quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

«Capitalism and Freedom»



NA ECONOMIA NEOLIBERAL, QUE QUEREM PPD-PSD, IL & CHEGA, O 'ESTADO SOCIAL' DESAPARECE, OS POBRES VÃO FICAR AINDA MAIS POBRES E DESPROTEGIDOS, E OS RICOS AINDA MAIS RICOS...

- salienta Alfredo Barroso, recordando o que foi o estrondoso fracasso da economia neoliberal no Chile, durante a sangrenta ditadura militar do general Augusto Pinochet, expressamente apoiado e aconselhado por Milton Friedman e Friederich Hayek, teóricos do neoliberalismo

«A contra-revolução neoliberal é essencialmente antidemocrática» – afirmou o economista norte-americano (Prémio Nobel) Paul Krugman. De facto, nenhuma maioria de eleitores desejaria ver reduzida a quase nada a cobertura social que protege a generalidade dos cidadãos. Isso nunca. Por isso mesmo, o único meio de forçar a mão do povo é levá-lo a acreditar que não há alternativa

Na sua obra «Capitalism and Freedom», o economista neoliberal norte-americano Milton Friedman ousa afirmar que, como a obtenção do lucro é a essência da democracia neoliberal, todo o governo que conduza políticas que contrariem o mercado está a portar-se de forma antidemocrática, sendo irrelevante o apoio de que goze por parte da maioria de uma população esclarecida.

Foi esta visão absolutamente perversa da democracia que fez com que ele próprio e Friederich Hayek manifestassem o seu apoio ao golpe de Estado do general Augusto Pinochet, no Chile – que depôs, em 1973, o governo democraticamente eleito do presidente Salvador Allende, dado que este estava a interferir com o controlo dos negócios da plutocracia da sociedade chilena.

Hayek foi mesmo ao ponto de declarar, em defesa do indefensável Pinochet, o seguinte: «Pessoalmente, prefiro uma ditadura liberal a um governo democrático completamente alheado do liberalismo». Foi essa 'ditadura liberal', brutal e selvagem, que os 'Chicago boys' - os discípulos de Milton Friedman - ajudaram a sustentar durante 15 anos, transformando o Chile num laboratório experimental das políticas neoliberais preconizadas por Hayek e Friedman.

Entretanto, ficou a saber-se que Friedrich Hayek, o ‘profeta’ venerado pelo general Pinochet e por Margaret Thatcher, não quis visitar os EUA em 1973 – a convite do milionário norte-americano Charles Koch, um dos pilares do desmantelamento do Estado-Providência – por ter medo de perder os seus direitos à Segurança Social no seu país, a Áustria. De facto, Hayek – que nos seus discursos e palestras proclamava que a Segurança Social é «essencialmente um absurdo» que urge banir – explica com todo o detalhe, na correspondência que trocou com Charles Koch, os benefícios sociais a que tinha direito, e que não queria arriscar-se a perder ausentando-se da Áustria.

Para além da hipocrisia pessoal, o que aqui se manifesta é a hipocrisia de um discurso que consiste em fazer crer às pessoas que aquilo que se pretende é apenas proteger a sua ‘responsabilidade’ e a sua ‘liberdade de escolha’ – quando, afinal, são despojadas dos seus direitos sociais e do seu dinheiro para encher os bolsos da ínfima minoria dos mais ricos do planeta, sem nunca chegarem a ter qualquer ‘liberdade de escolha’ por mais responsáveis que sejam.

Também se tornou patente que o sistema neoliberal gera um perigoso e inevitável subproduto: uma cidadania despolitizada, caracterizada pela apatia e pelo cinismo. O neoliberalismo é, na prática, o primeiro e mais perigoso inimigo de uma genuína democracia participativa. É claro que actua melhor quando existe uma democracia eleitoral meramente formal, mas precisa que a população seja desviada das fontes de informação e dos debates públicos que a habilitem a formar opinião e a intervir nos processos de tomada de decisão.

A partir da noção crucial de «mercado über alles» – «mercado em todo o lado» – a democracia neoliberal cria ‘centros comerciais’ em vez de espaços comunitários e produz ‘consumidores’ em vez de cidadãos. E o resultado prático é uma sociedade atomizada, constituída por indivíduos desenraizados que se sentem desmoralizados e socialmente impotentes.


2024 02 08

ALFREDO BARROSO, no seu livro «Corações de Pedra - a maldição neoliberal» (Porto Editora, 2017)

https://www.facebook.com/somera.simoes 


ADENDA, por Victor Nogueira

Kissinger

  • "Não vejo porque precisamos ficar parados e assistir um país tornar-se comunista por causa da irresponsabilidade do seu povo. As questões são muito importantes para deixarmos os eleitores chilenos decidirem por si mesmos."
Sobre o apoio dos EUA ao golpe que derrubou Salvador Allende, presidente democraticamente eleito do Chile, em 11 de setembro de 1973.
citado em Richard R. Fagen, "The United States and Chile: Roots and Branches", Foreign Affairs, January 1975.

Bárbara Reis - Uma boa pergunta da CNN à polícia

 

LIVRE DE ESTILO

* Bárbara Reis  


07 de fevereiro de 2024

É fácil estar no sofá – e não ao vivo na televisão – e pensar "como é que ele não lhe pergunta isto?!", "como é que ela não lhe diz aquilo?!".

Do mesmo modo, é fácil estar a ver uma entrevista ao vivo na televisão e pensar: "Boa pergunta."

São momentos de felicidade.

Pensará que vejo entrevistas como vejo jogos de futebol. "Bom golo", "bom passe", "boa assistência de calcanhar". Não vejo futebol, por isso não se aplica. Mas há algum parentesco.

Não espero que os jornalistas façam hat tricks na televisão – já agora, falo de televisão em directo porque há uma arte particular neste media; é mais exigente do que entrevistar alguém para um gravador, conversa que mais tarde será editada com pinças cirúrgicas de modo a que todos façam boa figura, entrevistado e entrevistador.

A televisão em directo – como o futebol – exige jogo de cintura naquele instante, não resulta se for um minuto depois. Televisão em directo é a pergunta certa no momento certo. É estudar e preparar, como nas outras entrevistas, mas é rapidez de reacção e reacção certeira. É a diferença entre um concerto de música clássica – onde cada um segue a partitura – e um concerto de free jazz – onde o improviso é rei.

Com a ascensão do Chega e da direita populista radical dou por mim a prestar mais atenção às perguntas dos jornalistas do que às respostas. Podem ser líderes políticos, analistas e comentadores, e todo o tipo de intervenientes no espaço público.

Foi o que aconteceu este sábado, na CNN. Armando Ferreira, presidente do Sinapol – um dos 19 sindicatos da Polícia de Segurança Pública –, estava em estúdio a comentar o cancelamento do jogo Famalicão-Sporting, desse sábado, por falta de policiamento.

Quando o polícia disse que começa "a temer que poderá haver falta de polícias para [as eleições legislativas de] 10 de Março, porque os boletins de voto são transportados pelas forças de segurança e as urnas de voto também", André Carvalho Ramos, pivot da CNN, perguntou:

– Não quer desaconselhar acções semelhantes a esta [não terem feito policiamento do jogo] no dia das eleições?

O sindicalista da Sinapol disse que "os sindicatos têm tentado que as coisas sejam feitas dentro dos princípios legais e das linhas vermelhas do que se pode e não pode fazer" e que "nada disto é o que os sindicatos queriam que estivesse a acontecer".

E a entrevista prossegue:

– No caso das eleições legislativas, o transporte de urnas de voto não tem substituição possível?

– Que eu saiba, não. Quero acreditar que isso não vá acontecer, mas não podemos descartar. E temos de alertar o Governo para aquilo que pode acontecer.

– São ou não as forças de segurança essenciais à democracia?

– Claro que são. As forças de segurança são um dos pilares da democracia.

– Então como é que explica que possam colocar em causa o grande momento democrático de um país, o momento em que os eleitores vão votar?

– Essa pergunta tem de fazer ao Governo. O Governo português é que fragilizou este pilar da democracia [...]. Com a sua teimosia de não querer resolver os problemas, está a empurrar os polícias para um precipício e está a forçar os polícias a tomar posições extremadas que não são desenvolvidas pelas estruturas sindicais, são por iniciativas inorgânicas.

– Por ser por iniciativa inorgânica, pergunto se não quer aconselhar os seus colegas a alguma ponderação, sobretudo para 10 de Março?

Repare: é a segunda vez que o jornalista pergunta isto. Vamos no minuto quatro e o tema é o mesmo – é preciso polícia para haver eleições. O que responde o presidente do Sinapol?

– Tenho de dizer aos meus colegas que eles são profissionais das forças de segurança e sabem perfeitamente as suas responsabilidades, mas também tenho de dizer ao Governo português que ele sabe perfeitamente quais são as suas responsabilidades e, desde que este conflito começou, o Governo está em silêncio absoluto. Começa a cair em descrédito o movimento sindical por culpa do Governo. Quem está a criar o monstro, quem está a criar a besta, é o Governo.

