sábado, 24 de abril de 2021

Passaram 47 anos desde 25 de Abril de 1974.

 


A história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.
(MARX, K., in “Dezoito Brumário de Louis Bonaparte”, 1852.)

Passaram 47 anos desde 25 de Abril de 1974.

O País mudou, entre lágrimas, risos, promessas e esperanças.

Éramos menos, muito menos. Éramos pobres, e ainda somos, mas mais pobres. Não havia estradas, quanto menos auto, e os comboios ronceavam por montes e vales. Água, que não dos poços e das fontes, e saneamento para lá da latrina, ainda era um luxo para muitos. Uma côdea de pão e uma sardinha enganava a fome de inúmeros. Partíamos com uma mala de cartão e demandávamos franças e brasis. O campo lavrava-se de suor e o bafo do gado dormia com as almas e aquecia as casas. Os novos saiam da idade das fisgas para a idade da jorna, ou para o óleo das fábricas, os mais hábeis de mãos.

A polícia política tomava conta das heresias.  A Igreja abençoava-nos o desencanto e aplacava-nos o caminho para as bem-aventuranças. O ditador não saía do sítio, nem saía à rua para tomar café, só andava de comboio e nunca passou da fronteira espanhola para lá de Hendaia. Consta que tinha medo de se afastar, indo para longe, receando que o País mudasse, no entretanto.

Os mancebos iam para a tropa, aprender a ser homens. E depois da recruta embarcavam no paquete Vera Cruz a caminho das Áfricas, de onde mandavam aerogramas às namoradas e às madrinhas de guerra. Pelo Natal, até tinham direito a aparecer na televisão, prometendo regressar intactos e escorreitos. Muitos iriam regar com sangue o verde da savana mas naquela altura ainda não sabiam. Nunca se deve saber da morte, porque saber da morte é antecipá-la, e as guerras não se fazem com zombies.

E havia os ricos, que eram poucos. E havia os pobres que eram muitos. Os filhos dos ricos iam para o liceu para serem doutores. Os filhos dos pobres que mais se distinguiam iam para as escolas técnicas para serem serralheiros, electricistas ou guarda-livros. Os liceus eram só nas cidades grandes: a Lisboa do Terreiro do Paço onde estavam as excelências, o Porto do vinho e do comércio ensinado pelos ingleses, e as capitais de distrito. As universidades eram uma espécie de Santíssima Trindade, Lisboa, Porto e Coimbra, com esta à cabeça da vetustez e da tradição. Direito era uma espécie de alfobre de ungidos que segregava ministros, autoridades e reverências.

E havia os analfabetos, que eram muitos. E havia a quarta classe que era quase uma licenciatura, e havia o sétimo ano do liceu que era mais que um mestrado. Letras a mais só traziam desgraça e só tornavam as pessoas infelizes. Orgulhosamente sós, disse ele, o ditador, orgulhosamente incultos, pensou ele, o ditador.

Os jornais escreviam por metáforas e havia leitores especializados em palavras cruzadas que usavam a técnica para descodificar as mensagens censuradas. De vez em quando havia eleições, mas o resultado era conhecido à partida. Era como um jogo de bola sem adversários, onze contra zero, ganhava o guarda-redes.

Alguns resistiam em segredo, mas o segredo era perigoso, mesmo o segredo. A denúncia era um desporto nacional e tomava café com os subversivos. Quando davam por ela estavam em Caxias depois de terem ido tomar chá à António Maria Cardoso, a sede da Polícia dos Bons Costumes, mais conhecida por PIDE. Ainda eram julgados e tudo, porque o ditador não gostava que dissessem que ele não tinha apego às leis e ao Direito, já que Coimbra é uma lição mesmo para os ditadores. Mas de nada lhes valiam as togas e os códigos. Eram sempre condenados, qualquer que fosse a acusação, quaisquer que fossem os advogados. Acresce que, advogado amigo de subversivo, subversivo era,  pelo que os riscos que corria de passar do banco da defesa para o banco dos réus eram certezas.

E a África lá tão longe. Mas a guerra aqui tão perto. Havia os que vinham, sonâmbulos entre dois tiros de espingarda. Outros mutilados, a medalha da Pátria a luzir, a revolta no peito no lugar do coração. E também os que fugiam. A desertar. A desafiar a noite pelos trilhos antigos dos contrabandistas. É Paris. É a Suécia. É a Europa já no horizonte mítico da juventude que não quer morrer. A fugir da asfixia. Da censura. Do ditador. Do Portugal pequeno. Das quatro paredes caiadas no jardim plantado à beira-mar. Da guerra.

Mas eram muito poucos a fugir, muitos mais que eram a morrer. E maior a recusa. E morriam os pobres. E já morriam os ricos e os cultos. Os que tinham lido. E há livros perigosos que são o software das revoluções. E assim se abriu Abril e se gizou a Revolução dos capitães. E assim se terminou a ditadura.

E já foi há quarenta e sete anos. As liberdades cívicas conquistadas sobre o som dos cravos na ponta das espingardas. As utopias a sussurrar na pele dos desesperados de décadas de mudez. A esperança misturada em malgas de canções servidas pelas madrugadas. O povo unido jamais será vencido. Uma crença e uma fé no coração das flores, as mãos dadas entre abraços. “Acordai, acordai homens que dormis a embalar a dor dos silêncios vis”.

Depois o novo organizar. A política. Os políticos. Os partidos. As eleições. A Constituinte. A Constituição. Os militares com um País nas mãos e os sonhos de tantos pendurados nas promessas de Abril. As trincheiras entre a utopia ao longe e o presente ao lado da realidade de um País dividido. A revolução a meio do caminho entre Abril e Novembro. Em Abril, águas mil. Em Novembro põe tudo a secar, pode o Sol não tornar. A prudência da sabedoria ancestral, agrícola e campesina. E ganhou a prudência.

Depois a Europa foi-nos entrando pela porta adentro. Eram mais ricos e confiámos na cartilha que nos deram. Mandaram-nos dinheiro. Plantámos betão pelas lezírias fora. Estradas e estradinhas. Casas, hospitais, escolas e alguma decência mínima para quem nunca tinha visto o mar. Não há mal que sempre dure nem fome que não dê em fartura. Uma ilusão. Desaprendemos a pesca, traímos o mar e esquecemos o cheiro das laranjas e da terra húmida. A política. Os partidos. Os dinheiros da Europa. Quem dá e reparte fica com a melhor parte. As clientelas. A democracia refém da governabilidade. Da governação em arco, arco sem flecha.

O Euro. Governo sem moeda, não é governo é capataz. Manda quem paga, obedece quem deve. E nós devemos, devemos muito e mais e mais. A dívida. É como as doenças larvares, silenciosas e sem remissão.

