sábado, 12 de agosto de 2023

António Guerreiro . Deus ex Media

 * António Guerreiro

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA  

11 de Agosto de 2023 (Público)

A relação entre os media e a religião, ou antes, entre os media e o catolicismo romano, é um ângulo de análise imperativo para perceber o acontecimento da Jornada Mundial da Juventude. Ali, até os confessionários foram concebidos e “instalados” (no sentido em que se fala de uma instalação artística) para serem telegénicos e resultarem numa “bela” exibição fotográfica e televisiva: eis o eloquente emblema da negociação entre o público e o privado, em que o primeiro goza de grandes vantagens. Esta mediatização, de preferência sob a forma da televisualização, é um fenómeno aceite e promovido nas cerimónias cristãs, mas não é uma prática judaica nem islâmica.

O filósofo Jacques Derrida dedicou a este assunto uma longa intervenção, num colóquio em Paris, em 1997, que teve por título “Surtout pas de journalistes!” (“Sobretudo nada de jornalistas!). Tal injunção, imagina Derrida recorrendo a uma óbvia anacronia, teria sido aquela que Deus, do Velho Testamento, inculcou tacitamente em Abraão, quando o mandou subir ao monte onde deveria sacrificar Isaac, o seu único filho. Para designar o fenómeno fundamentalmente cristão da mundialização televisiva da religião, Derrida engendra um neologismo que evoca a sede romana: “mundialatinização”. No entanto, esta “mundialatinização” está sempre ligada, na sua produção, a fenómenos nacionais. Isso tornou-se muito óbvio na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa. Derrida sugere até que o tão famoso “regresso do religioso” tem de ser avaliado e compreendido em função destas manifestações eminentemente mediáticas.

Como não podia deixar de ser, há um preço a pagar por isto, que a televisão, sobretudo, cobra com juros altíssimos. Consistem esses custos no triunfo do Kitsch. É conhecida uma frase do gramático Pierre Fontanier (1765-1844), no seu tratado sobre as figuras do discurso, sobre os tropos, onde ele diz, ecoando uma afirmação de Boileau, que se produzem mais figuras de estilo, num só dia, no mercado parisiense de Les Halles, do que em toda a Eneida. Do acontecimento religioso da semana passada podemos dizer o mesmo: produziu-se mais Kitsch, em Lisboa, durante uma semana, do que em décadas de produção literária e artística.

O Kitsch monumental esteve bem patente nos palcos-altares e em toda a parafernália para ser tele-vista. Quem conhece os gostos e os instrumentos do Kitsch ideológico, encontrava ali material para frutuosas comparações. Mas se quisermos analisar o acontecimento quanto ao fluxo de Kitsch produzido, temos de ir além da concepção tradicional que vê esse conceito por um prisma meramente estético que usamos para identificar os objectos de uma arte de massa, estereotipada, de “mau gosto”. Devemos uma noção de Kitsch muito mais alargada, que não se fica pelas propriedades formais de certos objectos, ao escritor vienense Hermann Broch, que foi ao ponto de elaborar filosoficamente o que seria o Kitsch como “modo de vida”, abrindo assim essa noção ao registo mais vasto da atitude existencial e a um tipo de actividades e experiências humanas. Aquela emoção estética a que assistimos, a satisfação emocionada com que cada imagem, cada testemunho, cada relato, cada comentário, cada citação, diziam uma única coisa, “vejam como é belo e emocionante!”, é um gesto que consiste em olhar-se ao espelho do embelezamento, fazendo surgir imediatamente a mentira do Kitsch.

Este “vejam como é belo!” ou “vejam como nos satisfazemos de emoção pela emoção que nós próprios produzimos” é uma ilustração perfeita do modo como Broch definiu o Kitsch: a subversão da ética pelo efeito estético. Não é o acontecimento em si que é Kitsch, não estou a sugerir que um acontecimento religioso como aquele que teve lugar em Lisboa tem, em primeiro lugar, um vínculo necessário com o Kitsch.

Kitsch é a sua encenação, o modo como ele é produzido e reproduzido pelos media, isto é, o discurso e as imagens de segundo grau que ele engendra e que, muito embora fazendo parte da lógica da mediatização cristã, muito facilmente vão para além dos seus próprios fins. Há momentos em que o Kitsch se pode tornar uma coisa nauseabunda e é difícil imaginar que a própria hierarquia da Igreja não o reconheça e não se sinta incomodada por ela. A vida Kitscht visa fazer coincidir a esfera do ideal com a esfera da realidade, aquilo a que Broch chamou “a ligação entre o céu e a terra”. Momentos desses, sobretudo nas televisões, fluíram ao longo da semana numa torrente imparável. Foi um dilúvio.

Livro de recitações

“Cada um fala a sua língua, mas entendemo-nos todos porque é a linguagem do amor”
In Expresso online, 3/08/2023

Tomo, um pouco ao acaso, este título de uma breve reportagem do Expresso onde se citam as declarações de um “peregrino” a uma jornalista. Kundera, que seguiu a lição de Hermann Broch, para a analisar o “Kitsch ideológico” dos regimes totalitários, concluindo que no mundo idealizado do Kitsch “a merda não existe”, deu este exemplo: uma criança a correr feliz atrás de uma bola num prado florido não tem em si nada de Kitsch. O Kitsch nasce a partir do momento em que alguém diz ou representa assim esse acontecimento: “Vejam como é belo uma criança a correr atrás de uma bola num prado florido!”. Este redobramento, que visa relatar uma verdade emocionante, através do embelezamento, da mentira da linguagem emocional estereotipada e portanto induzida, é aquele que podemos ver neste título (a não ser que ele tenha um sentido irónico), que é apenas uma gota no vasto oceano do Kitsch produzido ao longo de uma semana pela

https://www.publico.pt/2023/08/11/culturaipsilon/cronica/deus-ex-media-2059609

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Carlos Matos Gomes - A religião do Ocidente não é a deste papa

 * Carlos Matos Gomes

2023 08 07

Ese algum ou alguma dos e das coristas que matraquearam vulgaridades e sopraram bolas de sabão sobre a Jornada Mundial da Juventude tivesse perguntado qual a causa pela qual os jovens participantes estariam dispostos a lutar?

Os grandes eventos devem suscitar interrogações. Conta-se que quando Moisés desceu do Sinai com a tábua dos 10 Mandamentos, anunciando que estes lhe haviam sido entregues por Deus, um dos assistentes lhe terá perguntado porque não viera Deus em pessoa transmiti-los. A história não relata o que aconteceu ao interpelante.

As religiões são sempre a transmissão de uma mensagem através de um mensageiro. Os céticos consideram que os mensageiros são os autores das mensagens. e procuram decifrar as mensagens. Os crente acreditam no que os reconforta, o mensageiro é apenas um cantor de canções de embalar. As suas palavras são meros sons que lhes ameniza as angústias. Nas religiões das sociedades mais complexas os crentes que constituem a massa não têm direito de fazer perguntas incómodas aos grandes mensageiros. Resta-lhes ouvir e acreditar no que já acreditavam. Mas há, ou haveria a possibilidade de perguntar o que pensa quem está a meu lado. Não ouvi nem vi alguém a perguntar.

Eu perguntaria o que pensam os jovens católicos (em particular dos franceses) dos jovens suburbanos que participaram nos incêndios e conduziram os motins de há um mês nas cidades francesas. E o que pensam os jovens católicos (em particular os norte-americanos) do embargo a Cuba, da invasão do Iraque, do Afeganistão, e da Síria, esta que até tem uma respeitável comunidade cristã, e o que pensam os jovens italianos sobre os migrantes do norte de África, e aos jovens de África perguntaria o que pensam da extração de matérias-primas dos seus territórios por grandes companhias ocidentais e assim por diante, incluindo o que pensam os sul-americanos da desflorestação da Amazónia ou do genocídio dos indígenas. Havia tantas perguntas a fazer aos jovens que vieram a Lisboa!

Mas no. Os grandes meios de comunicação não estão interessados nas causas das coisas, mas no espetáculo das coisas. Reduziram a interpretação de um grande acontecimento social e político ao mais rasteiro folclore. À semelhança, aliás, do que fazem com o futebol, outro grande fenómeno social, um fenómeno social total, como as religiões, motivador de emoções, gerador de grandes negócios, de interesses de toda a ordem e que é reduzido pelos fabricantes de alienação a qualquer coisa do género: vinte e dois tipos/as de calções a correr atrás de uma bola. Perguntar a um jovem participante nas JMJ porque veio a Lisboa e ficar todo contente ao ouvir a resposta: Ver o papa, equivale a interpelar um adepto do futebol e perguntar-lhe porque veio e ele responder: Vim ver o Ronaldo. As horas em que as câmaras de televisão seguiram o carro do papa são as mesmas em que seguem o autocarro das equipas de futebol a caminho do estádio! Não é um acaso, é uma estratégia de neutralização de questões.

