* José Pacheco Pereira
A melhor maneira de perceber o modo como pensam (embora chamar pensar seja um exagero) os homens e mulheres que hoje empurram a extrema-direita em Portugal são as redes sociais e os comentários não moderados. Respondo já a quem diz que o mesmo se passa do outro lado do espectro político – não é verdade, porque há uma enorme diferença de proporção. Há, de facto, mecanismos se afiguram parecidos, insultos, argumentos ad hominem, agressividade verbal, mas, para cada 100 de extrema-direita, há um da extrema-esquerda, e isso permite caracterizar este fenómeno como sendo um revelador significativo do populismo radical da direita.
Para fazer este artigo li centenas de comentários aos acontecimentos na chamada “acampada”, na intervenção policial e no tema da manifestação associada à habitação. Na verdade, o tema da habitação produz muito menos comentários do que a acção dos manifestantes, quem eles são, a acção da polícia, e mesmo quando há referências à habitação são com temas que aparecem exactamente da mesma maneira noutros comentários a coisas muito diferentes. Tentei excluir os muitos perfis falsos e bots que pululam nas redes sociais.
1. Quem são os comentadores populistas da extrema-direita? Não são activistas desses grupos mais radicais, embora votem em particular no Chega. São pessoas de idade, muitos reformados, porque se reclamam de “uma vida de trabalho”, e usam como legitimação o “se têm o que têm”, casa, por exemplo, é porque trabalharam toda a vida. O “trabalho” é, por isso, um factor de diferenciação, eles trabalham e os manifestantes não. E embora se possa perguntar, se trabalham, por que razão passam o dia dependurados nas redes sociais, é porque efectivamente não trabalham. Os manifestantes não trabalham porque estão a manifestar-se, os comentadores porque estão em tempo quase real a discutir o que os primeiros fazem.
Exemplos:
– "As pessoas têm é que trabalhar para terem casa. Não é com ideais comunistas que as casas vão aparecer. Quem trabalha e poupa tem habitação."
– "A grande maioria dos portugueses lutou e luta para ter casa, não em manifestações ociosas com símbolos de terrorismo, mas a acordar cedo e a chegar tarde a casa para no final do mês ter um ordenado. A essa luta chama-se trabalho, e a verdade é que funciona!"
– "Eu tenho habitação condigna. Trabalhei, endividei, comprei e PAGUEI. Se não sabes como é pede ai a alguém que te ensine."
– "As casas são de quem as compra."
2. A acção da polícia só peca por ser leve, os manifestantes mereciam levar muito mais.
– "Se houver mais bastonadas óptimo."
3. Quem são os manifestantes? Drogados, preguiçosos que não trabalham, a “escória da sociedade”, com mau aspecto, maricas e inúteis que vivem do “nosso” dinheiro sem fazerem nada. O argumento da droga é interessante num país que tem um problema considerável de alcoolismo. A hostilidade à homossexualidade faz parte do padrão habitual, sendo que, como é sabido, não se aplica aos casos de, mais do que homossexualidade, pedofilia, que abundam na extrema-direita.
– "Com tanto flotilheiro e drogados, pensei o mesmo."
– "Sonham de noite pra contar de dia, se a ganza não for muito grande, claro."
– "Se calhar não perdem nenhum festival e bebem mais cerveja numa semana que eu bebo num ano."
– "O moço da lingerie bordeaux que levou os pontos na cabeça já está pronto para outra."
4. Quem são estes manifestantes politicamente? São a “esquerdalha”, mais do que a esquerda. Deviam ser perseguidos, como “traidores" à Pátria, talvez presos e com os direitos cívicos negados. O grau de agressividade face à “esquerdalha”, tratados indiferentemente como comunistas, marca uma fronteira identitária impossível de atravessar.
– "Por momentos pensei que era a festa do avante."
5. As causas como a Palestina são tratadas como um crime e merecem uma fúria particular. Trazer bandeiras da Palestina é uma “traição” a Portugal, sendo que o mesmo não se passa quando há ajuntamentos com a bandeira de Israel.
– "Porque a ostentação de adereços alusivos à Palestina e bandeiras LGBT numa manifestação por habitação???"
Este mundo é essencialmente antidemocrático, conflitual, com exclusão do “outro”, e legitimador da violência. Os direitos constitucionais da greve, da manifestação, não valem nada. E, mesmo quando há violação da lei por parte dos manifestantes, há uma completa duplicidade em relação às violações da lei, por exemplo, por parte do Chega. O que provocaria uma fúria nestes comentadores se o que fez Rita Matias ilegalmente em Coimbra, invadindo uma estação de rádio, fosse feito por um “esquerdalho”, ou se se vier a concluir que o “alegado” assalto ao gabinete de Ventura fosse mesmo “alegado”?
Este mundo é pobre, ignorante, agressivo, violento e muitas vezes cruel. É um mundo antipatriótico, anticristão, mas encontra pouca resposta numa denúncia clara do que ele significa. É só esperar algum tempo para percebermos a metáfora do “ovo da serpente”.
Público 17 Outubro 2026
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