– Não teme que esse descrédito seja ainda maior se os portugueses olharem para o 10 de Março com desconfiança em relação à polícia por não garantir o escrutínio eleitoral?

Repare: é a terceira tentativa do pivot da CNN. Resposta?

– Acredito que isso possa acontecer e pode ser um perigo que pode acontecer. A verdade é que eu não controlo os meus colegas. Eu não tenho mão sobre os meus colegas.

O Sinapol chama-se Sindicato Nacional da Polícia mas, apesar do que o nome sugere, só tem 1350 sócios. É verdade que Armando Ferreira não controla os 22 mil membros da PSP. Mas podia ter feito um apelo. Pelo menos aos "seus" 1350. Podia ter dito qualquer coisa como "lutem, mas não bloqueiem as eleições". Não o fez. Nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira.

Não conheço André Carvalho Ramos e não sei se ficou surpreendido com a falta de sentido de responsabilidade do líder do Sinapol. Imagino que sim. Como eu e milhares de pessoas ficámos. Fico a pensar que o jornalista tentou dar a mão ao polícia e dar-lhe a voz de sindicalista sensato e democrático. Não conseguiu, mas fez bom jornalismo.

 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Alexandra Lucas Coelho - Nós, os danados da terra, quatro meses depois

OPINIÃO

Gaza é o nosso espelho. As vítimas da fome estão de pé, o mundo não. Israel está a ser roído por dentro. Cravinho acertou o passo com Guterres.

Alexandra Lucas Coelho

7 de Fevereiro de 2024 

1. Há quatro meses que troco mensagens com Gaza. A última vez que partilhei algumas aqui foi no Natal. Como quase toda a população, o meu amigo W. foi deslocado para sul. Passou semanas num hospital a meio da Faixa, em Deir Al Balah, com a família da irmã, bombardeada. W. tem sequelas de ter sido torturado pelo Hamas, desloca-se com dificuldade. Vou partilhar o mais importante desde o Natal, deixando quase sempre de fora as expressões de afecto e cortesia que ele não abandona, nem no horror.

30 de Dezembro:

“Tenho muitas dores, não há analgésicos. Estou a tentar ir para o Egipto mas há milhares de casos médicos mais sérios. Preciso de transplante ósseo e fixação da clavícula. E de tratar o joelho.”

3 de Janeiro:

“Um bombardeamento a 30 metros do hospital. Gente em pânico a correr dos estilhaços. Nusseirat, Bureij e Maghazi ficaram debaixo de fogo e a maior parte das pessoas fugiu na nossa direcção. Milhares estão a dormir nas ruas. Hoje comi um pedaço de pão e um tomate. Consegui também 250ml de água. Estou a guardar 60ml para a noite. Sou sortudo. Muita gente não está a comer. Isso é claro quando centenas de olhos se fixam no que tenho nas mãos. Muitos de nós mendigam comida. A fome tornou as pessoas estranhas. Vi gente roubar, muitas lutas. Nenhuma privacidade. Zero higiene. O esgoto está por toda a parte. Milhares de membros amputados. Queimaduras. Cadeiras de roda e bengalas. O hospital está tão cheio, corredores, pátios. Centenas de feridos a dormir ao relento. Gaza já não é habitável. Gaza, a bela casa, tornou-se uma grande pilha de entulho. As imagens lembram-me Nagasáqui e Hiroxima. Mais de cem mil deficientes e cerca de 40 mil vítimas. Recebi uma foto da minha casa e do meu bairro. É como um terramoto. Estamos em choque. Desculpa, não devia preocupar-te. Acredita, estamos fortes. Mais do que alguma vez imaginámos.”

6 de Janeiro:

“A minha casa [foto de uma pilha de entulho). Não sobrou nada. As pessoas estão a ir para Rafah. Ainda não consegui um transporte.”

10 de Janeiro:

“Deir Al Balah e o hospital ficaram tão perigosos. Havia tiroteio e bombardeamento. Vi várias pessoas serem mortas. Vim para Rafah há 4 dias. Estamos a metros do Egipto, perto do mar. Tão atulhado, pobre, extremamente frio. Não há palavras para o quanto a vida é miserável aqui. É a sexta vez que sou deslocado nos últimos 90 e tal dias. A água está contaminada, e há pouca. Conseguimos enlatados e temos farinha para fazer pão. Duche é outro problema. Só urino à noite quando tenho a certeza de que a multidão não pode ver. Tão inumano. Continuo a rezar para sair.”

As filhas de W. estudam fora de Gaza. Uma está no Egipto com a mãe. Elas esperam receber W., e cuidar dele. Uma exposição do caso de W. é enviada às autoridades egípcias, com documentos e radiografias. Resposta dos egípcios: que ele vá a um hospital e registe o seu nome na lista dos que querem sair.

21 de Janeiro:

“Milhares já estão registados, incluindo casos muito sérios. Fiz tudo o que podia. Estou numa tenda precária. A situação piora a cada dia. Nem acredito que ainda me consigo mexer. Tanta fome. Tão sujo. Muitas dores e frio.”

26 de Janeiro:

“Manda-me o que souberes sobre a decisão do Tribunal Internacional de Justiça.”

29 de Janeiro:

“Linguagem forte mas decisão pálida. Israel continuará. Sofreremos mais. Literalmente morrendo às centenas por dia.”

31 de Janeiro:

“Ainda em pé. Mantenho esperança de sair daqui em breve ou ficar forte até este inferno acabar.”

2 de Fevereiro:

“Estou num estado miserável minha amiga. Muito a dizer mas as palavras não bastam. Requer mais que a minha capacidade. Inshallah conseguirei ultrapassar isto. Tenho vergonha de partilhar, as pessoas que conheço não são mais as mesmas. O meu povo hospitaleiro e decente tornou-se mendigo ou ladrão. Fomos privados de tudo, até da nossa humanidade.”

Este foi o último dia em que tive notícias de W. O meu outro amigo em Gaza, R., jornalista profissional, mandou-me uma mensagem no dia seguinte, escrevendo “pedintes” entre aspas, como se nem suportasse outra forma.

3 de Fevereiro:

“Estamos exaustos. Tornámo-nos ‘pedintes’, correndo atrás de mantimentos, cobertores e água. Embaraça-me esperar numa fila por comida, bater à porta das ONG. Durmo num cobertor, muito frio. E para tudo há uma longa fila, o que significa o dia todo, e impossibilidade de trabalhar. Estamos a ser desumanizados. Preciso de medicação para hipertiroidismo. Missão impossível.”

2. R. e W. não se conhecem. Ambos são orgulhosos, inteligentes, cultivados. Falam excelente inglês, viram o mundo quando era possível, antes de o gueto se fechar, porque têm mais de 50 anos. E uma noção clara da herança histórica. Nenhum deles é simpatizante do Hamas, pelo contrário. Quando os conheci eram homens saudáveis, elegantes, com casas cuidadas, acolhedoras, crianças a correr, avós e retratos nas paredes. Como incontáveis pessoas que conheci em Gaza desde 2002. Incontáveis casas cuidadas, apesar de estarmos num campo de refugiados, onde nos sentávamos em chãos limpos a partilhar comida maravilhosa. Jamais vi uma pessoa pedir na rua em Gaza. Ninguém abandonado.

Foto

Em Gaza, luta-se por comida todos os dias REUTERS/IBRAHEEM ABU MUSTAFA

Quando há pouco escrevi o nome Bureij (um dos lugares agora bombardeados), lembrei-me de lá ter ido com W. visitar uma anciã sobrevivente da Nakba que falava do marido como de um namorado, refugiada numa casa que nunca desistiu de ser bonita. Ela dedicara décadas a visitar palestinianos nas cadeias de Israel, e para poder fazer isso adoptou 40.

A Palestina que conheci nunca desistiu de ser bonita, começando por Gaza. A vergonha de R. e W., ao verem o seu povo transformado em pedintes, esfomeados, essas imagens com que somos bombardeados desde 7 de Outubro não são a vergonha da Palestina. São a vergonha de Israel.

E de quem tem sido cúmplice. As vítimas da fome estão de pé, o mundo não. Gaza é o nosso espelho. O risco de genocídio que o tribunal de Haia considerou plausível não é só a eliminação de um conjunto de pessoas. É a destruição de um povo cercado, no seu território, com a sua cultura. Partirem-lhe a coluna, tirarem os órgãos, matarem os filhos, queimarem a mente. Em Gaza, de forma radical, e na Cisjordânia, devagar. Isto passa-se há quatro meses diante dos nossos olhos de uma forma que não se parece com outra guerra. Os danados da terra somos todos nós, que estamos vivos agora, enquanto isto acontece.

E Israel está a ser roído por dentro. O tribunal de Haia decreta que façam tudo para prevenir o genocídio e na manhã seguinte os ministros-colonos dançam sobre os cadáveres de Gaza, juram plantar lá colonatos, enxotar os palestinianos. E Biden pune “quatro colonos extremistas”. O nível a que chegou a ficção. Singularizá-los é uma ficção. Eles são, hoje, o fruto e a faca do sionismo, a máscara mais feia do estado de Israel, com a colaboração do mundo rico, à custa da culpa colectiva pós-Holocausto, a bem de muitos negócios, incluindo os regimes árabes.