Não existe inocência nas abordagens que a comunicação social de massas faz aos grandes eventos, nem sequer a da incompetência dos repórteres e diretores de comunicação. O primarismo das questões é deliberado, nem é novo, aliás. Comparar o papa da Igreja Católica a uma estrela do futebol até tem antecedentes anedóticos aqui em Portugal, na figura do comendador Santos da Cunha, governador civil de Braga, beato e queirosianamente populista, que numa celebração do 28 de Maio de 1926 se virou para Salazar e lhe atirou com esta pérola: «Vossa Excelência é o Eusébio do governo!» Os atuais comunicadores, com Marcelo Rebelo de Sousa à cabeça não desmerecem de Santos da Cunha bem poderiam ter dito: Vossa santidade é o Messi da nossa Igreja!

Mas a JMJ foi e é mais do que aquilo que as instituições de poder político e religioso pretendem que os cidadãos dela se apercebam. A mensagem do papa esteve e está em contra corrente da ideologia dominante no Ocidente. Daí tudo ter sido feito para a silenciar debaixo do ruído dos fait divers, das bênçãos das criancinhas e dos atiradores nos telhados.

A mensagem do papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude centrou-se no “outro”, nos outros, na ideia de aceitar os outros, de servir os outros, numa proposta de generosidade. Esta mensagem é herética, porque a ideologia dominante no Ocidente é centrada no “eu”, no individualismo. Por isso a mensagem centrada no outro foi diluída pelos intérpretes numa calda de vulgaridades e de ridículo que começou logo com a sacudidela de Marcelo à chegada. Estava dado o mote pelo mais alto magistrado da Nação Católica aos jovens católicos. O papa é um boneco. Pensem no papa como uma representação do vosso mundo e não como um estímulo para questionarem os seus fundamentos.

Gostaria de perguntar o que pensam os jovens vindos para JMC do facto de Adam Smith, o filósofo considerado o pai das teorias económicas do capitalismo liberal, a religião dominante à escala global imposta pelo Ocidente cristão, autor de «A causa da riqueza das nações» considerar que o egoísmo das pessoas redunda no bem comum. Que o egoísmo é, então, o motor da sociedade cristã!

Adam Smith não se ficou pela simples enunciação do valor cristão do egoísmo. Explicitou as virtudes do individualismo e do egoísmo: “Na verdade, o indivíduo geralmente não tem intenção de promover o interesse público, nem sabe o quanto o promove. Ao preferir sustentar a atividade doméstica e individual que a destinada à sociedade exterior, ele tem em vista apenas a sua própria segurança; e, ao dirigir essa atividade de maneira que a sua produção seja a de maior valor possível, ele tem em vista apenas o seu lucro. O indivíduo é guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção.”

Isto é, para o grande teorizador do capitalismo em que vivemos, que tem por referência moral o cristianismo nas suas várias igrejas, incluindo a católica romana, “o facto de este fim (o lucro da sociedade) não fazer parte da intenção dos indivíduos nem sempre é o pior para a sociedade. Ao procurar o seu próprio interesse, o indivíduo frequentemente promove o da sociedade de maneira mais eficiente do que quando realmente tem a intenção de promovê-lo.”

Em resumo, o modelo de sociedade que os cristãos — Adam Smith era um cristão fervoroso — impuseram o mundo enaltece o egoísmo como meio de realização individual e o bem da sociedade apenas é considerado um eventual ganho complementar. As faculdades de economia das universidades católicas e cristãs em geral assentam as suas lições na teoria do egoísmo de Adam Smith e não na generosidade.

O que pensam estes jovens católicos do modelo de sociedade fundado por Adam Smith e que até ao presente tem aprimorado e radicalizado os seus princípios de lei da selva e de fé na “mão invisível”, a metáfora que se tornaria a figura mais famosa do liberalismo económico, da concorrência, da vitória dos mais fortes e com menos escrúpulos?


https://cmatosgomes46.medium.com/a-religi%C3%A3o-do-ocidente-n%C3%A3o-%C3%A9-a-deste-papa-c018f5a01245

sábado, 29 de julho de 2023

Daniel Oliveira - Colaboradores de todo o mundo, uni-vos!

SEMANÁRIO#2648 - 28/7/23

* Daniel Oliveira


Contando a história de um jovem chefe de sucesso que, no meio de uma tragédia pessoal, troca a sofisticada cozinha de um restaurante de três estrelas pela recuperação de uma decadente casa de sandes da família, “The Bear” foi o grande sucesso das séries lançadas no último verão. O êxito estrondoso, ampliado na segunda temporada, esconde as condições miseráveis em que vivem alguns dos fazedores deste sucesso. Sem dinheiro para manter o aquecimento do seu minúsculo apartamento em Brooklyn, Alex O’Keefe, o redator da equipa de argumentistas que deu cor à trama, teve de escrever a sua parte do episódio final da temporada numa biblioteca pública. Quando foi receber o prestigiado prémio da Writers Guild of America, tinha saldo negativo na conta. Familiares e amigos arranjaram-lhe o smoking, mas o laço teve de ser comprado a crédito.


O glamour da televisão tem como motor uma mão de obra precária que dificilmente consegue pagar as contas ao fim do mês. Quanto mais o seu trabalho é reconhecido e culturalmente influente, pior são as suas condições de vida. O modelo de negócio dos estúdios de streaming teve um efeito disruptivo na forma de fazer televisão. Onde uma série típica nos canais tradicionais tinha 20 a 22 episódios, o streaming aposta em temporadas de oito a dez. O resultado para o espectador são níveis de produção idênticos ao dos melhores filmes, com uma atenção ao detalhe e direção artística impensáveis até ao aparecimento da HBO. O resultado para quem os faz foi uma redução de 40 para 20 semanas de tempo médio de trabalho em casa série, num meio onde se é pago à peça. E se dantes recebiam por cada reposição nas televisões, agora, com o streaming, recebem apenas uma vez. Foi para reverter a degradação das condições contratuais e salariais que os argumentistas entraram numa greve a que se juntaram os atores e que vai durar meses.

Metade dos argumentistas, do mais novo ao mais premiado, recebem o valor mínimo acordado com o sindicato. Há uma década, eram apenas um terço. O vencimento caiu em 23% no mesmo período. Quase 90% dos atores recebem menos de 26 mil dólares por ano, o mínimo para ter direito a seguro de saúde. Não há dinheiro para mais? Como em todo o lado, dinheiro não falta. Há é quem, aproveitando este momento disruptivos, fique com grande parte do bolo. Só contando os últimos cinco anos, o CEO da Warner Bros recebeu 498 milhões de dólares em salário e ações, o da Netflix 209 milhões e o seu número dois 192 milhões. Na Walt Disney, que anunciou um programa de cortes e despedimentos, Bob Iger acumulou 195 milhões. Quantos argumentistas sem cheta são precisos para fazer um CEO milionário?

Não são a tecnologia e o modelo de negócio que determinam as perdas ou ganhos. É a capacidade de mover a balança do poder. Até em Hollywood, onde se inventou o “sonho americano”, o percebem

A intenção de reduzir os direitos e o rendimento distribuído aos criadores intelectuais, agora com o recurso à inteligência artificial, não podia ser mais clara. Apesar de não ser a razão mais relevante para esta greve, também contou a pretensão, anunciada pelos estúdios, de que os atores cedam os direitos para a utilização ilimitada no futuro da sua voz e imagem. É uma medida que não afeta os principais nomes, que continuarão a ganhar bem e a ser chave em qualquer produção, mas arrisca-se a encher de réplicas de IA as dezenas de pequenos papéis que dão vivacidade a qualquer série ou filme. Vitais para o ganha-pão e possível ascensão na carreira a milhares de atores. Os mesmos estúdios que movem montanhas para proteger os seus direitos sobre propriedade intelectual querem retirar direito de identidade e imagem a quem está na origem da propriedade intelectual que tão zelosamente defendem.

Hollywood transformou-se numa parte da gig economy, em que todos são tratados como estafetas da Uber. Acontecerá o mesmo até aos que se julgam protegidos por profissões até hoje privilegiadas. Se nada fizermos, avanços tecnológicos como a inteligência artificial não servirão, como podem servir, para nos libertar de atividades pouco interessantes ou melhorar o nosso desempenho, mas para concentrar ainda mais a riqueza. Hoje, como no início do século XIX, não vale a pena destruir as máquinas. Não é a tecnologia que nos escraviza, é a relação de poder que lhe é prévia. A greve em Hollywood é, como em qualquer fábrica, sobre essa relação de poder.

