domingo, 12 de maio de 2024

Entrevista a Serguéi Karaganov

 11 DE MAIO DE 2024

https://karaganov.ru/en

 É claro que o complexo industrial-militar-media anglo-saxónico, com a ajuda dos seus vassalos, pretende preservar a todo o custo a sua hegemonia global e as suas conquistas colonialistas.

A hegemonia não pode aceitar a mudança de paradigma de um mundo multipolar emergente.

Qualquer discussão sobre paz, diplomacia ou negociações relativas às guerras que iniciou está fora de questão. As populações ocidentais, cujas mentes estão contaminadas pelo neoliberalismo e pela russofobia, estão actualmente aterrorizadas por uma “iminente invasão russa”… O delírio em massa está a impedir que a RAZÃO regresse ao Ocidente. Como o resto do mundo pode lidar com esta loucura? E o que o resto do mundo pode esperar?

Voltamo-nos para o Professor Sergei A. Karaganov* – Presidente Honorário do Conselho de Política Externa e de Defesa (a principal organização pública de política externa da Rússia) e Diretor Acadêmico da Faculdade de Economia Mundial e Política Mundial da 'Escola Superior de Economia da Universidade de Moscou Universidade Nacional de Investigação – uma vez que há muito que oferece opiniões perspicazes sobre temas como a utilização da dissuasão nuclear como um alerta ao Ocidente para restaurar o bom senso e a necessária articulação da Rússia do Ocidente para o Oriente.

* * *

ALERTAR O OCIDENTE CONTRA A ESCALADA

Pergunta: Para alertar o Ocidente contra uma escalada da guerra na Ucrânia e contra a sua crescente agressão contra a Rússia, você argumentou a favor da dissuasão nuclear... Você acredita que os líderes ocidentais, a maioria dos quais estão dando um sentimento totalmente irracional, podem leva essas ameaças a sério?

Professor Karaganov: Muitas elites ocidentais já não têm noção de história e perderam o sentido de autopreservação. Chamo essa condição de “parasitismo estratégico”. O mesmo se aplica a boa parte da população ocidental, que se tornou complacente em relação à paz, em grande parte garantida pela dissuasão nuclear, que não compreende. Além disso, o nível intelectual da maioria das elites caiu drasticamente devido a mudanças nos padrões morais e à deterioração do seu sistema de ensino superior – especialmente na Europa. Portanto, há muito poucas pessoas que entendem essas questões.

A situação é um pouco melhor nos Estados Unidos, que parece ter retido pelo menos os restos de uma classe política com mentalidade estratégica, mas obviamente não está a comandar o espectáculo. No entanto, alguns permanecem próximos do poder e podem, por vezes, influenciar aqueles que estão no poder.

De qualquer forma, a situação ali é bastante preocupante. Apenas um exemplo: o Presidente Biden e o seu Secretário de Estado Blinken disseram recentemente que o aquecimento global é tão mau ou pior do que a guerra nuclear. Fiquei bastante chocado. É muito louco.

As populações ocidentais, habituadas durante décadas à democracia, à prosperidade e ao consumo de massa, parecem paralisadas e não resistirão a parar e privar o lobby da guerra do seu poder. A diplomacia também não funciona mais. O que você acha que está por trás dessa complacência ocidental? Falta de imaginação sobre como poderia ser a guerra em seu próprio solo? Um caso de deficiência cognitiva, delírios patológicos, orgulho, ignorância da história? Um disfarce para seu desespero e ansiedade em relação à sua própria existência? Ou poderia ser apenas uma fachada para uma estratégia friamente calculada da parte deles?

Todos os fatores que você mencionou desempenham um papel. Embora eu acredite que o fator mais importante seja a sua incapacidade e recusa em enfrentar a realidade. As pessoas estão tão acostumadas com essas imagens tremeluzentes em suas telas que as confundem com a realidade. Este é um problema para todas as nações, mas especialmente para aquelas mais afetadas pela tecnologia digital.

Há pessoas nos círculos dominantes do Ocidente – nos Estados Unidos, mas especialmente na Europa – que estão a perder a capacidade de governar o seu povo devido a problemas crescentes que não conseguem gerir ou mesmo enfrentar… como o aumento das desigualdades sociais, migração, até mesmo questões climáticas. Claro, eu poderia continuar e continuar…

O capitalismo moderno é um sistema totalmente inadequado. Baseia-se no crescimento sem fim do consumo, que acaba por matar a Terra. Em vez de tentar reduzir o consumo, as classes políticas ocidentais modernas estão a tentar transferir o fardo do combate à poluição e até a culpar as alterações climáticas nos fabricantes (a maioria dos quais estão no mundo “em desenvolvimento”), mas não nos consumidores – a maioria dos quais). estão nos países em desenvolvimento. no chamado mundo “desenvolvido”.

A lista de problemas e desafios não resolvidos é muito longa. Os círculos dirigentes tentam desviar a atenção dos seus cidadãos destes problemas criando um inimigo. Desta vez é a Rússia... Um alvo fácil devido à sua russofobia já generalizada e profundamente enraizada, mas também porque a Rússia é relativamente "pequena" em termos de economia, e perder a Rússia como parceiro económico custa mais barato do que perder a China. (Mas o sentimento anti-China também está a aumentar, especialmente nos Estados Unidos.)

Há uma camada crescente entre as elites ocidentais que começaram a preparar os seus cidadãos para a guerra. Entretanto, os líderes ocidentais cortaram completamente todos os laços entre os seus cidadãos, os russos e a própria Rússia. O comércio e até mesmo o discurso com os russos são mais ou menos proibidos, e quem visita a Rússia acaba sendo interrogado pela polícia ou pelos serviços de segurança. É sintomático de uma preparação para a guerra, deste aumento da hostilidade. Já conseguiram transformar a maioria dos ucranianos num rebanho de odiadores, todos os quais se dirigem obedientemente para o matadouro. Em seguida vêm algumas nações europeias.

Isto tudo é bastante sombrio. Estamos a observar isto com atenção e estamos conscientes de que algumas classes políticas ocidentais ou classes dominantes estão hoje tão desesperadas que instigam guerras para esconder a sua incompetência e/ou crimes.

OS ALVOS FÁCEIS DO OCIDENTE

Muitos notaram claramente a falta de interesse da Alemanha e da UE em investigar a destruição dos gasodutos Nord Stream… Depois vieram os “Taurus Leaks”, nos quais oficiais militares alemães puderam ser ouvidos  pela primeira vez discutindo ataques na Crimeia com o Forças Armadas dos Estados Unidos. oficiais  , quatro meses antes de Scholz e Pistorius tomarem conhecimento desses planos.

Recentemente, a Suécia e a Finlândia renunciaram à sua neutralidade estatal e acolhem agora bases da NATO no seu território, o que, segundo eles, lhes proporcionará mais segurança. O que você acha que está por trás desse comportamento? Por que se permitem tornar-se os primeiros alvos de uma guerra quente contra a Rússia? Porque é que estas pessoas estão a sacrificar os seus próprios países ao estado profundo americano? A quem eles realmente servem? A sua lealdade é a outra entidade e não ao seu próprio país?

Na verdade, o nível de inteligência e o sentido de responsabilidade da maioria das classes dominantes – particularmente na Europa – deterioraram-se seriamente. Os Estados Unidos – que neste caso quase tenho de aplaudir – criaram uma imensa classe compradora na Europa… uma classe que tem muito mais no coração os interesses dos Estados Unidos e as ordens que lhe dão do que os interesses dos seus próprios países. e povos.

O estado profundo americano não está apenas ancorado nos Estados Unidos… há também uma extensão na Europa. É constituída pelo que poderíamos chamar de “a classe imperialista liberal global” que visa servir “interesses comuns”. Mas os europeus são ainda piores do que os americanos, porque sacrificam abertamente os interesses das suas nações. Eles são claramente traidores da sua pátria... E é por isso que encobriram crimes como provocar a guerra na Ucrânia, a explosão do Nord Stream... é por isso que estão até dispostos a arriscar o fornecimento de armas de longo alcance à Ucrânia. . (Curiosamente, os Americanos não fornecem abertamente armas de longo alcance, porque entendem que isso poderia levar a uma escalada, mesmo nuclear.) Portanto, os Americanos estão simplesmente a sacrificar os Europeus. Eles já estão a usar a Ucrânia como bucha de canhão… e parece que estão a preparar-se para usar os seus aliados europeus também como bucha de canhão.

Observamos estes desenvolvimentos com grande preocupação e estamos conscientes de que, infelizmente, não temos praticamente parceiros razoáveis ​​na Europa. Estamos, portanto, nos preparando para o pior cenário possível. No entanto, esperamos que, ao intensificar a nossa prática de dissuasão nuclear, possamos acalmar algumas pessoas na Europa e nos Estados Unidos. Se isto não for bem sucedido, as numerosas crises que assolam o mundo acabarão por se transformar numa Terceira Guerra Mundial.

