"O grau de degradação actual da Assembleia vai ser muito difícil de emendar enquanto o Chega tiver a significativa representação parlamentar que tem. Um dia, vai conseguir arranjar uma cena de confronto físico, dando mais um passo na destruição da instituição parlamentar", escreve José Pacheco Pereira na SÁBADO
* José Pacheco Pereira
Na Assembleia da República, a táctica do Chega é fazer intervenções provocatórias muitas vezes insultuosas, para gerar incidentes e, depois, armar-se ou de valentão ou de vítima.
Como o Chega não reconhece como válidas as instituições da República (que alguns designam como III República), que considera parte do “sistema”, ou seja da democracia “abrilista”, a sua destruição é um elemento do programa não escrito do partido. Uma das instituições que mais tem sido atingida é a Assembleia da República. As cenas da semana passada são um exemplo desse processo, que se tem repetido vezes de mais com a complacência do Presidente.
O que o Chega faz na Assembleia é uma espécie de cópia do que faz o grupo extremista Reconquista e o seu líder Afonso Gonçalves nas ruas onde há elevada percentagem de imigrantes. Vai lá e provoca-os, com o objectivo de criar uma cena de rua que sirva para colocar um filme no Tik-Tok. Na Assembleia, a táctica do Chega é fazer intervenções provocatórias muitas vezes insultuosas, para gerar incidentes e, depois, armar-se ou de valentão ou de vítima.
O grau de degradação actual da Assembleia vai ser muito difícil de emendar enquanto o Chega tiver a significativa representação parlamentar que tem, a não ser que a mesa, no âmbito das suas competências e na defesa da instituição, proceda sem complacência na disciplina parlamentar. Um dia, o Chega vai conseguir arranjar uma cena de confronto físico, dando mais um passo na destruição da instituição parlamentar.
O “alegado" assalto ao gabinete de André Ventura
Já toda a gente percebeu o enorme incómodo para o Chega que se lembre que ainda não está esclarecido o “assalto” ao gabinete de Ventura, quando cada vez mais pessoas suspeitam de que se tratou de uma encenação. Essa encenação é um crime em si mesmo e deve ter consequências. Espera-se que a PJ, que investiga o que se passou, não venha a produzir, sob chantagem, um daqueles relatórios vagos e omissos sem conclusões, ficando mais um crime por punir.
O papel que pode ter Nossa Senhora de Fátima
Porque no “assalto” ao gabinete de Ventura alguém atirou para o chão uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, faço daqui um apelo a que, face à violência de que foi vítima, Nossa Senhora faça uma aparição no plenário da Assembleia e que aponte com o seu divino dedo a mão que a derrubou. Converteria o país, mesmo os incréus como eu, e faria um enorme serviço à democracia, que bem precisa de intervenção divina.
Ventura presidente da Comissão de Inquérito ao ministro da Administração Interna
Voltemos ao tema da intenção do Chega de destruir as instituições da democracia. Vejo sem surpresa a débil resposta, com raras excepções, ao facto de André Ventura ir ser o presidente da Comissão de Inquérito a Luís Neves. Esta decisão, legal sem dúvida, mostra duas coisas. A primeira, que a Comissão, mais do que inquirir, vai servir como instrumento para uma campanha política quotidiana do Chega contra todos os seus adversários, seus partidos, suas famílias, sua intimidade, tudo porque os poderes de uma Comissão são amplos. A segunda, é que a ideia benigna de que possa haver conflitos de interesse, como muitas outras coisas que estes tempos negros estão a destruir, não se aplica ao partido que mais enche a boca contra a corrupção. Ventura, presidindo a um inquérito a Luís Neves, é um caso de absoluto conflito de interesses.
Eu não punha lá os pés
Vai ser deprimente ver partidos democratas participarem nesta farsa como se houvesse alguma regra para cumprir nesta Comissão. Eu nunca participaria nesta farsa, deixaria o Chega sozinho numa cena de masturbação total, coisa que não acho elegante de se ver.
Fuzilamento em directo
Escrevi a semana passada sobre a crueldade inscrita na sociedade americana, que Trump quer dar estatuto de normalidade. O caso da execução falhada de uma mulher tem todas as características dos tempos de Trump, embora, como referi, já vinha de antes. Agora Trump e aquele momo que ele tem como Secretário da Guerra, querem fazer em directo, para todos verem, um fuzilamento de um militar que cometeu um massacre daqueles que são comuns nos EUA. Nunca ninguém se tinha lembrado disto, há várias décadas, em casos semelhantes. Presumo que o nome do major Nidal Malik Hasan, e o facto de ser muçulmano, tenha alguma coisa a ver com a decisão. No dia 3 de Dezembro, não percam o espectáculo que milhões de pessoas vão ver. Tempos negros estes.
2026 Outubro
https://www.sabado.pt/opiniao/cronistas/pacheco-pereira/detalhe/a-destruicao-da-assembleia-da-republica?
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