Mas a pergunta mais difícil vai além da culpa e dos negócios: porque é que as vidas palestinianas não contam como as israelitas, as americanas, as europeias, as australianas? Sabemos da culpa, sabemos dos negócios. Mas talvez não soubéssemos da dimensão do racismo incrustado em cada um. E tomem racismo aqui num sentido amplo, que abrange islamofobia. Tal como o anti-semitismo é racismo.

Não é por acaso que o processo em Haia chegou pela mão da África do Sul.

3. Masha Gessen, jornalista e intelectual judia americana respondeu recentemente às acusações de ser uma self-hating jew explicando que critica Israel porque é por aí que deve começar. Sendo judia, é o comportamento de Israel que a deve preocupar. É o que têm feito os judeus que corajosamente pedem o cessar-fogo. Precisamos primeiro do que a coragem pede ao que nos é mais próximo. Claro que do Irão à Arábia Saudita, do Líbano ao Egipto, é fácil perder a conta aos líderes sinistros. Mas se somos europeus, se estamos em Portugal, comecemos por nós.

Uma conjuntura irrepetível faz com que esta guerra sem precedentes aconteça quando o secretário-geral da ONU é um português. A firmeza de Guterres surpreendeu muita gente. Biden tornou-se cúmplice da matança e agora prova do veneno de Ben-Gvir e Smotrich, a ala terrorista do governo de Israel. A UE envergonhou-nos por meses, e vários dos seus membros voltaram a envergonhar-nos ao suspender o dinheiro da UNRWA. Critiquei há meses Marcelo e o Governo português. Nomeadamente, João Cravinho: e por isso quero terminar a dizer que nos honra a todos ver Portugal não só dar um milhão extra à UNRWA, como usar palavras firmes quanto ao isolamento internacional de Israel. Cravinho acertou o passo com Guterres, dizendo ainda palavras que o secretário-geral da ONU não poderia dizer. Precisávamos desse acto, desse gesto, dessas palavras.

https://www.publico.pt/2024/02/07/mundo/opiniao/danados-terra-quatro-meses-2079518



Manuel Loff - Votos a sério, e não sondagens

OPINIÃO

Como se percebe desde 2019, os governos PS-contas-ditas-certas foram verdadeiras fábricas de extremistas de direita.

Manuel Loff

7 de Fevereiro de 2024 

Num país em que votam 40 a 60% dos eleitores, e onde as empresas de sondagens veem dois terços dos inquiridos a não lhes responder, vale a pena ver com atenção como votou meio milhão de pessoas nos Açores e, em setembro passado, na Madeira. Muito mais fiável que sondagens.

As eleições nas ilhas mostram que, ao contrário dos últimos anos, há muito mais gente a votar. Mais do que nas regionais de 2019 e 2020, mas mais ainda do que nas legislativas de 2022. Motivo de sobra para tomar estas eleições como indício fiável das tendências políticas. E confirmam o que já sabíamos: que o PS está irremediavelmente em queda. Muito pronunciada na Madeira: em setembro perdeu 40% dos votos das regionais de 2019 e um terço dos votos que obteve para a Assembleia da República (AR) em 2022. Nos Açores, o PS perde menos, compensado em parte pela descida do BE. Por outro lado, a AD não descola do que já tinha: já estava em perda (-2%) na Madeira, está estancada nos Açores (+0,1%), onde, é verdade, reúne muito mais apoio do que nas legislativas. A IL estancou também, com resultados sempre muito abaixo dos que obtém nas mesmas regiões para a AR.

Isto é também o que tradicionalmente acontece com o BE, que, ao contrário dos demais partidos, teve resultados muito diferentes num arquipélago e no outro: subida na Madeira em setembro, descida muito pronunciada nos Açores. É já comum que o BE obtenha maus resultados quando o PS pretende recuperar o poder à direita, como agora acontecia. À CDU acontece, normalmente, o mesmo, mas desta vez as coisas correram melhor: contrariou tudo o que as sondagens para a AR têm previsto, subindo significativamente na Madeira e conservando o que tinha nos Açores, em ambos os casos acima dos maus resultados das legislativas de 2022. A campanha eleitoral vai ser decisiva para recuperar muitos dos votos que se perderam para a maioria absoluta do PS – e que, afinal, serviram só para facilitar o caminho ao Chega.

Os resultados da extrema-direita confirmam que (ainda) está em fase ascendente, mas nada a ver com o que as sondagens indicam. Recordemos que há dias o estudo do Iscte/ICS dizia que o Chega poderia triplicar a sua votação (de 7% para 21%) para a AR, quando os resultados finais, reais, das eleições regionais dão-no a ficar muito abaixo disso: com menos abstenção agora que em 2022, o Chega sobe de 6,1% para 8,9% na Madeira e de 5,9% para 9,2% nos Açores. Ventura fez ambas as campanhas, o escândalo Albuquerque já se tinha dado quando os açorianos votaram. Não há bola de neve alguma. O Chega só conta porque sem ele não há maioria de direita. Mais nada.

Todos os estudos dizem que não são os trabalhadores pobres que votam Chega; exatamente como aconteceu nos anos do fascismo clássico (1922-45), é nestes setores das classes médias e médias altas que há muita gente disponível para votar neles

Apoiado na cultura política do ressentimento e do ódio que povoa as redes sociais, levado ao colo por muitos dos media que fazem capas sucessivas com os seus dirigentes e que sobrerrepresentam Ventura como se ele já tivesse os resultados que só as sondagens lhe dão, o Chega tem sido muito beneficiado por um mal-estar difuso, especialmente nas classes médias baixas e em setores profissionais da administração e dos serviços públicos que pagam hoje o preço que há muito pagam já os trabalhadores precários e/ou do salário mínimo, esmagados por salários baixos, por privatizações que tudo encarecem e pela omissão do Estado em limitar preços e rendas que a maioria não consegue suportar. Todos os estudos dizem que não são os trabalhadores pobres que votam Chega; exatamente como aconteceu nos anos do fascismo clássico (1922-45), é nestes setores das classes médias e médias altas que há muita gente disponível para votar neles. A aposta de Ventura é evitar discutir políticas sociais que corrijam a desigualdade e puxar o debate para o medo da perda de estatuto, ou para a demonização dos mesmos trabalhadores imigrantes que asseguram uma grande parte do bem-estar da classe média.

Como se percebe desde 2019, os governos PS-contas-ditas-certas foram verdadeiras fábricas de extremistas de direita. Não são os únicos: Macron é melhor ainda do que eles. Para travar a extrema-direita, qual PS nem meio PS. Como aconteceu sempre que o fascismo avançou, só uma frente social construída em torno dos direitos do trabalho, da luta por todas as formas de igualdade e contra o racismo. É um dever democrático nos 50 anos do 25 de Abril.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2024/02/07/opiniao/opiniao/votos-serio-nao-sondagens-2079496

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Guilherme d’Oliveira Martins - “A Menina do Mar”

OPINIÃO
 
* Guilherme d’Oliveira Martins

A primeira visita de Sophia de Mello Breyner a Teixeira de Pascoaes possui um sentido mítico. Ocorreu 12 anos antes da morte do Cenobita do Marão. Partindo de Amarante a cavalo, rumou a São João de Gatão, até à casa misteriosa e plena, que muitos de nós conhecemos. Contudo, Sophia perdeu-se entre nevoeiros nos “campos, caminhos e atalhos”, até que finalmente lhe apareceu a casa, de modo surpreendente, “grande, antiga, maravilhosa e branca”. E o espanto deveu-se ao facto de ter lá chegado pelo “lado de trás da casa”. A destemida jovem de então, esperava, como qualquer viajante comum, chegar à entrada brasonada do solar tão celebrado dos Teixeira de Vasconcelos, mas assim não aconteceu. O próprio Pascoaes ao recebê-la surpreendeu-se: “Por este caminho nunca chegou ninguém.” A literatura e o sonho misturam-se, naturalmente. Paisagem e poema tornam-se uma mesma realidade - como tantas vezes afirmou Gonçalo Ribeiro Telles, o paisagista por excelência. “Tudo naquele lugar era igual à poesia de Pascoaes.” E Sophia viu naquele surpreendente desvio um caminho que correspondia exatamente à leitura de um poema. Como diz Carlos Mendes de Sousa: “Os textos sobre os poetas e a poesia estão muito próximos dos contos que escreveu, concretamente pelo efeito de surpresa e pela força das imagens, como a espantosa chegada a cavalo à casa de Pascoaes.” Isto, para não esquecer a evocação da descoberta do amigo Ruy Cinatti, a dizer versos sobre a beira de um tanque…

Sophia é um exemplo de amor à língua e à cultura, como essências de uma autêntica educação para as pessoas. Como candidata a deputada, nas campanhas eleitorais, em vez de discursos sobre a democracia e a liberdade, preferia ler poemas - “porque, para mim, a poesia é a liberdade”. E assim compreendia as pessoas simples do campo e os mais exigentes. “Havia sempre um silêncio especial, mais profundo e mais atento para ouvir poesia.” Por isso, afirmou na revista Colóquio que “a poesia é a própria existência das coisas em si, como realidade inteira”.