CRISES GLOBAIS EMERGENTES

Estas crises globais emergentes são o resultado de mudanças tectónicas na actual ordem mundial, baseadas principalmente na dominação de quinhentos anos do Ocidente, em grande parte baseada na sua superioridade militar. A pólvora e os canhões foram inventados na China. Mas os europeus, constantemente em guerra, aproveitaram-no melhor e tiveram um melhor sistema de organização do seu exército. Com base nisso, começaram a colonizar o resto do mundo, suprimindo e até destruindo certas civilizações (astecas, incas), primeiro extraindo renda colonial, depois neocolonial. Mas essa base começou a ser abalada pela antiga União Soviética, quando alcançou a paridade nuclear, e agora por uma Rússia ressuscitada. A convulsão de todo este sistema deu origem a inúmeras crises e conflitos. Mas, acima de tudo, ajudou a libertar “o resto”, “o Sul global” ou, melhor, “a maioria global”.

Agora a questão não é apenas como parar o Ocidente, mas também como parar as ondas crescentes de conflitos militares em todo o mundo. Ao abordarmos os nossos principais interesses de segurança, libertámos simultaneamente o resto do mundo do domínio ocidental e minámos a sua capacidade de desviar riqueza de outros países.

O Ocidente está agora num estado de desespero. Para incutir-lhes algum bom senso, precisamos de restaurar o “medo saudável”, isto é, restaurar a validade da dissuasão nuclear. Infelizmente, não vejo outra solução neste momento. Porque muitas pessoas, especialmente no Ocidente, parecem ter perdido a cabeça e o sentido de responsabilidade. 

O GENOCÍDIO EM CURSO...

Hoje, o genocídio bárbaro que “Israel” – como outra potência colonialista ocidental – está a levar a cabo contra os palestinianos continua inabalável. O sofrimento da população civil palestiniana é inconcebível e o resto do mundo continua a observá-lo. O que está a “comunidade internacional” a fazer – para acabar com os massacres perpetrados por “Israel” e a destruição da pátria palestiniana… e para fazer com que os Estados Unidos e a União Europeia parem de apoiar “Israel”? E… diria que o genocídio na Palestina (juntamente com os ataques militares em curso na Síria) e a guerra na Ucrânia são essencialmente parte de uma “Grande Guerra” contra as nações soberanas da maioria mundial que se recusam a tornar-se vassalos do Hegemon? ?

No actual “sistema global”, a “comunidade internacional” fará muito pouco para ajudar os palestinianos.

Vejo todo o conflito palestiniano como um elo numa cadeia de conflitos desencadeada por mudanças tectónicas de poder no sistema actual e pelas tentativas desesperadas do Ocidente para manter o seu domínio. É claro que os Estados Unidos – embora se retirem externamente dos muitos países e territórios em todo o mundo que ocuparam e dominaram – estão secretamente a causar instabilidade nesses territórios, a fim de criar problemas aos seus futuros líderes. E a maioria desses territórios fica na Eurásia.

Devo dizer que nunca teria imaginado como os israelitas poderiam ter lançado esta guerra [contra a Palestina] sem o apoio aberto dos Estados Unidos. Para todos os efeitos, parece que alguns setores nos Estados Unidos decidiram iniciar uma nova grande guerra no Médio Oriente para desestabilizar toda a região (de qualquer forma, os Estados Unidos já não dependem do petróleo e do gás do Médio Oriente). Leste, portanto, não tinham interesse em manter qualquer estabilidade ali).

O massacre em Gaza minou a legitimidade de Israel e não vejo como essa legitimidade poderia alguma vez ser restaurada. Parece que temos as sementes de uma nova grande guerra no Médio Oriente e de uma nova tragédia – também para o povo judeu, que também está a ser sacrificado pela estupidez e arrogância dos líderes israelitas. Não entendo os políticos israelenses. Obviamente perderam a cabeça… tal como a classe política europeia. E os palestinos continuam a ser massacrados por causa deste programa.

Para além da utilização da ameaça nuclear como meio de dissuasão... e considerando que as "instituições globais" como a ONU e o Tribunal Internacional de Justiça são ineficazes para impedir guerras e genocídios, e que são - poder-se-ia dizer - essencialmente nas mãos das elites ocidentais… não poderíamos conceber uma medida dissuasora adicional – como uma “Aliança de Resistência” global, actuando como uma “frente” activa contra o poder unipolar?

A maioria global é potencialmente muito mais poderosa do que o antigo Movimento Não-Alinhado e está, naturalmente, a tornar-se um factor muito mais importante na política internacional. Um novo sistema irá emergir nas próximas décadas – isto é, se sobrevivermos a este período de crises e guerras… e se pudermos evitar uma Terceira Guerra Mundial, que seria provavelmente a última guerra… e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar isto.

Não vejo qualquer possibilidade de criar o que poderia ser chamado de "Aliança de Resistência" num futuro próximo... no entanto, uma Comunidade de nações livres - "livres" no sentido de serem capazes de viver e trabalhar de acordo com os seus interesses nacionais - seria uma contribuição importante para a paz mundial. Mas para alcançar um futuro mundo de nações livres, para criar mais segurança e reduzir potenciais tensões, precisaremos de reintroduzir “bloqueios de segurança” no sistema internacional.

De momento, existe apenas um “bloqueio de segurança”: a dissuasão nuclear. Precisamos também de construir um novo sistema institucional paralelamente ao sistema existente que está em colapso. A ONU pode continuar a existir, mas obviamente não pode voltar a ser eficaz, porque o seu secretariado é dominado por funcionários orientados para o Ocidente. Deveríamos, portanto, construir um sistema institucional inteiramente novo baseado no BRICS+, SCO+ e outras instituições semelhantes.

Na verdade…precisamos de um novo conjunto de instituições que não sejam dominadas pelo Ocidente, cujo poder está em declínio e cuja autoridade moral desapareceu, porque falhou em todos os sentidos – política, económica e acima de tudo eticamente – depois de desencadear incontáveis ​​actos brutais. de violência. agressão quando teve a oportunidade de ditar o destino da comunidade mundial. Esta era do “momento unipolar” atingiu o seu auge na década de 1990 e no início de 2000.

As potências ocidentais mostraram o que valem. Eles agora devem ser deixados de lado. Temos de construir um sistema paralelo de governação global – um sistema que seja mais justo e mais eficaz. Precisamos de um novo Tribunal Internacional de Justiça, de instituições que ajudem a reduzir a fome no mundo e de instituições que trabalhem para melhorar a saúde global (durante a pandemia de Covid vimos como as nações ocidentais, que praticamente controlavam as instituições globais, não conseguiram lidar com a situação). enfrentar este desafio de forma adequada e adequada).

COLONIALISMO VERSUS INTERNACIONALISMO

A Rússia czarista era uma potência colonial e estava em competição feroz com os estados coloniais da Europa Ocidental, particularmente o Império Britânico. Como o colonialismo russo czarista diferia, digamos, do colonialismo britânico?

Sim, em muitos aspectos a Rússia czarista era uma potência colonial, mas era muito diferente das potências coloniais ocidentais. Quando os russos avançaram para leste e sul, conquistando e desenvolvendo a Sibéria, não recorreram a meios genocidas. Como os russos se misturaram com as elites locais, houve um grande número de casamentos interétnicos, de modo que os russos não eram colonialistas nos moldes ocidentais. Os czares até convidaram as elites locais para se juntarem à nobreza russa. Parece que quase duplicámos o número de príncipes que tínhamos quando incorporámos a Geórgia, cuja nobreza afirmava ser príncipe. Metade da nobreza russa era etnicamente não-russa. A Rússia absorveu as culturas dos povos colonizados em vez de suprimi-las. O racismo é quase completamente estranho aos russos.

Embora a Rússia tenha beneficiado naturalmente da riqueza dos países vizinhos, na maioria dos casos subsidiou-os... e este foi particularmente o caso durante a era soviética, quando a Rússia era o principal fornecedor de riqueza. Acredito que todas as repúblicas da antiga União Soviética, exceto uma, foram fortemente subsidiadas.

Somos, portanto, uma potência colonial apenas no nome. Em muitos aspectos, a Rússia metropolitana era uma colónia dos seus subúrbios. Depois, devido à sua necessidade de segurança, a Rússia expandiu-se, mas em muitos casos pagou um preço económico por esta expansão. Por exemplo, após a Segunda Guerra Mundial, a Ucrânia foi reconstruída antes de áreas da Rússia propriamente dita que tinham sofrido com a ocupação nazi. Podemos também constatar com certo orgulho que a maior parte das civilizações dos povos nórdicos da Sibéria persistiram até aos dias de hoje (ao contrário destes territórios usurpados nos Estados Unidos ou noutros lugares). Algumas das suas populações até aumentaram, por exemplo em Yakutia. Estudiosos russos e, especialmente, soviéticos criaram línguas escritas para esses povos e, claro, trouxeram a educação com eles. As línguas escritas das regiões bálticas, hoje estados, foram desenvolvidas em São Petersburgo no final do século XIX.

A Rússia não era, portanto, “colonialista” no sentido tradicional do termo. Em última análise, tratava-se da criação de um Estado comum em que as elites locais e as populações locais – que não eram de etnia russa – pudessem desempenhar um papel igual, e por vezes até mais importante e privilegiado, do que os próprios russos étnicos. É também uma consequência da nossa história... Fomos colonizados pelo império de Genghis Khan, mas os mongóis não nos impuseram a sua cultura, a sua língua ou as suas crenças. Nossa expansão imitou mais ou menos esse tipo de expansão. Portanto, não descreveria a nossa expansão como “colonialista”, mas sim “internacionalista”.