Porque é preciso pagar, dizem eles, os capatazes. Vendem-se os anéis, e dizem que não custa nada porque ficam os dedos. Vendem-se os novos, e dizem que não custa nada porque ficam os velhos. Vendem-se as praias e dizem que não custa nada porque ficam as marés. Mas não chega. Teremos que vender as almas, e dirão que não custa nada, porque ficarão as algemas em torno das memórias dos obstinados, os subversivos do novo milénio.

E de novo os subversivos. Os tais que a ditadura, antes de Abril de 1974, amordaçava, prendia e matava mesmo. Eles também existem hoje, os subversivos, outros rostos, outra batalha, outros combates, a mesma guerra.  São os que recusam o País no cimo da falésia a deslizar para o vácuo das profundezas abissais. Recusam que não haja alternativas ao discurso da austeridade, do empobrecimento e do retorno ao passado do miserabilismo, da caridadezinha e da fome envergonhada.

A história repete-se. Durante 48 anos de ditadura também se disse e se bradou que não havia alternativas. Até 25 de Abril de 1974.

Os homens fazem sua própria história, e não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias da sua escolha mas sim sob aquelas com que se defrontam directamente, legadas e transmitidas pelo passado.

O passado não se reescreve, lega-se.

E a fazer fé no legado de Abril, há sempre alternativas. Assim estejamos dispostos a lutar por elas.

(Estátua de Sal, 24/04/2021 – Republicação de texto de 25/04/2015)
https://estatuadesal.com/2021/04/24/o-legado-de-abril-sempre/

sexta-feira, 23 de abril de 2021

António Guerreiro - O poder das narrativas

 CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

António Guerreiro

23 de Abril de 2021, 8:17

Há alguns dias, comentando num canal de televisão a entrevista de José Sócrates na TVI, um convidado utilizou mais de uma dezena de vezes a palavra “narrativa”. É uma palavra cheia de evocações e que foi acumulando à sua volta um corpus teórico de grande alcance e densidade, dando até origem a um campo disciplinar chamado narratologia. Mas não era obviamente o saber da narratologia, com os seus conceitos e categorias, nem o imaginário narrativo que fez do romance o género literário hegemónico do nosso tempo, que o comentador tinha no seu horizonte quando usou de maneira recorrente a palavra “narrativa”. Conhecemos bem esse uso porque ele tornou-se frequente no discurso político: “narrativa” significa uma efabulação ou a criação de um cenário que confere sentido a uma determinada ordem de factos ou de ideias. O critério de validade de uma “narrativa”, entendida neste sentido, é a sua verosimilhança e a sua lógica.

O que pode uma narrativa? Pode muito, como sabemos. Tal é esse poder que não há nenhum poder político que não se aproprie das estratégias narrativas. A noção de storytelling refere-se hoje a um modo e ferramenta das práticas gestionárias, publicitárias e políticas. É o uso da narração para fins de manipulação, de formatação mental e ideológica e de homogeneização. No seu livro de 1979, La condition potmoderne, que forneceu as bases para a designação de uma época que não foi bem uma época, Jean-François Lyotard caracterizou a pós-modernidade como um tempo de crise das “grandes narrativas” formadoras da modernidade. Por exemplo, a narrativa do progresso. Ora, o triunfo do storytelling edifica-se sobre as ruínas dessas grandes narrativas que foram narrativas de emancipação, com as quais a esquerda se identificou e constituíram o seu solo ideológico.

Mas isso pertence a uma história que deu muitos frutos e faz hoje parte do passado. Se pudemos assistir nas últimas décadas ao triunfo político de um imaginário narrativo, ele foi criado pelo poder dos media (um poder mediacrático). O neoliberalismo, o neoconservadorismo, o empreendedorismo e a meritocracia são as grandes narrativas do nosso tempo. São elas que detêm o monopólio das ideias de uma sociedade governada pela eficácia e capaz de fornecer bem-estar e riqueza. Em oposição a esta nova modalidade de “grande narrativa”, a esquerda tem-se limitado quase exclusivamente a dizer que ela não é verdadeira, que a verdade está antes na exclusão e na pobreza a que a maioria, supra-numerários nessa fábula de heróis e protagonistas, está sujeita. Sem narrativas, nem grandes nem pequenas, a esquerda tem-se limitado a fazer oposição às narrativas da direita que, tradicionalmente, nunca as tivera. Ou melhor, as suas narrativas eram de certo modo míticas, eram as narrativas intemporais do enraizamento, fascinadas com o passado e com a ordem trans-histórica. Mas mal se entrava no presente, mal se abandonava a História (com “h” maiúsculo) e se entrava no social e na economia política, entrava-se no território da esquerda. Como é bem visível, não é isso que acontece hoje. Parece que as “narrativas” deixaram de servir a mobilização à esquerda e o seu poder passou a ser usado pela direita e exacerbado de maneira delirante pela extrema-direita (vejam-se as teorias da conspiração, os negacionismos, os populismos). É aí que encontramos hoje o seu poder de mobilização. A palavra “propaganda”, que conhecemos muito bem de momentos sinistros do passado histórico, está a ser reactualizada por todo o lado, com meios que são próprios das estratégias narrativas. Perante elas, até o romance como género literário (e que, na verdade, até já se tinha tornado um género editorial, tal era a vontade que os editores tinham de que todos os livros que publicavam fossem chamados romances) parece já não ter o mesmo sucesso que teve até há pouco anos, quando invadiu com uma tal profusão todo o campo literário que houve quem, com muito boas razões, o classificasse como o cancro da literatura. A democracia literária de massa a que se tentou adequar o romance como género editorial é um equivalente deste poder narrativo que ficou entregue à direita.

Livro de recitações

“Portugueses, mais um esforço”
Marcelo Rebelo de Sousa, numa comunicação ao país, na passada quarta-feira, 14/04/2021

Foi com uma forte emoção que escutei a injunção presidencial: “Portugueses, mais um esforço”. Inesperadamente, ali estava o católico Marcelo Rebelo de Sousa a citar o divino Marquês, a trazer Sade para o nosso “boudoir”, a actualizar em época de pandemia e neste país de fraca libertinagem a grande exortação sadiana de 1795, anexa à Philosophie dans le boudoir: “Français, encore um effort, si vous voulez être républicains”. Republicanos, já nós somos, maioritariamente, e parece que sem esforço. Sermos portugueses, isso sim exige esforço. Mas é um grandioso destino, diz a malta da filosofia portuguesa que de “boudoirs” nem quer ouvir falar, e nunca é sem mais um esforço que se chega ao destino, muito menos aquele que coincide com a História. Grandioso é o republicano Marcelo a surgir com as vestes retóricas do Marquês: mais um esforço, e Belém tornar-se-á o Château de Lacoste, dos 120 dias de confinamento.

https://www.publico.pt/2021/04/23/culturaipsilon/cronica/narrativas-1959402

Rui Tavares - Coisas em que fiquei a pensar depois do curso do PÚBLICO sobre História de Portugal

 OPINIÃO

Dos cerca de novecentos anos que Portugal leva como entidade política estável, mais de metade foram passados com domínios fora da Europa. Diz-se que as fronteiras de Portugal mudaram pouco, mas isso não é verdade.