Um dia, convidei Sophia para inaugurar a escola que tem o seu nome, em Carnaxide. Respondeu-me, com a amabilidade habitual e a fidalguia que sempre lhe conhecemos, que só aceitaria na condição de alunos e professores da escola prepararem uma representação de cor do conto A Menina do Mar. Não calculam a alegria que senti da parte dos membros da comunidade escolar ao conhecerem a disponibilidade da poeta e, poucos dias depois, confirmaram que tudo estava combinado e acertado.

Mas, cética, Sophia confessou-me: “Dizem-me que se desaprendeu o método de decorar nas escolas, esquecendo-se, etimologicamente, o que é aprender com o coração.” Veio o dia aprazado, entusiasmo total, alunas e alunos, professoras e professores, famílias, grupos cantando mornas e coladeiras, tudo em festa. E a homenageada segredou-me: “Recebem-me como uma rainha…” A inauguração consistiu nesse entusiasmo. No ginásio, em vez de discursos, apenas a presença dos jovens - e de um modo perfeito, numa adaptação adequada, ouvimos, de cor, sem uma dúvida ou hesitação: “Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia, onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas.” Os jovens intérpretes figuravam o enredo. Nadavam e riam, o polvo, o caranguejo, o peixe e a menina. Sophia estava surpreendida e feliz. E quando a protagonista disse “Agora a tua terra é o mar” e quando, no epílogo, o Rei do Mar estava sentado no seu trono de nácar, as palmas e os aplausos irromperam espontâneos e Sophia levantou-se com alegria juvenil: “Vejo que a língua e as escolas estão vivas.” Valera a pena o desafio. A Educação precisa sempre da liberdade e da exigência.

Dedico esta lembrança à memória de uma amiga e incansável mulher da Educação - Maria Helena Valente Rosa.

16 janeiro 2024 


Administrador-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 https://www.dn.pt/7662928991/a-menina-do-mar/ 

Guilherme d’Oliveira Martins - Herculano e Fontes


OPINIÃO
 
* Guilherme d’Oliveira Martins

Na Lisboa oitocentista houve o tempo dos cafés e o Marrare do Polimento ditava leis, na que hoje é a Rua Garrett. Ali Passos Manuel fazia escritório, José Estêvão, Castilho, Herculano, Garrett e Bulhão Pato encontravam-se para debater os assuntos do momento. Mas, como reconheceu Zacarias d’Aça, essa voga passou e nasceram os clubes, à maneira inglesa, e, entre eles, o Grémio Literário. Corria o ano de 1846 e os ânimos viviam exaltados, em guerra civil perante o Cartismo de Costa Cabral: a crise financeira, a Revolta da Maria da Fonte, o início da Patuleia, o início clandestino de O Espetro de Rodrigues Sampaio. Garrett dava à estampa As Viagens na Minha Terra, antes vindas a lume em folhetins na Revista Universal Lisbonense, dirigida por Castilho, e Alexandre Herculano publicava o primeiro volume da sua História de Portugal.

Helena Buescu e David Justino deram início agora ao ciclo sobre os fundadores do Grémio Literário, com a evocação de duas figuras primordiais na vida da vetusta instituição: Alexandre Herculano, o sócio N.º 1, fundador da moderna historiografia, marcante na literatura, na vida política e até na modernização da agricultura, com o seu premiadíssimo azeite; e António Maria Fontes Pereira de Melo, o governante, que tendo sido quatro vezes primeiro-ministro, fixou com o seu nome, na designação dada por Ramalho Ortigão, o período fundamental do liberalismo português - o Fontismo. E, se dúvidas houvesse, Rafael Bordalo Pinheiro intitularia de António Maria a mais célebre das suas publicações críticas.

Alexandre Herculano, um dos bravos do Mindelo, vindo de uma família de reconstrutores da cidade de Lisboa, depois do grande terramoto, foi figura única da primeira geração liberal, cultor do progresso e da autonomia individual, insistindo especialmente na dimensão moral. “O erro deplorável dos adeptos de certa escola é desprezarem a distinção entre o progresso que influi no melhoramento social e moral dos povos, e aquele que só melhora a condição física.” A luta contra a tirania, o exílio e contra a morte da liberdade era expressão da superioridade do homem convertido em cidadão.
 
Admirado pela geração dos jovens de 1870, o historiador foi a referência ética que se impôs. E lembremo-nos como nos seus ensaios e narrativas sobressaem o exemplo e a coerência da dignidade humana. Eurico, o Presbítero é o símbolo romântico, que se sacrifica estoicamente, enaltecendo a virtude dos seus adversários, em nome da honra, e em A Abóbada temos a sublime afirmação da vontade e do conhecimento que afinal prevalece num risco supremo. É esta coerência que encontramos em Herculano, que, não tendo apoiado a Revolução de Setembro de 1836, tornar-se-ia defensor em A Voz do Profeta, da Constituição compromissória de 1838, matricial no movimento estabilizador da Regeneração no Ato Adicional de 1852, em cujo regime defendeu intransigentemente a soberania popular com alternância de dois partidos - Regenerador e Histórico.

Para compreendermos Fontes Pereira de Melo, temos de entender a sua formação técnica e a muito precoce mobilização militar, cívica e política para a causa do liberalismo, na senda da carreira de armas de seu pai, em nome dos ideais da liberdade e do progresso. Por isso afirmou: “No nosso país há três grandes partidos. O progressista, o estacionário e o partido retrógrado. Eu sou progressista, digo-o com toda a franqueza, mas sou menos progressista do que muitos indivíduos que eu conheço nesta grande divisão; tenho, portanto, muita gente para a frente, e alguma para a retaguarda. (…) Entretanto, seria preciso que eu tivesse mais 30 anos, ou que tivesse nascido no século passado, para não ser progressista, como entendo que se deve ser” (15.1.1849).

Num período longo, houve condicionantes, continuidades e descontinuidades - que permitem entender a ideia de progresso e o confronto que Herculano precisou entre este e o melhoramento moral dos povos.

06 fevereiro 2024


Administrador-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

https://www.dn.pt/autor/5021344582/guilherme-doliveira-martins/

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Cartas de prisioneiros portugueses na I Grande Guerra

 

* Miguel Castelo Branco

2024 02 02
  
Entre Maio e Novembro de 1918, as cartas sucederam-se suplicantes, magoadas, desesperançadas. Pediam livros, mas também tabaco, marmelada, biscoitos e conservas que por cá já não havia. Eram aos milhares na longínqua Alemanha contra a qual havíamos sido empurrados para uma guerra que não era nossa e que dizimou a flor da juventude europeia, desfigurou centenas de milhares e deixou psicologicamente estropiados milhões. Encontro um basto dossier do Comité de Socorros aos prisioneiros de guerra portugueses e pressinto que a engrenagem da história, com o seu cortejo de desgraças, nos pode de novo atirar para um conflito que trará sofrimento, fome, doença e morte, como aconteceu entre 1916 e 1918. Há quem por ela anseie, se bem que não saiba que aquela não trouxe apenas a desgraça aos quase dez mil que tombaram na Flandres, em Angola e Moçambique, mas logo tocou a todos pela Carpa da Gripe Espanhola e pela miséria que se abateu sobre este povo. Há pedidos desesperados de famílias «sem pão e sem leite», sem roupas e sapatos, a correspondência vem invariavelmente debruada a negro e os atestados médicos confirmam que nesta casa chegou a haver 50% de baixas entre o corpo de funcionários.

https://www.facebook.com/photo/?fbid=10164107499101679&set=a.10152141975606679

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Mas o racismo não nos deixa ver, por isso, é lidar.

Whale project, in Estátua de Sal, 04/02/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre os 50000 milhões de euros aprovados pela UE para a Ucrânia, ver aqui. Pela pertinência, neste momento, resolvi dar-lhe o destaque que, julgo, merece.

Estátua de Sal, 04/02/2024)

Isto não deixa de me fazer lembrar os tempos da troika. Quando foi negociado o primeiro grande pacote de “ajuda” à Grécia, um jornal noticiava que o presidente da Câmara de Atenas tinha ido jantar com uns amigos e, da ementa, teria constado lagosta. A coisa era denunciada como sendo um exemplo de desrespeito atroz pelos cidadãos trabalhadores do Norte da Europa, que iam emprestar dinheiro à nação perdulária. Eu presumo que o ordenado de presidente da Câmara desse para comer uma lagosta de quando em vez. Pelos vistos, o homem não fazia aquilo todos os dias, ou também teria sido noticiado. Mas, parecia que todos tínhamos de fazer uma espécie de penitência, sem poder comer o que nos dava na gana – mesmo que o nosso ordenado desse para, isso -, porque os nossos países tinham vivido acima das suas possibilidades e éramos todos um bando de chulos a explorar os pobres trabalhadores do Norte da Europa.