Com o teletrabalho, meses em casa e pleno emprego, a pandemia mudou a noção de trabalho. Não é por acaso que a ressaca coincide com uma onda de sindicalização nos EUA. A imprensa fala no verão de todas as greves. Para lá dos piquetes que se tornaram comuns nas lojas da Starbucks ou da McDonald’s, mais de 650 mil trabalhadores estão em greve ou em processo de discussão nesse sentido, incluindo sectores como a indústria automóvel, camionistas, assistentes de bordo da American Airlines ou trabalhadores dos hotéis em Los Angeles. Seja com operários e mineiros ou estafetas e motoristas da Uber, investigadores precários ou argumentistas e atores, chamem-lhes “trabalhadores” ou “colaboradores”, não são a tecnologia e a mudança de modelo de negócio que determinam as perdas ou ganhos de quem vive do seu trabalho. É a capacidade de resistir e mover a balança do poder. Até em Hollywood, onde se inventou a fantasia do sonho americano, o percebem.

https://expresso.pt/opiniao/2023-07-27-Colaboradores-de-todo-o-mundo-uni-vos-

sábado, 22 de julho de 2023

Carlos Matos Gomes - Curiosidade pessoal — vale a pena?

* Carlos Matos Gomes

2023 07 21

São habitualmente atribuídas a Pablo Neruda as frases de um poema que afirma morrer lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo, quem destrói o seu amor-próprio. Que morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor, ou não conversa com quem não conhece.

Isto é, morre lentamente quem não é curioso.

Não há, segundo julgo saber, a certeza de ter sido Pablo Neruda o autor, mas quem escreveu o que aqui cito, deve ter razão. É bem capaz de ser verdade. Mas não é a verdade. Cada um tem direito a viver sem ser curioso, ou a ser curioso a seu modo. Ou até de seguir a curiosidade dos outros. O mundo está coberto de fiéis que acreditam na curiosidade de outros. Há muitas mais ovelhas do que pastores. São poucos os que procuram satisfazer a sua curiosidade por si. Implica correr riscos de ser herege, subversivo. E estes têm destino conhecido, só podem ter a curiosidade de saber como vão ser eliminados.

E o que acontece aos que perderam a curiosidade? Não me estou a referir aos céticos, aos que não acreditam em nada ou duvidam de tudo, aos descrentes, ou desiludidos, mas aos indiferentes, aos que adquiriram a arte dos faquires de levitar adormecidos e sem necessidades sobre os problemas do mundo, deixando-os para os curiosos.

Segundo a história da humanidade vendida nas enciclopédias, foi há cerca de 8 mil anos que os nossos antepassados iniciaram a sedentarização num processo conhecido como Revolução Agrícola, ou Neolítica. Isto quando o Sapiens deixou de ser nómada e passou a cultivar as terras e a domesticar animais, adquirindo o sentido e a necessidade da propriedade, da posse. Apesar de parecer um processo positivo para a sociedade e ter sido decisivo para definir nosso estilo de vida atual, originou todos os problemas que ainda hoje enfrentamos e que não resolvemos. De facto reduzido a um: o poder. Toda a curiosidade humana desde há milénios se concentra num ponto: como dominar os outros.

Sendo assim valerá a pena ser curioso se a curiosidade nada alterou no essencial do comportamento dos humanos desde os primórdios da humanidade? Mas será possível sobreviver sem curiosidade, se sem esta ficamos à mercê do poder e da violência da curiosidade dos outros? Fará sentido sermos curiosos se a nossa aventura na vida está tão pré pré-determinada quanto a de uma amiba, se resume a existir durante um curto espaço de tempo?

Vejo um anúncio da UNICEF — uma mãe esquelética com um filho esquelético ao colo. Há mais milhões de seres humanos como estes do que clientes da Coca Cola ou do MacDonald, rigorosamente sem nada, a não ser fome e sede. Os intérpretes dos deuses de algumas das grandes religiões do planeta garantem que os infiéis — todos os que não acreditam no deus verdadeiro, o seu — viverão eternamente assim. Pelo seu lado, os cientistas das mais elaboradas ciências garantem que toda a humanidade, incluindo os milionários, os banqueiros, os donos do petróleo, os senhores da guerra, ou os seus descendentes, morrerá assim, com eles mumificados em vida, num planeta ardente e seco.

Que valerá a nossa curiosidade e o nosso instinto de sobrevivência se a pequena percentagem dos humanos que se consideram mais evoluídos nem sequer consegue evitar morrer afogada nos sacos plásticos em que embrulha o que come e veste? Se os mais inteligentes seres da nossa espécie andam em busca de uma inteligência artificial mais poderosa do que a sua?

Sinto curiosidade com o futuro da humanidade? Não. Se há quem construa arranha-céus de centenas de metros no meio do deserto o que sinto é preocupação com o futuro dos que gerei e dos que me rodeiam!

Por fim, sinto receio dos grandes homens, porque desde sempre os que a humanidade considera grandes homens, a maioria dos que estão imortalizados em pedra ou metal e espalhados pelas arenas do planeta, são tipos catastróficos. Cada um escolha os seus. Eu temo os do presente e os do futuro. Não tenho qualquer curiosidade em saber o que farão, porque farão o que todos os antecessores fizeram!

Não há ninguém que admire? Dos do meu tempo há. Admirei Mandela e admiro Lula da Silva. O primeiro porque conseguiu com o seu exemplo dominar o ódio e o outro porque com a sua coragem está a libertar os mais explorados e a transmitir-lhes esperança. A minha curiosidade é saber até quando o deixarão viver.~

https://cmatosgomes46.medium.com/curiosidade-pessoal-vale-a-pena-f314df888382

quinta-feira, 20 de julho de 2023

José Pedro Teixeira Fernandes - O complexo militar-industrial, os think tanks e a guerra na Ucrânia.

ANÁLISE

* José Pedro Teixeira Fernandes

19 de Julho de 2023,

Nas democracias liberais, os think tanks são tipicamente expressões da sociedade civil (embora nem sempre) e dependem, naturalmente, de financiadores privados com diversas origens.


1. No seu discurso de despedida de 1961, o Presidente Dwight Eisenhower advertia os norte-americanos sobre os sérios perigos de um poder “mal colocado” ligado à ascensão da influência política do “complexo militar-industrial” dos EUA: “… Temos de nos precaver contra a aquisição de influência injustificada, procurada ou não, pelo complexo militar-industrial. O potencial para a ascensão desastrosa de um poder mal colocado existe e persistirá.”

O aviso de Eisenhower é um clássico. Foi inúmeras vezes citado para criticar a política externa dos EUA e a desnecessidade de intervenções militares, desde a guerra do Vietname nos anos 1960 e 1970 até à invasão do Iraque em 2003. Mais recentemente, o debate à volta das intervenções militares norte-americanas foi marcado por Ben Rhodes, antigo conselheiro adjunto de Segurança Nacional para as comunicações estratégicas do Governo de Barack Obama, que criou a expressão the blob (“a bolha”). Provavelmente, interage com o filme de ficção científica e terror com o mesmo nome (The Blob) dos anos 1950, realizado por Irvin Yeaworth e com Steve McQueen como protagonista. Nele anunciava-se uma bolha assassina como “Indescritível... indestrutível! Nada a pode parar!”.

Inicialmente o termo “blob” referia-se aos que apoiaram a decisão de invasão do Iraque, quer na área do Partido Republicano (como Robert Gates), quer na área do Partido Democrata (como Hillary Clinton). Pela sua boa sonoridade — e ironia cáustica —, rapidamente se tornou popular e amplificou o uso. Passou a designar o establishment da política externa e de segurança e defesa, ou seja, os que trabalham no governo, na indústria militar, nos meios académicos e think tanks da área. Este denegrir do establishment gerou controvérsia e naturais contracríticas. Para Hal Brands, Peter Feaver e William Inboden, “o establishment da política externa americana é a solução, não o problema”.

2. Recentemente, uma outra controvérsia estalou nos EUA, agora ligada ao financiamento de múltiplos think tanks pela indústria militar, tal como foi denunciado no estudo Defense Contractor Funded Think Tanks Dominate Ukraine Debate, assinado por Ben Freeman para o Quincy Institute for Responsible Statecraft. Segundo esse estudo (p. 3), nos EUA os think tanks “são um recurso de eleição para os meios de comunicação social que procuram opiniões de especialistas sobre questões prementes de política pública”. Todavia, “um número crescente de estudos tem demonstrado que os seus financiadores podem influenciar as suas análises e comentários.” Acrescenta-se ainda que “um desses debates diz respeito ao nível adequado de envolvimento militar dos EUA na invasão russa da Ucrânia”.

Desde a decisão ilegal e desastrosa de Vladimir Putin de lançar uma invasão em grande escala da Ucrânia, os EUA aprovaram cerca de 48,7 mil milhões de dólares em despesas militares. Apesar do risco bem real de que a escalada possa levar a um envolvimento militar directo dos EUA na guerra, “poucos think tanks analisaram criticamente este montante recorde de assistência militar”. Por sua vez, é também aí referido que os dez maiores think tanks dos EUA ligados à política externa e de segurança e defesa (p.12) — Brookings Institution, Carnegie Endowment for International Peace, Center for Strategic and International Studies, Wilson Center (Woodrow Wilson International Center for Scholars), RAND Corporation, Atlantic Council, Council on Foreign Relations, Center for American Progress, Center for a New American Security, Hudson Institute — são todos, de alguma forma, financiados por empresas ligadas ao sector militar.

