou) e da demonização dos processos de mudança sociopolítica, manipulando de
forma grosseira a descrição de processos de conflito social, exatamente como
todas as ideologias reacionárias fizeram desde a Revolução Francesa.
Que, 50 anos depois, Cavaco tenha
recorrido ao mesmo vocabulário para descrever a Revolução do 25 de Abril diz
tudo sobre continuidades na cultura política das direitas portuguesas: “Um
período de agitação permanente e orquestrada, de convulsão sistemática, de
intranquilidade generalizada, de perseguições, de insegurança do cidadão, de
ruína da economia nacional, da tentativa de aviltação das mais nobres
instituições e da própria Instituição Militar [sic], da tentativa de
descaracterização cultural do nosso Povo.”
A coincidência destas duas
narrativas antirrevolucionárias — a salazarista (uma direita fascizada dos anos
em que se julgava triunfante) e a cavaquista (uma direita restauracionista que
se viu forçada, pela profunda derrota de 1974, a adaptar-se a uma sociedade
democratizada) — não é, pois, acidental. Ela é bem a prova da continuidade de
uma cultura política que se horroriza sempre perante a procura de democracia
material e a emancipação da vontade de justiça social.
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