Rui Tavares

23 de Abril de 2021, 0:01

Na quarta-feira o curso acabou como acabaram todas as aulas deste curso, com vontade de ficarmos à conversa por horas. O Professor Amílcar Guerra, palestrante do dia, tinha falado daquele mistério que é a existência no Alentejo e no Algarve de cerca de uma centena de inscrições numa escrita até hoje indecifrada a que às vezes se chama “tartéssia” ou apenas “escrita do Sudoeste”, representando uma língua local ainda por identificar. Era a última de 25 aulas que coordenei para 25 séculos de história e, como em todas elas, houve muitas perguntas e as mais simples eram as mais fascinantes — as que quebravam a barreira do academismo e deixavam os palestrantes contentes por poderem arriscar mais e os alunos fascinados por quererem saber mais.

Eu saí na minha “nuvem do não-saber” pensando como poderia ser que alguém saindo da serra algarvia há 2500 anos para ir até ao litoral encontrar num dia de caminhada gente falando “tartéssico” ou “fenício”, línguas não só diferentes mas provavelmente de famílias linguísticas diversas, que poderiam ser indo-europeias, semíticas ou (à falta de melhor termo) “ibéricas”. Seria mesmo possível nessa jornada encontrar várias línguas diferentes neste território relativamente exíguo? E depois lembrei-me onde já tinha visto isso: em Timor Leste, onde de aldeia para aldeia se pode falar macassai, fataluco, mambai e mais um tanto de línguas de famílias linguísticas tão distintas como o malaio, o papuano ou o polinésico.

Em tempos o nosso território terá sido assim, mas já então sujeito à influência de “uma certa globalização” trazida pelos fenícios, bem mais indiretamente pelos gregos, depois massivamente pelos romanos, com judeus aqui e ali, num território que era a fachada atlântica do mundo mediterrânico: a orla de um mundo euro-afro-asiático no qual, ao mesmo tempo que alguém escrevia aquela escrita do Sudoeste, sábios como Sócrates, Confúcio e Sidarta “Buda” Gautama dispensavam os seus ensinamentos na Ática, China e Índia. Um território ultraperiférico nessa chamada “era axial”, mas que seria dali a uns séculos incorporado no mundo romano e no qual havia uma vaga lógica litoral norte-sul que resultou na província romana da Lusitânia.

Portugal não é a Lusitânia, até porque uma boa parte dele, acima do Douro, pertencia à Gallaecia, e é de lá que vem a nossa língua e o nome do país. Desse ponto de vista podemos ver o nosso país como uma realidade mais fortuita, um artefacto das cruzadas que se cristalizou? É certo que esse país que se veio a fazer com uma língua “emprestada” dos primos galegos e uma capital “estrangeira” de mouros e moçárabes, num território sem fronteiras naturais, esteve várias vezes para se diluir no todo peninsular e algumas para se separar entre Norte e Sul. Mas a verdade é que isso nunca veio a acontecer de forma duradoura. Devemos então supor que essa lógica de “fachada atlântica do mundo mediterrânico” levasse a uma certa coesão que veio a beneficiar aquele reino da Baixa Idade Média que perdurou? Se é verdade que o território de Portugal não corresponde ao da Lusitânia, não esqueçamos que há muitos países que preservaram o seu nome por mais tempo com mudanças de território de uma amplitude muito maior.

Como intuiu Saramago na sua História do Cerco de Lisboa, sem a tal capital que fora moura a história não só de Portugal, mas da Europa e do mundo, teria sido muito diferente. Sem o maior e mais seguro porto natural atlântico desta macro-região, será que as grandes navegações não teriam partido de uma tal Al-Ushbuna, no Gharb Al Andalus? Impossível saber. Mas sem Lisboa, seria quase inconcebível terem sido navegações portuguesas. E esse momento da expansão acabou por ser determinante para tal fachada atlântica que assim deixou de estar na orla do mundo conhecido para estar no centro em relação ao Novo Mundo, multiplicando os seus pontos de contacto, conquista e comércio (incluindo de pessoas escravizadas), diversificando ainda mais a sua composição étnica e disseminando a língua que entretanto havia chamado sua. Dos cerca de novecentos anos que Portugal leva como entidade política estável, mais de metade foram passados com domínios fora da Europa. Diz-se que as fronteiras de Portugal mudaram pouco, mas isso não é verdade: mudaram muitíssimo, e até muito recentemente não tinham ainda regressado à Europa.

O espaço para a crónica acabou, e ainda não falei de algo crucial para as nossas escolhas hoje. Mas por agora deixo apenas o repto a que se inscrevam em futuros cursos de história do PÚBLICO. E para a semana veremos como uma questão da economia e da educação portuguesa no século XVIII é ainda central para a discussão do que deveremos ser depois da entrega do Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal, que foi feita ontem.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Historiador; fundador do Livre

https://www.publico.pt/2021/04/23/opiniao/noticia/fiquei-pensar-curso-publico-historia-portugal-1959684

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Nuno Pacheco - Ortografados de medo, ou a porta que Abril não abriu

Se houve porta que Abril não abriu, foi a de reconhecer à língua portuguesa maturidade para integrar as suas diferenças nacionais sob uma denominação comum.

Completam-se, no domingo, 47 anos do 25 de Abril. Quase tantos, já, quantos os que durou a ditadura, que na verdade não foram bem 48 mas sim 47 anos, 10 meses e 27 dias, contados entre o golpe militar de 28 de Maio de 1926, que os partidários da ditadura celebravam como “revolução nacional”, e o golpe militar de 25 de Abril de 1974, que mundialmente se tornou célebre como “revolução dos cravos”. Não é mera questão de semântica, nem jogo de palavras: o que esteve em causa foi sempre a liberdade. Reprimida, durante a ditadura; ainda confusa na turbulência da transição; e finalmente consagrada na democracia.

Sinais dos tempos: em 1974, com os tanques na rua, tornou-se célebre uma fotografia onde, ao fundo, se via um grande cartaz de cinema a anunciar O Esquadrão Indomável. Nem de propósito. Em 2021 não há “esquadrão”, mas há Hollywood, com a cerimónia dos Óscares a ser transmitida (quem diria) pela televisão estatal, a RTP. Uma tardia “conquista de Abril”? Nem por sombras. A cerimónia costuma realizar-se em Fevereiro, às vezes em Março, e só devido à pandemia é que foi empurrada para Abril, coincidindo no nosso 25. Já agora, para não ficarem dúvidas, o tal “esquadrão indomável” do cartaz retratado em 1974 também não era um grupo de heróis, mas sim de polícias implacáveis e com métodos nada democráticos. “Quando eles estão em acção é difícil dizer quem são os polícias e os assassinos”, dizia na altura a propaganda do filme, que na versão original se chamava The Seven Ups.