E, claro, a nossa expansão trouxe-nos recursos, especialmente da Sibéria. Primeiro foram as peles, o que chamamos de “ouro macio”, depois todos os tipos de pedras preciosas, prata, ouro, depois petróleo, gás. E agora a Sibéria é o celeiro da Rússia, a base do nosso futuro. A Sibéria fornecerá à Rússia e à Eurásia alimentos, água e recursos naturais durante décadas, senão séculos.

IMPÉRIOS VERSUS CIVILIZAÇÕES

Alguns defensores de um futuro mundo multipolar falam em reunir regiões geográficas do mundo em “impérios”… Qual seria então a posição da Rússia? A noção de “construir vários impérios” não representaria um problema num mundo multipolar?

É muito cedo para falar em impérios futuros, mas um império – além de ter sido por vezes um território de poder que reprimiu outros povos – foi também por vezes uma área que proporcionou segurança e bem-estar a muitos povos.

Não tenho certeza se veremos um mundo com vários impérios importantes. Acredito que já ultrapassamos esse período da história. Se falarmos da Rússia, será um dos centros culturais, políticos, económicos e militares do mundo. Será uma “civilização de civilizações” abrangendo muitos grupos étnicos… uma civilização eurasiana aberta a outros.

Pessoalmente, não gostaria que a Rússia se tornasse novamente um vasto império, porque a forma russa de construir um império foi, em última análise, à custa dos próprios russos. Os seus objectivos podem ter sido nobres, mas tiveram um custo demasiado elevado para o povo russo. Prefiro ver-nos como uma civilização de civilizações: respeitando os outros, aprendendo com as experiências de todas as nações... um guardião político-militar que garante a liberdade de outras nações escolherem o seu próprio caminho. Libertar o mundo da hegemonia é, em última análise, o nosso destino manifesto.

OLHANDO PARA O ORIENTE E PARA A MAIORIA MUNDIAL

A Rússia é a anfitriã do BRICS+ este ano… A Rússia também organizou e acolheu recentemente a Conferência Multipolaridade, o Festival Internacional da Juventude e muitos outros eventos para reunir a maioria mundial… O que poderia a Rússia aprender com a Ásia? África? América latina? E o que estas regiões poderiam aprender com a Rússia?

Aprendemos uns com os outros. Os russos têm a particularidade de ser uma nação culturalmente aberta. Esta abertura cultural é na verdade a própria essência de ser “russo”. Nascemos como uma “nação de nações”. Somos conhecidos como uma civilização estatal. Mas, mais uma vez, eu chamar-nos-ia “uma civilização de civilizações”. Ao longo dos séculos do nosso desenvolvimento, acolhemos muitas civilizações e somos, quase por definição, internacionalistas. É claro que temos racistas e chauvinistas na Rússia. Mas, no geral, os russos são excepcionalmente internacionalistas. Estamos, portanto, mais bem preparados do que a maioria para enfrentar o mundo multipolar, multicultural e multirracial de amanhã. Devemos aprender uns com os outros a viver em paz, respeitar e apoiar as culturas uns dos outros, desenvolver a nossa própria cultura e promovê-la em todo o mundo. Mas acima de tudo, devemos respeitar o carácter único de cada povo e promover um enriquecimento intercultural positivo.

Estou muito optimista em relação ao mundo que está por vir, se conseguirmos evitar uma Terceira Guerra Mundial. Mas esta é a nossa tarefa comum.

* * *

*Sergey Aleksandrovich Karaganov

Biografia detalhada:  https://karaganov.ru/en/

Especialização: Políticas externas e de defesa soviética/russa, aspectos económicos e de segurança da interacção russo-europeia, pivô russo para o Oriente.

Autor e editor de 28 livros e panfletos, publicou cerca de 600 artigos sobre política externa econômica, controle de armas, estratégia de segurança nacional, política externa e de defesa da Rússia. Artigos e livros foram publicados em mais de 50 países.

Presidente do conselho editorial e editor da revista “Russia in Global Affairs”. As opiniões mencionadas neste artigo não refletem necessariamente a opinião de Al Mayadeen, mas expressam exclusivamente a opinião do seu autor.

Publicada por Pena Preta à(s) sábado, maio 11, 2024 

https://foicebook.blogspot.com/2024/05/entrevista-de-karaganov.html

sábado, 11 de maio de 2024

António Guerreiro - O jornalismo em extinção


Protesto de jornalistas do grupo português Global Media NUNO FERREIRA SANTOS

Crónica Acção Paralela 


“Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.


* António Guerreiro

10 de Maio de 2024
 

A palavra “extinção” começa a aparecer com alguma frequência em artigos sobre a crise – em boa verdade, uma devastação – que atinge actualmente os jornais e o jornalismo.

Encontrámo-la recentemente nos títulos de dois diagnósticos desta situação nos Estados Unidos: um, publicado no final de Janeiro na revista Atlantic, assinado por Paul Farhi, que foi um importante repórter do Washington Post; outro, no mês seguinte, da autoria de Clare Malone, na The New Yorker.

Usando um acento catastrófico que uma prudente interrogação não consegue relativizar, ambos evocam a extinção como um horizonte plausível. O primeiro pergunta: “Is American Journalism Headed Toward an ‘Extinction-Level Event?’”; a segunda insiste quase com os mesmos termos: “Is the Media
 Prepared for an Extinction-Level Event?”. Não é ainda um requiem, mas está próximo.

O que se passa nos Estados Unidos, neste domínio, não é certamente muito diferente do que se passa na Europa, só que talvez num grau mais elevado e com algum avanço no tempo. O horizonte é o mesmo.

O que ficamos então a saber acerca do estado de coisas nos Estados Unidos, informados por estes e outros artigos sobre o mesmo assunto? Ficamos a saber que a hemorragia mais forte é a da imprensa regional: em média, todas as semanas morrem duas publicações e meia (jornais diários, semanários, mensais).

Num país tão extenso como os Estados Unidos, os jornais regionais tiveram sempre um papel importantíssimo e foram um factor fundamental dos equilíbrios democráticos e da vida cultural e comunitária. Quando esse espaço é ocupado pelas redes sociais, ficam à solta as teorias do complot, as fake news, os conteúdos gerados pela inteligência artificial que multiplicam a desinformação, o caos, o convite à passagem aos actos de violência. O ambiente de radicalização e pré-guerra civil que se vive nos Estados Unidos faz parte deste panorama que promove e alimenta a divisão e os extremismos.

Há uma pergunta que começa a ser posta e que leva a pensar os caminhos que estão a tomar as tradicionais democracias liberais: “Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.

Alguns números fornecidos nos artigos citados: em 2023 foram eliminados nos Estados Unidos 21.400 postos de trabalho nos media tradicionais. Grandes jornais como o Los Angeles Times (que despediu mais de 20% da sua redacção) e o Washington Post não foram poupados. Este último teve no ano passado um défice de cem milhões de dólares. No entanto, tinha sido um dos que mais prosperou durante a presidência de Donald Trump. Como é sabido, o “espectáculo” Trump proporcionou aos jornais um festim permanente que lhes valeu um grande aumento de leitores.

O declínio dos meios de comunicação tradicionais já suscita esta pergunta formulada pela autora do artigo da New Yorker: “Estamos a assistir ao fim da era dos meios de comunicação de massa?”. Este declínio já começou há décadas, mas foi acelerado pela Internet, pela digitalização generalizada, pelas plataformas. As receitas publicitárias que garantiam o negócio dos jornais passaram a fluir na direcção de colossos como a Google. Quando deixa de ser possível sustentar o jornalismo como um negócio, muitas publicações usam um pseudojornalismo como operação de fachada para outros negócios e entram numa zona obscura.

De todas as “grandes regressões” que se deram desde o início deste século, esta é uma das mais velozes e contundentes. O seu efeito político é bem visível, no avanço de factores que levam à degradação do espaço público, ao enorme teor de conflito social e político, ao empobrecimento cultural. As noções de pós-verdade e pós-democracia assentam nestes terrenos onde vacila tudo o que dantes parecia seguro.

E assim estão criadas as condições para promover um mundo em que já nem serve a distinção entre o verdadeiro e o falso, nem faz apelo a uma ideologia dotada de uma coerência sistemática, como acontecia nos regimes totalitários do século XX. A mentira ideológica e a propaganda eram ainda uma peça da engrenagem da política moderna. Aquilo a que hoje se chama pós-verdade tem que ver com a hegemonia das novas fontes de informação e dos meios de produção e circulação de notícias, dados e visões do mundo que apelam à divisão e à violência, subtraindo-se a qualquer controlo editorial.

Perante isto, o jornalismo está a revelar-se tanto mais impotente quanto está obrigado a investir a sua energia na luta pela própria sobrevivência.