Tivemos ainda o Passos Coelho a sentir-se envergonhado porque na Madeira, após um jantar envolvendo responsáveis políticos, um turista finlandês bêbado, lhe perguntou se seria ele a pagar aquilo. Qualquer pessoa com a espinha direita teria o dever de mandar o nórdico fascista beber outro copo e apagar a luz. Mas o Passos ouviu calado e veio depois insultar-nos a todos.

Sobre a especulação financeira em torno das dívidas ninguém deu um pio. A dívida da Grécia chegou a ter juros de 100%. Claro que subiu, e muito. Aliás, quem questionasse os “mercados” só podia ser um malandro esquerdista radical. Mas, o certo é que em troca do dinheiro que nos emprestaram fomos obrigados a cortar no nível de vida. Na Grécia o ordenado mínimo desceu, as condições laborais se eram terríveis mais terríveis se tornaram: houve trabalhadores da hotelaria a morrer de pura exaustão. A Grécia tornou-se o pior país para trabalhar, de toda a União Europeia. Portugal era o quarto.

Em troca destes empréstimos fomos obrigados a desarticular os sistemas de saúde; com os cortes impostos, milhares de pessoas morreram por falta de assistência e por infeções hospitalares, porque nem lixivia havia. Voltaram a existir caldeirões da sopa dos pobres em plena rua, muita gente não aguentou e pôs termo à vida. Mas, tudo era visto como um castigo merecido pelos povos corruptos, que não queriam trabalhar.

O problema dos gregos, tal como o nosso, foi sermos poucos. Mesmo que viéssemos para a rua fazer barulho, o que são 20 milhões num império de 500 milhões? Por isso, fomos o laboratório na Europa de tudo quanto eram politicas neoliberais, à Pinochet, enquanto os dirigentes do Norte da Europa nos despejavam para cima todas as atoardas racistas que levavam, pelo menos no caso português, a população a autoflagelar-se e a achar que éramos mesmo todos uns malandros. Eu, cá por mim, só perguntava se esses malandros do Norte da Europa – quando para cá vinham beber que nem uns porcos e lavar-se no mar -, se serviam a eles próprios nos hotéis e restaurantes, e se eram eles que variam as ruas, recolhiam o lixo que faziam, e assim por diante. E, um dia, tive mesmo de fugir para não ter que ir às trombas a uma criatura que – a propósito do último balde de miséria lançado sobre a Grécia quando o Tsipras “rachou” -, disse o seguinte: “não vamos viver mal para eles viverem bem”. Eu tinha engolido uma reportagem, conduzida em 25 de Janeiro desse ano pelo José Rodrigues dos Santos, em que não faltaram fake news. Eu tinha enterrado, uma semana antes, um amigo meu que morreu, na última das misérias, por os cuidados de saúde estarem à míngua, como estavam. Por isso, foi levantar-me e literalmente fugir, porque vi vermelho.

Não nego que, tenha havido corrupção, tanto na Grécia como aqui. Pelo menos na Grécia, o artista que comprou quatro submarinos à mesma empresa alemã a que o Paulinho das Feiras comprou dois, malhou com os ossos na cadeia. O Paulinho das Feiras, esse, continua a dar-nos, até hoje, lições de moral.

O problema é que fomos alvo de um castigo coletivo. Gente que se levantava cedo para trabalhar teve a vida virada do avesso. Na Grécia recuperaram-se “receitas” do tempo da ocupação nazi. Sofremos um castigo coletivo, cruel e desumano, ministrado por uma cambada de racistas.

Mas agora, como a União Europeia continua a acalentar o sonho do Hitler de destruir a Rússia, enterramos rios de dinheiro num estado nazi, e ninguém faz perguntas. A mesma cambada de racistas, que quase nos matou à fome e à falta de tudo, desperdiça agora o nosso dinheiro numa cambada de racistas e nazis, que glorificam assassinos de outros tempos, como Stepan Bandera, e chamam aos vizinhos “pretos da neve”.

Tudo porque queremos os recursos da Rússia, porque sonhamos com a sua destruição – como sucedeu com a Jugoslávia -, e porque queremos pilhar os seus recursos. Se, no caso de Portugal e da Grécia, o que se pretendeu era vir a banhos bem mais barato, agora, com o apoio a nazis, o que se quer é a destruição da Rússia.

Isso já não pode ser escondido. Em 2022, a Ucrânia estava armada até aos dentes com tudo quanto era equipamento ofensivo, e o palhaço de Kiev prometeu – dias antes da invasão russa -, que no Verão teria armas nucleares. E para quê? Para enfeitar? Logo se arranjaria um pretexto para que as hordas nazis avançassem pela estepe e chegassem a Moscovo, que até fica ali bem perto. O sonho de Hitler, o sonho que os dirigentes alemães nunca deixaram de ter, o sonho de Napoleão seria finalmente cumprido. Teríamos todos os recursos daquele povo bárbaro – que nunca vimos como igual, desde que os andávamos a caçar com a ajuda dos tártaros.

A verdade é que o nosso racismo sempre transformou os russos em pretos. Por isso ameaçámos um país europeu com a destruição económica dizendo, com todas as letras, que se a Hungria tinha a pistola nós tínhamos a bazuca.

Isto vai durar até ao dia em que irá correr mal. Uma das razões, que fez muita gente na Grã-Bretanha votar Brexit, foi o conhecimento das atrocidades cometidas contra a Grécia. É que, se em Portugal somos uns tesos, mas muitas vezes vamos às Caraíbas porque lá é barato, os ingleses iam à Grécia. Viam e não podiam ignorar. Sem contar com as reportagens que mostravam a miséria negra que por lá se vivia. Uma colega de trabalho, num segundo emprego que tive por essa altura, contava que uma amiga que estava em Inglaterra lhe ligara, lavada em lágrimas, porque tinha visto uma reportagem sobre a Grécia, e perguntava se, em Portugal, também iríamos chegar áquilo. Isso fez muita gente ver que, se as coisas dessem alguma vez para o torto, não seria a União Europeia que iria ajudar. Por isso, antes só que mal acompanhado.

Ora, quando a teta secar – porque tem de secar -, também a Hungria, e provavelmente outros, vão fazer um manguito a esta mafia.

E, o que faz com que ainda aguentemos isto, é que a propaganda funciona em pleno. Tão em pleno, que ninguém se lembrou de perguntar ainda para que raio quereria a Rússia mais espaço e, ainda por cima, quase sem recursos nenhuns. Agora eles até têm a Crimeia e nem precisam de vir a banhos ao Sul. Mas lá andamos nós a dar dinheiro a fascistas corruptos. E, ai de quem diga que eles são corruptos: só pode ser putinista…

Foi de racismo que se tratou, aquando do castigo coletivo que sofremos e é de racismo que se trata agora. E, se não está a correr como se esperava, talvez seja porque a Rússia é capaz de ter acordado para o perigo do racismo com o castigo que foi infligido a povos que pertenciam à Europa Ocidental. Não se tratou de árabes, ou gente do Leste como os jugoslavos.

Por isso os que sonhavam com o empalamento de Putin num par de semanas – vi muitos histéricos darem saltos que nem macacos -, veem agora que a coisa está para durar.

Porque a estação de serviço acordou para o racismo e tratou se de armar. Porque, sofrer a miséria da Grécia – num país onde as temperaturas no Inverno se contam por dezenas de graus abaixo de zero -, não era opção.

Mas o racismo não nos deixa ver, por isso, é lidar.

https://estatuadesal.com/2024/02/04/mas-o-racismo-nao-nos-deixa-ver-por-isso-e-lidar/


sábado, 3 de fevereiro de 2024

Isabel do Carmo - Não há povos escolhidos por Deus




Este texto foi-me enviado para divulgação pela autora, depois de um jornal diário ter recusado a sua publicação. (Joana Lopes)

* Isabel do Carmo

«Os conceitos de raça, de tradição real ou inventada, de cultura real ou imaginada, de nação com valores essencialistas, de heróis do passado caracterizados por matanças, acaba sempre mal, como se viu no passado, está-se a ver na Palestina e começa a aparecer assustadoramente na Europa. E acaba sempre mal porque uns são “os escolhidos” os outros os inimigos. A abater, portanto.

Não há raças humanas. Declarou-o a UNESCO em 1950 e foi provado no ano 2000 pela descoberta do genoma humano. Portanto não há caucasianos e não-caucasianos, como também não havia arianos e não-arianos. Estes conceitos pseudo-científicos já tiveram consequências trágicas em África e na Europa, no caso de Portugal até 1974.O conceito e a palavra etnia vieram substituir a palavra raça, o que deu jeito aos antropólogos para classificar grupos com a mesma língua, regras e códigos de conduta. Mas aquilo que é uma leitura ocasional e fortuita transformou-se em essencial. De tal modo que há pessoas que vivem na Europa, com língua e hábitos europeus, que continuam a ser classificados em nome da etnia x.

