segunda-feira, 15 de março de 2021

um poema de Maria Beatriz Serpa Branco

* Maria Beatriz Serpa Branco

na nossa infância os dias eram outros
longos dias de sol
vividos em sossego
no viver sempre aberto de nossa quietação
sem pressas e sem medos

sages de longa idade
sabíamos o tempo
vivíamos sem tempo
e a vida a rodear-nos braços que nos amavam

não tínhamos memória
do que antes conhecíamos
cada dia era um dia
e não uma cadeia
a prender-nos as mãos a horas já passadas
a gestos copiados

vivíamos o dia
dormíamos a noite
e nem quem nos morria estava ausente

a morte era uma porta
por onde entravam todos que saíam
a morte não havia
morríamos ao dia em cada noite
e em cada dia a vida renascia


Maria Beatriz (Évora, 1973)
partilhado por António Maria Louro Alves em 2014 03 15

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