Livros de recitações


“Sempre achei que pedir desculpa é uma solução fácil”
Marcelo Rebelo de Sousa, referindo-se a um dos gestos de “reparação”

Da saúde mental do Presidente ou, pelo menos, da sua “irresponsabilidade”, a merecer que seja colocado sob condição de tutela, já muito se falou na última semana. E foram sobretudo os que faziam parte das suas hostes que lançaram as repreensões mais fortes. Mas, ao manifestar a sua reserva em relação ao “pedido de desculpa”, Marcelo bem intuiu que se trata de um gesto problemático. O pedido de desculpa parte de um pressuposto que, se não se cumprir, implica uma declaração de guerra: um país soberano que pede desculpa a outro coloca-o sob chantagem. Se este não aceita, se responde com o argumento do “imprescritível”, tal pedido desencadeia uma situação de hostilidade, também ela irreparável. E, no entanto, nenhum verdadeiro pedido de desculpa pode ter um carácter impositivo e não admitir resposta negativa, sob pena de acrescentar um outro dano àqueles que pretende reparar.


https://www.publico.pt/2024/05/10/culturaipsilon/cronica/jornalismo-extincao-2089557 

Viriato Soromenho-Marques - A batalha pela verdade factual

* Viriato Soromenho-Marques 

(Diário de Notícias 11 maio 2024)

Quando em 1968 as forças do Vietname do Norte e da guerrilha Vietcongue iniciaram a sua poderosa Ofensiva do Tet, contra as tropas de Saigão e dos EUA, tinha eu acabado de completar 10 anos.

Lembro-me, vivamente, de como, apesar da censura, o trabalho dos repórteres ocidentais revelava cruamente, em imagens ainda hoje icónicas (como a da execução, à queima-roupa, de um prisioneiro comunista), a brutalidade da guerra. Nos lares de meio mundo, era possível ver as baixas e o sofrimento dos militares vindos das grandes cidades e do recôndito rural dos EUA. Nessa altura, a expressão “quarto poder” não era um exagero retórico, como o Caso Watergate o voltaria a provar em 1972. Contudo, os poderes que contam - o dinheiro e o seu braço político - aprenderam a prevenir, com mais ou menos sofisticação, essa liberdade capaz de manifestar a exuberância nua dos factos.

Sem o poder da imprensa livre, a Guerra do Vietname teria continuado e Nixon completaria tranquilamente o seu mandato.

Pouco antes da Ofensiva do Tet, a filósofa Hannah Arendt publicou na revista New Yorker um presciente ensaio intitulado Verdade e Política. Arendt salienta que o poder político tem uma incompatibilidade radical com a mais elementar manifestação da verdade, aquela que se limita a relatar e situar os acontecimentos nas coordenadas do espaço e do tempo: a verdade factual. A filósofa identifica até um conjunto de profissões e papéis sociais cuja essência consiste em testemunhar e defender a objetividade factual, correndo os seus praticantes o risco de ficarem sozinhos, ocupando “um ponto de vista fora do campo político”. O filósofo, o cientista, o artista, o historiador imparcial, o juiz, a testemunha e o repórter são, para ela, protagonistas de diferentes formas de dizer e defender a verdade factual.

Os factos suscitam opiniões e interpretações, mas não se confundem com elas. O conteúdo absoluto e único dos factos, é, contudo, muito frágil. Depende de validação, como ocorre nas testemunhas oculares de um crime chamadas a tribunal. Um exemplo: podem existir várias e contraditórias interpretações sobre as causas da I Guerra Mundial, mas nenhum revisionismo histórico pode anular a verdade factual absoluta de que a 4 de agosto de 1914, foi a Alemanha que invadiu a Bélgica e não o contrário.

A verdade factual está hoje em perigo por toda a parte. As democracias liberais, em recuo, cada vez mais subordinadas a interesses financeiros globais, não escapam à vontade de selecionar apenas os “factos” que satisfaçam as interpretações convenientes. A precariedade crescente da comunicação social torna-a mais vulnerável e menos independente. O assassinato deliberado de jornalistas em Gaza, pelo Exército israelita, mostra como até democracias podem ultrapassar a rudeza das autocracias.Em contracorrente, o jornalista Bruno Amaral de Carvalho publicou um livro singular: A Guerra a Leste. 8 Meses no Donbass, Caminho. Ele ousou mostrar as vozes e os rostos, as vítimas, as pessoas de carne e osso, do outro lado da Guerra da Ucrânia. Começou a conhecer o Donbass, em 2018, quando o ataque do Governo de Kiev à sua população a leste, silenciado no Ocidente, provocava a fuga de refugiados para a Rússia. A invasão de 2022 tem atrás de si uma série causal que só os factos ajudam a compreender. São um sinal de esperança, os verdadeiros repórteres que preferem arriscar testemunhar os factos, recusando serem meros repetidores de interpretações prontas a usar.

https://www.dn.pt/6555146601/a-batalha-pela-verdade-factual/


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Bruno Carvalho: «Há situações em que não podemos ser meros espectadores»



 * João Manso Pinheiro    

 08.May.24    

Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.

Em menos de um mês, A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, do jornalista Bruno Amaral de Carvalho, já está a preparar a terceira edição. O AbrilAbril conversou com o autor sobre a sua experiência numa guerra fora dos holofotes.

A um mundo de distância (e, para nós, o Donbass está mesmo num outro mundo), torna-se difícil acreditar que no meio daquela massa anónima existam mesmo pessoas. Que por ali andem criaturas dotadas com as suas próprias vontades, gostos, idiossincrasias engraçadas (para os outros). Que sejam, no fundo, como nós.

No Donbass estão os outros. Não lhes sabemos os nomes, não lhes é conhecida opinião ou vontade. Limitam-se a ser. Uns tantos mil que sobrevivem numa pequena cidade devastada por prolongadas batalhas, outros tantas centenas a combater em batalhões separatistas. Uma, duas, três, dez crianças que morrem na leva diária de bombardeamentos contra populações que vivem em terras com nomes que tão dificilmente sabemos pronunciar.

Este apagamento, de entre os vários motivos que levaram as redacções ocidentais a recusar-se a cobrir o que se passava no Donbass durante «o maior acontecimento geopolítico do pós-guerra fria», será talvez o mais flagrantemente antideontológico. Sem jornalismo e com a censura de órgãos de comunicação social «do outro lado», aquela gente é reduzida a coisa nenhuma. Não existem. Sem semblante de humanidade, é fácil odiarmos os nossos “inimigos” (ou pior: “os maus”).
Longe da vista, longe do coração.

Em A Guerra a Leste: 8 Meses no Donbass, publicado pela Caminho, o jornalista Bruno Carvalho furou a redoma que o Ocidente colocou sobre toda esta região. O livro é tanto sobre o autor como sobre estes outros apagados: tradutores, colegas de profissão, condutores e, acima de tudo, os que vivem e lutam pelo Donbass.

Conhecemo-los agora pelo nome: Luís Castañeda, colombiano, que veio estudar para Donetsk nos anos 80 e nunca mais voltou. Ekaterina, de Odessa, que em 2014 presenciou o massacre na casa sindical da cidade. Alexander, de 59 anos, antigo mineiro que sabe, hoje, distinguir artilharia pelo som. A família de Dima, que com a mulher e os quatro filhos viveu mais de um mês numa cave em Mariupol ou o soldado benfiquista que, em terras lusas, trabalhou na construção civil e hoje vigia estradas.

O Donbass está condenado a ser um «lugar errado»?


O que define um «lugar errado» não é a sua geografia. É o seu enquadramento político no contexto mundial. Há não muito tempo, o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, dizia que a Europa é um jardim e, em contraposição, o resto do mundo uma selva. Imediatamente, veio-me à memória as imagens de seres humanos, africanos, expostos numa feira belga em 1958 como se fossem animais num jardim zoológico.

A herança colonial europeia está viva nas relações do Ocidente com os países do chamado Sul Global e não espanta que haja uma aproximação cada vez maior desses Estados com potências como a China, a Rússia, o Irão ou o Brasil. Quando alguém não nos trata como iguais, procuramos quem nos trate com dignidade e respeito. Nesse sentido, a imprensa hegemónica, alinhada com o poder, define quais são os lugares e quem são os líderes errados. Os talibans já foram os bons e agora são os maus. O Donbass continuará a ser um lugar «errado» enquanto não estiver debaixo do controlo de Kiev ou de qualquer outro aliado dos Estados Unidos e da União Europeia.

N’A Guerra a Leste, vários cidadãos das repúblicas de Donetsk e Lugansk (assim como a refugiados de diversas partes da Ucrânia) assumem uma posição separatista e, noutros casos, favorável à intervenção russa. É uma oportunidade de ver uma perspectiva praticamente inédita no panorama mediático europeu. Também havia, no Donbass, quem defendesse o outro lado? Seja a posição ucraniana ou simplesmente contra a adesão à Federação Russa?

Evidentemente, há gente que defende a manutenção do Donbass na Ucrânia ou a independência dessas repúblicas. Contudo, parecem-me opções minoritárias. Há também quem recorde com nostalgia a União Soviética. Antes da guerra, talvez houvesse espaço para um modelo confederal como tem a Suíça ou para um modelo de regiões com uma autonomia alargada. Os Acordos de Minsk previam essa possibilidade e eu acrescentava que podia ter sido adoptada uma solução como aquela encontrada no âmbito do Acordo de Dayton que criou duas entidades territoriais dentro da Bósnia, uma para a comunidade bósnia e outra para a comunidade sérvia.