Ainda segundo o mesmo estudo (p. 23), a grande maioria das referências nos media a think tanks em artigos sobre a guerra na Ucrânia provém de instituições “cujos financiadores lucram com as despesas militares dos EUA, com a venda de armas e, em muitos casos, directamente com o envolvimento dos EUA na guerra na Ucrânia”. Estará o debate sobre o fornecimento de armas à Ucrânia a ser manipulado? E que pensar do facto de o think tank que agora publicou este estudo (o referido Quincy Institute for Responsible Statecraft) ser financiado por um milionário liberal (George Soros) e por um milionário conservador (Charles Koch), os quais juntaram esforços para atacar a “ortodoxia em Washington de que o uso da força militar deve continuar a ser o principal instrumento do poder americano no mundo”?

3. Para analisar o problema com sobriedade e razoabilidade importa efectuar algumas considerações prévias. Seja nos EUA ou em qualquer outra parte do mundo, os think tanks são, por natureza, “laboratórios de ideias”, ou seja, são instituições que se dedicam a produzir e a difundir conhecimento, promovendo debates e publicação de estudos e artigos no espaço público, incluindo nos media. Assim, desempenham um papel de difusão de determinadas ideias e políticas públicas apresentadas como as melhores soluções. Um caso clássico é a RAND Corporation. Surgiu em 1948 para ligar o planeamento militar às decisões de investigação e desenvolvimento, impulsionada pela Douglas Aircraft Company, uma empresa aeroespacial que foi um dos principais fabricantes de caças a jacto e veículos espaciais.

A RAND apresenta-se como “uma instituição sem fins lucrativos que ajuda a melhorar a política e a tomada de decisões através de investigação e análise”. Na sua missão afirma também “ser amplamente respeitada por operar independentemente de pressões políticas e comerciais” e que os “valores fundamentais são a qualidade e a objectividade”. Todavia, o seu financiamento é não só privado, como governamental e do Exército dos EUA. Nas democracias liberais, os think tanks são tipicamente expressões da sociedade civil (embora nem sempre) e dependem, naturalmente, de financiadores privados com diversas origens. Pelas características próprias do Estado e sociedade norte-americanas e do seu modelo de democracia liberal — com grande espaço para os interesses privados, sejam empresariais ou de outro tipo —, estes “laboratórios de ideias” têm aí uma grande margem de manobra. Isso ocorre em áreas tão diversas como a defesa, o ambiente, o sector financeiro, a indústria farmacêutica ou outras.

4. Neste debate, como noutros similares, prevalecem duas posições extremadas que captam a opinião pública e se espalham pela Internet e redes sociais. Uma que vê estes “laboratórios de ideias” de uma forma particularmente benigna, ingénua ou não, como produzindo sempre um conhecimento objectivo e especializado de grande valor, próximo do ideal da neutralidade científica e em prol do bem comum. Uma outra coloca-se no extremo oposto, denegrindo, sistematicamente, até de forma absurda, tais instituições como fazendo parte de uma grande conspiração. Vê-as como puros instrumentos de interesses privados e empresariais obscuros e um rosto da “bolha” e do complexo-militar industrial.

Ambas, embora sob formas e em graus diferentes, distorcem o problema, estando mais próximas do pensamento por slogans e de claque do que de um espírito crítico. O cerne do problema é que, paradoxalmente, numa sociedade da informação plural, é muitas vezes difícil formar uma opinião sólida nos argumentos e nos factos que a suportam. No caso da Ucrânia, perceber exactamente o que é o material militar adequado às suas necessidades de defesa — sejam tanques, mísseis, aviões ou outro equipamento militar — e o que é um aproveitamento de uma guerra para vender mais material militar é tarefa árdua.

Entre outras coisas, depende de um elevado conhecimento técnico (e prático) das características do equipamento militar, de uma avaliação factual honesta da situação militar no terreno e da ponderação rigorosa dos riscos de alastramento do conflito a outros Estados. O drama para o cidadão comum (e até para o especialista militar e em questões internacionais) é que toda essa informação necessária raramente está disponível. Mas reconhecer a mais-valia de conhecimento especializado trazida pelo think tanks, a par dos seus interesses e agendas próprias, já é um bom princípio. Apesar dos manifestos excessos que dominam o debate, há uma nota positiva: mostra como a liberdade, o pluralismo e a possibilidade de contraditório funcionam no Ocidente. Nada disto é possível na Rússia ou na China.

 

Investigador do IPRI-NOVA - Universidade NOVA de Lisboa

https://www.publico.pt/2023/07/19/mundo/analise/complexo-militarindustrial-think-tanks-guerra-ucrania-2057441


quarta-feira, 19 de julho de 2023

João L. Maio - O estranho fenómeno da twitterização da vida e do desfasamento das novas gerações

 * Jão L. Maio 
07/07/2023 

Dizem que são “luxury lovers”, ouvem podcasts sobre economia onde jovens brancos mimados que não entendem um cu de economia debitam alarvidades, nunca abriram um livro nem sabem o que é um “relatório” ou uma “ficha técnica”, rejeitam todo e qualquer meio de comunicação tradicional com a premissa de que é tudo “um lixo”, mas adoram youtubers e tiktokers com discursos vazios de “auto-ajuda” e acham que o MaisLiberdade é o pináculo da “literacia financeira” e da independência (spoiler alert: há gráficos para tudo, consoante o que se quiser mostrar e não, não é independente, é da IL) e que o Ventura até diz as verdades (spoiler alert: um relógio parado está certo duas vezes por dia). Acham que comportamentos racistas, xenófobos ou homofóbicos são mera “liberdade de expressão”, e exercem-na no Twitter ou no Facebook, porque nunca leram a Constituição para perceberem que tais actos são crime, não opinião e que liberdade de expressão é outra coisa.

Admiram o Elon Musk de cada vez que este se peida, acham que o Raul Minh’Alma é o melhor escritor português e o Cristiano Ronaldo é o role-model das suas vidas, consomem Prozis porque vão ficar muito bombados (e assim sempre estão na moda), acham que são os impostos o grande flagelo das sociedades, acreditam piamente que uma taxa plana de 15% num ordenado de 1000€ os vai deixar milionários, são contra taxar as grandes fortunas mas ganham menos de 1000€/mês… e vivem num T1 em Gueifões pelo qual pagam quase um ordenado mínimo, compram na Zara e conduzem um Ford Focus…

Não admira que a Iniciativa Liberal tenha tantos bots que a apoiem, quando vende a política como se de um sonho se tratasse, achando que riqueza é mero sinal exterior de quem “lutou muito para lá chegar”, mas depois quem tem de levar com um barbeiro que cobra 8€ por corte e que paga 600€/mês pelo arrendamento de um espaço comercial, mas que acha que vai ser milionário a trabalhar, na caixa de comentários de um qualquer jornal português sou eu.

Dito isto, como não ser a favor de que os putos fiquem sem telemóveis e internet em certos períodos do dia enquanto estão na escola? Sou todo a favor, pois foi muito por essa loucura que é o “se está na internet, é porque é verdade”, que muitos miúdos, hoje já com 18/19/20 anos, acham que a internet, por si só, é o garante do “livrai-nos de todo o mal, amém” que salva as almas “rebanho”, sem se aperceberem, eles mesmos, que tudo o que admiram os torna em ovelhas de um rebanho que não questiona e que aceita passivamente que a classe mais alta vá vencendo a luta com a sua conivência. Isto, numa época em que seria importante incutir nas novas gerações o valor da memória, da cultura, das várias teorias económicas para lá do estudo neo-liberal que é impingido nas faculdades de economia… e, sobretudo, da empatia.

O capitalismo selvagem, a mão invisível que todos vemos actuar, as redes sociais como substitutas da vida activa: há que parar para reflectir se estamos a ir no caminho certo. Até porque, hoje, entrar numa rede social é atrevermo-nos a ler os pensamentos que, outrora, julgávamos que, quem os tinha, os guardasse para si porque deles se envergonhava. O que o capitalismo sem trela produz não é riqueza, mas ricos. Ou gente de classe média-baixa que se acha rica. E muita, mas muita (muita mesmo) mediocridade, alienando as massas com festivais, vales de desconto, jornadas mundiais da juventude… num mundo onde, cada vez mais, estamos todos numa discoteca duvidosa com o David Guetta a tocar muito alto, todos muito bem produzidos, achando que somos únicos e especiais.