Uma dúzia de anos antes de nos ser devolvida a liberdade, escreveu Alexandre O’Neill (no seu livro Poemas com Endereço, 1962) “Perfilados de medo”, que José Mário Branco viria magistralmente a musicar, gravando-o em 1971 no exílio, em Paris. “Perfilados de medo, agradecemos/ o medo que nos salva da loucura./ Decisão e coragem valem menos/ e a vida sem viver é mais segura.” (Poesias Completas, Ed. Assírio & Alvim, 2000, pág. 191). Pois bem: há casos em que é o medo que nos empurra para a loucura, em vez de nos salvar dela. E um deles, já gasto, cansativo, moribundo, é o da ortografia. Não havia em Portugal uma ortografia oficial até ser fixada em 1911, após o derrube da Monarquia. Foi a I República que nela insistiu, num país onde 76% da população era analfabeta. Mas o “bichinho” das alterações ortográficas não parou: deu mais reviravoltas em 1945 e em 1973, remexendo em acentos e letras, congeminou novas aventuras nos anos 1960, quis revolucionar as regras em 1986, recuou perante as muitas acusações escandalizadas, e finalmente ajustou-as em 1990, para depois, bem mais tarde, vê-las impostas numa coisa chamada “acordo ortográfico” com a inalcançável veleidade de criar uma ortografia comum ao universo da língua portuguesa.

Visto de fora, pode parecer normal. Mas, visto de dentro, o resultado é um pesadelo. Já em 1945, quando Portugal (então uma ditadura ainda com colónias em África) tentou acertar com o Brasil uma ortografia unificada, o gesto pecava por tardio. As divergências entre os dois países no domínio da língua eram já insanáveis. O Brasil concordou em 1945, mas dez anos depois desvinculou-se. As regras ortográficas de 1945 serviam o português de cá, o europeu, mas não serviam o português do Brasil, americano. Tudo quanto se fez depois, além de ser em vão, só serviu para descaracterizar o português de cá e de lá, sem proveito nem préstimo. Enquanto isso, as colónias africanas emanciparam-se após o 25 de Abril, cada qual com a sua bandeira, o seu hino, as suas leis, os seus sistemas e moedas próprias. Por que razão não deviam, também, dar livre curso ao uso feito do português, fixando as respectivas variantes? Por nenhuma razão. Só uma certa loucura lusitana imaginou que, escolhendo a sua própria via em tudo o resto, deviam ficar presos a uma ortografia comum.

E foi assim, parafraseando O’Neill, “ortografados de medo” (com medo que o português, como idioma, se desmembrasse, medo que contaminou certa intelectualidade e serviu de mote a actos políticos condenáveis), que impuseram a loucura da “unificação”. Agora, no dia 5 de Maio, hão-de tecer-se novas loas à língua, como convém. Ignorando que, se houve porta que Abril não abriu, foi a de reconhecer à língua portuguesa maturidade para integrar as suas diferenças (as suas variantes nacionais) sob uma denominação comum. Podendo e devendo partilhá-las num dicionário global normativo (que infelizmente não existe), embora distinguindo o que seria aplicável em cada país. É esse o futuro por que vale a pena lutar.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Filipe Chinita - ou / da única cousa

* Filipe Chinita


ou 
da única cousa 
que (de)tenho: 
o meu 'património' 
de poemas...
fora
e ainda! 
dentro de mim
.
e 
ainda assim... 
só 
com o pago 
'word'
.
fj
11.22
19.04.2021
Filipe enviou a mensagem: 19 de Abril às 11:28


ou
da total alienação
consumista... do capital
que esgana... por sempre mais dinheiro

29/04/2021, 22:35

domingo, 18 de abril de 2021

Filipe Chinita - estes sim!

* Filipe Chinita

estes sim!
são os meus/nossos
inesquecíveis...
comuns
e
eternos
valores
.
que
o
meu
tempo
é
só!
o de resistência.
é
só!
o de revolução.
de em
sempre entrega
e
social revolução
.
de ti.e do outro
.
de todos! os
outros
.
não.
nunca!
o
destas
estagnadas
paradas águas
sempre putrefactas
da democracia.capitalista.burguesa.ou aburguesada
da diária sobre.vivência...
precária
abaixo... de todos
os limiares da
pobreza...
ocidental
ante
o cada vez maior
enriquecimento
pornográfico...
de alguns
poucos
.
fj
11.12
18.04.21
Filipe enviou a mensagem: 18 de Abril às 13:05



nem 
a mim!
e também isso... 
parece... não terem percebido.
sou um revolucionário. e em tudo.
não tenho tempo nem vida 
para apanha... minhocas
.
fj
14.01
18.04.2021
 
Filipe enviou a mensagem: 18 de Abril às 14:29

Álvaro Costa de Matos - No centenário da fundação do Diário de Lisboa (1921-2021): história & memória

Foi o primeiro vespertino a publicar-se em Lisboa e por ali passou a nata do jornalismo nacional. Uma viagem pela história do Diário de Lisboa, no centenário da sua fundação.

Há mais de cem anos, a 7 de Abril de 1921 surgia o Diário de Lisboa, publicado à tarde, facto inédito na capital. Foi fundado pelo banqueiro António Vieira Pinto, um dos sócios do Banco Pinto & Sotto Mayor, mas logo no primeiro número Joaquim Manso aparece como “director, proprietário e editor”. Manso dispunha de experiência jornalística: tinha sido redactor principal do jornal A Pátria, até 1921, e colaborara em algumas revistas, como Arte e Vida (1904-1906) e Atlântida (1915-1920). Todavia, aquele seria o seu grande desafio profissional, que o notabilizaria como jornalista, escritor e ensaísta.

Após Manso, que assegurou a direcção até 1956, o Diário de Lisboa foi dirigido por Norberto Lopes (1956-1967), António Pedro Ruella Ramos (1967-1989), Mário Mesquita (1989-1990) e por Ruella Ramos novamente, até ao seu fim, em 1990. O último director deixou-nos um testemunho precioso, pois segundo ele “o jornal teve um grande sucesso e vingou, embora a partir de 1942 tivesse sofrido a concorrência do Diário Popular. Em termos gráficos, era bastante avançado porque foi um dos primeiro tablóides da Europa”.