Julgo que as opções eram muitas se houvesse vontade política dos actores em confronto, mas queria sublinhar a importância de se ouvir o que as populações têm a dizer. Não há nada mais democrático do que resolver este conflito auscultando-as e tomando decisões que respeitem essas escolhas.

O que aconteceu aos comunistas desta região? Apontas como, na última vez em que participaram em eleições (2013, foram banidos a seguir a 2014), tiveram cerca de 30% dos votos em algumas zonas do Donbass

Os comunistas eram uma força imprescindível desde o fim da União Soviética no Leste da Ucrânia. Sobretudo porque transportavam consigo essa herança histórica. Com a sublevação das regiões do Donbass em 2014, os comunistas foram importantes no processo de criação das autoproclamadas repúblicas.

Contudo, o contexto de guerra e a influência de Moscovo favoreceram a existência de governos quase de unidade nacional com um papel diminuído das forças comunistas. Mantêm a sua intervenção política num ambiente muito complexo, onde a maioria dos homens se encontra a combater. Lembro-me de estar em Donetsk no 1.º de Maio de 2022 e de haver uma manifestação, organizada pelo Partido Comunista, composta por mulheres e homens sem idade para participarem na guerra. Nas últimas eleições presidenciais, como aconteceu em praticamente toda a Rússia, os candidatos apoiados por Vladimir Putin arrasaram, incluindo no Donbass. Há muitas explicações para este facto. Uma delas é que ninguém quer mudar de presidente a meio de uma guerra e a outra é que há de facto muita gente que defende a intervenção russa no Donbass.

O apoio à intervenção da Rússia pode ser entendida como um apoio ao regime de Putin ou é um caso de interesses confluentes? Os separatistas garantem a independência e os grandes poderes económicos russos ganham acesso àquela que era a região mais industrializada da Ucrânia

Recordemos que os comunistas russos já tiveram diversos choques com as autoridades russas. Para além das questões económicas, houve militantes comunistas detidos em manifestações. A forma de regime também é questionada no sentido em que os comunistas russos, aos quais se juntaram os comunistas de Donetsk e Lugansk, defendem um regresso ao modelo soviético.

Há, certamente, contradições entre as forças que apoiam a intervenção militar e diferentes visões sobre como o conflito deve ser resolvido. Independentemente de estarmos de acordo ou não, a questão central apresentada pelos comunistas russos é a da necessidade de derrota do fascismo na Ucrânia e, naturalmente, a ilegalização dos comunistas ucranianos, e agora de praticamente toda a oposição, tem peso nessa análise.

Dos comunistas do Donbass com quem contactaste, qual era a posição deles em relação à Rússia de Putin (abstraindo-nos, um pouco, sobre toda a questão da invasão militar)

Vladimir Putin defende uma economia de mercado com alguma intervenção do Estado. Os comunistas defendem uma economia planificada. Há também visões distintas sobre como se deve organizar a sociedade.

Contudo, recordo que o presidente russo habilmente soube recuperar e valorizar a memória do passado soviético, sobretudo na preservação dos símbolos e dos monumentos, abdicando de confrontar uma história que é querida para uma parte substancial da população. Depois do desastre dos anos 90, com uma economia em colapso e com um presidente que abdicou da sua soberania, os russos parecem apostar na estabilidade económica e na preservação das suas fronteiras.

Dizes, a certo ponto, que não pertences a lado nenhum. É um contraste grande com a realidade no Donbass, onde tanto a população como alguns dos combatentes internacionais estão imersos numa luta de morte pelo direito a pertencer ao seu lugar

Mesmo que permaneça essa sensação de não pertencer a lado nenhum e ao mesmo tempo ser de todo o lado, ter um lugar donde se é também é um direito. Respeito muito a luta dos povos pela sua independência e autodeterminação e muitos desses combatentes estrangeiros acabaram por encontrar naquela luta e naquela terra o seu espaço. Foram recebidos de braços abertos por quem combatia e acabaram por obter a nacionalidade por parte das autoridades separatistas. Faz lembrar o título do enorme livro do jornalista Joseph North, Nenhum Homem é Estrangeiro [No Men Are Strangers, de 1958]

A luta que se trava no Donbass está muito longe de ser meramente uma disputa de territórios. Como mencionas n’A Guerra a Leste, há um confronto grande em termos de toponímia: Bakhmut mudou de nome para Artyomovsk em 1924, homenageando o revolucionário bolchevique Fyodor Sergeyev (Artyom). Voltou a mudar com a leis de descomunização de Poroshenko, em 2016. A recente conquista da cidade ditou a recuperação do nome soviético: Artyomovsk. No terreno, o confronto é muito ideológico?

Eu não diria que isso é sempre visível mas está presente. As tropas russas classificam o inimigo de fascista e essa é uma escolha que revela uma opção ideológica. Uma das consignas mais comuns no Donbass, mesmo que praticamente todos só saibam falar apenas russo, é «no pasarán», repetindo aquilo que aprenderam dos combatentes estrangeiros inspirados na guerra civil de Espanha.

Há bandeiras imperiais russas, bandeiras nacionalistas, bandeiras soviéticas, bandeiras religiosas. Do outro lado, nas minhas visitas às posições conquistadas às forças ucranianas encontrei simbologia neonazi em bandeiras, em murais, em autocolantes, também propaganda nacionalista. Há batalhões neonazis a combater pela Ucrânia que envergam todo o tipo de parafernália fascista. Aqui incluo estrangeiros, incluindo portugueses. Mas há ainda, sobretudo nas zonas mais mineiras e industriais, o culto do trabalho e do operariado, herança soviética.

Foi morto (poucos dias antes desta entrevista), o norte-americano «Texas», de Austin, nos EUA (que se juntou, após 2014, ao lado separatista) alegadamente por militares russos. Referes os encontros que tiveste com ele nesses oito meses. No final do livro destacas ainda a morte, em combate, do colombiano Alexis Castillo. O que estas pessoas procuraram no Donbass?

Tanto um como outro decidiram partir para o Donbass para combater o fascismo. As ondas do impacto do massacre de Odessa, na Casa dos Sindicatos, onde meia centena de manifestantes anti-Maidan morreu queimada, baleada e espancada, chegaram a todo o mundo.

O Alexis juntou-se às milícias separatistas inspirado pelas Brigadas Internacionais compostas por antifascistas de todo o mundo que combateram o franquismo nas trincheiras de Espanha em 1936. Foi contra a vontade do Partido Comunista dos Povos de Espanha, no qual militava na época. Aderiu posteriormente ao Partido Comunista de Donetsk.


O «Texas» tinha uma trajectória diferente. Talvez procurasse também a redenção pessoal. Esteve preso por posse de drogas, tinha servido no exército norte-americano. Depois contou-me que tinha encontrado o seu lugar. Era uma personagem muito peculiar. Houve outros tantos que caíram em combate. E na minha última viagem conheci um combatente brasileiro, que ascendeu a capitão do exército russo, de alcunha «MacGyver».

«Num jardim, em frente a uma escola, há várias sepulturas improvisadas. Numa das covas abertas, a espera de um cadáver, há uma placa: este lugar já está reservado». Há uma geração inteira de jovens e crianças que só conheceram a guerra, que dura já há 10 anos. Reparaste nalgum impacto desta realidade na juventude?

Quem tem agora 20 anos, tinha 10 quando a guerra começou. E se tem 20 anos, a não ser que esteja a estudar, está a combater na linha da frente. É uma absoluta falta de perspectiva de vida.

Conheço muitos que optaram por partir para a Rússia e começar a vida num lugar onde há alguma esperança. As aulas são à distância há cerca de dois anos, os órfãos foram transferidos para territórios seguros dentro da Rússia, as brincadeiras na rua são sempre limitadas.

Vi corpos de crianças em pedaços, famílias desfeitas. Da última vez, um só bombardeamento ucraniano atingiu uma casa no bairro de Petrovsky onde morreram três irmãos pequenos. A mãe já tinha perdido o marido na guerra e agora perdeu todos os filhos numa única noite. Ficou sem casa. É este o grau de barbárie.

Acompanhaste, primeiro, a destruição e, meses depois, o início do processo de reconstrução de Mariupol. Na tua primeira visita, quando chegaste perto de Azovstal, presenciaste o enterro de civis nos canteiros da cidade. Foi a tua experiência mais violenta nos oito meses no Donbass?

Foi a experiência mais intensa porque foram dias seguidos de combates comigo nas ruas a absorver tudo o que via. Nunca tinha estado num cenário deste tipo. Havia mortos enterrados em qualquer lado mas também havia mortos nas ruas, nas praias, dentro de edifícios. Depois acompanhei a trasladação de muitos desses cadáveres para cemitérios nos arredores. Mas diria que um dos dias mais duros foi em Donetsk quando um bombardeamento das forças ucranianas provocou a morte de mais de uma dezena de civis numa praça movimentada da cidade.

Ainda em Mariupol, relatas o momento em que mandaste uma mensagem a uma familiar de uma senhora na cidade, avisando-a de que a mesma estava viva. Estamos um pouco habituados, no Ocidente, a pensar nos jornalistas como fotógrafos da National Geographic, que não devem intervir com os sujeitos que observam.