Vem isto a propósito do Estado de Israel, definido como um Estado judaico, que ressuscitou uma língua antiga, o hebraico, tornada oficial e tem uma religião própria. Embora se fale de etnia, neste caso trata-se de um Estado racial, que se dá o direito de aniquilar fisicamente o povo vizinho, em nome de espaço e de direito divino. O Deus do Antigo Testamento era belicista e racialista. Escolheu aquele povo, classificou como inimigos mortais os filisteus, os cananeus e tudo o mais que ameaçasse o espaço de Israel e Judá destinado aos judeus. E assim foi e assim é. Quando no ano 70 o Império Romano ocupou a região, depois de ter crucificado Jesus e perseguindo cristãos e judeus, deu-se a diáspora. Aconteceu que os cristãos dedicaram-se a converter e os judeus, como escolhidos, não admitiam a sua religião para outros povos. E assim como os ciganos foram expulsos da Índia pelos mongóis e se espalharam pelo mundo, também os judeus se espalharam pela Europa Oriental, pela Península Ibérica e pelo Norte de África. Felizmente que se integraram nas respectivas populações e daí a heterogeneidade do fenótipo e a adoção de um dialecto arcaico do alemão, o ydish. No entanto foram ferozmente perseguidos pelos progroms, pela Inquisição, pelo holocausto. Felizmente sobreviveram, venceram e estão espalhados pelo mundo, com honra, arte e glória, fundadores do Socialismo e da Psicanálise, sem religião e sem práticas rituais.

Até que nas estratégias do seculo XX, sobretudo com o empurrão dos EUA para criar um corredor no Médio Oriente, foi criado o Estado de Israel onde havia 83% de palestinos, mas onde os sionistas querem ir do mar até ao rio Jordâo.

Para tal criaram um espaço de caça, destinado a aniquilar um povo, a começar por mulheres e crianças, num morticínio idêntico ao que fez a Alemanha na Namíbia, com uma densidade de genocídio.

E quanto à defesa de “os nossos valores ocidentais”, nada de novo…”na frente Ocidental”.»

Isabel do Carmo
2024 02 02

https://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2024/02/nao-ha-povos-escolhidos-por-deus.html? 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Jaime Nogueira Pinto - A força dos “deploráveis”

* Jaime Nogueira Pinto

Colunista do Observador

Serão as linhas vermelhas que alguns pretendem aplicar racionais, democráticas, desejáveis, ou sequer eficazes e respeitadoras da vontade do povo?

27 jan. 2024, 00:1866

A 9 de Setembro de 2016, no jantar de recolha de fundos “LGBT por Hillary” em Nova Iorque, a candidata democrática à presidência dos Estados Unidos punha num mesmo saco, o dos “deploráveis”, a maioria dos apoiantes de Donald Trump.  E, encorajada pelos risos e aplausos da assistência, prosseguia, especificando o conteúdo do dito “basket of deplorables”, carregado de “racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos e islamofóbicos”; carregado, enfim, de desqualificados opositores políticos.

Só Deus sabe o que leva um eleitor, sobretudo um indeciso de última hora, a votar nesta ou naquela candidatura numa situação de oposição radical, mas a bravata de Hillary talvez lhe tenha custado a eleição. Caricaturar os adversários políticos de forma maniqueísta e enfiar num mesmo saco milhões de votantes, chamando-lhes deploráveis, tinha tudo para ter consequências desagradáveis.  E teve, porque, ao contrário do que imaginam algumas pseudo-elites, o povo não é estúpido.

Com as transformações geopolíticas que vieram com o fim da Guerra Fria, as classes populares e parte das classes médias do Ocidente viram-se marginalizadas e penalizadas pelo “sistema”. Foi, também, o preço da melhoria de vida nas periferias asiáticas, mas o que é certo é que quem o pagou foi parte significativa dos cidadãos da América do Norte e da Europa ocidental. Era, por isso, natural que a mudança do panorama político do Ocidente viesse pela mão dos lesados, de “deploráveis” como os operários das fábricas de automóveis de Detroit e das siderurgias de Pittsburgh ou os trabalhadores comunistas franceses que, no início do século XXI, passavam do PCF para o Front National.

Os velhos liberais da mão invisível ou os marxistas de uma luta de classes determinadas pelo lugar na Produção não deviam ter estranhado o facto de a decadência da indústria e a desindustrialização terem mudado as convicções e o sentido de voto do povo.  Mas estranharam.   E estranham.

E alhearam-se.  Até porque, entretanto, os valores de Deus, de Nação, de Família, de Justiça Social tinham já sido abandonados numa deriva – engolidos, à direita, pelo globalismo agnóstico, mundialista ou federalista europeu; e, à esquerda, pelas micro-causas, as micro-ofensas e as macro-inquisições diacrónicas e sincrónicas de minorias urbanas de género e espécie, apostadas em diluir no seu arco-íris planetário as lutas pela igualdade social, racial e sexual do anterior paradigma.

Mas, aparentemente, havia vazios deixados pelo fim de alguma prosperidade e estatuto, pelo declínio do cristianismo social e pela falência do “sonho comunista” que nem mesmo o mais inclusivo e frondoso dos arco-íris conseguia preencher. Assim, os “danados da terra” – que, juntamente com as classes médias empobrecidas, reagiam a uma “modernização dos costumes” imposta de cima, aos “novos direitos humanos” endossados pelos milionários do World Economic Forum, à imigração descontrolada e à corrupção que viam generalizar-se – passavam de “vítimas da fome”, a defender e a mobilizar, a “deploráveis”, a desdenhar e a cancelar.

Como sempre acontece em épocas de mudança radical e desorientação geral, perante o aparecimento de novas forças, as forças instaladas qualificavam como ressentidos ou enganados os que, descontentes com as alternativas disponíveis, migravam para novos movimentos políticos.

De resto, como o vazio ideológico acaba por ser preenchido, o aparecimento à esquerda e à direita de novos partidos e novos líderes não era de surpreender. À direita, onde apareceram com força, a par de algum ateísmo pós-moderno e populismo simplista comum ao das esquerdas mas de polo oposto, surgia um resgate e uma renovação de valores identitários e vitais; valores espirituais e temporais, éticos e políticos que tinham estado durante séculos em vigor na Europa, no Ocidente, e surgido noutros pontos do globo.

Para os combater e combater tudo isto, o sistema instalado – que à esquerda, ao centro e até ao centro direita não é já o sistema tradicional, mas uma versão esvaziada e contaminada pela retórica e pelo bullying ideológico das esquerdas mais extremas – parece disposto a tudo. E cego às suas próprias derivas totalitárias e à disrupção que encerra a “legislação avançada” que levianamente encoraja ou permite, propõe-se empenhar as armas poderosas que tem na cultura, no ensino e na comunidade mediática numa cruzada contra uma “extrema-direita” que equipara aos totalitarismos fascistas e nazis ou aos autoritarismos ditatoriais do passado.

Ora uma das coisas que caracteriza estas novas direitas – populistas, populares, nacionais-conservadoras ou o que se lhes quiser chamar – é precisamente o facto de serem democráticas no acesso ao poder e no seu exercício, conquistando e mantendo o poder democraticamente e cedendo o lugar quando o perdem eleitoralmente – com mais ou menos ruído, mas cedendo.

Nestas circunstâncias, serão as linhas vermelhas que alguns pretendem aplicar-lhes, racionais, democráticas, desejáveis, ou sequer eficazes e respeitadoras da vontade do povo?



Manda quem pode, obedece quem deve

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024



 Com a campanha eleitoral em estado particularmente avançado e atingindo um tom de certo modo encarniçado, saltou para a ribalta mais um caso de suspeita evidente de corrupção envolvendo o chefe do governo regional da Madeira e o presidente da câmara municipal do Funchal, duas figuras gradas do PSD que não sabe bem o que mais prometer a fim de conseguir enfiar a mão no pote após oito longos e impaciente anos de jejum. Fica-se com a sensação de que foi vingança do PS, já que é o governo que manda na polícia judiciária e, depois do farto subsídio, não haverá outro remédio senão responder prontamente.

De boas promessas e de boas intenções está o Inferno cheio

A coisa promete ser renhida até ao fim e ninguém estranhe, como já foi alertado por diversas vezes, que a presente campanha para as legislativas do próximo dia de 10 de Março venha a revelar-se um tanto ou quanto feia; vai valer tudo, arrancar olhos caso seja necessário. Toda a gente espera que o principal homem de mão, na Madeira, do dito “principal partido” da oposição, no Continente, coloque o cargo à disposição, à semelhança de Costa que parece não ter hesitado e por razões aparentemente mais difusas, porque a situação para o Montenegro será a partir de agora cada vez mais preta, e lá se irão as promessas de tudo e mais um par de botas.