A redacção inicial do novo vespertino de expansão nacional era composta pela nata do jornalismo da época, com nomes como Artur Portela, Carlos Ferrão, Diniz Salgado (repórter fotográfico) e Manuel Nunes. Anos mais tarde, juntaram-se ao núcleo duro Mário Neves, Rogério Perez, Maurício de Oliveira, entre outros. No final dos anos 60, a renovação da redacção foi protagonizada por Vítor Direito, que se rodeou de uma nova geração de jornalistas como, por exemplo, José Carlos de Vasconcelos, Joaquim Letria, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Pulido Valente, Mário Castrim, Mário Zambujal, Maria Judite de Carvalho e Fernando Assis Pacheco. Quanto à colaboração externa, literária ou artística, o Diário de Lisboa acolheu o contributo de figuras de relevo da cultura portuguesa, o que lhe valeu o epíteto de “vespertino dos intelectuais”. Nos anos 20, salientamos João de Barros, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão e Fernando Pessoa. Nas décadas seguintes, merece destaque a colaboração de António Sérgio, José Régio, Fernanda de Castro, Ferreira de Castro, António Botto, Mário Dionísio e Alexandre O’Neill. A ligação ao meio cultural lisboeta tornou o Diário de Lisboa no vespertino favorito da classe média letrada, com tiragens de 50.000 exemplares por dia nos anos 50.   


Ilustração de João Abel Manta na capa da edição de 3 de Maio de 1974 DR

Como era da praxe jornalística, o Diário de Lisboa não deixou de dizer ao que vinha quando saiu, num contexto marcado pelos efeitos da Grande Guerra: seria um “jornal moderado”, que teria como único programa “erguer Portugal acima das misérias e das fraquezas dos homens, a fim de que ele seja para todos nós o maior facto do nosso esforço e do nosso espírito”. Um farol de “ideias” e “razões morais” para a reconstrução nacional. O editorial traduz a percepção que, à época, a imprensa tem de si própria, como a maior força social do tempo, o “quinto poder” do Estado. Os jornais acreditam que a sua intervenção no espaço público reforma mentalidades e costumes. Não servem apenas para noticiar os factos ou opinião individuais, mas sobretudo para estabelecer a boa opinião. A isso se chamava o “apostolado da imprensa”.

Com redacção na Rua do Carmo, o Diário de Lisboa assume-se como um jornal de informação geral, com particular atenção à capital (das oito páginas publicadas, duas tinham notícias de “tudo quanto Lisboa tem de magazine”) e à ilustração (o número de estreia vem com desenhos de Almada Negreiros). A presença de caricaturas e cartoons humorísticos na primeira página será uma imagem de marca do novo vespertino, que contou com a colaboração primeira de António Soares, Jorge Barradas, Stuart Carvalhaes, Silva Monteiro, Almada e, mais tarde, de Carlos Botelho e João Abel Manta. No campo do humor gráfico, entre os diários noticiosos e políticos, o Diário de Lisboa foi mesmo um dos melhores exemplos do que então se fazia.

Ao longo da sua existência, o Diário de Lisboa teve vários suplementos, mas A Mosca, coordenado por José Cardoso Pires, foi talvez aquele que mais saudades deixou. Num registo satírico, original, contou com a escrita criativa de Assis Pacheco, Maria Aurora, Letria, Luís de Sttau Monteiro, entre outros, e os cartoons de Manuel Vieira, SAM e Augusto Cid. Entre 1969 e 1975, A Mosca liderou a irreverência humorística político-social na imprensa portuguesa.

Nascido após a restauração da “República Velha”, o Diário de Lisboa conheceu cedo a acção da censura. É certo que com o fim da Grande Guerra veio também o fim da censura militar. Mas os jornais continuaram a enfrentar as mais diversas dificuldades para a sua regular publicação: apreensões, tentativas de reimpor a censura prévia e vigilância das autoridades policiais. Ao ponto de a 29 de Abril de 1922, no diário republicano A Manhã, Trindade Coelho denunciar que sob o regime republicano os jornais viviam “em completo e permanente regime de arbítrio”, vítimas de “apreensão, censura prévia e impunidade de desmandos”. Em 1925, no mês de Abril, o Diário de Lisboa e O Século não puderam circular durante vários dias. O que levou Joaquim Crisóstomo, no Senado, a criticar a censura e a suspensão destes dois jornais, afirmando que não foi para restringir a liberdade de imprensa que se implantou a República.

Durante o Estado Novo, o Diário de Lisboa manteve uma postura tão crítica quanto era possível naquele tempo, no reduzido espaço de manobra que a censura lhe permitiu. A oposição ao regime é notória sobretudo no pós-II Guerra Mundial, com a expectativa democrática criada, e nos anos 70 vai criticar abertamente o Marcelismo. No 25 de Abril de 1974, quando saiu para as bancas já a Revolução ia adiantada, dedicando-lhe sete das 28 páginas do caderno principal: fez machete com os comunicados do MFA, a rendição de Marcelo Caetano no quartel do Carmo e a assunção do poder pelo general Spínola. Os seus repórteres fizeram a história dos principais acontecimentos em Lisboa, reproduzindo o entusiasmo que se vivia nas ruas. Noticiou o desenrolar da Revolução no país, as primeiras reacções das colónias e, em nota irónica, fez título da “Falta de quórum na Assembleia Nacional” naquele dia. A edição esgotou-se, obrigando a activar as rotativas uma segunda vez.

Como qualquer jornal, o Diário de Lisboa conheceu várias crises, alterações na linha editorial e, com a nacionalização da banca, surgiram os problemas financeiros. A entrada de Mário Mesquita para a sua direcção, com um novo projecto, foi uma última tentativa de refundar o Diário de Lisboa, mas extinguiu-se uns meses depois. Morreu na “flor da idade”, como estampou na sua última edição, de 30 de Novembro de 1990. O tempo dos vespertinos tinha passado…

sábado, 17 de abril de 2021

Luís M. Faria - Meninos do lodo (Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes)

Livros

Meninos do lodo

Soeiro Pereira Gomes (1909-1949) escreveu seis livros, entre os quais dois de contos e um de crónicas. Foi resistente antifascista e dirigente do PCP D.R.

Uma altura em que a miséria e a desigualdade continuam a grassar pelo mundo é tão boa como qualquer outra para revisitar uma obra-chave do nosso neorrealismo. “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes, faz 80 anos

TEXTO LUÍS M. FARIA

Para os filhos dos homens que nunca foram meninos.” A famosa dedicatória de “Esteiros”, o primeiro grande romance do neorrealismo português, é ao mesmo tempo triste e cheia de esperança. Triste, pela referência às crianças que não podiam viver como crianças — um espetáculo muito presente no Portugal de 1941, e concretamente em Alhandra, onde Soeiro Pereira Gomes tinha ido viver após um ano em Angola. Da sua janela, ele via as crianças a trabalhar no rio Tejo. O fabrico de tijolos implicava abrir canais (os chamados esteiros), extrair o lodo, cozer o tijolo no forno, retirá-lo ainda quente e pô-lo a secar, bem como atividades adjacentes, como o transporte do carvão que alimentava os fornos, e dos próprios tijolos... Ainda hoje estão vivos idosos que trabalharam nessa indústria em crianças — que, portanto, nunca foram meninos — e recordam as brutalidades a que a pobreza familiar os sujeitava. Da sua janela, Pereira Gomes assistia a essa realidade em direto, e sentiu que não podia deixar de escrever um romance que a perpetuasse na memória. É o caso flagrante de uma história que se impõe a um escritor, a tal ponto que ele não precisa de lhe acrescentar nada, exceto o seu talento.