«As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.»

Naturalmente, a guerra não pode ser um jardim zoológico. Há situações em que não podemos ser meros espectadores. E esta era uma delas. Fiz bem mais do que isso. Com outro camarada jornalista, salvámos a perna de uma mulher vítima de uma mina anti-terrestre colocada pelas forças ucranianas fazendo-lhe um garrote. Trata-se do mais elementar dever de ajudar o próximo em situações de desastre. Com isso não estava a tomar partido de ninguém ou a ajudar alguma das forças militares. Estava tão somente a ajudar civis.

«Éramos um pouco piratas». A certa altura, acabas por imprimir uns papeis a dizer PRESS e colas no material em segunda-mão que encontras. Este jornalismo improvisado, sem meios e agarrando as oportunidades à medida que vão surgindo (como fazes várias vezes ao longo dos teus oito meses de trabalho) consegue ir mais longe do que o jornalismo tradicional, que estaciona os repórteres em hotéis longe da frente?

Trata-se mais de vontade do que de capacidade. De facto, um jornalista de uma grande estação televisiva de um país como os Estados Unidos pode viajar num carro blindado com seguranças privados e toda uma equipa que o assessora na produção das reportagens. Mas, ainda assim, não havia nenhum daquele lado.

Com os nossos parcos recursos, apesar de haver naturalmente dinheiro envolvido porque não é barato arranjar um condutor, e é justo que assim seja porque aquela gente está a arriscar-se como nós, procurávamos estar onde estavam os acontecimentos. Éramos muito atrevidos, digamos assim. As minhas reportagens televisivas podiam não ser fartas em qualidade estética mas a vontade e o empenho em fazer o melhor jornalismo possível estavam lá.

Foi essa qualidade do Donbass, de lugar pária, que atraiu este «jornalista outsider»? Habituado a estar no outro lado, nos bairros de Caracas, em áreas controladas pelas FARC, juntos dos independentistas bascos e agora nas regiões separatistas da Ucrânia

Sem dúvida. Eu gosto de dar voz a quem não tem voz.

Oito meses no Donbass depois, ainda acreditas que «o Jornalismo deve servir para fazer do mundo um lugar melhor»?

Independentemente do estado actual do jornalismo, continuo a acreditar que deve servir para fazer do mundo um lugar melhor. Para morder os pés dos poderosos e denunciar injustiças. Para dar aos cidadãos toda a informação que precisam para construir as suas opiniões e posições em absoluta liberdade.

Fonte: https://www.odiario.info/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que/

https://www.abrilabril.pt/cultura/bruno-carvalho-ha-situacoes-em-que-nao-podemos-ser-meros-espectadores

João Reis Ribeiro - A Setúbal dos “bairros de folha"

quinta-feira, 9 de maio de 2024




São cerca de 70 fotografias que chocam. A preto e branco, revelam as zonas da sombra em que a vida acontecia. São bairros de barracas — não de casas — em que as paredes surgem desalinhadas e os telhados se formam de folhas de alumínio ou, por vezes, de telhas soltas, em que os interiores resultam de amontoados sem espaço, em que os caminhos são consequência da passagem e do trilhar dos pés, em que nos surpreendem rostos de crianças e de mulheres, espaços de onde os homens estão ausentes. São cerca de 70 fotografias que acompanharam um relatório feito pela Câmara de Setúbal no início da década de 1970 sobre a situação das barracas e da sua habitabilidade (ou falta dela) em cerca de vinte bairros de Setúbal, onde viviam 11 mil pessoas. São cerca de 70 fotografias que surgem legendadas pelas vivências e memórias de quem conheceu aqueles espaços, de quem neles viveu.


Outro mundo no mesmo lugar - A cidade das barracas é o título do livro organizado por Vanessa Iglésias Amorim, Jaime Pinho, Alberto Lopes e Lia Antunes (Centro de Estudos Bocageanos, 2024), obra que parte do relatório já referido e das fotografias que o acompanhavam, comentadas pelos testemunhos de vários entrevistados, para mostrar o estado da habitação nos bairros de folha em Setúbal em 1974. “Bairros de folha”, designação utilizada devido, como refere Vanessa Amorim, “à frequente utilização dos excedentes da folha de flandres da indústria conserveira e/ou ao uso de latas grandes de conserva desmanchadas para vedar as paredes”. “Bairros de folha”, assim retratados num comunicado da Comissão Administrativa da Câmara de Setúbal publicado em “O Setubalense”, em 21 de Junho de 1974: “Visitámos os bairros pobres da cidade de Setúbal. Porque já conhecíamos o problema, a situação que nele encontrámos correspondeu às nossas previsões: um imenso formigueiro humano vivendo no meio do estrume e dejectos, situação que nos faz recuar, em pleno século XX, à Idade Média.”


Os números apurados impressionam — segundo Lia Antunes, em 1947, haveria em Setúbal 23 bairros de lata, constituídos por 1320 barracas onde viviam 5049 pessoas, números que, em 1970, já se tinham alterado: 2254 barracas para 11022 habitantes, cada uma com cerca de 15 metros quadrados de área média, espaço em que viviam, em média, quase cinco pessoas. O relatório produzido por 1970, sustentado em inquérito promovido pela autarquia, encontrou uma metáfora deprimente para estes bairros, “abcessos da cidade”, imagem segregadora, muito mais preocupada com a necessidade de os fazer desaparecer do que com a urgência na resolução do problema de habitação.


O leitor passa pelas fotografias, que constituem a maior parte do livro, e não pode ficar indiferente, sobretudo se deixar que o seu olhar seja acompanhado pelas legendas testemunhais ­— “Olha, antes de ir pró trabalho tinha de ir carregar água - porque não havia água em casa, era o depósito. Às 4 da manhã, 5 da manhã, levantar pra ir à água... Era agarrar do balde do lixo e mandar para os buracos que lá havia.” “Em certos bairros havia barracas em que a água passava por dentro da casa das pessoas. Era ratazanas e toda a bicharada.” “O bairro de barracas tinha um corredorzinho muito pequenino para passar! Não havia luz. Nem havia na rua, nem havia nas casas. Não havia electricidade. As pessoas, para não se perderem, associavam os sítios às mercearias, aos estabelecimentos.” “Ninguém tinha esgoto. As pessoas faziam as necessidades numas tigelas de barro, a gente chamava aquilo de ‘tigelas da merda’. Havia pessoas que durante a noite (os moços!) partiam aquilo e espalhavam tudo!” “Havia muitas ratazanas. À noite, a minha irmã estava no berço, era bebé, e a rata roeu o dedo da bebé.” Estes e outros depoimentos dizem muito mais do que aquilo que fica expresso...


Dos 22 bairros identificados, havia seis com número superior a uma centena de barracas — Casal das Figueiras (550), Monarquina (248), Alto do Pina (236), Maltalhado (208), Vale de Cerejeiras (193) e Montureiras (106). As razões para tais cenários são frequentemente apontadas como resultantes de uma aceleração de crescimento em termos populacionais devido à atracção exercida pelas indústrias como fonte de emprego, geradoras de mobilidade demográfica. A cidade não conseguiu dar resposta humana aos que chegaram, tornando-se patente que a política também não o fez. Hoje, calcorrear algumas zonas da cidade é vermos “outro mundo no mesmo lugar” onde o sofrimento construía o quotidiano, imagens que este livro lembra para que não se repitam.


* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1295, 2024-05-08, pg. 5.

 

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Carlos Coutinho - Termas e termos

 * Carlos Coutinho

QUANDO, naquele infausto inverno pós-africano, comecei a ver o serrilhado com que a Madeira cortava o azul celeste, apercebi-me de que havia muita neve lá em cima.

Depois, com a teimosia mansa do paquete “Moçambique”, dispensado de aportar na véspera em Las Palmas, comecei a ver nitidamente, na crista da ilha, de cor indefinida, uns risquitos esbranquiçados que se esgarçavam antes de atingirem o meio do lombo verde-negro daquela coisa atlântica.

Já era a famosa pátria do famoso grogue, mas ainda estava longe de ser de o ser também do cada vez mais famoso Cristiano Ronaldo, que até consegue sair de um estádio a chorar mas não tem uma estátua em Lisboa, assim como, ao que consta por aí, já havera um lugar cativo para ele no Panteão Nacional, além de vários bólides. Só lhe faltam os costados da ninha falecida e saudosa Carriça, a ilustre cabra que foi tantas vezes o cavalo da minha meninice.

Lembro-me perfeitamente de que essa era a segunda vez que eu aterrava na dureza de pedra do cais do Funchal e de que devo ter ficado um pouco zonzo, porque não percebi logo o que me diziam uns garotos descalços, que acotovelando-se e quase a caírem à água marítima, me garantiam:

– A minha mãe é muito bonita e está à tua espera. Anda comigo. Anda! Anda! Anda!

Um deles ainda acrescentou:

– Ela sabe fazer tudo. Vamos! Vamos! Vamos!

Claro que não fui. Alguns dos militares desmobilizados como eu, assim como dois ou três turistas que desembarcaram comigo, foram. E eu, durante muitos minutos, tal como agora, ao lembrar-me disto, sinto descer-me por dentro do peito aquele frio impuro da neve das cristas madeirenses.