É tempo de parar para pensar.

https://aventar.eu/2023/07/07/o-estranho-fenomeno-da-twitterizacao-da-vida-e-do-desfasamento-das-novas-geracoes/

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Carmo Afonso - A propósito de uma influenciadora digital

OPINIÃO

* Carmo Afonso (Público 

17 de Julho de 2023?

A situação que se vive é a de verdadeira selva. Quem aprecia o mercado a funcionar livremente e sem intervenções de um regulador tem aqui uma excelente oportunidade de avaliar o resultado dessa lógica

Talvez alguns de vós tenham visto um vídeo em que uma influenciadora, Joana Mascarenhas, partilhava as suas experiências como mãe e educadora de uma criança de 3 anos. Joana Mascarenhas anunciou como eficaz para resolver as birras que a sua filha fazia uma submersão súbita e inesperada em água fria. Usou esse método quando estavam na piscina, mas também em casa de madrugada. Molhou a filha em água fria tendo esta o pijama vestido. Garante que foi remédio santo e que a filha deixou de fazer birras.

O vídeo é chocante em vários aspetos. Desde logo, é difícil não ficarmos presos ao sofrimento daquela filha sem direito a birras e sujeita a um método de aprendizagem digno de Guantanamo. Uma criança que, na narrativa da mãe, parou de chorar depois de lhe acontecer o que levaria qualquer criança ao choro. Na lógica da mãe parou de chorar porque aprendeu uma lição. Difícil não concluir que foi o terror que a silenciou.

Por outro lado, vemos uma jovem partir do princípio que a sua atuação como mãe deve ser partilhada, ou seja, que tem o valor de conhecimento.

Joana Mascarenhas é uma entre centenas de outras pessoas que usam as suas contas nas redes sociais – com destaque para o Instagram – para influenciar os seus seguidores. Esta influência pode ser para comprar determinados produtos ou contratar determinados serviços ou simplesmente para dar conselhos de vida. A prudência obrigaria a que desconfiássemos sempre de alguém que acredita ter conselhos úteis para dar em relação à vida de terceiros. Poderíamos até estabelecer aqui uma regra: todos aqueles que acreditam ter tanto jeito para viver que podem dar conselhos de vida aos outros não devem ser ouvidos. Mas estas pessoas são efetivamente ouvidas e há quem siga os conselhos que dão ao mundo.

É relativamente fácil, mesmo em Portugal, que alguém consiga obter rendimentos relevantes explorando comercialmente a sua conta, os seus seguidores e a sua capacidade para convencer esses seguidores a realizarem uma compra ou contratação. É, aliás, possível que essa atividade se transforme em profissão. Não estamos a falar de algo marginal na economia ou tão pouco de irrelevante no universo do investimento das marcas em marketing e publicidade.

O problema é que esta atividade não está regulamentada e não existe legislação específica que defina regras ou boas práticas. O máximo a que se chegou foi um guia para influenciadores e anunciantes feito pela Direção Geral do Consumidor. Nesse documento fazem-se recomendações e tenta-se dar orientações com recurso à legislação existente.

Mas claramente não chega. A legislação que já existe não foi pensada para o mundo digital e para a possibilidade de uma proliferação de utilizadores das redes sociais terem interesse comercial para as marcas e, a partir daí, serem remunerados diretamente por elas para divulgarem os seus produtos ou serviços. A situação que se vive agora é a de verdadeira selva. Quem tanto aprecia o mercado a funcionar livremente e sem intervenções de um regulador tem aqui uma excelente oportunidade de avaliar o resultado dessa lógica, política ou filosofia.

E os resultados estão à vista. Vemos, por exemplo, pais a explorar comercialmente a imagem de menores até à exaustão. São crianças que praticamente desde o nascimento são fotografadas para serem associadas a marcas. O interesse público, que neste caso coincide com o superior interesse de cada criança, não é chamado a intervir e não tem uma palavra a dizer. Centenas ou milhares de pais estão livremente a facturar a infância dos filhos como se ela lhes pertencesse e como se tivessem um direito natural a fazê-lo. Há aqui um grande engano e está a fazer vítimas.

Os influenciadores digitais são uma nova face do empreendedorismo. Pessoas que vendem marcas e que promovem o seu próprio modo de estar na vida como tendo valor para o coletivo. Podemos olhar para o lado e fazer de conta que estas pessoas não estão, praticamente sem regras, a trabalhar no mercado e a exercer a sua influência como querem e como mais beneficia as marcas. Hoje uma dica sobre como tratar a birra de uma criança, amanhã um anúncio publicitário disfarçado de partilha de um momento familiar. Até ao dia em que seremos todos obrigados a reconhecer que faz falta legislação. Se não for a bem, será a mal.

Advogada

https://www.publico.pt/2023/07/17/opiniao/opiniao/proposito-influenciadora-digital-2057069

terça-feira, 27 de junho de 2023

Gustavo Carona - Naufrágios, milionários e a perversão da empatia,

 OPINIÃO O QUE SIGNIFICA SER HUMANO?

Gustavo Carona 


27 de Junho de 2023

A comparação dos cinco milionários que morreram cedo demais com a tragédia humana da crise dos refugiados é pertinente porque nos confronta com a perversão da nossa empatia.

“Ficou chocado?”, foi esta a primeira pergunta feita por Júlio Magalhães em directo para a CNN, como ponto de partida para reflexão sobre este assunto. Confesso que a pergunta até me surpreendeu porque já tantas vezes pensei, reflecti e escrevi sobre isto, que para mim este fenómeno é óbvio, infelizmente, mas também é óbvio que a sua resolução passa pela tomada de consciência e desconstrução do funcionamento das nossas sinapses cerebrais, neste mundo estranho que é a inteligência das emoções.

Há quem se revolte com o possível facto de que esta estória se tornou no assunto dominante nos media, por serem cinco milionários excêntricos . E como os que  são pobres, tornamo-nos indiferentes. Há uma pitada de verdade nestas premissas, mas eu diria que o cerne da questão não é esse.mÉ a espectacularidade da estória que molda a nossa empatia. É o facto de ser inusitado e também de ter um fim, bom ou mau, à vista. A nossa empatia só entra quando nos relacionamos com os intervenientes, e de alguma forma sentimos que nos podia ter acontecido a nós. E ninguém se projecta ou sabe o que é, por exemplo, ser afegão ou afegã, fugir dos taliban por medo de morrer, arriscar a vida com os criminosos traficantes de humanos na Líbia, e mesmo sabendo que todos os anos morrem na ordem das 2000 pessoas afogadas no Mediterrâneo, tomam a decisão de se meterem nos barcos, com crianças, grávidas e idosos doentes. Como não nos imaginamos nesta estória, não a sentimos. 

Mohammad, um sobrevivente sírio do naufrágio ao largo da Grécia, chora ao encontrar-se com o irmão REUTERS/STELIOS MISINAS

Eu já vivi no Afeganistão numa zona muito complicada da guerra, conheci dezenas de afegãos com quem fiz boas amizades, mas eu também não sei o que é estar na pele deles, porque eu tenho um passaporte e um contrato com uma grande organização médica que me permite “carregar no botão vermelho” e regressar à segurança e ao conforto do meu país, quando eu quiser. Eles não têm essa opção. Mesmo estando lado a lado e de coração aberto, não sei o que é estar na pele deles. O melhor que eu posso fazer é ouvi-los, humanizar as suas estórias, e nunca esquecer a minha melhor interpretação de humanismo e humanitarismo: proporcionalidade. A nossa atenção e a nossa acção têm que ser proporcionais à dimensão dos desafios humanos.

A estória de Ryan, o menino que caiu num poço em Marrocos, e os 12 rapazes  provam o meu ponto. São pessoas humildes e anónimas que fizeram parar o mundo, e conseguiram unir todos os esforços do planeta para que se salvassem as suas vidas. Sim, porque temos empatia, mas, acima de tudo, porque as estórias são espectaculares e concorrem com a Netflix.pTodos temos empatia, e a empatia é um sentimento poderosíssimo, mas como qualquer superpoder, por vezes é usada de uma forma perversa, mesmo sem nós nos darmos conta desse fenómeno.

A comparação dos cinco milionários que infelizmente morreram cedo demais com a tragédia humana da crise dos refugiados, tipificada num caso bem recente em que morreram cerca de 500 refugiados e migrantes, que ganha força a reboque da estória do mini-submarino, é pertinente porque nos confronta com a perversão da nossa empatia, e as assimetrias com que valorizamos as vidas humanas.

E eu ainda acrescento um ponto. Há muita gente a lutar, e muito bem, pela humanização do acolhimento aos refugiados, mas muito pouca gente a tentar alertar e a combater a questão de base: a resolução do motivo que os leva a fugir da sua amada pátria, em luta pela sobrevivência.