Quanto a promessas e de pretensas boas intenções está o Inferno cheio, e não deixa de ser ridículos os leilões de promessas fáceis prometidas por todos os partidos, uma verdadeira feira, desde do que ainda se encontra no governo, passando pelos partidos ditos da “direita moderada” e aos intitulados de “extrema esquerda” e “extrema-direita”, esquecendo-se de que as políticas seguidas nos países da União Europeia são determinadas por Bruxelas. E temos de ser realistas, porque é neste quadro que os partidos portugueses se movem, sendo tudo o resto mera demagogia, e rasca. E o que diz Bruxelas?

Ora, no recente encontro do Fórum Económico Mundial (54º), realizado em Davos, a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen não se engasgou nem trincou a língua no seu discurso onde explanou clara e detalhadamente as linhas mestres da política a seguir: os sectores públicos (governos) e privados devem colaborar intimamente; a principal preocupação para os próximos dois anos será o combate à “desinformação e falsa informação” e não o clima; “os próximos anos exigirão que pensemos da mesma forma”, acredita que o poder comum das democracias e dos negócios estará no centro desta forma única de pensar; como a Rússia, no seu entender, está a perder a guerra na Ucrânia e a falhar nos seus objetivos económicos e diplomáticos, o belicismo europeu irá impor-se.

Em relação à forma de cooperação entre governos e empresas serão estas a ditar as leis, promessas de subidas do salário mínimo e médio, seja os mil euros do salário já este ano ou para 2028, seja os 1750 euros do salário médio para o final da legislatura, partindo do princípio que chegará ao fim, o que é pouco provável, os partidos terão de perguntar primeiro se os patrões e as empresas estão dispostos a fazê-lo, já que a cooperação tem que funcionar, e os patrões portugueses já foram explícitos sobre o assunto: o salário mínimo de 1000 euros é difícil sem aumento da produtividade – primeiro venha o porco, quanto ao chouriço logo se vê!

O PSD deixa transparecer que está com a consciência pesada quanto aos idosos, deve ainda estar lembrado dos cortes que efectuou nas pensões e nas idades de reforma para a “peste grisalha”, então desunha-se em promessa de aumentos, complementos e outros apoios. No entanto, os restantes partidos não lhe ficam atrás, até houve um que prometeu reforma mínima igual ao salário mínimo, outros apostam mais na descida da idade para aposentação e o novel chefe socialista uma das primeiras coisas que fez foi visitar centros de terceira idade, também se esquecendo – esta gente come muito queijo! – do número de mortes de idosos abandonados durante a pandemia e em lares ilegais. Para quando uma rede pública de lares ou de cuidados continuados?

Em referência à economia, cujo estado de saúde não está tão bem como o governo o pinta, as promessas são descabeladas: a recauchutada AD jura a pés juntos que a descida gradual do IRC irá garantir um bónus de 5 mil milhões de euros às empresas, o que permitirá subir o PIB em 3,4% até 2028 e à custa predominantemente do aumento da procura interna. Ora, se os salários são baixos, o poder de compra dos portugueses encontra-se continuamente a degradar-se e os patrões não estão abertos à ideia de subir substancial e antecipadamente os salários, como é que isso poderá ser feito?

Aumentar a produção, induzir o crescimento económico, e aqui fala-se do crescimento da riqueza dos patrões, através de aumento das exportações, como se tem tentado fazer até agora, como isso será efectuado se atendermos a  duas razões: primeiro, a União Europeia está a entrar em recessão económica, a denominada “locomotiva da Europa”, a Alemanha, tem a economia estagnada há uma série de trimestres e não se prevêem melhorias, bem pelo contrário; segundo, a economia portuguesa tem-se transformado num prolongamento da economia espanhola desde a entrada no euro, o que explica que nos últimos vinte anos, tempo do euro, o PIB nacional tem crescido a uma taxa média anual de 1%, isto é, metade do da economia do outro lado da fronteira, cada vez menos fronteira. Como é?

A crise da democracia e a crise dos seus órgãos de propaganda

“Para a comunidade empresarial global, a principal preocupação para os próximos 2 anos não será o conflito ou o clima. É desinformação e falsa informação, seguidas de perto pela polarização nas nossas sociedades” – Ursula von der Leyen no 54º Fórum Económico Mundial, 16 Janeiro 2024

A economia capitalista nacional não está lá muito bem, mas o resto não estará lá muito melhor. Se pegarmos no assunto que mais preocupa a senhora von der Leyen, a questão de toda a gente seguir o mesmo pensamento, sem lugar para dissidências ou alternativas, com o objectivo de evitar ou abafar a contestação social, então a situação é calamitosa. Os media mainstream nacionais, propriedade de um pequeno punhado de grupos económicos, estão pela rua da amargura e o caso Global Media Group, adquirido recentemente por um fundo de investimento mafioso, diz bem da realidade, e será apenas a ponta do iceberg. As posições dos diversos partidos do establishment quanto ao apoio a esta imprensa falida e desacreditada diz bem da natureza política e de classe desses partidos.

Antes de mais, devemos lembrar os 15 milhões de euros que o governo do PS/Costa enterrou nos media para, alegadamente, fazer publicidade institucional, mas na prática foi comprar a adesão à política seguida e aplicada quanto ao combate da pandemia, onde se esturricaram alguns milhares de milhões de euros na compra de vacinas, material de protecção, máscaras e serviços aos lóbis da saúde privada e também, com o mesmo pretexto, na recapitalização de empresas falidas ou à beira de tal. E ainda não se falava da crise do Global Media Group e Marcelo defendia o apoio estatal aos media privados, melhor dizendo, aos meios de propaganda do regime. O ex-presidente do Parlamento também já alvitrou a alteração da Lei de Imprensa. Provavelmente, os media mainstream serão benevolentes com o PS nesta campanha eleitoral.

E a seguir, e apontando as medidas defendidas pelos partidos do sistema quanto à forma de salvação de órgãos de informação que o povo português pouco lê ou vê, tirando as telenovelas, e onde pouco ou nenhum dinheiro gasta, porque também o não tem, concluímos que o consenso reina entre todos. O PS e BE são unânimes em enfiar directamente dinheiro nos órgãos de propaganda da burguesia, os restantes também aprovam mas com algumas condições, que são mais de forma do que substância, e o PCP até terá alvitrado a nacionalização do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias, dando a entender que são os “alicerces fundamentais da democracia”, como disse uma ex-deputada socialista, chegando a defender um “pacto de regime alargado” sobre os media. Mas pergunta-se, democracia e liberdade de expressão para quem, para os trabalhadores ou para as elites e seus negócios como aponta von der Leyen?

E quanto a democracia, esta não está melhor que os seus órgãos de propaganda, vai-se auto-descridibilizando, e aqui todos os partidos com assento na Assembleia da República estão unidos, e fortemente, incluindo o que se autoproclama de “anti-sistema”. O Parlamento, no seu último plenário, aprovou por unanimidade e em tempo recorde o projecto de lei que alarga ajudas de custo para os próprios deputados… e com retroactivos até agosto de 2023. É o fartar vilanagem! E vêm agora os falsos moralistas do costume gritar aqui d’el rei! que o ex-militante e ex-deputado pelo PSD, agora cabeça de lista do Chega, terá recebido 75 mil euros de subsídios e ajudas de custa por ter dado como residência Angola e não Coimbra ou Lisboa, onde passa a maior parte do tempo. Afinal, são todos subsídio-dependentes, ou seja, mamam todos na mesma teta.

Os cada mais frequentes casos de corrupção, na maior das vezes corrupção passiva de titular de cargo político, quer dizer que os políticos governantes foram corrompidos por alguém, no caso da Madeira os políticos terão sido por gente ligada aos negócios da construção civil e do turismo, acusação geralmente associada a suspeitas de “prevaricação, abuso de poder, participação económica em negócio ou atentado contra o Estado de Direito”, contribuem para descredibilização do regime. Quando esta democracia perfaz meio centenário de existência, vão realizar-se eleições antecipadas para a Assembleia da República e para a Assembleia Regional dos Açores e, muito provavelmente e em breve, também para a Assembleia Regional da Madeira, caso o governo regional venha a cair, como parece vir a acontecer. Não deixa de ser uma forma irónica de confirmar a solidez do regime.

Fica evidente, só não vê quem não quer ou não lhe interessa, que a classe política do regime não passa de uma casta que, para além de parasitária, funciona como gestora dos negócios do capitalismo. São todos uns meros funcionários que de imediato são descartados se não cumprirem com a missão, e logo substituídos por outros. Alguns são mais espertalhaços e não se deixam apanhar; outros, ou por inépcia ou por arrogância e excesso de confiança, são apanhados com a mão na massa. A fila para candidato ao pote parece não ter fim e as eleições servem somente para refrescar as fileiras, e quando é. Nunca foi tão verdadeira como no tempo presente a velha máxima salazarista do “Manda quem pode, obedece quem deve”: manda o poder económico, esteja ele (grande capital financeiro) sedeado em Bruxelas ou situado em Portugal, os políticos avençados obedecem.