E sei que, durante não poucos anos, ainda acorriam ao cais do Funchal meninos descalços a angariar clientes para as respetivas mães

 https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896/

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Carmo Afonso - Repitam: não existe uma relação entre imigração e criminalidade

 *Carmo Afonso  

Estão a transformar uma discussão sobre criminalidade violenta e racismo numa discussão sobre imigração.

Após os ataques contra imigrantes no Porto, temos assistido a várias declarações de titulares de cargos públicos que exigem uma reflexão. Reforço que todas as forças políticas condenaram os ataques, mas, como escrevi na última crónica, o Chega deu-lhe um contexto de justificação. Ventura falou na onda de “ataques, roubos e outros crimes” na Baixa do Porto, “muitas vezes cujos autores são imigrantes” e “num problema de imigração descontrolada em Portugal”. Também pôs em causa que tivessem motivação racial. Sem novidades. Era previsível que André Ventura fosse incapaz de condenar os ataques a imigrantes sem os desculpabilizar.

Mas não foi apenas Ventura que relacionou imigração com criminalidade. Esta ligação, que já tinha sido amplamente estabelecida por Pedro Passos Coelho na campanha eleitoral da AD, parece estar presente em força no espaço público.

Rui Moreira condenou os ataques e pediu a extinção da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) e sugeriu que a Assembleia da República investigasse esta agência nacional que “continua morta perante o aparente descontrolo dos fluxos migratórios”. Não se consegue perceber a relação entre os ataques racistas e a extinção da AIMA, mas há uma coisa que é clara: Rui Moreira considera que a imigração está descontrolada. O presidente da Câmara do Porto tinha criticado qualquer tentativa para justificar ou explicar os ataques. Mas deixou a semente do mal: caracterizou a imigração como estando descontrolada e apelou à extinção de uma agência que representa um passo em frente na forma como o país trata a imigração. Tenham presente que o extinto Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) deixou uma memória trágica pela atuação policial e repressiva. O que pretende Rui Moreira? Recuar naquilo que representou um avanço?

Também a procuradora-geral da República, Lucília Gago, afirmou esta semana que jovens “desenraizados” e “indocumentados” poderão, com alta probabilidade, vir a denotar necessidades educativas manifestadas na prática de factos criminalmente relevantes. Está aqui presente, outra vez, uma ligação entre imigração e criminalidade. Lucília Gago, sempre tão parca nas palavras em relação aos assuntos de que os portugueses lhe pedem explicações, achou que este era um bom momento para falar do tema “imigrantes”, para prever que os jovens imigrantes poderão vir a cometer crimes. Era tudo o que o país não precisava de ouvir.

Carlos Moedas também falou e para apoiar o que Rui Moreira tinha dito. Condenou os ataques no Porto, mas partiu daí para uma consideração superlativa: afirmou-se envergonhado por viver num país que deixou de ter uma política de imigração. Referiu também a necessidade de se saber quem são imigrantes de que o país precisa e que tipo de mão-de-obra. Pois é, encontramos aqui o mesmo veneno. Falo da incapacidade de condenar os ataques sem os relacionar com a imigração. Isto é muito grave.

O que se sabe dos ataques é que foram praticados por portugueses, que esses portugueses estão ligados a grupos de extrema-direita, com destaque para um dos suspeitos, que tem ligações ao grupo liderado pelo neonazi Mário Machado, o 1143. Sabe-se também que tiveram motivação racial. Nada disto tem que ver com imigração ou com políticas de imigração.

Podemos, e devemos, falar de racismo e de xenofobia e dos grandes responsáveis pelo aumento do discurso racista e xenófobo no espaço público. Mas porque haveríamos de falar de imigração? Estas pessoas estão a transformar uma discussão sobre criminalidade violenta e racismo numa discussão sobre imigração. Ao fazerem-no, estão a virar costas ao problema e ainda aproveitam para falar naquilo que de facto verdadeiramente as incomoda e preocupa: que entrem demasiados imigrantes.

No caso dos ataques racistas no Porto, os imigrantes foram as vítimas. Se discutimos a gravidade do que aconteceu, não podemos desviar o assunto para a situação das vítimas. Isto é sobre a gravidade dos atos dos agressores.

No caso dos ataques racistas no Porto, os imigrantes foram as vítimas

Não existe relação entre imigração e criminalidade, a menos que consideremos os crimes cometidos por elementos racistas da extrema-direita contra imigrantes. Dizer o contrário não é válido nem aceitável. Na verdade, é como dizer que existe uma relação entre o uso de saias curtas e o crime de violação. Mesmo que existisse, não seria o uso de minissaia que deveríamos discutir.


Público 2024 05 08

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

terça-feira, 7 de maio de 2024

Nuno Pinheiro - Uma questão de hinos

* Nuno Pinheiro

15 de janeiro 2023 - 16:34

Belicista, colonialista, decadentista, virado para o passado, o Hino tem um concentrado daquilo que Portugal já não é, ou já devia não ser. Podia (devia) ter sido mudado em 1974, quando Portugal se libertou (e libertou) das colónias.

Confesso que nunca me interessei muito pela música de Dino de Santiago, recentemente a sua presença na Festa do Avante e, sobretudo, as declarações que fez depois irritaram-me. Nada contra a Festa do Avante, fui a algumas, mas este era o ano para não ir.

Nos últimos dias tenho assistido a um enorme clamor contra o cantor, já que, nas comemorações dos 50 anos do expresso teria dito que o hino devia ser substituído, pois era belicista: “às armas, às armas”, “contra os canhões …”. Enfim, pôs o dedo numa ferida, o que justificou os apelos a que lhe fosse retirada a nacionalidade (não sei como, mas enfim …). Apesar das reações ultranacionalistas gerou-se um debate interessante.

Vamos ao centro da questão, ao Hino. Hino e Bandeira são os símbolos nacionais oficiais, e definidos na constituição. Enquanto símbolos representam o país numa determinada altura. Pode-se questionar se o hino (não se falou na bandeira, mas porquê esquecer) representa Portugal hoje, ou, por outras palavras, que país representam. Claro que há sempre quem ache que “a Pátria não se discute”, nem sequer os seus símbolos, que, ignorando a história, seriam imutáveis.

Tanto o hino como a bandeira foram oficializados com a implantação da república em 1910. Substituiu o “Hino da Carta”, vindo das revoluções liberais que, se hoje tinha aspetos pouco aceitáveis (Viva, Viva, Viva o Rei, Viva a Santa Religião) tinha outros mais interessantes:

“Venturosos nós seremos

Em perfeita união,

Tendo sempre em vista todos

Divinal Constituição”

Quando foi proclamada como hino, “A Portuguesa” já tinha 20 anos, tinha nascido em 1890 na grande comoção provocada pelo Ultimato Inglês de 1890. Lembremos que por via desse ultimato, Portugal foi obrigado a desistir das pretensões sobre o território entre Angola e Moçambique que não dominava. A música de Lopes de Mendonça e Keil do Amaral, foi na altura foi um grande êxito popular e os “canhões” eram os “bretões”, havendo versões em que isso é expresso.

É um apelo belicista sem dúvida, porém esse apelo nunca foi seguido, os “Bretões” eram a maior potência do mundo. Acaba por ser uma convocação guerreira frustrada. Sublinhe-se que os britânicos não teriam de fazer nenhum esforço para desalojar portugueses da zona reivindicada pelo “Mapa Cor-de-Rosa”, que reivindicava para Portugal o território entre Angola e Moçambique, pois Portugal não tinha nenhuma presença nesse território. Os canhões nunca dispararam.

Além do belicismo, o hino é, também, colonialista, nasce de um dos muitos momentos de comoção e perda (ainda que imaginária) do império colonial. “A Portuguesa” acumula, aliás, todas essas perdas, que já se detetam em Camões no século XVI, “Levantai hoje de novo, o esplendor de Portugal”. Nota-se também um renovar do sebastianismo (que nunca morreu), não faltando, sequer “As brumas da memória”.

Apesar de se tratar sobretudo da colonização de África, que era um projeto de futuro, é um hino voltado para o passado, aliás defende que a vitória de Portugal será dada pelo passado:

Oh, pátria ergue-se a voz

Dos teus egrégios avós,

Que há-de guiar-te à vitória!

Pode parecer estranho que um novo regime, que queria romper com o passado, vá adotar um hino virado para esse passado. A questão colonial não causará espanto, já que a República não só não queria romper com esse passado, como criticava à Monarquia a fraqueza neste aspeto. Porém, este apelo ao passado é o sinal de que a República se via como um renovar da grandeza anterior, destruída pelo regime que a precedia. Aconteceu outras vezes em Portugal. É interessante que o hino escolhido pelo regime republicano não incorporasse as questões fundamentais do republicanismo, porém a geração de 70 era uma referência intelectual para os republicanos e, ninguém esquecia “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares” de Antero de Quental. Viam o país como estando decadente e queriam alterar isso.