Proporcionalidade. As boas causas não se anulam, adicionam-se. Se não lutarmos pela solução in loco; dos conflitos armados, da fome, das alterações climáticas (esta, global, claro está), da falta de educação escolar… no fundo, a luta contra a desigualdade, vamos ter sempre tensões e migrações cruéis. Ajudar os refugiados, repito, é extremamente importante, mas, por si só, é como tentar esvaziar o oceano com uma colher de chá. Se não formos ao foco dos problemas com humanismo, empatia, proporcionalidade e consistência, nunca teremos uma humanidade digna do seu nome. Não há soluções simples para problemas complexos, mas há caminhos que têm que ser percorridos. Sentirmo-nos cidadãos do mundo é um deles.

Muitos gritam: “A culpa é dos media que não nos mostram, e dos políticos que não querem saber!”, e eu digo que não me parece que assim seja. Em democracia, os media e os políticos não são líderes, são seguidores das nossas vontades e das nossas escolhas. Cabe-nos a nós “explicar-lhes” o que queremos saber, e para onde queremos olhar com o nosso pensamento humano e político. Somos nós que escolhemos, e eles seguem-nos.

Reconhecer o poder, mas também a perversão da nossa empatia, é o primeiro passo na luta por um mundo melhor. O mundo enquanto uma bolinha azul onde nós vivemos, e também o nosso mundo interior, que precisa do outro, para ser feliz

Alguns números para reflexão:

5 pessoas morreram no mini-submarino.

500 pessoas morreram recentemente no Mediterrâneo (100 eram crianças) em circunstâncias em que se estima terem morrido 25.000 pessoas desde 2014.

2977 pessoas morreram no ataque às Torres Gémeas. Cerca de 1.000.000 a 2.000.000 morreram nas guerras de retaliação no Afeganistão e Iraque.

5.000.000 de crianças morrem antes dos cinco anos, todos os anos, de causas na sua maioria facilmente tratáveis ou evitáveis.

68.000.000 de crianças não têm a vacinação básica da infância que salva milhões de vidas, são 20% das crianças do mundo.

800.000.000 de pessoas estão em risco de morrer à fome neste momento.

4.000.000.000 de pessoas não têm acesso a cuidados de saúde de uma forma continuada, é metade da população mundial.

Desculpem tantos zeros, em vez da palavra milhões, mas ajuda-me a perceber que ali dentro de cada número está uma pessoa igual a mim.

São tudo números, e são tudo pessoas que têm os mesmos direitos a viver do que nós, se não formos xenófobos ou racistas. Para mim, ser português é uma questão administrativa. Ser, humano, tem que estar acima de qualquer outro rótulo identitário. Eu não sei se isto é ser de esquerda ou direita, porque considero a ciência e os direitos humanos inegociáveis, e coloco-os acima de tudo o resto como verdades universais e transversais a qualquer ponto do planeta.

A continuidade de qualquer tragédia humana faz com que nós nos afastemos, e faz com que deixe de ser notícia porque a nossa empatia aborrece-se com o assunto. Mas as emoções também se trabalham, também se treinam e também se ensinam.

Reconhecer o poder, mas também a perversão da nossa empatia, é o primeiro passo na luta por um mundo melhor. O mundo enquanto uma bolinha azul onde nós vivemos, e também o nosso mundo interior, que precisa do outro, para ser feliz.

As crónicas de Gustavo Carona são patrocinadas pela Fundação Manuel da Mota a favor dos Médicos sem Fronteiras

Médico intensivista

https://www.publico.pt/2023/06/27/opiniao/opiniao/naufragios-milionarios-perversao-empatia-2054730  


sexta-feira, 23 de junho de 2023

António Rodrigues - O brilho da civilização ocidental é apenas verniz e está estalado

4 ESQUINAS
O brilho da civilização ocidental é apenas verniz e está estalado
O mundo que se conta a partir do que se diz.

* António Rodrigues
23 de Junho de 2023, 7:00


“Não éramos nada. Éramos apátridas. Estávamos entre dois mundos como o nosso barco, navegando para trás e para a frente entre dois continentes. Um dos mundos tinha-nos rejeitado; o outro não nos quisera quando tanto precisávamos da sua ajuda.” Margot Friedlander, antiga refugiada judia

Holandês voador
A União Europeia não tem uma missão europeia de salvamento no Mediterrâneo. Cada país costeiro ou insular é responsável pelas operações de ajuda na sua área. E a coordenação entre as guardas costeiras dos diferentes países é, no mínimo, deficitária. Além do mais, há suspeitas de que cada um dos países tenta postergar ao máximo a sua intervenção para ver se o problema cai no colo do seu vizinho, livrando-o do trabalho. No caso da traineira que afundou na semana passada ao largo da costa grega, os indícios apontam para isso.

O eurodeputado Pietro Bartolo tentou fazer passar no Parlamento Europeu (PE), no princípio desta legislatura, uma resolução para criar um serviço de busca e salvamento europeu, mas, estranhamente, a proposta acabou chumbada por dois votos. “Tive uma pena que tal tivesse acontecido, mas garantidamente a Europa tem de fazer alguma coisa”, disse Bartolo à Euronews, durante a visita esta semana de uma delegação do PE à ilha italiana de Lampedusa, o território europeu geograficamente mais perto de África.

O segundo pior naufrágio de migrantes na história recente do Mediterrâneo, em que terão morrido mais de 500 pessoas, grande parte delas mulheres e crianças, já foi, entretanto, abafado mediaticamente pela caça ao submarino de turismo para ricos que desapareceu no Atlântico Norte, e é pouco provável que o seu impacto venha a alterar a política europeia em relação aos desesperados que arriscam a vida para chegar a um qualquer bom porto que os receba.

O que Bruxelas parece desejar mesmo é que a questão desapareça por si só ou que as embarcações dos traficantes de seres humanos sejam condenadas, como o filibote do capitão Vanderdecken da lenda do holandês voador, a errar pelos mares sem nunca chegar a terra.


A civilização é cruel
A Austrália tem uma história de colonização faroestiana no far east, que é como quem diz, aplicou a lei do mais forte sem escrúpulos desde o estabelecimento da primeira colónia europeia, a 26 de Janeiro de 1788, em detrimento dos autóctones que tiveram de esperar dois séculos para começarem a ver alguns dos seus direitos reconhecidos.

Mas nem os condenados ao degredo com que no século XVIII se começou a colonização mereciam o tratamento que o actual Estado australiano concede a Hamid, um refugiado iraniano que tentou alcançar a costa da Austrália e foi enviado para o Centro de Processamento Regional de Nauru, inaugurado em 2001 para lidar com os migrantes que procuram asilo no país.

Camberra estabelecera como política que nenhum dos migrantes detidos a tentar chegar à Austrália poria um pé no seu território, mesmo aqueles com direito ao estatuto de refugiado de acordo com o direito internacional. Algumas centenas conseguiram ir para os Estados Unidos e a Nova Zelândia chegou a oferecer-se para receber 150 por ano, oferta recusada pelos australianos.

Hamid passou nove anos em Nauru, detido como outros, por tentar alcançar uma vida melhor. Em 2019, separaram-no dos seus dois filhos adultos; em Fevereiro deste ano, levaram-no para Brisbane, na Austrália. Segundo o Refugee Action Group, enquanto a maioria dos migrantes transferidos de Nauru são libertados ao fim de uma ou duas semanas (desde que o Governo trabalhista assumiu o poder, já só restam 13 detidos no centro de processamento), Hamid foi mantido confinado num hotel durante meses até ser transferido para um centro de detenção a 7 de Junho.

“Não sou um criminoso. Não vim para a Austrália ilegalmente”, disse à emissora neozelandesa RNZ. “Querem matar-me gradualmente com tortura mental”, acrescenta. “Libertam toda a gente à minha frente. O que é isto ao fim de dez anos? Depois de dez anos, puseram-me num centro de detenção com uma data de criminosos. O que é isto? É tortura.”

Há gerações e gerações
Esta quinta-feira passaram 75 anos da chegada do navio HMT Empire Windrush às docas de Tillbury, no Essex. Os 492 migrantes que desembarcaram provenientes de países das Caraíbas marcavam, sem saber, o princípio da história do Reino Unido moderno, marco de um movimento migratório que nos 25 anos seguintes chegava para ajudar à reconstrução do país das ruínas da II Guerra Mundial e que haveria de moldar a nova Albion a partir do seu império desmembrado.

A chamada geração Windrush abarca o movimento migratório que chegou ao país entre 1948 e 1971, incentivada pela necessidade de mão-de-obra do Estado britânico. Muitos deles, conta a BBC, tornaram-se trabalhadores manuais, condutores, empregados de limpeza e enfermeiros no Serviço Nacional de Saúde (SNS), que dava os primeiros passos.

O primeiro-ministro, Rishi Sunak, sublinha essa ligação na sua mensagem a assinalar a data: “Desde salvar as nossas vidas no nosso magnífico NHS e criando e liderando prósperas empresas até representar o Reino Unido no cenário mundial como atletas profissionais, a Geração Windrush e os seus descendentes têm sido parte integrante do tecido social, cultural e histórico do Reino Unido.”