Imagem: "Os pica-paus" em henricartoon

Postado por O BÁRBARO às 15:34 

https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2024/01/manda-quem-pode-obedece-quem-deve.html


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Luísa Semedo - Fábrica de monstros

OPINIÃO

Fábrica de monstros

Em vários contextos de guerra, massacres, genocídios, existem constantes que passam por desumanizar os inimigos, relegando-os para o lugar de animais considerados repugnantes ou nocivos.<

Luísa Semedo

14 de Dezembro de 2023, 6:19

Ainda hoje, quando entro na Biblioteca Nacional de França, passados mais de dez anos, sinto uma estranha sensação de opressão. Vivi ali dentro uma espécie de memória traumática de que o meu corpo se lembra de forma involuntária. Para a minha tese de doutoramento sobre a nossa capacidade de empatia, passei algumas semanas a ler sobre como se fabricam monstros. Como podem pessoas banais transformar-se em verdadeiros monstros morais. Como se pode destruir a empatia, a humanidade de uma pessoa, naturalmente constituída de emoções e comportamentos morais, indispensáveis à sobrevivência dos animais sociais que somos.

O que mais me impressionou nessa altura foi o trabalho imersivo de entrar na cabeça de quem foi um monstro, como antigas crianças-soldados, torcionários e terroristas. Os seus testemunhos sobre essa fase das suas vidas, do processo de desempatia, da maneira como viam as suas vítimas no momento da violência são muito desestabilizadores. Pensei neles quando li alguns testemunhos de jornalistas que viram os vídeos das câmaras subjetivas do ataque do Hamas e de como lhes impressionou essa perspetiva inédita de ver a violência do ponto de vista de quem a perpetra.

Em vários contextos de guerra, massacres, genocídios, existem constantes que passam por desumanizar os inimigos, relegando-os para o lugar de animais considerados repugnantes ou nocivos como baratas, ratos ou serpentes. E, ainda, a desindividualização, passando a ser impossível ver o inimigo como uma pessoa, mas como uma massa informe em que toda a gente passa a culpada ou dispensável, passível de ser transformada em meio para um fim, ou dano colateral.

Muitos dos testemunhos descrevem o facto de se olhar para o inimigo sem nunca pensar que este tem “uma irmã ou um irmão” ou ainda que, sendo “animais sem alma nem consciência” e não fazendo parte da mesma humanidade, toda a violência é possível. Faz parte do processo de desumanização retirar a roupa do inimigo porque um corpo nu está mais perto do animal e a nudez permite uma maior despersonalização. Para garantir que não se veja a sua humanidade vendam-lhes os olhos, baixam-lhes a cabeça ou posicionam-se atrás das vítimas, porque o “olhar nos olhos” é um perigo, visto este poder acordar a humanidade do monstro agressor.

Camião com palestinianos feitos prisioneiros pelo exército israelita, a 10/12/2023, na Faixa de Gaza YOSSI ZELIGER/REUTERS

Lembrei-me destes testemunhos quando vi as imagens recentes de palestinianos sem roupa, de cabeça baixa ou de costas capturados pelos soldados israelitas no Norte de Gaza. A questão da humanidade que surge através da cara do outro é uma das constantes no testemunho dos torcionários: “Lembro-me da primeira pessoa que olhou para mim, no momento do golpe final. Foi qualquer coisa. Os olhos daquele que matamos são imortais (…) Os olhos do morto, para o assassino, são, se este os vê, a sua calamidade. Eles são a acusação daquele que ele matou”, conta um dos assassinos do genocídio em Ruanda.

As guerras feitas através de bombas, de dispositivos à distância e agora com a ajuda da inteligência artificial têm a terrível consequência de não deixarem grande hipótese ao surgimento de um qualquer traço de humanidade inibidor de violência. A prevenção de massacres humanos passa, entre outras coisas, pela responsabilização dos agressores porque o sentimento de impunidade é fator agravante da violência, mas igualmente por uma educação sobre estes mecanismos de desumanização que implicam também a profunda desumanização do agressor. “Senti que já não tinha alma, que tinha passado a ser outra pessoa, que a minha alma se tinha separado do meu corpo, sentia que estava a perder o meu sentimento de humanidade”, “não éramos só criminosos, passámos a ser uma espécie feroz num mundo bárbaro”, relatam alguns torcionários.

Lamento, hoje, não ter investigado sobre o processo de desumanização de testemunhas exteriores, porque agora custa-me compreender como alguém não diretamente implicado, sentado confortavelmente num sofá, consegue apoiar incondicionalmente o massacre em Gaza de tantos civis, de tantas crianças. Questiono-me sobre os limites da sua (des)humanidade.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


Luísa Semedo - A defesa dos Direitos Humanos é um crime?

OPINIÃO

Para além de se colar à posição de defesa de Direitos Humanos, que deveria ser consensual, a etiqueta de “esquerdista”, também se adicionam as etiquetas antissemita e pró-terrorista.

Luísa Semedo

28 de Dezembro de 2023, 6:50

Já não sei dizer quando isto aconteceu, mas um dia numa aula tive receio de falar de Direitos Humanos e dos valores da República francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Em França, temos o dever de neutralidade política e religiosa quando ensinamos jovens na escola pública. E, nesse momento, pensei que alguns alunos, pais ou direção pudessem considerar que estava a ser proselitista. Senti o mesmo medo em levar roupa que tenho onde figuram mensagens como “Mulheres contra o fascismo”. E pensei: mas porque é que os Direitos Humanos deixaram de ser uma luta universal?

Hoje, quando leio textos que apoiam ou relativizam, entre outros “cídios”, o infanticídio em massa que está a ser levado a cabo pelo poder israelita em Gaza, surpreende-me que vozes de direita insistam nas clivagens políticas entre o seu campo político e a esquerda, diabolizando e caricaturando esta última. Eu pergunto: ser contra matar, queimar, mutilar, traumatizar crianças é de esquerda? Ser contra enterrar vivas pessoas é de esquerda? Ser contra matar à fome e à sede é de esquerda? Ser contra punições coletivas é de esquerda?

É porque deveria ser uma evidência. Evidência esta que está consagrada em vários textos de direito internacional. E, por isso, tanto a ONU, pela voz de António Guterres, como várias ONG que defendem os Direitos Humanos por esse mundo fora são unânimes: é urgente um cessar-fogo, é necessário deixar entrar ajuda humanitária em Gaza, é fundamental encontrar uma solução política. Todas estas vozes com grande experiência de terreno dizem “nunca terem visto isto”. Tal como pôde testemunhar a jornalista da CNN Clarissa Ward, que, com quase 20 anos de experiência de teatros de guerra, na Síria, Iraque, Irão, Afeganistão, Iémen ou Ucrânia, confessou: “Digo, honestamente, penso nunca ter visto isto nesta escala.”

O “isto” é um nível de destruição apocalíptico, com a utilização de centenas de bombas massivas de 900 quilos, quatro vezes mais pesadas do que as maiores bombas utilizadas pelos EUA no Iraque, o que, segundo a CNN, não era visto desde a guerra no Vietname. Estas bombas numa área tão densamente povoada como é Gaza têm um efeito devastador, tanto em termos de mortes de civis, como de destruição. Ser contra isto não deveria ser uma posição polémica e, no entanto, temos vindo a assistir a uma criminalização da defesa dos Direitos Humanos, desde a proibição de manifestações pró-Palestina até à censura, remoção e redução da visibilidade nas redes sociais de contas e conteúdo pró-palestinianos denunciadas, há poucos dias, pela Human Rights Watch.

Para além de se colar à posição de defesa de Direitos Humanos, que deveria ser consensual, a etiqueta de “esquerdista”, também se adicionam as etiquetas antissemita e pró-terrorista. A ponto de se chegar a chamar nazi a António Guterres nas redes sociais. E as ONG credíveis que serviam a estas vozes, por exemplo, para denunciar, e bem, os crimes de Putin na Ucrânia deixam de ser credíveis quando denunciam o massacre de palestinianos. É a chamada magia do duplo padrão, da incongruência ou da hipocrisia. “Estes são os meus princípios, mas, se o poder em Israel não gostar, tenho outros.”

Como é que explicam ficarem mais chocados com slogans em cartazes do que com o efetivo e atual massacre de crianças em curso?

Por muito que procure, há quase três meses que não encontro a resposta a estas perguntas: quais são os limites dos apoiantes no exterior do governo extremista de Netanyahu? Até onde estão dispostos a defender o “amigo”? Como é que explicam ficarem mais chocados com slogans em cartazes do que com o efetivo e atual massacre de crianças em curso?

Sei quais são as respostas das vozes de extrema-direita, para as quais a ideia de um Estado etno-nacionalista supremacista é um ideal a replicar em casa, para os que sendo antissemitas preferem ver judeus longe, fora dos seus países, e para os quais a arabofobia e a islamofobia são o novo carburante. Vozes que consideram que ser terrorista é uma identidade que carregam todos os palestinianos, inclusive as crianças, culpadas, merecedoras da pena de morte. Vozes para as quais os Direitos Humanos sempre foram um crime. Mas o que têm para responder as outras?

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2023/12/28/opiniao/opiniao/defesa-direitos-humanos-crime-2075001