Belicista, colonialista, decadentista, virado para o passado, o Hino tem um concentrado daquilo que Portugal já não é, ou já devia não ser. Podia (devia) ter sido mudado em 1974, quando Portugal se libertou (e libertou) das colónias. Não o foi, talvez porque, como dizia Eduardo Lourenço, não houve uma descolonização das mentalidades e, olhando para as reações, quase 50 anos depois, essa continuou a não se fazer.

É verdade que o Hino está desatualizado, não representa o país atual. Representará, ainda, o país em que nasci (só ainda do tempo do império colonial), não representa o em que nasceu Dino de Santiago (já não havia colónias), menos ainda o de hoje. O mesmo se passa com a Esfera Armilar no centro da bandeira. Talvez represente o apego ao passado, não no sentido do gosto pela história que vai perdendo horas nos currículos escolares, na preservação do património, mas num peso de uma determinada história de glórias passadas que é paralisante para o futuro.

Na minha infância, em que éramos obrigados a cantar o hino, o final era sempre: “Contra os canhões, batatas com feijões”, e este é para mim o hino, nunca aprendi o outro, aquele que agora se canta nos jogos da seleção com uma bastante pirosa mão no peito. Não sou muito, nem pouco, nacionalista, mas mesmo que o fosse, o meu país não é chorar impérios perdidos.

Nuno Pinheiro

Sobre o/a autor(a)

NUNO PINHEIRO

Investigador de CIES/IUL

https://www.esquerda.net/opiniao/uma-questao-de-hinos/84717

Nuno Pinheiro - Não discutimos a pátria

 

* Nuno Pinheiro  

04 de maio 2024 - 22:30

 

O problema é mesmo o assumir a história. Portugal até o fez quando o assunto, bastante antigo eram as perseguições aos judeus. As reparações significam, para Portugal, o afastar o discurso luso-tropicalista que, mesmo 50 anos depois do fim das colónias, continua a predominar.

50 anos depois de uma revolução que pôs tudo em causa e chegou mesmo a mudar a geografia da pátria, surge uma nova vaga de discussão dos símbolos nacionais e também da história e do império.

Os símbolos nacionais são, e isso tem dignidade constitucional, a bandeira e o hino, ambos provenientes do 5 de outubro de 1910. O seu desrespeito é crime punível com, até um ano de prisão. Quer isso dizer que não podem ser discutidos? Se até as pátrias (entendidas como países) mudam, porque não os símbolos. Alguém nascido em 1944 na Crimeia, teria nascido na República da Crimeia, uma das Repúblicas da URSS, porém, em 1945, essa república foi integrada na República Russa, para em 1954 passar a fazer parte da República da Ucrânia, igualmente parte da URSS. Em 1991 teria passado a ser cidadão da Ucrânia independente, para em 2014 passar a ter nacionalidade da Crimeia e logo a seguir Russa. As pátrias mudam, podemos discutir os símbolos.

Talvez a maior mudança provocada pelo 25 de abril tenha sido a independência das colónias. Foi o fim do império, presente na vida portuguesa desde 1415 (Tomada de Ceuta). É uma das maiores mudanças na vida nacional e também levou a uma nova constituição, a de 1976, que continua em vigor. Porém, talvez por se ver como herdeiro do regime republicano, o novo regime democrático não colocou em causa os símbolos que vinham de 1910, porém estes símbolos estão cheios do passado colonial.

O Hino, nascido no ambiente do ultimato de 1890, evoca em primeiro lugar a expansão, vista como uma glória passada que se queria renovar. O renovar era a viragem para África que os Bretões (na versão original) queriam limitar. Se em relação à questão colonial está desatualizado, o pior é ser um hino de um país que se via como decadente e que canta, precisamente essa decadência. Não creio que hoje Portugal seja, ou sequer se veja como um país decadente.

A bandeira foi alvo de acesa discussão antes de ser aprovada. Discutia-se o verde e rubro por oposição ao anterior branco e azul. Foi aprovado o segundo em sinal de mudança, com o tempo passou a dizer-se que era o verde da esperança (inicialmente seria mais do positivismo e do futuro) e o vermelho do sangue, quando inicialmente seria sobretudo associada ao combate. Lá está a esfera que simboliza a expansão, as cinco quinas simbolizando os cinco reis mouros derrotados por D. Afonso Henriques na Batalha que sucedeu ao milagre de Ourique (já na altura desmontado por Herculano) e os sete castelos, algo misteriosos, mas que podem representar a incorporação do Reino dos Algarves. Entre os símbolos propostos em 1910, mas não aceites, ficou o barrete frígio, símbolo da república. Pena, porque ao menos teríamos um símbolo revolucionário.

É uma bandeira mais virada para o passado do que para o futuro, estando, nesse sentindo, na mesma linha do hino. Ambos são fruto de uma época em que, quer na música, quer nas artes visuais, não se procura a simplicidade. Aí de quem, hoje, queira fazer simplificações, nem que seja para um logotipo que, do ponto de vista gráfico, deve ter a austeridade necessária para ser reconhecível em formatos muito pequenos. A discussão foi enorme, as acusações de desrespeito também, tudo à volta de um pequeno símbolo gráfico, inspirado, mas não igual à bandeira. Diga-se que este logotipo substituiu um, encomendado pelo anterior governo, que, obviamente, também era uma interpretação gráfica (mas pior) da bandeira.

Antes de aprovar esta bandeira, houve discussão, mas talvez se tenha perdido a oportunidade de o fazer de novo em 1974/75, que foi uma mudança maior que a de 1910. Talvez a oportunidade se tenha perdido porque, como dizia Eduardo Lourenço, ainda falta descolonizar as mentalidades. Acrescento, depois de me ter cruzado com mais um monumento de enaltecimento da expansão que parecia de 1943, mas era de 2003, que pouco se fez para essa descolonização. Mas o que nos impede de discutir hoje o hino e a bandeira? A virulência do debate justifica a sua necessidade. A ideia de que só fazê-lo será uma traição à pátria, ainda mais.

De local inesperado, já que insuspeito de ser um ativista anticolonial, antirracista ou anti seja o que for, Marcelo Rebelo de Sousa, surgiu a ideia de reparação pelos malefícios do colonialismo. Não foi muito específico, estamos a falar da guerra colonial, de um período mais alargado, ou mesmo de 600 anos, desde o século XV? A onda de protestos contra estas declarações foi ainda maior. Na sua crista o Chega a acusar o presidente de traição e proclamar o seu amor pela pátria, pela história pátria (tão bem aprendidinha naqueles livros com desenhos de meninos da Mocidade Portuguesa) e pela alma portuguesa (dava o nome para uma loja de souvenirs de produtos antigos portugueses, vendidos a peso de ouro, mas já existe uma coisa parecida com um nome semelhante). Se Ventura diz 100, há sempre quem o siga a dizer 50. Pela parte da IL, a preocupação é com os euros, nada de ideologias ou princípios que a nossa religião é o dinheiro. O governo, fala em “respeito pela verdade histórica”, e lá estamos de volta aos livros com os meninos da mocidade, talvez numa versão mais atualizada e talvez alguém se lembre das tentativas de Nuno Melo de censurar programas que não cabiam na sua conceção salazarista da história. Mas também há quem, em vez de 50, tenha dado só 25, Marta Temido, cabeça de lista do PS às Europeias, veio, a este propósito, falar “em desrespeitar aquilo que é a História, aquilo que é o envolvimento de todas as partes num processo histórico.”

Interessante que venha de quem veio, Marcelo Rebelo de Sousa falou em crimes e esses existiram, na maioria ficaram anónimos, mas ele próprio prestou homenagem a Marcelino da Mata, o mais reconhecido criminoso da guerra colonial. Mais interessante ainda é perceber se são devidas reparações aos povos das antigas colónias. Uma defesa, que vi, inclusivamente em pessoas insuspeitas de admiração pelo colonialismo, é que Portugal não deveria essas reparações por ter deixado boas infraestruturas nesses países. Olhando para fotografias das partes brancas de Luanda, ou Lourenço Marques, até podemos acreditar nisso, mas essa uma ponta de verdade em territórios em que faltava o básico, em populações a quem faltava o mínimo dos mínimos.

Também a devolução de bens culturais se deparou com narizes torcidos, afinal, não é nada de importante, coisas tribais, numa demonstração de sobranceria euro centrista e racista.

Não parece plausível pegar numa nota e entregá-la a cada cidadão das ex-colónias, a cada descendente de escravos, mas programas de cooperação, acesso a estudantes a universidades, até empréstimos são formas possíveis. Mas Portugal até o tem feito, poder-se-ia discutir o aprofundamento, só que o problema não é esse. O problema é mesmo o assumir a história. Portugal até o fez quando o assunto, bastante antigo eram as perseguições aos judeus. As reparações significam, para Portugal, o afastar o discurso luso-tropicalista que, mesmo 50 anos depois do fim das colónias, continua a predominar. É o ver o passado como passado e não como um presente suspenso, que permite olhar para o futuro.

50 anos depois da última grande transformação, parece que estamos mesmo na altura de discutir a pátria, os seus símbolos, a sua história, o império e, até, a culpa. Parafraseando Marc Bloch, com essa discussão a história ficará mais clara.

Sobre o/a autor(a)

NUNO PINHEIRO

Investigador de CIES/IUL

 

https://www.esquerda.net/opiniao/nao-discutimos-patria/90721