ESTEIROS

Soeiro Pereira Gomes

Quetzal, 2021, 253 págs., €16,60

Romance

O lado esperançoso da dedicatória tem a ver com a remissão para uma geração futura. Ao dedicar-lhe o livro, o autor presume que ela já estará em condições de o apreciar. Portanto, já terá ido à escola o número de anos suficientes para aprender a ler livros. Uma esperança natural num homem que era membro sénior do PCP, um partido empenhado na transformação social da qual a literatura devia ser um instrumento.
Os membros do grupo de amigos que protagonizam “Esteiros” não têm mais do que o início da escola primária, quando o têm. Entre vários momentos em que o livro nos atinge emocionalmente, um dos primeiros é quando João (um miúdo alcunhado Gaitinhas pela sua propensão a imitar os instrumentos musicais do coreto), filho de um pai que se ausentou para perseguir uma ideia bem intencionada mas irrealista e de uma mãe que está a morrer, recebe a notícia de que vai ter de renunciar ao seu sonho de continuar os estudos, para ir trabalhar. A partir daí, os encontros com o seu melhor amigo da escola, filho do grande proprietário local, tornam-se dolorosos, para não dizer impossíveis. Num texto que prima pela economia narrativa, Pereira Gomes consegue atribuir verdadeira individualidade a cada criança do grupo, sem sequer precisar de os descrever fisicamente. Uma suposição inevitável é que não teriam o ar saudável, bem alimentado e bem vestido em tempos visto numa reconstituição da RTP. Se João é o intelectual do grupo — o único que consegue contar até mil, portanto encarregado de contar o produto de roubos de fruta que os miúdos vão fazendo — Gineto é o líder, o miúdo rebelde que desafia a sociedade e recusa o seu destino marcado à nascença, acabando por não conseguir escapar aos castigos reservados para pessoas como ele. Os restantes incluem o Maquineta, um miúdo que sonha ir trabalhar nas máquinas da Fábrica Grande (que arruína o negócio do telhal onde laboram os miúdos), e Sagui, uma criança de rua que jamais conheceu os pais e não sabe o seu nome verdadeiro, ou sequer a idade que tem.

O estilo pode não ser perfeito, com lugares-comuns e ecos de sermão, mas nada disso incomoda, pois está sempre ao serviço da história e da sua dimensão psicológica

Andam todos pelo fim da infância/início da adolescência, ou seja, algures entre os dez e os doze, o que os predispõe para começar a desejar certo tipo de aventuras, incluindo a descoberta do sexo, numa existência que os levava a tornarem-se homens rapidamente, sem deixarem de pensar como crianças. A personagem da Doida, uma mulher com quem todos acabam envolvidos, podia ter sido uma criação de Fellini, num registo diferente. Aqui é mais um elemento de denúncia dos efeitos da miséria, ou seja, mais um pedaço da tragédia.
Numa obra que assume um propósito de denúncia social, o risco evidente é que a narrativa assuma um carácter quase automático, caricatural. Embora haja elementos disso nalguns personagens de “Esteiros” — em particular o homem rico que diz à mãe desesperada do Gaitinhas que já há doutores a mais e fazem falta operários, portanto ele não tem razão nenhuma para ir estudar —, de um modo geral mesmo essas passagens são convincentes. Pessoas em posições de poder e privilégio de facto falavam assim, e continuam a falar: qual turistas que acorrem de longe a contemplar inundações assassinas em lugares de miséria e dizem atrocidades como as que Pereira Gomes põe na boca dalguns desses espécimes. Muitos de nós, numa altura ou noutra, já teremos emitido frases parecidas a propósito de misérias que sentimos como distantes, até sem dar por isso. “Esteiros” não retira a sua força dessas caricaturas da realidade, ou realidades caricaturais, mas da verdade narrativa e da qualidade da invenção em tudo o resto. O estilo pode não ser perfeito, com lugares-comuns frequentes (“a sinfonia lúgubre do vento”, “o nevoeiro, cerrado como a noite”, etc.) e ecos de sermão (“o lar falto de pão e o telhal farto de trabalhos”), mas nada disso incomoda, pois está sempre ao serviço da história e da sua dimensão psicológica, e de qualquer modo é sintético. O importante são outras coisas. Nas quatro partes do livro, correspondentes às estações do ano, surge um panorama de humanidade muito rico, com espaço também para a alegria e a fantasia, por exemplo quando o grupo vai ao cinema: “Os rapazes fizeram comentários soezes e escolheram melhor lugar. Gaitinhas escondeu-se atrás deles, para que o Arturinho, empertigado no camarote, não lhe visse os rasgões do fato. Teve desejos de lhe desmanchar o cabelo nédio com uma das bolas de papel que Gineto atirava da galeria. Mas as luzes extinguiram-se, e Tim McCoy foi recebido com salvas de palmas. Voltou o sussurro, como ladainha de fiéis. Todos compreendiam agora por que o cowboy arrebatara aos bandidos a menina da diligência. Gineto lembrou-se de Rosete e os companheiros desejaram a Doida. De vez em quando, estrugiam palmas e berros de entusiasmo, que os garotos da rua ouviam lá fora, atrás da porta fechada. (...) Aproximava-se o momento culminante em que o herói iria defrontar o chefe dos bandoleiros. Os rapazes mexiam-se nas cadeiras, sustinham a respiração. Gaitinhas roía as unhas, e, sem saber porquê, tomava partido pelos bandidos.” Mesmo na mais sacrificada das infâncias, há moedas de circulação universal que conservam o seu valor.

 https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2529/html/revista-e/culturas/livros/meninos-do-lodo