Palavras de circunstância de um governo britânico liderado por um filho de imigrantes indianos provenientes da África Oriental e que tem na ministra Suella Braverman, cujos pais vieram do Sul da Ásia, a maior defensora do envio de migrantes para o Ruanda enquanto aguardam pela resolução dos seus pedidos de asilo no Reino Unido.

Como escreve o activista e jornalista comunitário Chaka Artwell, filho de imigrantes caribenhos, no único comentário à mensagem de Sunak publicada no The Voice, “historicamente, o primeiro-ministro e os seus militantes e eleitores do Partido Conservador têm feito de tudo para prejudicar, minar e excluir os filhos da Geração Windrush”.


“Não se esqueçam”
Aos 101 anos, Margot Friedlander continua a honrar os mortos do Holocausto dando significado à sua existência. A mãe e o irmão morreram no campo de extermínio de Auschwitz, depois de Estados Unidos, Reino Unido e Xangai (onde aportaram 30 mil refugiados judeus durante a década de 1930) se terem sistematicamente negado a conceder vistos à família para fugir da perseguição nazi.

Sobrevivente do campo de concentração ou gueto de Theresienstadt, esta judia nascida em Berlim, que em 1946 haveria de embarcar para Nova Iorque como refugiada com o marido (voltou aos 88 anos para a sua terra depois da morte dele), continua ainda hoje a honrar o pedido que a mãe lhe deixou quando foi levada para Auschwitz: “Tenta fazer algo da tua vida.”

Apesar de ter construído uma vida na América, nunca sentiu que aquela fosse a sua pátria. Nem ali, nem em nenhum outro lado. A sua pátria “está no passado; num país que já não existe”, contava ao site da Unicef na terça-feira, Dia Mundial do Refugiado.

Nem o facto de ser já centenária a impede de ter uma agenda preenchida. Falando com alunos nas escolas, participando em leituras ou em palestras, Margot Friedlander conta a sua história, a da sua família e a dos outros judeus que morreram no Holocausto, todos os dias para que o esquecimento não nos faça pensar que a barbárie nazi é, como a sua pátria, uma coisa do passado – nem que os nazis foram uma excepção na “banalidade do mal”.

“Não falo por mim. Falo pelos que não podem falar, e não só pelos seis milhões de judeus, mas por todos os que não conseguiram. Não se esqueçam destas pessoas. Eram seres humanos. Somos todos seres humanos, o que nos resta sem a nossa humanidade?”

tp.ocilbup@seugirdor.oinotna 

https://www.publico.pt/2023/06/23/mundo/cronica/brilho-civilizacao-ocidental-apenas-verniz-ja-estalou-2054329?f 

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Daniel Oliveira - O mercado é o maior censor,

OPINIÃO  - 

*  Daniel Oliveira (Expresso 2023 06 22)

A pressão para adaptar livros para crianças à moral dominante nem vem apenas de um lado, nem é nova. Mas desapareceu o aparente consenso sobre essa moral e a clivagem esconde-se atrás de um debate sobre a censura. Com os livros para adultos o debate é diferente. As editoras não contratam “leitores sensíveis” porque estão preocupadas com as minorias. Só querem prever as reações do mercado

Foram reescritas passagens dos livros de Roald Dahl para fazer desaparecer termos considerados ofensivos. “Gordo” foi substituído por “enorme” (é menos ofensivo?), “homens-nuvem” passaram a ser “pessoas-nuvem” e o resto conseguem imaginar. Como escreveu Rogério Casanova, num texto a que regressarei, “o que torna este caso hilariante é quão inadequados são os livros de Dahl, em qualquer versão, como veículos de instrução moral.” Este movimento de edição de obras literárias foi criticado por muitos autores, alguns com a autoridade moral de Salman Rushdie, que arriscou a vida para resistir a outros moralistas.

Segundo o Telegraph, as alterações à obra de Roald Dahl foram feitas por uma organização com o sugestivo nome de “Mentes Inclusivas”, que oferece serviços editoriais. Clara Não terá escrito, para justificar a associação da causa feminista a uma campanha da L’Oréal, que capitalizava o bem (apanhei isto no programa de Joana Marques). É disso mesmo que estamos a falar: capitalizar o bem. A editora deseja que os livros “possam continuar a ser apreciados por todos”. O capitalismo vive da permanente expansão do mercado. Para isso, derruba barreiras e faz publicidade disso.

Espanta-me que alguém se atreva a defender a reescrita de livros de autores que cá não estão para o autorizar. Espanta-me não apenas pela grosseira violação dos direitos de autoria, mas pela tentativa de transformar a arte em folhetos, retirando-lhe as impurezas das circunstâncias do autor. Uma revisão que garante revisão futura, porque os vindouros lá terão de reescrever a nossa reescrita, cheia das incorreções deste momento.

Espanta-me, sobretudo, pela proposta de amnésia coletiva. Os livros são marcas do tempo. São, na realidade, boa parte das vezes, a única que temos. Através deles sabemos como a sociedade se via a si mesma e só isso nos permite ter uma ideia de como evoluímos. Claro que o passado nos é mostrado pelos que tinham o privilégio de ser narradores do seu tempo. Mas ao reescrevermos o seu olhar não lhe acrescentamos os olhares de quem não teve direito à sua própria narrativa. Só acrescentamos o nosso olhar anacrónico. Porque da mesma forma que um branco não pode ser um negro, um negro do século XXI não pode ser um negro do século XIX, mesmo que se julgue com essa autoridade ancestral.

LER É INCÓMODO

Os livros têm, ainda por cima, uma vantagem sobre as estátuas: não se impõem a quem não os quer ler. São rastos de poder, é verdade, mas se queremos reescrever as relações de poder escrevemos os nossos próprios livros, que se acrescentam às camadas que vão contando a história.

Ao “E tudo o Vento Levou”, um sucesso nas estantes e nas bilheteiras, que foi criticado por ignorados protestos de ativistas negros, acrescentamos "Um Tambor Diferente", de William Melvin Kelley (o que terá criado o termo "woke"), e aprendemos a ler, no seu tempo, "Não Matem a Cotovia" ou “A Cabana do Pai Tomás”. A leitura faz-se em camadas. E não se deve adaptar a leitores demasiado sensíveis para pensar ou demasiado preguiçosos para acumular leituras que permitam viajar para outros tempos.

Se a obra é para crianças, as coisas são mais complicadas. Em princípio, são os pais a moldar a história ao que querem dizer aos seus filhos ou a aproveitá-la para a pôr em causa, alimentando o sentido critico, em vez do vício da ofensa. Esta é o maior dos equívocos: não devemos ter complacência com quem substitui a critica informada e emancipada pela exigência do silenciamento do que incomoda. O incómodo faz parte da experiência da leitura. Da vida, aliás. E uma das funções didáticas da literatura é pôr as crianças em contacto com esse desconforto da vida.

Pensarão que estou a fazer uma critica ao politicamente correto da esquerda. Em parte, será também isso, apesar de não ser precisa grande coragem para exercício que está na moda. Mas, para pôr este debate em perspetiva, a pressão para adaptar ou censurar livros infantis à posição moral dominante nem vem apenas de um lado, nem é nova.

NÃO É DE UM LADO

Não me vou desviar para temas domésticos, como a censura que Santa Casa da Misericórdia impôs ao trabalho de Dori Nigro e Paulo Pinto sobre o passado escravocrata de Conde Ferreira, exposto no hospital com o nome do benemérito. Talvez deixe isso para outro texto sobre a forma como importamos polémicas ao mesmo tempo que que se vai silenciando qualquer abordagem não celebratória sobre o nosso passado. Voo de novo para longe daqui e aos livros, para não baralhar temas.

Com uma agenda política conservadora, o governador Ron DeSantis tem-se empenhado em limpar livros didáticos da “doutrinação" esquerdista. As autoridades da Flórida recusaram 85 livros de 101 e, depois trabalharem com os editores para fazerem alterações, rejeitaram 35. O termo “socialismo” saiu de um texto sobre diferentes tipos de economias e as referências ao Black Lives Matter foram censuradas de um livro para ensino médio. O Estado tem trabalhado com as editoras para aumentar o número de aprovações. Um eufemismo para dizer que as tem ajudado a fazer a devida censura política. Como a lei proíbe que a instrução leve os alunos a sentirem responsabilidade, culpa ou angústia pelo que outros membros de sua raça fizeram no passado, a editora Studies Weekly, talvez por excesso de zelo, recuou no tratamento dado à história de Rosa Parks. As restrições da Florida, que vão da escravidão ao Holocausto, não têm apenas impacto na Florida. Menos da metade dos estados aprova livros didáticos, mas entre eles estão a Flórida, o Texas e a Califórnia, o que leva as editoras a adaptarem a oferta às suas exigências.

