* Maria J. Paixão
19 de outubro 2026 -
Rita Matias quis fazer crer que a forma violenta da intervenção nos espaços da AAC foi um meio para alcançar o fim nobre de defender a liberdade de expressão e a democracia. A verdade é que a invasão foi fim em si mesma: uma demonstração de força perpetrada pelos fortes sobre os mais fracos.
A invasão da sede da Associação Académica de Coimbra e, em particular, dos estúdios da Rádio Universidade de Coimbra por militantes do Chega foi mais um episódio circense como tantos outros a que o partido já nos foi habituando. Sendo evidente que assistimos a uma manobra de diversão, destinada a obscurecer o conluio do partido de Ventura com o governo a respeito da alteração da lei do arrendamento, a justificação apresentada e algumas reações à esquerda merecem reflexão mais aprofundada.
No rescaldo do incidente, Rita Matias e os seus seguidores repetiram ad nauseum duas linhas argumentativas. Por um lado, numa estratégia que já têm bem oleada, procuraram arregimentar para o seu campo a liberdade de expressão e a democracia, condenando as condições diferenciadas de debate que lhes haviam sido propostas pela RUC. Por outro lado, fazendo uso da sua também já habitual técnica de dizer tudo e o seu contrário, recusaram a acusação de “invasão”, invocando o convite para participação remota no debate, e ensaiaram surpresa face às reações da esquerda, apontando-lhe o apoio a formas de protesto que envolvem a ocupação de edifícios.
Ora, o fio condutor que une todos estes argumentos é a racionalidade instrumental que lhes subjaz: para o projeto político do Chega, a liberdade de expressão, a democracia e o protesto são simples meios – instrumentos a preservar enquanto e na medida em que continuarem a ser úteis para alcançar os seus fins. Só assim pode o partido cujo líder surge sistematicamente nos lugares cimeiros dos indicadores sobre exposição mediática (muitas vezes à frente do Presidente da República e até do Primeiro-Ministro) reclamar de “cancelamento” e invadir os espaços de uma associação estudantil em nome da liberdade de expressão.
Acontece que esta perspetiva instrumental dos valores fundamentais da ordem democrática não é uma excecionalidade do Chega, antes sendo a visão hegemónica, partilhada (e, porventura, produzida) pelos partidos do centro. Assim se compreende que a democracia tenha sido resumida ao ato eleitoral – um meio para selecionar representantes, e não um fim em si mesma. E assim se compreende também o impulso quase universal para reagir a episódios como o da invasão dos estúdios da RUC com censuras à violência, contrapondo-lhe o debate e o pluralismo de ideias. Esta tem sido, aliás, a cartilha do centrão político, no qual coabitam os “moderados” das mais diversas persuasões. Foi nessa linha a reação às invasões do Capitólio de 6 de janeiro de 2021 e do Planalto de 8 de janeiro de 2023, bem como a reação aos ataques a Donald Trump e à morte de Charlie Kirk.
A ideia pinacular da moderação política dos nossos dias é a de que se “condena todas as formas de violência”. A violênca, dizem-nos, é o meio errado para prosseguir quaisquer fins, por muito justos que sejam. Esta é, todavia, uma mundivisão, não só alicerçada numa série de falsas equivalências, como crescentemente incapaz de defender a democracia (material, e não meramente formal) perante os avanços da extrema-direita.
Comecemos por recordar que rejeitar “todas as formas de violência” implica, sobretudo à esquerda, negar o legado do abolicionismo esclavagista, do republicanismo, das lutas anticoloniais, do antifascismo, entre tantos outros movimentos contestatários que nos abriram o caminho. Depois, o próprio conceito de “violência política” deve ser desmascarado como o artifício que é: a adjetivação da violência pretende transformá-la num fenómeno excecional, por isso condenável, obscurecendo a violência quotidiana com que a maioria se depara todos os dias. Condenar a “grande violência”, independentemente do contexto e dos atores, é o exercício de performance moralizante favorito daqueles que perpetram a “pequena violência” do dia-a-dia. Continuam a precisar que Brecht lhes recorde que, enqnto “condenam” o rio que tudo arrasta, esquecem-se das margens que o comprimem violentamente.
A connação da violência em abstrato é, portanto, produto da exata mesma lógica instrumental que vê na democracia e nas liberdades cívicas meros meios para alcançar outros fins. Foi a fórmula encontrada pelo extremo-centro para se cobrir de superioridade moral enquanto encaminhava a nossa vida coletiva para o abismo do capitalismo tardio. Mas se assim é, fica a questão de saber se, porquê e como deve a esquerda opor-se ao tipo de ação política levada a cabo pelo Chega na sede da AAC. Em respeito pela reflexão que nos é exigida, temos de conceder que há uma parcial verdade na argumentação apresentada: historicamente, a ocupação e a resistência aos poderes instituídos têm sido patrimónios da esquerda. E terá sido, porventura, o seu abandono, mais ou menos consciente, em nome da “tolerância” e do “pluralismo” abstratos, que abriu caminho à cavalgada da extrema-direita.
A invasão das instalações da RUC é condenável, não porque a democracia privilegia sempre o “debate de ideias” em detrimento da ameaça da força, nem tão-pouco porque a ocupação e a interrupção das atividades regulares de um programa informativo são necessariamente meios condenáveis de protesto, mas porque se trata de uma tática de intimidação exercida no quadro de uma relação desigual por quem defende valores antidemocráticos – afinal, falamos do partido que tem a segunda maior bancada parlamentar na Assembleia da República a intimidar uma rádio universitária independente. Rita Matias quis fazer crer que a forma violenta da intervenção nos espaços da AAC foi um meio para alcançar o fim nobre de defender a liberdade de expressão e a democracia. A verdade, todavia, é que a invasão foi fim em si mesma: uma demonstração de força perpetrada pelos fortes sobre os mais fracos. O problema não é o meio, é o fim.
Tal visão é a única compatível com uma interpretação material da democracia e da própria liberdade de expressão. Se democracia não for perspetivada apenas como processo, mas antes como sistema político orientado para a emancipação, cujo objetivo é garantir a todos a participação na construção da vida coletiva, então ser-lhe-á antagónico qualquer projeto político alicerçado na exclusão e na opressão – tanto quando esse projeto vem embalado em respeitabilidade institucional, como quando rompe com essa respeitabilidade.
Censurar a invasão executada pelo Chega a partir de uma condenação genérica da violência, como se viu em vários quadrantes da esquerda liberal, é, por isso, uma armadilha a dois tempos. Primeiro, arrasta essa mesma esquerda liberal para becos sem saída quanto à sua relação com formas legítimas de protesto democrático mais ou menos violento – das ruas francesas até às acampadas espanholas e portuguesa. Segundo, esse apegamento infindável à ordem e à moderação afastam-na cada vez mais de uma base popular legitimamente zangada e descrente na democracia liberal formal.
A uma esquera socialista, por oposição, é exigível que consiga ver para além da “ordem pública” e do “respeitinho”, combatendo a narrativa instrumental da democracia e das liberdades cívicas e a associada condenação de “todas as formas de violência”. Em tempos de acendimento da convulsão social, combatemos a extrema-direita, não discutindo os meios, mas recentrando a luta política nos fins.
Maria J. Paixão
Professora universitária. Deputada municipal do Bloco em Coimbra.
https://www.esquerda.net/opiniao/sobre-violencia-e-esquerda/99264
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