Filipe Chinita - ou de um

* Filipe Chinita

ou
de um 
- p'la segunda vez -
'fracass(ad)o'
.
nada...
nada haveis 
entendido de mim
- apesar 
de vo-lo ter dito... vezes  sem conta! -:
eu 
só voltei 
para monte mor
de aberto cabriolet.em lágrimas
- de inteira perda.de mim... 
lembro-me... como se hoje! 
as lágrimas escorrendo-me
no rosto e indo no vento -
para fora de minha casa 
e para fora de lisboa 
- a 13 de março 
de 2000 -
só
apenas
por amor.de ti.de vós!
minha (nova) família...
.
e 
para 
nunca mais... 
- depois da derrota sofrida 
pela tua extemporânea 
morte -
nunca mais! ter 
de (mais) viver
sob 
a - sempre - 
insegura
pata do 
capital
ismo
.
mas 
nada! haveis
entendido de/sobre mim...
por mais 
que vo-lo tenha repetido:
que 
eu só queria... 
ter-vos de amor
num trabalho seguro e em paz
em que (vos) pudesse
sempre d(o)ar...
o melhor
de
mim
até 
ao fim 
da vida... minha
_______________________________
que em tudo 
o que de mim vos dei... perdi... 
e esta foi e é a única
dura realidade
que vivo... 
eu!
pois vós...
nem por nada! haveis... dado
.
fj
12.25
17.04.2021
de 
um.só
fôlego.de dor
.
afinal
só me haveis dado...
um ainda mais precário... capitalismo
de 
recibos verdes 
e de sem trabalho algum...
nem sequer fundo de desemprego
ao fim de dez anos! e 4 meses 
de inteira... dádiva 
mas 
só aquela...
de que me haveis.vós 
possibilitado 'usufruir'
porque eu tinha 
'um sem fim' 
de mais... a 
dar-vos
mesmo que 
a zero...
custo
de
mim
________________________
não
as lágrimas 
nuncas as haveis visto
mas rolaram-me.concretas.
salgadas.na ponta da (minha) língua

Filipe enviou a mensagem: 17 de abril  às 13:12

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Filipe Chinita - o humano e o trabalho

* Filipe Chinita

o humano e o trabalho
.
deixar um homem sem trabalho na força da vida!*
é a maior e a mais sacana humilhação 
que em vida (lhe) 
podem 
fazer
.
e 
mui mais... 
tendo ele família e casa a sustentar
.
só sanguinários assim podem 
proceder para com um outro
e quem quer
que ele
seja
.
isto 
bastaria...
para todos!!!!!!!! 
sermos contra o capitalismo
.
um 
homem 
sem trabalho 
fica completamente destruído 
por dentro 
de 
si 
e 
fica também!
sem qualquer liberdade
e sem qualquer... poder
de (poder) 
decidir
de 
si
.
é 
só... 
a cousa 
mais infame 
e mais sem vergonha
que podem fazer a alguém
.
mas fazem! fazem-no
. 
e até! a alguém 
como 
eu
.
pasme-se!
da demente mente... de tais gentes
.
sem 
a minha capacidade de resistir
sem 
a minha escrita
sem 
o meu amor... ao.s outro.s 
e à minha in.comum 
causa
sem 
a minha sempre instante dádiva
há muito que teria endoidecido
ou me teria suicidado... 
como outros 
tentaram
fazer
.
e
assim...
(me) destruíram a toda a vida.
mas não! a 
mim
.
toda a minha vida.
a  minha única! família.
o meu amor de 20 anos!
perdendo
eu
tudo 
de mim!
.
tudo 
o que na vida erguido havia.
tudo.
absolutamente tudo!
e ainda se regozijam
felizes.tontos...
da vida
sem vergonha 
alguma
de 
si.mesmos...
.
fj
12.37
16.04.2021
.
de 
um.só 
folego.
de humana indignação
.
sim... 
de humana! 
porque infelizes.mentes!
nem todos - ainda - 
humanos 
somos
.
e 
sem 
aprendermos 
a nos colocar
 no lugar do 
outro... 
nunca! 
o viremos...
a ser
* e quem diz um homem.diz uma mulher
13:12

Filipe enviou a mensagem: 16 de abril às 21:23

António Guerreiro - Teoria da vergonha

* António Guerreiro

16 de Abril de 2021, 10:35

Há um aspecto que merece ser pensado no comportamento dos governantes e pessoas poderosas julgados e condenados por crimes cometidos no âmbito da sua actividade pública: mesmo depois de provada a sua culpa, não aceitam a vergonha e parecem eximir-se ao aspecto social, à partilha comunitária de valores, que é a premissa dessa tonalidade emotiva que se chama vergonha.

Digo “vergonha” e não “culpa”, pensando na crítica que o jurista alemão Carl Schmitt fez à redução da culpa, enquanto conceito fundamental do direito penal, a uma categoria psicológica. Na definição puramente jurídica de Schmitt, não existe culpa se ela não for punida. No final de O Processo, de Kafka, podemos perceber que Josef K. se esforçou por conseguir salvar não a sua inocência, mas a sua vergonha. No livro do Génesis, a vergonha é a punição divina que Adão sofre por ter transgredido a proibição de comer o fruto da árvore do conhecimento. Perante o olhar de Deus, Adão toma consciência da sua presença como corpo nu. Sentir vergonha é sentir-se pequeno ou mesmo ridículo, exposto nos seus erros e fraquezas à vista de todos e, sobretudo, à vista de si próprio. Uma reminiscência da cena bíblica, primordial, que liga a vergonha à nudez é um sonho recorrente que quase todos conhecem: estamos num sítio público e de repente damo-nos conta de que estamos nus e somos vistos. Sentimos então uma vergonha exagerada, insuportável, que muitas vezes nos faz acordar. A vergonha não deriva, como defendem os moralistas clássicos, de uma falha em relação à qual tomamos a devida distância. Não, a vergonha (e poderíamos citar aqui o filósofo Lévinas, que a este sentimento dedicou algumas páginas em De l’évasion) advém da incapacidade de fugirmos de nós próprios, da impossibilidade radical de nos escondermos (dos outros e de nós), expondo assim a nossa intimidade última, o nosso ser total, na sua expressão mais brutal.

Porque é que estas pessoas a que me referi no início parecem não sentir vergonha? Ou porque entraram no delírio que cria um ecrã, ou porque as circunstâncias actuais dos processos e julgamentos públicos em vez de entregar o autor dos crimes a um íntimo inassumível (sejamos directos: um primeiro-ministro que se deixou corromper é algo intimamente inassumível) entrega-os ao espectáculo público, mediático, do processo. E, aqui, o aspecto social enquanto premissa da vergonha fica sujeito a outro regime, onde vergonha, intimidade e imoralidade não vigoram. Como podemos alguma vez esperar que a vergonha, isto é, a pura forma do mais íntimo sentimento do “eu”, possa emergir nas representações judiciárias de comediantes, mártires, mediadores públicos e clandestinos, espectadores em fúria? Quando o próprio processo se transformou numa sentença, a culpa dilui-se e torna-se uma fantasmagoria.Poderíamos pensar que a mediatização dos processos em que estão envolvidos os chamados “poderosos” (isto é, aqueles que têm os meios para usarem as manhas e subtilezas da formalidade judicial) submeteria estes a um opróbrio público mais pesado, a uma penalização social mais forte. Mas, como é fácil verificar, não é isso que acontece. A lógica mediática é a da representação e é criadora de álibis. Perante ela, face ao seu poder e às suas encenações grandiosas e romanescas, todos têm oportunidade de se representarem como inocentes ou de serem suficientemente espertos para aproveitar as prerrogativas que por esse meio lhes são oferecidas, usando como remédio o veneno que lhes foi ministrado.