A maior pressão para censurar materiais dirigidos a menores, sobretudo materiais escolares, não vem do movimento “woke”. Nos EUA, onde estas coisas estão ao rubro, vem dos conservadores. O argumento é quase sempre a “adequação à idade”, que assim se tenta fazer passar por neutro. E é com ele que a Florida mandou um editor retirar referências aos atletas que se ajoelham durante o hino nacional por causa da violência policial – uma violência que pode ser perturbadora para crianças –, mas mantém referências aos soldados que morrem na guerra em nome da Pátria. Tem mais a ver com adequação a uma narrativa política do que adequação à idade.

Poderão dizer que, ao contrário das pressões vindas da esquerda, o que está em causa são livros usados nas escolas, não escolhas dos pais. A isso pode responder-se que quem censura não são as editoras, por pressão do mercado, mas o próprio Estado, o que me parece ser mais grave.

NÃO É NOVO

Este movimento censório também não é novo. Voltando ao texto de Rogério Casanova, que merece ser lido, recorda-se que as várias edições de “Charlie e a Fábrica de Chocolate” já não reproduzem o texto original desde 1973. Nesse, os oompa-loompas eram “pigmeus negros” vindos “dos recantos mais escuros de África”. Da mesma forma, “Matilda” foi sendo profundamente editado.

O racismo de Enid Blyton foi duramente criticado nos anos 60, quando as três personagens de “The Three Golliwogs” eram Golly, Woggie e Nigger – mais tarde passaram a ser Wiggy, Waggy e Woggy. São bonecas de trapos, com pele negra, lábios vermelhos exagerados e cabelo frisado, associadas ao crime e aos perigos que assolavam a pequena aldeia. “The Little Black Doll” é sobre uma boneca negra odiada pela sua dona e as outras bonecas. Foge de casa e a chuva lava seu rosto, deixando-o cor-de-rosa. Depois disso, é bem recebida em casa. A editora didática Macmillan rejeitou, em 1960, “O Mistério Que Nunca Existiu”, de Blyton, porque havia “um toque nada atraente de xenofobia antiquada na atitude para com os ladrões; eles são 'estrangeiros'... isso parece ser considerado suficiente para explicar sua criminalidade”. A verdade é que Enid Blyton chegou ao nosso tempo limpa de parte dessas impurezas racistas. Muito antes de qualquer moda politicamente correta.

A atualização moral das obras infantis é tão antiga como as obras infantis. O objetivo é oferecer às crianças um conjunto de regras morais de convivência. E, se assim é, têm de se adaptar. Aconteceram, entretanto, duas coisas. A primeira é a destruição de um aparente consenso do que é a moral dominante nos países ocidentais, o que cria uma clivagem que se esconde atrás de um debate sobre a “censura”. A segunda é o nascimento de um novo ator político a que, estranhamente, a esquerda aderiu de alma e coração: o consumidor.

A principal origem da castração moralista da literatura não resulta de qualquer tipo de radicalização esquerdista. Até diria que ela é sintomática de uma rendição da esquerda.

A DESADEQUAÇÃO DE AFONSO

Voltemos aos livros para adultos, onde este debate muda de figura. Recentemente, o jovem escritor Afonso Reis Cabral, que venceu o prémio Saramago, partilhou nas redes sociais uma resposta de uma editora norte-americana, em 2019. Não pretendia fazer uma denúncia e muito menos acusar alguém de censura. Queria dar testemunho dos critérios que hoje dominam as editoras anglo-saxónicas.

“Pão de Açúcar”, que trata da morte de Gisberta, uma mulher trans brasileira assassinada por um grupo de adolescentes, em 2006, no Porto, e “O Meu Irmão”, onde uma das personagens tem síndrome de Down, foram recusados porque poderiam ferir a sensibilidade do público norte-americano: “O escritor é claramente muito talentoso. Acho, no entanto, que a franqueza em ‘O Meu Irmão’ pode ser problemática para o mercado dos Estados Unidos, onde esses assuntos são levados muito a sério pelos media. A crítica do ‘Pão de Açucar’ foi boa, mas um colega expressou preocupação sobre uma pessoa cis escrever sobre uma pessoa trans – outro assunto de alta sensibilidade aqui. Tentei encontrar uma pessoa LGBTQ que falasse português para escrever um relatório de sensibilidade, mas não consegui encontrar ninguém."

Não diria que ativismo não pode ser literatura, porque dizer que "A Mãe", de Gorki, ou "As Vinhas da Ira”, de Steinbeck, dois livros de denúncia politicamente empenhada, não são literatura seria, no mínimo, ousado. Mas reduzir a literatura ao ativismo é, como bem diz Afonso Reis Cabral, empobrecê-la. Mas nem é bem isto que está em causa. Até porque os argumentos para não publicar os dois livros são tão contraditórios como a sensibilidade do mercado: um é demasiado sincero e vivido, o outro é escrito por quem não preenche as características para ser o seu autor. Esta é, aliás, uma das tragédias culturais que vivemos: na avaliação da obra, o autor sobrepôs-se à obra.

Li que há uma nova função, a do “leitor sensível”. Como o conselheiro histórico, ele procura retirar ao autor as suas circunstâncias, preconceitos, medos, ódios. Procura descarná-lo, higienizá-lo, desautorá-lo. Não chega a ser uma forma de censura, porque é aparentemente consentida. É um processo autorizado de castração (continuarei a usar metáforas, se não me levam a mal), que transforma o ato criativo num ato de cobardia. É aceitável para a indústria, que pretende agradar ao mercado. É prostituição intelectual, porque a função do escritor não é agradar. Se há coisas de que ele não sabe e mesmo assim escreve, se faz mau trabalho de pesquisa, será fraco escritor. Mas o critério não é a sensibilidade do leitor, é a verdade da obra.

O escritor convida o leitor a mergulhar nas suas contradições, luta com ele, prende-o, solta-o, seduz, repele. Não trabalha para agradar o cliente. A não ser, claro, que se dedique ao entretenimento literário. Mas, nesse caso, talvez seja abusivo dizer que é um escritor. É um publicador de livros. Esses não se sentirão limitados. Mas quem vive da sua liberdade criativa sente-se mais constrangido do que há dez ou vinte anos. Porque há um ambiente censório? Porque há novas vozes no espaço público? Porque as redes sociais tornaram a pressão mais fácil? Porque tudo, absolutamente tudo, passou a ser motivo para a guerra de trincheiras? Talvez seja um pouco disto tudo. Mas a verdade é que um escritor maldito não seria hoje mais do que um escritor “polémico”, esse carimbo promocional que vive do mesmo negócio que a capitalização do bem.

TODOS CEDEM AO MERCADO

Tive contacto com a história de Afonso Reis Cabral através da partilha, noutra rede social, de perfis de pessoas de direita, sobretudo “liberais”. Eram, em geral, contra a histeria da esquerda politicamente correta. As reações, quase todas irónicas, respondiam com a liberdade empresarial. A ironia só é desajustada porque é, de facto, essa a questão. Não há compressor censório mais eficaz do que o mercado e é por isso que os “liberais”, chegados aqui, entram num beco sem saída.

A mercantilização absoluta da cultura implica, como em qualquer negócio, adaptar o produto às necessidades e gostos dos clientes. E isso inclui a sua sensibilidade e incómodo. É por isso que uma arte exclusivamente dependente do mercado é conservadora, medrosa e, no limite, autocensurada. Também é por isso que sociedades livres, mas sem um mercado suficientemente vasto para que pequenos nichos sustentem contraculturas, encontram outras formas de garantir o pluralismo cultural para além do mercado.

Quem acha que é o mercado que legitima uma obra como bem cultural alimenta uma falsa ideia liberdade que esmaga qualquer forma de dissensão. Os “leitores sensíveis” não são mais do que conselheiros de mercado. As editoras não os contratam porque estão preocupadas com os direitos das minorias. Contratam-nos porque querem prever más reações do mercado a algo que o incomode ou perturbe. Hoje é o facto de um autor cis escrever sobre uma trans, ontem foram cenas sexuais mais escandalosas. Os editores querem navegar, mas sem ondas.

O problema de movimentos que deveriam ser emancipatórios, mas baseiam a sua intervenção na indignação viral, procurando espalhar pelo mercado uma reação negativa perante qualquer produto incómodo, não é serem movimentos censórios. Na maioria dos casos, faltam-lhes instrumentos para tanto. É a sua eficácia depender de uma reação do mercado. E esta é a cedência “liberal” da esquerda, que se pode replicar, aliás, a todos os movimentos de boicote ao consumo, que subsituem o cidadão ou o trabalhador pelo consumidor, transferindo a desigualdade da capacidade aquisitiva para a desigualdade de poder político. Eu sou tão mais eficaz na minha luta quanto mais poder tiver como consumidor. Querem coisa menos à esquerda do que isto?

https://expresso.pt/opiniao/2023-06-22-O-mercado-e-o-maior-censor-616d7165