domingo, 16 de agosto de 2026

Tiago Franco - A VIDA NA ILHA |

 

* Tiago Franco

Sempre que entrevisto candidatos a uma vida de emigrante, começo por lhes dizer tudo o que de mau nos pode trazer esse movimento de ir para um país que não é o nosso. 

Só depois de contar esse lado da história é que salto para as partes boas que, eventualmente, podem surgir ao trocar o quotidiano num país pobre e pouco desenvolvido por outro, alojado no topo do "ranking" da qualidade de vida.

Há uma parte de nós que morre quando se emigra e há pedaços de história, pessoal e familiar, que não voltamos a recuperar. Até ao dia de hoje continua a ser difícil aceitar, para mim entenda-se, que no meu país seja tão difícil prosperar pela via do trabalho e que procurar soluções fora daqui seja tão comum e banal. Boa parte de nós não consegue a vida que imaginou e para a qual estudou, sem largar tudo o que é conhecido. 

Ver e ouvir tantos pais, em 2026, a esperar que os filhos sigam o mesmo caminho da emigração, enquanto o país é dirigido pelo CEO da Spinumviva e a agenda é marcada pela extrema-direita, faz-me pensar que tenho que aceitar o passo dado há 20 anos.

É na solidão que muitas vezes me acompanhou nessas duas décadas que penso, quando passo os meus dias nesta pequena ilha no meio do Atlântico, a tropeçar em caras conhecidas. Provavelmente o único sítio onde ir jantar com colegas da primária e acabar num palco qualquer, corre o risco de se tornar uma tradição. 

Eu aprecio ver caras conhecidas e cumprimentar gente a cada 5 minutos. Porque é o oposto do que vivi na maior parte da minha vida adulta. E gosto da dinâmica que tão pouca gente, apenas 5000, empresta a uma ilha onde todos colaboram de alguma maneira para que a vida se extenda para lá do verão. 

É particularmente engraçado ver como cresceram os colegas de infância e o que fazem ao dia de hoje. A minha geração está espalhada na condução dos destinos da ilha, da política ao desporto, da cultura aos negócios. É normalíssimo beber um copo e rir, com alguém que defenda outras ideias políticas. É normal ajudar um vizinho ou falar com desconhecidos quando o Rafa chuta para o Colombo. 

Se 50 gajos, uma vez por ano, se juntam para acelerar os Saxos e os Clios barulhentos, isso é desculpa para andar em churrascadas o dia todo e ir, religiosamente, para a casa de um amigo, já quase uma instituição da ilha, que nem precisa de convidar. Todos sabem que naquele dia a porta está aberta e a grelha bem quente.

Há um misto de gente interessante nesta ilha. Os locais, que entre eles se dividem por freguesias e "para lá da serra". Portugueses de outras paragens, onde me inclúo. E malta estrangeira que, com mais ou menos tempo de ilha, vai trazendo um colorido bom à coisa. Quase uma espécie de Amsterdão do Atlântico,  onde as culturas se misturam. 

Não há anonimato. Há sempre alguém que te conhece na rua. Para mais algum silêncio, há que apanhar o voo de 15 minutos e ir à ilha do lado (onde se tropeça em gente conhecida mas a um ritmo mais lento).
Este é o sítio onde me perco na montanha ou tomo banho no mar cristalino, dependendo se saio de casa e viro para a esquerda ou para a direita. É o sítio onde o meu filho acampa, vai a festas e anda por onde quer sem que eu me preocupe. É o sítio onde se pede ao DJ que meta música dos anos 80 para dançarmos com o professor de matemática. É o sítio onde nos queixamos das estradas enquanto partilhamos uma cerveja com a autarca local. 

É essencialmente o sítio onde sentimos que fazemos parte de algo e onde as contribuições individuais contam.

Teria eu a mesma simpatia pela ilha, tendo saído daqui tão novo, se não tivesse emigrado para um país de costumes frios? Ou se não tivesse sido tão bem recebido pela família que ganhei depois de me casar?
Provavelmente não. 

Mas é essa a beleza das coisas. Ver como, aos meus olhos, Santa Maria deixou de ser aquele destino da praia de infância onde, de tempos a tempos contava voltar, para passar a ser o único sítio a que consigo chamar casa.

Era isto que estava a pensar enquanto me ia rindo, no meio daqueles velhotes de 77 que, tal como eu, um dia acharam que o reumatismo chegava aos 30.

2026 Agosto 16

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