Deste estado de coisas, da anulação da vergonha pela representação teatral, no palco mediático, da inocência subjectiva do herói, temos um exemplo com desfecho triunfante nos últimos dias. O ponto a que chegou todo o processo pode ser sintetizado desta maneira: em vez da personagem cómica que se purifica da culpa mostrando até ao fim a sua vergonha, temos um herói trágico que não confessa a sua culpa nem aceita a vergonha. Quando ficamos entregues a esta oposição entre a culpa cómica e a culpa trágica, algo de muito errado e pernicioso aconteceu. Sem redenção nem expiação.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Gabriel Contino, o Pensador - Pega, Ladrão!

* Gabriel o Pensador


"- Vossa Excelência, agora explique, mas não complique!
- Vossa Excelência, eu já expliquei! Eu não vi essa lista.
Eu afirmo com a mais absoluta certeza e sinceridade
Que eu nunca vi essa lista!
Não sei dessa lista, não quero saber e tenho raiva de quem sabe!
Quem disser que eu vi essa lista é um mentiroso,
E vai ter que provar! E se provar, vai se ver comigo!"

Pega ladrão! No Governo!
Pega ladrão! No Congresso!
Pega ladrão! No Senado!
Pega lá na Câmara dos Deputados!
Pega ladrão! No Palanque!
Pega ladrão! No Tribunal!
É por causa desses caras
Que tem gente com fome
Que tem gente matando
Etc e tal...

Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega
Pega, pega ladrão!
A miséria só existe porque tem corrupção!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega
Pega, pega ladrão!
Tira do Poder, Bota na prisão!

E você que é um simples mortal
Levando uma vidinha legal
Alguém já te pediu 1 real?
Alguém já te assaltou no sinal?
Você acha que as coisas vão mal?
Ou você tá satisfeito?
Você acha que isso é tudo normal?
Você acha que o país não tem jeito?
Aqui não tem terremoto
Aqui não tem vulcão
Aqui tem tempo bom
Aqui tem muito chão
Aqui tem gente boa
Aqui tem gente honesta
Mas no poder é que tem gente que não presta

"Eu fui eleito e represento o povo brasileiro.
Confie em mim que eu tomo conta do dinheiro."

Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega
Pega, pega ladrão!
A miséria só existe porque tem corrupção!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega
Pega, pega ladrão!
Tira do Poder, Bota na prisão!

Tira esse malandro do poder executivo!
Tira esse malandro do poder judiciário!
Tira esse malandro do poder legislativo!
Tira do poder que eu já cansei de ser otário!
Tira esse malandro do poder municipal!
Tira esse malandro do governo estadual!
Tira esse malandro do governo federal!
Tira a grana deles e aumenta o meu salário!

"- Tá vendo essa mansão sensacional?
Comprei com o dinheiro desviado do hospital.
- Ah! E o meu cofre cheio de dólar?
É o dinheiro que seria pra fazer mais uma escola.
- Precisa ver minha fazenda! Comprei só com o dinheiro da merenda!
- E o meu filhão? Um milhão só de mesada!
E tudo com o dinheiro das crianças abandonadas.
- E a minha esposa não me leva à falência
Porque eu tapo esse buraco com o rombo da Previdência.
- Vossa excelência, cê não viu meu avião?
Comprei com uma verba que era pra construir prisão!
- E a superlotação?
- Problema do povão! Não temos imunidade? Pra nós não pega não."

Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega
Pega, pega ladrão!
A miséria só existe porque tem corrupção!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega
Pega, pega ladrão!
Tira do Poder, Bota na prisão!

A miséria só existe porque tem corrupção
Desemprego só aumenta porque tem corrupção
Violência só explode porque tem tanta miséria e desemprego
Porque tem tanta corrupção!

"Todos que me conhecem sabem muito bem que eu não admito
O enriquecimento do pobre e o empobrecimento do rico."

E você, que nasceu nesse país
E que sonha e que sua pra ser feliz
Você presta atenção no que o candidato diz?
Ou cê vota em qualquer um, seu babaca?
E depois da eleição você cobra resultado?
Ou fica ai parado de braço cruzado?
Cê lembra em quem votou pra deputado?
E quem você botou lá no Senado?

Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega
Pega, pega ladrão!
A miséria só existe porque tem corrupção!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega!
Pega, pega ladrão!
Pega, pega
Pega, pega ladrão!
Tira do Poder, Bota na prisão!

"- Como vocês suspeitavam, eu realmente vi essa lista.
Eu vi, mas não li. E digo mais, eu engoli.
Pra que ninguém lesse também. E foi com a melhor das intenções.
Burlei a Lei, mas com toda honestidade!
- Vossa Excelência engoliu a lista?
- Bem, eu a coloquei para dentro do meu organismo,
Num lugar seguro e escuro. De modo que pra todos os efeitos,
Sendo assim desta maneira, eu me reservo ao direito
De não dizer nada mais. Tá tudo publicado nos anais.
- Mas ontem o senhor falou que não viu a lista.
Hoje o senhor fala que viu a lista. E amanhã o senhor...
- Ah! Amanhã ninguém lembra mais!
E o caso da lista vai entrar prá lista dos casos,
Os casos que ficaram pra trás..."


Composição: Gabriel O Pensador/Tiago Mocotó/Aninha Lima/Liminha
Música gravada no disco Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo) quinto álbum de estúdio do rapper Gabriel o Pensador, lançado em 2001.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

José Régio - Surge Janeiro frio e pardacento

* José Régio

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

 
Soneto escrito em 1969.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Filipe Chinita - cousas

* Filipe Chinita 


cousas 
da estranha mão do 'destino'
.
desde 
dia 4 de Setembro de 2018
- antes 
d' avante! de 'vermelho.eu' 
(em que ainda levei 
o 'meu irmão' 
carlos... 
em carro 
também ele emprestado) -
que 
me encontro eu aqui... junto 
à quasi.contínua passagem 
dos comboios
o que 
mui tenho a agradecer-te
- para todo o sempre! 
e sem paga possível -
.
mas
convenhamos
que não deixa de ter graça...
que no mesmo momento
em que 
fui desapossado 
da minha vida!
do meu amor!
da minha casa (de vida)
de carro.s...
e de tudo 
de mim 
se 
tenha 
publicado 
'vermelho eu.
colectiva.mente.por esse alentejo a.fora'
de 440 páginas de (não) 
poesia
.
fj
19.16
13.04.2021


Filipe enviou a mensagem: 13 de Abril às 19:46